Photos: © Pedro Serrano, Mumbai (India), November 2016. Drawing: Leonard Cohen, The Book of Longing, 2006.
Photos: © Pedro Serrano, Mumbai (India), November 2016. Drawing: Leonard Cohen, The Book of Longing, 2006.
In 1997, a man named Abraham George decided to roll up his sleeves and do something that could change and, above all, demonstrate the lack of foundation of a previously established destiny and overcome the apparent impossibility of breaking this cycle of poverty and misery. Despite his name, Abraham George is a native of South India who made his life and fortune on Wall Street in the United States. One day, in his early fifties, George sold the company, packed his bags, returned to India, and applied his wealth and organizational and management experience to a project called Shanti Bavhan. It's not so easy to define Shanti Bavhan, as it's not one of those indulgent charity projects that drops a few crumbs, takes a few quick English courses and walks away, tax deductions included. Shanti Bavhan's very conception made the link between promoters and beneficiaries definitive. Let me see if I can explain. Shanti Bavhan's first school is based in Tamil Nadu, southern India, and is designed to accommodate children from untouchable families. He takes them in, at the request of their parents, at the age of four or five and only lets them go when they get their first job, some seventeen or eighteen years later. A long-term project and commitment, therefore. Children begin living on the organization's premises, where they attend kindergarten, then primary school and then secondary school. They live there as a boarding school, but at least twice a year, during the holidays, they return to their parents' house, so that they can maintain contact with their family and the community they come from. Later they enter the universities that exist in India, to which they applied using the usual national method, continuing their studies and stay in the big cities, which are paid for and accompanied by Shanti Bavhan. When they graduate and begin to fly on their own wings, the organization expects them to return the human capital and knowledge accumulated to the village where they come from, helping to raise the standard of living of its people.
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I came into contact with all of this through a Netflix documentary (miniseries) called Daughters of Destiny. This documentary, very illustrative and cleverly-made, follows the lives of four or five girls, from when they were little until the day they finished their university studies and started working, one as a lawyer, another as a journalist, another as a nurse. It shows everything that is important and, sometimes, it is hard to watch what our eyes see, because it is not one of those cheesy scenes that TV likes to push on us, whether to sell dog food, hamburgers or subscriptions to the latest generation fiber optic devices. There is hope for a tomorrow that sings, yes, but the singing is sometimes hoarse, croaking and sad and if the little child fails to take advantage repeatedly he is made to walk away to make room for someone else. They all have the right to a chance, but it is a unique chance. It's a tough, very tough journey and one of Dr. Kennedy sons, already born in America and on welfare, who is preparing to take over what his father started, complains about the harshness of the rules; has doubts... One or another of the girls, in that series, also has doubts, feels that the project has torn her in half, divided her, she can no longer return to the village and the family she came from and knows that the school, in Shanti Bavhan, cannot give her shelter forever: one of them even develops anger towards Dr. George. It's hard to grow up, it's hard to live, the portion is sometimes bitter. But before our attentive and moved eyes, the value of the initiative and its global success were demonstrated and, indeed, in the end, an untouchable can go as far as any other human being. It's all about opportunity, as Dr. Abraham George stated when he decided to commit to all this.
I know India reasonably well (although it’s hard to use the term, because, in its greatness and diversity, one never gets to know India, not even reasonably well) and watching that documentary affected me enough that, in the following days, I went to spy on the Internet the organization's pages. How could I make any contribution to something so well thought out, so serious and so useful? Shanti Bavhan's website answers any questions we may have as it is also very well thought out and presented. The interested party can donate money in whatever way they are most interested in: they can contribute to the equipment of a classroom, they can contribute to paying for the solar generators that heat the water in the buildings, they can help buy towels for a dormitory or, if they prefer, they can dedicate the contribution to the education and maintenance (food, clothing, etc.) of a child. They also accept volunteers for work, but warn that they will be ruthlessly selected and that life is hard there: they are also well aware of the plague of instant solidarity, which runs out after two days or when it is realized that there is no hanger to hang the fur coats...
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Notes: Daughters of Destiny can be seen on Netflix;
Shanti Bavhan's website is at: https://www.shantibhavanchildren.org
© elephant photography: pedro serrano, Udaipur (India), 2013.
| Surya |
Uma casta é um grupo social hereditário, no qual a condição do indivíduo transita de pais para filhos, marcando a sua existência com tal determinismo que cada um só se pode casar e constituir família com pessoa do próprio grupo. Na Índia, os quatro grupos principais eram (ainda são, mormente em zonas rurais) os brâmanes (sacerdotes e letrados), os xátrias (militares), os vaixás (comerciantes) e os sudras (os camponeses e operários). Esta divisão apoia-se no corpo de Brama, o primeiro Deus da trindade do hinduísmo: assim, os brâmanes teriam nascido da cabeça de Brama, os xátrias dos braços, os vaixás das pernas e os sudras dos pés. Mas restava ainda a poeira por baixo dos pés do Deus e aí, tão baixo que nem um grupo constituem, estariam os dalits, os intocáveis, intocáveis pois o facto de serem tocados conspurca quem os toca... Como é natural, uma das profissões mais associadas a esta sub-gente é a de limpar a merda dos outros e a função vai também passando de pais para filhos. Se eu limpo latrinas, o meu filho há-de escarafunchar retretes, assim como o meu neto e as respectivas mulheres, e assim seja até ao final dos tempos. Um destino de merda.
Em 1997 um senhor chamado Abraham George resolveu arregaçar mangas e fazer algo que pudesse mudar e, sobretudo, demonstrasse a falta de fundamentação de um destino previamente estabelecido e contornasse a aparente impossibilidade de quebrar este círculo de pobreza e de miséria. Apesar do nome, Abraham George é um nativo do sul da Índia que fez a sua vida e a sua fortuna em Wall Street, nos Estados Unidos. Um dia, já nos seus cinquenta e tais, George vendeu a companhia, fez as malas, regressou à Índia e aplicou a sua fortuna e experiência de organização e gestão a um projecto chamado Shanti Bavhan.
Não é assim tão fácil definir Shanti Bavhan, pois não é um daqueles projectos beneméritos condescendentes, que deixa cair umas migalhas, faz uns cursos rápidos em inglês e vai embora, deduções nos impostos incluídas. A própria concepção de Shanti Bavhan tornou a ligação dos promotores aos beneficiários definitiva. A ver se consigo explicar.
A primeira escola de Shanti Bavhan está sediada em Tamil Nadu, no Sul da Índia, e destina-se a acolher crianças oriundas de famílias intocáveis. Recebe-as, por candidatura dos pais, aos quatro ou cinco anos de idade e só as larga quando elas conseguem o seu primeiro emprego, uns dezassete ou dezoito anos mais tarde. Um projecto de longo fôlego e compromisso, portanto. As crianças começam por viver nas instalações da organização, onde frequentam o jardim de infância, depois a escola primária e depois o liceu. Vivem lá, em regime de internato, mas, pelo menos duas vezes ao ano, nas férias, regressam a casa dos pais, para que mantenham contacto com a família e a comunidade de onde provêm. Mais tarde ingressam nas universidades que existem na Índia, e às quais se candidataram pelo método nacional do costume, continuando os estudos e a estadia nas grandes cidades a ser pagos e acompanhados por Shanti Bavhan. Quando se graduam e começam a voar pelas próprias asas, o organização espera que devolvam o capital humano e de conhecimentos acumulado à aldeia de onde são originários, ajudando a elevar o nível de vida da sua gente.
Tomei contacto com tudo isto através de um documentário (minissérie) da Netflix chamado As Filhas do Destino. Esse documentário, muitíssimo ilustrativo e bem conseguido, acompanha a vida de umas quatro ou cinco raparigas, desde pequeninas até ao dia em que terminaram os estudos universitários e começaram a trabalhar, uma como advogada, outra como jornalista, uma outra como enfermeira. Mostra tudo quanto é importante e, por vezes, é duro assistir ao que os nossos olhos veem, pois não é uma daquelas cenas lamechas que a TV gosta de nos impingir, seja para vender rações para cães, hambúrgueres ou assinaturas de fibra óptica de última geração. Ali há esperança de um amanhã que cante, sim, mas o cantar é às vezes rouco, grasnado e triste e se a criancinha falha no aproveitamento de forma repetida é posta a andar para dar lugar a outro. Todos eles têm direito a uma oportunidade, mas é uma oportunidade única. É um percurso duro, bem duro e um dos filhos do Dr. Kennedy, já nascido na América e no bem-estar, que se prepara para tomar conta do que o pai iniciou, queixa-se da dureza das regras, tem dúvidas... Uma ou outra das raparigas, na tal série, tem igualmente dúvidas, sente que o projecto a partiu ao meio, a dividiu, já não consegue regressar à aldeia e à família de onde veio e sabe que a escola, em Shanti Bavhan, não lhe pode dar guarida para sempre: uma deles desenvolve até raiva ao Dr. George. É difícil crescer, é difícil viver, a ração é, por vezes, amarga. Mas, aos nossos olhos atentos e comovidos, ficou demonstrado o valor da iniciativa e o seu sucesso global e, de facto, no final, um intocável pode chegar tão longe como outro ser humano qualquer; é tudo uma questão de oportunidade, como afirmava o Dr. Abraham George quando decidiu comprometer-se com tudo isto.
Acabei por optar pela contribuição dedicada a uma criança: o preço era de cerca de 1.600 euros/ano e isso incluía tudo: a alimentação diária, os cuidados médicos, o material escolar, a roupa, o ensino de todas as disciplinas (desde o inglês à matemática, passando pelas ciências, a informática e a música). Tudo! Cerca de 140 euros por mês. Uns dias depois fui informado por mail que a minha dádiva ficara ligada a um menino chamado Surya. Mandaram-me a fotografia de um rapazinho bonito e sorridente, que me abria as palmas das mãos em jeito de boas-vindas e agradecimento. Juntamente com a foto, vinham umas linhas sobre Surya: tinha cinco anos, acabara de entrar em Shanti Bavhan, era de uma aldeia das proximidades de Bangalore, o pai cavava poços e a mãe estava em casa com a irmãzita mais nova. Quanto ao Surya, aluno do infantário, tinha algumas dificuldades com a matemática e o inglês e gostava muito de desenhar elefantes, peixes e bananas; gostava também de brincar com cachorros. Escrevi de volta, a agradecer as informações recebidas, enviando várias fotografias de elefantes, que tirara na Índia, e perguntando se poderiam ser entregues a Surya. Foi-me respondido que não, pelo menos não directamente. Por uma questão de protecção das crianças é interdita a comunicação directa entre elas e as pessoas que contribuem para a sua formação; de qualquer modo, as fotos seriam mostradas, pela professora, à classe onde Surya anda. Achei bem, o dia a dia daquelas meninas e meninos tem de ser protegido da invasão do exterior, de outro modo aquilo pode transformar-se num circo de exposição, de vaidades, etc.
Nota: As Filhas do Destino pode ser visto na Netflix; o site de Shanti Bavhan está no endereço: https://www.shantibhavanchildren.org
© fotografia do elefante: pedro serrano, Udaipur (Índia), 2013.
| Café Leopold (© fotografia de pedro serrano, Mumbai 2017). |
| Mural no interior do Leopold (© fotografia de pedro serrano, Mumbai, 2017). |
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| Richard Jenkins como Nathaniel Fisher em Sete Palmos de Terra. |
| Richard Jenkins em Mumbai (© fotografia de pedro serrano, Mumbai 2018). |