05 setembro 2021

AS SANDÁLIAS DE FREI HEITOR

Alguém deveria explicar a Manuel Heitor (ministro da Ciência et al) que, em Portugal, a responsabilidade pela formação de especialistas médicos compete, há mais de 40 anos, ao Ministério da Saúde. Tomando isso em consideração, deveria ser Marta Temido, a puxar as orelhas - que as tem bem abanicadas - ao seu verborreico colega.

Alguém deveria também explicar ao homem que o tempo de formação exigido a uma especialidade médica está, a nível europeu e há mais tempo do que ele leva na Ciência, definido pela Comunidade Europeia, tendo em vista, entre outros aspectos, a harmonização internacional das especialidades e o facilitar da livre circulação de médicos no espaço europeu. Neste âmbito, alguém o deveria informar que fica mal a um engenheiro mecânico regurgitar publicamente ruminações apressadas sobre o tempo que deve gastar um especialista médico a ser habilitado para a sua função, e ainda mais afirmar que é necessário menos tempo para formar um especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF) do que um especialista em Oncologia. Até porque isso já foi pensado e dito por quem sabe e é praticado há mais de uma dezena de anos em Portugal, onde são necessários 5 anos para formar um oncologista e 4 para formar um especialista em medicina geral e familiar. Menos do que isso, para este último especialista e como parece sonhar Manuel Heitor, seria violar os tempos de formação europeus e português, pois não é permitida actualmente nenhuma especialidade médica com uma formação inferior a quatro anos de duração.

Sonhar com outros modelos formativos para a especialidade de MGF é um devaneio que recorda o médico-pé-descalço dos tempos da Revolução Chinesa ou a prática de países que, como o Burkina Fasso ou a Tanzânia, não têm outro remédio senão usá-la, pois, por lá, quase não há médicos. Desde 1985 que Portugal abandonou já esse estádio de subdesenvolvimento médico e a formação na especialidade de MGF evoluiu, ao longo desse tempo, de 3 para 4 anos de formação específica, num processo que foi longamente amadurecido, experimentado, avaliado e sempre em sintonia com o que era praticado em países que são considerados desenvolvidos do ponto de vista dos cuidados médicos que prestam às respectivas populações. De modo que mais valia ao engenheiro estar calado e concentrar-se um pouco mais no que se passa no seu reino ministerial, onde, dizem, nada sucede que se recomende. O mais que até agora conseguiu foi que os Ingleses se dessem ao trabalho de vir a terreiro desmentir o que disse o ministro quando referiu a formação médica britânica! 

Finalmente, alguém devia informar Heitor que Portugal (usando os critérios de qualquer latitude do planeta) já possui o número de médicos que necessita, bem como o ritmo adequado para os formar, e que também não é a ele, nem às suas secretarias, que compete tratar das assimetrias de distribuição desses profissionais pelo território nacional. Deste modo, estar a advogar, assim, a seco, a criação de mais 3 faculdades de Medicina, é uma irresponsabilidade (ou oportunismo regionalista ganancioso) cuja única consequência futura, já após Manuel Heitor deixar de orbitar no planetário do poder, será obrigar os futuros médicos a usar sandálias e fragilizar a qualidade da medicina prestada aos portugueses, pois, a partir de um certo patamar, não é nunca pela mercearia da quantidade que se chega à qualidade.

 

 

01 setembro 2021

ENTRA MOSCA OU SAI ASNEIRA

Eduardo Cabrita (também conhecido pelo Terror-das-Autoestradas) esteve por aí numa reunião internacional sobre o Afeganistão e os refugiados que aquilo vai gerar. Era vê-lo entre os seus comparsas europeus, olhando muito em volta, com aquele tique algo paranoico, que também usa a nível caseiro, de que, a qualquer momento, pode surgir alguém ou alguma coisa que o pode vir prejudicar...

Finalmente falou aos jornalistas do alto da sua sabedoria e da sua medalha de bronze em direitos humanos (perdeu a de ouro por um triz, derivado àquela chatice do ucraniano no aeroporto e a de prata graças ao raio do cantoneiro). Falou e começou por atrapalhar um pouco a língua no arrevesado nome do país em causa, pronunciando o, o..., o Afe-ga-fanistão, mas após o plissando lá nos informou que Portugal acolherá refugiados, muitos, centenas deles; que há critérios bem gizados e ponderados para o fazer e que daremos prioridade a... "a mulheres..., activistas dos direitos humanos, e.... mulheres-juízas." Isto é, mais ou menos toda a gente, supõe-se, pois até um taliban que só dê tiros para o ar pode ser considerado um activista dos direitos humanos ao desperdiçar uma bala, sobretudo se for mulher. Mas o que mais me contentou e deliciou foi aquilo das "mulheres-juízas", pelos vistos uma categoria profissional e de género que abunda lá no Afega-fa-nistão. Porra, que até as senhoras americanas do Me Two se devem estar a lamber de inveja com tanta mulher bem colocada! Venham elas, muitas, que a Boa-Hora, a Relação, o DCIAP e Caxias têm lugar para quantas magistradas lhe couberem, que o Ivo Rosa já não dá conta de tanto caso prescrito e mal-fundamentado.

Entretanto, a GNR (que depende deste Cabrita defensor dos direitos humanos), foi enviada a casa do cantoneiro atropelado pelo automóvel do Ministro, a indagar, junto da viúva, se o homem bebia uns copos a mais e se era cauteloso no seu dia a dia. Esta intrusão, este abuso, esta má-fé, parecem não contrariar as convicções humanitárias de Cabrita. 

Já se vai dando como garantido que, por cá, reina a impunidade dos poderosos e que, para eles, toda a culpa morre solteira, mas assistir, repetidamente, a isso dentro do próprio Governo, ainda impressiona alguns. 

Mas, como um grande batráquio à vontade no seu nenúfar privado, Cabrita continua a coaxar no charco, satisfeito, pois de cada vez que abre a boca entra uma mosca apetitosa e crocante.

24 agosto 2021

CONTRAFACÇÃO

  


                         Como mencionaste as nuvens
                         De uma tarde que anoitece

                         Enviei-te o retrato exacto

                         De uma noite que amanhece

 

                         Não deste pela diferença

                         Já que nuvens por lá estão

                         Quanto ao resto, pouco importa

                         Se não passou de ilusão

 

                         Falavas da fímbria rosada

                         De um sol que, indo, se demora

                         Ora uma tal tonalidade

                         Tinge também o nascer da aurora

 

                         Não deste pela diferença

                         Nem viste a contrafacção

                         Não é pela senda da verdade

                         Que palmilha o coração


© foto: pedro serrano, bico do muranzel, julho 2021.

22 agosto 2021

DE MORTUIS NIL NISI BONUM (Não faleis senão bem dos mortos)

Encontrei-o um dia numa das esquinas a nascente da rotunda da Boavista, na cidade do Porto. Visto de hoje, o paradeiro era até bastante lógico, pois ele morava a um quarteirão dali, na rua da Quinta Amarela. Mas estávamos num fim de manhã em 1969, eu tinha quinze ou dezasseis anos, não perdia tempo com detalhes desses.

Tudo quanto vi foi o meu colega de liceu Miguel Lamares, armado de um sorriso superior na cara barbada, nos olhos míopes ampliados por lentes grossas. Se comparado comigo, um tipo finguelas, ele é enorme, avantajado, há algo que lembra um urso e lhe dá um toque assustador, embora seja um bonacheirão. O Miguel está ali parado, como um poste do correio, daqueles redondos e grossos, tal se estivesse à espera de alguém que o arrancasse à imobilidade e aconteceu que esse alguém fosse eu. 

"Se soubesses o que tenho aqui..."

"O que é, Miguel?", digo, percebendo que se refere a um quadrilátero esbranquiçado que transporta encaixado no sovaco.

Ele não diz nada, olha em frente, para o passeio do lado de lá da rua, mas remexe o sovaco, revela um pouco mais e, pelo formato percebo que é um disco, um LP.

"O que é, Miguel, deixa ver..."

"Aposto que nunca ouviste nada como isto", continua ele, misterioso como um menir.

"Não sei, sei lá; se não me mostras..."

"Já ouviste uma música chamada 'Soul Sacrifice'...?”

Confessei que não.

"E uma chamada 'Evil Ways'?”

"Também não..."

"Estás ultrapassado, merdoso", concluiu com o à vontade e a sobranceria de ser uns meses mais velho do que eu. "Isto é o que vai dar... Isto é um som totalmente novo..."

Depois, como se fizesse um strip lento, permitiu que eu olhasse a capa do álbum, na qual um focinho arreganhado de leão se contornava a carvão numa caricatura em que surgiam cabeças rapadas, humanas, camufladas nas minudências do desenho. Não era preciso ser muito esperto para concluir que não iria emprestar o disco a um tipo que, afinal de contas, conhecia tão mal, mas não desisti de tentar ouvir aquilo: que raio de banda se iria chamar Santana? Até parecia uma coisa portuguesa, minhota, de rancho folclórico! Santana!?

"Se eu te levar uma cassete, gravas-me isso?"

"É uma hipótese...", respondeu.  

É óbvio que acabou por gravar, que o Miguel, apesar do gigantismo intimidante e dos modos ásperos, era um coração de leão, largo e bondoso.

O tempo tiquetaqueou, frequentamos agora Universidades diferentes (ele em Matemáticas, eu em Medicina) mas continuamos a cruzar-nos no mesmo café, onde arrastamos o nosso tédio pelas mesas. E de um desses enormes bocejos, nasceu a ideia de irmos dar uma volta longa, quem se daria conta de que perdíamos umas aulas enfadonhas, ainda por cima a Páscoa iria, em breve, riscar a Primavera de pétalas e céus de anil.

Arrancámos no meu Fiat 128 sem outro destino fixo do que virar a tromba azul do carro para sul. A combinação dos quatro ocupantes do automóvel era bastante improvável, alguns de nós mal conhecia alguns dos outros: ia eu, ao volante, o Miguel a meu lado, para que lhe coubessem as pernas e, no banco de trás, seguia o Paulo (uma gralha matraqueante e excêntrica, que não se calava um minuto) e, cosendo-se com o assento, o Vítor, aluno de engenharia, um tipo pequenino e cabeçudo, tímido como um colibri, que não abria a boca senão para gargalhar um murmúrio a cada disparate que o Paulo soltava, a cada réplica, cortante ou sarcástica, que um dos ocupantes da frente dava. Assim deambulámos por quase uma semana e, no Algarve, o ar já estava tépido e fragrante do odor das laranjeiras... Ficámos dois dias por Faro, instalados na Pensão Nautilus, de onde escrevi um postal endereçado a mim próprio, por gosto em captar o momento e para chocar os meus pais.

Nunca, nunca mais vi o Miguel e, apesar de ir perguntando a seres coetâneos com quem me ia cruzando, nada mais soube sobre ele. A imagem que me ficou da sua pessoa, cristalizada na memória, foi a daquele tipo de cabelo escuro, comprido e algo indomável nas pontas encrespadas; o bigode farfalhudo; uns olhos bondosos camuflados atrás do fundo da garrafa das lentes. Já neste século, usando o Facebook, inseri o seu nome e observei as opções que me foram devolvidas pelo motor de busca... Havia um Miguel Lamares, residente em Portimão, professor de liceu, que talvez pudesse ser ele. Mas não podia ter a certeza, a confidencialidade dos dados não me permitia ver fotos, ter acesso a mais elementos. Resolvi mandar uma mensagem, particular, que o Facebook deixava fazê-lo. Nunca obtive resposta.


Presente, Agosto de 2021: chega-me a notícia da morte dele, aos 69 anos, lá pelo Sul onde estivemos juntos uma vez; residia em Portimão, onde era professor no liceu local há trinta anos. A notícia do jornal electrónico é encimada por duas fotos: à esquerda, a preto e branco, o Miguel que eu conheci nesses dias dos nossos vinte anos, e, à direita, um Miguel, a cores, que não reconheceria se por ele passasse numa esquina a nascente da Rotunda da Boavista. Este último Miguel é um bocado careca, não usa óculos e os seus olhos, enfim revelados, são atentos, sorridentes e hospitaleiros. Nada que não estivesse à espera.

 

 

06 agosto 2021

DAVID MOURÃO FERREIRA E O LUGAR VAZIO

Pela segunda metade dos anos 80, e na primeira metade da década de 90, frequentei com alguma assiduidade um restaurante lisboeta que se identificava no néon como Dragão D'Ouro.

Como o nome sugere, o Dragão D'Ouro é restaurante chinês e ficava, algo recuado ao alinhamento dos prédios da artéria, numa transversal da Avenida de Roma, vizinho do Hotel Lutécia e do cinema King Triplex.

Ao contrário dos restaurantes chineses que, na capital, se concentravam na proximidade da Avenida Duque de Loulé, o Dragão D'Ouro era um restaurante chinês requintado, fosse pelas instalações, amplas e onde abundava o tom quente dos apainelados de madeira, fosse pelo menu, excelente em todas as sopas, crepes ou pratos que decidíssemos encomendar. Apesar destas qualidades, o restaurante encontrava-se frequentemente despovoado, o que lhe conferia uma sonolência e uma discrição que me atraíam. Essas características (ou talvez outras que ignoro) pareciam levar também até ali o poeta e escritor David Mourão Ferreira, que, sobretudo em finais de tarde de Domingo, descobria no Dragão D'Ouro, sentado à toalha alva de uma mesa. Outras vezes, já eu desdobrava o guardanapo de pano sobre os joelhos, via-o chegar sozinho com o seu cachimbo de amparo, mas a maior parte das noites se lhe reuniam familiares, na pessoa de uma nora (a bela silhueta de Margarida Mercês de Mello, locutora de TV), de um filho atarefado e atrasado, talvez um neto.

A sua mesa, era, como a minha (escolhida próxima das janelas que deitavam como um mezanino para a avenida), uma mesa de gestos discretos, quase silenciosa e posta no arco da sala que ficava mais próximo da zona de serviço e das escadas para o rés-do-chão. 

Depois, o restaurante foi-se degradando um pouco, esvaziando-se ainda mais, começaram a surgir as ameaças da novidade da comida japonesa, e deixei de o frequentar de todo. Por outras razões (morreu em Junho de 1996) David Mourão Ferreira deixou também de o frequentar, de todo. 

Lembro-me da presença dele, às vezes, se passo pela Avenida Frei Contreiras e levanto a cabeça para olhar aquele prédio recuado, aquele primeiro andar onde continua a teimar um qualquer restaurante chinês. Mas já não é como foi, falta-lhe o cachimbo, eu falto-me a mim próprio, mais tudo o resto que se esfumou no tempo.



Dito isto, deixo-vos com um dos muitos poemas que David Mourão Ferreira escreveu sobre o Natal - pelo menos trinta -, intitulado Ladainha dos Póstumos Natais, um poema de 1987, ou seja, razoavelmente dos mesmos dias em que o encontrava sentado a uma mesa do Dragão D'Ouro.

 




 Há-de vir um Natal e será o primeiro

 em que se veja à mesa o meu lugar vazio

 

 Há-de vir um Natal e será o primeiro

 em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

 

 Há-de vir um Natal e será o primeiro

 em que só uma voz me evoque a sós consigo

 

 Há-de vir um Natal e será o primeiro

 em que não viva já ninguém meu conhecido

 

 Há-de vir um Natal e será o primeiro

 em que nem vivo esteja um verso deste livro

 

 Há-de vir um Natal e será o primeiro

 em que terei de novo o Nada a sós comigo

 

 Há-de vir um Natal e será o primeiro

 em que nem o Natal terá qualquer sentido

 

 Há-de vir um Natal e será o primeiro

 em que o Nada retome a cor do Infinito

 

28 julho 2021

UMA OUTRA PRAIA

 


        Custou-te assim tanto?

          quis ele saber, sentados à mesa de um café.

          Invoquei o somatório de anos, uma vez que

          é sempre mais singelo o raciocínio do merceeiro

          E fiquei-me a olhar lá fora, onde

          na meia-distância, um bando de crianças

          se entretinha ordeiramente na areia

          Crianças de orfanato, crianças amestradas

          ou porventura tornadas solenes pelo areal e a vista de água.

          Mas a resposta dada não era moeda precisa do que me sucedera e

          o assunto restou suspenso em mim como uma bruma balnear.

          Talvez o maior custo, talvez,

          fosse o ter de me mover até um destino ainda informe

          os anos de errância...

          Um dia, mas como distingui-lo na distância?, fui capaz de olhar para trás,

          e distinguir o longe de onde viera, as ameias ruídas, o caminho

          que fora pisado em passos incertos e olhos no horizonte, reverentes

          como os das crianças que agora seguem em fila a caminho do mar


© Fotografia: pedro serrano, junho 2021.

26 julho 2021

NEM UMA PRÁ CAIXA!

Acabei de ler um artigo do Dr. Valter Fonseca, Coordenador da Comissão Técnica de Vacinação contra a Covid19, um organismo da DGS. E, apesar do esforço em progredir pela vacuidade do À Ciência o Que É da Ciência (Público de hoje), li-o de ponta a ponta, pois que no espaço que lhe foi concedido (página inteira), bem que o homem podia ter explicado um aspecto de várias e importantes implicações: por quais razões a Comissão que ele dirige decidiu não incluir os jovens (12-17 anos) e crianças naqueles que devem ser vacinados contra o Covid. Embora nestes grupos a doença seja habitualmente leve, eles constituem, como sucede para outras doenças infecciosas, um muito importante elo (e elo invisível, pois que maioritariamente assintomático) na disseminação da infecção pela comunidade a que pertencem. 

Mas, como se costuma dizer, o nosso Dr. Coordenador não dá uma para essa caixa, preferindo espraiar-se pelas vertentes teóricas das vacinas, dos antigénios, dos antibióticos, dos TAC, dos anticorpos, do raciocínio médico, da verdade e da supremacia da Ciência, o todo debitado no tom do sacerdote condescendente que tenta fazer chegar a suave Luz do Saber ao rebanho... Sobre a vacinação de crianças e jovens é que nada, nem aflorado é o assunto mais importante do dia, na véspera de uma reunião no INFARMED em que isso terá de ser equacionado! Às escuras, continuamos pois a perguntar-nos: a) Será que as vacinas existentes são menos eficazes em jovens e crianças? Não, sabe-se que são igualmente eficazes, há quem já tenha estudado isso; b) Será que essas vacinas são menos seguras e têm mais efeitos indesejáveis nestes grupos etários? Não, demonstrou-se que esses efeitos são raros e maioritariamente leves, tal como nas outras idades; c) Será que é exigir muito do sistema imunitário dos jovens e crianças acrescentar uma nova vacina às que estes grupos já tomaram? Não, aliás, a conselho dos seus pediatras particulares, as crianças passam a vida a ser inoculadas com vacinas que protegem de males cuja gravidade é nula ou quase nula num país como Portugal e que bem deveriam ser deixadas para outros países mais aflitos com elas (como África, por exemplo).

Então, o que nos fica, como relevante razão para que o Dr. Valter desaconselhe a vacinação dos jovens? Ao que parece, fica-lhe somente uma ética sentimental e uns bons princípios alambicados a sobrar nas mangas, isto é: não nos fica nada de consistente segundo a ciência que o senhor tanto gosta de invocar como coutada. Nada de nada.

No entanto, esta posição da Comissão Técnica de Vacinação pode deitar a perder a tal imunidade de grupo por quem todos suspiram, desde o primeiro-ministro, a quem nunca antes tinha ouvido falar dela. Sucede que, para que possa acontecer, a imunidade de grupo (que, como um guarda-sol, protege toda a população, mesmo uma pequena franja de não-vacinados) necessita que uma proporção muito alta da população esteja vacinada. Nas doenças para as quais existe vacinação (sarampo ou poliomielite, entre outras) esse valor atinge os 95 % ou mais de população vacinada*. O que quer dizer que os valores que temos ouvido citar ao longo da pandemia como meta para a alcançar (50 ou 60 %; houve até uma matemática desvairada que augurou que a atingiríamos com 22 % de vacinados) não foram mais do que meias-ignorâncias esperançosas e piedosas. Como o tempo mostrará, e não deslizando para o terreno do milagre, teremos de atingir coberturas vacinais de 95 %, ou talvez mais, para que os que estão vacinados possam inibir o vírus de circular livremente e, nessa circunstância, mesmo os 3 a 5 % de não vacinados beneficiarão de protecção, dado que o vírus não lhes conseguirá chegar com facilidade. 

Ora é aqui que entram o Dr. Valter e a sua rapaziada tão compenetrada nos engomados da ética: ao deixar de fora da estratégia de vacinação uma fatia da população que ronda os 15 %, podem estar a comprometer objectivamente a possibilidade de se atingir a tal imunidade de grupo dos portugueses. Nada mal, vindo de uma DGS!

Valter Fonseca, Coordenador Comissão Técnica Vacinação Covid19.

Resta-nos ir andando e vendo no que isto dá, como, desgraçadamente tantas vezes tem acontecido ao longo da pandemia. Para já, os casos de doença aumentam, os internamentos também (inclusive nos cuidados intensivos), os mortos por Covid e a mortalidade em geral aumenta, isto é: a maré sobe e pode vir a suceder que, de um dia para o outro, o vento mude e, afinal, venha a ser necessário e bom vacinar os jovens... Só que, com este tipo de atitude titubeante, isso será já tarde e far-se-á à pressa, porventura em cima ou após o recomeço das aulas. E então, para complicar tudo, chegará também o Outono e somar-se-ão as outras doenças habituais da rentrée. O que dirá nessa altura o Dr. Valter? Dirá aquelas frases feitas do costume: que tendo em conta a evidência científica de que dispunha à época, e não sei mais o quê, e tudo ficará na mesma para ele: sem sombra de pecado. Tem sido o costume.

 

* Há doenças em que, pelas suas características, a imunidade de grupo nunca é alcançada (tétano, tuberculose, gripe, por exemplo) e para o Covid19 não se sabe ainda com segurança se tal tipo de protecção global poderá, em definitivo, ser atingida ou não.

15 julho 2021

JANTAR COM O NARIZ DE FORA

Não cabe na luzidia cabeça de um prego esta ideia do Governo obrigar os restaurantes a executar testes Covid aos clientes, ou seja: o transformar em agentes de saúde pobres desgraçados que já não têm mãos a medir com a ementa, a pandemia, os prejuízos e as múltiplas regras que lhe estão associadas. A transbordar de compaixão, vi uma senhora, ao lado de uma mesinha onde se acumulavam caixas de testes rápidos e papéis (consentimentos) para os candidatos a comensais assinarem no final da escarafunchadela, senhora que, simultaneamente, estendia menus a clientes que se encaminhavam para a esplanada, esses livres da submissão a tais medidas invasivas. 

"Que porcaria", pensei também ao imaginar-me numa esplanada onde, além de ter de assistir a uma fila de gente a enfiar zaragatoas no nariz, as veria em seguida a ser despejadas dentro de um qualquer balde de pedal, mesmo ao lado do expositor dos lagostins e dos bifes da vazia! 

Para já não falar no risco implícito de contacto ou proximidade com eventuais pessoas infectadas com Covid (que deixariam os seus produtos biológicos no restaurante), tudo isto viola gritantemente as regras básicas de higiene que, há muitos anos, são exigidas aos restaurantes pela Saúde e pela ASAE. 

Queixam-se os donos dos restaurantes que, desde que estas ideias peregrinas foram impostas, as esplanadas estão cheias e as salas interiores vazias. Pudera! Quem se sujeitará, apenas para comer fora, a ter um amador a enfiar-lhe um pau no nariz, na frente de uma esplanada de gente que, enquanto espera pelos calamares à Sevilhana ou pelas bochechas de porco com molho Provençal, se vai entretendo com aquele pratinho visual! E então se o testado for algum vizinho que a gente detesta, como aquela presumida do 4.º Frente que, cotonete enfiada na penca, tremelica a Luís Vuitão, pendurada no braço, como se fosse levantar voo?! Que sobremesa!

A velhinha e saudosa matriz Heróis do mar, nobre povo, etc.
É claro que estão às moscas: passa a constituir um risco acrescido (imposto de fora) ir a um restaurante, para além do incómodo, da devassa dos nossos dados pessoais, e da eventual humilhação social - exactamente o oposto do que se deseja quando se sai de casa para ir comer fora...

Convém acrescentar que a responsabilidade pela aleivosia não deve, desta vez, ser imputada à Saúde (Ministério da Saúde), a qual teve o bom senso técnico de se opor a ela ou de ensaiar contrapor argumentos. O problema, para quem ainda não se tinha dado conta, é que a pandemia e a sua gestão caíram nas mãos da Economia e desse grande cérebro que é Siza Vieira. É essa gente que, agora que os chefes consideram a pandemia dominada, está aos comandos, e é ver jovens engravatados (pelas legendas descobrimos serem secretários de estado) já muito assumidos e autoritários na sua tarefa televisiva de transmitir instruções, genuinamente convencidos do seu manto de poder, pelo menos enquanto não tropeçam no tapete ou o chefe não achar melhor prescindir deles, despedindo-os e fazendo-os regressar às tocas de origem, onde continuarão a sonhar com paraísos fiscais e moradias com jacuzzi virado para a auto-estrada...

Para este desvario resolveu agora contribuir a Ordem dos Médicos que, até ao momento, tem tido, aliás, uma conduta sensata e apropriada na crise Covid19. Pois Miguel Guimarães, o bastonário, apresentou ontem ao país uma nova matriz para avaliar o estado da pandemia, segundo ele melhor do que aquela que tem sido usada.  O novo artefacto, assim à primeira vista, parece patrocinado pela Depuralina, e visualmente consiste numa espécie de cinto com fivela, para ser lido na escala de 0 a 100, em que 0 representa o finguelinhas, o risco baixinho, e 100 o extremamente obeso, o riscalhão. Na pompa e circunstância da cerimónia, ficámos a saber que na nova artilharia pesou grandemente o contributo de ilustres matemáticos e que o contexto da doença passará a ser encarado - por uma organização da Saúde! - como se fosse a órbita de um cometa. 

O cinto com fivela da Ordem dos Médicos.

Mas, finalmente, que nos diz de brilhante, novo, avançado, útil em termos de intervenção ou previsão, esta nova cascata de fórmulas, face à velhinha matriz do Ministério da Saúde, que lembra, na sua simplicidade, a bandeira portuguesa, e permitia, num olhar, que qualquer um percebesse onde estávamos? A Ordem dos Médicos, e os seus matemáticos, diz-nos que, neste mês da graça de Julho de 2021, Portugal está a atingir um estado crítico em termos de pandemia. Porra, confesso que fiquei banzado com a notícia inesperada: eu, e mais dez milhões de portugueses, estávamos longe de sonhar com tal panorama e previsão! A sério?! 

 

28 junho 2021

TÁBUA RASA


     Talvez por saberem que vesti um dia a pele de médico

     Familiares, amigos, gente conhecida, dirigem-se-me

     Certos em tom de brincadeira, outros como se lhes fosse pormenor risível:

     Não haverá por aí umas vitaminas que ajudem a memória?!

     Alguns, ainda, empurram o assunto na sequência de um livro que, ainda há

     dias, os deleitou e de que não recordam o enredo; um nome, a meio da

     conversa, que não conseguiram reaver

     Aquele actor preferido, aquele que connosco andou no liceu, a que morava em

     frente... 

     Disponho respostas tamisadas, como se temperasse água gelada com água

     fervente,

     distribuo generalizações benevolentes: oh, à medida que se vai entrando nos

     anos...; conselho aquosos: umas injecções de beber, há quem diga que não

     fazem nada, mas pode ser que contigo....

     Escreves-me o nome?, de outro modo vou esquecer.

     Sim, sim, claro. Passava-te uma receita, mas não são comparticipadas.

     Ficámo-nos por aqui e os dias vão sucedendo. Por onde andei eu durante eles?

     Hoje a minha mãe não conheceu a minha irmã; viu-a no corredor e perguntou

     baixinho, como se tivesse medo de a poder ofender: quem é aquela mulher

     que está cá em casa?. É a Cristina, mãe, a sua filha; não está a ver!?

     Estaria a ver, mas algo se perdera entre a vista e o reconhecimento de algo

     tão íntimo como um corpo que saiu de outro. 

     Nem disse à Cristina, coitada! Achas que poderá ser demência, aquela coisa do

     Alzheimer?

     As palavras ferem como rochedos negros de água, surpreendidos durante a

     maré-vasa. 

     Que idade tem a tua mãe agora?, faço por sobrevoar, sem olhar para baixo,

     tempos em que primeiro vi essa mãe, bastante mais nova do que sou eu

     mesma.

     Espera aí, agora que perguntas... Se fosse vivo, o meu pai estaria a completar

     cento e um, ela é cinco anos mais nova... Tem noventa e cinco, vai fazer...

     Pois... Mesmo assim, é tempo.

     Será, mas, olha, o pai da Ângela, por exemplo: é dois anos mais velho e está

     lúcido como um pero, mais do que a filha!

     Bem, essa também nunca foi... Não é dos melhores exemplos.

     Cristina riu um pouco, o suficiente para poder continuar a explicar-se:

     Uma tarde destas esteve no lar o meu tio - filho dela, tem cinquenta e seis

     anos - e, quando saiu, ela comentou: está tão grande, o teu tio... Sabes, como

     quem duvida que ele pudesse ser ele, como se o estivesse a olhar criança e

     tivesse feito tábua-rasa do tempo que, entretanto, passou!"

     É bem possível...

     É bem possível, o quê? Mas, sabes, a questão é que nem sempre é assim! Há

     dias em que lembra perfeitamente a idade dele - a dela-, com quem ele é 

     casado; quem é cada um de nós, os nomes dos nossos filhos; quem lhe

     telefonou na véspera... Outros, confunde o neto com o marido, o filho com o

     pai.

     Pois, essas perdas da memória não são acontecimentos lineares... Têm

     oscilações, idas e vindas...

     Quem mandou que arrumássemos o tempo em pastas com fitas, capas de

     elásticos; gavetas e gavetinhas, escaninhos de secretária antiga? Chega um

     tempo e o tempo não se contém em compartimentos: extravasa, horizontal,

     enodoa...; ou evapora-se, como a traça depois de comida a lã.

     Então tudo pode vir a juntar-se, a encontrar-se num tempo único; lado a lado

     deitados na areia de uma mesma praia, sob um sol único e uma só nuvem,

     que fugiu para sul.

     Antecipa-se, o esquecimento, e antes que nos deslembrem as pedras e as

     gavetas dos cemitérios, vamo-nos nós esquecendo de nós próprios, como o

     menino que, antes de regressar à carteira, deve apagar o quadro onde

     escreveu. 

     Para que ceda a vez a outro, a outro, e a outro ainda.


© Fotografia de pedro serrano, Torreira, maio 2021.

17 junho 2021

OUVISTE ONTEM O 'EM ÓRBITA'?


 

1. Os dias da rádio

Uma tarde do começo de Junho de 1967 tomei dois eléctricos consecutivos para percorrer o caminho que separava o andar na Avenida da Boavista, onde morava, da casa dos meus avós maternos no Amial, quase um outro extremo da cidade do Porto. Mais sorte no trajecto teriam os meus dois primos, que moravam a uma distância que se deixava percorrer a pé.

A finalidade, o que interessava, era podermos estar, pelas sete da tarde, na vizinhança do rádio de casa dos nossos avós, pois esse aparelho, ao contrário dos de nossas casas, era dotado da vantagem dupla de ser Hi-Fi (alta fidelidade estéreo) e ter Frequência Modulada, à época conhecida por FM ou UKW.

O programa que queríamos (que tínhamos de) ouvir sintonizava-se no Radio Clube Português, só passava na tal frequência modulada - e não nas vulgares ondulações da Onda Média -, dava pelo nome de Em Órbita e ia para o ar entre as 19:00 e as 20:00, horário complicado que nos obrigou, para além das autorizações da deslocação, a um acerto suplementar entre os nossos pais e a nossa avó para que pudéssemos ficar a jantar em casa dela. É que eu ainda não fizera os catorze anos, o meu primo mais velho andava pelos onze e o mais novo acumulava somente uns vergonhosos dez. 

Para além de primos direitos e companheiros íntimos, partilhávamos os três uma intensa e desordenada paixão por música e eu soubera no liceu que, nesse fim de tarde, o Em Órbita iria divulgar, na íntegra (como era costume do programa) e pela primeira vez no país, o novo álbum dos Beatles, uma obra que dava pelo estranho nome de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, posto à venda a nível mundial no dia 1 de Junho, mas que, a 12 de Maio, fora já para o ar em antestreia na Radio London, uma rádio-pirata inglesa. Havia no mundo quem já o tivesse ouvido, portanto, e as reacções, os comentários, os ecos, não podiam ser mais intoxicados! Era impossível deixar escapar aquilo e no liceu não se falava de outra coisa, pelo menos no círculo dos que não falavam de outras coisas. Em tudo isso matutava eu no eléctrico, distraído do que me rodeava, e tentando antever o que poderia resultar de um título que misturava patentes militares e corações solitários. Dizia-se que o disco, que demorara mais de seis meses a gravar, tinha uma capa fantástica; que continha as letras das canções; que não havia intervalo entre as músicas e estas passavam de umas para as outras sem pausa, estando todas ligadas como se fosse uma história única! Era ultra, era inconcebível!

A marca do rádio dos nossos avós era Graetz e, na verdade, o aparelho era muito mais do que simplesmente um rádio, pois tinha também um gira-discos incorporado e, na parte inferior do móvel, portinholas abriam para prateleiras embutidas onde se podi
am guardar discos, fossem eles os pequenos singles e EP (extended-play, com quatro músicas) ou os grandes LP. Estava tudo pensado e os lacados daquela peça de mobiliário animada concorriam com o verniz negro e os candelabros dourados do piano vertical, que também pontificava na sala de estar. Embora houvesse sofás e poltronas na divisão e um espesso tapete onde nos poderíamos sentar com macio proveito, preferimos dispor-nos, sentados em leque e de pernas cruzadas à índia, sobre os tacos primorosamente encerados do soalho: seria o modo de ficarmos mais próximos dos altifalantes, camuflados sob o tecido cru da fachada do móvel, por onde se iria verter o milagre sonoro. Davam as dezanove e por toda a hora seguinte nenhum de nós trocou uma só palavra. 

Ao jantar, a nossa avó, o nosso tio que morava lá também, interessaram-se pelo que tínhamos querido ouvir com tanto fervor, se fora bom, etc., etc., mas como se podia pedir a alguém para comentar uma experiência do domínio da comunhão mística logo após ela ter acontecido?! Depois de um sequíssimo "sim", um esquálido "foi bom", mantivemo-nos os três em silêncio, desertos de regressar a casa e rebobinar mentalmente, no silêncio dos nossos quartos, o milagre, preparando-nos já para os momentos que, no dia seguinte, ao entrarmos o portão do liceu, se seguiriam à pergunta:

"Ouviste ontem o Em Órbita?" 

2. Em Órbita 

Ao longo da sua existência de quase quatro décadas (1965/2001), o programa teve quatro indicativos musicais diferentes, mas, nesse dia de 1967, o silêncio que antecipava o arranque sonoro da emissão fora fendido pelas guitarras e a harmónica de Revenge, um instrumental do grupo inglês The Kinks e o primeiro indicativo do programa. Depois surgiu uma voz algo solene, encorpada e neutra no modo como articulava as frases, que, sem gastar demasiadas palavras anunciou o que se iria ouvir nessa emissão e citou o patrocinador do programa, nesses tempos a Sado Mar, uma empresa transitária e marítima de Setúbal. 

E era tudo: o locutor era único e anónimo, não se nos dirigia por "estimados ouvintes" e não havia anúncios entre músicas ou vozes a sobrepor-se antes de estas terminadas. Aliás, a maior parte das vezes não havia nada entre as músicas, apenas o silêncio das espiras, pois o Em Órbita apostava na passagem de discos inteiros de música anglo-saxónica! Um só LP poderia preencher um único programa e quem tivesse em casa um gravador de fita, seria um homem feliz! Claro que eu e os meus primos (ainda) não tínhamos uma coisa dessas, pois se eramos até obrigados a percorrer quilómetros para ouvir uma simples frequência modulada! Mas, nesses dias primevos, aspirávamos a tão pouco que até uma simples conversa de liceu era suficiente para preencher com a imaginação um programa que nos escapara por falta de requisitos sonoros. 

Assim foi durante cinco anos e muita da aprendizagem musical de gente como eu se fez por ali, escutando solitariamente aquele programa. Muito do que ouvi, do muito e brilhante que então se fazia na música popular (rock e folk) ouvi-o ali pela primeira vez e isso teve algo de um primeiro amor. Os ingleses Moody Blues, Procol Harum, Jethro Tull, Beatles, Led Zeppelin e Pink Floyd; o escocês Donovan; o recém-chegado Elton John (no seu magnífico primeiro álbum de 1970); os irlandeses Fairpot Convention (que antes disso se chamavam Fotheringay); os americanos Simon & Garfunkel, Peter, Paul & Mary; os Beach Boys, os The Doors; Bob Dylan (que tinha direito a uma rubrica especial); Crosby, Stills, Nash; Blood, Sweat and Tears; Chicago Transit Authority (logo abreviados para Chicago), os Jefferson Airplane e os Seatrain; os canadianos Leonard Cohen, Joni Mitchell e Neil Young. 

Para além da preferência pela música composta e interpretada pelos seus autores às canções soltas, o Em Órbita não passava música de outras nacionalidades que não fossem as que se exprimiam em inglês. Não havia espaço para vedetas radiofónicas, para o nacional-cançonetismo ou para as xaropadas latinas ou francesas dos top da paróquia: era um programa elitista e não usava paninhos quentes nem se desculpava; era assim e quem não gostasse que ouvisse outra coisa, pois não faltavam programas nas emissoras nacionais. 

Todos os anos, pelo final do ano, era nomeado um melhor álbum do ano e recordo que, em 1970, essa escolha recaiu sobre Bridge Over Troubled Water, de Simon & Garfunkel, que saboreei isolado num quarto de um hotel em Viseu, pois já tinha conseguido o meu próprio rádio com FM, um tijolo que me acompanhava para todo o lado. Em total concentração, ouvi desfilar perante os meus ouvido incrédulos joia atrás de joia, como era possível tanta inspiração seguida!? Para além da maravilhosa canção que dava título ao disco, havia ainda 'The Boxer', 'The Only Living Boy in New York', 'So Long, Frank Lloyd Wright', 'Song For the Asking', 'Cecilia', 'Keep the Costumer Satisfied'... Não havia cliente mais satisfeito, mais confortado do que eu no final, ao bater a porta do quarto para ir, então, juntar-me aos meus pais na sala-de-jantar do hotel Grão-Vasco. Mas, se distinguia os melhores com sobriedade, o Em Órbita tinha também uma rubrica para chicotear o que considerava o pior do ano e 'Strangers in the Night', de Frank Sinatra, recebeu a nódoa mal foi editado, assim como o foi, sem contemplações e para grande choque meu, 'The Ballad of John and Yoko', dos próprios Beatles!

Em 1968, como um prenúncio da linha de evolução posterior do programa, o indicativo do programa mudou-se, sob influência de Kubrick e do filme 2001, Odisseia no Espaço, para a impressionante abertura do poema sinfónico Also Sprach Zarathustra, de Richard Strauss.

Em 31 de Maio de 1971 o Em Órbita acabou e isso foi um grande desgosto, quase ao nível da mágoa que, um ano antes, constituíra o fim dos Beatles. Todos nos perguntávamos o porquê, só muito depois saberia o que seria lógico supor: a música popular anglo-saxónica, como a conhecíamos, atingira o seu estado moribundo, talvez Woodstock tivesse sido o primeiro sinal... Os anos 70, apesar dos casos de génio isolados (como Frank Zappa, Paul Simon, Lou Reed, Van Morrison; os novos Queen ou os Dire Straits), não conseguiram manter o antigo fulgor. Quem concebera e fundara o Em Órbita sentiu isso antes de todos nós...

3. Nova pele para uma velha cerimónia

Mas em Janeiro de 1974 o programa regressou e voltou de tal maneira transformado que, quando o ouvi pela primeira vez na sua nova pele, nem queria acreditar que fosse o mesmo! Mas era: lá estava o locutor anónimo, sintético e de voz neutra; o patrocinador único (desta vez a Atlantis, uma marca de objectos de cristal da Vista Alegre) de quem a produção do vidro era descrita de forma quase científica. Só que o novo Em Órbita era agora um programa de "música erudita", isto é: durante duas horas não passavam senão música clássica! E não era sequer uma qualquer música clássica: a escolha ia, sobretudo, para a música barroca do século XVIII e outra ainda antes dessa, renascentista e, até, medieval. E novos nomes se juntaram à minha aprendizagem, ao destilar do meu gosto musical, que, agora com 20 anos de idade, era capaz de acomodar outros horizontes. Compositores como Bach, Haendel, Vivaldi, Buxetheude, Pachebel, Rameu, Couperin e, do lado dos intérpretes (sempre que possível em instrumentos da época) Ton Koopman, Nikolaus Harnoncourt, Karl Richter, Jordi Savall e outros nomes que jamais ouvira ser pronunciados! 

Rapidamente me viciei no novo formato e, antes da hora do jantar, adorava escapar-me com o meu tijolo para o quarto de banho, encher a banheira de água tépida, enfiar-me nela com a cabeça apoiada na almofada da esponja, e ficar ali a disfrutar a magnífica acústica dos azulejos e da música barroca.

4. Alicerces e agradecimentos

Só muito mais tarde, já grande - quando o querermos entender o que nos sucedeu nos arrasta em busca de detalhes sobre a história das coisas -, alcancei o que fôra o Em Órbita e os obreiros por trás de tudo aquilo, pois, nesses dias da adolescência, aceitava o todo como se me chegasse directo do Olimpo e sem necessidade de explicação: acontecia, não havia melhor, e pronto.

A vontade de conhecer quem estava por trás daquilo, quem eram os locutores, era um desejo, frequente e antigo, dos ouvintes, pelos vistos, mas a tudo isso o Em Órbita respondia com "um programa feito por nós, dito por mim", sem revelar quem era o "nós" ou o "mim". Este variou ao longo dos anos, mas, na minha opinião, a voz que melhor encarnou o programa foi a de Cândido Mota, uma cara que descobri só muito anos depois e que em nada correspondia às minhas expectativas de ouvinte! Era um tipo com uma cara normal!  

Soube também que, e como seria de esperar, que nos anos pré Abril de 1974, o programa mantinha, de quando em vez, questões com a omnipresente e omnipotente censura e 'Masters of War', de Bob Dylan (1963) seria interdita, bem como algumas outras canções de Joan Baez e Peter, Paul & Mary, todas as que contivessem letras que se pudessem aproximar da dita "crítica social". Igualmente proibida foi 'Atlantis', de Donovan Phillip Leitch (1969), por conter a palavra "democracia", assim como foi barrada a ida para o ar de 'The Unknown Soldier', dos Doors (1968), por ser uma coisa pacifista que condenava a guerra, precisamente quando nós tínhamos uma a decorrer a bom ritmo em África.

Jorge Gil, 2003.

Finalmente, e já sem a face do espanto que me tomaria se o tivesse sabido nos anos 60 ou 70, tomei conhecimento de que os fundadores, os ideólogos do programa, eram apenas estudantes universitários de vinte e poucos anos e que o pai da ideia (Jorge Gil) era um estudante de arquitectura que gostava de pintar nas horas vagas. Quanto aos discos que passavam, no Portugal modorrento e fechado dos anos 60 e inícios de 70, lá estava o irmão (José Gil) que estudava na Suíça e os mandava; um conhecido (Mário Martins) que fazia a escolha de discos a editar na Valentim de Carvalho; o tipo que trabalhava na TAP e os trazia de Londres e dos Estados Unidos... O costume nesses dias onde tudo nos chegava de fora e embrulhado numa certa clandestinidade, mesmo que se tratasse apenas de música.  

 

Fundadores: Jorge Gil, Pedro Albergaria, João Manuel Alexandre. Outros colaboradores: José Luís Magalhães Pereira (autor de algumas rubricas inseridas no programa), Diogo Saraiva e Souza, Manuel Violante.

 

Locutores (por ordem cronológica): Pedro Castelo; Cândido Mota; José Nuno Martins (1969, tendo passado nesse Verão os recém-saídos álbuns Songs From a Room, de Leonard Cohen, e Abbey Road, dos Beatles); Júlio Isidro; Jaime Fernandes; Fernando Quinas; João David Nunes (este na fase clássica do programa).

 

Indicativos: Fase pop/rock/folk: 1. Revenge, The Kinks, composição de Larry Page e Ray Davies, instrumental do álbum The Kinks, editado em 1964 [no ar de 1965 até 1968]; 2. Also Sprach Zarathustra, do poema sinfónico de Richard Strauss, composto em 1896 e baseado em Friedrich Nietzsche [no ar a partir de 1968]. Fase clássica: 3. The Fairy Queen, de Henri Purcell, 1635, uma adaptação operática da peça Sonho de Uma Noite de Verão, de William Shakespeare [no ar a partir de 1974]; 4. Deutsche Messe, D. 872 (mit  Gebet des Herrn), de Franz Schubert, composta em 1827. 

 

Emissoras e horário: Inicialmente das 19:00/20:00 no Rádio Clube Português, depois entre as 19:00 e as 21:00 horas (eliminando inclusive o noticiário das 20:00). Em 1979 mudou-se para a Radio Comercial, não sem em anos anteriores (1971) ter feito contactos para eventual programa na Emissora Nacional, que rejeitou o programa. 

Desde 3 de Abril de 1998 até que terminou, em 2001, o Em Órbita mudou-se para a Antena2, onde ia para o ar semanalmente, às sextas-feiras, entre as 23:00 e a 01:00. Na Antena 2, comemorou os 35 anos de edição, no dia 1 de Abril de 2000, com a primeira audição em Portugal da Paixão Segundo S. Mateus, de João Sebastião Bach, na reconstrução da obra feita por Ton Koopman. 


Indicativos do programa (videos/audio):


1. Revenge (The Kinks)


2. Also Sprach Zarathustra (Richard Strauss)




3. The Fairy Queen (Henri Purcell)


..............


4. Deutsche Mess (Franz Schubert)





Nota: O título do ponto 2 é uma piscadela de olho a New Skin for the Old Ceremony, álbum de Leonard Cohen de 1974.

09 junho 2021

CALADA DA NOITE





© fotografia: pedro serrano (2021).















De súbito, a noite inquietou-se

Um cão ladrou perto, um rosnado persistiu entre latidos,

tal se fosse um eco ou este cão sussurrasse a outro cão,

E um silêncio desconfiado ficou a pairar

Deitado, fincado sobre os cotovelos, aguardei, atento,

Intensificando em mim atenções dos dias em que deambulei felino,

eternidades de hélices de ADN atrás,

Até que a espera se fatigou, os cotovelos cederam da posição de enxertia,

E a noite regressou fragilmente ao silêncio que fôra. 

 

 

 

 

01 junho 2021

BRIDESHEAD REVISITADO


Charles Ryder (Jeremy Irons), Sebastian
 Flyte (Anthony Andrews) e Aloysius.   
1. Cinema, literatura e televisão

As voltas que o mundo dá! Quem se atreveria a sonhar que seria a TV, que nos anos 70, para não dizer antes, quase matou o cinema, dizer que seria ela a retomar o fio à produção das obras de grande fôlego cinematográfico, fosse sob o formato do filme tradicional ou o do seriado. A longa metragem The Irish Man (O Irlandês, 2019), de Scorsese, produzida para a Netflix, é um belo exemplo disso, o filme A Rainy Day in New York (Um dia de Chuva em Nova Iorque, 2019), de Woody Allen, produzido para a Amazon, é um outro. Já nas minisséries ou nas séries atravessando várias temporadas, podem citar-se abundantes exemplos, encomendados ou produzidos por canais de streaming como a HBO, a Amazon Prime ou a Netflix, entre outros. 

No que diz respeito às séries, a capacidade financeira destas companhias e a aposta (sempre tímida) em abordagens inovadoras ou em produtos oriundos de países habitualmente pouco representados nas grandes redes de distribuição (como a Alemanha, a Turquia, a Colômbia ou a Índia), possibilitou algo semelhante à transformação que, nos anos 60, Bob Dylan, e outros que se lhe seguiram, introduziram na música popular ao puxar a narrativa sofisticada para dentro dela: tornou-se então possível contar histórias através de meios até aí condicionados pela concepção e pela duração, na música os clássicos 3 minutos, para que a publicidade pudesse ser posta no ar nos intervalos entre duas canções. No cinema, por seu lado, a duração clássica do filme raramente ultrapassava os 90 minutos que uma alma aguenta estar sentada numa cadeira (que não corresponde ao seu sofá em casa) sem se levantar para ir ao quarto-de-banho ou reabastecer-se de pipocas. 

Os anos 90 e 2000 foram, a nível televisivo, ricos neste tipo de experiências ficcionais  que apostaram em enredos complexos de travo literário e séries como Twin Peaks, de David Lynch (ABC, 3 temporadas: 1990, 1991, 2017), Six Feet Under (Sete Palmos de Terra, 5 temporadas produzidas entre 2001 e 2005 para a HBO), e Os Sopranos (1999-2007, 6 temporadas, também sob chancela HBO) trouxeram-nos, pela mão do pequeno ecrã, histórias de densa espessura narrativa, bem contadas, bem representadas e bem filmadas, que nos arrastaram por longas horas e, até, anos de prazer, não sendo fácil lobrigar nelas - sobretudo nas duas últimas citadas - o decair de qualidade e o cansaço que grande parte das séries exibe nos últimos capítulos, e de que as americanas Breaking BadHouse of CardsMadmen ou Homeland constituem decepcionantes exemplos, empobrecidas, sobretudo, pela exaustão da capacidade inventiva dos argumentistas e pelas forçadas reviravoltas do enredo, num momento do campeonato em que o espectador já se presta com mesquinha generosidade ao princípio da suspensão da realidade.

 

2. Brideshead Revisited: a série e o romance

Dito isto, e focando-me somente nas séries ficcionais, interessa-me recuar até onde tudo isto poderá ter tido o seu começo ou, dito de outro modo, identificar qual poderá ter sido o primeiro exemplo deste fenómeno de transposição da qualidade narrativa associada ao cinema e ao grande ecrã para a TV. Sem espanto, a resposta vem de Inglaterra e do longínquo ano de 1981, e resultou da adaptação, primeiro planeada para durar 6 horas, distribuídas por 6 episódios, do romance Brideshead Revisited (Brideshead Revisitado) de Evelyn Waugh, título desnecessariamente traduzido por Reviver o Passado em Brideshead (Moraes, 1982), e que a edição portuguesa em DVD da série (Prisvideo, 2004) manteria.

Capa e contracapa 1.ª edição portuguesa livro, 1982

O romance que deu origem a esta adaptação para TV, foi escrito em 1945, no termo da Segunda Guerra Mundial, e a sua realização foi entregue a (Sir) Michael Lindsay-Hogg, com quarenta anos de idade em 1979, quando tudo se iniciou, um realizador e homem de TV experimentado. Mas a produção de Brideshead Revisited foi azarada desde o começo e, na sequência de greves e atrasos vários na produção, Lindsay-Hogg teve de voar para outro projecto com o qual já se se encontrava contratualmente comprometido, deixando menos de uma hora de filme (os pedaços menos interessantes, diga-se) nas mãos dos produtores, a companhia televisiva independente ITV/Granada, que se associara à americana PBS na posterior divulgação do projecto. Quem acabou por herdar a responsabilidade de dirigir a enormidade do que faltava foi Charles Sturridge, um inglês de 28 anos com uma ténue experiência como actor, mas nada que, de longe ou de perto, o habilitasse a dirigir monstros sagrados da representação como (Sir) Laurence Olivier, (Sir) John Gieguld, Mona Washborne, Sephane Audran, ou Claire Bloom*. 

É o próprio Charles Sturridge que, consciente da sua imberbe experiência, conta os terrores por que passou, os dois maiores sendo o de não dispor de um guião cinematográfico suficientemente detalhado para o que se ia filmar, e o outro, com a breve excepção de Mona Washborne (com quem contracenara, como actor, em If, de Lindsay Anderson, 1968), o não conhecer, nem ser reconhecido por nenhum dos outros actores já contratados para a série. A estas duas inseguranças acrescentou-se o facto, muito prosaico, de Jeremy Irons, o personagem principal, ter um contrato assinado para dividir com Meryl Streep o papel cimeiro no filme A Amante do Tenente Francês (de Karel Reisz, 1981) e todos os atrasos, entretantos ocorridos com Brideshead, fizeram chegar a data de arranque de filmagens deste filme, pelo que durante grande parte da realização da série Irons teria de ser, numa base semanal, partilhado entre o plateau da A Amante do Tenente Francês e o de Brideshead!

Mas, apesar de todos os atrasos e sobreposições, as filmagens decorreram sob bons auspícios e até Laurence Olivier, conhecido por ser um tipo difícil e por vezes impossível, foi deliciosamente doce com o novel realizador, exigindo deste que o tratasse por Larry quando o outro se preparava para o diferenciar com um "Sir". Para tudo isso, continua a confessar Sturridge, terá contribuído aquele que, embora de pedra, é um dos principais personagens da série: o palácio de Castle Howard, onde decorre e foi filmada grande parte da acção. Castle Howard, no Yorkshire, há séculos nas mãos da família Howard e o cenário mental que Evelyn Waugh escolheu para situar o seu romance, foi onde ficaram instalados alguns dos protagonistas durante vários meses das filmagens (designadamente Claire Bloom e Jeremy Irons), o que permitiu que os actores e a relativamente pequena equipa de filmagem se deixassem embeber pelo espírito do local e estreitassem relações entre eles.

Quando o, duplamente, novo realizador assumiu o projecto, deu-se conta de que mais de 82 % do guião e dos diálogos se encontravam por escrever, circunstância que teve de ocultar de Laurence Olivier, habituado a receber e decorar as suas deixas com confortável antecedência. Saiu-lhe do pelo, a ele e ao produtor Derek Granger, esse trabalho suplementar de escrita, que ocupava os dois dias da semana que as filmagens, arrastadas ao longo de mais de um ano, lhe deixavam livre. Foi por essa altura que surgiu a ideia de se recorrer à voz-off de um narrador, presente ao longo de todos os episódios, voz que iria recordando o passado e viria a constituir uma trave-mestra da série, conferindo robusta consistência ao enredo. Para isso escolheram com genial intuição a voz de Jeremy Irons que, numa dicção perfeita e em tom dolentemente hipnótico, vai comentando, apresentando ou antecipando os acontecimentos, o que levou a que praticamente todo o texto do romance tenha migrado, intacto, para o interior da série. É raro encontrar algo tão fiel e tão semelhante a uma transcrição do texto que lhe deu origem, e é um pouco como se o próprio Evelyn Waugh nos estivesse a ler em voz alta o seu romance, como, na série, faz Lady Marchmain (Claire Bloom) às aventuras policiais do Padre Brown (personagem famosa do também devoto e beatificado escritor inglês G. K. Chesterton).
Laurece Olivier recebe instruções de Charles Sturridge.

E nunca mais o espectador consegue escapar ao tom encantatório de Irons que, com uma nostalgia gémea da que perpassa o romance O Leopardo (de Giuseppe Tomasi de Lampedeusa, 1959, e levado ao cinema por Luchino Visconti em 1963), nos conta sobre um mundo aristocrático, a que ele presenciou, de dentro, a queda e o desaparecimento. Tudo perece, tudo muda, a condição necessária é apenas a de se durar o número de anos suficiente para ser testemunha. É sobre isto que se debruça Brideshead Revisited, o romance e a série, e, diria, o único pormenor irritante, deriva, como por vezes sucede, de os escritores quererem demonstrar ao leitor uma qualquer tese, neste caso a história da conversão a uma religião, o catolicismo, de um narrador no início agnóstico. Nesse aspecto, a insistência de Waugh traz-nos à lembrança Graham Greene, que, precisamente, se consegue tornar maçador quando insiste na mesmíssima tecla da iluminação divina (vide, por exemplo, O Nó do Problema ou O Poder e a Glória).  


3. Brideshead em Portugal

Desde os dias, no Outono de 1982 (logo seguindo a exibição da série no canal 2 da RTP), em que a Moraes deu à estampa a tradução do romance de Waugh, uma edição a que é difícil pedir maior mau-gosto para a capa escolhida e para o texto apressado e absurdo da contracapa, a Relógio d'Água encarregou-se de uma nova edição em 2002, também ela não muito inspirada na escolha da artcover, edição recentemente reimpressa aproveitando, para a nova capa, imagens da sequela fílmica a que o romance foi sujeito. Como acontece com a maior parte das insistências, esta mais valia não ter visto a luz do dia (Brideshead - Desejo e Poder, realizado por Julian Jarrold, 2008), pois, sobretudo a quem viu a série original, é quase doloroso presenciar a escolha dos actores, os maneirismos e o mau-gosto de tudo aquilo. Concedemos que não seria fácil fazer diferente, pois, como dizia Charles Sturridge, o realizador do projecto de 1981, a série vive do detalhe, mais até do que da acção, e não se consegue chegar a tanto com as menos de 12 horas e os 11 episódios para que cresceu o projecto inicial.


Apesar da fortuna que custou, dos quase dois anos de produção, Brideshead Revisited foi um enorme sucesso e tornou-se uma série de culto em todo o mundo, inclusive em Portugal, e muita gente, ao explorar a restante obra literária de Evelyn Waugh, ficou surpresa ao descobrir que o autor era, sobretudo, um escritor satírico. É verdade, Brideshead Revisited, praticamente a sua única obra 'séria' e o seu maior sucesso, é uma excepção à regra.

 

4. Brideshead e Os Maias

Num artigo no Primeiro de Janeiro de 24 de Julho de 2006, A. Campos Matos, especialista em Eça de Queiroz e autor de um conhecido dicionário sobre o escritor português, lamenta que Os Maias não tenham sido levados ao ecrã pelos ingleses,  referindo-se precisamente ao magnífico resultado final revelado por Brideshead Revisited e, simultaneamente, ao desastre da produção telenovelesca do romance português, perpetrada em 2000 pela cadeia de TV brasileira Globo, que, apesar de ter gasto um milhão de contos no assunto, assassinou a obra de Eça, deixando unicamente uma má memória do feito. 

Cenário do filme Os Maias, de João Botelho.

À época, Campos Matos, por natural incapacidade em prever o futuro, não podia ainda discorrer sobre os tratos de polé a que, oito anos mais tarde (2014), o realizador João Botelho submeteria a mesma obra, recorrendo, por falta de dinheiro, por preguiça crónica, ou por ambas as coisas, a cenários pintados para nos fazer crer na Lisboa oitocentista de Eça. É claro que, a posteriori, a desgraça seria retocada retoricamente pela brocha dos argumentos de que o recurso a tamanha artificialidade fazia contrastar a realidade da história, e outras estopadas de cartilha, nenhuma das quais dava suficiente cobertura à deficiente iluminação, ao péssimo som, à dicção a pedir legendas e à falta de naturalidade com que os actores e o cinema português geralmente nos brinda, não obstante as abundantes estrelas dos críticos locais e das palmas que o cinema de paragens exóticas sempre obtém em festivais internacionais.

 

5. Notas finais: actores e personagens em Brideshead

Jeremy Irons é o actor que produz maior impacto no espectador, particularmente num primeiro visionamento da série. Isto deve-se, para além da excelente representação, quer ao papel como Charles Ryder, em torno do qual se estabelece e edifica a perspectiva de toda a história, quer à sua voz, que atravessa, invade e sustenta a imagem do primeiro ao último episódio.

Cara (Stephane Audran).
A ele se juntam outros actores extraordinários, que apesar de apenas surgirem na tela durante breves minutos não deixam os créditos por mão alheias: é o caso de Laurence Olivier (cuja presença na série foi filmada numa única semana), de John Gieguld e de Sephane Audran, mulher do realizador francês Claude Chabrol, a quem foi confiado o papel da sofisticada amante italiana de Lord Marchmain, por quem ele trocou a mulher e a Inglaterra num exílio auto-imposto. No que se refere a John Gieguld, um gigante dos palcos e do cinema com a estatura de Olivier, foi-lhe atribuído a curta persona de Edward Ryder, o pai de Charles, um indivíduo excêntrico, de humor peculiar, que não sabe bem a idade do filho e prefere que este não esteja em casa! Gieguld é absolutamente espantoso na condução do personagem, que se revela em olhares, fungadelas e curtas frases, sibilinas e como que desinseridas de contexto.  

A estes mestres da representação é forçoso juntar a actriz inglesa Claire Bloom (no papel da fria, premeditada e manipuladora Lady Marchmain), actriz por quem se apaixonara Charles Chaplin em Limelight (Luzes da Ribalta, 1952) e, à época da série, ainda casada com o domesticamente intratável escritor norte-americano Philip Roth. Claire Bloom era já uma velha conhecida de Laurence Olivier, com quem contracenou no filme Ricardo III (realizado por Olivier em 1955), e de John Gieguld, também actor em Ricardo III, sob cuja direcção cénica, ou parceira na contracenação, pisou vários palcos ingleses, designadamente em peças de Tchékhov.   

Edward Ryder (John Gieguld).
Dos menos conhecidos nesses longínquos dias de estreia da série, e embora todos os desempenhos sejam de nível excelente, o espectador retém vários e, desses, escolheria, para começar a recordar, a personagem de Anthony Blanche, encarnada deliciosamente pelo actor Nickolas Grace. Anthony Blanche é, no romance, o homossexual assumido e provocador, um tipo meio francês, meio latino, um pouco judeu, conhecimento de Proust e Gide, amigo de Diaghilev e Cocteau, um deslocado em todo o lado, mormente no ambiente universitário e recto da Oxford dos anos de 1920. Apesar de gago, Blanche não deixa de tornar claro o seu pensamento sobre o que se passa à sua volta, revelando-se duro e lúcido nas análises que faz dos amigos, designadamente de Charles Ryder e de Sebastian Flyte, com quem poderá ter tido um caso.

Sebastian, foi entregue ao actor Anthony Andrews, que o interpreta igualmente de modo magnífico, na sua beleza e atitude um tanto frívola, mas que, igualmente, sabe transmitir ao espectador o lado negro, angustiado e decadente do Sebastian Flyte dos últimos dias.

Claire Bloom e Laurence Olivier (Ricardo III).
Falando dos Flytes, a família central do enredo, não pode deixar de ser mencionado um outro deles (Lord Brideshead, o herdeiro detestado pelo pai), confiado ao desempenho do actor Simon Jones, que se encarrega com rigor do papel, dando-nos a conhecer os contornos de um homem aparentemente normal e formal, mas retorcido por dentro, com um distanciamento frio das coisas que o tornam pouco humano.

Talvez só num segundo ou terceiro visionamento da série, de tal modo esta é rica em detalhes e micro-detalhes, se conseguirá libertar a atenção sobre o belíssimo desempenho da actriz Phoebe Nicholls no papel de Cordelia Flyte, a mais nova dos Flyte, obviamente ofuscada, por exigência dramática do enredo, pela presença feminina de Diana Quick (Julia Flyte, a irmã mais velha). À época com 22 anos, Phoebe veste a pele, nos primeiros episódios da série, de uma rapariguinha no começo da adolescência, para surgir, nos últimos episódios, como uma jovem mulher, a quem a juventude foi praticamente roubada pelas circunstâncias que a rodeavam e muito consciente de como os anos passaram por si. 

Cordelia Flyte (Phoebe Nicholls).

Como curiosidade final, refira-se que Celia Ryder (casada com Charles Ryder e irmã de Boy Mulcaster) é interpretada por Jane Asher, aquela que foi a primeira mulher de Paul Mc.Cartney. Com 34 anos, e há muito divorciada do Beatle na altura das filmagens, Jane espelha na perfeição do seu desempenho o retrato da socialite ideal, uma mulher supérflua que tudo sabe fazer e faz para promover a imagem pública do marido, saltitando à superfície dos acontecimentos com um alheamento e uma frieza que se adivinham tão temíveis como as manobras predatórias de um louva-a-deus.

 

Elenco principal:

Jeremy Irons (Charles Ryder)

Anthony Andrews (Sebastian Flyte)

Diana Quick (Julia Flyte)

Laurence Olivier (Lord Marchmain)

Claire Bloom (Lady Teresa Marchmain)

Stephane Audran (Cara)

John Gieguld (Edward Ryder)

Mona Washbourne (Nanny Hawkins)

Phoebe Nicholls (Cordelia Flyte)

Nickolas Graces (Anthony Blanche)

Jane Asher (Celia Ryder)

Simon Jones (Lord Brideshead)

John Grillo (Mr. Samgrass)

Charles Keating (Rex Mottram)

Jeremy Sinden (Boy Mulcaster)

John Le Mesurier (Father Mowbray)

Celia Ryder (Jane Asher).

Realizadores: Charles Sturridge (esmagadora maioria dos episódios) e, acessoriamente, Michael Lindsay-Hogg.

Produtor : Derek Granger.

Adaptação do livro: John Mortimer, posteriormente Charles Sturridge e Derek Granger.

Música: Geoffrey Burgon. É inesquecível e cola-se à história a música original, composta por Geoffrey Burgon, invocando a música para metais de Mozart ou Haydn, o que se adequa como uma luva ao ambiente oitocentista de Howard Castle ou de Oxford.

Estreia da série: 12 Outubro 1981 (UK); 18 Janeiro 1982 (USA); Portugal: ignorado (talvez outono de 1982). 

Suporte: 4 DVD, durando aproximadamente 12 horas no seu total e distribuídos por 11 episódios. O episódio-piloto e o episódio final têm cerca de 100 minutos de duração e cada um dos outros dura, aproximadamente, 52 minutos.

 

*Recordações de Claire Bloom sobre as filmagens de Brideshead Revisited podem ser apreciadas na excelente autobiografia da actriz Leaving a Doll's House, publicada pela Little, Brown em 1996.