31 março 2021

O PÃO NOSSO

Em tempos pandémicos muita gente desatou a fazer pão em casa, percebe-se isso pelo crescimento das prateleiras de farinhas e fermentos nos supermercados. Embora o pão, por ser alimento cozinhado a altas temperaturas e manipulado com relativo cuidado, não seja um veículo de transmissão de Covid19 com que valha a pena ganhar brancas, aqui fica, para as queridas leitoras, uma receita de pão. É simples e prazeroso de fazer, posso adiantar, e a extensão destas linhas só tem a ver com o detalhe com que transmito a receita, pois, na prática, tudo se reduz a meia-dúzia de gestos e de silêncios encadeados.

O que vai precisar:

a) farinha (trigo ou centeio ou, melhor ainda, as duas em mistura). Há à venda sacos de 5 e 25 Kg, pois um pacote de kg vai-se num fósforo. 

Nota: Se fizer pão uma ou duas vezes por semana, um saco de 5 kg aguenta-se perfeitamente sem mais, desde que o mantenha bem fechado. Se optar por um saco de 25 kg, o melhor é distribuir o pó por vários sacos de plástico e congelar. Mesmo congelada, a farinha mantém-se sempre em pó e pronta a ser usada de imediato. 

b) fermento (fresco ou seco)

c) sal

d) água 

e) taça grande para misturar

f) recipiente que vá ao forno

g) papel vegetal

h) papel de prata

i) forno.

j) Use, por exemplo, uma chávena almoçadeira como medida. 

 

Como fazer (pão grande, de aproximadamente 500 gramas, ver fotos)

1. Meça a farinha para a taça grande: 3 chávenas de farinha de trigo; ou 2 chávenas de farinha de trigo + 1 de farinha de centeio.

2. Faça um buraquinho na farinha e deposite aí uma colher de chá de sal, rasa (seja sempre comedida a usar sal, pois aumenta tremendamente a tensão arterial). Noutro ponto, diferente, escave outro buraquinho e deposite aí o fermento (cada saqueta de fermento seco tem aproximadamente 11 gramas e metade de uma saquete é o suficiente para fazer 1 pão).

3. Misture bem tudo com uma colher de pau.

4. Encha a chávena almoçadeira com água e vá despejando aos poucos sobre a farinha. Vá revolvendo com a colher de pau. A pouco e pouco, o pó vai desaparecendo e obteve uma massa grosseira. Vá acrescentando água até que não reste pó de farinha no fundo da taça. Em princípio gastará 1 chávena e 1/2 de água para o conseguir.

5. Terá agora uma bola pegajosa de cor acinzentada no fundo da taça. Cubra com um pano e deixe repousar por 8 a 12 horas. Ao fim deste tempo verá que a massa cresceu e ocupa agora quase toda a taça.

6. Forre o recipiente que vai ao forno (eu uso um de barro) com papel vegetal, de modo a cobrir o fundo e as paredes. Salpique o fundo com farinha em pó, de modo a impedir que a massa adira ao papel no fim de cozedura e o pão fique queimado na base.

7. Espalhe farinha em pó sobre uma superfície lisa (uma bancada) e verta aí a taça com a massa que esteve a fermentar. Use uma espátula de madeira para raspar o que ficou aderente às paredes e ao fundo. Trabalhe um pouco esta massa com as mãos, rolando-a e amassando-a até que ganhe um certo formato de bola achatada. É esta a fase mais satisfatória do processo: o cheiro que se desprende é delicioso e o contacto da massa com as mãos é macio, elástico e funciona como uma massagem. Sentirá também uma sensação de realização e de que se está a aproximar de algo que, em breve, estará concluído a seu favor.

8. Deposite a bola obtida no recipiente de ir ao forno. Deixe repousar cerca de 40 minutos, para que se adapte ao novo local e ganhe o seu formato.

9. Ligue o forno, que deve ser sempre mantido forte ao longo de todo o processo.

10. Tape o recipiente com papel de prata, de modo a evitar que a massa seque demasiado durante a cozedura. Meta no forno.

11. A cozedura dura cerca de meia-hora, terá que ir controlando. Uns minutos antes de a dar como concluída retire o papel de prata para que a superfície do pão adquira uma crosta crocante. Com a experiência aprenderá a lidar melhor com os tempos desta fase: nas primeira vezes poderá usar um palito para apreciar o grau de cozedura (se vier massa agarrada, a coisa ainda não está pronta). Depois, o processo tornar-se-á quase instintivo e tenho uma amiga que consegue avaliar se a cozedura está no ponto pelo tipo de cheiro que lhe chega da cozinha. Pessoalmente, ainda não atingi esse estado de perfeição.

12. No final, retire o pão do recipiente e ponha-o a arrefecer sobre duas colheres de madeira, por exemplo, de modo a que o ar circule, não haja ressoamentos e o pão fique maravilhosamente pronto a ser comido, sem mesmo ter de usar a faca para derreter a manteiga.

 

Nota: Ao contrário do pão que se compra no supermercado, que fica uma borracha no dia seguinte, este pão aguenta-se firme e fresco vários dias, sem precisar sequer de o torrar.


© Fotografias de pedro serrano, 2021.

 

24 março 2021

O PARAÍSO FISCAL DA EDP


Talvez você seja um daqueles que, como eu, usa a conta bancária e a internet para pagar contas. Se assim é, talvez já se tenha apercebido do pormenor, da diferença de tratamento entre privados e Estado. Quando, pela internet, se vai a pagar uma qualquer conta (seja água, telefone ou outra) e por modesta que seja a quantia, o computador, antes de dar a transacção por concluída, pede que confirmemos os valores de várias formas, sendo uma delas o preencher de três números, interpretados num pequeno mapa de referências que o seu banco lhe forneceu, e outra a de inserir um código, que lhe é enviado através de um SMS para o telemóvel. Não poucas vezes, para nossa segurança, somos obrigados a uma combinação dos dois procedimentos.

Tente agora, pelo mesmo meio, fazer um pagamento ao Estado, seja o IRS, o IMI, ou o imposto sobre veículos. Mal se insere o valor a pagar e se clica no rato a transação fica concluída, sem códigos, senhas ou outras maçadas e quase se ouvem as mandíbulas do fisco a entrechocar-se, como quando se atira um pedaço de bife a um cão e este o apanha em pleno voo! Ou seja: connosco, o Estado não está cá com preâmbulos, hesitações éticas, valsas ou tangos, para passar o dinheiro para o lado deles!

Mas isto somente no caso de você ser um reles e banal contribuinte, claro, pois se for uma empresa ou uma entidade com pergaminhos, como a TAP ou a EDP, o critério já se adelgaça, flexibiliza, excepcionaliza, e poderá furtar-se com facilidade, por exemplo, a pagar um imposto de 110 milhões de euros. Foi o que, através de uma gentileza do Bloco de Esquerda, ficámos a saber que sucedeu recentemente com a EDP, que decidiu vender 6 barragens portuguesas aos franceses. Como dizia um amigo meu "eu nem sabia que se podiam vender barragens, quanto mais assim, como pipocas". Pois é, estamos ambos ultrapassados. Não só se pode, como se pode ainda escapar a pagar o imposto devido ao Estado pela venda. Como?!, quererá você saber, já a pensar se poderia fazer o mesmo... É simples: constitui uma empresa-fantasma dois dias antes, declara que está a proceder a uma restruturação da empresa (EDP), passa todos os activos para a nova empresa e isso iliba-o, em nome do progresso e do empreendedorismo, de pagar uma série de impostos, mesmo que essa empresa-fantasma só tenha um funcionário e feche portas mal o negócio for encerrado. Mas isso é uma vigarice, dirá, dirão os transmontanos que ficaram a arder nos tais 110 milhões de imposto que, a ser cobrados, seriam para bem da sua região. Que não, que é perfeitamente aceitável, vem dizer o Ministro do Ambiente, naquele seu tom pausado de batráquio barítono e a quem Rui Rio, acertadamente, apontou parecer ele um advogado de defesa da EDP. E a EDP, senhor ministro, olhe que não precisa de quem a defenda: poderá ainda aguentar mais alguns consultores, mas, advogados, tem do mais finório que anda por aí. Apesar do recente afastamento/arrefecimento do Mexia e do Manso Neto (tipo a quem, só de espreitar pelo olho-de-peixe, não abriria a porta de casa para que me fosse contar a luz), apesar disso, eles ainda lá mantêm malandros suficientes para lhe olear as curvas; esses dois deixaram escola na casa. 

Quem rapidamente cheirou o perigo de água no assunto das barragens, foi o nosso Costa, que logo chutou a bola para canto com o argumento de que o fisco teria de ter dado conta de uma manigância daquele calibre! Quase vi a Directora-Geral da Autoridade Tributária e Aduaneira, que jantaria tranquilamente em frente à TV, a engasgar-se com a sopa ao ouvir aquilo, assim, do nada, sem aviso e em horário nobre:  já não pode um alto-funcionário vestir o roupão, calçar as pantufas e ter um momento de paz! Ora, uma destas! Então não era suposto que pudesse ser assim? Não era admitido por todos, segundo os códices implícitos e nunca escritos, que a EDP se classificava como uma daquelas entidades que possui um Visto Gold anti-dores-de-cabeça?

Agora, após o toque do primeiro-ministro, vem-nos o Matos Fernandes confirmar que o assunto é assunto da autoridade tributária e não do Governo e, como sempre acontece, esta iniciou um rigoroso inquérito, enquanto vários juristas engravatados nos vêm dizer, via Skype, que talvez não tenha sido ilegal de todo o que se fez... Enfim, o costume quando uma grande vigarice é trazida à tona. Para já, a enguia continua a estrebuchar e a escorregar-lhe das mãos perante os olhos atentos da opinião pública, pois não lhe conseguiram deitar ainda a suficiente terra por cima. 

Compreensivelmente ofendido com tudo isto e com o modo como tem sido tratado, o suposto e alegado arguido Manso Neto fez saber publicamente que abandona a EDP, de vez, e vai mudar de patrão. Um pequeno passo para ele e uma grande notícia para a EDP ou, como preferiria dizer Marta Temido, um assunto de "grande complexidade".

 

 

 

14 março 2021

DE BOCA ABERTA!


Diga-me, já foi alguma vez ao dentista? É claro que sim e, assim sendo, deverá ter reparado que, sempre na proximidade do médico-dentista, existe, também debruçada sobre si, uma rapariga ou uma senhora, que se vai encarregando de múltiplas, pequenas e indispensáveis tarefas. É ela que enfia na sua bocarra escancarada um tubinho que injecta ar e mantém o interior da sua boca razoavelmente seco para que, face à formação permanente e natural de saliva, o dentista não tenha de trabalhar debaixo de água. É também ela que aspira o sangue que brotou, as esquírolas e poeiras que a broca provoca; é ela, ainda, quem mpunha aquele aparelho que produz uma luz azul que endurece mais rapidamente a massa com que o médico tapou aquela cratera no seu terceiro molar do lado direito. E, permanentemente, é ela que vai chegando ao médico os ferros que ele necessita a seguir, a seringa da anestesia, é ela que mistura os diversos compósitos que serão aplicados dentro da sua boca.

Durante todo este processo, sublinho, você está de boca escancarada, ao léu, sem nenhuma possibilidade de usar máscara nesse momento. Mas eles, o dentista e as assistentes de medicina dentária, têm de trabalhar ali, a dez, quinze ou vinte centímetros da sua cara, e isso implica que estejam expostos à sua respiração, aos líquidos da sua boca, os que escorrem ou os que espirram sobre eles durante a consulta, a maior parte das quais se prolongam além dos vinte minutos que as autoridades de saúde consideram suficientes para que um vírus, como o do Covid19, se transmita entre duas pessoas. Função de alto risco, portanto: pela falta de protecção total de um dos envolvidos (você), pela distância, pelo tempo de exposição, pelo local do corpo onde eles têm de trabalhar. O risco desta gente é enorme, similar ao de um médico otorrinolaringologista, pois trabalham sobre a zona mais perigosa de um corpo humano em termos de transmissão de doenças respiratórias.

E agora diga-me uma outra coisa? Se lho pedissem, em que categoria de profissionais classificaria estes auxiliares de medicina dentária de que tenho vindo a falar? Acha que são profissionais de restauração ou hotelaria? Dos correios? Acha que são profissionais de metalurgia? Talvez agentes de segurança? Não, penso que é claríssimo para todos que são profissionais que prestam cuidados de saúde, certo? Pois, mas olhe que não, o Estado português não os considera como tal, estão impedidos de ser classificados ou olhados legalmente como tal e isso, conclusão imediata e grave, impossibilita-os de serem considerados como candidatos prioritários a vacinação antiCovid19! Fiquei de boca aberta quando o soube! Brada aos céus e, comparado com outras facilidades a que temos assistido, é de tal modo escandaloso que existe uma petição nacional a correr sobre o assunto; se estiver interessado ou chocado com o que lhe contei o endereço é este (carregue com o rato): Assistentes Dentários excluídas da Primeira fase da vacinação

 


 

10 março 2021

AGORA EU ASSUMIA RESPONSABILIDADES

                            Fonte: Constantino Caetano/Departamento de Epidemiologia do Instituto
                                          Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, 2021.

                              
De modo engenhosamente animado, a imagem condensa o comportamento da epidemia de Covid19 em Portugal desde Setembro de 2020 até aos primeiros dias de Março de 2021. O pontinho negro que dança no ecrã tem a propulsioná-lo dois indicadores importantes no tomar do pulso a uma epidemia: o número de novos casos de doença (incidência) e a velocidade com que o contágio progride (o tal R). Neste contexto, as coisas não estão assim tão mal quando o pontinho anda pela metade inferior da imagem, sobretudo se anda pelos baixios do lado esquerdo. Se se aproxima do lado superior da metade direita da imagem, isso quer dizer que as coisas vão muito mal.

Agora repare no que sucedeu por altura do Natal: quando os nossos governantes decidiram dar ao povo a benesse de abertura para as Festas, o pontinho negro já acusava uma tendência de crescimento da epidemia, ou seja: estavam envenenadas as frutas-secas do bolo-rei que nos estendiam e foi de grande irresponsabilidade essa bondade. Mais: ninguém, lá no alto, onde planam as águias, podia dizer que não estava tecnicamente avisado, e a história da variante inglesa foi (e é) desculpa para inglês ver. Essa abertura natalícia inundou o país de visitantes vindos do Reino Unido, fossem turistas ou compatriotas saudosos, e a variante chegou-nos por causa da abertura, não foi algo que a precedeu! O nervosismo crescente e rápido, quase angustiado, do pontinho negro ilustra bem a desgraça daí decorrente, e a que todos assistimos, ao longo de Janeiro e Fevereiro de 2021.

 

     Fonte: World Meter, 10 Março 2021.

Já o Quadro aqui por cima expõe algo tão estático como são as cruzes dos cemitérios. A imagem mostra os dez países do mundo onde, desde o começo da pandemia, se tem morrido mais por Covid19. Portugal está num honroso 10.º lugar a nível mundial, bem à frente de outras áreas de má-fama, por este motivo, como os Estados Unidos, o Brasil ou a Espanha, outrora considerada, juntamente com a Itália (agora de braço dado connosco), a nódoa negra europeia. Mas a justeza deste 10.º lugar pode ainda ser refinada, e para pior: repare-se que quer Gibraltar (1.º lugar) quer S. Marino (2.º lugar) têm pouco mais do que 33 mil habitantes, isto é, a população de um concelho médio português. Algo de semelhante acontece com o Montenegro (7.º lugar), que tem uma população similar à da cidade do Porto, e a Eslovénia (5.º lugar), com os seus 2 milhões de habitantes terá, grosso modo, a população da Zona Centro do país. Repesco todos estes exemplos para sublinhar que são populações de pequena dimensão, o que torna a robustez do cálculo da taxa de morte por milhão de habitante pouco sólida e ilustrativa. Se puséssemos de lado esta insegurança e usássemos nas comparações apenas países com uma dimensão populacional igual ou superior à nossa, Portugal saltaria para o 6.º lugar no ranking mundial do maior número de fatalidades por Covid19. 

Ora isto que, apesar da cosmética e do "aguenta-me esse papel na gaveta", se pode ver cá de dentro, vê-se seguramente (e até com maior nitidez) de fora do país, o que explica o cuidado com que os viajantes provenientes de Portugal são recebidos por países como a Inglaterra e a Alemanha, o que sempre arrasta o ministro dos Estrangeiros a veementes protestos e afirmações de desproporcionalidade. O homem tem razão, coitado: então nós deixamos entrar toda a gente, com variante ou sem ela, e eles em retorno... 

O panorama dos últimos dois meses, que só agora começa a atenuar-se, de tão mau e impossível de negar, levou a uma nova moda na política, que consiste em os responsáveis assumirem responsabilidades. Todos, do Primeiro-ministro à ministra da Saúde, se apressam a assumir a responsabilidade. Se isso se traduz em saltar de um quinto-andar, em oferecer uma coroa de flores à família de cada um dos milhares de mortos que o poderiam não estar, ou, simplesmente, em apresentar a demissão, é coisa que nunca nos dizem. 

Neste contexto observacional, muito ilustrativo foi ver Marta Temido apressar-se a assumir os tais erros e responsabilidades, mas logo de seguida - quando a entrevistadora, tentando concretizar um deles, lhe apontou o caos na saúde - a tornar-se muito ofendida, negando esse caos e substituindo-o por um "vivemos uma situação muito complexa". Querida senhora, o caos é, quase sempre, de uma complexidade enorme, tão desmedida que nem tempo há para pensar em contextos teóricos ou, até, para arregaçar as mangas convenientemente, o que, apesar de tudo, foi o que fizeram sem descanso aqueles que se apressaram a reconverter e reorganizar serviços e correr ao exterior das instituições a levar oxigénio aos doentes das ambulâncias que se acumulavam, à espera de vez, nos jardins dos hospitais, todos eles rezando para que não lhes faltasse o ar engarrafado, como viria a acontecer no Hospital Fernando da Fonseca.  

04 março 2021

VOU-TE CONTAR: 75. Deus abençoe os ausentes

Queirã?! Sim, Queirã, nunca ouviu falar? É natural, eu próprio nunca teria ouvido falar se não se tivesse dado o acaso de o meu pai ter por lá nascido.

Queirã é uma aldeia do concelho de Vouzela, distrito de Viseu, e dizer Vouzela é dizer já o bastante. Estive em Vouzela recentemente e comprovei a vila parada, pasmada. Imagine-se agora uma aldeia recôndita, satélite de Vouzela, sem outro horizonte do que o ficar deslumbrada com essa vila que é o centro do seu sistema solar. Potencie agora tudo isso colocando-se em 1947, quando se passou a história que lhe quero contar.

Junho de 1947, a 2.ª Guerra Mundial terminou há menos de dois anos e a Europa, o Mundo, está em ruínas, em crise profunda: fome, miséria por todo o lado, cidades e vilas são amontoados de destroços, e isto acontece desde a Espanha ao Japão, não esquecendo a Alemanha, que ficou em farrapos. Mas, mesmo num panorama destes, a vida continua para os vivos, é preciso tentar ser feliz, seguir a nossa vida. Posicionemo-nos, então, como se tudo estivesse a começar de novo e o mundo fosse uma tenra esperança.

O cenário mudou para a cidade do Porto, uma rua residencial, tranquila, de moradias abastadas. Um jardim muito cuidado - a exigir jardineiro residente -, cheio de canteiros e esquadrias, trepadeiras, verdes e flores e, pelas roupas leves de quem se passeia, pode inferir-se que estará um dia encantador, talvez de fim de Primavera, e que será já da parte de tarde, pois os corpos projectam sombras nas paredes e nos muros.

Várias pessoas movem-se pelo jardim, vão parando e tirando fotografias, é para elas que olho a tentar entender o que se me apresenta, pois sei que a minha existência, ao menos os seus fundamentos, começou algures ali. O que será aquilo? O que estará aquela gente a fazer e porque é que uma das mulheres parece estar tão tensa, as mãos persistentemente atadas uma na outra? Apesar de não aparentar ter ainda idade para isso (deverá rondar os quarenta), está vestida como uma viúva, e embora sorria e o sorriso seja bondoso, é um sorriso algo crispado, fabricado, de quem preferiria, talvez, estar noutro local. Mas não é viúva, aquela senhora discreta, a quem o saia-casaco só não assenta discretamente por contraste com os outros, pois o tempo é estival e os companheiros estão trajados levemente. Aliás, embora não apareça nas fotografias, o seu marido também anda por aqueles jardins, na companhia de um padre, ainda novo, alto e forte, de feição irónica e despachada. Esse padre é irmão da senhora embaraçada e, ambos, são irmãos de um outro homem, muito moreno, de fato escuro, em quem sobrenada a atitude de ser o elo entre aqueles dois mundos e parecendo preparar-se para continuar a frequentar aqueles jardins.

O que explica tudo aquilo? O que andarão aquelas almas, os que foram fotografados e os outros, fora do enquadramento, a divagar por ali, naquela tarde de Junho.

A cena retrata o pedido de casamento da minha mãe, que acabou de fazer 21 anos há escassos dias e é a rapariga de cabelo ondulado e ar um pouco aéreo, envergando um casaco ligeiro e claro, às riscas, praticamente igual ao da sorridente irmã mais nova, essa, sim, nas suas sete-quintas e aparentemente divertida com o acontecimento: um pedido de casamento deve ser coisa positiva e divertida, certo? O homem de fato escuro tem 31 anos feitos e é o meu pai, e uma outra dama, que também sorri contidamente à ponta de um banco, é a minha avó, mãe da noiva, a qual se deixa ver em apenas uma das fotografias, após o que desaparece, o que terá sido fácil pois está nos jardins bem tratados da sua casa, o que não sucede com metade da comitiva, vinda de Viseu, a mais de cem quilómetros e três horas de viagem. 

Pelas sobras da tarde, o jardim fica por conta dos visitantes, e o meu avô, o pai da noiva, não deu sequer abertura para descer e posar para a posteridade, como se esperaria de uma solenidade daquelas. Onde estará? Supõe-se que tenha estado nalgum momento anterior, uma vez que a mão de uma filha requer-se na presença de ambos os pais e a ele lhe competiria a palavra final. Mas esse momento já terá sido e o restante entretenimento fica por conta do mulherio, o mulherio que entretenha os visitantes, ele terá mais do que fazer e, bem vistas as coisas, tudo aquilo não lhe agrada sequer muito, não seria o que esperava como futuro para uma filha mais velha. Mas, enfim, os jovens são teimosos e a filha, embora obediente à superfície, tem uma ponta de personalidade; fôra dificultoso impedi-la de querer continuar os estudos e ir para a Universidade, convencê-la do que se esperava dela: que cumprisse o destino e ficasse em casa, entretida a ser uma senhora como as outras!  

O meu avô era, à data destes acontecimentos, um homem poderoso, gerente de um banco, como ocupação principal, e uma figura conhecida na cidade, capital do Norte, pelas costelas artísticas, as herdadas e as desenvolvidas: o homem escrevia, editava revistas, livros e almanaques; era sócio de uma livraria, de uma editora e de uma tipografia; escrevia e produzia peças de teatro e uma delas, A Costureirinha da Sé, estreada há um par de anos, fora um sucesso, não só regional mas também nacional, acabaria por dar um filme, as canções do enredo eram trauteadas pelo povo da cidade. Era esse o mundo em que se movia e agora a sua casa apalaçada, onde onze arcos de pedra embelezavam a arquitectura das fachadas, a sua vida via chegar, precipitadamente, um potencial genro de Queirã (uma aldeola atrás do sol-posto), dez anos mais velho do que a filha, mas licenciado em Medicina há pouco mais do que meses, pois desperdiçara grande parte da juventude num seminário!; um tipo sem nome, sem carreira, sem cheta.

Se deslocarmos a lupa para a perspectiva do meu pai, duplamente órfão há muitos anos, topamos rapidamente na razão que explicava ser a irmã mais velha a fazer as vezes de patrono no pedido de casamento. A Maria do Céu, oito anos mais velha, não restara outra saída senão a de fazer de mãe dos irmãos (dez, contando com ela); tivera de crescer depressa e o meu pai reconhecia-lhe o estatuto com naturalidade: era junto dela que se aconselhava, a quem pedia dinheiro emprestado se estava atrapalhado, era em casa dela, em Viseu, onde residia quando não estava na Universidade, era por lá que tinha quarto e uma cómoda onde guardava os esquálidos pertences. Nada mais natural e apropriado, então, do que pedir à irmã para assumir aquele papel, e o meu tio Vasco (o padre) garantiria um complemento lógico com o seu estatuto, a sua voz forte e o modo de ser assertivo.

Mas como raio, divago eu imiscuindo-me nos eventuais pensamentos do meu avô Heitor Campos Monteiro, fôra aquilo chegar a acontecer? Onde é que um tipo daqueles, escuro como um mouro e peludo como um macaco, teria conhecido a filha e como se pudera aproximar dela? O meu avô, de pele clara e louro nos tempos em que tinha cabelo, conhecia bem o círculo de amigos da minha mãe - a maior parte deles frequentava-lhe a casa -, teria uma ideia razoável dos pretendentes que, necessariamente, surgiriam na costa, dado que a minha mãe era viva, bonita e carismática, dotada de uma apreciável capacidade de manipular o ambiente e concentrar atenções. Com todas esses prendas, distinguia-se no Porto, em Espinho, pelas termas de Melgaço, em Santa Cruz da Trapa, em Oliveira de Frades e até, de passagem, em Vouzela, onde havia uns primos distantes e, imagine-se, se organizavam bailaricos! E surge o acaso a fazer das suas, a divertir-se com o improvável, e o meu pai terá visto a minha mãe, pela primeira vez, dentro das fronteiras do território natal, teria ela catorze anos e ele vinte e quatro. O mundo teria ainda de cumprir várias rotações em torno do eixo, passar por uma guerra generalizada, até que uma aproximação se desse, desta feita em Espinho, onde a família da minha mãe veraneava e, por lhes estar mais à mão quando se traçava a linha recta, as gentes da Beira-Alta procuravam o litoral. 

Nas décadas seguintes o futuro escreveria a história de ambos e, afinal, o meu pai não desiludiu. Mas quem consegue prever o futuro a partir do horizonte estreito de uma bela tarde de Junho?

 


 

 

Nota: O título deste texto está em dívida para com a canção "God Bless the Absentee", de Paul Simon, álbum One-Trick Poney, 1980.