06 maio 2022

ILHA COM VISTA PARA O MAR

Entre Fevereiro e Outubro de 2018 escrevi um livro a que chamei Ilha Com Vista Para o Mar e que, resumidamente exposto, conta a minha experiência como médico na segunda ilha mais pequena dos Açores: a Graciosa, uma migalha de pedra com dez quilómetros de comprimento por seis de largura, perdida no meio do oceano Atlântico e fazendo parte do Grupo Central de ilhas do arquipélago dos Açores.

Nesses dias de 1979 e 1980, a ilha não possuía nem porto de mar nem aeroporto, pelo que o único modo de ali chegar e dali partir era o helicóptero, usando um serviço que a Força Aérea assegurava. 

Por lá, entre os 25 e os 26 anos de idade, passei um ano, desempenhando funções clínicas em todas as estruturas de saúde da ilha, maioritariamente no seu hospital, mas também fazendo consultas em freguesias periféricas e assegurando uma urgência de 24 horas dia sim dia não.

Escrever este livro em 2018, baseado em acontecimentos que tinham ocorrido quase quarenta anos antes, sem apoio de um diário ou de notas soltas tomadas em algum caderno, foi um grande desafio para a memória. Mas, como já aprendera de outras situações, a memória tem recursos inesperados e quando orientamos a atenção interior para determinado tema ou período da nossa vida, muito lentamente no início, começam a desprender-se pedaços inteiros dos fundos da mente, que ali estavam soterrados sob outras camadas posteriores de acontecimentos, pedaços que vêm à tona da consciência e que, nesse degelo, vão soltando nos dias subsequentes outros pequenos fragmentos: detalhes, fisionomias, tiques, frases ditas que nunca mais tínhamos relembrado, até fragmentos de diálogos.

Esse processo permitiu-me reconstruir o que foi esse meu ano insular, olhado pelos olhos da idade que então tinha, mas perspectivado na escrita pela lente dos anos que entretanto decorreram, da síntese que a passagem do tempo permitiu.

Curiosamente, o livro viria a ganhar um prémio na categoria Ficção (Prémio Fialho de Almeida, 2019), o que bastante me surpreendeu, pois tinha-o candidatado nesse concurso na categoria "ensaio", que era uma das duas categorias possíveis e que achei mais adequada tendo em conta o tipo de narrativa. Mas o Júri entendeu de outro modo e penso que consigo perceber o seu raciocínio: a narrativa é formatada como uma história plena de acção e de diálogos vivos, com alguma análise psicológica de personagens e a voz interior - conhecida por corrente de pensamento - à mistura e, como tal, bem poderia passar por ser uma novela, embora, na realidade, seja mais uma crónica. Aliás, por muito real que seja o que é narrado, essa narrativa surgirá sempre aos olhos do leitor como uma história que bem podia ter sucedido ou não.

Mas, sim, tudo o que conto sucedeu e somente procedi à concentração dramática dos eventos, tomei algumas liberdades em relação à manipulação do tempo cronológico e alterei alguns nomes, para que certas pessoas, algumas já mortas outras a quem não me refiro com meiguice, não fossem ou não se sentissem demasiado identificadas. 

O livro tem 217 páginas e está, desde o Dia Mundial do Livro de 2022, à venda numa livraria perto de si. De qualquer maneira, se o quiser comprar sem sair de casa e usando os serviços da editora (Gradiva), basta-lhe carregar no linkfornecido a seguir:ilha-com-vista-para-o-mar

29 abril 2022

GUTERRES E AS MATRIOSKAS

Vinte e quatro horas após ter sido recebido com sobranceira indiferença no Kremlin, eis o secretário-geral da ONU passeando-se pela baixa de Kiev de mãos atrás da costas como se flanasse no Chiado, detendo-se aqui e ali para observar um aspecto pitoresco e causando o espanto entre os guarda-costas e a comitiva.

Depois, mal entrado na sala do encontro com Zelenskii, Guterres abriu o saco das emoções e das boas intenções, vibrou com as desgraças da Ucrânia, conseguiu imaginar para as câmaras o que seria se a sua própria família levasse com um morteiro pela cabeça abaixo, e apresentou enxurradas de inferências teóricas, uma das quais sintetizava que (tal como acontece com as bonecas russas) se estava perante uma crise dentro de uma outra crise, sendo a crise mais de dentro o que se passa no interior do estaleiro em Mariopul e a crise mais de fora a invasão russa da Ucrânia. Satisfeito por ter conseguido fatiar o bolo, Guterres prometeu que, para já, se iria concentrar totalmente na primeira, sem, é claro, esquecer a segunda.

Entretanto, não querendo ficar de fora do encontro de Kiev, os russos, mal terminara a conferência, fizeram-se anunciar despejando dois mísseis sobre Kiev, explodindo o que não foi interceptado pelas baterias antiaéreas a escassa distância do local onde o secretário-geral da ONU se afadigava. Estamos falados no que concerne ao que Moscovo toma em atenção a ONU e quejandos.

Visto tudo isto, não será pois totalmente descabido que Guterres, que tem um fraco pelos corações ao alto e as mãos postas, comece as preces pelo milhar e meio de pessoas que se encontram no interior do estaleiro de Mariopul. Putin disse tudo quanto tinha a dizer sobre o assunto há semanas, quando afirmou que, ali, não entrará nem sairá uma mosca. É assim, como insectos, que considera quem lá está, cercado... 
O que ele gostaria mesmo era conseguir agarrar, ainda vivos, os combatentes do estaleiro, para os fazer desfilar na parada de 9 de Maio, em Moscovo, porventura aplicando-lhes um laxante umas horas antes, para que se cagassem de medo durante o desfile, um detalhe que os antigos soviéticos não descuravam quando se tratava de exibir prisioneiros. Mas afigurando-se isso difícil no actual figurino, Putin optará por deixá-los às voltas no espeto, empatando Guterres e os corredores humanitários e esperando que quem resta nos subterrâneos vá estourando de fome, de doença ou ferimentos, de
angústia e de medo. Afinal quem ali está, à mercê, são precisamente os mais icónicos "nazis ucranianos", os que é forçoso desnazificar, mais os respectivos comparsas: família, vizinhos, amizades, alguns velhos, nada que aqueça ou arrefeça. São pouco mais que poucos, se se fizer pesar a glória do Império no outro prato da balança. Que estourem! É para o lado que o assassino industrial de Moscovo dorme melhor. 

  

27 abril 2022

DESTAQUES DA SEMANA: Guterres vai ao Kremlin/ A Justiça vai à merda

1. Após uma gestação elefantina, o secretário-geral da ONU decidiu-se ir a Moscovo, ralhar com Putin. Adornado no seu canto da mesa, Guterres não se cansou de falar e expor razões, dando sustento ao cognome de Picareta Falante. No âmbito da linguagem gestual, mais parecendo um enviado da Santa Sé, o secretário-geral erguia continuamente as palmas das mão em prece a Vladimir, tal um S. António a pregar às chinchilas. 

Por seu lado, a seis metros, na outra cabeceira da mesa, Putin ouvia a cegarrega com o seu ar indiferente e encapotadamente zombeteiro, enquanto com a ponta dos dedos ia debicando ciscos no tampo da mesa, como se estivesse a aproveitar o tempo para a deixar mais limpa e ainda mais branca. Quando lhe chegou a vez, explicou a Guterres a velha teoria que, por cá, tão bem prega o PCP: foi a Ucrânia que, em 2014, começou tudo isto, que não há invasão nenhuma, nem massacres nem atropelos de direitos humanos, a não ser da parte dos ucranianos, e que o melhor que a ONU poderia fazer era deixar-se de coisas e reconhecer as repúblicas do Donbass e arredores.

O mesmo tinha já anteriormente dito à nossa pomba da paz o casca-grossa do Lavrov, ministro dos negócios estrangeiros do Império Russo. Ao sair da sala de reuniões onde tinham decorrido as conversas iniciais, pejada de jornalistas, Guterres, mesureiro como é, executou polidas flexões de pescoço aos presentes. Lavrov deixou-o passar à frente e quando chegou a sua vez de cruzar o limiar da porta arqueou os ombros e expôs os braços à assembleia, como quem diz: "vejam, é isto que temos de aturar."

Pela amostra, verbal e não-verbal, não espero nada de nada de toda esta canseira, e o futuro comportamento dos russos na frente de batalha dirá se não assistimos apenas a um bailinho à moda do Kremlin. 

"Dr." João Villas Boas, o amigo de Rendeiro.

2. Por cá, a Justiça continua imparável a não fazer justiça e a desfazer o ínfimo que se vai conseguindo. Recentemente, o Tribunal Administrativo e Fiscal do Porto, num dois em um, anulou a sentença que condenara o psiquiatra João Villas Boas a uma indemnização e à (justa) expulsão da Ordem dos Médicos. Tudo isto teve origem há mais de dez anos atrás, quando o dito tarado violou uma cliente, grávida de oito meses e clinicamente muito deprimida, no conforto do seu consultório (pode rever o que, à época escrevi sobre o assunto, clicando aqui: BOQUIABERTO (ou do perigo de ser careca).

Pois invocando aquelas minudência jurídicas de prazos prescritos, que são consequência do mau funcionamento dela própria, a justiça portuguesa anulou a despesa do Senhor Doutor e obrigou a Ordem dos Médicos a reintegrar na organização o violador encartado. Exemplar, mas há mais: Qual foi o primeiro grande acto clínico que o encarnado psiquiatra praticou para celebrar vitória e demonstrar a sua reintegração na sociedade? Pois, senhores, foi o de passar um atestado médico a João Rendeiro (o vigarista que, abençoadamente, se encontra sob custódia da justiça sul-africana), no qual atesta, por sua honra, que Rendeiro sofre muito do coração e deve ser acarinhado em ambiente limpo e onde possa fazer ginástica, pois de outro modo o seu coraçãozinho poderá não aguentar aquelas prisões tão escuras... 

Rendeiro na companhia de violadores.
Pergunta o leitor medianamente comum: mas o homem não é, mesmo que só mais ou menos, psiquiatra? E atreve-se a passar atestados à cardiologista? Sim, é mesmo isso, passa, com a maior das latas. Estão bem um para o outro, dir-se-ia, e a Justiça portuguesa, enlameada no contexto, está o costume: uma merda!   

26 abril 2022

VAI E DIZ


As jovens que sem pensar muito nisso

Nos deram à luz, são já mortas

São já mortas as jovens que 

Nos soltaram à luz sem outro arrimo

 

Mãe, eis-me cativo neste ilhéu

Chamando-te sem que chame por ti

E agora, que desanimei de o tentar

Sigo a chamar quem daqui avisto

 

Mas, azafamado em fazer-se ouvir 

Por quem chamo não me escuta

De suas ilhas chamam por ti ou por

Quem te corresponda e lhes responda

 

Mas há escritos nos vidros das janelas



Imagem: Donne in Barca, Felice Casorati (1933).

09 abril 2022

DESTAQUES DA SEMANA: Vá-se lá entender as louras

Da esquerda para a direita: Chanel, loura e tesoura.

1. Três modelos e influencers russas filmaram-se a destruir carteiras Chanel e, em nome do sacrifício patriótico, divulgaram as eventrações nas redes sociais. Todas tinham acabado de descobrir o fogo pátrio que pulsava nos seus interiores, embora uma delas tenha candidamente confessado que o que a indignara mais fora terem-lhe recusado a venda de uma carteira Chanel no Dubai. A ela!

Mas, para mim, o mais curioso de tudo isto é que todas essas beldades louras usaram arma branca para perpetrar a profanação dos adereços: basicamente tesouras, geralmente de trazer por casa, embora uma delas fosse tesoura da poda, um utensílio podendo já ser considerado como "arma pesada". A nenhuma lhe apeteceu a ideia, igualmente patriótica, de usar uma kalashnikov, de arremessar a bolsa de um sétimo andar, de a incendiar com gasolina ou gás natural ou, até de descer à rua e engastar a carteira sob as lagartas de um tanque russo, sendo certo que, nos dias que correm, esta última estratégia fosse mais complicada de pôr em prática uma vez que os tanques andam todos a ocidente, nas lamas da Ucrânia.

 

2. Entretanto, no Público, Carmo Afonso, uma das cronistas que o jornal ofereceu a si próprio recentemente, escreve que "Por cada vez que alguém compara o BE e o PCP à extrema-direita morre um passarinho silvestre, seca uma flor campestre". Eu já tinha desconfiado, pela designação geral das crónicas da senhora (Sementes de Alfarroba), que dava a Carmo Afonso para um bucolismo sustentável, desta vez até rimável. Fui procurar ao Google qual o eventual significado simbólico da alfarrobeira e das suas sementes. Seria por ter sido usada, no antigo Egipto, na preparação de múmias? Não me parecia... Seria por a farinha de alfarroba ser conhecida pelo "chocolate dos pobres" e a cronista ser tão tão pelos desfavorecidos? Ou será por, prosaicamente, Carmo Afonso ser algarvia, região onde mais abunda este recurso vegetal? Continuei às escuras, mas sempre buscando a luz: talvez que a alfarroba transmita uma ideia de esperança, de futuro, aquela coisa das sementes que germinam, mesmo no solo ingrato; já a Bíblia falava disso. Por mim, prefiro-a à sobremesa, em coligação com o figo e a amêndoa. 
De cima para baixo: Carmo Afonso e mâscara comunitária.

Mas, sobretudo com esta crónica de Afonso de que vos falo, ficou estabelecido para mim que a loura advogada é acérrima defensora do direito ao contraditório, dos pontos de vista complementares e, apesar de o seu coração bater todo à esquerda, concede até que Zelenskii venha falar à Assembleia, desde que se lhe "exija que não seja acompanhado por combatentes de extrema-direita". Aqui, confesso, fiquei confuso com o raciocínio da senhora: Zelenski, sempre que fala a parlamentos ou equivalente, costuma aparecer sozinho e concentra tudo quanto tem a dizer na sua imagem. A quem estaria ela, afinal, a referir-se? Ou seria somente para arredondar a dialética? Por outro lado, imaginando que o presidente ucraniano tencionasse vir falar-nos rodeado de combatentes da extrema-direita, como se iria precaver que o homem não fizesse tal? Enviar-lhe, previamente, um questionário, como fez a Ursula von der Leyen para a entrada da Ucrânia na UE? Uma coisa em que houvesse quadradinhos para ele por uma cruzinha suástica/não suástica? Espero que a cronista do Público, que quando nos estende as mãos é apenas para desvendar ocultas rosas, esclareça todas estas dúvidas, para que gajos politicamente pouco ilustrados (como eu) não corram o risco, mesmo que por trôpega inconsciência, de esborrachar mais um pardal ou pisar uma outra flor de alfarroba.

Da esquerda para a direita: Silvestre e Piu-Piu.
Antes de me ir, permito-me, em nome da Warner Brothers e da cultura popular, chamar a atenção de Carmo Afonso para um paradoxo - aparentemente insanável e podendo levar até ao aumento da escalada da violência - contido na sua expressão "passarinho silvestre". É que, deste ponto de vista, Silvestre é um gato, o passarinho chama-se Piu-pui e, desde tempos imemoriais, pássaros e gatos não têm sido uma combinação feliz, pelo menos enquanto não lhe mudarem no ADN os cromossomas politicamente incorrectos.

07 abril 2022

POUCOS MAS BONS!

 

Na corajosa luta contra o colosso russo, uma das poucas armas que vai restando aos ucranianos (sós no processo, pois ninguém anda por lá a morrer por eles) é a palavra, a divulgação internacional da sua tremenda aflição. Parlamento atrás de Parlamento, o presidente ucraniano tem falado para todo o mundo e, quem o ouve, está atento às suas razões, aos anseios do seu país, aos seus pedidos de ajuda.
Chegada a vez a Portugal, fica-se estupefacto ao tomar contacto com a notícia de que meia-dúzia de parlamentares naftalínicos "não acompanham a iniciativa", como metaforicamente o PCP expressa a sua oposição. O PCP que, apertadinho, já caberia num táxi, vem, pela voz da sua líder parlamentar, dizer que não deveria ser permitido a Zelenskii falar à Assembleia, e o primeiro motivo que invoca é rançosamente burocrático: quem está apto a falar no parlamento português são os chefes de estado de visita ao país. Ora o ucraniano não está cá! Anda longe, distraído em ninharias.
Para além disso, continuam os comunistas, deixar o homem falar aos deputados lusos seria um serviço à escalada da violência, à militarização desenfreada, e os comunistas são todos pela pomba branca com raminho no bico. E, já agora e por omissão, por Putin, por Lavrov e pelos outros todos dos arredores do Kremlin, ao que se vai vendo.
Na outra órbita desta estranha realidade, a donzela da ONU manifesta-se diariamente "em choque" com os episódios que lhe chegam de Leste. Um ser lacrimoso, é curto para os tempos que correm.

03 abril 2022

THE PHILOSOPHY OF MODERN SONG (A Filosofia da Canção Moderna) -BOB DYLAN

A Filosofia da Canção Moderna é o novo livro de Bob Dylan, dezoito anos após Crónicas, o primeiro volume da sua autobiografia (lançado em 2004). Será publicado, no próximo mês de Novembro, nos Estados Unidos da América pela Simon & Schuster, a editora habitual de Dylan. 

Na nova obra, Dylan discorre, em linguagem coloquial e aparentemente ao correr da pena, sobre 66 canções, 60 % das quais êxitos dos anos 50 e 60, época em que Bob Dylan tinha entre dez e vinte anos, ou seja: são canções dos primórdios da sua formação musical, quando a rádio era o principal veículo para ouvir música. Há também canções dos anos 20 e 40, e um quarto delas são dos anos 70 e 80. 

Nenhuma das canções escolhidas por Dylan para comentar é da sua autoria e, surpreendentemente, o leitor não encontrará nas cerca de 300 páginas do livro uma só composição dos Beatles ou de Simon & Garfunkel, nem sequer de Leonard Cohen ou dos Velvet Underground/Lou Reed, nomes incontornáveis da música popular do século XX, que Bob Dylan, como é do conhecimento público, aprecia e louva, para além de os ter conhecido de perto.

O que, sobretudo, o leitor encontrará na A Filosofia da Canção Moderna são descrições, constatações e reflexões (técnicas, existenciais), feitas em tom leve e por vezes tratando-nos por tu, em torno dos cantores e dos compositores, ou do ambiente em que decorreu a génese ou a gravação dessas canções, canções que abarcam o universo da música dita popular: country e folkgospel ou soul; alguns blues, uma mão cheia de rock'n'roll, algum jazz e, ainda, uma presença e um gosto especial pelos standards de que o jazz e os crooners se apressaram a tomar conta.

Em alegre convivência e sem ordem aparente (cronológica ou outra), página a página desenrolar-se-ão sob os nossos olhos canções de Elvis Costello e Bing Crosby, Little Richard e Elvis Presley, The Platters e Ray Charles, Hank Williams e Frank Sinatra, Nina Simone e Santana, Judy Garland e os The Who, Rosemary Clooney e os The Clash, entre muitos outros intérpretes. Alguns, raros, terão direito a surgir comentados por mais do que uma canção, como é o caso de Willie Nelson, Johnny Cash, Elvis Presley, Bobby Darin e Little Richard (com direito a figurar na capa do livro). Quem conheça os gostos e o pensamento de Dylan um pouco de mais perto, saberá que a escolha não é de estranhar, embora, como lhe é costumeiro, o autor nunca se explique sobre as opções que faz.

Nesta viagem, Dylan chama também as canções de origem europeia, mas não apenas as de proveniência britânica, como seria mais de esperar num músico com as suas origens. Para além destas, encontraremos referências constantes à chanson francesa, mas também à italiana "Volare", de Domenico Modugno; e à, primeiramente alemã, "Mack the Knife". Amiúde, os leitores tropeçarão nos cantores de voz velada e macia, americanos mas de origem marcadamente italiana, como é o caso de Frank Sinatra, Dean Martin, Tony Benett, Perry Como ou Vic Damone. 

Mas na órbita deste universo, aparentemente eclético, das 66 canções escolhidas gravitam, nas linhas escritas por Dylan, centenas de outras músicas, que ele irá referindo ou porque se entrelaçam com as canções que escolheu para comentar ou para ilustrar a teoria (que lhe é muito querida e é uma constante da música folk) de que todas as canções vão nascendo umas das outras e de que tudo influencia tudo. Neste contexto surgem no texto referências à influência de linhas corais da Paixão Segundo S. Mateus, de João Sebastião Bach, sobre "American Tune", de Paul Simon, ou de um andamento de uma sinfonia de Rachmaninoff sobre a melodia de "Never Gonna Fall in Love Again", de Eric Carmen, que foi um sucesso nas vozes do próprio compositor, de Tom Jones ou de Frank Sinatra.

Para além da demonstração da imitação como fonte de criação, Dylan glosa um outro item, também frequentemente discutido a propósito da música cantada: o que será mais importante numa canção, a melodia ou a letra? Bem, Bob Dylan não toma, como seria de esperar, partido por nenhum dos polos da questão, mas não deixa de nos recordar, em contraponto do alemão - idioma apropriado a festivais de cerveja, a maravilhosa qualidade plástica e melódica da língua e das vogais italianas, ou de ir deixando escapar não ser essencial compreender uma palavra de português para se perceber que o fado é um género musical que "pinga tristeza".

Em Portugal, em edição simultânea com a americana, A Filosofia da Canção Moderna será traduzida por Angelina Barbosa & Pedro Serrano, sob a responsabilidade editorial da Relógio d'Água, editora que tem tomado a seu cargo a edição da obra de Mr. Robert Zimmerman, um descendente de judeus de Odessa mais conhecido entre o público como Bob Dylan. 

Notas da imprensa sobre o livro (março 2022):

  

==================
===================
=====================


29 março 2022

O PODER DO CANICHE

Jane Campion não é, para mim, alguém que se recomende. Fiquei vacinado contra a senhora há muito anos, através de dois filmes que sofri torcendo-me na cadeira para que chegassem ao fim. Para além de medíocre a contar histórias, Campion é dotada da habilidade de, sistematicamente, dar cabo do desempenho do melhor actor! Aconteceu em O Piano (1993), uma pepineira gótico-sentimental na qual Harvey Keitel (actor excelso) e Holly Hunter arrancam cabelos e torcem as mãos, e repetiu-se em Retrato de Uma Senhora (1996), filme onde Jane Campion, em duas tesouradas, arruína as intenções da obra-prima de Henry James e força John Malkovich e Nicole Kidman (particularmente esta última) a contorções delicodoces que nada tem a ver com a tonalidade da história. Aliás, Nicole (excelente atriz) tem um certo pendor para ter azar com realizadores: além de Campion, é inenarrável o modo como foi gratuitamente explorada por Lars Von Triar em Dogville (2003) e, até, por Stanley Kubrick em Eyes Wide Shut (1999). Adiante.

Pois acontece que reincidi na esparrela de perder tempo a ver um filme de Jane Campion. Mas toda a gente, até os periódicos mais confiáveis, falava na maravilha que aquilo era, candidato a uma meia-dúzia de Óscares; ao referi-lo, as pessoas reviravam as pestanas em direcção ao céu, etc. Ainda por cima, era acessível através de um simples clic na Netflix. 

Ao fim de cinco minutos de visionamento, o alarme do costume começou a zunir ao fundo de mim, mas, que diabo, talvez que a história se fosse desenvolver, revelar, e o filme desabrochar: o melhor seria continuar a tentar... E continuei, forcei-me a ver até ao fim e com isso ganhei o Óscar do patego a quem venderam caniche por cão!

No filme há uma senhora (Kirsten Dunst, óptima actriz, como a série Fargo - HBO, recentemente demonstrou) que, nos anos vinte do século passado, tem um restaurante e um filho maricas, coisa que Campion nos dá primeiramente a perceber por o rapaz fabricar flores de papel para as mesas do estabelecimento. Ora esse rapaz maricas passeia-se pelo filme como uma versão algo mais tisnada de Tadzio, a beldade de Morte em Veneza (Luchino Visconti, 1971), só que este tem o azar de o andar a fazer pelo velho far-west americano, um terreno saturado de cowboys e fazendeiros viris que se fartam de exercer bullying e discriminação sobre o sensível moço.

Ainda por cima, a mãe casou com o rico fazendeiro Burbank (Jesse Piemons, parceiro de Kirsten Dunst em Fargo e na vida real, igualmente bom actor e na moda, a quem Campion faz flutuar pelo cenário como uma alma penada que desconhece onde há-de aterrar). Esse rico fazendeiro, vá-se lá saber porquê, possui uma rica mansão no meio do nada, mansão onde mora com um irmão (Benedict Cumberbatch, igualmente muito requisitado actualmente como actor, mas de desempenho bastante histérico e medíocre sob a batuta da realizadora), parente que é um autêntico poço de maldade: agressivo, intolerante, não se lava, e tem uma especial predilecção por perseguir e achincalhar os tiques do novo sobrinho, circunstância que acaba por levar a mãe, sob o desgosto e a impotência, a abusar da pinga às escondidas.


Ora o que o incauto espectador ainda não sabe é que este ambiente másculo de vaqueiros de barba-rija tem o seu reverso. Nas horas vagas, os ditos vaqueiros reúnem-se à beira-rio onde, sob um tremeluzir de ramagens e reflexos dourados da água, se espojam, nus, numa tranquilidade doce onde abundam as nádegas. Também de folga, mas isolado deles, em local secreto que, para ser atingido, obriga a rastejar por sob sarças e outros arbustos, o tio-vilão tem um esconderijo secreto, um barracão onde esconde revistas masculinas de ginastas e halterofilistas (um proto-equivalente do GQ), onde rapaziada de suíças potentes e bigodaças de longas guias faz exercício em ceroulas! Não querem ver que... Sim, é isso mesmo que o rapaz lânguido rapidamente compreende, sobretudo ao dar com o tio-adoptivo estirado na margem do rio, a esgalhar uma com o nariz nostalgicamente envolvido num trapo amarelecido, despojo que pertenceu a um misterioso Bronco Henry, personagem já falecido mas abundantemente citado no filme, e, adivinha-se, grande influência na vida dos irmãos. Não só os terá ensinado a usar uma arma como, percebemo-lo com um frêmito, teria sido o grande amor do tio mauzão, o qual, talvez por isso, seja tão mauzão e dentro do armário. No melhor pano cai a nódoa, já dizia a reacionária sabedoria popular.

E a partir deste momento seminal tudo muda! De uma hora para a outra, uma criadita que nunca saía dos fundos da cozinha passa a jogar ténis com os patrões; tio e sobrinho tornam-se inseparáveis e fazem longas viagens a cavalo para uma montanha próxima envolvida em mistério, mistérios que nunca se virão a compreender com total clareza. Mas sucede que o rapaz, apesar do grande ascendente amoroso que ganhou sobre o tio, é vingativo e não lhe perdoa as provações anteriores, o modo como tratou a mãe que, nas lonas, continua a beber à sorrelfa. Após uma viagem solitária à tal montanha, o rapaz vem de lá com um pedaço de pele de vaca contaminado por carbúnculo, courato com o qual mata o tio, que estrebucha em convulsões horrendas antes de nos deixar. 

No meio de toda esta confusão (por onde paira, entretanto, o marido de Dunst?), Jane Campion ainda arranja espaço para importar para o ecrã, numa participação a que mal se alcança a razão, mais um monstro da representação: a maravilhosa Frances Conroy, a mãe na série Sete Palmos de Terra. A pobre senhora aparece por poucos segundos e mal a conseguimos reconhecer, pois a cenas desenrola-se, numa escuridão artística, no interior da mansão no meio do nada onde mora toda esta gentinha.   

Tudo é mau e gratuito neste filme: a consistência e a clareza da narrativa; a direcção dos actores, que vagueiam sem saber o que fazer; a banda sonora; os enquadramentos gratuitos; o simbolismo de pacotilha; a beleza de bilhete-postal. 

Mas, ficou-se ontem a saber, ganhou o Óscar de melhor realização! Valha-nos que não conquistou os outros óscares todos que ameaçava ganhar, mas mesmo assim... Qual será o mistério do prémio? É claro que o filme inclui os ingredientes com que se vendem os chocolates hoje em dia, não propriamente os dizeres garantindo que foi manufacturado com ingredientes sustentáveis, mas antes a etiqueta de que vai haver por ali oprimidos, discriminados, e as opções de género sem as quais hoje em dia nada é comerciável.

Tirando isso, e tentando cingir-nos à Sétima Arte, pela amostra parece que o cinema americano deu o que tinha a dar; é uma dor de alma constatá-lo. Se não fossem as cinematografias exóticas (chinesa, iraniana, sul-coreana) não haveria esperança e poderíamos mesmo considerar a sétima arte como bizarria extinta. 

Pobre Hollywood: atingiu o seu esplendor máximo com o murro com que Will Smith (Óscar para melhor actor) presenteou o apresentador do certame, por este ousado fazer uma piada inocente em torno do penteado (ou a falta dele) da mulher de Smith. Muito cinematograficamente, até o murro pareceu encenado e daqueles a rasar a face, Smith aproveitou para, no discurso de vitória, chorar e pedir desculpa à assistência. Justificou-se com o amor (à mulher), que o terá levado a ser violento. Pois, Putin diz a mesma coisa: é o amor à mãe Rússia que o leva a fazer o que tem feito à Ucrânia.

11 março 2022

8 DIAS EM 2020

 

A uns dez dias do terminar de 2020, estava a pandemia covid19 ao rubro em Portugal e no mundo, recebi um telefonema de uma senhora que desconhecia.

Explicou que se chamava Joana Bernardo, que me contactara por sugestão de amigo comum, e que tinha a ideia de promover um livro em que uma série de pessoas contaria uma semana do seu ano de 2020, uma espécie de diário do ano fatiado entre vários interlocutores. Quereria eu ficar com uma dessas semanas? 

Depois, enquanto eu ia lançando perguntas para melhor perceber o projecto, tal como se concretizaria em termos editoriais e o que se esperava da minha escrita, ela foi contando que trabalhara, até há alguns dias atrás, como locutora na Radio Radar (de que nunca ouvira falar, pois raramente ouço rádio) e que, em 2017, lançara um livro chamado 30 Anos, 8 Dias, no qual uma alcateia de quase-ex-jovens discorria sobre o que era ter essa idade. Fora, precisamente, esse primeiro livro que lhe dera a ideia de se lançar agora num outro, que se chamaria, provavelmente, 8 Dias em 2020, e em que o motor da narrativa seria o contexto pandémico e de como tinham as pessoas convidadas atravessado, quotidianamente, uma semana desse tempo.

Disse "sim" durante esse primeiro telefonema, pois simpatizei com a ideia e gosto de trabalhar por encomenda e balizado por um prazo: coube-me a semana de 28 de Dezembro a 4 de Janeiro, e teria de entregar as minhas páginas até ao final do mês de Janeiro de 2021. Como, ao longo da conversa, me apercebi que os candidatos a diarista, que ela já arrebatara, provinham, maioritariamente, da atmosfera artística e da área da comunicação social, perguntei se não acharia boa ideia - uma vez que o tema dominante das experiências iria ser como viver sob a ameaça de uma doença contagiosa - ter no grupo, para além de mim, mais gente da área da saúde. Ela achou a achega interessante e acabei por lhe sugerir o nome de três médicas (uma viria a desistir, como aconteceu a outra gente ao longo do trajecto) e uma antropóloga urbana com longa experiência de trabalho na área da saúde e da cooperação.

Martelei o meu texto, cumpri os dias que me tinham sido destinados e o prazo de entrega e não pensei muito mais nisso. 

Longos meses mais tarde, mas ainda durante 2021, a Joana escreveu a dizer que encontrara editora (Almedina), que as negociações para a publicação estavam bem encaminhadas e que o livro sairia ainda antes da Primavera de 2022, de modo a comemorar os dois anos portugueses da pandemia: Fevereiro 2020/Fevereiro 2022. 

Assim foi, o livro saiu da tipografia para os escaparates e, para além das livrarias (particularmente Almedina e Fnac) quem o quiser comprar pode fazê-lo directamente no site da editora (carregue aqui:https://bit.ly/8Dias_2020).

A obra tem 245 páginas, custa quinze euros, vinte colaboradores e os textos, intercalados por notícias de jornal que fizeram manchete nesses dias, variam entre o "`à escovinha" (uma ou duas páginas) e as quinze ou mais, como é o caso do meu. O livro encerra-se com um epílogo, um bonito texto abrangente, do punho da própria coordenadora do projecto, onde Joana Bernardo perspectiva a pandemia numa fase mais avançada da sua evolução (Agosto de 2021), reforçando a coesão de tudo quanto estava nas páginas anteriores e recorrendo a uma linha discursiva em que floresce um humor fininho e simpaticamente auto-depreciativo.

Agora estamos em Março de 2022, a pandemia fina-se (como tradicionalmente sucede a uma pandemia ao fim de dois, dois anos e meio) e um ditador russo resolveu expulsar da TV os comentaristas e especialistas em covid19 que, como pulgas ou cogumelos, tinham, do nada, medrado nos ecrãs. Foram substituídos por especialistas geoestratégicos e militares, mas o resultado geral não é melhor.

Termino, deixando aqui um cheirinho do texto que escrevi para 8 Dias em 2020, apenas umas linhas para abrir o apetite e, se, por acaso, quiser ler o resto, compre o livro, porra! 

 

Joana Bernardo (2017).

3 de Janeiro

Para além de equitativamente crédula, Sónia tem uma costela paranoica e sente atracção por teorias da conspiração. Já achou que o vírus tinha sido inventado por um laboratório chinês e quando lhe perguntava com que intenção ou vantagem os chineses o teriam feito, respondia:

"Sei lá, como queres que saiba com tanta informação contraditória?! Para controlar o mundo, suponho; venderem-nos ainda mais coisas..."

"Mas não achas que seria um perigo bastante grande, lançar assim, por aí fora, um ser microscópico que se pode descontrolar e vir a atingir os próprios; paralisar o mundo?"

Ela não gastou demasiado tempo a pensar nos chineses e se o vírus nascera num mercado ou num laboratório, pois, entretanto, ficara fascinada pelas gravações áudio, anónimas, onde se ouvia gente a dizer "trabalho num hospital da área da grande Lisboa e há mortos por todos os lados, acumulados nas morgues e nos corredores". Mas hoje, que as primeiras caixas fumegantes chegaram por Badajoz, as ansiedades e dúvidas dela(s) estão todas apontadas ao frenesi das vacinas. Sónia, para além de comentar o bom-gosto da Ministra da Saúde a vestir-se, é de opinião de que a vacina da Moderna tem por principal finalidade tornar o Bill Gates ainda mais rico do que o que é e, por isso, não que ser inoculada com essa. Chegou a minha vez de perguntar:

"Tu achas? Não te apercebes que é já rico que chegue? Tanto quanto me parece, ele, precisamente, anda a experimentar como se ver livre de algum do seu muito dinheiro de uma forma útil, e deu em filantropo, um filantropo inteligente; tem acontecido a muitos ao longo da história..."

Mas Sónia já de desinteressou de Bill e Melinda Gates: que saber o que poderá fazer para poder vir a escolher a vacina anti-Covid19 que mais lhe apetecer:

"Não quero a da Moderna e, devo confessar-te, que tenho medo da vacina da Pfizer. Não achas que pode ser um perigo muito grande administrar a uma pessoa um produto que é mantido a uma temperatura assim tão baixa? Nenhuma de nós é um urso polar!"

"Mas eles não ta vão inocular a menos 70 graus", informo, "aquilo é posto a descongelar até atingir a temperatura ambiente".

"Mesmo assim... Pode provocar algum nódulo frio, uma espécie de trombose ou tromboflebite; sei lá... E o choque anafilático? Não achas que tenho um risco acrescido?"

"Tu?! Porquê?"

"As minhas enxaquecas, a minha rinite... O imuno-alergologista diz que poderiam ser de base alérgica."

"Sim, mas nunca te descobriu nada! E não sei porque é que vocês se estão a preocupar agora com isso? Tens 31 anos, a Sandra 38 ou 39; nenhuma de vocês pertence a nenhum grupo de risco; vai demorar séculos até que chegue a vossa vez. E, quando isso acontecer, não vão poder escolher a marca que querem: vão levar a que vos estiver destinada."

"Tu achas?", diz ela, "a Sandra tinha pensado em escrevermos para a Astra-Zeneca..."

"Acho boa ideia", louvei, "já agora escrevam também ao Putin."

"Não se pode falar contigo...", censura.  

                                ......................................... (continua) .............................

    

WANTED


 

05 março 2022

JÁ ERA

A atitude geral é a do tipo que, boca atafulhada de pregos, os vai espetando, um a um, no caixão, sem se aperceber que é o próprio caixão que prega. De resto, enquanto martela, vai palrando com o interlocutor e tem resposta pronta para tudo, nunca se deixa apanhar num aperto, transparece-lhe no rosto a satisfação por ser assim tão espertalhaço. Uma mãe diria, desvanecida: já em pequeno era assim, tinha as respostas na ponta da língua! 

Esta mesma pose é a que transparece na entrevista que dá ao Público em 4 de Março deste ano que corre. No começo da conversa, João Oliveira ainda vai esbracejando na apertada casaca do democrata sensato, reflexivo e equidistante, até reconhece que o que a Rússia praticou na Ucrânia foi uma invasão! (após o tsunami que a posição do PCP desencadeou na opinião pública, tornava-se necessário deitar água na fervura). Mas, no reconhecimento da invasão, não surge nunca uma palavra para censurar Putin ou o Kremlin. Pelo contrário, e à medida que se entusiasma e esquece a contenção que teria jurado a si manter perante os jornalistas, Oliveira vai expondo os tristes ossos do seu dogma sobre o assunto. A saber:

a) A Ucrânia já bombardeava civis no leste do país e isto já no tempo de Zelenskii;

b) O Presidente Zelenskii fartou-se de incorporar nazis nas suas forças armadas (a presença consentida destes nazis é sublinhada três vezes por Oliveira ao longo da entrevista);

c) Os ucranianos estavam a conduzir uma limpeza étnica no Donbass;

d) O regime de Zelenski, para além de nazi, é xenófobo;

e) A revolução de Maidan (praça símbolo do momento em que a Ucrânia, em 2014, se libertou do regime fantoche, imposto por Moscovo) é designada por João Oliveira por "aquilo a que se chamou a revolução de Maidan" e durante a qual ele viu, em videos, "batalhões nazis a vangloriarem-se".

Putin não diria melhor, aliás tudo isto é, por uma pena, o que Putin e o seu regime assassino afirmam todos os dias como justificação para a invasão.

Razão tem Jerónimo de Sousa para exibir um ar crescentemente preocupado sempre que aparece em público. Coitado do homem, deve ter noção que, depois dele, nada vai sobrar do partido: nem deputados, nem dirigentes, nem votos. Com os putativos herdeiros à sua disposição, alegremente atarefados a selar e exibir o caixão, o PCP não vai longe. As causas do óbito resumir-se-ão em frase curta: suicídio por obsolescência.  

02 março 2022

DIZ-ME COM QUEM VOTAS...

Senti-me envergonhado de ser português quando soube que 2 deputados europeus portugueses tinham votado contra a resolução do Parlamento Europeu que condenou a invasão da Ucrânia pela Rússia. A resolução foi aprovada por 637 votos a favor e uns miseráveis 13 votos contra (1,3 % do total). Nos 13 que votarem contra, estão os 2 portugueses do PCP, 3 ou 4 comunistas gregos, 2 ou 3 Verdes e, pelo menos, 1 deputado do grupo Identidade e Democracia, o grupo da extrema-direita no Parlamento Europeu em que se filia Marie le Pen e onde, orgulhosamente, o Chega acabou de ser aceite. Sandra Pereira e João Pimenta Lopes (os eurodeputados do PCP que votaram contra) estão assim em boa companhia!

24 fevereiro 2022

TUDO EM FAMÍLIA

Maria de Belém Roseira, a vespazinha do PS que já se achou apta a ser presidente da república (4 % dos votos nas presidenciais de 2016), foi, há cerca de três semanas, notícia destacada do Público por estar, alegada e umbilicalmente, ligada à génese da trapalhada da concessão de nacionalidade portuguesa ao abrigo de se poder ser, talvez, descendente de um judeu sefardita.

Como já era sabido, e o Público aprofundava, a iniciativa, sem limite temporal para concessão e com critérios mais que frouxos, permite a naturalização portuguesa de praticamente quem quiser, o que tem aberto a porta a uma constelação de negociatas que passam pelo imobiliário de luxo, agências de viagens e sites que aconselham e orientam em como se obter um passaporte português/europeu sem dor e quase sem espera a preços módicos. Uma espécie de Vistos Gold, desta vez baseados na etnia... Um dos beneficiários mais recentes e mais famosos desta iniciativa foi o Sr. Roman Abramovich, oligarca russo e poderoso amigo de Putin, que, há quem o documente, faria o trabalho de rectaguarda da lavagem dos dinheiros obscuros gerados em torno do universo Kremlin, presidente incluído. Como se fosse um motorista do Rendeiro ou o amigo Carlos Santos Silva, mas a uma escala verdadeiramente impressionante.

O campeão nacional da concessão deste tipo de nacionalidade tem sido a Comunidade Israelita do Porto que, até agora, concedeu 90 % delas e está em vias de se tornar podre de rica com as diversificadas áreas que o negócio desbrava.

Estávamos com este nível de conhecimento sobre a matéria, mais a costumeira inacção do Governo em torno do assunto, quando o Público nos vem sobressaltar com a notícia de que terá sido Maria Belém Roseira a levar a iniciativa deste bolo legislativo à Assembleia da República, mas que o articulado da mesma teria sido concebido e redigido por um advogado do Porto (Francisco Almeida Garrett), por coincidência uma das figuras mais proeminentes da Comunidade Israelita do Porto e, ainda por coincidência, sobrinho da tia Maria de Belém. Como o mundo é pequeno e a Rússia tão aqui ao nosso lado.

Vera Jardim, porta-voz de Belém.

Hoje (24 de Fevereiro), ao fundo da página 14, sob a designação de artigo de "Opinião", o Público publica um texto que, em cerimonioso tom de Estado e em quatro pontos resume os impulsos legislativos que levaram à lei de concessão da nacionalidade aos sefarditas, e "fixa a excepcionalidade" de nenhum candidato ter de saber a língua a que se candidata ou sequer residir no país", com o generoso intuito de que nenhum judeu seja impedido de "regressar livremente à pátria e à língua da qual os seus ascendentes foram expulsos, perseguidos, quando não assassinados". Sê bem regressado à pátria Abramovich! Finalmente, o último ponto do texto aflora as "distorções ou ilicitudes" vindas a público em torno do assunto e, gravemente, pugna para que "se defenda a lei e se combata a fraude" (estás a ouvir Van Dunen?). Cereja no bolo: este artigo vem subscrito por quatro personalidades, uma delas Maria de Belém Roseira, como se sabe sem conflito de interesse na coisa... Como é a mais baixinha, Belém assina em último e, por assim dizer, fica ofuscada pela precedência de Vera Jardim (seu porta-voz na tal candidatura a Belém), de Alberto Martins e de Manuel Alegre, apoiantes da senhora à malograda candidatura à Presidência de 2016, em que Marcelo Rebelo de Sousa levou a medalha de ouro, Sampaio da Nóvoa a de prata, e Marisa Matias a de bronze.   

 

12 fevereiro 2022

ANTES O CORREIO DA MANHÃ!

Em tom jubiloso, o Público de ontem (11 Fevereiro) anuncia que, na "oportunidade criada pelas eleições legislativas e o início de um novo ciclo político"(!!) vai renovar o seu painel de colunistas. Aproveita para os apresentar, bem como para enquadrar os motivos da escolha: para começar são as três mulheres ("um ainda maior equilíbrio de género") e duas delas "afrodescendentes" ("promotor da diversidade da sociedade portuguesa contemporânea"). As imagens mostradas enquadram uma loura caucasiana (como diria o Chega) entre duas senhoras de pele mais escura, pois convém relembrar que existem afrodescendentes de outras tonalidades, do branco desmaiado ao negro retinto, passando pelo ruivo.

Chega-nos um travo a foguetório da redacção do jornal e os motivos citados quase pareceram bastar na escolha de um perfil jornalístico que, tanto quanto suponho, é o que espera o leitor médio de um jornal. Pessoalmente, entristece-me o tom da notícia, uma vez que as razões pela quais duas das ditas senhoras são escolhidas e louvadas são precisamente as mesmas pelas quais não se deveria afastar ou distinguir ninguém: sexo e cor de pele. É curto e, se estivesse na pele das novas colaboradoras, não ficaria satisfeito com tal começo e tal publicidade. Olha a novidade, olha que diferente! Cheira a circo e cada dia que passa desde que, em 1990, o Público foi vendido nos quiosques a primeira vez, compreendo melhor aqueles que nos cafés, praças e cantos deste país folheiam o Correio da Manhã. Afinal, ali há as mesmas notícias que se podem encontrar nos outros jornais, umas postas de novidades suculentas, e pouco catecismo. E, em termos de posterior utilidade doméstica, o Correio é bem mais generoso em papel do que o anorético Público, o que permite embrulhar muitos mais molhos de grelos e enrolar muito mais cones de castanhas assadas.

Mas uma notícia positiva deve ser realçada na parangona do Público de que vos falo: Rui Tavares (o rapaz do Livre) deixará de brindar os leitores com as fastidiosas e pormenorizadas crónicas em que explica aos leigos como o mundo poderia ser um lugar muito melhor. Ao menos isso!



Acrescento em 21 de Fevereiro: entretanto tive a oportunidade de ler duas crónicas da nova colunista Carmo Afonso, que se caracterizam por uma insipidez total de tom e por uma repetição insonsa de lugares comuns que não aquecem nem arrefecem.

 

27 janeiro 2022

O CABO DAS TORMENTAS

Tenho cá para mim que, com o escoar dos dias, João Rendeiro irá acabar a implorar que o extraditem para Portugal. É que, apesar de tudo, Portugal é um país meigo para o seus criminosos, sobretudo os ricos, ao contrário de países atrasados e sem respeito pelos direitos humanos dos bandidos como a África do Sul. 

Se, para além de manhoso e espertalhaço, Rendeiro fosse um nadinha inteligente, já teria percebido isso há eternidades, tê-lo-ia, talvez, até considerado, com o conselho do seu motorista, antes de se decidir pelo país para onde iria fugir. Mas será que o homem nunca viu na TV uma reposição do Papillon, do Expresso da Meia Noite ou de um dos muitos outros filmes sobre condições prisionais nos países exóticos? Não, provavelmente o banqueiro consumia todo o seu tempo acordado a maquinar sobre como vigarizar o próximo ou como fazer cópias falsas de obras de arte arrestadas sem que ninguém desse conta. É um caso genuíno de Xicus-espertus-lusus de Lineu.  

Há apenas pouco mais de um mês engavetado na prisão de Westville, Rendeiro já lançou mão a tudo quanto se lembrou para tentar passar os dias noutro ambiente mais airoso e onde seja menos arriscado apanhar o sabonete que nos caiu ao chão: primeiro acreditou nas virtualidades de uma fiança, propondo-se pagar uns generosos 2.000 euros de gasosa ao tribunal; depois, como o expediente não resultasse, sacou das questões de saúde que, coitadinho, seriam tão gravosas que necessitam de monitorização médica permanente e na choça sul-africana, como antigamente nos liceus, só se pode ir uma vez por semana procurar a enfermeira. E não é que, estando com tosse, não lhe enfiaram sequer uma zaragatoa no turbinete médio? É uma desfeita, negar uma hipótese de Covid a um tipo que foi capaz de roubar cerca de 15 milhões de euros sem que, praticamente, ninguém reparasse! No entanto, confesse-se, parece estranho que essa premência de acompanhamento médico perante uma condição crónica, como o seu fraco coração, não tivesse preocupado Rendeiro quando andou por aí, em gincana encriptante por entre países ou hospedado em hotéis de cinco estrelas. Acresce, tendo em conta as informações clínicas divulgadas pelo próprio, que as consequências cardíacas de uma febre reumática não são, na generalidade e sua idade, nenhuma urgência médica e que o, muito badalado pela defesa, perigo de tuberculose nas prisões sul-africanas toca a todos e não antecipará forçosamente a presença do cadastrado perante o seu Criador, até porque a tuberculose é doença de contágio e consequências lentas e fácil de tratar em tipos com a condição social de Rendeiro. 

Finalmente, sem mais na manga que faça levantar o sobrolho do soberano e democrático desinteresse manifestado ao português pelas autoridades judiciais sul-africanas, João Rendeiro lembrou-se de escrever à ONU a queixar-se das terríveis condições da prisão onde é hóspede, dizendo-se, inclusive, solidariamente preocupado com a situação de outros colegas de enxerga e solicitando uma vistoria urgente daquela entidade às instalações; convidando o próprio secretário-geral Guterres a que faça uma pausa no problema da fome Afegã e na invasão da Ucrânia pela Rússia para o visitar e comprovar ele mesmo que o autoclismo da cela não funciona, que as janelas não têm vidros e que os pobres presos, mesmo aqueles com proventos para suborno, são obrigados a estar a maior parte do tempo nas celas!

Perante este acumular de agravos e injustiça, e como dizia inicialmente, é natural que o tempo, esse grande nivelador, faça despertar uma nova consciência no novel grande denunciador internacional das condições prisionais e o faça mudar de opinião quanto ao local de encarceramento definitivo que lhe é mais favorável. É que mais dezanove anos (a pena que terá de cumprir) sem autoclismo, sem água quente, com papas de aveia por croissants ao pequeno-almoço, sem lanche nem edredão, com os alísios a entrar livremente pelas janelas, com o colega mais próximo a metro e meio de distância e, eventualmente com um X-act no bolso... Para tudo resumir, sem a consideração que ele acha merecer, a que se foi habituando entre Lisboa e Cascais e que, calculou erradamente, julgaria majorada e multiplicada num país onde a iliteracia e as mordomias são ainda direitos muito fortes. 

Então, nesse dia de epifania, Rendeiro, comovido, rogará para regressar à pátria, de onde nunca deveria ter saído. É que o sonho africano já não é o que era!