| Igreja de S. Espiridão, Corfu, Grécia. © fotografia de pedro serrano, setembro 2026. * Da canção The Midnight Special, tradicional pelos Creedence Clearwater Revival. |
| Igreja de S. Espiridão, Corfu, Grécia. © fotografia de pedro serrano, setembro 2026. * Da canção The Midnight Special, tradicional pelos Creedence Clearwater Revival. |
| J. observando a cama onde morreu Eça. |
Durante os últimos cinquenta anos, todos os médicos portugueses foram formados pelo livro Harrison´s Principles of Internal Medicine*, um grosso tratado que viu a primeira publicação em 1950, e que vai actualmente na 22.ª edição (2025). Em Portugal, o Harrison, como é abreviadamente conhecido, era e é usado não só como instrumento fundamental a partir do quarto ano da licenciatura em Medicina — apoiando a formação em todas as áreas do saber médicas (isto é, as áreas não cirúrgicas) como a medicina interna, a cardiologia, a nefrologia, a hematologia, a neurologia, a pneumologia, a oncologia e a imunologia, mas também como documento único de preparação para o exame nacional que antecedia e determinava, pela classificação obtida, a escolha de uma especialidade médica. De tal modo este livro era fulcral e a sua imagem estava colada a esta prova que ela era designada informalmente entre os candidatos como "exame do Harrison". Tudo isto para expor e salientar não só a qualidade, a abrangência e o valor científico da obra, mas igualmente o peso que adquiriu no panorama médico português ao longo de mais de meio século. O livro, com mais de 2.500 páginas e actualmente editado em dois volumes, resulta do contributo de dezenas de especialistas nas áreas desenvolvidas, capitaneados por uma pequena equipa de cinco ou seis editores, todos eles médicos e especialistas de reconhecidíssima competência no mundo médico internacional. Uma destas pessoas foi o Dr. Anthony Fauci, editor do Harrison desde a sua 10.ª edição (1960) e editor-chefe de várias outras. Este médico americano, conhecido e respeitado há décadas a nível mundial, é o mesmo que se vê agora vilipendiado e perseguido pela administração Trump, que pretende, entre outras sacanices, acusá-lo do mais de milhão e meio de mortos provocados pela pandemia naquele país, como se fosse uma espécie de assassino em massa, ao mesmo nível das altas figuras do regime nazi durante o Holocausto. Para quem possa não recordar bem o assunto, foi o actual presidente Trump (durante o primeiro mandato) que suspendeu uma série de iniciativas em torno do controlo da pandemia no país, chegando a aconselhar publicamente a injecção intravenosa de lixívia como modo de resolver rapidamente o assunto e partindo da neandertal ilação de que se a lixívia é usada com sucesso para eliminar bactérias e vírus... Na mesma ordem de raciocínio poder-se-ia ter recorrido ao napalm ou usado uma bomba atómica para o efeito. Recorde-se, também e ainda, que perante o descalabro a que a pandemia chegou nos Estados Unidos numa certa altura, e muito na sequência das medidas intempestivas e irresponsáveis da administração, o presidente foi forçado a chamar de novo o Dr. Anthony Fauci a coordenar o assunto, afogando-o em repetidos louvores e elogios como sempre costuma fazer quando está entalado. Pois agora, que todo o aperto passou, a administração Trump, ilustrada na área da saúde pelo inenarrável Robert F. Kennedy Jr., equivalente a Ministro da Saúde (para desgraça de tal cargo), faz tábua-rasa de tudo o que aconteceu e sujeitam o pobre Dr. Fauci a perseguições, interrogatórios, o banco dos réus, havendo inclusive quem o queira acusar de ter criado o vírus responsável pela anterior pandemia! Triste país, o que submete os seus melhores, os mais esforçados e mais leais à causa pública, a tais vilanias. Nunca esperei ver tal bizarria perante os olhos, muito menos vê-la acontecer num país onde as estruturas centrais de Saúde Pública (tal o CDC, Centers for Diseases Control and Prevention; e o NIH, National Institutes of Health, ambos desmantelados por esta administração) costumavam, pela competência e desenvolvimento, constituir faróis e modelo para o resto do mundo.
* editado pela Mc.Graw-Hill.
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| Juca e Paco, 2022. |
Depois alguém trouxe até perto de ti um suporte com um microfone e o teu filho deixou a primeira fila de cadeiras, onde estava sentado ao lado da mãe, e posicionou-se para falar. Meu Deus, pensei, como iria conseguir aquele rapaz alto e aparentemente frágil levar a bom porto uma empresa com uma tonelagem emocional daquelas! Em filmes, ou séries de TV, é ilustrada com frequência a cena em que um familiar, embargado pela emoção, bloqueia durante o discurso e acaba por ser levado do púlpito por uma alma caridosa que se acercou para o libertar, ou substituir na função. Julguei ir suceder algo de semelhante, mas estava enganado. E a circunstância de o Manel, frase sim frase não, soçobrar em lágrimas e asfixias de voz, sem sequer ter um lenço que ajudasse a estancar a torrente, não o impediu de nos confiar o que tinha a dizer sobre o pai e, miraculosamente, ninguém foi tomado pela ânsia de se levantar da cadeira para o ir resgatar. Deu-se espaço e foi cumprido o que tinha de ser cumprido.
Antes de dar por terminada a intervenção e voltar ao seu lugar, o teu filho anunciou que nos minutos seguintes iriam ser passadas algumas das músicas de que gostavas, das que costumavas ouvir no carro ou em casa, na tua casa não assim tão distante dali.
A primeira ("Maio, Maduro Maio", do Zeca Afonso) soou aos meus ouvidos como a pintura de uma analogia: 16 de Maio, atingíamos precisamente a madureza do mês, e o cantor fora igualmente ceifado pela doença que te levara até ali. Mas ainda eu dava os primeiros passos na articulação dessa hipótese e já uma harpa entrelaçava e logo se sobrepunha aos últimos acordes da canção do Zeca Afonso. A ligação entre as duas canções fora suavizada por um fade, uma técnica sonora que, imperceptivelmente, vai diminuindo o volume a uma música e introduzindo a seguinte, que surge do nada e vai aumentando de intensidade, partilhando ambas, por um breve instante, o mesmo espaço sonoro. No cinema também se fazia isso, lembras-te? Só que na tela era uma imagem que se esbatia na seguinte... O truque chamava-se fundido encadeado e aprendemos em que consistia nas sessões do Cineclube do Porto, às segundas-feiras, ao fim da tarde, ali no Cinema Batalha. Um termo que passámos a usar na conversa, com o orgulho um pouco presumido dos neófitos. Os fundidos encadeados a que assistimos juntos ao longo destes anos todos; os fins de semana em que íamos ver quatro filmes no mesmo dia! Matiné, sessão de fim de tarde, a das vinte e uma e trinta; sessão da meia-noite.
Com a mente ainda presa aos últimos compassos do "Maio, Maduro Maio", eis uma harpa suave a intrometer-se nos meus ouvidos: eu conheço isto..., e logo percebi estar perante o tema geral do Verão 42, filme que víramos os dois, derretidos numa emoção disfarçada, no também longínquo Verão de 72. Que lindo era o filme, que lindo o tema que o Michel Legrand tinha composto, ali celebrado na versão que o George Benson incluiu no álbum White Rabbit.
Foi difícil resistir a tanto coelho branco a trepar da cartola, digo-te, e as lágrimas escorriam-me livremente pela cara, já não valia a pena enxugá-las ou disfarçá-las e, sentado a meu lado ombro com ombro, o Rui seguia a mesma ementa aquática, aliás a única do menu agora que a cozinha fechara.
Um novo fade, um acorde de violão e ascende na sala a voz lenta e hipnótica do Caetano Veloso entoando o "Cucurrucucú, Paloma", o que, antes sequer de tomar atenção às sílabas cuidadosamente articuladas, me trouxe à tona da lembrança o Fale Com Ela, filme em que o Pedro Almodóvar a insere, cantada pelo próprio Caetano, na banda sonora de uma história tão polvilhada por doença, amizade, morte, amor e redenção, que só uma pedra consegue deixar o cinema e voltar para a luz do dia de olhos secos.
Dicen que por las noches
No más se le iba en puro llorar
Dicen que no comía
No más se le iba en puro tomar
Juran que el mismo cielo
Se estremecía al oír su llanto
Cómo sufria por ella
Que hasta en su muerte la fue llamando...
Mas agora seguia com atenção os versos daquele lamento mortal, onde uma pomba (há quem o jure), mais do que um pássaro é uma alma que regressa para cantar o seu queixume a uma casa vazia...
Que una paloma triste
Muy de mañana le va a cantar
A la casita sola
Con sus puertitas de par en par
Juran que esa paloma
No es otra cosa más que su alma
Lá ao fundo, sob a janela panorâmica espelhada de luz, descerrara-se na parede uma fresta em direcção à qual o teu berço de madeira com tampa deslizava, solitário, em passo lento e como por magia, rumo ao crepúsculo.
Em memória de Joaquim Miranda (Juca); 22/11/1952-15/05/2026.
Fotografias (de cima para baixo): © Iva Miranda, Leça da Palmeira, 23 Setembro 2022; Pedro Serrano, S. Miguel (Açores), 29 Junho 2008; Pedro Serrano, Santa Cruz do Douro, 2 de Junho 2022.
As duas cartas seguintes, uma de 2016 e outra de 2018, mostram bem como já há muitos anos atrás, um tipo conhecedor do mundo em que se movia como John le Carré, tinha uma visão apurada sobre Donald Trump, perspectiva que o tempo viria a expor como muito acertada. Já em 2018, Le Carré não é meigo a afirmar que os russos (isto é: Putin) têm o presidente americano na mão, de tal modo que este nunca poderá exercer demasiada pressão sobre aquelas bandas, sob risco de lhe ser revelado algo oculto e demolidor da imagem... Qual será o segredo que os russos aferrolham, como moeda de troca, sobre Trump? Ao que tudo indica estará relacionado com estadias antigas de Donald Trump na Rússia, durante as quais, à velha maneira russa (que le Carré tão bem ilustra nos seus livros de espionagem), lhe estenderam um isco e o fizeram cair numa armadilha, um qualquer ardil à moda de Jeffrey Epstein.
Claire Bloom (no papel de Nan Perry) informa Richard Burton (no papel de Alec Leamas) que para o jantar haverá uma garrafa de vinho do Dão, com til no A, o que, diz ela, faz com que a palavra se pronuncie "DANG". Os ingleses, por muito que treinem, não são nunca capazes de pronunciar o ditongo "ÃO" como deve ser.