Além de melhores amigos, éramos os dois fãs intensos de Eça de Queiroz. Ambos tínhamos lido praticamente tudo o que escreveu, mormente as três biografias sobre o homem: a de João Gaspar Simões (por muito tempo a única), a de Maria Filomena Mónica, e a de A. Campos Matos (para mim a mais neutra e a melhor de todas).
Estávamos em Junho de 2022, e ainda se respirava um ar mais leve, após os demorados meses de ameaça e confinamento da pandemia Covid19, quando lhe telefonei a propor irmos a Santa Cruz do Douro visitar a casa-museu e o local onde Eça fôra sepultado — isto passou-se antes de terem desterrado os seus restos mortais para o Panteão.
Deixámos o meu carro estacionado numa velha rua conhecida do Porto e embarcámos no Mercedes dele, o condutor lendo em voz alta todas as placas de aproximação de localidades que cruzávamos, como se tivesse sido mordido e infectado por alguma locutora de GPS. No Marco de Canaveses, já não assim tão distante de Santa Cruz do Douro (uma trintena de quilómetros), ele fez um pequeno desvio para me mostrar, como se fosse uma primeira vez, a casa onde tinha nascido e morado até à ida para o Porto, uma casa onde, porém, eu já estivera e agora tão vazia como todas as outras casas dos tempos em que nos tínhamos conhecidos, nos idos dos anos setenta. Foi apenas um cheirinho, nem sequer parámos para entrar. Chegámos a Santa Cruz do Douro ainda pela manhã, uma manhã de Junho a ensaiar asas em direcção ao Verão, uma brisa indolente a estorvar o prumo orgulhoso do fumo de uma queimada, ascendendo, branco como o leite, por entre os verdes intensos da vegetação e das encostas.
Embora seja pedra basilar na A Cidade e as Serras, Eça de Queiroz nunca esteve na propriedade mais do que em três ocasiões (1892, 1895, 1898), em visitas curtas (a mais prolongada durou quatro dias), e o solar chegou à sua posse através da família de Emília Castro, a mulher; de modo que nada daquilo foi paisagem (ou pedras) vinda pela infância ou por herança de sangue — essas a que um autor se prende por nostalgia — para poder justificar a paixão com que usa a casa no romance.
A aguardar os visitantes, para além de nós os dois apenas um casal de espanhóis, uma rapariga recebeu-nos no hall ao cimo da escadaria dupla de granito, onde, num canto sombrio, nos vendeu os bilhetes de ingresso na Fundação Eça de Queiroz. Era, portanto, uma guia para todo o serviço e lá foi arengando, ao longo de salas, quartos, corredores e cozinha, os factos e os faits divers que ambos conhecíamos de ginjeira, pelo que foi com alívio que, a pouco e pouco e enquanto a guia se concentrava nos espanhóis, nos fomos distanciando — não muito, pois ela não largava do olho a honra do convento — e pudemos olhar demoradamente e num silêncio reverente todos aqueles bens e objectos que tinham envolvido os dias do escritor e que perduraram além dos que lhe foram concedidos pela sorte, como acontece com os nossos objectos após partirmos.Duas horas mais tarde estávamos abancados na esplanada das traseiras de um restaurante de estrada, onde o Mercedes ficou a partilhar a sombra de uma grande árvore junto de um enorme camião ali estacionado, e cujo dono estaria provavelmente aboletado a uma outra mesa do restaurante, confiado à vigilância da estátua de Nossa Senhora de Fátima que, subida como se num altar, velava atrás do para-brisas. Fomos pela feijoada de feijão branco, o prato do dia e, a condizer, o Juca bebeu, consolado e mirando o copo à transparência, o seu jarrinho de branco, repartindo o olhar pelo Douro que ondulava preguiçosamente ao fundo da paisagem, e confessando ao seu jeito:
"Esteve-se bem de caralho...", querendo o "de caralho" dizer (para os menos acostumados às analogias do discurso nortenho) que lhe tinha sabido muito bem a manhã e o almoço. Sim, a mim soubera-me ao mesmo e talvez tivessem já decorrido mais de quarenta anos sobre uma viagem do género, em companhia.
Ao chegar a casa, umas centenas de quilómetros mais tarde, transferi as fotografias que tirara da máquina para o computador e pus-me a ver como tinham ficado, pois não basta enquadrar e olhar por trás de um visor para ficar a saber o que irão parecer as imagens capturadas.
Eram umas dezenas, o verde e a pedra surgiam em muitas delas, assim como a madeira dos soalhos e dos tectos, as sombras geradas pela espessura das paredes, as estantes de livros, as vitrines com as sobras de um dia a dia que deixara de existir, embora ali permanecessem os indícios. Mas a impressão mais vincada deixada pelo visionamento, flutuando sobre todas as outras sensações, viera das imagens em que o meu amigo, fotografado espontaneamente e sem aviso, surgia: em todas ele aparentava já não estar ali, embora a sua figura se visse claramente e o seu olhar se detivesse atentamente no que observava; em todas parecia estar um passo adiante, num tempo que já não me pertencia, um tempo que já não lhe pertencia, ou mesmo fora de qualquer tempo que se pudesse medir. A alguém que se interessasse com o que achara dele nessa manhã de quase Verão, suponho que o sintetizaria em algo como "estava como se não estivesse bem lá", "um tanto ausente", por aí.
A manhã de que falo teve lugar a uns, quase exactos, quatro anos antes do dia da sua morte, ocorrida no mês de Maio de 2026, levado por uma doença tão rápida, tão fulminante (desde que se anunciou até que tudo terminou) que ainda procuro pelo chão os cacos do irremediável, sabendo que, mesmo que a todos encontre e reúna, não haverá cola que o junte de volta àquela manhã em que se passeou distraído por Santa Cruz do Douro, quem sabe se entretido a meditar no seu trajecto de vida, que, ao invés do que acontecera ao Jacinto do romance, o levara das serras onde nascera até acabar na cidade.
| J. observando a cama onde morreu Eça. |
© Fotografias de pedro serrano, Santa Cruz do Douro, 2 Junho 2022.
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