17 junho 2021

OUVISTE ONTEM O 'EM ÓRBITA'?


 

1. Os dias da rádio

Uma tarde do começo de Junho de 1967 tomei dois eléctricos consecutivos para percorrer o caminho que separava o andar na Avenida da Boavista, onde morava, da casa dos meus avós maternos no Amial, quase um outro extremo da cidade do Porto. Mais sorte no trajecto teriam os meus dois primos, que moravam a uma distância que se deixava percorrer a pé.

A finalidade, o que interessava, era podermos estar, pelas sete da tarde, na vizinhança do rádio de casa dos nossos avós, pois esse aparelho, ao contrário dos de nossas casas, era dotado da vantagem dupla de ser Hi-Fi (alta fidelidade estéreo) e ter Frequência Modulada, à época conhecida por FM ou UKW.

O programa que queríamos (que tínhamos de) ouvir sintonizava-se no Radio Clube Português, só passava na tal frequência modulada - e não nas vulgares ondulações da Onda Média -, dava pelo nome de Em Órbita e ia para o ar entre as 19:00 e as 20:00, horário complicado que nos obrigou, para além das autorizações da deslocação, a um acerto suplementar entre os nossos pais e a nossa avó para que pudéssemos ficar a jantar em casa dela. É que eu ainda não fizera os catorze anos, o meu primo mais velho andava pelos onze e o mais novo acumulava somente uns vergonhosos dez. 

Para além de primos direitos e companheiros íntimos, partilhávamos os três uma intensa e desordenada paixão por música e eu soubera no liceu que, nesse fim de tarde, o Em Órbita iria divulgar, na íntegra (como era costume do programa) e pela primeira vez no país, o novo álbum dos Beatles, uma obra que dava pelo estranho nome de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, posto à venda a nível mundial no dia 1 de Junho, mas que, a 12 de Maio, fora já para o ar em antestreia na Radio London, uma rádio-pirata inglesa. Havia no mundo quem já o tivesse ouvido, portanto, e as reacções, os comentários, os ecos, não podiam ser mais intoxicados! Era impossível deixar escapar aquilo e no liceu não se falava de outra coisa, pelo menos no círculo dos que não falavam de outras coisas. Em tudo isso matutava eu no eléctrico, distraído do que me rodeava, e tentando antever o que poderia resultar de um título que misturava patentes militares e corações solitários. Dizia-se que o disco, que demorara mais de seis meses a gravar, tinha uma capa fantástica; que continha as letras das canções; que não havia intervalo entre as músicas e estas passavam de umas para as outras sem pausa, estando todas ligadas como se fosse uma história única! Era ultra, era inconcebível!

A marca do rádio dos nossos avós era Graetz e, na verdade, o aparelho era muito mais do que simplesmente um rádio, pois tinha também um gira-discos incorporado e, na parte inferior do móvel, portinholas abriam para prateleiras embutidas onde se podi
am guardar discos, fossem eles os pequenos singles e EP (extended-play, com quatro músicas) ou os grandes LP. Estava tudo pensado e os lacados daquela peça de mobiliário animada concorriam com o verniz negro e os candelabros dourados do piano vertical, que também pontificava na sala de estar. Embora houvesse sofás e poltronas na divisão e um espesso tapete onde nos poderíamos sentar com macio proveito, preferimos dispor-nos, sentados em leque e de pernas cruzadas à índia, sobre os tacos primorosamente encerados do soalho: seria o modo de ficarmos mais próximos dos altifalantes, camuflados sob o tecido cru da fachada do móvel, por onde se iria verter o milagre sonoro. Davam as dezanove e por toda a hora seguinte nenhum de nós trocou uma só palavra. 

Ao jantar, a nossa avó, o nosso tio que morava lá também, interessaram-se pelo que tínhamos querido ouvir com tanto fervor, se fora bom, etc., etc., mas como se podia pedir a alguém para comentar uma experiência do domínio da comunhão mística logo após ela ter acontecido?! Depois de um sequíssimo "sim", um esquálido "foi bom", mantivemo-nos os três em silêncio, desertos de regressar a casa e rebobinar mentalmente, no silêncio dos nossos quartos, o milagre, preparando-nos já para os momentos que, no dia seguinte, ao entrarmos o portão do liceu, se seguiriam à pergunta:

"Ouviste ontem o Em Órbita?" 

2. Em Órbita 

Ao longo da sua existência de quase quatro décadas (1965/2001), o programa teve quatro indicativos musicais diferentes, mas, nesse dia de 1967, o silêncio que antecipava o arranque sonoro da emissão fora fendido pelas guitarras e a harmónica de Revenge, um instrumental do grupo inglês The Kinks e o primeiro indicativo do programa. Depois surgiu uma voz algo solene, encorpada e neutra no modo como articulava as frases, que, sem gastar demasiadas palavras anunciou o que se iria ouvir nessa emissão e citou o patrocinador do programa, nesses tempos a Sado Mar, uma empresa transitária e marítima de Setúbal. 

E era tudo: o locutor era único e anónimo, não se nos dirigia por "estimados ouvintes" e não havia anúncios entre músicas ou vozes a sobrepor-se antes de estas terminadas. Aliás, a maior parte das vezes não havia nada entre as músicas, apenas o silêncio das espiras, pois o Em Órbita apostava na passagem de discos inteiros de música anglo-saxónica! Um só LP poderia preencher um único programa e quem tivesse em casa um gravador de fita, seria um homem feliz! Claro que eu e os meus primos (ainda) não tínhamos uma coisa dessas, pois se eramos até obrigados a percorrer quilómetros para ouvir uma simples frequência modulada! Mas, nesses dias primevos, aspirávamos a tão pouco que até uma simples conversa de liceu era suficiente para preencher com a imaginação um programa que nos escapara por falta de requisitos sonoros. 

Assim foi durante cinco anos e muita da aprendizagem musical de gente como eu se fez por ali, escutando solitariamente aquele programa. Muito do que ouvi, do muito e brilhante que então se fazia na música popular (rock e folk) ouvi-o ali pela primeira vez e isso teve algo de um primeiro amor. Os ingleses Moody Blues, Procol Harum, Jethro Tull, Beatles, Led Zeppelin e Pink Floyd; o escocês Donovan; o recém-chegado Elton John (no seu magnífico primeiro álbum de 1970); os irlandeses Fairpot Convention (que antes disso se chamavam Fotheringay); os americanos Simon & Garfunkel, Peter, Paul & Mary; os Beach Boys, os The Doors; Bob Dylan (que tinha direito a uma rubrica especial); Crosby, Stills, Nash; Blood, Sweat and Tears; Chicago Transit Authority (logo abreviados para Chicago), os Jefferson Airplane e os Seatrain; os canadianos Leonard Cohen, Joni Mitchell e Neil Young. 

Para além da preferência pela música composta e interpretada pelos seus autores às canções soltas, o Em Órbita não passava música de outras nacionalidades que não fossem as que se exprimiam em inglês. Não havia espaço para vedetas radiofónicas, para o nacional-cançonetismo ou para as xaropadas latinas ou francesas dos top da paróquia: era um programa elitista e não usava paninhos quentes nem se desculpava; era assim e quem não gostasse que ouvisse outra coisa, pois não faltavam programas nas emissoras nacionais. 

Todos os anos, pelo final do ano, era nomeado um melhor álbum do ano e recordo que, em 1970, essa escolha recaiu sobre Bridge Over Troubled Water, de Simon & Garfunkel, que saboreei isolado num quarto de um hotel em Viseu, pois já tinha conseguido o meu próprio rádio com FM, um tijolo que me acompanhava para todo o lado. Em total concentração, ouvi desfilar perante os meus ouvido incrédulos joia atrás de joia, como era possível tanta inspiração seguida!? Para além da maravilhosa canção que dava título ao disco, havia ainda 'The Boxer', 'The Only Living Boy in New York', 'So Long, Frank Lloyd Wright', 'Song For the Asking', 'Cecilia', 'Keep the Costumer Satisfied'... Não havia cliente mais satisfeito, mais confortado do que eu no final, ao bater a porta do quarto para ir, então, juntar-me aos meus pais na sala-de-jantar do hotel Grão-Vasco. Mas, se distinguia os melhores com sobriedade, o Em Órbita tinha também uma rubrica para chicotear o que considerava o pior do ano e 'Strangers in the Night', de Frank Sinatra, recebeu a nódoa mal foi editado, assim como o foi, sem contemplações e para grande choque meu, 'The Ballad of John and Yoko', dos próprios Beatles!

Em 1968, como um prenúncio da linha de evolução posterior do programa, o indicativo do programa mudou-se, sob influência de Kubrick e do filme 2001, Odisseia no Espaço, para a impressionante abertura do poema sinfónico Also Sprach Zarathustra, de Richard Strauss.

Em 31 de Maio de 1971 o Em Órbita acabou e isso foi um grande desgosto, quase ao nível da mágoa que, um ano antes, constituíra o fim dos Beatles. Todos nos perguntávamos o porquê, só muito depois saberia o que seria lógico supor: a música popular anglo-saxónica, como a conhecíamos, atingira o seu estado moribundo, talvez Woodstock tivesse sido o primeiro sinal... Os anos 70, apesar dos casos de génio isolados (como Frank Zappa, Paul Simon, Lou Reed, Van Morrison; os novos Queen ou os Dire Straits), não conseguiram manter o antigo fulgor. Quem concebera e fundara o Em Órbita sentiu isso antes de todos nós...

3. Nova pele para uma velha cerimónia

Mas em Janeiro de 1974 o programa regressou e voltou de tal maneira transformado que, quando o ouvi pela primeira vez na sua nova pele, nem queria acreditar que fosse o mesmo! Mas era: lá estava o locutor anónimo, sintético e de voz neutra; o patrocinador único (desta vez a Atlantis, uma marca de objectos de cristal da Vista Alegre) de quem a produção do vidro era descrita de forma quase científica. Só que o novo Em Órbita era agora um programa de "música erudita", isto é: durante duas horas não passavam senão música clássica! E não era sequer uma qualquer música clássica: a escolha ia, sobretudo, para a música barroca do século XVIII e outra ainda antes dessa, renascentista e, até, medieval. E novos nomes se juntaram à minha aprendizagem, ao destilar do meu gosto musical, que, agora com 20 anos de idade, era capaz de acomodar outros horizontes. Compositores como Bach, Haendel, Vivaldi, Buxetheude, Pachebel, Rameu, Couperin e, do lado dos intérpretes (sempre que possível em instrumentos da época) Ton Koopman, Nikolaus Harnoncourt, Karl Richter, Jordi Savall e outros nomes que jamais ouvira ser pronunciados! 

Rapidamente me viciei no novo formato e, antes da hora do jantar, adorava escapar-me com o meu tijolo para o quarto de banho, encher a banheira de água tépida, enfiar-me nela com a cabeça apoiada na almofada da esponja, e ficar ali a disfrutar a magnífica acústica dos azulejos e da música barroca.

4. Alicerces e agradecimentos

Só muito mais tarde, já grande - quando o querermos entender o que nos sucedeu nos arrasta em busca de detalhes sobre a história das coisas -, alcancei o que fôra o Em Órbita e os obreiros por trás de tudo aquilo, pois, nesses dias da adolescência, aceitava o todo como se me chegasse directo do Olimpo e sem necessidade de explicação: acontecia, não havia melhor, e pronto.

A vontade de conhecer quem estava por trás daquilo, quem eram os locutores, era um desejo, frequente e antigo, dos ouvintes, pelos vistos, mas a tudo isso o Em Órbita respondia com "um programa feito por nós, dito por mim", sem revelar quem era o "nós" ou o "mim". Este variou ao longo dos anos, mas, na minha opinião, a voz que melhor encarnou o programa foi a de Cândido Mota, uma cara que descobri só muito anos depois e que em nada correspondia às minhas expectativas de ouvinte! Era um tipo com uma cara normal!  

Soube também que, e como seria de esperar, que nos anos pré Abril de 1974, o programa mantinha, de quando em vez, questões com a omnipresente e omnipotente censura e 'Masters of War', de Bob Dylan (1963) seria interdita, bem como algumas outras canções de Joan Baez e Peter, Paul & Mary, todas as que contivessem letras que se pudessem aproximar da dita "crítica social". Igualmente proibida foi 'Atlantis', de Donovan Phillip Leitch (1969), por conter a palavra "democracia", assim como foi barrada a ida para o ar de 'The Unknown Soldier', dos Doors (1968), por ser uma coisa pacifista que condenava a guerra, precisamente quando nós tínhamos uma a decorrer a bom ritmo em África.

Jorge Gil, 2003.

Finalmente, e já sem a face do espanto que me tomaria se o tivesse sabido nos anos 60 ou 70, tomei conhecimento de que os fundadores, os ideólogos do programa, eram apenas estudantes universitários de vinte e poucos anos e que o pai da ideia (Jorge Gil) era um estudante de arquitectura que gostava de pintar nas horas vagas. Quanto aos discos que passavam, no Portugal modorrento e fechado dos anos 60 e inícios de 70, lá estava o irmão (José Gil) que estudava na Suíça e os mandava; um conhecido (Mário Martins) que fazia a escolha de discos a editar na Valentim de Carvalho; o tipo que trabalhava na TAP e os trazia de Londres e dos Estados Unidos... O costume nesses dias onde tudo nos chegava de fora e embrulhado numa certa clandestinidade, mesmo que se tratasse apenas de música.  

 

Fundadores: Jorge Gil, Pedro Albergaria, João Manuel Alexandre. Outros colaboradores: José Luís Magalhães Pereira (autor de algumas rubricas inseridas no programa), Diogo Saraiva e Souza, Manuel Violante.

 

Locutores (por ordem cronológica): Pedro Castelo; Cândido Mota; José Nuno Martins (1969, tendo passado nesse Verão os recém-saídos álbuns Songs From a Room, de Leonard Cohen, e Abbey Road, dos Beatles); Júlio Isidro; Jaime Fernandes; Fernando Quinas; João David Nunes (este na fase clássica do programa).

 

Indicativos: Fase pop/rock/folk: 1. Revenge, The Kinks, composição de Larry Page e Ray Davies, instrumental do álbum The Kinks, editado em 1964 [no ar de 1965 até 1968]; 2. Also Sprach Zarathustra, do poema sinfónico de Richard Strauss, composto em 1896 e baseado em Friedrich Nietzsche [no ar a partir de 1968]. Fase clássica: 3. The Fairy Queen, de Henri Purcell, 1635, uma adaptação operática da peça Sonho de Uma Noite de Verão, de William Shakespeare [no ar a partir de 1974]; 4. Deutsche Messe, D. 872 (mit  Gebet des Herrn), de Franz Schubert, composta em 1827. 

 

Emissoras e horário: Inicialmente das 19:00/20:00 no Rádio Clube Português, depois entre as 19:00 e as 21:00 horas (eliminando inclusive o noticiário das 20:00). Em 1979 mudou-se para a Radio Comercial, não sem em anos anteriores (1971) ter feito contactos para eventual programa na Emissora Nacional, que rejeitou o programa. 

Desde 3 de Abril de 1998 até que terminou, em 2001, o Em Órbita mudou-se para a Antena2, onde ia para o ar semanalmente, às sextas-feiras, entre as 23:00 e a 01:00. Na Antena 2, comemorou os 35 anos de edição, no dia 1 de Abril de 2000, com a primeira audição em Portugal da Paixão Segundo S. Mateus, de João Sebastião Bach, na reconstrução da obra feita por Ton Koopman. 


Indicativos do programa (videos/audio):


1. Revenge (The Kinks)


2. Also Sprach Zarathustra (Richard Strauss)




3. The Fairy Queen (Henri Purcell)


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4. Deutsche Mess (Franz Schubert)





Nota: O título do ponto 2 é uma piscadela de olho a New Skin for the Old Ceremony, álbum de Leonard Cohen de 1974.

09 junho 2021

CALADA DA NOITE





© fotografia: pedro serrano (2021).















De súbito, a noite inquietou-se

Um cão ladrou perto, um rosnado persistiu entre latidos,

tal se fosse um eco ou este cão sussurrasse a outro cão,

E um silêncio desconfiado ficou a pairar

Deitado, fincado sobre os cotovelos, aguardei, atento,

Intensificando em mim atenções dos dias em que deambulei felino,

eternidades de hélices de ADN atrás,

Até que a espera se fatigou, os cotovelos cederam da posição de enxertia,

E a noite regressou fragilmente ao silêncio que fôra. 

 

 

 

 

01 junho 2021

BRIDESHEAD REVISITADO


Charles Ryder (Jeremy Irons), Sebastian
 Flyte (Anthony Andrews) e Aloysius.   
1. Cinema, literatura e televisão

As voltas que o mundo dá! Quem se atreveria a sonhar que seria a TV, que nos anos 70, para não dizer antes, quase matou o cinema, dizer que seria ela a retomar o fio à produção das obras de grande fôlego cinematográfico, fosse sob o formato do filme tradicional ou o do seriado. A longa metragem The Irish Man (O Irlandês, 2019), de Scorsese, produzida para a Netflix, é um belo exemplo disso, o filme A Rainy Day in New York (Um dia de Chuva em Nova Iorque, 2019), de Woody Allen, produzido para a Amazon, é um outro. Já nas minisséries ou nas séries atravessando várias temporadas, podem citar-se abundantes exemplos, encomendados ou produzidos por canais de streaming como a HBO, a Amazon Prime ou a Netflix, entre outros. 

No que diz respeito às séries, a capacidade financeira destas companhias e a aposta (sempre tímida) em abordagens inovadoras ou em produtos oriundos de países habitualmente pouco representados nas grandes redes de distribuição (como a Alemanha, a Turquia, a Colômbia ou a Índia), possibilitou algo semelhante à transformação que, nos anos 60, Bob Dylan, e outros que se lhe seguiram, introduziram na música popular ao puxar a narrativa sofisticada para dentro dela: tornou-se então possível contar histórias através de meios até aí condicionados pela concepção e pela duração, na música os clássicos 3 minutos, para que a publicidade pudesse ser posta no ar nos intervalos entre duas canções. No cinema, por seu lado, a duração clássica do filme raramente ultrapassava os 90 minutos que uma alma aguenta estar sentada numa cadeira (que não corresponde ao seu sofá em casa) sem se levantar para ir ao quarto-de-banho ou reabastecer-se de pipocas. 

Os anos 90 e 2000 foram, a nível televisivo, ricos neste tipo de experiências ficcionais  que apostaram em enredos complexos de travo literário e séries como Twin Peaks, de David Lynch (ABC, 3 temporadas: 1990, 1991, 2017), Six Feet Under (Sete Palmos de Terra, 5 temporadas produzidas entre 2001 e 2005 para a HBO), e Os Sopranos (1999-2007, 6 temporadas, também sob chancela HBO) trouxeram-nos, pela mão do pequeno ecrã, histórias de densa espessura narrativa, bem contadas, bem representadas e bem filmadas, que nos arrastaram por longas horas e, até, anos de prazer, não sendo fácil lobrigar nelas - sobretudo nas duas últimas citadas - o decair de qualidade e o cansaço que grande parte das séries exibe nos últimos capítulos, e de que as americanas Breaking BadHouse of CardsMadmen ou Homeland constituem decepcionantes exemplos, empobrecidas, sobretudo, pela exaustão da capacidade inventiva dos argumentistas e pelas forçadas reviravoltas do enredo, num momento do campeonato em que o espectador já se presta com mesquinha generosidade ao princípio da suspensão da realidade.

 

2. Brideshead Revisited: a série e o romance

Dito isto, e focando-me somente nas séries ficcionais, interessa-me recuar até onde tudo isto poderá ter tido o seu começo ou, dito de outro modo, identificar qual poderá ter sido o primeiro exemplo deste fenómeno de transposição da qualidade narrativa associada ao cinema e ao grande ecrã para a TV. Sem espanto, a resposta vem de Inglaterra e do longínquo ano de 1981, e resultou da adaptação, primeiro planeada para durar 6 horas, distribuídas por 6 episódios, do romance Brideshead Revisited (Brideshead Revisitado) de Evelyn Waugh, título desnecessariamente traduzido por Reviver o Passado em Brideshead (Moraes, 1982), e que a edição portuguesa em DVD da série (Prisvideo, 2004) manteria.

Capa e contracapa 1.ª edição portuguesa livro, 1982

O romance que deu origem a esta adaptação para TV, foi escrito em 1945, no termo da Segunda Guerra Mundial, e a sua realização foi entregue a (Sir) Michael Lindsay-Hogg, com quarenta anos de idade em 1979, quando tudo se iniciou, um realizador e homem de TV experimentado. Mas a produção de Brideshead Revisited foi azarada desde o começo e, na sequência de greves e atrasos vários na produção, Lindsay-Hogg teve de voar para outro projecto com o qual já se se encontrava contratualmente comprometido, deixando menos de uma hora de filme (os pedaços menos interessantes, diga-se) nas mãos dos produtores, a companhia televisiva independente ITV/Granada, que se associara à americana PBS na posterior divulgação do projecto. Quem acabou por herdar a responsabilidade de dirigir a enormidade do que faltava foi Charles Sturridge, um inglês de 28 anos com uma ténue experiência como actor, mas nada que, de longe ou de perto, o habilitasse a dirigir monstros sagrados da representação como (Sir) Laurence Olivier, (Sir) John Gieguld, Mona Washborne, Sephane Audran, ou Claire Bloom*. 

É o próprio Charles Sturridge que, consciente da sua imberbe experiência, conta os terrores por que passou, os dois maiores sendo o de não dispor de um guião cinematográfico suficientemente detalhado para o que se ia filmar, e o outro, com a breve excepção de Mona Washborne (com quem contracenara, como actor, em If, de Lindsay Anderson, 1968), o não conhecer, nem ser reconhecido por nenhum dos outros actores já contratados para a série. A estas duas inseguranças acrescentou-se o facto, muito prosaico, de Jeremy Irons, o personagem principal, ter um contrato assinado para dividir com Meryl Streep o papel cimeiro no filme A Amante do Tenente Francês (de Karel Reisz, 1981) e todos os atrasos, entretantos ocorridos com Brideshead, fizeram chegar a data de arranque de filmagens deste filme, pelo que durante grande parte da realização da série Irons teria de ser, numa base semanal, partilhado entre o plateau da A Amante do Tenente Francês e o de Brideshead!

Mas, apesar de todos os atrasos e sobreposições, as filmagens decorreram sob bons auspícios e até Laurence Olivier, conhecido por ser um tipo difícil e por vezes impossível, foi deliciosamente doce com o novel realizador, exigindo deste que o tratasse por Larry quando o outro se preparava para o diferenciar com um "Sir". Para tudo isso, continua a confessar Sturridge, terá contribuído aquele que, embora de pedra, é um dos principais personagens da série: o palácio de Castle Howard, onde decorre e foi filmada grande parte da acção. Castle Howard, no Yorkshire, há séculos nas mãos da família Howard e o cenário mental que Evelyn Waugh escolheu para situar o seu romance, foi onde ficaram instalados alguns dos protagonistas durante vários meses das filmagens (designadamente Claire Bloom e Jeremy Irons), o que permitiu que os actores e a relativamente pequena equipa de filmagem se deixassem embeber pelo espírito do local e estreitassem relações entre eles.

Quando o, duplamente, novo realizador assumiu o projecto, deu-se conta de que mais de 82 % do guião e dos diálogos se encontravam por escrever, circunstância que teve de ocultar de Laurence Olivier, habituado a receber e decorar as suas deixas com confortável antecedência. Saiu-lhe do pelo, a ele e ao produtor Derek Granger, esse trabalho suplementar de escrita, que ocupava os dois dias da semana que as filmagens, arrastadas ao longo de mais de um ano, lhe deixavam livre. Foi por essa altura que surgiu a ideia de se recorrer à voz-off de um narrador, presente ao longo de todos os episódios, voz que iria recordando o passado e viria a constituir uma trave-mestra da série, conferindo robusta consistência ao enredo. Para isso escolheram com genial intuição a voz de Jeremy Irons que, numa dicção perfeita e em tom dolentemente hipnótico, vai comentando, apresentando ou antecipando os acontecimentos, o que levou a que praticamente todo o texto do romance tenha migrado, intacto, para o interior da série. É raro encontrar algo tão fiel e tão semelhante a uma transcrição do texto que lhe deu origem, e é um pouco como se o próprio Evelyn Waugh nos estivesse a ler em voz alta o seu romance, como, na série, faz Lady Marchmain (Claire Bloom) às aventuras policiais do Padre Brown (personagem famosa do também devoto e beatificado escritor inglês G. K. Chesterton).
Laurece Olivier recebe instruções de Charles Sturridge.

E nunca mais o espectador consegue escapar ao tom encantatório de Irons que, com uma nostalgia gémea da que perpassa o romance O Leopardo (de Giuseppe Tomasi de Lampedeusa, 1959, e levado ao cinema por Luchino Visconti em 1963), nos conta sobre um mundo aristocrático, a que ele presenciou, de dentro, a queda e o desaparecimento. Tudo perece, tudo muda, a condição necessária é apenas a de se durar o número de anos suficiente para ser testemunha. É sobre isto que se debruça Brideshead Revisited, o romance e a série, e, diria, o único pormenor irritante, deriva, como por vezes sucede, de os escritores quererem demonstrar ao leitor uma qualquer tese, neste caso a história da conversão a uma religião, o catolicismo, de um narrador no início agnóstico. Nesse aspecto, a insistência de Waugh traz-nos à lembrança Graham Greene, que, precisamente, se consegue tornar maçador quando insiste na mesmíssima tecla da iluminação divina (vide, por exemplo, O Nó do Problema ou O Poder e a Glória).  


3. Brideshead em Portugal

Desde os dias, no Outono de 1982 (logo seguindo a exibição da série no canal 2 da RTP), em que a Moraes deu à estampa a tradução do romance de Waugh, uma edição a que é difícil pedir maior mau-gosto para a capa escolhida e para o texto apressado e absurdo da contracapa, a Relógio d'Água encarregou-se de uma nova edição em 2002, também ela não muito inspirada na escolha da artcover, edição recentemente reimpressa aproveitando, para a nova capa, imagens da sequela fílmica a que o romance foi sujeito. Como acontece com a maior parte das insistências, esta mais valia não ter visto a luz do dia (Brideshead - Desejo e Poder, realizado por Julian Jarrold, 2008), pois, sobretudo a quem viu a série original, é quase doloroso presenciar a escolha dos actores, os maneirismos e o mau-gosto de tudo aquilo. Concedemos que não seria fácil fazer diferente, pois, como dizia Charles Sturridge, o realizador do projecto de 1981, a série vive do detalhe, mais até do que da acção, e não se consegue chegar a tanto com as menos de 12 horas e os 11 episódios para que cresceu o projecto inicial.


Apesar da fortuna que custou, dos quase dois anos de produção, Brideshead Revisited foi um enorme sucesso e tornou-se uma série de culto em todo o mundo, inclusive em Portugal, e muita gente, ao explorar a restante obra literária de Evelyn Waugh, ficou surpresa ao descobrir que o autor era, sobretudo, um escritor satírico. É verdade, Brideshead Revisited, praticamente a sua única obra 'séria' e o seu maior sucesso, é uma excepção à regra.

 

4. Brideshead e Os Maias

Num artigo no Primeiro de Janeiro de 24 de Julho de 2006, A. Campos Matos, especialista em Eça de Queiroz e autor de um conhecido dicionário sobre o escritor português, lamenta que Os Maias não tenham sido levados ao ecrã pelos ingleses,  referindo-se precisamente ao magnífico resultado final revelado por Brideshead Revisited e, simultaneamente, ao desastre da produção telenovelesca do romance português, perpetrada em 2000 pela cadeia de TV brasileira Globo, que, apesar de ter gasto um milhão de contos no assunto, assassinou a obra de Eça, deixando unicamente uma má memória do feito. 

Cenário do filme Os Maias, de João Botelho.

À época, Campos Matos, por natural incapacidade em prever o futuro, não podia ainda discorrer sobre os tratos de polé a que, oito anos mais tarde (2014), o realizador João Botelho submeteria a mesma obra, recorrendo, por falta de dinheiro, por preguiça crónica, ou por ambas as coisas, a cenários pintados para nos fazer crer na Lisboa oitocentista de Eça. É claro que, a posteriori, a desgraça seria retocada retoricamente pela brocha dos argumentos de que o recurso a tamanha artificialidade fazia contrastar a realidade da história, e outras estopadas de cartilha, nenhuma das quais dava suficiente cobertura à deficiente iluminação, ao péssimo som, à dicção a pedir legendas e à falta de naturalidade com que os actores e o cinema português geralmente nos brinda, não obstante as abundantes estrelas dos críticos locais e das palmas que o cinema de paragens exóticas sempre obtém em festivais internacionais.

 

5. Notas finais: actores e personagens em Brideshead

Jeremy Irons é o actor que produz maior impacto no espectador, particularmente num primeiro visionamento da série. Isto deve-se, para além da excelente representação, quer ao papel como Charles Ryder, em torno do qual se estabelece e edifica a perspectiva de toda a história, quer à sua voz, que atravessa, invade e sustenta a imagem do primeiro ao último episódio.

Cara (Stephane Audran).
A ele se juntam outros actores extraordinários, que apesar de apenas surgirem na tela durante breves minutos não deixam os créditos por mão alheias: é o caso de Laurence Olivier (cuja presença na série foi filmada numa única semana), de John Gieguld e de Sephane Audran, mulher do realizador francês Claude Chabrol, a quem foi confiado o papel da sofisticada amante italiana de Lord Marchmain, por quem ele trocou a mulher e a Inglaterra num exílio auto-imposto. No que se refere a John Gieguld, um gigante dos palcos e do cinema com a estatura de Olivier, foi-lhe atribuído a curta persona de Edward Ryder, o pai de Charles, um indivíduo excêntrico, de humor peculiar, que não sabe bem a idade do filho e prefere que este não esteja em casa! Gieguld é absolutamente espantoso na condução do personagem, que se revela em olhares, fungadelas e curtas frases, sibilinas e como que desinseridas de contexto.  

A estes mestres da representação é forçoso juntar a actriz inglesa Claire Bloom (no papel da fria, premeditada e manipuladora Lady Marchmain), actriz por quem se apaixonara Charles Chaplin em Limelight (Luzes da Ribalta, 1952) e, à época da série, ainda casada com o domesticamente intratável escritor norte-americano Philip Roth. Claire Bloom era já uma velha conhecida de Laurence Olivier, com quem contracenou no filme Ricardo III (realizado por Olivier em 1955), e de John Gieguld, também actor em Ricardo III, sob cuja direcção cénica, ou parceira na contracenação, pisou vários palcos ingleses, designadamente em peças de Tchékhov.   

Edward Ryder (John Gieguld).
Dos menos conhecidos nesses longínquos dias de estreia da série, e embora todos os desempenhos sejam de nível excelente, o espectador retém vários e, desses, escolheria, para começar a recordar, a personagem de Anthony Blanche, encarnada deliciosamente pelo actor Nickolas Grace. Anthony Blanche é, no romance, o homossexual assumido e provocador, um tipo meio francês, meio latino, um pouco judeu, conhecimento de Proust e Gide, amigo de Diaghilev e Cocteau, um deslocado em todo o lado, mormente no ambiente universitário e recto da Oxford dos anos de 1920. Apesar de gago, Blanche não deixa de tornar claro o seu pensamento sobre o que se passa à sua volta, revelando-se duro e lúcido nas análises que faz dos amigos, designadamente de Charles Ryder e de Sebastian Flyte, com quem poderá ter tido um caso.

Sebastian, foi entregue ao actor Anthony Andrews, que o interpreta igualmente de modo magnífico, na sua beleza e atitude um tanto frívola, mas que, igualmente, sabe transmitir ao espectador o lado negro, angustiado e decadente do Sebastian Flyte dos últimos dias.

Claire Bloom e Laurence Olivier (Ricardo III).
Falando dos Flytes, a família central do enredo, não pode deixar de ser mencionado um outro deles (Lord Brideshead, o herdeiro detestado pelo pai), confiado ao desempenho do actor Simon Jones, que se encarrega com rigor do papel, dando-nos a conhecer os contornos de um homem aparentemente normal e formal, mas retorcido por dentro, com um distanciamento frio das coisas que o tornam pouco humano.

Talvez só num segundo ou terceiro visionamento da série, de tal modo esta é rica em detalhes e micro-detalhes, se conseguirá libertar a atenção sobre o belíssimo desempenho da actriz Phoebe Nicholls no papel de Cordelia Flyte, a mais nova dos Flyte, obviamente ofuscada, por exigência dramática do enredo, pela presença feminina de Diana Quick (Julia Flyte, a irmã mais velha). À época com 22 anos, Phoebe veste a pele, nos primeiros episódios da série, de uma rapariguinha no começo da adolescência, para surgir, nos últimos episódios, como uma jovem mulher, a quem a juventude foi praticamente roubada pelas circunstâncias que a rodeavam e muito consciente de como os anos passaram por si. 

Cordelia Flyte (Phoebe Nicholls).

Como curiosidade final, refira-se que Celia Ryder (casada com Charles Ryder e irmã de Boy Mulcaster) é interpretada por Jane Asher, aquela que foi a primeira mulher de Paul Mc.Cartney. Com 34 anos, e há muito divorciada do Beatle na altura das filmagens, Jane espelha na perfeição do seu desempenho o retrato da socialite ideal, uma mulher supérflua que tudo sabe fazer e faz para promover a imagem pública do marido, saltitando à superfície dos acontecimentos com um alheamento e uma frieza que se adivinham tão temíveis como as manobras predatórias de um louva-a-deus.

 

Elenco principal:

Jeremy Irons (Charles Ryder)

Anthony Andrews (Sebastian Flyte)

Diana Quick (Julia Flyte)

Laurence Olivier (Lord Marchmain)

Claire Bloom (Lady Teresa Marchmain)

Stephane Audran (Cara)

John Gieguld (Edward Ryder)

Mona Washbourne (Nanny Hawkins)

Phoebe Nicholls (Cordelia Flyte)

Nickolas Graces (Anthony Blanche)

Jane Asher (Celia Ryder)

Simon Jones (Lord Brideshead)

John Grillo (Mr. Samgrass)

Charles Keating (Rex Mottram)

Jeremy Sinden (Boy Mulcaster)

John Le Mesurier (Father Mowbray)

Celia Ryder (Jane Asher).

Realizadores: Charles Sturridge (esmagadora maioria dos episódios) e, acessoriamente, Michael Lindsay-Hogg.

Produtor : Derek Granger.

Adaptação do livro: John Mortimer, posteriormente Charles Sturridge e Derek Granger.

Música: Geoffrey Burgon. É inesquecível e cola-se à história a música original, composta por Geoffrey Burgon, invocando a música para metais de Mozart ou Haydn, o que se adequa como uma luva ao ambiente oitocentista de Howard Castle ou de Oxford.

Estreia da série: 12 Outubro 1981 (UK); 18 Janeiro 1982 (USA); Portugal: ignorado (talvez outono de 1982). 

Suporte: 4 DVD, durando aproximadamente 12 horas no seu total e distribuídos por 11 episódios. O episódio-piloto e o episódio final têm cerca de 100 minutos de duração e cada um dos outros dura, aproximadamente, 52 minutos.

 

*Recordações de Claire Bloom sobre as filmagens de Brideshead Revisited podem ser apreciadas na excelente autobiografia da actriz Leaving a Doll's House, publicada pela Little, Brown em 1996.

25 abril 2021

25 ABRIL PLUG-IN



Na copa de uma azinheira

De que já não sabia a idade

Aterrou uma Senhora

Movida a electricidade

16 abril 2021

PARA QUEM É, BACALHAU BASTA

 

Ouvi com os meus olhos que o mui nobre e rico reino da Dinamarca decidiu suspender de vez o uso da vacina contra o Covid19 da Astra Zeneca, pois, pelos vistos, esta vacina pode provocar um ou dois casos de coágulos sanguíneos por cada milhão de doses administradas. Com cinco milhões de habitantes, a Dinamarca poderia então vir a ser vítima de eventuais meia-dúzia de coágulos na totalidade dos seus súbditos: uma autêntica razia, sobretudo se comparado com as vidas que uma vacina poupa! 

Mas como é país humanista e acha pecado deitar fora os mais de dois milhões de doses que ainda guarda, a Dinamarca, tal como quem oferece iogurtes cujo prazo caducou aos pobres da esquina, vai doá-las aos pretos. É claro que os termos a usar para os destinatários do presente nunca serão tão crus e ouviremos a diplomacia lançar mão de expressões como mais desfavorecidosem vias de desenvolvimento, solidariedade, inclusão e outras tretas. Mas a gente sabe quem são, não sabe? São aquelas desgraças ambulantes onde, gente como os nórdicos, só se permite ir passar uma semana a algum resort, pois, por paradoxo, esses locais têm geralmente umas lindas paisagens e um clima maravilhoso. Deus não é justo!

Quanto a mim, que sempre fui mais moreno do que louro, aguardo com ansiedade que me chamem para a 2.ª dose da minha vacina Astra Zeneca.

09 abril 2021

O DESENCALACRADOR DOS COLLANTS ROSA

Eis que surge um novo herói no lamaçal portugorriquenho: o Desencalacrador dos Collants Rosa, uma espécie de Robim das Matas invertido, pois em vez de defender os pobres contra os ricos, como o original, escolheu o inverso: defender os ricos contra os tesos. E os tesos somos nós todos, aqueles que pagamos todas as contas (BPN, BES, TAP, Novos Bancos) e não temos milhões nem oportunidade de vir a deitar a mão a alguns, a não ser pela fantasia, como diria Ivo Rosa, da esperança no Euromilhões ou na Raspadinha. Limitamo-nos, como com aqueles tipos que na hora da conta têm de ir ao quarto-de-banho, a ficar e a pagar o à vontade deles diante dos nossos olhos.

Mas se você é rico, e quando falo em rico não falo de milhares ou centenas de milhares de euros, mas de milhões, vários, pois, para que se possa manter uma vida suficientemente regalada torna-se necessário estar sempre a desembolsar: nos advogados, que estão caríssimos, nos subornos, nos almoços, na segurança, por aí fora. Se você é abonado, estava eu a dizer, ou pode, pelo menos, usar a sua importância actual como hipoteca de uma riqueza futura, tem agora um tipo que olha por si como um anjo-da-guarda, que garante que, seja o que for que fizer, mesmo que esteja acusado de várias dezenas de crimes, nada lhe acontecerá. Nada, ouviu? Nada de nada, o desencalacrador fará uma pirueta, humedecerá o dedinho para virar a página à sentença, descomporá o Ministério Público de passagem, e mandará toda a gente em paz para as respectivas mansões. Tudo se sumirá como por magia. Ficarão, somente, umas folhecas do processo para inglês ver e para tapar as vergonhas, mas mesmo esses pecadilhos já estarão prescritos pelo que não correrá nunca o risco de lhe acontecer o que sucede a um Rui Pinto ou a um sem-abrigo qualquer.

Hoje foi um dia histórico para José Sócrates, Carlos Santos Silva, Ricardo Salgado, Armando Vara, Zeinal Bava, Henrique Granadeiro e todos os outros, actuais e futuros, aprendizes da falcatrua, que sentem agora total à vontade para fazer o que lhes apetece: o crime compensa em Portugal, a própria Justiça, ao seu mais alto nível, sanciona esse princípio! Era ver a cara satisfeita de todos, quase rebentavam de alegria, Sócrates de novo deslumbrado e expansivo perante as câmara da TV, perdigotando louvores ao novo amigo Ivo e já ruminando ameaças pelo mal que lhe fizeram. Quem sabe, quem sabe, se um dia não pode outra vez mandar nisto tudo, forrar as paredes de uma penthouse a fotocópias? E, calcula-se, já começam todos a fazer telefonemas nervosos aos seus advogados, a saber se não poderão já meter o Estado em tribunal, pedir indemnizações chorudas por tremendos danos morais! Que isto não se faz a um cidadão! Do lado de lá do fio, os advogados, depois de se assegurarem que o telemóvel é seguro, recomendar-lhes-ão calma, que não embandeirem em arco nem usem em público a linguagem desbragada do Ivo no tribunal; que, sobretudo, não se ponham já para aí a gastar a massa acumulada, a dar nas vistas...; nada de contactos com os offshores! Tudo isto tem de se fazer pau-latina-mente, de pedra em pedra até à prescrição final.

Hoje foi um grande dia para todos eles e terá, mesmo que ainda não o saiba, também sido um grande dia para André Ventura e o seu Chega!, pois a raiva cobra dividendos, muitas vezes da pior forma. Ventura bem pode mandar acender duas velinhas: uma ao Ivo Rosa e outra a VanDunen, que mantém a Justiça num banho-maria e numa modorra prescricional que convém a todos.

 


05 abril 2021

KRIS, COM K, COMO EM KRISTOFFERSON

Kris Kristofferson & Bob Dylan (1973).
No final do Outono de 1965, então com 24 anos, Bob Dylan trocaria Nova York por Nashville, no Tennessee, para aí gravar um álbum de misterioso nome (Blonde On Blonde), obra que ficaria para a história da música popular como um dos melhores álbuns de sempre e, porventura, o melhor do autor.

Para além dos dois músicos que já conhecia de trabalhos anteriores e quis levar consigo para Sul (Al Kooper, de Nova York, e o legendário guitarrista Mike Bloomfield, de Chicago), Dylan contou com a colaboração de extraordinários instrumentistas locais, arregimentados pelo seu novíssimo produtor Bob Johnston, um homem que, nos anos seguintes, ser tornaria o produtor e fiel acompanhante, como músico, nas digressões mundiais de Leonard Cohen.

Nos estúdios da Columbia em Nashville, cidade famosa pela impressionante qualidade da sua produção musical, havia um porteiro, um desconhecido já com perto de 30 anos, que, para além dessas funções acumulava as tarefas de esvaziar os cinzeiros e tomar apontamento das necessidades dos músicos em estúdio. O nome desse pau para toda a colher era Kris Kristofferson e já compunha as suas coisitas em pleno anonimato ('Viet Nam Blues', 1965), mas menos de cinco anos depois tornar-se-ia uma estrela de primeira grandeza por várias canções que escreveu como 'Help Me Make It Through the Night' e 'Me and Bobby McGee' (ambas de 1969) e, no ano seguinte, por 'For the Good Times', uma canção que veria mais de 200 versões, entre as quais as de Elvis Presley, Dolly Parton, Dean Martin, Willie Nelson, Johnny Cash ou Norah Jones. Quanto a 'Me and Bobby McGee', com 215 versões, aconteceu uma que suplantou todas as outras e eternizou a canção: a invocada por Janis Joplin, em 1970, rapariga que, por essa altura, confessaria a Leonard Cohen, num elevador do hotel Chelsea, em Nova York, a grande paixão que nutria pelo autor da canção (um bonitão louro de 1,80), mais até do que pelos seus dotes artísticos.

Nos anos que se seguiram, Kris Kristofferson, comporia 56 originais e entraria como actor, por vezes principal, em dezenas de filmes, como Alice Já Não Mora Aqui, de Scorsese (1974) e Pat Garrett & Billy the Kid (este último interpretado por Kristofferson), de Sam Peckinpah (1973), um filme com banda sonora escrita por Bob Dylan. Eu mesmo, num cinema ao ar livre em Angra do Heroímo, na ilha Terceira, vi Convoy, em 1979, onde Kristofferson é um camionista revolucionário e justiceiro.

Embora a versão de 'Me and Bobby McGee' de Joplin seja inultrapassável e inseparável da memória que conservamos da canção, apesar das suas mais de duzentas versões nenhuma consegue chegar ao modo como o próprio Kris Kristofferson interpreta 'For the Good Times', uma canção triste como a tristeza. Das vezes, muitas, que ele a cantou desde que a escreveu, as melhores interpretações são as tardias, já dos anos 80 e 90, como se ele tivesse precisado da curtição dos anos para aprofundar o sentido a cada palavra do poema. Deixo uma versão dessas, tardia, feita ao vivo, e se, chegado ao final, não sentir os olhos carregados de lágrimas então é porque não percebeu nada de nada ou, na melhor das hipóteses, porque ainda não percebeu nada de nada, pois, dizem, a esperança é a última a morrer.  

   

  

Don't look so sad. I know it's over
But life goes on and this world keeps on turning
Let's just be glad we had this time to spend together
There is no need to watch the bridges that we're burning

Lay your head upon my pillow 
Hold your warm and tender body close to mine
Hear the whisper of the raindrops
Blow softly against my window
Make believe you love me one more time
For the good times

I'll get along; you'll find another,
And I'll be here if you should find you ever need me.
Don't say a word about tomorrow or forever,
There'll be time enough for sadness when you leave me.
 

 



 

31 março 2021

O PÃO NOSSO

Em tempos pandémicos muita gente desatou a fazer pão em casa, percebe-se isso pelo crescimento das prateleiras de farinhas e fermentos nos supermercados. Embora o pão, por ser alimento cozinhado a altas temperaturas e manipulado com relativo cuidado, não seja um veículo de transmissão de Covid19 com que valha a pena ganhar brancas, aqui fica, para as queridas leitoras, uma receita de pão. É simples e prazeroso de fazer, posso adiantar, e a extensão destas linhas só tem a ver com o detalhe com que transmito a receita, pois, na prática, tudo se reduz a meia-dúzia de gestos e de silêncios encadeados.

O que vai precisar:

a) farinha (trigo ou centeio ou, melhor ainda, as duas em mistura). Há à venda sacos de 5 e 25 Kg, pois um pacote de kg vai-se num fósforo. 

Nota: Se fizer pão uma ou duas vezes por semana, um saco de 5 kg aguenta-se perfeitamente sem mais, desde que o mantenha bem fechado. Se optar por um saco de 25 kg, o melhor é distribuir o pó por vários sacos de plástico e congelar. Mesmo congelada, a farinha mantém-se sempre em pó e pronta a ser usada de imediato. 

b) fermento (fresco ou seco)

c) sal

d) água 

e) taça grande para misturar

f) recipiente que vá ao forno

g) papel vegetal

h) papel de prata

i) forno.

j) Use, por exemplo, uma chávena almoçadeira como medida. 

 

Como fazer (pão grande, de aproximadamente 500 gramas, ver fotos)

1. Meça a farinha para a taça grande: 3 chávenas de farinha de trigo; ou 2 chávenas de farinha de trigo + 1 de farinha de centeio.

2. Faça um buraquinho na farinha e deposite aí uma colher de chá de sal, rasa (seja sempre comedida a usar sal, pois aumenta tremendamente a tensão arterial). Noutro ponto, diferente, escave outro buraquinho e deposite aí o fermento (cada saqueta de fermento seco tem aproximadamente 11 gramas e metade de uma saquete é o suficiente para fazer 1 pão).

3. Misture bem tudo com uma colher de pau.

4. Encha a chávena almoçadeira com água e vá despejando aos poucos sobre a farinha. Vá revolvendo com a colher de pau. A pouco e pouco, o pó vai desaparecendo e obteve uma massa grosseira. Vá acrescentando água até que não reste pó de farinha no fundo da taça. Em princípio gastará 1 chávena e 1/2 de água para o conseguir.

5. Terá agora uma bola pegajosa de cor acinzentada no fundo da taça. Cubra com um pano e deixe repousar por 8 a 12 horas. Ao fim deste tempo verá que a massa cresceu e ocupa agora quase toda a taça.

6. Forre o recipiente que vai ao forno (eu uso um de barro) com papel vegetal, de modo a cobrir o fundo e as paredes. Salpique o fundo com farinha em pó, de modo a impedir que a massa adira ao papel no fim de cozedura e o pão fique queimado na base.

7. Espalhe farinha em pó sobre uma superfície lisa (uma bancada) e verta aí a taça com a massa que esteve a fermentar. Use uma espátula de madeira para raspar o que ficou aderente às paredes e ao fundo. Trabalhe um pouco esta massa com as mãos, rolando-a e amassando-a até que ganhe um certo formato de bola achatada. É esta a fase mais satisfatória do processo: o cheiro que se desprende é delicioso e o contacto da massa com as mãos é macio, elástico e funciona como uma massagem. Sentirá também uma sensação de realização e de que se está a aproximar de algo que, em breve, estará concluído a seu favor.

8. Deposite a bola obtida no recipiente de ir ao forno. Deixe repousar cerca de 40 minutos, para que se adapte ao novo local e ganhe o seu formato.

9. Ligue o forno, que deve ser sempre mantido forte ao longo de todo o processo.

10. Tape o recipiente com papel de prata, de modo a evitar que a massa seque demasiado durante a cozedura. Meta no forno.

11. A cozedura dura cerca de meia-hora, terá que ir controlando. Uns minutos antes de a dar como concluída retire o papel de prata para que a superfície do pão adquira uma crosta crocante. Com a experiência aprenderá a lidar melhor com os tempos desta fase: nas primeira vezes poderá usar um palito para apreciar o grau de cozedura (se vier massa agarrada, a coisa ainda não está pronta). Depois, o processo tornar-se-á quase instintivo e tenho uma amiga que consegue avaliar se a cozedura está no ponto pelo tipo de cheiro que lhe chega da cozinha. Pessoalmente, ainda não atingi esse estado de perfeição.

12. No final, retire o pão do recipiente e ponha-o a arrefecer sobre duas colheres de madeira, por exemplo, de modo a que o ar circule, não haja ressoamentos e o pão fique maravilhosamente pronto a ser comido, sem mesmo ter de usar a faca para derreter a manteiga.

 

Nota: Ao contrário do pão que se compra no supermercado, que fica uma borracha no dia seguinte, este pão aguenta-se firme e fresco vários dias, sem precisar sequer de o torrar.


© Fotografias de pedro serrano, 2021.

 

24 março 2021

O PARAÍSO FISCAL DA EDP


Talvez você seja um daqueles que, como eu, usa a conta bancária e a internet para pagar contas. Se assim é, talvez já se tenha apercebido do pormenor, da diferença de tratamento entre privados e Estado. Quando, pela internet, se vai a pagar uma qualquer conta (seja água, telefone ou outra) e por modesta que seja a quantia, o computador, antes de dar a transacção por concluída, pede que confirmemos os valores de várias formas, sendo uma delas o preencher de três números, interpretados num pequeno mapa de referências que o seu banco lhe forneceu, e outra a de inserir um código, que lhe é enviado através de um SMS para o telemóvel. Não poucas vezes, para nossa segurança, somos obrigados a uma combinação dos dois procedimentos.

Tente agora, pelo mesmo meio, fazer um pagamento ao Estado, seja o IRS, o IMI, ou o imposto sobre veículos. Mal se insere o valor a pagar e se clica no rato a transação fica concluída, sem códigos, senhas ou outras maçadas e quase se ouvem as mandíbulas do fisco a entrechocar-se, como quando se atira um pedaço de bife a um cão e este o apanha em pleno voo! Ou seja: connosco, o Estado não está cá com preâmbulos, hesitações éticas, valsas ou tangos, para passar o dinheiro para o lado deles!

Mas isto somente no caso de você ser um reles e banal contribuinte, claro, pois se for uma empresa ou uma entidade com pergaminhos, como a TAP ou a EDP, o critério já se adelgaça, flexibiliza, excepcionaliza, e poderá furtar-se com facilidade, por exemplo, a pagar um imposto de 110 milhões de euros. Foi o que, através de uma gentileza do Bloco de Esquerda, ficámos a saber que sucedeu recentemente com a EDP, que decidiu vender 6 barragens portuguesas aos franceses. Como dizia um amigo meu "eu nem sabia que se podiam vender barragens, quanto mais assim, como pipocas". Pois é, estamos ambos ultrapassados. Não só se pode, como se pode ainda escapar a pagar o imposto devido ao Estado pela venda. Como?!, quererá você saber, já a pensar se poderia fazer o mesmo... É simples: constitui uma empresa-fantasma dois dias antes, declara que está a proceder a uma restruturação da empresa (EDP), passa todos os activos para a nova empresa e isso iliba-o, em nome do progresso e do empreendedorismo, de pagar uma série de impostos, mesmo que essa empresa-fantasma só tenha um funcionário e feche portas mal o negócio for encerrado. Mas isso é uma vigarice, dirá, dirão os transmontanos que ficaram a arder nos tais 110 milhões de imposto que, a ser cobrados, seriam para bem da sua região. Que não, que é perfeitamente aceitável, vem dizer o Ministro do Ambiente, naquele seu tom pausado de batráquio barítono e a quem Rui Rio, acertadamente, apontou parecer ele um advogado de defesa da EDP. E a EDP, senhor ministro, olhe que não precisa de quem a defenda: poderá ainda aguentar mais alguns consultores, mas, advogados, tem do mais finório que anda por aí. Apesar do recente afastamento/arrefecimento do Mexia e do Manso Neto (tipo a quem, só de espreitar pelo olho-de-peixe, não abriria a porta de casa para que me fosse contar a luz), apesar disso, eles ainda lá mantêm malandros suficientes para lhe olear as curvas; esses dois deixaram escola na casa. 

Quem rapidamente cheirou o perigo de água no assunto das barragens, foi o nosso Costa, que logo chutou a bola para canto com o argumento de que o fisco teria de ter dado conta de uma manigância daquele calibre! Quase vi a Directora-Geral da Autoridade Tributária e Aduaneira, que jantaria tranquilamente em frente à TV, a engasgar-se com a sopa ao ouvir aquilo, assim, do nada, sem aviso e em horário nobre:  já não pode um alto-funcionário vestir o roupão, calçar as pantufas e ter um momento de paz! Ora, uma destas! Então não era suposto que pudesse ser assim? Não era admitido por todos, segundo os códices implícitos e nunca escritos, que a EDP se classificava como uma daquelas entidades que possui um Visto Gold anti-dores-de-cabeça?

Agora, após o toque do primeiro-ministro, vem-nos o Matos Fernandes confirmar que o assunto é assunto da autoridade tributária e não do Governo e, como sempre acontece, esta iniciou um rigoroso inquérito, enquanto vários juristas engravatados nos vêm dizer, via Skype, que talvez não tenha sido ilegal de todo o que se fez... Enfim, o costume quando uma grande vigarice é trazida à tona. Para já, a enguia continua a estrebuchar e a escorregar-lhe das mãos perante os olhos atentos da opinião pública, pois não lhe conseguiram deitar ainda a suficiente terra por cima. 

Compreensivelmente ofendido com tudo isto e com o modo como tem sido tratado, o suposto e alegado arguido Manso Neto fez saber publicamente que abandona a EDP, de vez, e vai mudar de patrão. Um pequeno passo para ele e uma grande notícia para a EDP ou, como preferiria dizer Marta Temido, um assunto de "grande complexidade".