Contos


DISCRETA SERENATA RURAL

(em 7 andamentos)



1. Remédio Santo

Acordou com a campainha da porta a ser premida com insistência. Ao abrir os olhos percebeu de imediato do que se tratava pelos jactos de luz azul que, intermitentemente, eram projectados no tecto através dos interstícios nas persianas.
A seu lado, alertada pelo choro que se iniciara no quarto ao lado, a mulher, ainda de olhos cerrados, gemeu estremunhada:
“Que foi, quem toca assim...? A Teresinha está a chorar...”
“Deixa, é a GNR; é para mim. Deixa-te ficar, eu vou à menina...”
Sem acender a luz, vestiu-se à pressa; depois entreabriu a janela e acenou para baixo, a avisar que estava em marcha. Correu ao quarto ao lado. A filha, sentada na cama, choramingava no escuro. Sentou-se na borda e abraçou-a. Ela quis saber o que se estava a passar, aquele barulho todo.
“São os senhores da ambulância, querida, é para o papá... Vá, dorme.”
Perguntou ainda se era um menino que tinha ficado doente por ter comido sobremesa a mais.
“Não, Teresinha, não é um menino, a esta hora os meninos estão todos a dormir nas suas caminhas. Deve ser algum senhor grande que está muito doente. Vá, dorme.”
No armário da entrada tirou a bolsa onde guardava a lanterna, o espelho de bolso, as pinças dentadas e as luvas cirúrgicas; desceu as escadas duas a duas e, antes de se aventurar no exterior, entalou o cachecol no pescoço e olhou o relógio. Eram 6.35 e estava noite cerrada. Novembro, o mês mais cruel.
No pátio de acesso à entrada do prédio o jipe da GNR gorgolejava, paciente, o farol do tejadilho desferindo golpes de luz azul pelas paredes e pelos álamos que hibernavam na madrugada. Uma porta abriu-se para ele entrar.
comandante da GNR arrancou e em abençoado silêncio para o seu estado estremunhado, guiou sem tugir até ao lado de lá do tabuleiro da ponte sobre o Tâmega. Depois, como se tivessem entrado noutro país ou noutra era, disparou:
“Pois é, senhor doutor, lá se foi mais um...”
O delegado de saúde encolheu-se contra o assento. A leste começava a clarear e esquadrões de névoa despejavam-se das montanhas. Perguntou:
“O que é desta vez?”
O comandante da GNR não respondeu logo, apresentou-lhe o passageiro que seguia no banco de trás, sentado ao lado do cabo Pimentel:
“Acho que já conhece o Sr. Valadares, o regedor de Canedo. Veio por aí abaixo no jipe da guarda-florestal, saiu de lá às três da manhã e volta connosco, coitado... 
“O caminho está mau, caiu um nevão ontem ao anoitecer...”, explicou o Sr. Valadares como se pedisse desculpa pelos incómodos  causados pela sua freguesia.
O comandante da GNR ignorou o comentário, voltou ao assunto principal:
“Uma mulher, sessenta-e-três-anos. O marido deu com ela quando chegou a casa, da tasca. Diz ele que estendida na cama, morta, e com ar de quem passou os derradeiros momentos num sofrimento... Segundo aqui o Valadares, parece que o povo já anda por lá a dizer que fora ele que a matara, que na véspera lhe dera uma valente zurzidela com uma tranca.
A hipótese de homicídio passou, fugaz e dolorosa, pela mente do delegado de saúde.
“E por que razão ele lhe daria a coça? Ou era costume?”
“Dizem por lá, ao que parece, que eles ontem à noite tiveram uma discussão, coisa brava, por causa da mãe dele. Ele dá-se muito com a mãe, uma velha tesa, e parece que a velha não apreciava a nora... Ouve-se que a velha lhe fazia a vida negra...”
E caíram em silêncio. Tinham passado Santo Aleixo de Além Tâmega, a estrada asfaltada acabara abruptamente e o comandante da GNR guiava em total concentração, adaptando-se ao novo terreno, aos solavancos e aos barrancos da estrada florestal, uma estreita língua de saibro, cheia de covas e de pedregulhos, que todos os anos era refeita no Verão e desfeita pelo Inverno.
“Já ali arrombei o carter uma vez”, recordou o comandante da GNR apontando o queixo para a curva que se aproximava subindo e descendo do lado de lá do vidro da frente do jipe.
Canedo era a freguesia mais a norte do concelho. Uns escassos 20 km a separavam da sede do concelho, mas percorrê-los demorava mais de duas horas e só carros de bois ou jipes se aventuravam naquela estrada, pouco mais do que um trilho de cabras, serpeando entre pinheirais intocados e flancos de serrania.
O delegado de saúde já por lá estivera duas ou três vezes, a acompanhar a equipa de vacinação ou em visita à extensão do centro de saúde que ali estava a ser construída. Um buraco, era como ir a lugar nenhum! Cada vez que passava por ali sentia-se tentado a dar razão ao Agostinho, o técnico sanitário, que sempre costumava dizer quando se deslocavam a lugarejos semelhantes:
“Mas como é que há gente que lhe passa pela cabeça construir e viver em tal sitio?! Gente atrasada, porra!”
Olhou o relógio. Oito e dez da manhã e ele em jejum absoluto. Se a viagem ia demorar tanto como a do regedor só lá chegariam por volta das 9:30... Limpou o vidro embaciado com o cotovelo e olhou o céu. A manhã estava instalada, mas o céu tinha a cor do mar em dias de cerração profunda, o mesmo cinzento espesso e mudo. Dali só podia sair mais neve, pois já tinham subido acima da altitude em que o granizo é provável.
“O senhor doutor quer parar em Ceirós para rilhar qualquer coisa?”, interrompeu o comandante as suas considerações metereológicas.
“Querer, queria, mas onde!?”, exclamou, pois era homem que acreditava em cafés e restaurantes e Ceirós era um buraco ainda mais pequeno, mais perdido, do que Canedo. Uma ruela, pavimentada a tojo e caruma, futuro estrume para os campos pedregosos, ladeada de uma dezena de soturnas casas de granito.
O Comandante deu uma gargalhadinha e, pelo retrovisor, olhou o banco de trás, num silencioso pedido de indulgência ao regedor pela falta de conhecimento e sensibilidade daquele estrangeiro. Depois disse:
“Há-de haver sempre quem nos ofereça uma fatia de presunto e um naco de broa...”
“Nem me fale em presunto, que já estou aqui a salivar só de pensar em poder deitar-lhe as mãos...”, emendou o delegado de saúde, usando o humor como bandeja para se desculpar.
E todos se riram muito. 
"Que maravilha”, pensava o médico menos de uma hora mais tarde, agora confortavelmente instalado no banco do jipe e sentindo um torpor agradável tomar conta de si. A broa ainda estava morna do forno e a gordura do presunto, tão alva como a neve mas de brilho mais caloroso, combinava com ela como ouro sobre azul. A rematar, engolira um cálice de bagaço, tão forte que lhe encheu os olhos de lágrimas, e de riso os dos seus companheiros de missão.
“Oh, c’um grandessíssimo carago! Valha-nos Deus!” 
O delegado de saúde, que escorregava para uma sonolência, abriu os olhos de repente, sobressaltado pela travagem brusca e pela imprecação do comandante da GNR, de habitual um homem pacífico e de linguagem comedida.
Entre o quase negro dos troncos molhados dos pinheiros, sobre o tapete alvo da neve que cobria o chão, a menos de quinze metros, um lobo encarava o jipe tranquilamente. Apesar da distância, da segurança de estar encerrado entre chapas de metal, o médico sentiu todos os pelos do corpo serem arrepiados por um estremecimento profundo. Aquele animal no meio da estrada, apesar do tamanho e do formato serem semelhantes, não tinha a mínima parecença com um cão. Mais do que o hirsuto da pelagem, era a pose altiva, a aura de solidão auto-suficiente e, sobretudo, o fogo selvagem dos olhos, que faziam dele uma outra espécie. 
Como se assistissem a um milagre, ali se quedaram, uns eternos segundos mirando-se em silêncio, até que o lobo deu de costas vagarosamente e desapareceu no meio do bosque.
Constatou, mais uma vez, que em casos de morte violenta não é preciso indagar onde fica a residência da vítima. Tinham chegado, uma porção de vizinhos escabichava rente às janelas da casa. Alguns homens, onde sobressaía o viúvo – pouco à vontade no estigma dos rumores, mas principalmente mulheres, num luto que nas novas era recente e nas velhas se eternizara sob as contíguas mortes de familiares, compadres e vizinhos.
O comandante da GNR caminhou resoluto para a multidão, em busca de informações de última hora. O delegado de saúde, amalgamando a intrusão com a espera, dirigiu-se ao viúvo em voz discreta:
“Então como foi isto, amigo?”
O viúvo repetiu a história que o Sr. Valadares contara ao comandante e que o comandante lhe contara a ele mal tinham cruzado o Tâmega: chegara da taberna, chamara por ela, ela não respondera... Reservou apenas o direito íntimo de não misturar a mãe na tragédia. Soluçou:
“Dizem que lhe bati ontem, mas não é verdade. Bati-lhe muitas vezes, mas ontem não...”
O comandante da GNR aproximou-se e, fechado no cumprimento das funções, sussurrou:
“Quando o senhor doutor quiser...”
O delegado de saúde tartamudeou na direção do viúvo e cruzou a soleira.
Uma só divisão. Construção recente, a casa era feita de blocos de cimento sem nenhum revestimento ou pintura no interior. Na borra imperfeita de cimento que transbordava da aposição dos blocos, pregos penduravam objectos que mudavam de categoria em cada um dos cantos da casa: cebolas entrançadas, duas chouriças, na cozinha; um Cristo na sala; um terço e um Souvenir de Bordeaux no quarto de dormir. Frio, desolado, não havia sequer ainda uma camada decente de negro-de-fumo na chaminé de cimento.
O cadáver parecia mais novo do que 63 anos. Uma mulher grande, ainda sem o ar tranquilo da velhice, uma espuma rósea escorrendo dos cantos da boca a desacreditar a mansidão do repouso.
Debruçando-se, o delegado de saúde iniciou a observação pelo toque da face inchada do cadáver (aquele frio invulgar era característico de um fenómeno tão semelhante à petrificação como o é a morte), apercebendo pelo chiar ritmado das botas a aproximação do comandante da GNR.
“Procedemos a buscas e não encontrámos nada que pareça suspeito; nem aqui dentro, nem no quintal.”
Ao saírem comunicaram ao viúvo, à indiferença lenta dos espectadores, que o assunto iria ser levado ao conhecimento do senhor Delegado do Procurador da República. Era nas mãos dele que estava a determinação do dia e da hora do funeral.
“O senhor doutor que acha?, perguntou o comandante da GNR.”
O médico subiu o vidro da janela e falou por sobre o barulho do jipe:
“O que lhe posso dizer é que não foi a pancada que a matou. Não há nenhuns sinais disso, os indícios são outros.”
O tribunal marcou a autópsia para as 11 horas da manhã, da manhã seguinte.
Por absoluta falta de condições em Canedo e por ausência de instalações adequadas no centro de saúde, o cadáver foi depositado na capela de Santo Aleixo, um meio caminho, um compromisso, entre o local da morte e a sede do concelho. Contrariado, o pároco cedera as instalações da capela, mas não comparecera e mandara retirar todos os objectos sagrados e consagrantes. Era uma morte ainda não clarificada e seria pouco sensato participar nela desde já.
O delegado de saúde teve que aguardar que os homens do tribunal do concelho vizinho (o concelho não possuía comarca própria) chegassem com os ferros, os frascos de mercearia adaptados a contentores de vísceras, e os observadores oficiais. Entretanto, fora pedindo a vizinhas pressurosas e ardentes em reportarem as alterações de forma, cor e volume do cadáver, bacias com água, sabão, duas ou três toalhas. Esperava, batendo os pés no chão de granito para afugentar o frio e o silêncio.
Às duas da tarde sentiu fome e o alívio de ter, finalmente, abandonado os maus humores da morte, chocantes na sua semelhança com os odores que diariamente estimulam as narinas e a salivação dos carnívoros humanos.
Oficiosamente, o mistério estava desvendado. Ao rasgar-se o estômago do cadáver, evolara-se deste um intenso hálito de benzina e uma quantidade brutal de um invasor líquido, branco como o leite, ondulava no seu interior.
O comandante da GNR mostrava-se satisfeito, uma preocupação estava em vias de extinção.
“Remédio do escaravelho, hem?! E que quantidade, senhor doutor! E onde terá o raio da mulher escondido o frasco?! É formidável, olhe que não demos com ele!”
O médico evidenciava também uma felicidade loquaz:
“Porque terá ela feito aquilo? Terá querido incriminar o marido?”
“Não tenho dúvida. Deve ter pensado: olhas mais para o que diz a tua mãe do que para o que eu digo e qualquer dia hei-de tramar-te. (Uma vizinha ouviu-a dizer uma vez: ‘qualquer dia arrependes-te’ – ela, para o marido). Domingo era um bom dia: ele tinha-lhe zupado na véspera, ela deixa-o sair para a taberna e zás, toma o veneno. Ele volta, encontra-a já cadáver, e o povo desata a mirambolar que foi a pancada que a vitimou...” 
E o comandante da GNR apertava o volante na segurança de que o iluminara a descoberta da sua análise dos factos. Continuou:
“As coisas mudam, senhor doutor. Antigamente enforcavam-se, agora, remédio do escaravelho. A região é de muita batata, chegaram os pesticidas: dá muito menos canseira e é remédio santo, morte assegurada.”
Nesta conversa tinham chegado à vila. O comandante estacionou o jipe à porta do posto, desligou a ignição e virou-se para o delegado de saúde:
“O senhor doutor não quer vir daí comer qualquer coisita lá a casa? São mais que horas de almoço...”


Primeira fotografia: © Pedro Serrano, 2009. Fotografia acima: © Per Hjortdahl, Ribeira de Pena, 2008.



2. A Caça

Um dia é da caça, o outro do caçador.
Provérbio

Terceiro domingo de Agosto.

O marasmo habitual do concelho rebenta pelas costuras, de há um mês para cá, sob a vaga humana e electrodoméstica dos emigrantes.

Sete e meia da tarde: um jipe percorre a velocidade moderada a estrada nacional.

“Ela, o marido, e uma filha. Única. Dantes viviam lá os pais dele, mas já faleceram.”

“Que idade tinha ela?”, inquiriu o delegado de saúde.

“Andava em cinquenta. Coitada, parece que era uma mulher muito doente...”

“Doente de quê?”, o delegado de saúde estranhara a inflexão da voz do comandante da GNR ao pronunciar a palavra doente. O comandante levou o dedo à careca:

“Nervos. Parece que até esteve internada várias vezes num hospital especializado.”
E o comandante embrenhou-se numa narrativa complexa das particularidades dos internamentos da falecida, demonstrando um conhecimento paraprofissional do caso. O delegado de saúde mergulhou na reunião das peças soltas:
Quarenta e nove anos de idade, casada, uma filha (única). Alguns internamentos psiquiátricos. Domingo, seis da tarde: o marido e a filha saem para a missa (ela tinha ficado em casa, pois andava arredada dos padres e da religião). Pega numa espingarda-caçadeira, dois canos - dissera o comandante, encosta-a ao peito e trás!.
A casa espetava-se à borda da estrada, uma varanda de madeira, a todo o comprimento da fachada, pejada de vultos negros, uns debruçados, outros crocitando em cabisbaixos ajuntamentos.
Quando a porta do jipe bateu, silenciosas rezas anunciaram a todas as dependências que a lei dos homens chegara para tirar as medidas à morte.
O médico atravessou a fila humana, distribuindo uma saudação elástica que não o obrigava sequer a mover os lábios e foi recolhendo as boas-noites, indiferentes, lamuriosas, ou desconfiadas, que lhe eram dirigidas. Mais vultos no hall, estes sentados, sem parar pelo corredor até ao quarto ao fundo, à esquerda, cuja porta estava fechada.
Uma figura atarracada e vermelhusca, a quem o preto ainda ficava mal, destacou-se da massa de sombras do corredor.
“É aqui...”
A morta estava deitada de costas na cama de casal, tapada com um lençol, transformado em bandeira japonesa por uma enorme nódoa vermelha na região do peito.
“Foi ali”, disse o viúvo apontando o canto atrás da porta, “mas trouxemo-la para a cama.., pensámos que talvez não houvesse mal... Estar para ali assim...”
E choramingou.
No canto, tapado pela porta a quem entrava, a parede do quarto, de si amarelada, fora borrada com longos laivos vermelhos, de aspecto pegajoso. No rodapé e no soalho adjacente, uma poça viscosa onde se enlameava o cano duplo de uma espingarda. Duas chinelas divergentes, de flanela axadrezada, imitavam barcos ancorados num poente vermelho.
O comandante da GNR acocorou-se com audácia e pescou a caçadeira cuidadosamente. Examinou-a com lentidão, desarticulou-a, cheirou-a, piscou um olho aos canos.
“Só foi disparado um cartucho, senhor doutor. Mas, inicialmente, foi carregada com dois.”
O delegado de saúde destapou a morta: uma face inexpressiva de há muitos anos (a morte era mais recente, com toda a certeza), uma madeixa grisalha sobre a testa, uma cratera no meio do peito. A explosão fora tão violenta que destruíra a ténue ingenuidade de que para o coração é preciso mirar à esquerda. Um imenso buraco para onde eram sugados os bordos esfarrapados de um avental às risquinhas verticais, abotoado à frente.
Perto da janela, agarrando-se aos últimos raios de luz da tarde, o comandante da GNR e o viúvo reconstituíam o suicídio. O delegado de saúde, cansado de procurar indícios no lodo sangrento, juntou-se-lhes.
“Soube que esteve internada várias vezes; o que é que tinha?”
“Nervos, senhor doutor. Deu de entristecer, entristecer... Dias seguidos sem dizer uma palavra... Até que os médicos acharam melhor que estivera internada.”
O comandante da GNR interrompeu para citar o próprio viúvo e dizer que, "segundo aqui o marido", parecia haver uma certa ligação entre o início da moléstia e a partida dos incómodos. O viúvo confirmava, silencioso.
“Segundo aqui o marido, continuou o comandante da GNR, ela já ameaçara fazer isto (apontou o cadáver) várias vezes. Até que desta vez fê-lo mesmo... É formidável...”
Os três vultos já deixavam reflexo nas vidraças da janela. O delegado de saúde explicava que, provavelmente, o gatilho fora premido com um dedo do pé (na autópsia examinar-se-iam os pés com minúcia) e lamentava que o viúvo não recordasse se ela já tinha as chinelas calçadas quando ele saíra para a missa. O viúvo desculpava-se:
“Se eu soubesse.., se eu soubesse tinha reparado.”
Quando passaram pela sala havia velas acesas e uma velha tombava adormecida numa cadeira, ensaiando o velório. O viúvo reteve um momento o médico para, às escondidas, lhe perguntar para que horas é que poderia combinar o funeral com o padre.
“Isso não depende de nós, amigo, vamos ter de aguardar a decisão do tribunal.”
“E, senhor doutor, haverá mal em lhe pôr um lenço com bagaço? Bem vê, o tempo vai quente..., amanhã já deve cheirar...”
O médico não respondeu, mas pousou uma mão concordante no ombro do viúvo.
Como em outras situações semelhantes, o delegado de saúde jantou essa noite em casa do comandante da GNR, onde escutou um novo episódio das façanhas de caça da perdigueira ("olhe que só lhe falta o dom da palavra, senhor doutor") daquele pacífico funcionário, a quem a ironia da função atribuíra a ingrata missão de ter que reprimir o acto venatório nos períodos não estipulados para o efeito e a quem não possuía licença para uso e porte de arma.

© Fotografias de Pedro Serrano, 2012: (1) e (3) Buçaco; (2) Queirã (Viseu).

3. A Rega

O comandante da GNR galgou, com determinação e esforço, a ladeira, atapetada de verde graças à humidade omnipresente do local.
Ao cimo do quintal, numa zona já invadida pelo restolho dos eucaliptos da mata contígua, o tanque do acidente, os familiares, e os vizinhos aos cachos.
O tanque, de rega, era grande: uns seis metros por quatro, calculou o delegado de saúde. Uma espécie de piscina que aproveitava a inclinação do terreno, o que fazia com que a água da sua metade sul lambesse o nível do solo relvado e a metade norte se erguesse a mais de um metro deste.
O homem caíra, ou deslizara, para as águas pela metade sul e jazia de borco, flutuando imperfeitamente na superfície parcialmente caramelizada pela geada, uma corcunda de ar enfunava-lhe as costas do casaco.

Cá fora, deitada de perfil sobre a erva gelada, uma mulher de preto gemia alheada dos presentes, anuviada de dor. Era a filha e fora quem encontrara o pai: ao estranhar a demora (ele costumava regressar a casa a meio da manhã, para o café e o bagaço), saíra, depois de cruzar um xaile - que a manhã estava fria, procurando-o.

“Aquilo caiu, não andava muito certo. Queixava-se de tonturas, faltava-lhe a vista”, dizia, a quem o queria ouvir, o genro, olhando de través a Autoridade; como que a explicar que ali não havia nada a investigar...

Mas o comandante da GNR não parecia da mesma opinião. Era forçoso ouvir as testemunhas, interrogar a filha. Dado que uma explicação deve anteceder o seu entendimento, só depois, e nunca antes de o cadáver ser examinado, se poderia concluir que não havia suspeita de crime.

O delegado de saúde pediu que retirassem o corpo da água e a filha gemeu mais alto no leito de ervas.

O cadáver não apresentava particularidades de nenhuma espécie: ainda não estava macerado, nem sequer inchado pela submersão. Na testa, esbranquiçada pelo fumo da água, uma artéria deformava a pele, sinuosa e colada às têmporas como uma osga numa parede ao sol. Era bem possível que ele tivesse tonturas (assim o dissera o genro), que lhe faltasse a vista na borrasca luminosa do sangue contra os baixios da esclerose.

“Não há sinais de luta”, comunicou ao comandante da GNR, que o ditou ao guarda que tomava notas:
“Não há indícios de confronto físico...”
“Tem poucas horas...”
“Está cadáver há relativamente poucas horas”, traduziu o comandante.
A audiência maravilhava-se, até a órfã no gramado, ante a eficiência daquela equipa legal, perante aquele mágico que sacava, como quem descobre ovos no nariz de um espectador solícito, informações a defuntos!
Finda a observação do habito externo, o comandante da GNR iniciou o interrogatório e achou por bem fazê-lo abarcando todos os presentes:
“Então quem é que encontrou o corpo...?”
Todos mantiveram o silêncio, mas, como se não o pudessem evitar, os olhares convergiram na mulher com pastagem aos pés. O comandante aproximou-se e, mirando-a de cima, inquiriu:
“Foi você que encontrou o seu pai?”
Ela acenou com dificuldade, pois mantinha a cabeça deitada.
“A que horas? Quem é que estava consigo? Que medidas é que você tomou?”
E como ela não colaborasse (falando), aguçou a penetração da abordagem:
“Você chorou ou gritou quando deu com ele?”
“Saiba que não senhor”, falou a mulher pela primeira vez.
O comandante disfarçou um sorriso:
“Então você encontra o seu pai afogado e não chora? Não dá sequer um grito?!”
Subitamente desperta e preocupada com o rumo que as coisas estavam a tomar, ela afirmou que sim, que dera um grito, que ninguém o ouvira por não haver ninguém por perto, e que, em seguida, caíra ali, como que fulminada. E sublinhou a confissão com um traço de choro.
Quinze a vinte minutos mais tarde o comandante da GNR, depois de trocar um olhar consternado com o médico, desistia de espremer a mulher. Por muito que se esgravatasse, ali não havia suspeita de crime.


4. A Sementeira

”Isto é que foi um dia!”, interpelou o comandante da GNR ao entrar na sala, esfregando as mãos.

“É verdade...”, voltou-se o delegado de saúde, que se entretinha a dispor as mãos sobre a grelha do aquecedor a gás.

Ao nascer da manhã tinham sido chamados ao viveiro dos Serviços Florestais, na encosta da serra. Um homem, já com o à vontade da aguardente, caíra da caixa de uma camioneta e a cabeça fora esmagada pelo rodado traseiro do camião onde se encarrapitava.

Jazia sob um cobertor, tristemente manchado de gasóleo, o pescoço desfolhado em pétalas curtas de osso esquirolado. Pelo chão, num raio de alguns metros, nos pneus duplos do veículo, na sola nauseada dos sapatos do primeiro a socorrê-lo, os miolos dispunham-se numa aflita sementeira: semelhando cogumelos fora de época, decalcando 42 made in Taiwan; revelando, na generalidade, um razoável tropismo pelos baixos-relevos dos acessórios de borracha.

O motorista soluçava encostado a uma sebe, soçobrando ante a constatação que um crânio e uma pedra produzem um baque idêntico, o mesmo tipo de ressalto facilmente ultrapassável.

Depois, ainda a papelada do primeiro caso estava a ser alinhavada, a queda de um velhote num tanque de rega... Toca a sair de novo, contactos, interrogatórios, mais papeis.

Às sete e meia da tarde tinham acabado o relatório conjunto para a Justiça. Após o memorando das tarefas para o dia seguinte, o delegado de saúde levantara-se, despedindo-se. Mas o comandante da GNR não o tomou por definitivo:

“Podíamos ir até lá casa comer qualquer coisa, eu dava daqui uma telefonadela à minha mulher...”

Saíram a pé. O comandante morava perto (ali na vila era tudo perto) e a nenhum, no epílogo de um dia passado em apertos de jipe e diligências, apetecia veículos motorizados.

O comandante, decerto inspirado pelas funestas coincidências da lua cheia, olhou o céu estrelado dos fins de Novembro e iniciou uma dissertação sobre as nebulosas fronteiras entre ciência e religião. O médico tentava seguir a linha de pensamento do outro, mas o facto de este estacar no fim de cada frase dificultava-lhe a compreensão, pois atravessavam a vila numa cadência de ---, --, -----, --, -----, o que constituía um péssimo ritmo para um diálogo que se tornava mais metafísico a cada passada.
Depois de dar como adquirida a existência de Deus, o comandante resvalara para a refutação das teorias darwinistas da evolução do Homem. Saltando de hipótese em hipótese,  concluía que:
“Não... Há muitos séculos que ele há homens, que há macacos. E seria possível que, ao fim de tão longa convivência, intimidade até - no caso de alguns países de clima mais tropical, não aparecesse um dia um macaco a falar, a dizer ao Homem: ’Olha, aqui estou... Falo, penso, sou finalmente como tu. Aprendi contigo, a ti o devo’?!”
O delegado de saúde optava pela abstenção, fazia por se concentrar no ritmo das passadas; sentia fome, dava por si a fantasiar o que seria o jantar. Mas ao comandante bastava a sua própria mecha:
“Não, a Ciência não pode explicar tudo...”
A ciência era limitada. Por um lado, pelos legítimos domínios da religião, por outro pelos mistérios da Natureza... As abelhas, por exemplo (o comandante possuía cortiços e divagou pelas propriedades anti-reumáticas das ferroadas), os cães...
Sobre cães, já o delegado de saúde conhecia de sobejo as convicções do comandante. Possuía vários, mas a sua predileção fugia para uma cadela perdigueira, uma maravilha que reunia numa só alma as virtudes de um perfeito exemplar da raça canina e de uma Diana. Ultimamente passava mal, pobre bicha... Tivera muitas ninhadas, o útero cansara-se e quebrara-lhe a barriga numa hérnia que cortava o coração ao dono. Pedira até a opinião clínica do delegado de saúde e sensibilizara-o o carinho com que este a examinou, de joelhos, ao pé da lareira.
“Se fosse ao senhor, levava-a a um veterinário; dos bons. É muito possível que isto possa ser operado.”
Estendida no tapete, serena às mãos do médico, a cadela observava toda a conversa, percebendo que o assunto era do seu interesse, o castanho dos olhos derretendo como caramelo à luz do lume.
O comandante ficou entusiasmado com a sugestão, que – “francamente” - nunca lhe ocorrera, a seguir eufórico e, por volta do segundo aperitivo, embriagado: citou os antecedentes genéticos da cadela, enterneceu-se com a infância do bicho, gabou-lhe as proezas de caça da juventude, encenando uma particularmente grata à sua memória.
Era uma manhã de caça, em Outubro, um Domingo... Andavam no monte há duas horas e, até ali, nada! A cadela saltitava, leve como um gato, à sua frente. De repente, perto de um maciço de urzes, estacara, imóvel, uma pata rígida petrificada no ar, farejava... Ele parara também, esperara em total suspensão, como o bicho... E o comandante da GNR exemplificou a pose da perdigueira: uma perna levantada e esticada para trás, o corpo inclinado para a frente, as narinas arfando e o casaco de couro do ofício, que conservava vestido, rangendo.
Depois a cadela virara a cabeça para ele ("o corpo mantinha-se na imobilidade") e olhara-o com aquele modo tão meigo, tão vivo, como que a dizer: "anda, olha que elas estão aqui..."
“Só lhe falava falar, senhor doutor. E, de facto, lá estavam as perdizes!”
Eram episódios como esse, podia contar muitos, que o levavam a pensar que havia, na Natureza, mistérios que a Ciência não explicava...
Da cozinha chamaram para a mesa.
“E se fossemos petiscar alguma coisa?”, sorriu o comandante, como se ambos ignorassem que era para isso que ali estavam. O médico levantou-se, pediu para ir lavar as mãos.
Era espantoso, pensou olhando a traça do espelho do quarto de banho, como aqueles tipos significavam "petiscar alguma coisa" a um coelho assado que, enquanto se aprontava, era precedido de umas febras de porco com batatas fritas e arroz, para ir "acalmando o estômago".
Ao jantar, a narração dos feitos do dia, bebida na fonte pelos familiares atentos, adquiriu a tonalidade que sobeja aos acontecimentos quando libertos da submissão ao segredo profissional, isto é recuperaram o colorido original.
Retomando um hábito local e, talvez, muito antigo, a conversação foi derrapando para as histórias maravilhosas. Não das mais sobrenaturais (bruxas, lobisomens, mula-sem-cabeça), visto que o círculo era diferenciado, mas umas de gama média em que o feliz desfecho era discretamente atribuído à intervenção do divino.
O comandante lembrava-se bem, embora fosse muito novo à época: Um homem aparece afogado, parece acidente, mas o povo murmura. Levam-se a cabo investigações, não se descobre nada... O dia do funeral. O cortejo, enorme, sobe a rua em direcção ao cemitério. À frente o padre, o sacristão (ainda era o falecido Faria) e vários voluntários, empunhando crucifixos e estandartes.
De súbito, as mulheres, cá trás, notam um burburinho: um dos homens que transportava um crucifixo era, agressivamente, interpelado por um dos outros.
“E que se passara?”, suspendeu, enigmático, o comandante, mantendo a tensão na assistência.
O crucifixo, que devia seguir com a imagem de Nosso Senhor voltada para a frente, rodava nas mãos do homem - sem ele se dar conta ou poder evitá-lo - e Jesus encarava-o, como se o acusasse... Este facto tantas vezes se repetira - ele a virar o crucifixo e Nosso Senhor a apontá-lo - que o povo desconfiara. Apertado, o homem confessara-se culpado pela morte do defunto.
“É formidável!”, luzia o comandante da GNR, satisfeito com aquela divina interferência que nos protegia das nossas próprias torpezas, dos actos vis de seres transitoriamente condenados ao suplício das instituições, mas destinados a adormecer na mão amnésica de Deus.


© Fotografias de Pedro Serrano, 2012: (1) Buçaco; (2) Queirã, sobre colagem de Clara Serrano; (3) Sever do Vouga.


5. A Vindima


O cadáver jazia de lado na cama, uma colcha azul-sulfato tapando-o por inteiro. O delegado de saúde sussurrou ao comandante da GNR:

“Por favor peça-lhes para saírem, todos.”

Enquanto aguardava notou, com apreensão, um odor no ar. Era ainda muito leve, pouco maduro, mas já despertava inquietação. Setembro ia quente, dizia-se que o rapaz andara desaparecido mais de 24 horas e o apodrecimento dava os primeiros sinais da sua marcha.

Sim, deveria andar pelos vinte, vinte e dois anos. Moreno, cabelo preto e encaracolado, vestido de ganga azul-coçado; de lado no leito, a perna direita flectida em gatilho (o tacão da bota lambendo de lama a ganga da coxa) sobre a perna esquerda estendida.

No pescoço, um sulco, feio de se ver, lembrando as marcas de um martelo de cozinha num bife já não muito fresco: violáceo e esfarelado, descosendo a harmonia entre a cabeça e o tronco.
“A corda deve estar aí na cama. Pedi aos homens que a guardassem”, espreitou o comandante da GNR por sobre o seu ombro.
Com esforço, o médico rodou o corpo para si. Desengonçada, a cabeça escorregou da almofada e um gorgolejo carrancudo soltou na dobra do lençol uma baba acastanhada, fétida e malévola. O delegado de saúde travou a respiração e rezou por paciência aos deuses do estômago. Por trás de si, o comandante da GNR sibilou:
“Oh, diabo...”
O médico sugeriu-lhe que saísse um momento, a tomar ares. Conhecia a sensibilidade dele às caretas que a morte faz aos vivos, e se um dos dois podia escapar ao espectáculo... Mas o comandante não o quis deixar só: solidário, apenas buscou consolação no vidro da janela ao fundo do quarto.
Lá estava a corda. Antes uma tira longa, de couro, achatada como uma cobra atropelada, e habitualmente usada na tarefa complexa de aparelhar uma junta de bois à canga de um carro de madeira.
“Era muito metido em si mesmo...”, declarara a mãe, como se não o conhecesse.
Os 70 Kg do rapaz tinham acabado numa vindima precoce e desmazelada: Um ramo grosso de videira, abraçado a um arame (pouco mais de metro e meio até ao chão) ofertara, juntamente com um desnível entre terrenos de menos de três palmos, o apoio para um problema que permaneceria desconhecido.
Fez um laço, enfiou-lhe o pescoço, passou o resto da tira por cima do ramo da videira e amarrou a ponta que sobrava ao tornozelo da perna direita, que tinha flectida sobre a coxa. Assim poder-se-ia suspender com a certeza prévia que os seus pés não procurariam o chão, tão demasiadamente próximo.
“Onde pensara ele tudo aquilo? Em casa, in loco?”.
Lá estava: levantando a calça aparecia a pele do tornozelo direito modestamente esfacelada.
Nada mais a fazer ali, senão confirmar a presença primaveril da morte naquele corpo: uma flor esverdeada de putrefação intestinal desabrochava na vizinhança da anca direita do cadáver.
“E se fossemos ver o local do acidente?”, propôs o delegado de saúde, ansioso por desinfectar a memória.
© Fotografias de Pedro Serrano, Praia da Areia Branca, 2010.

6. Delito Comum


A Teresinha já chegara do infantário, mas conservava ainda o bibe vestido. Veio, lá do fundo do corredor, como uma pequena locomotiva aos quadrados vermelhos e brancos. Abriu-lhe os braços, enfiou o nariz no sino dourado e doce da sua cabeleira.
“Papá, vens brincar comigo às famílias?”
“Deixa-me só ir tirar o casaco e lavar as mãos...”
Ela trotou de imediato para a cozinha e, quando se reuniu a ela uns minutos mais tarde, encontrou-a, de pé, em cima de um banco a retirar, de cima do frigorífico, os pesos da balança da base de madeira onde estavam enfiados, agrupados por tamanhos.
“Tu trazias o avô e a avó...”, determinou ela enfiando os pesos mais pequeninos no bolso do bibe e deixando-lhe a responsabilidade de transportar os pesos de 1 Kg e de ½ Kg.
Ao ver o pai ligar o amplificador e levantar a tampa do gira-discos, ergueu a cabeça da sua tarefa de constituir grupos familiares com os pesos de latão, pediu:
“Pões a canção da bailarina...?”
Cerca de vinte minutos passados, o telefone tocou. A mulher passou da cozinha, sorrindo ao ver os dois entretidos no tapete, movendo pesos e trocando-os entre eles segundo protocolos em actualização permanente.
“É da GNR...”, informou, tapando o bocal e arrepanhando a pele entre as sobrancelhas numa ruga de contrariedade. O homem suspirou, levantou-se para atender.
Ao contrário do habitual, não foi o comandante que respondeu do lado de lá, mas sim o cabo Duarte. Desconfiou que seria algo muito diferente das mortes violentas do costume pelo tom cerimonioso do discurso:
“Senhor doutor, desculpe estar a maçá-lo para casa a esta hora, mas tivemos um percalço de serviço... O nosso Comandante feriu-se... Ele queria saber se o senhor doutor o poderia receber na urgência...” E, após um silêncio: “ele preferiria, caso fosse possível, que fosse o senhor a recebê-lo...”
Sentindo o mistério, o delegado de saúde não perguntou mais nada, informou:
“Diga ao senhor comandante que daqui a cinco minutos estou lá, à espera dele.”
O Centro de Saúde estava mergulhado na calmaria que precede o anoitecer e o médico de serviço acabara de sair para jantar. Avisou a enfermeira de apoio à urgência de que iam receber um doente em breve, mas que trataria pessoalmente do assunto e só a chamaria se precisasse de ajuda. A enfermeira agradeceu a borla, era a hora de fazer a ronda pelo pequeno internamento de oito camas de que dispunha o centro. Maquinalmente, vestiu uma bata, lavou as mãos e sentou-se à espera.
Ao ouvir o ruído de um motor e, em seguida, de uma porta a bater, foi receber os recém-chegados à porta e quase teve de conter um sorriso ao encarar a encomenda:
Apoiado ao cabo Duarte, e obrigando-o a um passo que recordava o ritmo de um andor de procissão, o comandante da GNR, entre o branco e o amarelado, avançava na direcção da entrada com a testa enfaixada num pano, um trapo encravado no rebordo do boné de serviço e manchado de vermelho na zona supraciliar. Tranquilizado quanto à gravidade do doente, mas para transmitir a sensação que se irmanava ao drama, o delegado de saúde avançou na direcção de ambos:
“Entrem para aqui, entrem para aqui... Então o que foi isso...?”
O cabo Duarte manteve-se em silêncio, o comandante suspirou profundamente:
“Ah, senhor doutor, se me vejo livre desta...”
“Uma coisa de cada vez. Primeiro vamos tratar de lhe tirar esse casaco e de o deitar aqui na marquesa...Devagarinho, cabo Duarte, ajude aqui deste lado.”
Por baixo do trapo ensanguentado, a ferida, extensa e de bordos irregulares, já não sangrava e assumira uma cor violácea, sinal de algum tempo de evolução. Depois de acender o foco sobre a testa do comandante e de dispor o óculo do pano verde-água do campo cirúrgico sobre a zona a intervir, o médico começou as perguntas com delicadeza, pois o modo como o paciente mantinha os lábios encarcerados entre os dentes não enganava ninguém.
“Não se aflija que isto não é nada do outro mundo: tem um ar um bocado feio, mas nada que uns pontos bem dados não resolvam...
“Será, senhor doutor? É que sangrou como o diabo...”
Nesta zona as coisas sangram sempre muito e, depois, ao dono parece sempre mais sangue do aquele que perde... Há quanto tempo é que fez isto...?
“Seriam...”, o comandante ensaiou soerguer-se na marquesa e alcançar o pulso para olhar o relógio, gesto que foi prontamente sustido pelo delegado de saúde:
“Quietinho, comandante, agora o senhor não se pode mexer um milímetro, se não fica aí com uma cicatriz feia. Só queria ter uma ideia geral – é que isto já está tudo bem coagulado, vê-se que não foi feito há meia hora...”
Arrasado sobre a marquesa, o comandante mugiu profundamente, deixou jorrar a resposta quase com desprezo, como uma confissão sobre algo de que se envergonhasse:
“Isto já foi por volta das quatro da tarde, doutor... Mas confesso que estive ali no posto às voltas, sem saber o que fazer; até que decidi: não, há moléstias que não saram por a gente se pôr a olhar para elas, tenho de telefonar a quem sabe...”
“E fez muito bem”, respondeu o visado, “até o devia ter feito mais cedo! Estas coisas, quanto mais depressa se limpam e se cosem melhor. Se passa muito tempo os bordos da ferida começam a recuar, o perigo de infecção é maior, fica tudo mais difícil...”
“Tem razão, tem razão, foi um disparate da minha parte, uma fraqueza. Mas sabe, as condições em que tudo isto se deu... O pior nem é isto que estou a passar aqui agora, o pior ainda está para vir...”, a voz do comandante chegava de sob o campo cirúrgico abafada de angústia.
“O senhor está a ser muito pessimista”, respondeu o médico, que acabara de limpar a ferida. “Não há nada que não se resolva! Por agora vou-lhe pedir para se manter calado e muito quieto, pode ser? Depois de resolvido isto, trataremos do passo seguinte. Agora vai sentir uma picadelazita, mas a seguir mais nada...”
Antes que a injeção se abatesse, o comandante, temendo que a anestesia local o pudesse incapacitar de falar ou raciocinar, pediu ainda licença ao médico para libertar o cabo Duarte, pois seriam horas de jantar e ele já nada precisava de fazer por ali, uma vez que o delegado de saúde até se oferecera, gentilmente, para o levar a casa no fim de tudo.
E o silêncio, apenas entrecortado pelo ruído metálico de algum instrumento sendo pousado, tomou conta da sala da urgência.
“Para o museu das suas recordações devo dizer-lhe que foram 12 pontos”, revelou o médico quando terminou e ao ajudar o paciente a sentar-se na marquesa.
“Doze?!”, o comandante estava abismado.
“Sim, o tecido estava bastante descolado do osso e a ferida era extensa, sabe? Levou quatro pontos de aproximação e o resto na pele, para que isso fique bem alinhado e não repuxe.” E acrescentou:
“Ora veja-se aí ao espelho, diga lá se não está tudo com muito melhor aspecto do que quando chegou...”
O que o comandante viu no espelho foi apenas um grande penso, imaculado, ocupando quase metade da testa, trepando-lhe pela calva. Mas não havia sinais de sangue ou daquela aflitiva carne às bolinhas vermelhas e até o trapo ensanguentado repousava já, longe da vista, no balde inox das compressas sujas.
“Sente-se agora aqui, enquanto lhe passo uma receita – vai ter de tomar um antibiótico, também lhe vou receitar uns comprimidos para as dores... Sabe como estão as suas vacinas?”
Sentado à escrivaninha, com o comandante em frente a si, o médico começou a escrever. Pouco depois, o comandante quebrava o silêncio:
“Senhor doutor, eu não sei se um dia destes não vou ter de o voltar a maçar, se não vou ter de lhe pedir um relatório sobre tudo isto...”
O delegado de saúde levantou a cabeça do papel, surpreendido.
“É que eles lá no Comando, no Porto, a primeira coisa que fazem quando acontece um incidente envolvendo veículos da Força é levantar um processo de averiguações ao assunto...”
“Não é só no seu comando”, retorquiu o delegado de saúde um tanto azedo, “é procedimento geral na função pública! Aqui é o mesmo: antes mesmo de verem o que se passou, quem tem razão ou quem tem culpa, instalam um processo disciplinar a um gajo. Veja lá se isto cabe na cabeça de um prego!”
O comandante soltou um suspiro que foi quase um arquejo, como se lhe abrissem as comportas do peito. E disse:
“Mas é que no meu caso, desgraçadamente...”
E beneficiando da descompressão de ter a sua situação imediata tão bem resolvida, encorajado pelo ambiente acolhedor da sala, desafiado pelo ar do médico que, em frente a si, o mirava com a caneta suspensa, contou tudo.
Ele o e cabo Duarte tinham saído, logo após o almoço, para uma ronda por Santa Marinha, na encosta fronteira à vila. E seguiam com o jipe, ele ao volante, por um estradão florestal de piso irregular quando, de repente, vindo do nada, se atravessa um javali à frente do veículo, um bicho enorme,.
“O senhor havia de o ver: era macho, uma bisarma, um bisonte...”
O médico, calado, acenava com a cabeça, como se estivesse lá.
“Não sei que me deu, senhor doutor, que achei uma pena deixá-lo escapar assim... E como ele já estava quase a desenfiar-se pelo lado direito da estrada, torci o volante naquela direcção e acelerei a fundo. Se dependesse de mim, não havia de escapar dali sem levar ao menos uma pancada!”
E fora aí que se dera o desastre. Com o movimento brusco, o jipe resvalara pela ribanceira, só não capotara porque um tronco grosso de faia o sustivera.
“Agora imagine o senhor o que vou eu dizer ao Comando! Que resolvi abalroar um animal cuja caça é interdita com um veículo da Guarda... Se ainda fosse gente daqui, eram capazes de perceber que aqueles animais são uma praga, que dão cabo das sementeiras e das culturas! Mas cavalheiros lá da cidade, que nunca viram – com sua licença – um reco do monte em acção!”
O médico, para agrado do comandante, pasmava com a história. Depois, pousando a caneta:
“Mas, ouça, não percebo bem porque é que está tão preocupado com os tipos lá do Porto. O senhor acha que num relatório se fica a perceber, assim sem mais nem menos, a intenção da pancada...?”
O interlocutor não percebeu de imediato onde o outro queria chegar, remexeu-se na cadeira. O médico explicou-se:
“Quero eu dizer: o senhor não pode, pura e simplesmente, dizer que ia tranquilamente na sua missão e que o animal, desembestado, foi contra o jipe?”
O comandante pareceu, de súbito, iluminado por uma visão. Olhou em volta, inclinou-se na direcção do médico e, em voz baixa:
“O senhor doutor acha...?”
O outro encolheu os ombros:
“O senhor acha que os javalis conhecem os sinais de trânsito?”
E levantando-se:
“Vai esperar um bocadinho aqui por mim, ok? Vou só lá dentro avisar a enfermeira que me vou embora...”
No refeitório, três doentes comiam a sopa de olhos pregados na telenovela. Perguntou à auxiliar:
“Alcina, viu a enfermeira Isabel Luísa?”
“Foi à esterilização buscar compressas, doutor, quer que a vá chamar?”
“Deixe estar... Diga-lhe só que fui andando, que fica tudo calmo na urgência.”
O comandante, moído pelas emoções do dia, dormitava, adornado, numa das cadeiras da sala de espera. O médico tocou-lhe no ombro:
“Vamos, agora? Vou levá-lo a casa, que a sua senhora já deve ter o seu caldo pronto e a arrefecer!”
Todos estes acontecimentos se passaram a uma quinta-feira e no dia seguinte, ao princípio da tarde, o telefonista do centro de saúde ligou ao delegado de saúde, tinha uma chamada em linha.
“É o comandante da Guarda...”, esclareceu.
Do lado de lá do fio um homem risonho e confiante queria saber se o médico estaria pela vila durante o fim de semana. Quando lhe respondeu que, de momento, não alimentava intenção de ir a lado nenhum, o comandante revelou ao que ia:
“Então será que o senhor doutor, a senhora e a menina não quererão, no Sábado, ir até lá casa comer umas febrazinhas especiais...?”
O médico riu-se, brincou:
“O senhor não me diga que agora anda para aí feito talhante..., olhe que ainda não pode fazer grandes esforços...”
“Não, pode ficar descansado, quem o desmanchou foi o Duarte, que tem sido muito prestável, coitado. O senhor doutor também o irá encontrar lá no Sábado, por volta da uma, se sempre me quiser dar esse prazer...”
© Fotografias de Pedro Serrano, 2012: (1) Praia da Areia Branca; (2) e (3) Leipzig. 


7. O Diáfano Véu

Quando a viúva, que nem propriamente isso era, desmaiou em pleno cemitério, os papeis inverteram-se e o morto que, aguardava balouçando dentro do caixão suspenso sobre a cova em duas cordas, foi passado para um plano secundário.
Aproximadamente seis vizinhas transportaram-na nos pretos braços para a mercearia, não longe, e depositaram-na sobre três fardos de bacalhau, onde ela prosseguiu as convulsões iniciadas no cemitério e interrompidas durante o trajecto.
“Afastem-se todos, deixem-na respirar!”, exclamou, brandindo uma couve-coração, uma cliente a quem a sogra também desmaiara numa missa de sétimo dia e que assistira à chegada do médico.
Mas não foi preciso, desta vez, chamar o clínico: desperta, quem sabe, pelas emanações salinas que de sob ela se vaporizavam, a viúva, reconhecendo o local e constando do livro de fiados do estabelecimento, implorou que a reconduzissem ao cemitério.
Enquanto toda a comitiva acorrera à mercearia, ficaram junto à sepultura apenas o coveiro, o sacristão e o padre, que se exasperava, pois aquele funeral arrastava-se por sendas de mau presságio.
"Perdoa-me, Senhor, se fui de menos lisura para com o Teu rebanho", requereu o padre, tentando levitar acima dos resmungos do coveiro, que ameaçava exigir, não importando a quem, um suplemento pela interrupção dos trabalhos.
“... e uma garrafa de bagaço. O bagaço é bom para desinfectar, melhor que a tintura; quem me garante a mim que não estamos também a ser contagiados?” O padre sabia o que se escondia por trás daquele 'também'. O morto era um suicida e o odor do remédio do escaravelho, misturado com o da estearina e o das roupas molhadas, tornara a noite do velório inesquecível. Cautelosamente, deixou escorregar o braço e espreitou o relógio. Seis menos vinte! Dentro de minutos a noite ia tombar, surda, como um torrão sobre o envernizado de um esquife.
"Uma noite é muito tempo", constatava o pároco amargurado, pensando na noite da vela, e os boatos, as calhandrices, tinham sido refinadas, apaladadas e badaladas por todo o concelho numa propagação que nem o sino teria igualado. Talvez tivesse sido melhor dar ordens para tocar o sino quando soube do óbito... Mas, que diabo, era um suicida, não devia, em princípio, beneficiar como qualquer cristão das facilidades e confortos que o Céu concede aos seus na hora derradeira! No entanto, talvez, mesmo a Lei de Deus, até porque redigida pela fraca textura humana, necessitasse interpretação, adaptações circunstanciais... E ele não o fizera, não mandara tocar a finados... O rebanho conspirara nas horas de treva e o velório desenrolara-se como um amotinamento.
À meia-noite, os menos exaltados, sussurravam pormenores sobre aquela mulher que, por ser abastada, se suicidara e tivera, apesar disso, direito a um naipe completo de rituais: sino, missa de corpo-presente, água-benta, dois padres no jazigo.
Às três da manhã, chegou um irmão do falecido (chamado à pressa de França) que, ao atirar-se, uivando, sobre o caixão, activou no cadáver uma indignação volátil de cheiro sui generis, expelida pelas imperfeitas costuras da autópsia.
Foi talvez nesses momentos que, os mais exaltados, se lembraram de associar a morte do rapaz à perversidade e à negligência do padre.
Ele matara-se porque ele não os quisera casar ("não era verdade: dissera-lhes que os casaria, mas só depois de os preparar para o matrimónio") e ela prenha de sete meses! ("mais uma razão para que se fizesse uma preparação conveniente e reforçada"). Com o desgosto ela parira um nado-morto, cuja alma azeda invocava, dos estofos incómodos do Purgatório, os vivos a uma justiça terrena.
Toda esta maquinação fora revelada ao padre no dia do enterro. Acordara pesado, como se de uma sesta após um cozido à portuguesa. A manhã de Inverno, cor de estanho, revolvia o céu até à terra, mantendo-o rente por presilhas de névoa - ia ter enxaqueca!
Adivinhou o rancor nos olhos do irmão francês, que o esperava à porta da igreja e se recusou a ultrapassar a soleira.
“O senhor faz o funeral, ou temos que o fazer tout seuls?”
"Que se passaria?". Precisava falar com o sacristão, com quem costumava medir opiniões em situações delicadas, por isso enviesou:
“A que horas pensais enterrá-lo? Já apalavrastes o coveiro?”
“A partir deste momento o funeral pode ser realizado”, cortara ele, despedindo-se e dando as costas de um modo ímpio.
“Que se passa?”, perguntou mal entrou na sacristia.
Sem despregar os olhos das galhetas, o velho Faria começou:
“A coisa está feia, senhor padre...”
E contara-lhe tudo, numa confissão sem confessionário em que a penitência coube ao padre:
“Enterre o morto, senhor padre, para que se ponha uma pedra sobre o assunto...”
Já era noite cerrada, as luzes nas casas convidavam ao abandono daquele frio insensato, quando o cortejo regressou ao cemitério.
Cada um ocupou com exactidão o seu lugar pré-convulsão, excepto a viúva, que, alquebrada e triunfante, se apoiou no braço do cunhado francês.
"Se não estás comigo, és contra mim", resignou-se o padre, benzendo o caixão e dirigindo aos presentes "umas breves palavras sobre este nosso irmão que no Assento Etéreo já...", prédica que reconciliou o pastor com o seu rebanho e fez com que a paz do Senhor de novo se instalasse, qual diáfano véu, sobre aquele pacato burgo onde nada acontecia.
   
© Fotografias de Pedro Serrano: (1) Lisboa, 2010; (2) Porto, 2011.


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A MINHA NOITE EM CASA DE MAGDA


Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?

Lennon/McCartney (Eleanor Rigby)


1. Cores

Magda foi uma consequência da necessidade de Filipe Ferreira viajar para Bangalore. Engenheiro informático de uma pequena firma dedicada à importação de componentes de hardware para computador assistiu, em três ou quatro anos, ao crescimento exponencial do volume de encomendas e ao triplicar dos contactos internacionais.
Um dia, o seu chefe, um gestor não muito mais velho do que ele e de igual modo aturdido com o crescimento do negócio, atirou-lhe um molho de papéis para cima da secretária:
“Estuda isto e prepara-te para ir a Bangalore...”
Como qualquer um que não fosse completamente cego, ele estava a par do desenvolvimento tecnológico dos indianos na área da electrónica e sabia que Bangalore era uma espécie de Silicon Valley da Índia, mas daí até pensar que pudessem ser estabelecidas parcerias com aquelas lonjuras, com aquela gente que ainda usava turbante; imaginar sequer ir lá! Depois da viagem decidida, de esmiuçados os detalhes e estimado o número de dias para os contactos, sobrara a parte logística do assunto: a marcação da data de ida e de regresso, reservas de avião, hotel...
“É melhor seres tu a tratar disso directamente, Filipe, sabes que a gaja não atina a planear, pelas mãos dela ainda vais parar ao Bangladesh...”,
aconselhara-lhe o chefe quando sugerira endereçar a Tânia, a secretária-telefonista do escritório, a responsabilidade pelos pormenores da viagem.
Pressionado pelo encargo, Filipe visualizara uma agência de viagens na António Augusto de Aguiar onde uma vez parara a olhar os cartazes da montra, atraído por um all inclusive de seis dias e cinco noites em Cabo Verde.
À entrada da agência havia uma mesinha baixa com prospectos, à qual estava sentado um tipo à espera, e, mais resguardadas, duas secretárias por trás das quais se atarefavam duas funcionárias, uma ao computador, a outra ao telefone. Quando resumiu ao que ia, a empregada que estava mais perto da porta, indicou-lhe a outra com um gesto de cabeça e um sorriso atencioso:
“Se não se importa, fale ali com a minha colega Magda, está mais por dentro das viagens para o Oriente...”
A tal Magda, teve ainda tempo de entrever antes de se sentar na cadeira em frente, era uma mulher a escorregar para os trinta, com um busto generoso a espreitar pela fenda vertical de uma camisa larga de decote debruado com um bordado laranja, a condizer com o acobreado-henna do cabelo.
Quando se apercebeu do destino que Filipe Ferreira porfiava, a rapariga abriu muito os olhos, sorriu como se já o tivesse visto antes e dirigiu-se-lhe num tom de voz que tinha algo de acariciante:
“Ah, para a Índia, muito bem... E, permita-me que pergunte: vai em lazer ou em negócios? Com essa informação é mais fácil adequar um pacote....”
“Infelizmente, vou em negócios...”, deu por si a mentir; ele a quem a comida picante assanhava o refluxo gastro-esofágico, que nunca na vida escolheria destino tão pedinte para férias.
Ela suspirou e assentiu com a cabeça, enquanto as suas unhas, de um vermelho quase negro, voavam sobre o teclado.
“Há mais do que um voo da Lufthansa nas datas que pretende, uns com escala em Frankfurt, outros via Munique... Há também voos da British e da AirFrance, mas, se quer que lhe diga, os alemães ainda são, atendendo ao binómio preço-qualidade, quem voa melhor para aquelas paragens.”
Filipe tirou a agenda do bolso, pôs-se a olhar o calendário do mês de Janeiro, quis também saber preços.
“Janeiro é época alta por lá, os preços são sempre mais caros que no resto do ano, mas deixe ver o que se consegue...”
Ele não imaginava, sugeriu que, para tentar poupar, os dias de viagem fossem limitados ao mínimo.
Magda, que parecia saber tudo sobre a Índia, aconselhou-o a não fazer isso, a não viajar em tão curto intervalo...
“É muito longe, sabe, são – sem incluir as escalas – mais de doze horas para cada lado e, depois, há o biorritmo de cada um: por muito circadiano que seja o seu é sempre preciso contar com algum jetlag, particularmente na viagem para lá. Vai chegar muito maçado e andar com os horários trocados um dia ou dois... E depois”, acrescentou com um tom sonhador nas pálpebras azul-cauda-de-pavão, “já que lá está podia, talvez, aproveitar um bocadinho para disfrutar do país; das cores, dos cheiros, dos sabores... As tarifas ficam até mais em conta se permanecer um fim de semana...”
Enquanto ela contrastava horários de voo e tarifas, ficou a cogitar na proposta, o olhar perdido no decote que se entreabria de cada vez que ela se inclinava sobre o monitor do computador.
“E hotéis, como é? Vocês também podem tratar disso...?”
“Claro”, sorriu, generosa e indulgente, como se estivesse a responder a pergunta ingénua de criança, “tratamos-lhe de tudo o que vier a precisar...”
Filipe Ferreira saiu confortado da TravelSafe. Ao despedir-se, ela levantara-se, dera a volta à secretária e viera estender-lhe a mão. Era um mulher alta e a saia roxa, pregueada e comprida, parecia sublinhar a estatura, mais do que dissimular a anca larga. Mas, simultaneamente, havia uma timidez que apercebeu no aperto hesitante, levemente suado, da mão dela, no modo como baixou os olhos esverdeados depois de o fitar um momento:
“Pois, senhor Filipe, foi um prazer... Vou então tratar de contactar os nossos agentes, para ver dos hotéis... Entro em contacto consigo logo que tenha novidades, o mais rápido possível...”  
Magda cumpriu a promessa e, no dia seguinte, havia um mail dela na Correspondência Recebida do computador:

Data: 20 Novembro 2011 16:45:32
Assunto: Viagem India
Senhor Filipe Ferreira,
Conforme combinado informo que, tendo em consideração o local da sua estadia em Bangalore, o Gold Finch Hotel seria um alojamento apropriado em termos de preço-qualidade. anexo junto link para o site do hotel, onde poderá verificar melhor todos os detalhes de instalação e preços. Junto também informação sobre outras alternativas de alojamento para que possa optar em conformidade.
Vai também necessitar visto para entrar em território indiano. apesar da viagem ser de negócios, sugeria-lhe que pedisse antes, tendo em conta os poucos dias que irá permanecer, um visto de turista, pois é menos burocrático de obter. A Travel Safe (mediante taxa d serviço) poderá tratar da obtenção do visto junto da embaixada. aguardo as suas instruções.
Atentamente ao dispor
Magda Azevedo

Data: 21 Novembro 2011 09:55:23
Assunto: Re: Viagem India
Magda,
Obrigado por resposta rápida.
1. Gold Finch parece bem, pode reservar então as 5 noites? Não percebi bem se o preço inclui transbordo do aeroporto e pequeno-almoço. Pode esclarecer?
2. Estou interessado em que tratem do visto, por favor informe preço e documentação necessária. Vou precisar fotografias?
cumprimentos
Filipe Ferreira

Magda respondeu prontamente, inclusive enviou pdf. com o formulário para o visto. Filipe podê-lo-ia devolver pelo correio, acompanhado do passaporte e de duas fotografias tipo passe ou, se não quisesse correr o risco de extravio, podia passar pela agência a entregar tudo. Preferiu ir lá, a agência não ficava muito fora do seu circuito diário e subindo a António Augusto de Aguiar nessa manhã gelada de Novembro, deu por si a imaginar se o frio teria boicotado o decote.
Magda estava ocupada com um cliente, a colega livre, mas o sorriso que irradiou lá do fundo fez com que se sentasse na mesinha de espera, informando a colega desocupada:
“É por causa de uma viagem à Índia...”
Ficou por ali a folhear um prospecto de Circuito Balcânico + Cárpatos e depois um outro de Visite a Terra do Pai Natal na Época Natalícia! Quando acabou de atender o cliente, Magda levantou-se, veio buscá-lo à mesinha. Trajava uma camisola de gola-alta angorá, eriçada de pelinhos brancos como o pelo de um gato, e uma saia comprida de lã verde a condizer com a cor dos olhos. Filipe reparou sobretudo no modo como o angorá dava um toque de conforto àquele peito onde apetecia aninhar-se numa manhã como aquela.
“É servido de um cafezinho...?”
Não quis dar trabalho, mas ela assegurou não ser maçada nenhuma, na agência costumavam tomar um mais ou menos àquela hora.
“Enquanto trato disso, poderá ir consultando o seu dossiê, preenchendo o formulário para a embaixada...”
Pousou-lhe à frente uma capa de cartolina com o seu nome escrito no canto superior direito, e desapareceu por trás de um biombo forrado por um tecido azul-escuro de onde, pouco depois, se ouviu o tilintar acolhedor de louça.

Data: 19 Dezembro 2011 17:03:27
Assunto: Viagem India – Visto e bilhetes
Caro Senhor Filipe Ferreira
Serve para informar que o seu visto já se encontra na agência e que vou hoje mesmo emitir as passagens aéreas e o voucher para o Golf Finch Hotel.
toda esta documentação pode ser levantada na nossa sede a partir de amanhã
Atentamente ao dispor
Magda Azevedo
PS: Aproveito época festiva para desejar um Feliz Natal e Óptimo Ano Novo :)  

Data: 19 Dezembro 2011 17:04:18
Assunto: Re: Viagem India – Visto e bilhetes & Boas Festas
Cara Magda,
Muito obrigado pelo mail.
Passarei aí a levantar a documentação ainda antes do Natal, de modo a poder retribuir os seus votos de Boas Festas ao vivo!
saudações
Filipe Ferreira

2. Sabores

Na sexta-feira, após dois dias intensos de reuniões e visita ao complexo industrial, os indianos levaram-no a jantar ao Coconut Grove, um restaurante-esplanada separado da rua por umas escadaria de tijolo.
Magda tinha razão, o tempo era maravilhoso para um Janeiro, mal dava para acreditar que 48 horas antes estava numa Lisboa chuvosa e gelada e que agora, em mangas de camisa, jantava ao ar livre sob as pás de grandes ventoinhas que giravam pachorrentas!
Aqueles tipos! Filipe passara os dias anteriores sem se conseguir aperceber do desfecho, bom ou mau, para que se dirigiam as negociações, sem conseguir captar a tonalidade afectiva de uma possível orientação dos indianos, pois, sentados à mesa de trabalho, assumiam uma postura pétrea, falavam muito mas não diziam nada de substancial e nunca, nunca, se comprometiam.
E então, na sexta-feira, a meio da tarde, avisaram Filipe que estava convidado para um jantar de celebração do acordo com o qual, pelos vistos, estavam muito satisfeitos.
“This deal will bring big money for everyone...”, exultava Kumar, o engenheiro chefe, no sotaque ascendente e meio cantado com que todos os indianos se exprimiam em inglês.
Às oito da noite Kumar e Hari passaram a buscá-lo no hotel e, pelo tom da conversa, ficou a julgar que seriam três à mesa. Qual quê! No Coconut Grove a mesa estava posta para doze pessoas e uma meia-dúzia já se instalara, emborcando ruidosas canecas de cerveja!
No Sábado, com a cabeça um pouco pesada, acordou sem saber onde estava. Depois, o crocitar omnipresente das gralhas lá fora devolveu-lhe as coordenadas. À tarde, para entreter o tédio, resolveu ir às compras e perguntou na recepção onde seria mais apropriado. O rapaz atrás do balcão tirou um mapa da gaveta, desdobrou-o e desenhou na trama de ruas e cruzamentos um círculo e uma elipse:
“You are here”, informou apontando o círculo com a ponta de esferográfica, “best shops in MG Road...”
MG Road era a avenida circunscrita pela elipse e no táxi, ao ler as informações nas costas do mapa, percebeu que o “MG” era de Mahatma Gandhi e não alguma referência de tipo industrial como ficara a pensar.
Comprou duas fronhas de almofada, bordadas à mão, para a irmã e, para a mãe, uma echarpe de pashmina, uma tira em caxemira cinza-azulada que lhe custou os olhos da cara mas a cuja macieza não resistiu. Para além disso, deu por si a arrematar uma colcha de cama cheia de passarinhos bordados, que não fazia ideia a quem impingir! Aquelas compras, que imaginava simples e rápidas, mais o calor impiedoso, deixaram-no estafado! Na Vaishali–Silk House, apesar de ter apontado prontamente para a almofada que queria, sentaram-no numa cadeira e fizeram-lhe desfilar diante dos olhos uma quantidade e uma variedade de almofadas que dariam para recostar um harém... Farejando o cliente indeciso e potencialmente gastador que tinha entre mãos, o Sr. Poppatt, o dono da loja, bateu as palmas e mandou um dos empregados ir buscar um chá de Masala ao café mais próximo. Enquanto aguardavam perguntou se, sem compromisso algum, ele não estaria interessado em ver alguns outros produtos: pashminaraw-silkbanaras sareetraditional bed covers... Filipe tentou resistir:
“No, thank you, I just need cushions...”
O Sr. Poppatt desceu as escadas carregando as compras de Filipe, acompanhou-o até meio da calçada e, esperando voltar a vê-lo numa próxima visita a Bangalore, passou-lhe para as mãos os sacos de plástico.
Arrasado, afastou-se um quarteirão da loja antes de ousar sentar-se numa esplanada e pedir uma Coca Cola gelada para desincrustar da garganta o sabor da merda do chá. Foi aí que, readquirindo a pouco e pouca alguma tranquilidade, viu o escaparate rotativo com os postais e decidiu enviar um a Magda. A verdade é que já na loja se lembrara dela, estivera até quase para lhe comprar uma fronha de almofada, pois já não sabia mais a quem levar tudo o que lhe tentavam vender e aquela loja era a cara dela com a sua fixação na Índia, nas saias esvoaçantes e nas lantejoulas... Ela daria tudo para estar ali, no meio daquele caos de cores, cheiros e sabores!
Fez rodar o expositor e acabou por comprar um postal com um daqueles ridículos deuses que eles veneravam aos milhares, um tipo de cara azul a tocar flauta e rodeado de nenúfares por todos os lados.

Olá Magda
Aqui estou em Bangalore!
O hotel é bom. Foram buscar-me ao aeroporto, mas avisaram que levam uma taxa por isso. Não interessa, que o aeroporto ainda é longe e é tudo bastante confuso.
Tenho tentado disfrutar, como me recomendou, as cores, os sabores e os cheiros, mas o que mais gostei foi da comida, pois o cheiro geral não é nada que se recomende!
Saudações indianas do Filipe Ferreira  

3. Cheiros

Magda morava na periferia da Amadora, a janela da sala do seu apartamento, no 2.º andar, dava para um pilar do viaduto da auto-estrada. Era sexta-feira,  regressavam do jantar num restaurante indiano perto do Poço do Borratém de que ela gostava muito. Para além de Bangalore, Filipe nunca jantara num restaurante indiano, mas, quando a convidara fraquejara nessa possibilidade:

Data: 6 Fevereiro 2012 10:00:35
Assunto: Re: Agradecimento
Cara Magda,
Ainda bem que o postal chegou! Pedi na recepção do hotel para mo meterem no correio, mas, sabe como é, a gente nunca fica com a certeza!
Como lhe disse, em Bangalore correu tudo bem e a sua ajuda foi importante para o sucesso de toda a viagem... Para a por a par do que se passou e  contar pormenores, alguns dos quais podem até ser úteis para o seu trabalho, não quer jantar comigo um dia destes? almoçar ou jantar, como lhe der mais jeito, mas penso que ao jantar sempre teríamos mais tempo de conversar em codições! Podemos até ir a um restaurante indiano (lol).
Filipe Ferreira

Data: 5 Fevereiro 2012 20:39:27
Assunto: Agradecimento
Caro sr. Filipe Ferreira,
Foi com surpresa que recebi hoje o seu gentil postal!
Obrigado pelo envio e, mais do que isso, por se ter lembrado de mim em terra tão distante e tão especial...
espero um dia poder voltar a ser-lhe útil nalguma nova viagem que venha a fazer.
sinceramente
Magda

Acompanharam a refeição com vinho e como a comida era toda para o picante pediram mais uma meia-garrafa para completar a primeira, o que fez com que descessem as escadas do restaurante muito risonhos. Cá fora chuviscava e Magda, com um arrepio, cerrou o casaco comprido sobre o top decotado. À saída do estacionamento, ao meter a marcha-atrás, a mão de Filipe, que se oferecera para a levar a casa, escorregara por sobre o joelho dela.
“Desculpe”, pediu com um toque de riso na voz
Ela optou por não responder, apenas se sorrira interiormente.
Magda tirou o casaco comprido, foi pendurá-lo, junto com o kispo de Filipe, no bengaleiro em ferro forjado da entrada, aproveitou o espelho para ajustar a echarpe de seda violeta ao pescoço.
“Queres um chá de Masala...?”, perguntou quando regressou à sala.
“Pode ser...”, respondeu, não podendo impedir-se de reparar que ela o tratara por tu.
Enquanto Magda se dirigia à minúscula cozinha ele pôs-se a olhar em volta, comentou, em voz alta para ser ouvido por sobre o silvo da chaleira:
“Estar aqui, em tua casa, ou na Índia é praticamente a mesma coisa...”
“Gostas...?”, perguntou ela quando apareceu na ombreira, equilibrando nos braços um tabuleirinho de vime entrançado onde flutuava o vapor saído de duas chávenas sem pega.
Ele acenou com a cabeça, depois desviou o olhar para o pilar da auto-estrada, para os faróis que iluminavam em tom laranja os sarrabiscos de uma chuva miudinha.
“Quase tudo o que tenho nesta sala foi comprado na Loja do Gato Preto e na Natura... O quarto é a mesma coisa, depois do chá mostro-te...”
Acomodou as almofadas em patchwork do sofá, convidou-o a sentar-se e começou de acender uma vela prismática que estava sobre a mesinha em bambu e vidro onde pousara as chávenas.
“Cheira bem...”, comentou ele quando a chama tremeluziu.
“Esta é de Cedro do Oriente, um dos meus odores preferidos, um aroma tradicionalmente associado à serenidade do espírito...”
O chá era forte e de sabor intenso, como uma especiaria, e o cheiro trouxe-lhe Bangalore à memória. Reflexamente, franziu o nariz, ela deu por isso:
“Não gostas, é? Queres que faça outro? Tenho lúcia-lima, melissa, camomila...”
“Não, não é isso; é de estar habituado a bebê-lo com açúcar...”
“Ah, mas eu vou buscar, desculpa; estou tão habituada a bebê-lo assim que nem me lembrei. Só tenho é do mascavado, não te importas...?”
Depois do chá, de lhe ter perguntado se tirara fotografias na Índia, a conversa esmoreceu. Filipe ainda não as passara da máquina para o computador, prometeu mandar-lhas por mail, perguntou se podia fumar, acrescentou logo:
“Se calhar não fumas e eu aqui a querer empestar-te a casa...”
“Não, não; podes estar à vontade. Tenho amigos que vêm aqui e fumam como chaminés, por isso...”
Ao mentir, sentiu as faces a arder e, levantando-se, dirigiu-se à porta do quarto, informando que ia em busca de um cinzeiro para ele.
Encostada ao lado de dentro da porta, Magda olhou o quarto como se o estivesse a ver pela primeira vez.
Atirou para o guarda-vestidos alguma roupa dispersa pelo chão, acendeu o globo de vidro da mesinha de cabeceira, cobriu-o com um lenço cor de açafrão, de pano muito fino; gostava daquele camuflado de luz adamascada. Depois ligou a coluna da aparelhagem, olhou no visor do mp3 a lista de músicas. Acabou por escolher uma selecção de música de Vivaldi com efeitos de ondas de mar em fundo, selecção que ouvia com frequência antes de dormir. Escolhendo a opção repeat pôs a música a tocar baixinho e dobrou a colcha da cama, de modo a deixar a descoberto a dobra dos lençóis e as grandes almofadas de pelúcia beringela.
Antes de encostar a porta do guarda-vestidos, Magda olhou-se no espelho interior, passou um toque de eau de toilette Opium na base da palma das mãos, aspergiu um borrifo nas covinhas das clavículas. Gostava de ser mais morena, aquela pele translúcida, cor de leite! Afastou as alças do wonder-bra e afundou o decote do top – durante o jantar (e mesmo antes disso naquela primeira vez, na agência) ela bem reparara como os olhos de Filipe eram tentados naquela direcção. Antes de abrir a porta acendeu um pau de incenso de café, bufou a brasa e equilibrou-o no queimador. Depois virou para baixo a caixa do incenso, em cuja tampa se lia Despierta Un Deseo Apasionado; orou por sorte a si própria e rodou o puxador.
A sala deserta cheirava a tabaco, uma nesga da janela fora deixada entreaberta. Quando encostou a cara ao olho de vidro da porta já não viu ninguém no átrio, mas conseguiu ainda ouvir o chiado do elevador a travar no rés-do-chão, logo seguido do bater metálico da porta do prédio.

Nota: O título do conto é piscadela de olho ao filme A Minha Noite em Casa de Maude, de Eric Rohmer, 1969.

© Fotografias de Pedro Serrano, de cima para baixo: (1) Índia, 2012; (2) Lisboa, 2012; (3) (4) (5) (6) Índia, 2012.
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NO MEU TEMPO

Ainda cheirava a esturricado pela casa quando a filha teve a conversa com ele, apressada, equilibrada na borda do maple onde, noutros dias, a mãe picava o bastidor do bordado.
“O pai não pode continuar aqui sozinho! É a segunda vez em menos de seis meses que isto acontece!”
“Dessa vez não se queimou nada...”, defendeu-se o velho, fugindo à sopa que, na antevéspera, deixara carbonizar.
“Não se queimou nada, mas ficou o bico aceso toda a noite, a Svetlana contou que o metal do fogão estava todo ao rubro! Já imaginou se aquilo se apagava e o gás a sair? Podia ter morrido intoxicado.
Com as mãos entrelaçadas encaixadas entre os joelhos, o senhor Rodrigues olhava o chão, como um menino apanhado em falta.
“E não é só isto, pai, e a porta aberta...? Também já foram duas vezes este ano, já viu o perigo?!”
O senhor Rodrigues suspirou e o suspiro foi o máximo que se permitiu contra as inconfidências da Svetlana. A russa vinha duas manhãs por semana, limpar a casa, passar a roupa; nas manhãs em que vinha lavava-lhe também a louça da véspera... Não tinha a dizer nada dela, pelo contrário, até achava graça ao modo brusco como ela lhe ralhava no seu português de trapos.
Svetlana chegava às oito horas, pontualmente, a chave que usava era a da porta de trás da casa e encontrara a porta aberta, a casa em silêncio, apanhara um susto! Mas não, não acontecera nada, fora apenas o seu hábito de ir dar, à tardinha, uma última vista de olhos às gaiolas dos pássaros penduradas no pátio, a ver se os bichos estavam servidos de água e alpista. E naquele vai e vem de sair e entrar com a intenção de voltar a sair para encher o bebedouro, esquecera-se de bater a porta, rodar a chave; alguma coisa lhe teria chamado a atenção na TV, viera à sala espreitar, nunca mais se lembrara da porta, deitara-se assim.
E agora, sentada na cadeira da mãe, a filha queria que ele fosse morar para um lar, crivava-o de argumentos: menos uma despesa pela dispensa da Svetlana, segurança e cuidados 24 horas por dia, assistência médica sempre que fosse preciso; até nem era longe dali, podia continuar a ir ao mesmo café tomar o pingo e conversar com os outros viúvos. Para além disso, todos os meses ela iria buscá-lo para passar um fim de semana em casa dela, a filha e o neto, ele, todos juntos...
“O pai pense nisso e depois diga alguma coisa. Mas isto assim não pode continuar, não fico sossegada e é um perigo para si...”
O senhor Rodrigues acabou por fazer segundo a vontade da filha, mas sentiu que nunca uma decisão lhe pesara tanto! Durante a última semana que passou na casinha onde vivera os últimos quarenta e cinco anos dormiu ainda pior do que o costume, duas ou três vezes por noite dava consigo a descer do quarto, a percorrer a sala, a cozinha, o quartito que, outrora, fora o da filha e onde agora reinavam o cesto da roupa, a tábua de engomar e a um canto, silenciosa sob a sua redoma envernizada de esquife, a máquina de costura que pertencera à mulher. Nessas deambulações, o senhor Rodrigues ia-se despedindo mentalmente de cada um dos objectos que durante todos aqueles anos se tinham acumulado nas divisões e que faziam da casa aquilo que ela era – a sua casa. Seria capaz de contar a história de cada um deles: aquele cinzeiro de vidro cor de caramelo, por exemplo, tinham-no surripiado por brincadeira na esplanada do hotel da Corunha onde passaram a lua de mel...
“Ó pai, olhe que não vai poder levar muita coisa para o lar...”, avisara-o a filha, que lhe conhecia a costela sentimental, “aquilo mora lá mais gente e se cada um levasse o que lhe apetecesse tornava-se um museu!”
Por isso, todas as noites, como um fantasma que percorre um castelo que já foi seu sem poder tocar em nada, o senhor Rodrigues assombrava a casa, tentando gravar na memória o que ia deixar para trás, obrigando-se a decidir o que levar.
No dia da partida, o senhor Rodrigues amanheceu abatido. Passara a noite a levantar-se para vir ao quarto de banho, o corpo sentia-se nervoso; ainda não eram seis da manhã e já colocara ao fundo das escadas a sua maleta, um saco com sapatos e, em cima da mesa da entrada, como numa exposição, as coisas pessoais que queria mesmo levar: o cinzeiro de vidro; uma jarrinha japonesa que viajara até ali vinda da casa dos seus avós maternos; duas molduras com fotografias; a caneca onde costumava tomar o leite da manhã, e um delicado marcador de livros em prata, com uma cabeça de coruja como punho, que lhe fora oferecido pelos colegas quando se reformara e onde estavam gravadas as datas do seu primeiro e último dia de trabalho na Segurança Social. Svetlana, um bom coração, ficara com os pássaros, as gaiolas e o saco de alpista.
Mas, apesar da contenção, a filha, ainda assim, achou aquilo de mais:
“Ó pai, para que vai precisar de um cinzeiro no lar?! Lá não se pode fumar e, aliás, o pai já não fuma há eternidades! E há lá canecas, pai, eles têm louça própria...
O senhor Rodrigues morreu catorze meses depois de ter dado entrada no lar e, uma semana após o funeral, a filha passou por lá para acertar contas e levantar os pertences do falecido. Consistiam na velha mala com a sua roupa, um saco de supermercado com dois pares de sapatos e umas chinelas. Com grande dignidade, a responsável entregou-lhe também uma pequena peça em prata com uma cabeça de coruja, dizendo:
“Pertencia ao seu falecido pai, tinha-a sempre na mesinha de cabeceira a marcar os livros que andava a ler, coitado... Havia também uma jarrita chinesa, mas partiu-se um dia com as limpezas – nem deu para colar.
Antes de entrar no prédio, a filha do senhor Rodrigues, com um estremecimento leve de repulsa, enfiou no contentor do lixo o saco com os sapatos e os chinelos. Aquilo não iria servir a ninguém que conhecesse e naquele ambiente do lar, cheio de velhos e de mazelas, podia até ter ganho fungos, doenças que se pegassem...
O neto do senhor Rodrigues andava pelos dez anos e estava sentado à mesa da cozinha a barrar uma tosta com Nutella, enquanto lia uma revista de banda-desenhada. Distraidamente, saudou a mãe e o olhar fixou-se na mala que ela trazia na mão:
“Foste buscar as coisas do avô?”
“Fui...”, soprou a mãe como quem acaba de atravessar a terra inteira, deixando-se cair num banco em frente ao filho. Nem imaginas o trânsito que está lá fora! Demorei duas horas a chegar aqui, com esta chuva!
“O que tem na mala?”, quis saber o rapaz.
“Oh!, nada, roupa velha do avô... Vai já tudo para a máquina, vou pôr a correr um programa a 90 graus para desinfectar tudo.”
O rapaz levantara a cara da revista, olhava-a de frente como se fosse a primeira vez que a via.
“E não havia mais nada? Ele morava lá e só tinha roupa?”
A mãe sentiu-se um tanto embaraçada com a pergunta. Respondeu:
“Havia também uns sapatos, mas estavam tão estragados que os deixei ficar...” Depois lembrou-se, meteu a mão no bolso do casaco e pousou a faca de marcar livros em cima da mesa
“E isto...”, acrescentou, empurrando-a na direcção do filho.
“O que é...?”, o rapazito pareceu interessado no objecto, pegou-lhe com delicadeza e examinou-o demoradamente, testando a ponta aguçada da faca na polpa de um dedo, acariciando o espaço entre as orelhas bicudas da coruja, os olhos bojudos.
“É uma faca de cortar papel, antigamente os livros vinham com as páginas coladas; mas também serve para marcar onde se vai a ler, estás a ver? Tem aí esse entalhe que encaixa nas páginas...”
“E estes números?”, quis ele saber.
“Não sei bem...”, respondeu a mãe, “foram os colegas dele que lha deram quando ele se reformou – se calhar é o tempo que trabalhou na Segurança Social...”
“E esta marca?”, inquiriu o rapaz apontando uma pequeníssima depressão no metal.
“A faca é de prata, sabes? Isso é o contraste, é para provar que é prata verdadeira...”
O pormenor pareceu cativar vivamente o neto do senhor Rodrigues. Sopesou a faca, experimentou-a numa das páginas da revista que estava a ler; fechou a revista e voltou a abri-la, como a comprovar que a faca servia mesmo para marcar o sítio onde se ia na leitura. Depois, modificou um pouco o tom de voz, deixou escorregar na direcção da mãe:
“Que lhe vais fazer...?”
A mãe percebeu logo, sorriu:
“Vou-ta dar, se me prometeres que não fazes brincadeiras parvas com ela, tipo marcas em móveis com o bico ou aleijares-te. Queres?”
O rapaz abriu um grande sorriso, acenou com a cabeça:
“Quero muito...”
À noite, já o filho dormia, quando lhe foi apagar o candeeirinho reparou na pequena coruja que espreitava do topo da revista de quadradinhos pousada na mesinha de cabeceira. Abriu a revista com cuidado, virou-a do avesso para que se mantivesse nas páginas em que estava marcada, pegou na faca e deu um beijo leve na testa do rapaz. Depois foi à casa de banho, tirou dum boião uma bola de algodão de desmaquilhagem e o frasquinho de álcool etílico do armário, e levou tudo para a mesa da cozinha.
Sentou-se, cruzou as coxas sob o roupão, acendeu um cigarro, deu uma passa e pousou-o no cinzeiro cor de caramelo que acabara por trazer de casa do pai. Em seguida começou a esfregar a pequena faca de prata com todo o esmero, assistindo satisfeita ao modo como, a pouco e pouco, a coruja se ia revelando muito mais desinfectada e brilhante. 

© Fotografias, Pedro Serrano: (1) Lisboa, 2011; Praia Areia Branca, 2011.


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AMOR À SEGUNDA VISTA


Apaixonei-me por ti a segunda vez que te vi.
Deixa-me deixar-me de rodeios e praticar, por uma vez, aquilo que advogo nas minhas palestras de marketing: as palavras-chave devem, em qualquer tipo de comunicação, aparecer em posição-forte, isto é, logo a abrir o discurso.
Apaixonei-me por ti a segunda vez que te vi.
Sinto não estar a dizer-te nada de novo, meu bem, acho que estás cheia de o saber. Passei este tempo todo a dizê-lo por outras palavras, algumas delas bem tangentes ao discurso directo. Mas, com estas coisas, a gente nunca tem a certeza, pelo menos a absoluta. (Já te disse isto num mail recente, enroupado em outras vestes como às vezes acontece com o  que te quero dizer e não sou assim tão suposto fazê-lo.) Com estas coisas… Gente apaixonada nunca tem a certeza da reciprocidade, precisa de confirmação constante. É um estado inseguro, de tonturas, como andar em saltos altos pela passadeira de ripas de madeira que leva à esplanada do bar da praia onde te vi a primeira vez, onde me foste apresentada de raspão e tomámos uma bebida lenta ao fim da tarde. Admito, pois, que não tenhas a certeza absoluta, que, pelo menos, não saibas exactamente quando e como isso aconteceu. Mas eu digo-te, querida insolúvel.
Apaixonei-me por ti a segunda vez que te vi.
Posso encaixar a ocasião com uma precisão de meia-hora, sabias? Foi numa sexta-feira, entre as oito e meia e as nove, de uma gélida e nítida noite de Janeiro. 12 de Janeiro, que dois algarismos tão bonitos. Iria jantar a tua casa, devíamos encontrar-nos na Confeitaria Imperial, o local público mais perto dela e acessível ao meu conhecimento geográfico na vastidão de Lisboa.
“Não consigo estar lá antes das sete e meia…”, disseras ao telemóvel.
Sete e meia… Agora sei o que são as tuas sete e meia da tarde, o sair da empresa, a travessia do eixo Norte-Sul. É aquele intervalo em que, tantas vezes, recebia uma mensagem tua a dizer “olá”, ou outra perguntando “o que estás a fazer?”, um sinal para que um de nós discasse o número do outro e ficássemos ali a falar, esquecidos, eu, num sorriso mental, ouvindo o pisca do teu carro a piscar em Lisboa, os teus “mas este tipo não conhece o código da estrada?!”, os teus “sabes como é?”. 
Mas à época, a segunda vez que te ia ver (a primeira após o nosso encontro na convenção do Alvor e a bebida lenta na esplanada), não sabia nada de nada sobre ti e, ainda antes das sete e meia, o meu Passat desaguou suavemente nas proximidades da confeitaria. Era fim do dia, havia carros a abandonar o local e estacionei mesmo naquele espaço em frente à esplanada, no separador central, entre as árvores, sabes onde é. Entrei na confeitaria, que, afinal, é maior do que o imaginava pela tua descrição, sentei-me a comer à pressa uma castanha de ovos, estava morto de fome. Não comia nada desde o almoço, muitas horas antes num restaurante manhoso de Santa Catarina, perto da esquina com o Marquês.
Despachei o bolo a toda a velocidade. Não queria ser apanhado a atafulhar-me de comida, uma sem-delicadeza para quem foi convidado para jantar, como se desconfiasse que pudesse passar fome chez toi! Mal sabia que poderia ter comido aquele bolo e muitos outros… 
A confeitaria quase vazia, os dois empregados mal reparavam em mim, entretidos a ver na TV as notícias da prisão de um dirigente político que já fora ministro da Justiça. Para não estar ali sem nada nas mangas, pedi um café. No meu relógio, as oito da noite aproximavam-se.
“A que horas fecham?”, perguntei, temendo que estivessem a entreter o fecho do estabelecimento deserto por minha causa.
“Oh, só às nove”, descansou-me o tipo que parecia mais compatível com a figura de gerente.
A mesa onde me sentara era ao lado do balcão, vizinha de uma janela que dá para o exterior e por onde podia ver quem chegava. Sem a perder de vista, pus-me a estudar a montra envidraçada do balcão, por trás da qual se arrumavam doces e guloseimas: ovos Kinder, cigarros de chocolates, gomas coloridas, caixas de chicletes, tubos de Smarties… A mercadoria interessava-me, sabia que a minha anfitriã tinha um filho pequeno, um menino de idade incerta, mas qualquer coisa como entre três e quatro anos. E eu não trazia nada de nada nas unhas: nem umas flores para a dona da casa, uma garrafa de vinho para o jantar, uma lembrança para o menino… Tinha ali a minha última oportunidade de remediar a rudeza e a pressa em chegar a horas. 
O mais fascinante em todo aquele sortido era, sem dúvida, os cigarros de chocolate. Belos maços de cores bem afirmadas, vagamente semelhantes a cigarros verdadeiros mas com ar atraentemente artesanal, cada um dos cigarros do maço embrulhado em papel de prata… Mas como seria encarado tal presente? Eu sabia lá dos enquadramentos, possivelmente politicamente correctos, do pai e da mãe do menino? Poderia escavacar anos de educação em segundos, causar uma decepção fatal, ser excomungado por isso. E se fosse os ovos Kinder?
Ovos Kinder era uma opção também muito interessante. O chocolate é bom, castanho por fora e branco-brilhante por dentro, uma surpresa aninhada em cada um deles, um brinquedo em pequenas peças que, depois de montadas, se transforma no milagre de algo que não poderia nunca ter cabido em espaço tão exíguo, uma magia semelhante à contorcionista que se consegue enfiar num aquário para peixinhos vermelhos… Imagine-se a alegria risonha, as palmas da criança. Mas seria o menino suficientemente crescido para lidar com ovos Kinder? É que aquelas peças mínimas, o perigo de sufocação se engolidas, o interditas a menores de 36 meses… Acabei por me decidir pelos ovos Kinder. Oito e um quarto…
Oito e vinte e eu sem mais com que me entreter. Castanha de ovos, café, água sem gás, ovos Kinder, o nervosismo de olhar pela janela de cada vez que um carro parava. E em sérios riscos de gelar ali mesmo, o frio, que se mantivera apenas vizinho na primeira meia-hora, apossara-se de mim com violência. Que frio, porra, parecia até que atravessava o vidro!
Resolvi mudar de estratégia. Paguei, saí, desloquei o carro para ainda mais perto e  deixei-me ficar dentro, o aquecimento a lamber-me os pés congelados, a janela mais do lado do café com o vidro aberto para a poder ver chegar com nitidez. Se ela viesse, claro, pois às oito e meia começava a duvidar de tudo. Será que teria dito “oito e meia” e eu tinha entendido “sete e meia”? Será que teria desistido daquilo tudo e ia deixar passar a noite sem aparecer, telefonando-me no dia seguinte com uma desculpa qualquer? Que se enganara na data? Que o palm-top ficara sem pilhas? Que se arrependera? Todas estas interrogações, adicionadas ao torpor árctico que o pobre ar condicionado não conseguia resolver com a janela aberta e à fome que voltava a rondar, estavam a fazer-me escorregar para pensamentos desanimados.
Que estupidez tudo aquilo! Que estava eu ali a fazer, parado no meio de uma cidade meio estranha, uma sexta à noite, a 300 Km de casa? À espera de uma desconhecida que, num longínquo telefonema três semanas atrás, me pedira para dizer alguma coisa quando fosse a Lisboa. Mas que estúpida importância eu atribuíra àquilo tudo! Palavras de mera e formal cortesia, tomara-as eu por algo de concreto e agora estava à espera de alguém que, dava conta com desespero, não sabia quem era. Mails e sms! Podia ir parar a um local onde me fosse sentir tão deslocado como um camarão no deserto; invadindo a privacidade e o fim-de-semana de pessoas que, era o mais seguro, prefeririam não me estar a aturar numa sexta à noite! Uma delas, sem contar com a criança, não me tinha nunca visto, sequer! Oxalá ela não aparecesse, comecei a desejar. Claro que tinha o telefone dela, mas não me ia pôr a telefonar, a saber se se esquecera de me dar de jantar! Ia esperar quanto mais? Eram quase nove menos um quarto, talvez já fossem até nove menos um quarto.
Pensava eu em tudo isto, virado para a janela e acompanhando com suspiros de desânimo que se materializavam no ar gelado, quando vi um vulto rápido caminhar para a confeitaria, entrar e, momentos depois, voltar a sair para a noite. Era ela. Não podia ter a certeza só pelo que via – uma figura ao longe, no escuro – mas tive a certeza que sim. Saí do carro, atirei um vocativo por sobre o tejadilho. Ela olhou na minha direcção. Dei a volta ao carro e vi-a, do outro lado do passeio, aproximar-se, a gola de um casaco de cabedal levantada, o cabelo meio embutido nela. Um pouco antes de me alcançar atirou ao chão o cigarro que vinha a fumar, pôs-se a pisoteá-lo com a biqueira da bota. Depois levantou a cabeça e olhou-me.
Era ela, sim; tive então a certeza. Era a mesma pessoa da convenção no Alvor e surgiu como uma revelação: eu iria com ela para qualquer parte do mundo. Não havia ali nenhum equívoco. E, assim, nesse estado de iluminação e graça, a segui para onde decidiu levar-me. 

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ALL INCLUSIVE


Quando pediu a terceira caneca de cerveja, a empregada, uma mulata de olhos castanho-claro, perguntou:
“É all inclusive?”
Carlos levantou o braço, exibiu a pulseira de plástico vermelho:
“Podes falar-me em português! É, é tudo all inclusive, não vês a anilha?"
Ao ritmo de uma coladeira, Ângela dançava sozinha na pista de dança, na órbita do Luís e da Leonor que rodopiavam felizes como piões. Dava inveja, o modo como a cunhada e o marido, casados há mais de sete anos, se davam bem, como pareciam preferir a companhia um do outro a outra companhia qualquer.
Ele e Ângela, pelo contrário... Carlos tinha os nervos à flor da pele, fora uma coisa que herdara do pai, e Ângela uma mania de ver tudo cor-de-rosa num mundo que era mais cinzento do que outra cor. E aquela pachorra dela... irritava-o. Ainda há bocado... Tinham combinado com os cunhados encontrar-se às oito no Salinas, o restaurante  mais categorizado do resort; era a Noite Tropical, jantar ao som de música ao vivo, seguido de baile.
“Oito em ponto, lá”, assinara o pacto à porta do quarto, depois de chegarem da piscina, “se não arriscamo-nos a apanhar uma mesa de merda...”
Pois, Senhor, apesar disto, apesar de ter ouvido perfeitamente a combinação, Ângela demorara-se ainda a telefonar ao pai e à mãe, a descrever tudo quanto tinham feito durante o dia, o que tinham comido, a T-shirt rosa com I Love Cabo-Verde que tinha comprado para a Bebiana, a sobrinhita que ficara em Rio Tinto com os avós; o carago a quatro! Depois, enquanto ele tomara um duche e se vestira em dez minutos, ela fechara-se no quarto de banho durante mais de meia-hora donde saiu toda nua, a cara besuntada de creme, o cabelo enrolado dentro de uma toalha de banho! E ele, estirado na cama, já a começar a ferver, folheando o prospecto das excursões à ilha sem conseguir fixar uma palavra...
“Ângela, não sei se já reparaste: são oito menos quatro...”
E ela a tirar cruzetas do armário, a perguntar:
“Achas que leve o azul ou o preto?”
E ele:
“Leva o que quiseres, mas vê se te despachas..., o Luís e a tua irmã já devem estar à nossa espera lá em baixo...”
E ela, encostando os vestidos ao corpo em frente ao espelho, com cabide e tudo:
“Oh, isso é o que tu pensas – a Leonor ainda é pior do que eu a arranjar-se...”
E ele:
“Está certo, pode ser que sim, até podia ser paralítica, problema deles; mas nós combinámos às oito. Enquanto esperamos podemos ir tratando da mesa..."
(a espumar por dentro).
Quando saíram do quarto eram oito e trinta e dois e Carlos tinha dado a noite como estragada; empurrou com ódio a tentativa de abraço de Ângela, ignorou o sorriso contente dela, a pergunta:
“Estou bonita...?”
Quem, sem pergunta nenhuma, acabara por responder à pergunta fora o Luís que, ao entrarem na recepção, a brindou com um:
“Mas olha só que princesa! Já viste a tua irmã, Leonor?”
Apesar do restaurante estar bastante cheio, tiveram a sorte de arranjar mesa para quatro perto da pista de dança, pois o cunhado, que metia conversa com toda a gente por onde passava, fizera amizade com uma empregada que ás vezes também estava nos pequenos-almoços, uma mulata gordinha e de imponente cagueiro, dona de uns belos olhos castanho-claro.
E agora estava para ali, a olhar o palco, infeliz por não fazer parte do que nele se passava, mas honrando a zanga que começara no quarto. Carlos deu um gole na caneca, a cerveja soube-lhe a azedo, perdera o gás e a graça. Dali a três dias estariam outra vez lá, na bicha de trânsito para a Circunvalação, ele a atender telefonemas impantes de assinantes estúpidos que não sabiam sequer usar o telemóvel topo de gama que tinham comprado; ela a impingir vestidos na Lanidor a gajas que mal cabiam dentro deles.
Olhou a pista. A música tinha acabado, começara uma de ritmo lento e Ângela fizera menção de regressar à mesa, deixando a irmã e o cunhado a dançar agarradinhos. Mas eles não deixaram, a irmã passou-lhe o braço pelo ombro, o cunhado fechara o anel e faziam agora um trio dançante.
Carlos emborcou o resto da caneca. Logo a seguir sentiu qualquer coisa estalar e ceder dentro dele, aquelas putas daquelas mornas tinham um efeito estranho, mesmo sem perceber as palavras a música acendia nele uma nostalgia por algo de bom que, embora passado para sempre, sem remédio, se deseja de volta. Levantou-se, atravessou o espaço até ao palco em passo inseguro, tocou no ombro de Ângela, perguntou em voz pastosa:
“Dá-me a honra desta dança...?”
Ela acenou um sim húmido, abriu-lhe os braços e incluiu no pacote o mesmo sorriso que lhe arreganhara quatro anos atrás quando, pela primeira vez, a convidara para dançar no salão dos Bombeiros de Rio Tinto.

© Fotografia de Pedro Serrano, Mumbai (Índia), 2011.

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UM AMOR ÀS ESCURAS

Darkness at the break of noon
Shadows even the silver spoon
                        Bob Dylan 

I
Penaformosa é localidade pequena, apagada sobre a fronteira com a Espanha, no norte interiorizado do país. Está lá para que exista um posto fronteiriço, uma aduana, aquilo não é nada! O posto, o estático carimbo de ENTRADA, três ou quatro casas, uma cancela de madeira pintada de vermelho fosforescente e dois ciprestes.
O único pormenor digno de nota em Penaformosa, o único a merecer honra de menção em postal turístico, é o cemitério. Como é que um lugarejo que nunca conhecera mais que uma dezena de almas tinha um funéreo recinto com quatro centenas de campas?
Aos mais velhos de entre os meus leitores, a palavra Penaformosa talvez não soe totalmente estranha... Exacto, a batalha; o confronto onde, nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, os portugueses repeliram com bravura os alemães. Quatrocentas campas, um número igual de cruzes de madeira, confeccionadas em branco e em série, recordam as nossas perdas, os incógnitos heróis (os alemães abatidos foram atirados para vala comum).
Depois dessa hecatombe o cemitério recebera apenas mais dois defuntos: um guarda, fulminado por apoplexia no acto de revistar o porta-bagagens de um automóvel estrangeiro e, mais recentemente, uns cinco anos – se não erro – um civil, que atravessara a fronteira a pé e morreu, inesperadamente, no mictório do posto fronteiriço. Era homem magro, ainda novo e vestia um fato azul-claro, claro e leve em demasia para o gélido inverno desse ano.
O que levaria um tipo a vestir-se assim em Janeiro? Será que não possuía outro fato? Nunca se soube, pois transitava sem bagagem. Será que teria sido obrigado a abandonar à pressa alguma cidade? Ninguém reclamou o cadáver e chegou a pensar-se serem falsos os seus documentos, suposição alicerçada no facto de o defunto ser desconhecido na sua freguesia de residência.
Sem dinheiro, com má-fama, o cadáver acabou por ser enterrado sem caixão, ou sequer um lençol, e nada de humano ficou a assinalar o ponto exacto onde jazia. Apenas a Natureza se encarregou de diferençar aquele solo, diverso de todos os outros: no sinistro canteiro o solo aluiu e fixou uma depressão rectangular com um palmo de profundidade.
II
Agosto. É meio-dia. Está de ananases.
Não há turista que se aventure pelos caminhos de Penaformosa. Para uma tal excitação das glândulas sudoríparas, o Sahara é mais mundano. Os guardas bateram as portas, fecharam janelas e suam em volta de uma mesa posta com salada, azeitonas, vinho e pão. Lá de fora ninguém quer saber o que se passa, voltaram as costas àquele bafo maligno.
O guarda noviço pergunta:
“E se aparece alguém?”
“Que se fodam. Se quiserem alguma coisa podem sempre bater à porta, explicou Bento Riacho, responsável pela fronteira de Penaformosa.
Lá fora os ciprestes recolheram o verde, encolhem-se como se fosse noite. O sol faz estalar as ripas de madeira que formam o muro do cemitério, racha a continuidade do saibro em veios fundos, transformando cada um dos montículos de terra das campas num pão ressesso, às fatias.
Na cova do desconhecido do fato azul, uma fenda, grossa como a lombada de uma enciclopédia, acaba de se produzir a todo o comprimento da sepultura. Uma aranha corre, louca de pressa, para o rebordo exterior da campa. Grãos de terra rolam, lentos, para dentro do novo espaço e uma poeira lenta eleva-se do buraco, ocultando ao menos atento uma mão e depois o começo de um braço que ensaiam libertar-se do abrigo, como se não se importassem com o calor imenso que faz cá fora.
III
Gabriel Leitão, caixeiro-viajante, agarrava-se, perplexo, ao volante da sua carrinha diesel de assentos reconvertidos.
Mal acreditando em tanta sorte, desligou o motor, abriu a barreira e empurrou o carro pelo declive suave. Menos uma apreensão, menos um suborno, pensou ao enfiar-se de supetão no automóvel, menos uma badalada na úlcera nervosa. Ligou a ignição uns trezentos metros mais abaixo e respirou fundo. Sorriu, apesar do calor de Agosto: “Que sorte! Ouro sobre azul! Mil e duzentos contos, livres de impostos, em anéis, relógios, vestidos de senhora e tabaco”. O calor era seu aliado, ia ser preciso começar a incluí-lo nos planos.
De repente a úlcera disparou: na berma da estrada, enfiado num fato azul, um homem, sem bagagem, pedia boleia. Já estaria ali há muito tempo? Poderia ter topado alguma coisa? O melhor era tentar sabê-lo. Parou o carro, abriu a janela do lado da berma.
“Para onde é, chefe?” 
“Qualquer sítio com transportes está bem para mim...”
Gabriel Leitão abriu a porta, tranquilizado com o sorriso gaiato do desconhecido.
“Olhe que ficou mal fechada, advertiu Gabriel Leitão enquanto mirava de soslaio a estrada pelo retrovisor. Dois ou três km depois atacou:
“Vem de longe?”
“Estive a trabalhar em Espanha, cinco anos, voltei para casar. Apanhei boleia até uma terriola próxima da fronteira espanhola e como não passava ninguém vim andando.”
“Podia ter ficado à espera no posto da fronteira portuguesa, continuou Gabriel Leitão, sempre estaria mais fresco...”
“A fronteira estava fechada quando lá cheguei, e não sou gajo para me incomodar muito com a falta de carimbos no passaporte.”
Gabriel Leitão desatou a rir.
“É isso mesmo, amigo. Eu cá também não morro de amores por aqueles merdosos da alfândega, sempre a meterem-se na vida alheia. Vai um cigarro?”
Gabriel Leitão gostou da pinta de Valério, acabou por decidir levá-lo mais longe do que inicialmente previra.
“Em Fragalhinha você tem mais escolha de transportes, mais movimento. Olhe, vou-lhe dizer: vamos por aqui abaixo nas calmas, chegamos a Fragalhinha ao fim da tarde, jantamos, eu sigo e você fica e vai à sua vida. Que tal?”
Valério achou bem. Quanto maior fosse o sítio onde ficasse menor seria a probabilidade de lhe pedirem os documentos. Além disso, não tinha um tostão no bolso.
Em Fragalhinha jantaram numa esplanada à beira do cais, vingando-se com cerveja gelada do calor da tarde. Gabriel Leitão retratava o dia:
“Pois amigo Valério, estou satisfeito de o ter arrancado àquela torreira do inferno.”
Valério sorria, olhando as gaivotas que picavam o crepúsculo, sacudindo, discretamente, restos de terra da bainha das calças. Também a ele o dia correra bem. Chegou a hora de se despedirem. Gabriel Leitão chamou pela conta, pediu a Valério que o acompanhasse à carrinha.
“Tenho uma coisa para lhe dar. Ia ser um suborno, mas é com prazer que a vejo transformada num presente de casamento”, disse abrindo o porta-luvas.
Tirou de sob um mapa um objecto resguardado em papel celofane branco, que estendeu a Valério.
“Quartzo, os ponteiros são projecções electrónicas. Calculadora, calendário perpétuo, fases da lua, cronómetro, waterproof; tecnologia do futuro. Vale, bem à vontade, os seus sessenta contos...”
“Sessenta contos!”, espantou-se Valério.
Abraçaram-se. Gabriel Leitão desejou mil felicidades a Valério, este afirmou-lhe que Olga, a noiva, iria ter pena de não o ter conhecido.
Ficou a vê-lo afastar-se pela estrada fora. Atravessou a rua sopesando o relógio, decidiu que não ficaria na pensão ranhosa à beira da estação dos comboios. Ao chegar ao Hotel Parlamento, Valério parou, tirou do bolso um cartão plastificado que estudou à luz de uma montra. Não estava muito parecido, o outro era mais velho, mas era melhor que nada, concluiu Gabriel Leitão, caixeiro-viajante, entrando no hotel.
IV
As dúvidas de Valério, acerca do reencontro com Olga ao fim de cinco anos mudos, confirmaram-se da pior maneira, pois foi recebido muito friamente pela noiva, pela família dela, pelos vizinhos.
Olga estava noiva, mas não dele. O casamento estava marcado para dali a dois meses (fins de Setembro) e segundo todos demonstrava muito mau gosto, quiçá cinismo, ele ter voltado. E que quase chegara a sentir remorsos por ter vendido o relógio sem o ter mostrado a Olga!
Deambulou uns dias por ali, desorientado, aparecendo em casa dela nos piores momentos, incluindo o dia da primeira prova do vestido para a grande cerimónia, irritando o susceptível noivo. Sem saber muito bem que rumo dar à vida, na última visita Valério sacou da casa de Olga tudo o que pudesse render umas notas, meteu-se num comboio para a capital. Diluir-se o mais possível, forçar uma nova identidade, e depois se veria.
V
António Gonçalves, torneiro mecânico, entrou na agência de viagens como quem engole uma pastilha a seco.
Estava, na verdade, pouco à vontade, mas, pensou, para estas ocasiões o que importa é o estilo e achava que o mais apropriado seria pôr-se na pele do gajo do anúncio da TV que vai ao balcão do banco investir em arte, ou seja, transaccionar umas moedas de cunhagem limitada, apaladar umas faianças artísticas rubricadas pelo autor e, no fim, aceitar com desenvoltura o bacalhau do gerente.
Sentia-se extremamente orgulhoso: a direcção do sindicato indicara o seu nome para a visita de dez dias a organizações congéneres da Bulgária. Não que tivesse muito interesse pelo que faziam, para além de beber vodka, os gajos dos sindicatos búlgaros, mas ia andar de avião (nunca o fizera), laurear a pevide.., ia ter o primeiro passaporte!
O gajo do balcão mandou-o preencher uns papeis e apontou-lhe uma mesinha de pernas curtas, com umas poltronas à volta. Sentando numa delas, António Gonçalves hesitou,  esferográfica no ar, no preenchimento daqueles quadradinhos onde só cabia um número à vez. Tinha que se pôr um zero antes, quando só havia um número. Por exemplo, um gajo nascido em Julho tinha de pôr no mês um “07”. Tudo do género, uma confusão... Desanimou, levantou a cabeça do impresso.
Na poltrona em frente estava sentado um tipo de fato azul, a ler uma revista. Ao sentir-se olhado, o desconhecido baixou uns milímetros a revista e acenou uma saudação que não era nada. António Gonçalves, torneiro mecânico, sorriu-lhe:
“Desculpe lá, ó mestre, você não me daria aqui uma mãozinha?”
O desconhecido foi simpático. Preencheu-lhe os papeis, não quis aceitar nada e voltou à sua leitura. Levantou-se, entregou a papelada e as fotografias no balcão e perguntou:
“Quando posso vir levantá-lo?”
“Em cinco dias fica pronto e à disposição de V. Ex.ª”, disse o figurão estendendo a mão.
Volvidos cinco dias, às nove da manhã, um portador, por impossibilidade do próprio, procurou o passaporte de António Gonçalves, torneiro mecânico, nascido a 03 de Julho de 19.., na freguesia de Papagovas.
Pagou e saiu, metendo o passaporte num dos bolsos interiores do casaco azul.
VI
Ano terrível, aquele.
Não houve Primavera e quando Julho chegou desabou um verão insuportável. Com o Outono claro que as coisas amaciaram um bocado, mas Outubro e Novembro foram, mesmo assim, meses demasiado quentes.
Na capital, António Gonçalves experimentava os efeitos do calor tardio juntamente com mais um milhão de desnorteados. As pessoas não andavam nada bem e quem pode dizer que anda se ao chegar a casa da praia dá de caras, na televisão, com anúncios de Natal?
Tornou-se nostálgico. Fechou-se no quarto do quarto andar da residencial da Avenida António Augusto de Aguiar, onde morava, passou horas sem fim a fixar a iluminação das ruas, confundindo as luzes com barcos no mar, à noite. Por vezes saía, sufocado pelo silêncio espesso da madrugada, vagueava pelas avenidas da cidade a olhar as raras janelas iluminadas, uma ausência imprecisa fazendo tiragem no peito.
Em meados de Janeiro decidiu partir e pôs-se à espera. A espera desenrolou-se tranquila,  até que o momento chegou. Examinou-o com prudência, constatou que o saco das alternativas estava roto e vazio, e partiu.
VII
Bento Riacho encarou, entre o espantado (não o vira aparecer) e o irritado, o desconhecido.
“É para Espanha?”, perguntou.
O desconhecido do fato azul fixou-o um momento antes de falar.
“Despediu o empregado?”
“Não era empregado, era tarefeiro”, rosnou Bento Riacho. “E que é que você tem a ver com isso?”
“Pensei... Vou para Espanha, à procura de trabalho, mas se o pudesse encontrar no meu país... Você, aqui, neste buraco, vai ver-se à rasca para descobrir alguém...”
O guarda olhou o desconhecido, desconfiado.
“Ora mostre-me o seu passaporte.”
Abriu-o cuidadosamente e pôs-se a mirar, página por página.
“Aqui nesta fotografia você estava mais gordo...”
“Perdi uns quilitos, a vida não tem sido fácil. E a fotografia já era bastante antiga..”
“Isso é proibido, amigo. As fotografias devem ser de há menos de um ano, vão ter que durar cinco no passaporte!”
Enquanto Bento Riacho casquinava de gozo pela demonstração, o desconhecido engatilhava a história preparada para a página seguinte.
“Diz aqui que você é casado. Onde deixou a mulher?”
“Foi ela que me deixou. Já faz tempo...”
Como se trunfasse uma jogada, Bento Riacho bateu o passaporte na mesa.
“Aqui trabalha-se. E não tens direito a férias, nem subsídios, nem o caralho. Percebido?”
O desconhecido apanhou o passaporte, meteu a mala debaixo do braço.
“Onde vou ficar?”
“Ficas onde eu quiser, e o tempo que eu quiser.”
António Gonçalves, torneiro mecânico, encolheu os ombros. Tanto se lhe dava, porcos ou semáforos. O destino designara Penaformosa como seu estábulo. O sítio era horrendo, as pessoas seriam, talvez, piores, mas ali tinha um quinhão de terra a que podia chamar seu e onde era pouco provável ir alguém incomodá-lo. Seguiu Bento Riacho.
VIII
A escassez de verbas, tal como outra porra qualquer, pode ser um instrumento do destino.
Bento Riacho cansara-se a pedir um reforço do orçamento bienal para que se construísse um anexo ao quarto do empregado auxiliar. Esse mesmo quarto era já, de si, um anexo acoplado ao pavilhão principal da alfândega por sugestão e insistência de Bento Riacho.
De facto, escrevia ele na sua proposta, “esta solução tem dupla vantagem: permite ao funcionário a utilização das instalações sanitárias do posto (basta que para isso se ligue o anexo, através de porta, ao corpo do edifício principal) e, ao mesmo tempo, que ele zele pela segurança do erário público durante a noite”.
No novo anexo pretendia Bento Riacho instalar uma cozinha e, assim, cortar de vez com a intromissão dos empregados na sua vida familiar. Se, por um lado, já conseguira que eles deixassem o seu sabonete pelo sabão comunitário do Estado, por outro ainda não conseguira evitar que lhe sujassem louça e lhe esvaziassem o galheteiro.
Deste modo, António Gonçalves, tarefeiro alfandegário, passou a partilhar as refeições da família Riacho, pois que "lamenta esta Direcção-Geral informar que se encontram, para o biénio, esgotadas as verbas destinadas a ampliação de património...".
O agregado de Bento Riacho era constituído por ele próprio, que presidia, pela mulher, que cozinhava, e por uma filha, Ângela Riacho, que andava em dezoito anos. 
IX
António Gonçalves começou, desde logo, a não apreciar as refeições em casa de Bento Riacho. Sobretudo os jantares. Nada ali era agradável. Bento Riacho resmungava, da sopa à fruta, da pouca sorte que o pusera em Penaformosa (na realidade um caso de luvas noutra fronteira melhor situada) e a mulher cozinhava de um modo insultuoso para o paladar, desgraça que se agravava com o passar das horas e a ingestão progressiva de maduro-branco. Ângela Riacho também não ajudava nada. Tinha a cara cheia de borbulhas, estava  com a cabeça em permanência enfiada no prato e nunca falava, a não ser para chicotear o pai com interpelações hediondas.
António Gonçalves sentia-se um intruso, envergonhava-se por ter de assistir a tantos episódios íntimos. Tentava ser simpático com cada um deles, mas isso não lhe trazia espécie alguma de benefício. Ângela julgava que ele defendia o pai e amuava. Bento Riacho enfurecia-se porque ele interferia com a dinâmica familiar ao abrir a boca, e a cozinheira olhava-o, inexpressiva e muda, da sua fronteira de névoa.
Bem que ensaiou novas estratégias para a mesa, mas não teve melhor sorte. Dorido, emudeceu, aqueles almoços e jantares degeneraram num espinho na sua alma. E a primavera, o sol, que nunca mais chegavam...
"Já não há primaveras como dantes", suspirou ao entrar no anexo, "que terá mudado em mim?"
X 
 Cuivis potest accidere, quod cuiquam potest

Um dia, à hora do almoço, António Gonçalves foi sacudido do bacalhau-confiscado com macarrão por um incidente a que os outros se conservaram indiferentes, ou porque não se dessem conta ou porque o dessem e não o encontrassem digno de interesse.
Ângela Riacho inclinara-se na cadeira para pegar na jarra do vinho e uma generosa madeixa castanha deslizou-lhe da cabeça para a testa e depois por sobre um olho. A luz da uma da tarde, subitamente liberta de um rancho de nuvens de Abril, bateu no vidro da janela e incendiou o castanho-avelã do olho esquerdo de Ângela Riacho, olho que António Gonçalves conseguia vislumbrar através de um postigo aberto no meio dos cabelos desgarrados. Quando a cabeça voltou à sua posição primitiva, o olho camuflado fixou, por um segundo ou menos, António Gonçalves, tarefeiro alfandegário. Finalmente, uma sacudidela do pescoço reconduziu a madeixa ao seio da cabeleira castanha.
"Cuivis potest accidere, quod cuiquam potest"*, pensou António Gonçalves, pegando por sua vez na jarra do vinho.
Foi a partir deste momento que ele, com a aflição de quem chega atrasado, passou a apreciar e elogiar a desastrosa vocação culinária de D. Fernanda Riacho, mãe de Ângela Riacho. Mas a obnubilada senhora não deu por nada.
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Do latim: Ninguém diga desta água não beberei.

XI 
Parva scintilla excitavit magnum incendium

Maio correu, as oportunidades de ver Ângela Riacho eram muitas. Mas em Junho o tempo mudou e se as oportunidades de a ver continuavam a ser as mesmas, a certeza de ser visto com olhos semelhantes era... desconhecida.
A partir daqui António Gonçalves perdeu o sentido da realidade. De tal modo ela ocupava o seu espírito que chegou julgar vê-la onde ela não estava, de tanto procurar presságios em todas as coisas chegou a julgar tê-la quando ela não estava.
Os almoços de festa, os jantares de gala, repassaram-se de ansiedade. Que desdobramentos! Evitar as agressões de Bento Riacho, vigiar a velha, que se tornara desconfiada, e ter ainda a capacidade de implorar a Ângela Riacho alguns olhares, de captar meia-dúzia de indícios.
Como consequência deste jogo, ou talvez porque a vida é assim mesmo, ele próprio se desbaralhou em diversos figurinos, confrontando Ângela Riacho com sucessivos personagens, ou seja, apalpando o terreno. E o tino, sob esta pressão constante, vai-se desagregando em fantasias e o que ontem era mero desejo vai funcionar amanhã como pedra de alicerce.
António Gonçalves assustou-se com a doença, mas, após uns minutos de apressada reflexão, concluiu que não havia maneira de voltar atrás. E se não podemos, qualquer seja a circunstância ou o motivo, retroceder, então o mais sensato é ir em frente.
Parva scintilla excitavit magnum incendium!”*, constatou numa breve centelha de lucidez.
De imediato se pôs a examinar a decisão.
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*Do latim: Uma pequena faísca produziu um grande incêndio.

XII 

António Gonçalves varria o chão com aplicação.
A alguns metros, quatro talvez, Ângela Riacho lia uns papeis. Estava a substituir o pai, na eventualidade remota de surgir algum viajante. Tinha enfiado o vestido desmazelado, os pés descalços em cima da secretária, e uma madeixa de cabelo castanho, espiando a leitura, sobre o olho esquerdo.
António Gonçalves aproximou-se até a uns prudentes dois metros, agachou-se e pôs-se a apanhar uns papeis amarrotados que outonavam o soalho. O cesto dos papeis ficava por trás da secretária, do lado direito da cadeira, a menos de um metro de Ângela Riacho. António Gonçalves, tarefeiro alfandegário, caminhou lentamente, encostou a vassoura à mesa, e inclinou-se sobre o cesto, nas mãos um bouquet de bolas de papel.
Ao pegar de novo na vassoura estendeu a Ângela Riacho um papel verde, recentemente desamarrotado.
“Suponho que este é para si, disse. Deve ter ido parar ao lixo por engano.”
Ângela Riacho alisou o papel sobre a mesa, pegou-lhe com ambas as mãos e começou a ler. Era um triplicado do impresso do seguro automóvel e por cima dos caracteres, desbotados graças a um papel químico de fraca qualidade, alguém escrevera:
Primeiro - se puder guarde segredo disto
Segundo - não fique muito admirada, pois não vale a pena
Terceiro - acho que estou apaixonado por si.
Ângela Riacho riu-se, amarfanhou o papel e deitou-o no cesto do lixo. Depois olhou António Gonçalves e disse:
“Isso passa.”
O tarefeiro alfandegário afastou-se rapidamente com a vassoura, sem coragem sequer para balbuciar:
“E enquanto não passa?”
XIII

Se um amante da comemoração dos pormenores triviais, dos tempos mortos do dia-a-dia, residisse nas imediações de Penaformosa, diria com toda a razoável certeza:
“Faz amanhã um ano que Gabriel Leitão, caixeiro-viajante, atravessou a fronteira, vindo de Espanha, sem carimbo no passaporte.”
Mas o único jardineiro de detalhes de Penaformosa andava entretido noutras áreas do conhecimento...
Recuperou o triplicado verde do impresso automóvel, releu-o, treleu-o, como se não fosse o autor. O que haveria ali que pudesse mover uma gargalhada e um “isso passa” tão cruéis? 
Segurou-se uns séculos numa anestesia forçada, precavendo-se de ver e olhar Ângela Riacho, achando-se perturbado e quase irritado de cada vez que ela cruzava a sua insípida convalescença. Foi sol de pouca dura. Desanimou, emudeceu, desapareceu e, ao quarto dia, voltou ao local do agravo.
Ângela Riacho estava diferente, parecia-lhe. Seria porque partilhavam um segredo? Porque ficara, no fundo, sensibilizada com a declaração? Quereria experimentar-lhe o alcance das intenções? Não o sabia, mas era verdade que se mostrava mais compassiva, mais próxima. Os olhares eram mais prolongados e menos vazios, achava. Algumas ocasiões procurou-o espontaneamente, sem motivo aparente.
Uma manhã, ao entrar no quarto do anexo, encontrou a latinha de salsichas, onde costumava descansar a esferográfica, cheia de água e uma rosa de milagre a tomar banho. Propôs-lhe um encontro, às escondidas.
“Se me deres um bom motivo...”, avisou-o ela.
Deu-lhe o primeiro de que se lembrou, sem se importar muito com a escolha, pois qualquer um seria satélite da sua paixão.
“Está bem”, disse ela, continuando a esfregar roupa na pedra do tanque. “Vai ter comigo uma noite destas, depois da meia-noite, ao meu quarto. Combinamos a maneira mais logo.”
António Gonçalves, tarefeiro por necessidade, perdeu-se imediatamente na sua floresta de Esperanças, tanto as flores tinham medrado.

XIV
António Gonçalves, atarefado alfandegário, caminhava descalço pelo saibro fora.
“Isto é uma loucura desamarrada”, pensava, “se o velho dá conta mata-me!”. 
A porta da habitação de Bento Riacho encontrava-se entreaberta, como ajustado. Subiu os dois degraus da soleira e tentou perscrutar o silêncio no meio do escoucinhar desenfreado do coração. “Tudo em paz... ou será que a armadilha espera no topo das escadas?”
“O terceiro, sétimo, e nono degraus estalam”, prevenira-o Ângela Riacho. “Pisa o terceiro no meio e o sétimo à direita. No nono pousa primeiro o pé esquerdo”. Decorara o bilhete e fizera bem. Para já nenhum ruído.
“No fundo do corredor há uma porta ao fundo, é a sanita – não entres nessa – e outra à direita, que é o meu quarto. Deixo uma luz acesa, deves vê-la pela frincha no chão da porta.”
Tinha agora a frincha iluminada ao nível dos olhos. Parou um pouco, apoiado ao corrimão, a humedecer o céu-da-boca e os lábios com a saliva que lhe restava.
Ao chegar ao fundo do corredor uma frincha vertical, feita de luz, apareceu na porta à direita. “Sentiu-me”, espantou-se, convencido de ter sido absolutamente inaudível. Empurrou a porta de mansinho.
Ela estava recostada na cama, com o vestido desmazelado, descalça. Com a mão direita fazia-lhe sinal para que fechasse a porta, depois um sorriso e um dedo nos lábios a significar: “Com cuidado, sem ruído, que até aqui tudo certo.”
A luz da frincha, que no âmago das escadas lhe parecera ter a intensidade de uma espada flamejante, originava-se num tímido candeeirinho de mesa de cabeceira. O quarto estava pejado de sombras azuis-negras, pela janela aberta esfarrapava-se o luar e palpitava a noite de verão.
Baixou-se e fez deslizar um tapete de beira-de-cama até ao chão da porta. Desse modo se acabava a frincha e se precaviam as dúvidas de Bento Riacho quando, às três da manhã, em pleno pesadelo prostático, passasse para a casa de banho. Virou-se mansamente para a cama.
“Tu és o morto do cemitério, não és? Aquele que chegou vestido de azul e morreu a mijar...”, disse, sorrindo, parada em cima do lençol.
“Ângela, o que a leva a dizer tal...?”, ciciou quando já estava próximo.
“Agora não me podes chamar Ângela, já passa da meia-noite. Tens que me chamar de Alzira Mónica.”
António Gonçalves, tarefeiro alfandegário, sentou-se, perplexo e asténico, na borda da cama. Suores profusos coroavam-lhe a testa e temeu a aproximação de uma febre cerebral. Era uma da manhã.
XV
Hoc volo sic jubeo, sit pro ratione voluntas

“Tinha doze anos no dia em que chegaste, ninguém se lembra melhor do que eu. Ainda me parece estar a ver a tua cara, muito branca, ao lado de umas bolas de naftalina. Desconfiei logo ao ver-te aparecer aqui outra vez. Muitas noites fui espreitar à tua janela e tu nunca estavas na cama. Pensei logo, 'é ele e à noite vai dormir, ou lá o que é, no cemitério'.”
António Gonçalves olhava o chão, cabisbaixo, desarmado pela crueza e pela paixão.
“Afinal qual é o teu verdadeiro nome?! És António Gonçalves, Gabriel Leitão (descobri um bilhete de identidade no teu colchão), ou outra coisa?”
“O meu nome é Valério”, balbuciou António Gonçalves, tarefeiro alfandegário.
“Sempre é o mais bonito... E tu, gostas mais de Ângela ou de Alzira Mónica?”
Valério abriu a boca para responder, mas parou a tempo. Preferia a Ângela dos olhos luminosos, do meio-dia, mas conviria dizê-lo? Por certo que Alzira Mónica era o personagem mágico na ideia de Ângela Riacho. O sol ia demorar uma eternidade a aparecer, não o teria como aliado nessa noite. Obedeceu.
“Gosto mais de Alzira Mónica...”
“Eu também”, sorriu Alzira Mónica juntando as mãos. “A Ângela é fraca, tem que aturar o que os outros querem. Não tem liberdade nenhuma!”
Durante uns minutos permaneceu pensativa, a olhar o espelho da cómoda. O olhar de Valério procurou a janela, confuso. E agora? Como desbloquear o impasse? Não era aquilo que esperava, tudo suspenso, cristalizado... Não conhecia os maquinismos da noite.
“Afinal o que queria dizer aquele bilhete?”, perguntou de súbito Alzira Mónica.
“Apenas aquilo que lá estava escrito.”
“Já não me lembro bem... Estava tão cansada naquele dia; tive que registar todas as ENTRADAS.”
Valério fixou Alzira Mónica com angústia.
“Que estou apaixonado por si, se quer a história curta.”
A expressão dela tornou-se doce e cogitante. Semicerrou os olhos e esvaiu-se na cama, uns dedos distraídos a enrolar a madeixa castanha, um pé a coçar o peito do outro.
“Como é estar morto?”
Valério encarou o corpo abandonado, considerou o tempo perdido. Decidiu agir e mergulhar fundo naquele desatino em que estava atolado. Contou mentalmente até sete, inspirou fundo na ânsia de se libertar daquela angina pectoris*. Depois inclinou-se por sobre Alzira Mónica, torrou as retinas na proximidade daquelas pestanas negras e, murmurando "hoc volo sic jubeo, sit pro ratione voluntas"**, pousou os lábios nos dela.  
Um violento safanão atirou-o para o fundo da cama. Ela sentara-se e, irada, fuzilava-o com os olhos.
“Estás louco ou quê?! Julgas que me vou deixar apalpar por um morto-vivo, um lobisomem, ou lá o que tu és?! Era só o que faltava! Pensas que me interessa muito a tua paixão? Estou-me marimbando, ouviste, ma-rim-ban-do.”
Desmembrado pela dor, esquartejado pela desilusão, Valério deu um pulo felino e desapareceu pela janela na guinada da noite.
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*Do latim: Angústia do peito.
**Do latim: Quero-o, assim o ordeno, que a minha vontade substitua a razão.

XVI
Avatar que o pariu

Na sepultura Valério torcia-se de insónia.
Partira algumas unhas de tanto arranhar a terra, tinha a cara sarapintada pela liga macia nascida da comunhão entre as lágrimas e o saibro. Oh, desespero dos desesperos, para que voltara a Penaformosa? E a culpa era toda dele, o Outro bem que o avisara:
“Olha que te pode sair contrário aos propósitos...”
Seria manobra? Parou de esgravatar e abriu os olhos no escuro. Não, era impossível, ela não estava ali para isso... Ela era só ela.
“Será?”, pareceu-lhe ouvir soprado das paredes da cova.
Fosse como fosse, que interessava agora? Já era desumano aguentar a paixão inútil por Ângela Riacho, quanto mais partilhar-lhe os pormenores com o Outro!
“Que posso eu fazer? Que devo eu fazer?”, gemeu.
Sustine et abstine”*, uma gargalhada zombeteira ecoou-lhe nos ouvidos, vinda das profundezas.
“Avatar que O pariu”, gritou Valério, insubordinado. 
Acordou com o galo, mas deixou-se estar mais uns momentos a saborear a luz filtrada pelas fendas, a preparar-se para Ângela Riacho.
Encontra-la-ia só, o pai ia a Fragalhinha comprar uma almofada de tinta para os carimbos.
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*Do latim: Suporta e abstém-te.
XVII

Seria possível que você, algum dia, se viesse a apaixonar por mim?
Valério tremia. Ângela Riacho abanou a cabeça.
“Nem penses! Por muito que tentasses nunca me conseguirias embruxar, vou todos os anos à Cova da Iria. Para além disso que poderia eu fazer de um morto-vivo?”
“Faça ao menos um esforço. Procure ver-me como uma pessoa, como um ser que sofre... Esqueça a minha condição.”
“Não, é escusado.”
Os olhos de Valério, sem que desse por isso, encheram-se de lágrimas.
“Então vou ter de lhe pedir uma coisa...”
“Se for razoável...,” disse ela sem levantar a cara das unhas, que limpava com a tampa de uma esferográfica.
“Acabe comigo, destrua-me para sempre. Se me ajudar eu não volto nunca mais.”
“Estás louco!”, enfureceu-se Ângela Riacho.
Ao levantar a cabeça, para o enfrentar, cruzou os olhos molhados de Valério, pôs-se pensativa. Depois falou, uma voz mais suave:
“Eu não posso, mas talvez a Alzira Mónica...”
Valério encheu-se de esperança. Sorriu, esfregou os olhos, implorou:
“Você fala-lhe?”
“Prometo. Como seria...? Quer dizer, tem de ser especial, não tem? Dizem que vocês, os mortos-huumm, não morrem de qualquer maneira...”
“Eu trato de tudo. Ela só tem que dar uma martelada... Quero dizer, aqui...”
E apontou o peito.
“Só isso!?”
Ângela Riacho pareceu genuinamente admirada.

XVIII
Acta est fabula

Alzira Mónica bateu de leve na porta do anexo.
“Valério?”, chamou baixinho.
Esperou uns instantes e, como ninguém respondesse, empurrou o trinco. A porta cedeu e ela, mal se habituou à escuridão, entrou. O quarto estava vazio, mas a porta que comunicava com a alfândega encontrava-se aberta. Só uma das lâmpadas da casa de banho dos homens estava acesa e, mesmo essa, tinha um lenço de bolso a quebrar a luz.
Topou com Valério sentado na borda de um dos urinóis, a fumar um cigarro. Ao lado, no chão, viu um martelo enorme, daqueles que normalmente são utilizados para aparelhar pedra, e um pau (teria sido serrado de um cabo de enxada?) com um palmo de comprimento, aguçado numa das pontas.
“Olá”, disse Alzira Mónica.
Valério mirou-a com um sorriso estranho (estava tão pálido!) e falou, uma voz enrouquecida:
“Vamos a isto?”
Alzira Mónica desviou o olhar, fixou as bolas de naftalina que se acumulavam no fundo dos urinóis. Quando era pequena julgava que aquilo tombava do misterioso aparelho de mijar dos homens. Ganhou coragem, perguntou:
“Queres mesmo?”
“Há alguma esperança para mim? Se acha que sim...”
Alzira Mónica abanou a cabeça numa negativa desanimada.
“Não, ainda hoje lhe voltei a falar nisso. Até perguntei: ‘E se ele não fosse um morto-huumm, gostavas dele?’. Ela zangou-se e respondeu o que o pai dela diz quando a mãe dela lhe vem com 'ses': ‘Se, se.. Se a minha avó tivesse tomates seria o meu avô!’."
Valério levantou-se, desequilibrado. Atirou a beata do cigarro para o ninho de naftalina de um dos urinóis, desabotoou a camisa e deitou-se no chão.
“Encoste a ponta aguçada aqui (indicou um ponto abaixo do mamilo esquerdo) e bata com o martelo na outra ponta. Uma, duas, três, as vezes necessárias para que o pau desapareça na carne.”
Alzira Mónica acenava que sim, rolava o pau nas mãos suadas, não ousando enfrentar os aflitos olhos de Valério. Continuava a não poder afastar da mente as bolas de naftalina que pingavam silenciosas, uma a uma, do sexo dos homens...
“E, sobretudo, não pare a meio, nem tire o pau para fora depois de estar enfiado”, recomendou. “Nem que eu lho peça. Estou agora pronto.”
Alzira Mónica cavalgou Valério, apoiou a ponta aguçada no peito.
“Está bem aqui?”, perguntou.
Pegou no martelo, ergueu-o no ar e... hesitou. Valério fechara os olhos, as suas mãos, prostradas de cada lado do corpo, tremiam descontroladamente. Bolas de naftalina a rolar como berlindes, a derreter-se, encharcando o soalho.
“Tens a certeza absoluta que não vai ficar ferida nenhuma?”
Valério abriu uns olhos que a acariciavam com meiguice:
“Pode estar descansada, tranquilizou-a, vai ficar tudo como está agora.”
“Adeus Valério, esquece e descansa em paz”, despediu-se Alzira Mónica, desferindo a primeira marretada.
A primeira estocada pouco enterrou o pau, quase só serviu para afastar duas costelas teimosas. Mas Valério sentiu algo de muito especial a aproximar-se. Ia regressar ao inevitável fundo de si, desta vez de modo definitivo. E não queria, não podia, não queria acreditar na perda sem remédio dos olhos de Ângela Riacho iluminados pela luz do sol poente, tal como os tinha visto um fim de tarde quando ela apanhava peças de roupa no estendal das traseiras.
“Pare, pare; deixe-me viver...”
“Está quieto”, repreendeu-o Alzira Mónica. “Tu mesmo pediste que não parasse!”
E continuou a desferir a marrã sobre a metade do pau que ainda estava por enterrar, enquanto cantava hinos religiosos para não ser distraída pelos mansos uivos do agonizante e pela torrente de bolas de naftalina que se derramavam sobre ela.
A ponta do pau convenceu finalmente a teimosia do coração, a boca de Valério escancarou-se como se ele jazesse numa cadeira de dentista. Os olhos injectaram-se de vermelho e Alzira Mónica sentiu uma labareda lamber-lhe as entranhas.
A boca de Valério fechou-se com um rangido pavoroso de dentes a quebrar-se, voltou a abrir-se e uma ponta de língua esboçou o afago dos lábios despedaçados.
“Estava com todo o ar de quem queria falar”, contou, mais tarde, Alzira Mónica a Ângela Riacho.
Acta est fabula”*. 
Alzira Mónica sentiu-se parva! Por causa de uma estúpida golfada de sangue, que se vertera como uma cascata pelo pescoço de Valério, não percebeu as últimas palavras do morto!
Olhou o peito dele. Ao menos não mentira, ninguém poderia dizer que ali tinha sido enterrado um toco de enxada! Estava tudo intacto, a pele lisinha e virgem. Pôs-se de pé e estudou o cadáver de mãos na cintura. Era preciso abotoar-lhe a camisa, pousar-lhe a cabeça em cima do degrau do mictório. Assim ficaria como da primeira vez. Limpou o sangue, arrumou o martelo no anexo, apagou a luz e foi-se deitar.
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*Do latim: Está representada a peça.
XIX

Epílogo
Ângela Riacho passou o dia do funeral de Valério um nada autista.
Ao crepúsculo animou, quando o pai lhe revelou que em breve a fronteira iria estar aberta também à noite e que, provavelmente, seria necessário que ela desse uma ajuda. Tarde, próximo da madrugada, acordou e teve uma espertina. Desceu à cozinha, trouxe uma fruta, umas bolachas, um copo de vinho fresco. Aproveitou a falta de sono para conversar com Alzira Mónica, que despertou com o ruído cavo das dentadas na maçã e, às tantas, toparam no assunto de Valério, o morto-morto.
“Custou-te muito?”, perguntou Ângela Riacho.
“Não... Bem, no fim, quando o vi ali esparramado, senti-me parva..”, confessou Alzira Mónica ausentando o olhar e sorvendo um gole de vinho.
“Deixa lá”, consolou-a Ângela, atirando o casquilho da maçã pela janela fora, “afinal ele era um chato.” 

© Fotografias de Pedro Serrano. De cima para baixo: (1) Lisboa, 2010; (2) Mértola, 2008; (3) Praia da Areia Branca, 2010; (4) Torres Vedras, 2010. 


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PERGUNTE AO SEU MÉDICO

© Fotografia de Ricardo Ventura, Tokyo 2005.
“Como somos ingénuos a princípio...”, reflectia nessa manhã enquanto dava voltas e mais voltas nos parques do Hospital, em busca de um espaço para estacionar. Mas depois, à medida que saltaricamos de serviço em serviço, de meio auxiliar de diagnóstico em meio auxiliar de diagnóstico, de médico em médico, e nos vão descobrindo problemas novos, novas necessidades de tratamento, efeitos secundários dos tratamentos que é forçoso remediar, vamos naturalmente apercebendo que não nos livraremos mais daquilo, com sorte talvez nos permitam um ou dois meses sem lá irmos.
“Eu nunca me queixo de tudo o que sinto”, aconselhara-me um dia um velhote na sala de espera da Medicina Física e de Reabilitação, “de outro modo nunca mais nos largam...”
À época, isto passou-se por altura da minha segunda doença, sorrira interiormente da rusticidade da interpretação do homenzinho – como se os médicos tivessem algum gosto ou interesse pessoal em nos ver por lá constantemente!   
Eu já me habituara, constatava, palpando a disposição com que acabara por encarar tudo aquilo; satisfeito por ter, ao fim de meia hora, descoberto um sítio onde enfiar o carro, esquinado em cima de um passeio, perto da rampa de acesso à Urgência. O local não era seguro, estava ainda dentro da área, marcada a amarelo, de estacionamento proibido e passível de reboque, mas, do mal o menos, o próprio hospital tinha o seu serviço de rebocagem privado, o depósito dos automóveis apreendidos funcionava dentro da cerca da instituição e eu já ia conhecendo aquele pessoal todo, o que tornava a tarefa de recuperar o carro não muito difícil. Para além do mais, por ser doente crónico com uma incapacidade permanente superior a 70 % e, no futuro, dador do corpo à Ciência, pagava apenas uma taxa moderadora por cada apreensão.
Não era assim tão mau, pensava, enquanto revirava a cadeira de rodas para a tentar desencalacrar da mala do automóvel, onde o aro de uma das rodas tinha sempre tendência a ficar empancado. “Raios partam a cadeira de rodas”, concluía todas as manhãs, convencido que um dia tinha de me decidir a comprar um daqueles modelos modernos, completamente desdobráveis e automáticos, que se armam sozinhos como os batéis de emergência mal tocam a água do mar durante um naufrágio.
Tirei o pijama do saco de plástico do SNS que tinha pousado no banco de trás e, resguardado pela porta aberta, comecei a despir-me. Claro que já podia ter vindo de casa com ele vestido, mas, para ser sincero, inibia-me um pouco atravessar a cidade de pijama ao volante do automóvel. Não seria caso isolado, mas havia sempre alguém que se punha a mirar, num semáforo, numa bicha, de um lugar mais alto num autocarro de dois andares... Assim, preferia vesti-lo apenas no recinto do hospital, pois aí ninguém reparava.
O dia amanhecera quente e eu escolhera um pijama de fibra ultraleve, de tom azul claro, quase da cor do firmamento. Enfiei as chinelas, dobrei a roupa com todo o cuidado, guardei-a na mala do carro, verifiquei, mais uma vez, se tinha em ordem todos os passes informáticos para acesso aos Serviços e, sentando-me na cadeira de rodas, dirigi-me à ala das Consultas Externas.
Tinha consulta marcada em Otorrinolaringologia e, esperava, o processo talvez não fosse demasiado longo, embora fosse difícil afirmá-lo com total segurança, hoje não contava ficar internado e talvez conseguisse estar de volta a casa antes da noite.
“Depois avisa se vens jantar”, dissera a Penélope metendo a cabeça pela janela do carro, acrescentando, como era seu costume: “Tens a certeza que não te esquece nenhum dos cartões informáticos?”
“Não são cartões”, dizia-lhe, metendo a marcha-atrás, “vê se aprendes a chamar as coisas pelas suas designações correctas – são passes para Acesso Programado ao Sistema de Ganhos em Saúde...”  
Havia um magote de gente à espera de vez para o elevador que conduz à consulta externa e, concluí logo, não ia, apesar de estar em cadeira de rodas, conseguir vez nas três primeiras viagens: havia duas macas, muito pessoal hospitalar, dois tipos com as fardas negras da Agência de Acompanhamento dos Serviços de Saúde (os temíveis AASS) e vários doentes com o código de barras Gravidade IV aguardando. Não era um tipo com um ar de doente externo como eu que conseguiria prioridade.
Acabei por ter sorte, pois surgiu o enfermeiro Marley, um Angolano, que reconhecendo-me de uma estadia anterior no Serviço de Anatomia Patológica, simulou o truque de ir empunhando as pegas da minha cadeira de rodas enquanto, como não quer a coisa, me ia empurrando em direcção às portas escancaradas e cromadas do ascensor, ultrapassando mesmo um tipo acamado que teve de ficar para a próxima!
©Fotografia de Pedro Serrano, Tokyo 2005.
“Você não tem medo dos AASS?”, cochichei, fascinado pela descontracção.
“Não”, sussurrou-me, “eles não dão conta de nada, man – estão sempre noutra onda...” 
No 19.º andar, depois do reconhecimento da impressão digital e de tirar senha no distribuidor automático, arranjei um lugar na sala de espera, lateralmente à quinta fila em frente à televisão. Infelizmente ali só tinham televisão de circuito interno e passavam, em directo, uma cirurgia da válvula tricúspida, operação que, pese embora o doente ser sempre diferente, já estava saturado de ver, pois as intervenções cardiotorácicas são como as igrejas: quem viu uma, viu-as todas!
Quando me chamaram, atravessei a porta de vidro que dá acesso aos gabinetes médicos, mas não cheguei a entrar em nenhum, pois apareceu no      
corredor um tipo novo de lanterna na mão que me mandou abrir a boca.
Abri-a sem dificuldade, enquanto ele iluminava longamente o lado direito da minha garganta. Continuei, firme, de boca aberta durante uns minutos e embora me começassem a doer os maxilares não me queixei, pois já sei qual é, em geral, o temperamento dos médicos – gostam sempre de nos levar a melhor.
“Deste lado não vejo nada”, disse ele com ar enfastiado e desconfiado, “ora vamos lá observar o pilar esquerdo da amígdala...”
Voltei a escancarar a garganta, sujeitando-me à lanterna que ele aproximava perigosamente dos meus dentes. E, rapidamente, senti que, desse lado, fraquejava. Conseguia manter a boca aberta, mas o maxilar começou a tremer espasmodicamente com o esforço e em breve todo o meu pescoço abanava, num esforço que o médico identificou com facilidade.  
“Eu sabia”, declarou, “vocês encaram isto de ânimo leve, mas não é assim! Você tem uma faringite esfarelácea – provavelmente de etiologia terebintínica – evidente! Vamos confirmar…?”
E chamou um enfermeiro, a quem ordenou que me injectasse na veia um determinado produto alaranjado que ardia que se fartava.
“Era de esperar, estou até admirado que você não tenha desenvolvido isto mais cedo”, dizia ele folheando o meu processo clínico, “é sempre de contar com uma faringite após um tratamento prolongado com terebintina, ainda para mais aditivada!”
E o certo é que o gajo, como sempre acontece com os médicos enfiados em batas, tinha razão. Menos de dois minutos depois da picadela começou a formar-se-me na garganta, sobretudo no lado esquerdo, uma substância que, em catadupa, me encheu a boca e me ia engasgando e impedindo de falar.
“Está a ver...”, constatava o médico, zangado, como se eu lhe tivesse tentado ocultar algo, vou ter de chamar os cientistas... Era evidente, um caso como o seu!
“Se o Dr. acha...”, respondi cordato e afogueado, depois de introduzir dois dedos pela garganta abaixo para extrair da boca uma grande quantidade de uma substância amarelada semelhante a serrim, pó que guardei às escondidas nos bolsos do casaco do pijama.
O médico virou as costas e desapareceu, deixando-me, aflito, ao lado de um cinzeiro daqueles que ornamentam os cantos de todos os hospitais, sacando da boca sucessivas levas daquela serradura que não cessava de brotar das amígdalas.
Sem que me apercebesse, um auxiliar foi empurrando a minha cadeira de rodas para um enorme gabinete de luzes amortecidas, por onde, numa parede envidraçada, se percebia lá em baixo o movimento formigante da cidade.
Um médico de capa azul pelos ombros entrou na sala e sem dizer palavra apontou-me aos olhos aquilo que, à primeira vista, me pareceu um gravador, um daqueles pequenos gravadores que são activados pela voz, mas que, afinal, se revelou um potente foco de luz crua. 
Durante o processo, um segundo médico juntou-se ao primeiro. Este trajava um casaco verde-alface de mangas curtas e calças da mesma cor, atadas na cinta com um atilho branco. Do bolso do casaco penduravam-se-lhe várias canetas de leitura óptica, duas pen-drive e um conjunto de chaves de fendas. 
“Estás a ver?” disse o primeiro médico, esticando ainda mais a lanterna sobre as minhas pupilas.
“Humm...”, respondeu o segundo médico sacando de uma lanterna convencional que me apontou também à cara.
“Eles não se querem convencer”, disse uma nova voz, “julgam que tudo isto se passa sem consequências...”
Pelo intervalo entre os dois focos de luz consegui aperceber um terceiro médico, este também trajando uma capa azul, mas de melhor tecido e de corte mais requintado; um cabelo castanho brilhante e muito liso do qual uma melena lhe tombava sobre a testa, melena que empurrava para trás num gesto acariciador e afectado.
“Vocês não se querem mentalizar”, disse-me – reparando que eu o fitava atentamente – “não deixam de achar que de cada vez que cá entram foi a última... Mas eu conheço bem o teu caso...”, quase sussurrou numa voz que duplicava todos os erres, “fibrolinfancoma – tratado com terebintina aditivada –, seguido de obstrução e desabamento da cava profunda – tratada com croscarmelose sódica – que é que esperavas? É sempre de esperar algum crestamento, quanto mais não seja!”  
Recuei rapidamente para a atitude de extrema humildade, o último refúgio de qualquer doente perante uma investida médica, sobretudo de um cientista trajando uma capa com todo o ar de ser um modelo exclusivo Giovanni Brasa.
“E será muito grave, Sr. Professor?”, balbuciei.
“A faringite é um efeito secundário dos tratamentos anteriores, assim como do tratamento desta haverá, obviamente, a esperar algumas outras sequelas. Afinal é para isso que cá vens... Conheço bem o teu caso, foi mais que falado por esse hospital fora... É que nós encontramo-nos por aí, sabes?, nós, os médicos. E o teu caso... A dificuldade que a Neurocirurgia teve em perfurar a calote craniana, todas aquelas morosidades técnicas, o bloco operatório bloqueado uma manhã inteira..., ouviu-se dizer que deram cabo do denteado da serra Stryker... Uma Stryker!”
“Mas o meu seguro cobriu os danos no equipamento...”, retorqui em voz baixa.
Ele não deu sinal de ter ouvido. Deu-me duas palmadinhas na cara e sorrindo-me, mordaz:
“Nem mesmo um Professor Moreno, um Professor Caiado te poderiam livrar de uma faringite destas, meu amigo....”
“Nem mesmo na Clínica Juno?”, indaguei, mais para alardear algum conhecimento do mundo médico do que por possibilidade, ou sequer, intenção de o vir a tentar experimentar.    
Ele encolheu os ombros:
“Sabes qual é o tempo de espera para a Clínica Juno? Pelo menos dezoito meses para um caso como o teu... A não ser que tenhas lá conhecimentos...”, acrescentou irónico.
“Por acaso, assim de repente...”
“Então sejamos objectivos, deixemo-nos de fantasias e usemos o que temos à mão.”
E, estendendo-me um protocolo de ilibação de responsabilidade, iniciou a descrição do tratamento da faringite e os eventuais efeitos secundários do hidroxibenzoato de propilo. Assinei o protocolo e deixei o Serviço, esquivando-me, por uma unha negra, a um funcionário com a braçadeira cor-de-rosa do Observatório Para a Humanização dos Hospitais. Seriam, pelo menos, três quartos de hora de perguntas e contra-perguntas!
Consultei o relógio. Eram quase onze e meia da manhã. Hesitei no cruzamento de dois corredores... O que fazer: ir já ao laboratório tirar sangue ou aproveitar aquela hora para dar uma saltada ao Clinical Rest Longue do hospital, onde era permitido aos doentes consumir uma bebida entre as 11:30 e as 12:00?
Acabei por adiar a ida ao laboratório. Eu sabia que isso podia resultar na perda completa do dia, pois quando descobrissem que eu aguardava tratamento sem a etiqueta que comprovava o sangue já tirado era provável que me recusassem a admissão, com justa causa, na baia de tratamentos. Mas, por outro lado, talvez se esquecessem de conferir todos os formulários ou tivesse a sorte de dar com um tipo já saturado de verificar papéis. E, depois, o Rest Lounge... Enquanto a gente lá estava, quase se esquecia de tudo o resto, praticamente sentia-se como fazendo parte de tudo aquilo, quase como se fôssemos nós, doentes, a causa de toda aquela maravilha existir.
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SALVE RAINHA


Corria o ano de mil novecentos e oitenta e dois. O mês era o de Setembro e o sol rodava tangente ao mar num poente rápido e avermelhado que emprestava às coisas uma nitidez suplementar. Em breve seria noite.
No cemitério Prados do Eterno Repouso dois jazigos sofriam, mais que os restantes, o revérbero do sol declinante: o Jazigo Perpétuo da Família Ramos Lopes e o Jazigo do Comendador Grenha dos Santos, derradeiras moradas separadas pelos escassos três metros que permitiam a visão de uma alameda inútil, apenas conduzindo ao muro oeste do cemitério.
As cruzes funéreas que encimavam estes dois jazigos, porventura consequência das particularidades refractivas do mármore de Viana do Alentejo e do Lioz-encarnado, brilhavam com uma intensidade não desajustada a uma lâmpada de halogénio de média voltagem.
Prolongando o olhar na direcção Poente e mantendo o enquadramento criado pelo espaço que medeia entre os braços verticais das duas cruzes, deparavam-se os quatro andares do edifício principal do Instituto Nacional de Estudos Tropicais.
No quarto andar havia ainda duas janelas iluminadas, momento a momento mais recortadas no céu pela noite, que alguém familiarizado com as dependências da instituição identificaria como sendo as do gabinete do Director. E se esse hipotético personagem, que tão bem sabia apontar as dependências do instituto, conhecesse também os hábitos de trabalho do Director, poderia predizer, sem grande margem de erro, que o Professor Avocat se encontrava ainda sentado à sua secretária.
O Professor Edgar Avocat era um homem encaixilhável nos exageros de uma caricatura. O caricaturista poderia até, se não quisesse ter muita maçada com a obtenção de uma fotografia do próprio, utilizar como modelo a imagem de um mosquito, tal era a semelhança do Professor Avocat com este insecto.
Quando bateram à porta, o Professor estremeceu. Estava precisamente naquele ponto do devaneio em que a realidade envolvente é um cenário inexistente. Fora há tantos anos já..., mas, diabo, que melancólica ternura ainda lhe despertava ocupar-se com aquilo... Dançando com Sofia nas matinés do Casino, enlaçando-lhe a ténue cintura e sussurrando-lhe ao ouvido as palavras da música que a orquestra tocava e que ouvia como se fosse ontem, hoje: Nuestras almas se acercaron tanto asi, que yo guardo tu sabor, pero tu llevas tambien, sabor a mi... Os passeios pela praia, os beijos nas dunas, os dois embriagados por um benevolente nevoeiro que trazia do mar ecos de traineiras...
O seu entre despertou na mente do sr. Marinho, chefe dos serviços administrativos, uma ilação errada: "está mal disposto", pensou. Mas, de facto, o Professor Avocat estava incomodado por ter sido apanhado em adultério para com o seu dever de alto funcionário e a entoação da sua exclamação tinha a ver com a culpa e não com uma agressividade dirigida.
O sr. Marinho entrou, como de habitual, com um:
“O Senhor Professor perdoe o incómodo, mas trata-se de uma matéria que requer a sua opinião.”

Não faz mal Marinho. Sente-se, por favor, soprou do canto o Professor, procurando acomodar-se aos vincos do fato cinzento. O sr. Marinho sorriu:
“Prefiro falar com o Senhor Professor a esta hora. Já não está ninguém no andar e, para além de não corrermos o risco de sermos constantemente interrompidos, não se põe o inconveniente de nos poderem ouvir...”
E transmutou o sorriso para uma expressão de cumplicidade implícita, que lhe encheu de parêntesis os cantos da boca.
Diga, Marinho, retorquiu o Professor Avocat, que tendia o oscilar novamente para os braços de Sofia.
“É por causa da Teles...”
O Professor franziu o nariz interrogativamente.
“A Teles, a da limpeza do segundo-andar. Aquela que dá de mamar aos mosquitos...”
O Professor Avocat pareceu ignorar o gracejo e continuou a fitá-lo por trás do vidro dos óculos.
“Faz setenta anos em Dezembro. Apareceu-me a choramingar a dizer que não quer ser reformada, que o Instituto é a sua vida. Calcule o senhor que até me chegou a dizer que não se importava de receber a reforma e continuar a vir cá graciosamente, sem perceber nenhum salário!”
O Professor espantou-se: !?
“É verdade...”, o sr. Marinho oscilava a cabeça como um boneco articulado sobre um tapete de peluche no vidro traseiro de um automóvel.
Tentou arrancar dos despojos de Sofia uma lembrança qualquer da Teles. Pois, era a velhota que alimentava os Aedes..., e depois? Onde confirmar na memória um motivo antigo para tanta dedicação? O Professor desistiu: 
E você, que acha?
“Bem... Penso que não haveria inconveniente para o Instituto, talvez pelo contrário. Ela receberia a reforma e nós, por nosso lado, poderíamos afectar uma pequena verba, um suplemento mensal pelos mosquitos. A verdade é que no Instituto não há ninguém como ela para alimentar os bichos. O Senhor Professor lembra-se quando a Florentina a substituiu, nas férias dela? Os mosquitos iam morrendo todos. Dão-se bem com o sangue dela!”
Disso, o Professor Avocat já se lembrava. Até achara graça ao episódio. Que curioso! Porque seria? Chegara a pensar mandar estudar o sangue da mulher. Assentiu: 
Bem, Marinho, na generalidade concordo com a proposta. Trate você do que for preciso.
O sr. Marinho levantou-se visivelmente satisfeito, menos pela felicidade da Teles do que por se sentir irmanado na generosidade do Director.
“Gratos ao Senhor Professor. A mulherzinha vai ficar radiante.”
Tentou voltar a Sofia, mas sem êxito. Os mosquitos empestavam tudo. Suspirou ao vestir o sobretudo: O melhor era ir para casa comer a ceia da Julieta: 
Quarta-feira, céus – bacalhau espiritual!
2
A senhora Teles fora uma mulher alta, percebia-se isso na convexidade exagerada das costas, mas, por força da idade ou por uma necessidade crónica de subserviência, assumira a estatura da sua condição.
Aparecera no instituto, que então ainda não se libertara administrativamente da Escola de Higiene e Saúde Pública, no final dos anos 50. Necessitava desesperadamente de um emprego e insistiu tanto com o jovem sr. Marinho, administrativo encarregado da admissão do pessoal menor e pessoa pouco dada a dizer não, mas um tanto avessa às responsabilidades de um sim, que este acabou por levar o problema à peritagem do Professor Aloysio Lebre, o então director da instituição.
E revelara-se uma boa aquisição. A sr.ª Teles mostrara-se, desde o primeiro dia, uma óptima funcionária. Não só trazia o segundo-andar impecavelmente limpo, como se debruçou, sempre com respeito e sabendo guardar distâncias, pelos problemas quotidianos do andar.
Foi ela que se ofereceu para passar a alimentar os mosquitos, tarefa até então relutantemente desempenhada por um técnico superior de laboratório.
O director do Departamento de Vectores e Hospedeiros, dr. Emídio Napoleoni, ficou prazenteiramente surpreendido com a mudança, pois a colónia de Aedes aegypti pareceu duplicar no aquário de tela e as baixas semanais diminuíram substancialmente. Mas nem toda a gente tinha a mesma opinião. As colegas da limpeza resmungavam que ela se dava ares, não lhes agradava verem-lhe confiados desempenhos que a elas estavam vedados, mesmo que essas funções tivessem sido sistematicamente recusadas pelas próprias, como acontecera com a alimentação dos mosquitos. Às preparadoras não caía bem a postura respeitosa, mas distante, da sr.ª Teles e, sobretudo, detestavam o modo silencioso do seu trabalho, sem nunca tomar parte na má-língua inter e intra andares, e dos seus gestos ao aproximar-se, sem ser notada, das bancadas para pousar uma placa de Petri ou um suporte com tubos de ensaio.
A única coisa que parecia abalar a impenetrabilidade de mordomo da sr.ª Teles era o ritual de cuidar dos mosquitos. Nessas ocasiões transfigurava-se: os olhos doentes enchiam-se de ruguinhas e as mãos, magras e com unhas que ela mantinha longas e aparadas em bico, tremiam-lhe no prazer da concentração.
Uma manhã de Inverno, o termóstato da tina dos Aedes avariou-se e os mosquitos começaram a dar sinais de agitação e, em seguida, de torpor. A sr.ª Teles ficou transtornada, correu a chamar o electricista do Instituto e enquanto este apertava e desapertava parafusos, conservou-se nervosamente cirandando em torno da bancada. Logo que o termóstato ficou pronto, a sr.ª Teles, perante o espanto de quem se encontrava no biotério, meteu o braço na tina (apesar de não ser dia de os alimentar) e enquanto os mosquitos, sôfregos de frio, enfiavam a diminuta tromba na sua pele, ciciava diminuitivos carinhosos.
Dela dissera um dia o dr. Napoleoni:
“Há gente tão só na vida que até a mosquitos se afeiçoa.”
Este desabafo ouviu-se uma tarde na cantina, à hora do café, quando meia dúzia de funcionários, sem tema para conversa, se entretinham circularmente a explorar a excentricidade da "rainha dos mosquitos". Mas ninguém se quis pôr a reflectir sobre a solidão e o único efeito que o dr. Napoleoni conseguiu foi um reforço na convicção, mais ou menos generalizada, de que aquele sul-americano que viera ao abrigo de um acordo no campo da investigação e ficara pelo amor de uma latina europeia, era esquisito na sua sensibilidade tropical.  
3
O cinema Átila era um edifício com o toque arquitectónico patognomónico dos anos 30.
De dez em dez anos, quando a pintura se descascava outonalmente sobre os passeios e as árvores raquíticas da avenida, a gerência mandava que o pintassem com cores que alternavam entre o avermelhado de conserva de tomate e o cinzento-militarizado.
Acima das gigantescas letras rubras de néon, que desde o cair da tarde piscavam intermitentemente C-I-N-E-M-A ÁTILACINEMA Á-T-I-L-A, especava-se, ao nível dos telhados dos dois prédios que timidamente escoravam o cinema, uma pestana em betão de seis metros de altura, murete que o arquitecto resolvera ondulado e ornado com uma lira e umas folhas de louro. Um pouco recuada na fachada do edifício, a imperial pestana espetava-se no alto do cinema como uma travessa no penteado de uma espanhola.
Pouca gente saberia, talvez ninguém para além da gerência e das pombas municipais, que no telhado-terraço do cinema Átila existia, a coberto do pente-travessa ondulado, um pequeno apartamento com duas divisões. O apartamento fora originalmente concebido para habitação do vigilante da casa de espectáculos, mas o coração asmático do sr. Bela, funcionário daquela casa de espectáculos desde o seu começo, forçara-o a abandoná-lo, pois cinco andares sem elevador e uma filha divorciada com três rebentos era na realidade de mais para tal ninho de águias.
Na reunião do dia 6 de Janeiro de 1960, a gerência do cinema Átila lavrou em acta a decisão que o apartamento seria doravante arrendado a particular que reunisse a dupla condição de ser pessoa de respeitabilidade comprovada e só na vida, uma vez que não agradava à gerência a perspectiva de ter inquilinos barulhentos no terraço e, ainda menos, a ideia de escutar relatórios sobre crianças correndo pela escadaria abaixo ou sobre vagidos insinuantes na sala de projecção.
Uns três meses depois desta reunião, as duas divisões do terraço do cinema Átila foram alugadas a uma dama de meia-idade que trazia uma carta de recomendação assinada pelo serviço de pessoal do Instituto Nacional de Estudos Tropicais.
              S
Domingo, sete horas da tarde, já não há sol.
A noite, acolitada por bandos de nuvens sujas, instala-se, preenchendo de silêncio frio todas as frestas da cidade.
Virgínia Teles acabou de acordar de um sono sem sonhos, pesado, mas quase uma vigília.
Por entre o muro de cimento (do outro lado é ondulado e cinzento) e o telhado do prédio vizinho, vê um pedaço do asfalto da avenida e as árvores mirradas soluçando ao vento, o todo temperado pelo vermelho espantadiço do letreiro luminoso do cinema Átila.
Sob os pés adivinha ruídos abafados. A segunda sessão da tarde acabou, andam a limpar a sala. Tem visto passar tanta gente para o cinema... Todos os dias passa uma multidão por aquela sala. Como gostam do escuro e de que ele seja iluminado por frémitos... Dantes não havia cinema, as pessoas não se entretinham assim. Havia jogos, imensos jogos; era velha e tinha visto muitos jogadores... De cada gesto eles faziam um jogo, viciavam-se naquilo desde a tenra idade e assim esgotavam a vida, reproduzindo os esgares deformados apercebidos nos espelhos dos olhos dos outros... Detestava espelhos, era um mal de família. Sorriu... Tempos se tinham feito em poeira, mas tempos houvera em que duas raças dividiam a terra: os senhores e os usados. E os senhores acabaram por definhar, tal o sangue enfraquecera com o débil exemplo dos usados...
Por instantes fez-se silêncio na avenida. O nevoeiro escalava do rio as estátuas da cidade baixa.
A sr.ª Teles sentou-se na cadeira de balouço, espólio quase único de melhores épocas,  semicerrou os olhos. Suportava mal a luz, uma fotofobia hereditária fazia-a andar constantemente com os olhos vermelhos e lacrimejantes.
Agora era obrigada a pensar no futuro... Não confiava muito na longevidade do "suplemento mensal" pela alimentação dos Aedes aegypti. O sr. Marinho ficara tão espantado por ela querer continuar a ir ao Instituto depois de reformada. E dissera que o Professor Avocat também se mostrara surpreendido... Não, não podia esperar muito do suplemento, um dia iam-lhe dizer que já não precisavam dos seus serviços. A necessidade forçava-a a decidir-se. O que seria se esta fosse a última oportunidade?
Enfraquecia a olhos vistos, tornava-se dia a dia, sentia-o, mais transparente aos olhos vistos. Virgínia Teles sorriu de olhos e lábios no balouço silencioso da cadeira. A decisão pusera-lhe um fogacho quente a rodopiar no sangue. A "rainha dos mosquitos" iria, finalmente, possuir um mosquito à dimensão dos seus desejos.
4
Que extraordinário! 
O Professor Edgar Avocat regressou perplexo ao gabinete.
Estivera no Laboratório 3 até às seis e meia da tarde e ao passar pela porta do biotério, esfregando os olhos numa fé de que conseguiria afugentar as centelhas luminosas causadas por duas horas ininterruptas ao microscópio, acontecera-lhe olhar lá para dentro, pois a porta achava-se desusadamente aberta àquela hora.
Espantoso! Ela estava especada ao lado da tina dos Aedes, o braço esquerdo completamente estendido, hirto no ar, e olhava, com um olhar que lhe pareceu enternecido, para a chusma de mosquitos que lhe enegreciam o antebraço.
Irresistivelmente e porque a sua posição de responsável máximo daquela instituição lho permitia, entrou na sala para observar o fenómeno de mais perto. Obviamente ela dera pela sua entrada um tanto destemperada e virara-se lentamente, não parecendo, no entanto, preocupada ou, até, surpreendida.
Como é que consegue?, disparara-lhe, esquecendo de súbito a faceta de responsável máximo, como é que não fogem?
Pequeninas rugas vincaram os olhos dela, avermelhados por uma conjuntivite crónica, e um esgar dos lábios revelou uma fiada de dentes estragados e amarelados, onde apenas os caninos pareciam saudáveis. 
Serão postiços?, interrogou-se o Professor, ao mesmo tempo que ela respondia:
“Conhecem-me..., sabem que se os alimento cá fora é porque podem confiar em mim. Desse modo posso também confiar neles.”
O Professor estudou com admiração os mosquitos, tranquilos e imóveis no seu rito bissemanal de alimentação. Nenhum deles parecia ocultar a intenção de se pôr, de um momento para o outro, a voar pelo biotério.
Em silêncio, a sr.ª Teles baixou o braço lentamente e começou a introduzi-lo, com todo o cuidado, na manga de gaze que existia numa das paredes laterais da tina. Quando o seu punho fechado atingiu a parede oposta à abertura, enrolou com a mão livre a manga de gaze em volta do ombro:
“Vá, meus queridos, chega de sangue por hoje.”
Os mosquitos, como se obedecessem a uma ordem, largaram o braço e espalharam-se pela tina, colocando nódoas escuras no branco da gaze.
O encantamento quebrou-se e o Professor Edgar Avocat sentiu-se, de repente, pouco à vontade: 
Suponho que tem feito as análises de controlo com regularidade?
"Certamente", volveu ela levantando a atenção da tarefa de massajar o braço esquerdo, "está tudo normal".
Só se lembrou de recomendar cuidado com eles, olhe que qualquer dia fogem-lhe, já a porta do biotério se tinha fechado sobre a sua mão.
Que extraordinário!, repetiu o Professor antes de se deixar cair na poltrona e se entregar ao monólogo vespertino com Sofia.
Sofia amolecia-o sempre um pouco e por vezes, sobretudo no Inverno - como agora - quando as noites caíam abruptamente no meio da tarde, chegava a passar pelas brasas nessa indolência suave em que a realidade se esfumava e lhe era permitido passear fisicamente pelas paisagens queridas de outrora. Quando despertava desse transe, a memória vinha tão enriquecida em detalhes que podia viver feliz mais vinte e quatro horas dessas reservas, mesmo que com Julieta rezingando ao lado.
Sofia corria à sua frente, vestida de branco-leve, em direcção ao mar. Sorrindo, ele seguia-a num passo mais comedido, saboreando aqueles instantes. Ao chegar à areia molhada, a maré cheia começava a encolher, parara, voltara-se e chamou-o.
Edgar Avocat, o futuro investigador, estugou o passo pela duna abaixo.
O sol desaparecera além-mar. O céu impregnava-se de vermelho e as águas serenavam ao crepúsculo, chapeadas a ouro. Estava já próximo de Sofia, as tonalidades confundidas de céu e água tornavam-na quase etérea e enquadravam-na como se ela surgisse do vão de uma porta que de repente se entornasse em luz sobre um observador até aí no mais profundo breu.
Parou, inseguro, como se tivesse ido longe demais.
A luz materializava-se em finas partículas douradas que pareciam rodopiar na sua direcção, mas o cenário que o rodeava voltara a ser o do gabinete no quarto-andar do Instituto Nacional de Estudos Tropicais. A luz do tecto reflectia-se no vidro das janelas, transformadas em espelho pela noite e a face nos vidros correspondia à de um director de 63 anos de idade e não a um futuro investigador de 25 que se passeia pelas dunas.
A porta do gabinete estava entreaberta, porém fechara-a ao entrar!, e as partículas luminosas penetravam por aí. Progrediam rente ao chão no sentido da secretária e as mais próximas de si pareciam buscar uma agregação. Pensou em levantar-se, mas uma languidez desumana amortecia-o na poltrona. Deixou-se estar, os olhos semicerrados e um cavalo a galope no coração, fitando o contorno, momento a momento mais humano, que se ia erguendo na sua frente.
Sofia, poderia ser Sofia? Mas não tinha lógica, não deveria... 
Sofia, princesa...
Pouco tempo mais permaneceu como espectador e a última sensação de que teve consciência foi a de um bem-estar, ao mesmo tempo grato e amargo, que se lhe derramava vertiginosamente na corrente sanguínea.
5
A morte súbita do Professor Edgar Avocat abalou a rotina do Instituto, particularmente pelo facto de ter ocorrido no gabinete da Direcção, uma noite, a horas difíceis de precisar.
O Professor fora encontrado na manhã seguinte, esparramado sobre a secretária, por um funcionário do quarto-andar que estranhara as luzes acesas (ainda não havia uma semana que o Director, inspirado nas recomendações do Governo, gerara um despacho interno sobre a necessidade de se poupar energia) e a porta entreaberta.
O Professor Vice Roque, seguramente o mais prendado candidato a director, andou toda a manhã numa azáfama, parecendo confuso com tudo o que lhe estava a suceder. Examinara o cadáver com cuidado na busca de uma explicação para tão perturbante evento, mas não encontrara nada de anormal. Um cadáver perfeitamente incaracterístico, cujo único pormenor verdadeiramente saliente eram duas picadelas na parte antero-lateral do pescoço, plausivelmente produzidas por uma lâmina de barbear nova e irritadas por uma qualquer loção after-shave.
A causa da morte fora-lhe praticamente sugerida pelo tubo de pastilhas brancas para uso sublingual que descobrira no bolso direito do casaco do Professor Avocat: enfarte do miocárdio.
Em Março de 1984, no primeiro aniversário sobre o fatal acontecimento, a nova Direcção do Instituto promoveu uma sessão de homenagem, integrada no Dia Anual do Instituto, à figura e à memória do Professor Edgar Avocat, insigne investigador e zeloso administrador.
Presentes, o Secretário de Estado da Cooperação e dos Assuntos Tropicais, representando o Governo no luto e na homenagem, e os Directores-Gerais dos diversos Departamentos do Ministério da Saúde e da Ciência com que o Instituto habitualmente colaborava.
No cadeirão central da mesa de honra, Julieta Avocat ouvia distraidamente a comunicação do Professor Vice Roque, lamentando o tempo que ainda a separava da entrega da Medalha Por Serviços Distintos, cerimónia que se ia desenrolar entre o Secretário de Estado e a sua pessoa, na qualidade de herdeira universal de Edgar.
Forçou uma máscara de atenção na direcção dos papéis que o Professor Vice Roque agitava comovidamente e os seus olhos interiores focaram-se na recordação das primeiras horas da manhã, vividas no cemitério. Não teria podido deixar escoar aquele dia sem visitar Edgar de um modo especial. Por um lado, o primeiro aniversário da sua morte, por outro o reconhecimento público de que a memória de Edgar Avocat continuava bem viva.
Levantara-se cedo, ainda anoitecia, e passara pela florista antes de se dirigir ao cemitério onde chegou, com Inocência, às oito da manhã. Até às onze, hora a que se iniciava a homenagem, teriam tempo para tratarem do jazigo. Inocência levara artigos de limpeza e apetrechos de jardinagem para que fosse possível transformar a morada de Edgar, e um dia a sua, num tabernáculo festivo.
Na véspera, à noite, combinara com a velha criada as etapas do trabalho: primeiro limpariam a fundo o jazigo, incluindo-se nesta operação uma lavagem enérgica do chão; depois substituiriam as cortinas da porta e o debrum que orlava o bordo da prateleira de granito onde repousava o esquife. Finalmente, mudariam a areia e a água das jarras e colocariam as flores.
Enquanto Inocência se ocupava com os vidros, partira a mudar a água às jarras e a preparar as flores. A uns cinquenta metros do jazigo, quase no canto do cemitério e num terreno ocupado unicamente por campas, existia uma torneira com uma pequena pia de pedra por baixo, ao lado de um recipiente para lixo.
Lavou as duas jarras meticulosamente e, depois de as encher com água, colocou-as sobre a laje de uma campa vizinha para que não vertessem, pois o terreno era de saibro e um nada irregular. Sentou-se junto da torneira no banquinho desdobrável que trouxera e iniciou a decapitação das folhas secas, podando, em seguida, os pés das flores para que se adaptassem à altura das jarras. Quando Inocência chegou, estava a terminar o preparo das flores. Os caules das plantas, sobretudo os dos jarros, tinham-lhe manchado as mãos e, receando aparecer na homenagem com a pele dos dedos esverdeada, achou melhor pedir a Inocência que transportasse as flores. Ela trataria das jarras.
Inocência afastou-se, florida e entalando entre o braço e a cintura avantajada o banquinho dobrado, enquanto ela se deixara ficar a tentar, mais uma vez, tirar de si aquela viscosidade esverdinhada. À terceira tentativa e graças ao auxílio rude das arestas da pia de pedra, a incómoda tonalidade desvaneceu-se e Julieta aproximou-se da campa a fim de recuperar as jarras. Ao inclinar-se sobre a laje, um hábito antigo, nascido na necessidade de se distrair durante as monótonas e arrastadas praxes dos funerais, puxou-lhe o olhar para a lápide da campa:
VIRGÍNIA  TELES
1828-1899

Julieta Avocat suspirou ao pegar nas jarras. Era um tanto triste, mas era mesmo assim, a Humanidade estava destinada a perecer e ninguém escapava a essa sorte. Hoje uns, amanhã os outros; os ricos e os menos ricos. A morte a todos nivelava e até aquela pobre, que não merecera sequer uma derradeira inscrição do afecto de algum familiar, era irmã, nos desígnios insondáveis do Senhor, de Edgar.
Mergulhada nesta constatação balsâmica, Julieta Avocat consultou o relógio e afastou-se na direcção do jazigo.  

(1983/2010)

Fotografias de © Pedro Serrano: Porto, 2007 (primeira fotografia); Lisboa, 2010 (segunda fotografia); Lourinhã, 2009 (terceira fotografia), Mértola, 2008 (quarta fotografia). 


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CONTO DE NATAL

No Natal em que fez sete anos, Sara recebeu, entre outros presentes, um maravilhoso lápis.
Foi a prenda de que mais gostou. Deu-lho o avô, juntamente com umas meias cinzentas, tricotadas pela avó, e uns anõezinhos de chocolate forrados a papel de estanho e sorrisos todos tortos pelo calor que sofreram, junto à lareira, esperando que Sara acordasse. Foi também a única prenda que escolheu para revisitar à noite, a sós. Durante o dia o lápis esperou numa cestinha de vime, ao lado da cama, e Sara nem sequer olhou para ele nas várias idas ao quarto com os primos, a mostrar os presentes novos.
Era um daqueles lápis a que dificilmente se resiste quando vamos apenas comprar um tubo de cola. Enorme, de um redondo facetado em poliedro (como Sara via acontecer às batatas sempre que eram descascadas), metade azul e metade vermelho. O vermelho cheio de risquinhas paralelas e azuis, o azul cheio de risquinhas vermelhas e paralelas.
Semelhante a uma carta de jogar, na simetria e no mistério. O lápis não vinha com bicos feitos, o que lhe agradou. Conservava ainda as cores estancadas por duas medalhas douradas.
À noite, deitou-se e esperou que a mãe lhe viesse dar as boas-noites. A mãe ficou ainda cerca de dez eternidades, recordando a festa, os avós, os tios, os primos... Sara impacientava-se, evitando os olhares do lápis. Finalmente, a mãe saiu, apagando a luz e fechando a porta de mansinho, tal qual como no anúncio da televisão. 
Aguçando o ouvido para verificar os barulhos no corredor, Sara esperou o pedaço que estimou provável a uma última visita e acendeu o candeeirinho vermelho. A luz não seria notada pela frincha da porta e o quarto pintava-se com todos os objectos suaves e amigos. Tinha um pouco de medo de certas sombras.
Pegou no lápis e olhou-o devagar, a mão acariciando as risquinhas, levemente reveladas, como quem faria carícias a um esquilo. Ela nunca tinha visto nenhum esquilo (a não ser os dos livros do Pato Donald, mas esses não eram um esquilo, eram dois esquilos), mas imaginava-o assim como um urso de pelinho, embora mais magro e com um rabo mais viçoso.
Levantou-se. Precisava de um afia-lápis para desenhar uma árvore de Natal. Foi uma desilusão verificar que o lápis não entrava no buraquinho do afia - era muito grosso! O afia precisaria ter um furinho maior.
Voltou à cama um pouco triste, pois já não poderia desenhar essa noite a árvore de Natal azul. Sara decidira-se pelo lado azul do lápis; logo que o vira resolvera que iria aguçar primeiro o lado azul. Quando estivesse cheia do azul ou precisasse mesmo de mais uma cor, então afiaria o vermelho. No dia seguinte pediria ao pai que lhe aguçasse o azul; entretanto dormiria com o lápis, a árvore de Natal podia esperar. Dormiria com a luz acesa (embora soubesse que a mãe lhe ralharia depois) e com o lápis, não com o urso.
Meteu as mãos por baixo do cobertor e colou o lápis à barriga. Mas ali não sentia bem o lápis. Ia deixar que aquecesse um pouco na camisa de dormir (branca e com koalas cor-de-rosa) e então po-lo-ia na barriga, sobre a pele.
Ali o lápis estava melhor e Sara também. Carregou com ambas as mãos, até sentir a pele quase doer. Sentia-se feliz por o avô lho ter dado. Deslocou-o para cima até ao meio do peito, ali não ficava muito bem. Tinha osso por baixo, o lápis ficava levantado numa ponta. Fê-lo escorregar novamente. Ali também tinha osso por baixo, acabava por ser ainda pior.
Sara flectiu um pouco as coxas e descobriu que assim o lápis ficava melhor: em cima segurava-o com a mão, em baixo ficava apertado entre as coxas. Conseguiria prendê-lo entre as coxas sem ter de o segurar com as mãos? Era fácil, desde que uma das pontas ficasse colada ao rabo.
Apertou bem o lápis entre as coxas e estendeu-as lentamente. Estremeceu, como às vezes antes de adormecer. Voltou a empinar as pernas levemente, estendeu-as em seguida. Aah..., era fazendo assim que era bom e era a ponta dourada, a que estava encostada ao rabo, que a fazia estremecer. Com a mão esquerda fechada (Sara era esquerdina) agarrou o lápis pela fronteira entre o azul e o vermelho e experimentou roçá-lo no rabo, levantando-o e baixando-o devagarinho. Era melhor ainda.
Fechou os olhos, pensando em muitas coisas ao mesmo tempo: o Natal, as prendas, tanta gente em casa, a chuva lá fora, os primos, os anõezinhos de chocolate a derreter-se num sorriso, o pai amanhã a afiar o lápis. Quase sem dar conta, pois distraía-se com toda aquela corrente de assuntos, descobriu que podia também mexer o lápis para dentro e para fora. Não era só para cima e para baixo. Sentou-se na cama, para ver melhor. Puxou a camisa mais para cima e afastou as coxas devagarinho, não fosse o lápis escorregar, abrindo-as o mais possível. Via o lápis lá ao fundo, a sair do meio das coxas: conseguia ver o lado vermelho todo e ainda um bocadinho pequenino do azul. Se empurrasse com a mão, suavemente porque a dor era tão boa, ficava metade certinha lá dentro.
Ao pequeno almoço, ainda ensonada, a mãe a ralhar por ter aparecido na sala descalça, Sara esteve quase quase a pedir ao pai para lhe aguçar o azul; mas depois lembrou-se a tempo.  

© Fotografias de Pedro Serrano: Praia da Areia Branca, 2010 (primeira foto); Porto, 2008 (segunda e terceira fotos).
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NICOLE! (Uma história nojenta)


Hoje a Nicole cagou na banheira. Foi após o jantar, eu estava na sala, estirado no sofá, a ler confortavelmente um livro do Henry James e esticando de vez em quando o braço até ao chão para, sem que por isso tivesse que desviar os olhos da página, tomar na mão livre o cálice de whisky irlandês com que ia pontuando a leitura; quando, como ia relatando, rompendo o absoluto silêncio em que me achava imerso, me chegou aos ouvidos um som estranho, persistente, como proveniente de uma superfície a ser riscada.
Descansei o livro sobre o peito e escutei um pouco, tentando descortinar, por um processo de justaposição com o meu arquivo mental de sons, ao que aquele ruído poderia corresponder. É certo que não pensei logo nela, mas também não me sobressaltei. Era noite, estava sozinho em casa, mas há sempre a possibilidade de ouvirmos barulhos no meio do silêncio. Sei lá: um estremecer do motor do frigorífico, um trinco de postigo solto que vibra com o passar de um carro; uma vez estive até intrigado por mais de dez minutos antes de descobrir que uma arrepiante sonoridade, semelhando palha-de-aço a roçar metal esmaltado, era, afinal, provocada pelo arrastar da casca de um caracol que se passeava ao longo da vidraça da janela do escritório.
Mas aquele som, senhor de certa secura no timbre, não se esclareceu com esta primeira análise e, então, levantei-me, de livro na mão – o indicador  a servir de marca à parte onde tinha suspendido a leitura, caminhando pelo corredor e acendendo as luzes à medida que progredia noutros espaços da casa. O som vinha da casa de banho, percebi-o logo que passei junto à porta, mas ao inverter o sentido da patilha do interruptor e observar o espaço que se iluminou não vi, assim de imediato, nada que esclarecesse a minha curiosidade. Também é verdade que se acabámos de levantar o braço e a mão até um nível que ronda o do ombro, a plausibilidade de o olhar seguir a perspectiva aberta por esse gesto é porventura a mais frequente. Pelo menos assim o julgo e comigo assim aconteceu até o raspar se tornar de novo mais forte no campo de consciência e, então, o meu olhar foi puxado para um nível inferior.
Ela estava dentro da banheira, na metade mais próxima do ralo, e o ruído que me interrompera a leitura provinha do movimento das unhas das patas dianteiras sobre a fibra de vidro com que, hoje em dia, são moldadas as banheiras mais comuns.
O que Nicole tentava com esse esgravatar era, absurdamente, ocultar, cobrindo-as, fezes que destoavam no branco intenso da banheira. Mais do qualquer outro pormenor, nesse primeiro instante, chocou-me a incongruência dos seus movimentos, os quais, se produzidos num contexto que inclua terra ou areia sanitária, nos levam ao louvar do grande asseio dos gatos na resolução da situação pouco confortável que resulta de fazerem as suas necessidades, por assim dizer, em público; e, paralelamente, a discorrer sobre a inteligência prática de que são dotados, virtudes que, não raras ocasiões, vemos traduzidas em expressões sentimentais por parte de donos embevecidos. 
E afigura-se genuíno esse procedimento dos felinos domésticos se o defecar (também sucede com o urinar, mas a densidade do bolo fecal, por mais substantivo, sublinha melhor a demonstração) ocorre em terreno aberto ou até nas suas caixinhas de areia especial, mas como tudo se modifica quando nada há com que os pobres bichos possam cobrir os indecorosos resíduos! É quase doloroso presenciar essa incapacidade do animal e, sobretudo, assistir ao desossar de um comportamento que involui de algo que parecia alicerçado na inteligência e se manifestava de um modo tão ternamente antropomórfico, para um determinante arcaico, um esgar automático desprovido de sentido. 
Como, em ocasião posterior, confidenciei ao meu amigo Teodoro van Brizgarten, também ele senhor de um magnífico Persa e interessado nestas coisas da etologia, de tão estranhamente patético só me ocorria, à escala animal, o quadro em que, durante a cópula entre canídeos, o receptor decide avançar uns passos deixando o pobre remetente contorcendo-se nos aflitivos espasmos de uma ejaculação não apoiada.  
Fui arrancado a estas cogitações pelo odor nauseabundo que entretanto me agrediu as narinas e que acompanha a deposição recente de fezes de gato. É odor tanto mais terrível quanto mais temporalmente próxima se produziu a defecação e que se vai tornando mais tolerável à medida que as fezes vão secando e perdem a potência volátil inicial, mas, em qualquer circunstância, diria que “não é flor que se cheire”... É, na realidade, difícil caracterizar com exactidão a fedença do material fecal recente de um gato, uma mistura infeliz entre o já de si peculiar recender a fezes ao qual se acrescenta um perfume profundamente enjoativo, como o de certos frutos exóticos que povoam os expositores das ruelas de Hong Kong ou Banguecoque.
Foi assim que se me tornou clara a necessidade de acção como correctivo para aquela situação. Nicole tinha já saltado da banheira, pois considerava a sua missão de ocultação terminada e ali estava eu perante um diagnóstico que era preciso completar para, a seguir, definir prioridades de actuação e as estratégias a desenvolver para pôr fim ao perturbador episódio.
Em primeiro lugar, havia o problema 'cheiro' e eu sabia, de incidentes anteriores com Nicole e com T’ang, o seu predecessor, os pródromos de vómito que me assaltariam quando, forçoso era, me debruçasse na banheira para recolher as fezes, pois, e isso era uma evidência que se impunha sem necessidade de julgamento aprofundado, estava fora de questão abrir a torneira da banheira e esperar que tudo se resolvesse através de um milagroso dilúvio... Não, as fezes eram demasiado volumosas, demasiado sólidas para tal solução, a não ser que ajudasse ao seu fraccionamento com algum objecto que as tornasse passíveis de atravessarem os orifícios do ralo, mas isso, lá está, amplificaria de modo insuportável o odor da questão.
Eram três peças, duas delas semelhando no feitio pequenas salsichas de um castanho chocolatado (chocolate de leite, dado que o chocolate com um teor de cacau que ultrapasse os 70 % é de tonalidade praticamente negra) e perfeitamente moldadas nessa imitação de charcutaria, e uma terceira, aposta sobre as anteriores, com a mesma coloração mas uma consistência de puré de maçã, obviamente (pela posição cimeira e pela menor consistência) a última a ser expelida. 
Na emergência, trouxe da marquise a pá de plástico que uso para recolher pó e à casa de banho de serviço tomei emprestada a vassourinha de piaçaba que repousa dentro do vaso de porcelana por trás da sanita. Sentia-me um nada inseguro quanto à capacidade da vassoura para empurrar de forma eficiente a porção de fezes mal moldada para dentro da superfície da pá, o mais provável seria que ela se esbarrondasse e lambuzasse todos e cada um dos pelos da piaçaba, mas logo se veria, não podia ser tão pessimista a priori! Podia, ao invés, ter sorte, e empurrando a massa fecal por baixo – fazendo pressão sobre os dois segmentos moldados, conseguir afinal arrastar tudo, em bloco, para dentro da pá sem grandes sobressaltos. Há sempre um intervalo de incerteza em tudo o que se leva a cabo.
Já na casa de banho, ralhando em voz alta a Nicole que aparecera à porta atraída pelo cheiro que flutuava no ar, sentei-me na sanita a construir dumas mechas com papel higiénico retorcido, as quais introduzi nas narinas o mais fundo que pude.
“Sua feia”, invectivei-a numa voz fanhosa, “então não sabia ir à sua caixinha!? Má, quem é que é muito porca e má?”
As coisas, como tantas vezes sucede na vida, correram um meio-termo entre aquilo que temia e aquilo que desejava, isto é, não foi tão difícil quanto isso fazer deslizar as fezes para dentro da pá, embora a vassourinha tenha, no final do processo, ficado um tanto viscosa com os resquícios do terceiro poiozinho. 
Atirei com tudo para dentro da sanita, puxei o autoclismo três vezes e deixei uma pastilha desinfectante de WC-Tabs a borbulhar no fundo. Já na marquise, enfiei a pá e a vassourinha dentro do pequeno tanque de cimento, o todo bem afogado numa solução de lixívia perfumada.
A alma, porém, caiu-me aos pés quando, ao atravessar a marquise para regressar à sala, o meu olhar chocou com os domínios da Nicole. A tigela de água estava pela borda, o pires de comida atafulhado de biscoitos em forma de peixinho, mas a caixa de areia estava vazia e o plástico cor de rosa brilhava nu e acusador! 
Corri ao frigorífico e, com mãos trémulas de remorso, esventrei uma latinha de paté de salmão. Pobre querida, tão aflita, a caixa sem areia e eu a ralhar com ela! E, que tocante, o modo tão asseado como torneara a situação. Mais razoável do que eu! Oh, quanto mais...
“Nicole”, chamei, comovido, a lata de paté numa mão, o telemóvel na outra. Ela lá veio, do fundo do corredor, trotando nas suas pantufinhas de pelo branco, o guizinho dourado da coleira soando argentino como o trenó do Pai Natal.  
“Teodoro, espero que estejas sentado! Tu nem imaginas o que acabou de me acontecer...”, disparei mal ele atendeu.

(Novembro, 2002)
© Fotografias de Pedro Serrano. Mia,  2006 (segunda foto) e 2007 (foto acima).

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TUDO SE ARRANJA

© Fotografia de Pedro Serrano: Baixo Alentejo, 2008
J'habite seul avec maman
Dans un trés vieil appartement
Rue Sarasate
J'ai pour me tenir compagnie
Une tortue, deux canaris
Et une chatte.

Charles Aznavour (“Comme Ils
   Disent”)

Passou-se por altura do Natal e isso explica muita coisa, já vão perceber. Acabara de me separar da minha mulher e atravessava um deserto de profunda melancolia. Nesse fim de dia vi o meu filho partir pela primeira vez, sobraçando uma malita de roupa, para passar uns dias com a mãe.
Quando o carro arrancou fiquei no meio da rua a acenar até o ver desaparecer na esquina e voltei para casa, uma lágrima atrevida ao canto do olho. Lá dentro instalara-se um silêncio de tumba e percorri todas as dependências como um autómato, apanhando um ténis no meio do corredor, recolhendo uma revista escancarada no banco da casa de banho e, após dobrar uma camisola que jazia de braços abertos sobre a escrivaninha, apaguei a luz e fechei a porta do quarto dele.
Ainda era cedo para jantar, mas não para cozinhá-lo. Abri o frigorífico à procura de inspiração, o olhar focando e desfocando-se no seu recheio, a mente perdida noutros pensamentos, o meu interior tão desolado como o besugo que me retribuía o olhar na prateleira de cima. Bati a porta, que se fechou num silêncio amortecido de borrachas.
Não, não ia ficar em casa; não tinha alento para decidir o que comer, para cozinhar para mim próprio e, depois de tudo pronto, para me sentar à mesa em frente a mim próprio, como um vaso que está a ser regado sem saber porquê. Iria jantar fora, a qualquer lado. Olhei o relógio. Sete menos dez. Ainda muito cedo, demasiado cedo – quem é que me dava de jantar a uma hora daquelas? Em qualquer lado onde entrasse ia encontrar os empregados sentados perante o seu próprio jantar. Não era bonito ir arruinar-lhes a vida só porque a minha estava à deriva. Sentei-me na sala de estar, na borda do sofá, a folhear um jornal atrasado como se estivesse na sala de espera do dentista. Às sete e meia vesti o sobretudo, pus um cachecol e saí para a noite gelada com uma pose de grande iniciativa.
A sala do restaurante estava, com excepção de um tipo com sequelas de caixeiro-viajante, deserta. Sentei-me, olhei o menu e na secção “sabores dos nosso mares” flutuou-me na memória o olhar resignado e solitário do besugo. Encomendei uma sopa e meia-dose de pato à antiga. O empregado trouxe uma garrafa de água, deixou sobre a mesa um cesto de pão, manteiga, paté de sardinha e desapareceu na porta da cozinha. Na outra ponta da sala o outro cliente continuava a folhear catálogos.
“Devia ter trazido um jornal ou uma revista”, pensei. Ser-me-ia útil para passar o tempo ou para me esconder se aparecesse alguém conhecido que pudesse ficar tentado em se sentar na minha mesa...
Tirei o telemóvel do bolso e entretive-me a percorrer as últimas mensagens que tinha recebido, para duas delas fui rever, nas ‘mensagens enviadas’, as respostas que dera. Uma das mensagens do dia era da minha prima Gabriela que, de Braga, me perguntava:
“Kuando vens cá cima? Tmos saudads tuas.” 
“Sei lá! Natal, tlvez.”
Achei a resposta estúpida, apeteceu-me dar um sinal qualquer de temperatura mais morna. E por não saber o que dizer, por não ter nada a dizer, por as bolas coloridas e as pinhas douradas no balcão, o ramo de azevinho em plástico em cada uma das mesas me sublinharem com crueldade que já estávamos em pleno desvario natalício, carreguei na tecla de ‘mensagem nova’ e martelei no teclado versos de uma velha canção de Natal:
Ó bom pinheiro, ó bom pinheiro
Pinheiro do Natal.
E no Inverno, és só tu
Que brilha quando tudo é nu
Ó bom pinheiro
Depois abri a lista de ‘contactos’ e percorri com o olhar os nomes que surgiram nas letras ‘F’ e ‘G’. Lá estava o nome dela... Nesse mesmo instante ouvi ranger a porta de vai-vem da cozinha e vi surgir o empregado com um prato de sopa a fumegar. Devia ser o meu creme de couve-flor. Despachei a mensagem e carreguei na tecla ‘enviar’. E mal o fiz, o meu cérebro inteiriçado acordou, acelerou-se e, num único vislumbre, percebi o que acabar de fazer e imaginei até algumas das suas possíveis consequências. O que até aí eram peças soltas, isentas de sentido, pareceu cristalizar-se de repente como um acontecimento de monta! Ainda pensei em desligar o telemóvel (não, isso não serviria para nada), em abrir febrilmente a tampa e arrancar a bateria, mas não tive tempo para que tudo isso ultrapassasse mais do que o pensamento. Eficiente e frio, o telefone confirmou: “Gabriel (carp) – mensagem entregue”.
Ao longo de dez anos, a minha mulher e eu recorremos algumas vezes aos serviços de um carpinteiro da vila, sobretudo para a manufactura de peças de mobiliário: prateleiras, pequenas estantes, mesinhas. De facto, o homem é mais marceneiro do que propriamente carpinteiro e recusa trabalhos que o arrastem para fora da sua oficina, limita-se a entregá-los depois de prontos na morada dos clientes. Para além de cumprir os prazos que acordava, fenómeno raro entre carpinteiros e electricistas, tinha a qualidade de ser capaz de seguir com sensibilidade a ideia do cliente e produzia um produto final bem acabado em todos os detalhes. 
Cruzava-me com ele quase diariamente numa das ruas ou num dos cafés do centro da vila, mas quando tal não acontecia e precisávamos dos seus serviços, passava por casa dele. Morava com a mãe na parte antiga da vila, perto do castelo, numa casa de altos muros esboroados onde se cruzavam trepadeiras e gerânios. A zona do castelo é a parte mais sossegada da vila e parece que entramos noutro tempo se lá vamos. Ali não passam automóveis e para se chegar é preciso subir uma rua estreita de calçada em calcário claro, ladeada por vetustos pinheiros de copa redonda e macia.
O portão da casa é largo, de madeira reforçada por chapa ondulada, protegido por um telheirinho e não há campainha. A rotina era dar três pancadinhas de aviso na chapa e, ao mesmo tempo, puxar a ponta do cordel que atravessava a chapa para soltar o trinco e ir penetrando no pátio.
“Senhor Gabriel...?”
É sempre a mãe que atende, anunciando a sua existência numa interjeição aguda e logo surgindo na figura de uma velha pequenina, sorridente, que chamava no mesmo timbre agudo:
“Gabriel, está aqui um senhor à tua procura...”
O Gabriel é um daquele tipo de pessoas esculpido pela pachorrência e tudo nele, desde o discurso pausado que parece ser causado por uma língua demasiado pesada, ao modo como se move, tem uma característica lânguida. Recordo uma tarde em que entrei na Junta de Freguesia, mais ou menos em simultâneo com ele, e de ter reparado no andar com que subiu as escadas à minha frente, alçando os calcanhares à vez e movendo as ancas numa amplitude e num ritmo todo feminino.
Tão só anunciava a nossa presença, a mãe regressava aos seus afazeres com um gorjeio e um “ele já vem” Enquanto escorriam os três ou quatro minutos que necessitava para interromper o que estava a fazer na oficina para além do pátio e me atender, eu demorava os meus olhos naquele pátio folgado onde, no pedaço de chão iluminado pelo sol que escapava ao toldo da videira que o cobria, tostava uma gata, zebrada de mel e negro como uma abelha. 
Por cima do gato, na parede caiada onde o sol pintava manchas de luz voláteis, pendurava-se uma profusão de gaiolas de madeira, cada uma delas contendo uma família de aves canoras nas quais eu só conseguia identificar os canários e os periquitos.
E então, arrancando-me à observação dos pássaros e daquele espaço idílico pejado de vasos de flores e de avenca, aparecia o Gabriel no seu passo lânguido, na sua pose mole, esboçando um sorriso e olhando-me dos seus óculos de míope que lhe transformavam a face num aquário onde ondulava um par de olhos azulados e mansos. 
O empregado pousou a sopa à minha frente, avisou que estava muito quente e desejou-me bom apetite. Meti a colher no prato e estava a arejar o líquido cremoso em movimentos circulares quando ouvi o sinal sonoro de mensagem a chegar. Olhei em volta cautelosamente, peguei no telemóvel e espreitei o ecrã:
“Lindo, se me queres nu com a tranca do pinheiro, diz. Tudo se arranja.” 
(Dezembro 2001/Abril 2010)
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BIKINI


A
Foi à porta de um restaurante em Viseu, aguardando vez por mesa, que fixámos o princípio.
Dois dias antes, na consulta do obstetra, ao entregarmos o envelope fechado contendo as imagens e o relatório da ecografia, ficáramos a saber. O médico consultou os papéis com rapidez, mirou-nos com o sorriso satisfeito de quem possui algo que não tínhamos e perguntou:
 “Estão interessados em saber se é menino ou menina?”
Virámos a cabeça um para o outro e o que vi no olhar do Alberto permitiu-me responder com segurança:
“Sim…”
“O feto é do sexo feminino…”, divulgou o médico, estragando a magia da anunciação com a sua linguagem fria.
Para comemorar a novidade do ser que iríamos acolher e após combinarmos que, para já, não revelaríamos o facto a mais ninguém, decidimos fazer um fim-de-semana fora de portas. O Outono chegara à cidade, chamuscando de vermelho as raras árvores do condomínio e Alberto, que em pequeno passara férias grandes numa quinta lá perto, propusera:
“E se fôssemos até Viseu? Já imaginaste como deve estar bela a paisagem?”
Pareceu-me perfeito. O sítio, a partilha do segredo, o frio que se começava a sentir. Apetecia-me tirar a roupa de Inverno do guarda-roupa do quartinho interior, usar cachecol, luvas, apreciar o cair de um casaco comprido. Penso que tinha a ver com o facto de a bebé ir nascer em pleno Inverno.
É claro que acabou por ser impossível arrancar em completo anonimato: foi preciso encarregar alguém de ir diariamente ao apartamento despejar no aquário da Pitosga, a nossa tartaruga maldisposta, uma tampa do frasco que contém o camarão liofilizado de que se alimenta.
“Vão para Viseu?”, inquiriu, entusiasmado, o Chico Zé, o nosso vizinho do 4º D. “Têm que, absolutamente, ir experimentar o Trave Negra. Já decidiram onde vão ficar…?”
“Francisco…”, censurou a Angélica com o ar de quem percebe para além das palavras, “não vês que eles querem estar sós, que vão festejar alguma coisa? Lê-se-lhes na cara… De qualquer modo”, acrescentou, “é forçoso que vão ao Trave Negra. Come-se divinamente…”
“Di-vi-na-mente”, reforçou o Chico Zé. E, se ainda não sabíamos onde ficar instalados e como eu, poeticamente, confessara que me apetecia ver os tons do Outono, recomendou o Grão Vasco.
“É perfeito para o teu estado…”, disse, condescendente, como se todas as palavras que pronunciei, à saída, no hall deles, fossem desejos de grávida impossíveis de ignorar ou contrariar, “o ambiente é caseiro, é um sossego de hotel, tem um arvoredo imponente nos jardins… Ao lado há um parque fabuloso, com carvalhos seculares…”
E pouco depois, quando regressou do 4.º D de ir deixar a nossa chave e o camarão liofilizado, o Alberto trazia na mão um mapa de Viseu e um pedaço de papel com o número de telefone do Hotel Grão Vasco.
“Ele pensa que devíamos reservar quarto antes de arrancar, diz que pode estar cheio…”
“Achas?”, perguntei, algo incrédula: “Viseu?, em Outubro?”
Acabámos por marcar acomodações antes de batermos a porta de casa, precaução que se revelou inútil pois o hotel estava maravilhosamente às moscas, as lareiras da sala de jantar e da sala de estar já acesas, temperando o ar com um suave odor a fumo e um crepitar reconfortante.
No Sábado, depois de pedirmos na recepção informação sobre o trajecto, metemo-nos no automóvel para ir em demanda do famoso Trave Negra. Por mim teria ido a pé, mas o Alberto insistiu no carro: preocupava-o o frio, os seus efeitos sobre o meu “estado fisiológico”, o empedrado do piso da cidade antiga, o receio de alguma queda…
“Devíamos ter reservado o restaurante, em vez do hotel…”, comentei à entrada, ao depararmos com uma sala absolutamente à cunha.
Um homem baixo, de bochechas rubicundas, avançou na nossa direcção a esfregar as mãos, penso que de satisfação por a casa continuar a encher. Assegurou-nos que, o mais tardar, dentro de dez a quinze minutos nos arranjaria “uma mesinha” pois tinha sob mira um casal que já pedira “o café e a contazinha”.
O Alberto olhou para mim, eu olhei para ele, concordámos que quinze minutos era razoável. O gerente saltitava à nossa volta, inquieto com o nosso colóquio, propunha que tomássemos um aperitivozinho enquanto aguardávamos. Analisei com desconfiança os maciços e altos bancos encostados ao balcão, os quais, na sua madeira escura, no couro e pregos amarelos do assento, pareciam saídos de masmorra medieval. O Alberto, adivinhando os meus pensamentos, informou o homem que esperaríamos no carro:
“Está estacionado mesmo do lado de fora da porta”, informou. E para acalmar a ansiedade do gerente perante uma hipotética fuga sugeriu: “O senhor podia, talvez, emprestar-nos um menu – íamos escolhendo enquanto esperamos.”
“Perfeitamente, perfeitamente”, volveu o outro, tornando a esfregar as mãos de contentamento. “Eu mando já o rapaz ao automóvel com a listazinha…” 
Passados mais de quinze anos sobre essa tarde ensolarada e friorenta já não o posso garantir com absoluta segurança, mas penso que o tema surgiu a propósito do “coelho guisado à Ermelinda”, um dos pratos do dia desse Sábado de Outubro.
“E se lhe chamássemos Ermelinda?”, propus, brincando, uma vez que, na véspera, durante a longa viagem até Viseu, encetáramos o assunto de que nome dar à tenra visita que vinha aí. 
“Ermelinda!?”. O Alberto, fascinado pela hipótese da perdiz estufada com carqueja, não percebeu a origem da piada, levou-me a sério.
“Sim”, continuei, “em homenagem a esta viagem ao Portugal profundo acho que devíamos escolher para a menina um nome condizente, histórico: Hemengarda, Urraca, Rosinda, Belmira…”
Ele fechara o menu e olhava-me, horrorizado, como se, de súbito, tivesse deixado de reconhecer a mulher com que, perante uma igreja a abarrotar de testemunhas, jurara partilhar a vida.
“Estou a brincar, tolo, ou achas que ia querer pendurar no destino de uma inocente, recém-chegada ao planeta, um nome tão pesado como os bancos do Trave Negra?”
Ríamos ambos, quando ouvimos duas pancadinhas no vidro embaciado. A cara do gerente foi surgindo por planos à medida que o Alberto ia dando à manivela do vidro:
“A mesinha dos senhores está pronta…”
Acenámos em concordância, eu abrira a porta, preparava-me para sair do carro, mas eis que o Alberto, retendo-me com firmeza o pulso da mão que segurava o puxador e pousando a outra na minha barriga, pediu:
“Promete-me uma só coisa: qualquer que seja o nome que venhamos a escolher para ela vamos decidir já aqui que será simples, leve e, se possível, curto…”
Apesar de todos estes antecedentes, a linda e rosada bebé que ia dando cabo de mim com os seus três quilos novecentos e sessenta gramas e a sua avantajada cabeça, passou mais de uma semana privada de nome, quase se arriscando a eternizar-se como “ela” para aflição dos avós.
“Julguei que tinham decidido isso logo no início da tua gravidez”, censurava a minha sogra, inclinada sobre o berço, “tenho uma ideia do Alberto me ter assegurado que durante um fim-de-semana na Guarda…”
“Viseu, mãe”, emendei, “foi em Viseu e não ficou nada decidido, apenas uma…”
E calei-me, aproximando-me do berço com rapidez, pois ela saltara já do assunto e preparava-se para pegar na bebé tão tranquilamente adormecida.
Nessa noite, depois de empurradas todas as visitas porta fora, com a leve apreensão de quem vai tomar uma decisão definitiva, simpática mas irrevogável, fui ter com o Alberto à sala, onde o encontrei sentado no canto do sofá, sob a luz do candeeiro de latão, folheando de testa enrugada o Prontuário Ortográfico.
“Estava aqui a ver se me inspirava…”, recebeu-me, um pouco embaraçado, como se o tivesse apanhado a espiolhar uma lista de classificados, “sabes que a maior parte dos nomes são enormes? Não há assim tanta escolha em nomes curtos…”
Às onze da noite a bebé chorou com fome, pontuando as nossas opções de Graça, Ana, Inês e Paula. Perto da meia-noite deixáramos cair Graça, uma vez que, embora se afeiçoasse a um belo diminutivo (Gracinha, concordávamos, era uma doçura) aquele “r”, entre o “g” e o “a” arranhava um pouco. À uma da manhã, quando Alberto regressou de ir verificar se a menina respirava durante o sono, estávamos indecisos entre Ana e Inês. Deitámo-nos satisfeitos por termos finalmente decidido que Inês era mais bonito e mais condizente com as feições dela, mas, às três e meia da manhã, o Alberto acordou-me, angustiado, para saber a minha opinião sobre a hipótese de recuarmos na decisão e ficarmos antes com Ana.
“Ana é bonito…”, concordei meio estremunhada.
“Achas mesmo? Ana o quê? Ana Maria? Ana Sofia?”
“Ana, querido, só Ana! Decidimos que seria um nome pequeno e simples”, respondi, dando duas pequenas pancadas na travesseira para a moldar à minha cabeça sonolenta que se soerguera para espreitar a meni…, a Ana.
Mas a Ana revelou uma economia nominal ainda mais apurada do que a nossa e onze meses depois, ao começar a pronunciar, com uma competência e dicção espantosa, as primeiras palavras escolheu para sua própria designação uma palavra ainda mais curta: 
“Ni”, dizia ela ao colo do pai, esticando um indicador gorducho na direcção da imagem reflectida no espelho da casa de banho.
Dois anos depois, após nove meses de atenta e gradual preparação para o irmãozinho que vinha aí, partilhámos com ela:
“Vai ser um maninho, Ni, um menino, e vai chamar-se Guilherme, Gui-lher-me, como o vovô…”
De toda esta campanha de mentalização nunca ela deu sinal de recepção, apenas, de longe a longe, perguntava se ainda faltava muito para chegar o bebezinho e, quase todas as noites, insistia em deixar umas colheres de sopa no fundo do prato “para o mano não ter fome”. Ao, finalmente, ver o irmão, Ni observou-o com profunda atenção durante um longo momento e, sem nunca o ter pronunciado anteriormente, pousou ao de leve um polegar moreno na fronte translúcida do bebé e, muito séria, comunicou-nos:
“Gui!”
B
“Ni…?”, chamei num tom de voz que me soou sumido, próximo do nível de esperança zero, ao mesmo tempo que com o nó dos dedos dava duas pancadinhas discretas na porta. Esperei o tempo que me pareceu razoável, voltei a bater, tendo o cuidado de manter a intensidade da batida na madeira e a precaução de elevar o nível da voz apenas o suficiente para poder ser ouvida e este não vir a ser, de algum modo, classificado como um chamamento irritado ou impaciente.
“Ni…?”
“Podes entrar, mãe, está aberta…”, chegou-me lá de dentro a autorização, dada num acento entre o exausto e o exasperado.
Estava deitada na cama, de barriga para baixo, as pernas levantadas, os pés descalços, esfregando os tornozelos um no outro. Não levantou a cabeça um milímetro da ocupação frenética de compor uma mensagem escrita no telemóvel que lhe oferecêramos uns meses antes, no dia em que fez quinze anos.
Ni mostrara-se radiante com o presente; ao descobrir que a ideia partira de mim, abraçara-se exuberantemente ao meu pescoço num “adoro-te mãe” e durante algumas semanas senti que aquele objecto nos aproximara. Até que, a pouco e pouco, numa dedução amarga e numa nuvem de perplexidade que tardou a adelgaçar como uma névoa soturna, me dei conta que ela, com a incrível facilidade com que dominara as possibilidades do novo brinquedo (eu apenas sabia utilizar o meu como um vulgar telefone!), escolhera um toque especial para assinalar as chamadas que provinham do telefone de uma pessoa específica: eu! 
Não, não era por distinção amorosa, eu já perdera essas ilusões havia séculos: era um sinal de alerta, um equivalente de “é a chata a controlar-me”. As nossas relações, num abismo onde me perdi e em que foi inútil procurar nexos, resvalaram sem aviso para uma aspereza sem nome; tive que fazer sérios esforços para me convencer que ela não me odiava, não me preferia ver desaparecer da vida dela, “for good” como dizem os ingleses. Mas, no tumulto aflito e descompassado do coração, tentava manter levantada a cada vez mais esfarrapada bandeira do “isto há-de passar”, do “compete-me a mim aguentar esta guerrilha de cara alegre”. E, ao mudar a flor que, em cima da estante da sala e dentro de um solitário, mantinha ao lado da fotografia da minha mãe, os olhos enchiam-se-me de lágrimas ao recordar o eco perdido das suas palavras: “Um dia perceberás o que é ser mãe…” 
No meio deste deserto, Alberto estava longe de ser um oásis ou, simplesmente, uma sombra protectora da minha angústia. Continuava, numa cegueira irracional, a vê-la como a sua “pequenitinha”, estou certa de que não me acreditaria se lhe contasse que a sua pequenitinha fumava como gente grande e bebia demais aos sábados à noite. E nem estremeceu quando Ni, deveria andar pelos seus doze, treze anos, decidira desistir do ballet.
“Mas porquê, Ni”, tentava perceber, “costumavas adorar aquilo…”
“Sim, mãe, mas já não adoro – acho uma seca! Tu é que tens essa mania de que eu deveria ser bailarina…”
Acabrunhada, relembrava, como uma coisa que deixou de ter préstimo, as dezenas de tardes que nos últimos sete anos gastara a levá-la e trazê-la da Escola de Artes. Um pormenor que se deita ao lixo…
“Sabes o que eu ando agora a pensar aprender?”, declarara mais que perguntara poucas semanas depois do abandono do ballet, “bateria ou baixo eléctrico – ainda não resolvi…”
Foi a gota de água. Desesperada, expus todos estes factos a Alberto, como sinal claro de que algo muito estranho, grave, se estava a passar para além da testa daquela menina. Com leveza, o pai desdramatizara:
“Então, que queres? Encheu-se da dança… E, reconhece, que aquilo do ballet foi muito um entusiasmo teu: tu própria dizias ser o teu sonho em menina, que a tua mãe contrariou esse desejo…”
“Mas bateria, Alberto? Baixo eléctrico?”
“E depois? Que tem? Olha, quem me dera ter aprendido baixo eléctrico! Deixa correr”, aconselhou, encolhendo os ombros: “é da idade, há-de passar-lhe…”
Agravando o alheamento do meu marido, adicionava-se-lhe a descoberta paralela de um Gui, agora um rapazinho, com quem andava encantado: as afeições gémeas pelo futebol e pelos, imagine-se, Beatles!, a juntarem-nos; fazendo-o remoçar.
Sozinha, navegando à vista no meio da cerração, havia dias em que me convencia que o sol ia brilhar, que a terra firme, e não o fim do mundo, estava, enfim, ali em frente a nós. Mas, em outros, tropeçava, sem preparação, nas águas geladas da rejeição mais brutal.
“Mãe!, tira a mão, pode estar alguém a ver-nos!”, mimoseou-me Ni um dia em que, no final de uma reunião para encarregados de educação, esperei por ela à saída do liceu e, orgulhosa por ver aproximar-se a elegante e bonita silhueta da minha filha, a recebera com um beijo e lhe passara a mão ao de leve pelos cabelos sedosos. 
“Ni…”, interpelei-a a medo do limiar da porta, “vou sair. Às cinco e meia tenho que passar no colégio a pescar o Gui, mas antes vou às compras, vou tentar comprar um fato de banho. Sabes, aquela ideia do pai de irmos este Verão para o hotel em Espanha? Pensei que, talvez, também quisesses ir…, outro dia falaste-me que tinhas visto uns bikinis bonitos…”
Algo a fez levantar a cabeça do ecrã do telemóvel e durante longos segundos ficou a olhar-me, os grandes olhos cor de mel fixando-me em total inexpressividade. Depois perguntou, cautelosa:
“Achas que consegues arranjar o fato de banho que precisas para ti no For You…?”
“Podemos sempre tentar, não achas?”, respondi, sem fazer a mínima ideia do que era, ou onde era, isso do For You.
“Fixe!”, exclamou ela, pondo-se em pé de um salto, “bué da fixe…”
C

“4 U: For you. Que burra!”, elogiei-me, após cruzar o semáforo da avenida, ao mergulhar no ventre de baleia que era a rampa para o parque de estacionamento do mais recente shopping-center da cidade.
É óbvio que estava cheia de passar por ali, reparara até na loja, pois uma das montras dá para a avenida principal e a sua decoração de cores minimalistas, as roupas extravagantes que vestiam os manequins decapitados expostos nas vitrinas, davam nas vistas. Aquela estética arrepiava-me um pouco, lembrava-me, até, de uma tarde, comentar com a Angélica:
“Meu Deus, o que irá nas cabecinhas da gente que é atraída por isto…”
E a figura que fizera durante todo o trajecto, informando uma Ni em estado eufórico que teria que me ir indicando o trajecto, pois eu não fazia a mais pequena noção onde era esse For You…
“Sabes, mãe, claro que sabes! É no shopping novo, onde era dantes o cinema velho…”
O cinema velho! O cinema velho fora um respeitável e emblemático edifício da cidade onde, muitas vezes, passara com Alberto matinés de namoro. O anúncio da sua demolição escandalizara as pessoas, criara-se uma cadeia de simpatia activa pela sua conservação, circulara uma lista de apoiantes pelas lojas e cafés da cidade, dique ardilosamente pulverizado pelos promotores do empreendimento ao darem o nome do velho cinema ao shopping e ao anunciarem que o novo espaço abrigaria oito modernas e confortáveis salas de cinema! 
“Não estou a ver, Ni”, insistira, parada no vermelho do semáforo, “andei por ali no outro dia com a tia Angélica e não vimos nenhuma loja chamada For You…”
“Bem, então é porque vocês estavam cegas, só pode! A loja tem uma montra bué enorme para a avenida, outra para a rua onde é a entrada para o parque de estacionamento… Tem uns manequins que são o máximo – é impossível não teres reparado!”
“4 U!”, envergonhava-me, sem ousar confessar, ao procurar um lugar vago no abafado nível menos 3. Claro que reparara nas descomunais letras em néon, interrogara-me o que quereria dizer aquele “4” seguido de um “U”, concluí que, talvez, não quisesse dizer nada, que fosse apenas a moderna e gelada mania de chamar as coisas pela lei do menor esforço, porventura uma estrangeirice… Sei lá o que pensei!
Mas ela não me largou assim tão facilmente. Entrando na loja com o à vontade de um peixe que já nadou muitas vezes naquelas águas (embora sem a retaguarda de um cartão de crédito suficientemente dourado), arrastou-me pelo braço e com um dos seus esguios dedos esticados para uma parede apontou-me o “U” verde-líquen e o tubo de vidro cor-de-laranja dobrado em 4 que o antecedia.
“Estás a ver?”, dizia, triunfante.
“Tens razão, filha, claro que já tinha visto a loja – acho que não liguei foi ao nome!”
Uma jovem empregada aproximava-se devagar, sintonizando as possibilidades de sucesso que poderia encerrar aquela combinação de gente acabada de chegar.
“Posso ajudar…?”
“Queríamos ver fatos de banho…”, retorqui com o melhor dos sorrisos, a mais receptiva das vozes, provocando em Ni um evidente retraimento físico de ombros e pescoço. 
“Pois não…, por aqui, por favor”, respondeu a moça, caminhando à nossa frente de braço estendido e olhando de vez em quando para trás, como se se pudesse dar o caso de nos perdermos. 
A meio do trajecto, Ni guinou de súbito para trás de umas prateleiras, deixando a empregada com um sorriso nos lábios:
“Parece que já encontrou o canto dela…”, resumiu, “agora para a senhora talvez lá mais ao fundo. Não sei se teremos muitos modelos ao seu gosto, logo vê…”, acrescentou com a delicadeza de quem poderia dizer: “esta loja não é para a tua idade nem para os teus gostos…”
Mas, acontece, eu é que tinha todo o ar de ser a portadora do mágico cartão dourado, de modo que me deixou no local exacto, acrescentando: 
“Se precisar de alguma coisa: saber de outras cores, ver outros tamanhos, é só chamar… Os gabinetes de prova são ali...”, apontou a outra extremidade da loja.
Demorei-me a fazer deslizar entre os dedos, para trás e para a frente, a pouco mais de uma dúzia de cabides com fatos de banho para “a minha idade”. Nenhum deles um duas peças!
“Então, mãe, descobriste alguma coisa?”
Ni estava já ao meu lado, bela de tão rosada, mau grado a tonalidade esverdinhada de aquário do ambiente, as mãos atafulhadas de minúsculas cruzetas donde pendiam bikinis de todas as cores e ousadias.
“São bué fixes, não achas? Há imensa escolha, este ano!”
Admitindo que sim, encostando discretamente a mim os dois fatos de banho que tencionava experimentar, seguimos juntas até à zona das cabines de prova, uma parede onde, ao longo de um labirinto de calhas, cortinas de oleado se abriam e fechavam num fragor de rodízios sacudidos.
“Vêm para provas?”, perguntou a empregada que geria o frenético caos da zona. “De momento está tudo ocupado… Só se…”, acrescentou depois de nos olhar melhor e concluir que talvez houvesse um elo entre aquelas duas clientes, “se estão juntas talvez possam ir para a sala…”
“Estamos juntas”, respondi perante um novo congelamento de Ni, “e desde que a sala de que fala tenha espelhos…”
“Tem”, respondeu a rapariga, sorridente, “tem até dois…”
A sala dos dois espelhos aparentava ser uma divisão de arrumos, a acreditar pela quantidade astronómica de caixas e caixinhas que se equilibravam ao longo de duas das paredes, quase roçando o tecto. Mas era evidente que, face ao sucesso da loja, alguém tivera a ideia de improvisar ali um reforço dos cubículos de provas. Numa das paredes haviam já fixado um enorme espelho rectangular e na parede oposta estava encostado um outro, mais pequeno mas capaz de albergar a imagem de um corpo humano, mesmo que enfiado num fato de banho de peça única. Deixei para Ni, acostumada às grandes superfícies espelhadas das aulas de ballet, a orgia visual do espelho grande e comecei a despir-me em frente ao espelho pequeno, enquanto ia pousando a roupa sobre uma coluna de caixas ao alcance da  mão. Antes de me concentrar no fato de banho castanho deitei ainda um rabo do olho a Ni que, reflectida no meu espelho, arrancara os ténis do pés sem mesmo se dobrar (a vantagem de não usar atacadores!), fizera voar a T-shirt até ao chão alcatifado e se entretinha a sacudir as calças pelas pernas abaixo sem usar as mãos.
Concluindo que havia coisas cujo mistério nunca decifraria passei a usar o espelho para me observar. E o espectáculo não me fascinava: tal como suspeitava o fato de banho castanho era, pelo menos, um número abaixo do que seria apropriado tendo em conta as minhas dimensões de anca, busto e cintura. Apertava-me, estrangulava-me, tornava-me a respiração um acto consciente! E não gostava da cor – o castanho fica-me mal! Para que fui insistir?!
Já no fato de banho azul – um azul brilhante e alegre, próximo da tonalidade dos azulejozinhos que habitualmente forram as piscinas –, que era de um número acima, entrei com honesta facilidade. Com esse o problema não era o tamanho, era a cor, a qual parecia ter transformado a minha figura numa daquelas baleias insufláveis que usam as crianças na praia! Era o que eu parecia, uma baleia azul e branca! Com desgosto, desfoquei os olhos e fiz uma pausa  a observar Ni, agora tão concentrada na prova de um bikini vermelho que esquecera completamente a minha presença.
Ni era dona de um corpo fantástico e os anos de dança (ao menos disso poderia eu gabar-me) tinham-lhe acrescentado uma leveza e uma elegância muito especiais. No que se refere a roupa, sem excepção dos bikinis que ia despindo e vestindo sem pausa, qualquer trapinho lhe assentava como se tivesse sido desenhado para ela. Tantas vezes parada em frente a uma montra ou a um expositor, avaliando uma saia, um vestidinho, uma camisa que, achava, lhe ficariam a matar, eu lamentava que a gama da indumentária admitida por ela se resumisse a T-shirts (nas quais o seu tronco delicadamente torneado, a sua cintura fina, ficavam ensacados, a nadar) e a calças de ganga, jeans, calças de ganga… Recusava-se a usar saias pois, justificava:  primeiro, não se usavam e, segundo, não gostava de mostrar os joelhos!
Meus Deus, reflectia, ao alternar o olhar do corpo dela para o meu, como o mundo é imperfeito e desencontrado! Ali estava uma deusa que recusava a sua coroa, a coroa que só nos pode coroar uma vez na vida, e uma pedinte a quem a coroa já não serve… Ou, sendo menos poética, uma princesa e uma baleia!
Despi o fato de banho azul e, invadida por uma nostalgia difícil de explicar, vesti a saia, peguei no soutien. Que parva: as lojas, as roupas, ainda me punham a cabeça à roda; as montras quase me faziam acreditar que a imagem que o espelho me devolveria seria a que se albergava tenaz na minha cabeça tonta! 
E a Angélica, cinco anos mais sábia do que eu, numa tarde de conversa sobre regimes e dietas desencadeada pela profusão de anúncios sobre produtos para emagrecer, chás para eliminar a celulite e cremes para reverter as rugas com que a TV celebra a aproximação de mais um Verão, bem me avisara. Naquele seu modo certeiro e sem papas na língua, comentara as minhas pretensões optimistas de preparação para a época balnear: 
“Ó filha, longe de mim querer deprimir-te, mas vou-te pôr ao par da minha experiência na matéria: aos 20 eu era assim como a tua Ni – elegantérrima – não dava um passo, comia o que me apetecia, quanto me apetecia. Entre os 30 e os 35 começaram os ameaços: se abusava dos chocolates e dos gelados a balança gemia; então apertava o cinto durante quinze dias – nada de sobremesas, nada de gorduras, nada de farináceos – e o corpinho regressava a um nível aceitável. Mas, quando se bate nos 40, menina, que desgraça: tudo alarga, tudo incha, tudo descai! Sem remédio…”
Por entre este devaneio o meu olhar perdera-se do espelho, pensava apenas; já decidira que não ia levar nenhum dos fatos de banho. Os dos anos passados eram bem mais sensatos e bonitos. Foi então que ouvi nas minhas costas uma espécie de soluço e, ao fazer regressar os olhos ao espelho, tive ainda tempo de observar a Ni a desabar, caída no chão, dobrada para a frente, chorando desalmadamente dentro dum atraente bikini branco.
O coração caiu-me aos pés. Meus Deus o que se estaria a passar? Os seus soluços, o seu ar tão desamparado, fizeram-me, instintivamente, correr para ela. Com suavidade, tentei levantar-lhe o queixo, mas ela resistiu, inconsolável no seu mundo de lágrimas. Então, de joelhos, no meio da sala de provas, abracei-a, deixei-me ficar assim, sem palavras – uma parte remota de mim acalmando aos poucos o coração na boca: não podia ser uma coisa assim tão grave!
“Ni…”, chamei baixinho, “que foi? Conta…”
O meu chamamento provocou nela dois ou três soluços estertorosos, depois os seus braços fecharam-se em volta do meu pescoço e, numa voz trémula, desabafou:
“Ó, mãe, sou eu que sou torta! Experimentei dez bikinis e não há um único que me fique bem… Olha para mim, sou toda torta, não há nada a fazer. Neste Verão não vou à praia, não vou aparecer na piscina do hotel no sul de Espanha…”
Curiosamente, o alívio, misturado com a vontade de explodir em riso perante o absurdo da situação, destravou uma cascata mansa de lágrimas nos meus olhos.
Deixei-me estar, em silêncio total, abraçando-a, as minhas mãos ávidas aproveitando aquele momento raro para, como uma ladra, roubar as carícias a que Ni se furtava; as saudades do tempo em que ela era a menina vinda a correr lá do fundo do corredor alimentando a fonte do meu pranto manso, gerando o calor que ia passando do meu corpo para o dela. Desejando que nessa troca todos os seus males se tornassem meus.
“Mãe, estás a chorar!”
“Não estou nada…”, respondi, desfazendo o abraço e passando uma mão sobre os olhos, “é a tua mãe que é uma tolinha…”
“Hoje, julguei que fosse eu…”, retorquiu com um sorriso fininho.
“Não…”. Levantei-me, consegui encontrar na carteira uma embalagem de lenços de papel, tirei um para mim e atirei-lhe o resto do pacote, dizendo com firmeza enquanto me assoava estrepitosamente:
“Limpa essas lágrimas, vá. Olha, não levamos fatos de banho nenhuns, eu também não gostei dos meus. Logo se vê: metemos nas malas os do ano passado; frequentamos a piscina à meia-noite. E lá também há lojas… Para já temos que ir buscar o teu irmão – são quase cinco e meia – e depois vamos aí lanchar a qualquer lado, que esta cena fez-me uma fome!”  

(2007, Para a Gina)

Fotografias de © Pedro Serrano: Vila Real 2008 (primeira fotografia); Viseu 2009 (segunda e terceira fotografias); Porto 2009 (quarta fotografia).
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MÃO MORTA

Mão morta, mão morta
       vai bater àquela porta…

1
O médico inclinou-se na segunda fila de assentos do cockpit e espreitou pelo espaço cavado entre os ombros do comandante e do co-piloto. O avião picava, descendo em espiral para ludibriar a mira de eventuais ataques da artilharia e lá em baixo estendia-se uma língua de terra vermelha, assemelhando-se demasiado a um lenço de bolso para que um Hércules C-130 ali pudesse aterrar. Mas ao contrário do inglês da Companhia, sentado a seu lado de mãos fincadas nas coxas, ele estava suficientemente familiarizado com a sensação de aterrar em pistas que não vêm no mapa para se sentir ansioso.
À força de travões, o avião imobilizou-se e uma tempestade de poeira vermelha, mantida no ar pelo rodar das quatro poderosas hélices, evolou-se do chão. A seu lado, com um sorriso aliviado ma non troppo, o inglês passava a ponta da língua pelos beiços ressequidos e perguntava se aquilo era normal.
“The dust? Yes…”, hesitou um momento à procura de como raio se diria ‘laterite’ em inglês, “it’s from the lateraite, the mineral red powder the track is made of…” E juntou à frase um “you see”, a compor um pouco a macarronada que sentia ter despejado sobre o outro.
Porém, o inglês estava desvanecido em demasia para se dar conta do embaraço linguístico do português: era a sua primeira viagem fora do circuito disciplinado dos aviões de carreira e aterrar no meio do nada num avião que parecia ter caído sobre a pista como uma folha de Outono fizera-o afrouxar a compostura fria que o médico conhecera nos escritórios da Companhia, entrincheirado na importância que confere um cargo visto das paredes envidraçadas de um prédio alto de Luanda.
Em volta do bojo escancarado do Hércules afadigava-se a trupe de filipinos e moçambicanos que tinham viajado acocorados sobre a carga e a quem competia agora tratar do desembarque – o avião vinha ajoujado como um ovo de Páscoa. Com as pontes dinamitadas, as estradas esventradas e de bermas pontilhadas por minas, sob a ameaça permanente dos raids da Unita, o único modo de chegar às Lundas em relativa segurança era por ar. E, então, tudo se transportava por via aérea: as pessoas, a comida, os medicamentos, até os sacos de cimento!
Medicamentos – avulso ou a granel – eram moeda conhecida do médico, mas sacos de cimento passaram, de súbito, a integrar a sua agenda de interesses logo que rubricara o contrato para supervisionar a reconstrução do hospital. Assinado um tanto à pressa, reconhecia agora, mas garantira-lhe, para além de um bom salário, a permanência no país por mais um ano, talvez dois se a guerra continuasse a bom ritmo e as coisas se atrasassem como era costume… Há cinco anos que vivia em Angola e, embora o não confessasse à própria sombra, o mês de férias que passava anualmente em Portugal espicaçava-lhe a vontade de regressar, não havendo nada de mais fraudulento do que o encolher de ombros e o 
“Tenho de voltar, é o meu ganha-pão…”
com que respondia às preocupações dos amigos, com que se despedia da família contristada.
Portugal, porra, que marasmo! Aliás, quem tinha nascido em África como ele, como outros como ele, dificilmente se habituava àquela paisagem de bonecas. Fizera, era tradição, os últimos anos da licenciatura na metrópole, mas sempre com a ideia de voltar um dia às serranias da Huíla e às planuras do Namibe, mandioca ladeando um lado do caminho e do outro uva moscatel. Entretanto estourara a revolução dos cravos e com ela a hemorragia do retorno, a multidão que, empurrando-o na chegada, lhe intimidava o desejo de regresso; depois foi atacado por uma zanga absurda com o país onde nascera e as memórias roubadas, à qual se adicionava o desencanto com o país provisório. E fugiu até onde pôde de mais longe, até Macau, mas acabou por não se dar naquela latitude oblíqua, nauseado com a neurose dos portugueses que se acotovelavam nas pizzarias de pescoço esticado enquanto seguiam a lacrimejar o Natal dos Hospitais via satélite. Aguentara-se três anos por lá, mais um vegetando na metrópole e, depois, surgira aquela hipótese de voltar e ir ser médico no mato ao serviço duma ONG finlandesa. A sua parte da missão correra bem: apurara a clínica e a mão, ficara habilitado a fazer um pouco de tudo no reger da batuta entre a vida e a morte; e na sombra larga da varanda da sua vivenda fumava demorados havanos, emborcava prateleiras de copos de rum velho na companhia dos cubanos que andavam por ali. Mas a ONG acabara por falir, pois os indígenas tinham aderido evasivamente ao dispendioso projecto pedagógico da escola que se propunha, de uma só vez, ensinar as virtudes do desenvolvimento sustentado e o finlandês como segunda língua. 
E já o assombrava de novo o espectro do Infante e da longínqua barra do Tejo, quando um tipo ligado à Unicef lhe trouxera notícias da Companhia… Ingleses, uma firma que conseguira fechar um contrato de exploração de diamantes com a Endiama, acenando como contrapartida com a recuperação do hospital local, escavacado pela metralha ao que constava. Agora andavam à procura de alguém para ir lá pôr a cereja do contrato… Não fora difícil, apesar do extenso formulário, da secura de iguana do inglês, conseguir o trabalho: em 1988 Angola quase não tinha médicos, importar um tipo que estivesse disposto a viver em guerra e no mato era – com excepção dos cubanos, mas esses não os queria a Companhia – proeza rara e dispendiosa. E, por fim, a sua experiência do país, o conhecimento da língua, ajudaram muito, designadamente a contornar o item ‘habilitações em gestão hospitalar’… Aqueles gajos eram de gozo! Gestão hospitalar, pensava, sorrindo para dentro, ao fitar a paisagem que lhe ia ondulando à frente dos olhos, distorcida pelo calor como um filme projectado numa tela mal esticada.
Passava pouco do meio-dia e os raios do sol de Março faiscavam impiedosos, atravessando como balas incandescentes a chapa do jipe em que seguiam a caminho da messe da Companhia. Estava programado que almoçassem por lá, depois visitariam o hospital – ou o que restava dele – numa primeira missão de reconhecimento e regressariam a Luanda. Nas semanas seguintes teria de apresentar um projecto de reconstrução à Companhia com todos os detalhes: desde os sacos de cimentos que se iam gastar, ao equipamento médico e ao pessoal necessário para voltar a pôr o hospital a funcionar. Finalmente, com a sua arca de roupa e livros, a sua maleta de médico, estabelecer-se-ia nas Lundas para mostrar, além dos sarrabiscos no papel, do que era capaz. Era bom que aproveitasse o dia e se atafulhasse em informações, pois aquilo não ia ser pêra doce. Fazer consultas aqui e acolá, reclamar, por telefone ou via rádio, do equipamento que não tinha ou que tardava em chegar era o máximo que fizera em termos de ‘gestão hospitalar’… 
Durante o almoço ficara, graças a Deus, longe do inglês que, camisa de manga curta com dobra de alfaiate e nó da gravata atrevidamente folgado, palrava com os seus engenheiros da delegação da Lunda, o que lhe permitiu ir tirando uns nabos da púcara sobre o hospital e sua situação actual.
Felizmente, parecia que o trabalho de reconstrução estrutural seria mais leve do que o que se imagina quando se pensa em guerra e metralha, pois, segundo um dos empregados que servia à mesa, casaco branco com galão dourado nas lapelas e nos punhos, o edifício fora mais saqueado do que propriamente destruído.
“Não”, dizia o mulato grande numa voz arrastada, “eles até que respeitaram…Está bom, está mesmo bom – mais vidros partidos, porta quebrada… E foram roubando colchão, depois cama, depois as outras coisas, já sabe como é… hospital vazio, sem patrão…”, acrescentou rindo como se tudo aquilo tivesse imensa piada.
O final do almoço foi interrompido por uma altercação nascida na porta do refeitório. Alguém tentava entrar, alguém a quem o corpanzil do mulato impedia acesso pleno. Contrariado, um dos engenheiros levantou-se e foi ver o que se passava. 
O médico parou de remexer o café quando viu todos os olhos da cabeceira da mesa cravarem-se nele. O inglês, regressado à pele de sahib, interpelou-o com um sorriso aguado que lhe levantava a ponta das sobrancelhas:
“Parece que, mesmo desactivado, o hospital já serve para alguma coisa, doutor: aparentemente tem lá um doente à sua espera…” 
Após uns segundos a remoer argumentos que não serviriam senão a si próprio – os ingleses miravam-no numa expectativa irónica e, da porta, dois pares de olhos fitavam-no com urgência – o médico engoliu o café com o facto de não estar ali para ver doentes e levantou-se da mesa.
No exterior, contrastando com a calmaria e a sombra condicionada do refeitório, impondo-se ao calor abrasador das três da tarde, reinava grande agitação num grupo de pessoas que aguardavam do lado de fora do portão das instalações da Companhia. Com uma cadência regular, um grito lamentoso elevava-se no ar.
“Quem são?”, perguntou a um dos homens cujos olhos o tinham arrancado ao café.
“São família, doutor. Quando souberam que ia chegar médico hoje trouxeram-na do mato, às costas, andaram seis horas…”
“Mas eu não vim para tratar ninguém”, explicou-se finalmente, “estou aqui por causas das obras do hospital; não trouxe nada comigo”.
“A gente sabe, doutor,” respondeu o homem mostrando os dentes num sorriso e incluindo nesse conhecimento o outro indivíduo que caminhava ao lado deles, “nós trabalhamos lá no hospital… Mas eles”, continuou fazendo um gesto para o grupo que os seguia dois metros mais atrás, “não sabem: apenas sabem que tem doutor aqui hoje”.
“Mulher prenha, doutor”, informou o outro. E achou por bem acrescentar com um esgar, como perante coisa que cheira mal: “quase morta…”

2
O hospital, uma construção quadrangular e atarracada com telhado de chapa de zinco, estava em absoluto silêncio. Os passos ressoavam nos corredores vazios a caminho da ala que, em melhores dias, fora a maternidade e onde, na única cama que restava, os dois guardiães do hospital tinham decidido deitar a mulher grávida. 
A cama era o típico leito de hospital em tubo de metal esmaltado, comido de ferrugem nos locais onde se lascara a tinta. No forro esgaçado, a cor de areia original do colchão de espuma sumira-se, substituída por uma tonalidade negro-avermelhada de sangue repassado. Mas aquele era um sangue antigo, não parecia pertencer à mulher que jazia na cama, a face e metade do corpo iluminados pelo charco de luz crua que penetrava na enfermaria através da cratera, talvez de rocket ou granada, com mais de um metro de diâmetro que esburacara o telhado de zinco e que, na ausência de electricidade, alumiava a sala sombria.
Aparentemente, a mulher não sangrava e de sangue só eram visíveis pequenos coágulos nalguns trapos caídos ao lado da cama, ainda húmidos de líquido amniótico e pasto de um rebanho ligeiro de moscas pequenas, onde refulgia o verde metálico e o porte maciço de uma ou outra varejeira. Havia moscas em todo o lado,  a debicar o corpo deitado, explorando o colchão, chupando os trapos, até pousando no médico de quem tinham farejado, de imediato, a aproximação transpirada. 
“Algum deles fala português?”, perguntou por cima do ombro ao olhar o baixo-ventre da mulher, uma vez sabido que ia precisar de respostas, de prestar esclarecimentos aos sete ou oito acompanhantes que, furtivamente, tinham penetrado na sala e se postaram a uma distância respeitosa, encostados à parede onde ficava a porta.
“Não, doutor, são Chokwe…”
O médico já o calculara pelo tipo de silêncio instalado, até mais do que pelos panos em que as mulheres se enrolavam e apesar das calças e camisas dos homens, provavelmente enfiadas à pressa para a vinda ao hospital.
“Então um de vocês vai ter de traduzir o que eu disser e o que eles responderem, certo? E vou precisar de água e… que tipo de material – ferros, pinças, tesouras, gazes, medicamentos – há por aí?”
“Ah, doutor, eu vou buscar, mas não há quase nada… Não há aparelho de tensão, termómetro, soro; nem seringa, nem estetoscópio de grávida…” prontificou-se um deles que, ficou a perceber pelo à vontade na gíria técnica, tinha uma vaga formação de enfermeiro.
O médico concentrou-se na mulher que, estendida na cama, o fixava com uns olhos estafados, mas onde luzia uma ansiedade. Era uma rapariga magra, longilínea, de pele clara e macia como percebeu ao pegar-lhe no braço num gesto de palpar o pulso e estabelecer um contacto.
O pulso estava rápido e fino, a testa e a cara perladas por um suor espesso e pegajoso, os lábios gretados e quase apagados de tão desidratados. Mas a exaustão ainda não dera lugar ao choque; estava estafada mas consciente, instalada na serenidade da resignação. Antes de lhe subir o pano grenat em que se envolvia descomposta, mas ainda assim resguardada de mais para uma palpação conveniente, o médico sorriu-lhe como que a garantir que tudo correria pelo melhor. As pupilas dela corresponderam um pouco, notou uma intensificação no brilho da superfície prateada.
Tinha dezoito anos e era o terceiro filho, a bolsa de águas rompera-se há mais de doze horas atrás, mas o trabalho de parto não se consumara, fora por isso que tinham pegado nela e atravessado toda aquela extensão de mata – sabiam que sozinhos não iam conseguir.
O médico foi conhecendo os detalhes a prestações – enquanto enunciava perguntas, ouvia as respostas e esperava a tradução – as mãos palpando o ventre com cautela e minúcia, apercebendo uma barriga mole como massa de pão, indiciando um útero atónico e em risco de rotura iminente.
O diagnóstico estava feito. Olhou uma última vez com apreensão a zona genital, onde, pela vulva, espreitava um braço de bebé e uma mãozita de dedos abertos roçava o colchão. Tocou, de novo, a pequenina mão: estava gelada e sem cor como os restantes dez centímetros de braço procidente, falando por si sobre a ausência de circulação e atestando a morte da criança, ocorrida já há um bom par de horas. Agora era preciso agir. 
Quando o enfermeiro chegou, dependurando em cada mão um balde de metal galvanizado, o médico deambulava pela maternidade tentando encontrar alguma espécie de meios, algo que ajudasse, nem ele sabia bem o quê. Mas o único equipamento que ali havia era, num cubículo separado do local onde estava deitada a rapariga por um tabique que não chegava sequer ao tecto, uma marquesa ginecológica desconjuntada, sem cobertura ou correias de contenção nas perneiras enferrujadas, e uma mesinha de cabeceira em cuja gaveta descobriu um pente sem dentes e uma caneca de esmalte invadida por bolores.
“É tudo, doutor”, informou o enfermeiro tirando do interior de um dos baldes duas embalagens de luvas cirúrgicas, um frasco de água oxigenada e uma tesoura de pensos. “E a água que pediu…”, acrescentou com um sorriso apontando o outro balde.
O médico pegou com um olhar esperançado na tesoura, chegou-a à luz do buraco no tecto. Gemeu de desconsolo: a tesoura tinha um dos ramos do bico partido – não cortaria nem água! 
E todas as suas opções, isto é, as duas alternativas que se ofereciam para tentar salvar a vida de uma mulher com um feto-morto atravessado no ventre passavam por algo que cortasse, uma tesoura forte… Uma delas consistiria em cortar o braço do bebé, para poder depois tentar extrair o resto do corpo. Mas era uma solução que não lhe agradava, insegura. Era trabalhar às cegas, não sabia o que se escondia por trás daquele bracito que tudo tapava, podia com muita facilidade perder o controle da situação.
“Não haverá por aí, seja lá onde for, uma tesoura?”, perguntou – baixando, desnecessariamente e por instinto, a voz – “uma tesoura que corte…”
O enfermeiro ficou a olhá-lo, emparedado entre a resposta ao pedido e a linha de raciocínio com que o clínico o contagiara ao enunciar tal pergunta.
O médico detectou o emperramento do outro, abanou-o com uma sugestão:
“Vá, enquanto pensas, dá aqui uma ajuda – vamos mudá-la para a marquesa.”
A rapariga era leve como um osso de ave e deixou-se transportar sem um queixume até à marquesa ginecológica. Tiraram-lhe o pano grenat pela cabeça e o seu corpo nu ficou em contacto directo com o metal, cada uma das pernas esguias pendendo frouxa das perneiras enferrujadas.
“Só se for o alfaiate…”
“O quê…?” O médico, absorvido na previsão de como poderiam vir a reagir as pernas dela quando lhe começasse a escarafunchar as entranhas sem anestesia e sem a contenção das correias de cabedal das perneiras, não captara a deixa do enfermeiro.
“ A tesoura, doutor. Tesoura afiada e forte, que consiga cortar braço…” 
“Não é o braço que vou ter de cortar!”, respondeu com brusquidão, mas, lá no fundo de si, aliviado por partilhar aqueles pensamentos ainda hesitantes.
O enfermeiro olhou-o, abismado. O médico apontou para cima, para o forro de contraplacado esburacado do tecto da sala, e voltou a espicaçá-lo:
“Anda lá, que daqui a pouco começamos a perder luz. Chama o teu colega aí de lado e diz-lhe que vá pedir emprestada a tesoura ao alfaiate. Eu preciso aqui de ti…” 

3
A tesoura demorou quase uma hora a chegar ao hospital, mas a espera que incomodava o médico prendia-se toda com o estado geral da rapariga e esse não piorara. O enfermeiro tinha trazido uns pacotes de açúcar e um saleiro da sua provisão pessoal e o médico, usando a tesoura de pensos de bico partido como colher, fabricara na velha caneca de esmalte um arremedo de soro que teve o efeito quase miraculoso de arrebitar o estado comatoso para o qual ela parecia começar a querer resvalar.
Aproveitara também a espera para explicar à família que o bebé estava morto, facto evidente para todos, e que para salvar a vida dela tinha que tirar o bebé cá para fora. Também isso não causou surpresa ou exaltação, uma vez que um morto a habitar o corpo de um vivo não é bom sob nenhuma circunstância ou em hemisfério algum. 
“E para isso”, acrescentou através do enfermeiro, “o corpo vai ter que sair aos pedaços e durante esse trabalho não quero ninguém aqui dentro”.
O renque de pessoas imóvel na semi-obscuridade, uns de pé encostados à parede outros acocorados na mesma linha, ouviu a decisão com gravidade e não ouviu nem choro nem soluços ou, sequer, um dos lamentos gritados que tinham acompanhado o cortejo na deslocação da Companhia até ao hospital. 
A tesoura chegou embrulhada em papel de jornal e o médico examinou-a detalhadamente à luz do buraco no tecto. Era um objecto possante, de metal escuro e brunido, com um encaixe moldado para o polegar e uma pega onde cabiam três dedos no lado oposto. Cortava bem até à ponta do bico, estava afiada e afeiçoada para cortar pano na perfeição. Satisfeito, o médico pousou-a sobre o tampo da mesinha de cabeceira que fora arrastada até junto da marquesa para servir de bancada de apoio à operação e onde, sobre um pano relativamente limpo, já estavam dispostas as luvas cirúrgicas, o frasco de água oxigenada e a caneca de esmalte com um nova dose de soro improvisado.
Foi ao pegar na embalagem que continha as luvas que o médico se deu conta que ambos os pacotes eram de tamanho 6½. E ele calçava 8! Mesmo assim começou a enfiá-las com todo o profissionalismo e cuidado, mas como eram demasiado pequenas e muito para além do prazo de validade, os seus dedos furaram tudo mal se começaram a encaixar nos da luva, surgindo nus e ridículos através da borracha esfarrapada. Com um “puta que pariu” todo espiritual arrancou aquela salgalhada e começou a tarefa de mãos nuas. 
Pousando a tesoura entre as coxas abertas da rapariga, o médico palpou mais uma vez o terreno onde ia trabalhar. Como um cego, precisava guiar-se o mais possível pelo tacto, pois a luz da tarde era já menos forte e a zona em que iria operar não teria, nem de longe, a iluminação incidente e potente de uma mesa cirúrgica civilizada. Não havia sequer um candeeiro a petróleo no hospital e não se podia dar ao luxo de esperar mais uma hora para mandar ir chatear algum vizinho do alfaiate!
O braço procidente do bebé não permitia acesso ao interior do útero, muito a custo conseguia introduzir a ponta do indicador direito e identificar uma superfície muscular tão exaurida de tensão que se moldava ao corpito morto como uma manga de borracha.
O médico sabia o que tinha a fazer, já o fizera uma vez, já o vira praticar várias, mas nunca em condições daquelas: sem meios, sem luz e com um braço que se interpunha, como uma rolha, entre a tesoura monstruosa e o pescoço inacessível do feto.
Com cuidado, mas aplicando toda a sua força, empurrou o bracito da criança para dentro: era preciso recolhê-lo, conseguir que recuasse e passasse por sobre o ombro até ficar pousado ao longo do tórax do feto. Só assim conseguiria ter acesso ao útero e ao pescoço. Durante a manobra sentiu o braço estalar, como quando se parte um osso de frango, e as mãos da rapariga agarrarem-se com força à parte lateral da marquesa.
O médico respirou fundo e esticou o corpo, dorido de estar ali em pé, de permanecer todo dobrado para a frente sob tensão. Aproveitou a pausa para dizer ao enfermeiro:
“Vá, chegou a hora: põe-me essa malta toda lá fora. O teu colega que tome conta – agora não quero ninguém aqui.”
4

Apesar do obstáculo ter sido removido, o acesso ao interior do útero mantinha-se difícil e durante todo o tempo que a operação durou o médico não conseguiu introduzir na abertura mais do que o dedo indicador.
Como o focinho de uma toupeira o seu dedo palpou e rondou até que localizou o pescoço. Era uma coisa com a espessura de uns três dedos, assim como se fosse o pescoço de um coelho esfolado. E durante a meia-hora seguinte, a luta principal, um combate que o deixou exausto e seco de tanto transpirar, consistiu em tentar estabilizar o cadáver da criança, em manietar o pescoço para o conseguir abordar com a tesoura e iniciar o corte. Tinha a seu favor o facto de o corpito se encontrar totalmente flácido e plástico, o que permitia a sua tracção, mas as suas tentativas eram dificultadas pelo ambiente escorregadio em que tudo se processava, o que fazia com que, à frente do bico da tesoura, o corpo escapasse constantemente para o fundo do útero como se, apesar de morto, fizesse um derradeiro esforço para manter a integridade.
Endireitou-se de novo, as costas numa chaga, o corpo apoiado contra uma das coxas da rapariga, esperando uns instantes até que as cãibras nos dedos cedessem um pouco. Aproveitava para olhar a miúda, vigiar o seu estado: ela não abrira a boca para soltar um queixume! Tudo o que ia percebendo dela era, nos momentos mais duros, as mãos de dedos elegantes fincando-se nas bordas da marquesa, as pernas, pousadas nas perneiras, percorridas por um frémito. Aguentava-se, estava a aguentar-se, assim o dizia o olhar demorando-se com serenidade animal no seu.
“Dá-lhe mais um gole”, ordenou ao enfermeiro, pedindo aquilo que tanto lhe apetecia a ele e aos seus lábios triturados, à garganta em brasa.
Fora condenado a carrasco de um suplício de bicadas infernais, improdutivas e intermináveis, como se o tivessem destinado a ser o predador de uma tortura desumana. Não conseguia introduzir no útero mais do que alguns milímetros do bico da tesoura e, lá dentro, não conseguia afastar os ramos das hastes mais do que quatro ou cinco milímetros. Quando o conseguia e tocava o pescoço do feto e o conseguia bicar, logo a seguir, empurrado pelo contacto da tesoura, o corpo fugia para o fundo do útero. Este jogo durou uma eternidade e durante muito desse tempo esteve simplesmente a dar bicadas inúteis no osso das vértebras do pescoço. Até que, somente pela sorte de tantas vezes repetir o mesmo gesto, conseguiu abraçar entre as hastes da tesoura um espaço intervertebral, cuja consistência sentiu imediatamente como diferente da dureza do osso. E por ali, por aquela nesga, o pescoço deixou-se separar da cabeça com surpreendente facilidade.
Os seus dedos voltaram a encontrar o bracito estropiado e, ao puxar por ele, o corpo deslizou cá para fora sem resistência; ao mesmo tempo sentiu a cabeça fugir lá para trás. Tomou o pequeno corpo decepado e enfiou-o no grande balde galvanizado onde, por estar tão flácido e macerado, ele se enrolou no fundo.
Sem o corpo a ocupar o interior do útero, a cabeça descaiu logo até à boca da vagina. Introduziu os dedos à procura da boca: encontrou-a, mole e entreaberta. Encaixou o indicador na mandíbula e, com os dedos da outra mão por trás, a empurrar, puxou-a para fora do corpo da mãe. Com a cabeça veio junto algum sangue-vivo, sinal de que a placenta começava a descolar e o corpo da rapariga retomava as suas funções.
Quase deixou que a cabeça do feto rolasse pelo chão, pois ao largá-la dentro do balde descobriu que este já não se encontrava no lugar. Alguém o tinha removido e ele não notara!
No gesto de buscar o balde, rodou um pouco sobre si próprio, a cabeça do feto encaixada no dedo pela boca como se fosse uma bola de bowling, e deu conta que havia gente nas suas costas. Muitas pessoas. Respeitosamente alinhados contra a parede, os familiares da rapariga tinham regressado à sala sem que desse conta e olhavam-no, ali, com a cabeça da criança pendurada numa mão.
Então, como no meio de um sonho, o médico começou a ouvir palmas ritmadas e a descortinar na sombra uma linha de seres que, à medida que as palmas se iam intensificando, se moviam em uníssono, um passo para a frente e outro para trás, entoando:  
“Uelelé, uelelé!; kanawa txinge muata. Uelelé…”
Com delicadeza, o enfermeiro tirou-lhe a cabeça da mão, murmurou-lhe ao ouvido:
“Língua chokwe, doutor. Estão a dizer: ‘que bom, que bom…’.”
Entontecido, o médico certificou-se da vida na rapariga deitada na marquesa; depois levantou a cabeça e procurou o ar exterior no buraco aberto no telhado da sala de partos. 
A noite caíra, o seu olhar encontrou apenas uma ilusão morna de azul no céu enegrecido.

(Junho, 2007. Ao João Lemos)
Primeira fotografia: © Pedro Serrano, Viana do Castelo, 2003.
Segunda fotografia: © Pedro Serrano, Bengo (Angola), 2008.

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ESTIMO AS MELHORAS

Ela abandonara-o da pior da maneira, na pior altura. Sem motivo aparente e no auge da paixão, ciclone que, parecia-lhe, percorria todas as escalas da paixão correspondida. No seu aturdimento procurou razões, razões clássicas: uma traição, algo nele que lhe desagradasse e se estivesse a impor como intransponível... Não encontrou nada e dela – enquanto conseguiu que lhe atendesse as chamadas, nas raras e dolorosas vezes em que acedeu a encontrar-se com ele – nada se revelou, a não ser embaraço, uma vontade nítida de o evitar, de não se comprometer com um novo encontro.
“Era melhor desistirmos disto...”
E no olhar, tornado fugidio, nada mais apercebeu do que aflição.
Depois ela desapareceu de vez e, encolhido de dor, afundado no sofá da sala, esperando que o comprimido azul da embalagem-amostra fizesse efeito e o mergulhasse num sofrimento cristalizado, como um fruto imóvel sob a carapaça de açúcar, deixou de revolver as razões e olhava o telefone de lado, quase com horror, como se pudesse tocar e fosse ela, como se lhe fosse vedado marcar aquele número que sabia de cor e que ainda era o número dela.
Uns meses mais tarde deixou de a procurar em cada rua da cidade por onde manobrava o carro, deixou de a adivinhar em cada morena a quem pressentia o perfil do outro lado de uma avenida; já nem todas as gargalhadas lhe lembravam a dela, conseguiu ouvir o seu gracioso nome ser pronunciado sem sentir um estremecimento, sem virar a cabeça por achar que aquele nome não podia chamar por mais ninguém... Uma tarde deu mesmo consigo a passar no viaduto sem apanhar a nesga no tempo em que, olhando à direita, se conseguia, por uma fracção de segundo, entrever a marquise do andar dela, a qual se distinguia das outras em volta por ter os estores corridos em permanência. Esses estores leves, de casquinha de alumínio, que vibravam como um espanta-espíritos quando um avião cobria o prédio a caminho da Portela.
Um dia fora aos Açores, congresso médico patrocinado pela companhia e, na volta, o avião, descendo sobre uma cidade que parecia encantada, dourada no meio da noite, sobrevoou a zona onde ela morava, viu a cobertura do prédio, achou que conseguira até identificar luz na marquise. Por trás daquele estore iluminado era o quarto dela, a cama de madeira escura, o candeeiro de luz amarelada, o armário que tapava o vão que, outrora, fora uma porta de correr que dava para a sala: de um lado estante, do outro pousio de fotografias e toucador. Nessa noite não resistira ligar, queria dizer-lhe:
“Passei agora mesmo sobre o teu quarto, a voar...”
Ela não atendeu, ele sentia-a do lado de lá a olhar, maçada, para o visor, a deixar que tocasse; enrolando uma madeixa do cabelo negro entre dois dedos entediados, nervosos. E ele a detestar-se por imaginar alegria, por não permitir que a distância do tempo se instalasse entre eles; por estar a violar o silencioso apelo “não me procures mais” como se a estivesse a estuprar a ela! Mas a convalescença parecia-lhe negada, não apresentava senão piedosas melhoras passageiras.
Depois foi anunciada a restruturação na empresa, alguns colegas foram dispensados, a multinacional mudou a sede de Lisboa para Madrid e, como consequência, a sua área de influência fora alargada e um distrito foi acrescentado à sua zona de trabalho, o que se traduzia em mais um hospital, cinco centros de saúde e doze extensões, onde havia médicos a visitar, farmácias para controlar as vendas de, para ser exacto, oito medicamentos, dois deles recentes no mercado e outros dois em risco de se tornarem genéricos...
A mudança, o aumento de responsabilidade, acabou por se revelar uma coisa boa, entreteve-o e tinha agora menos tempo para chafurdar em consciência no desgosto que, apesar disso, continuava a latejar dentro de si, feito um mal de estimação.
Um fim de tarde, quando regressava a Lisboa, o telefone tocou e, por precisar de anotar um telefone que Rita, a telefonista da sede, lhe queria passar, encostou na berma da estrada sob um grande pinheiro manso. No fim do telefonema, acendeu um cigarro e abriu a janela do carro. Estava uma tarde calma e, lá fora, o ar cheirava bem! Atirou o cigarro fora e foi quando o vidro eléctrico da janela subia que reparou na placa, uma daquelas placas quadrangulares, antiquadas, com a indicação da localidade pintada a negro no branco caiado: SOBRALINHO, 4 km.
Deu por si a guiar por uma estrada secundária, traçada entre muros de quintas, entre casas de lavoura, alguns deles a desfazer-se e por onde trepavam trepadeiras e espreitava a folhagem de árvores de fruto. De onde a onde abriam-se na paisagem campos verdes em que ovelhas pastavam e, aqui e ali, um cavalo abanava a cauda indolente às raras moscas de outono.
Parou num café a perguntar onde era o lar.
“Veio pela estrada de Alenquer? Então acabou de passar por ele!,” respondeu o homem, “é a uns trezentos metros daqui, à esquerda de quem chega ao Sobralinho...”
Fez inversão de marcha, passou devagar por um grande portão de ferro, escancarado, ao lado do qual havia uma guarita com um soldado. Ao fundo de uma álea havia um terreiro e um casarão e, como se fossem os proprietários, pela álea passeavam-se alguns pavões. O soldado, curioso com o automóvel que ronronava do lado de fora do portão, espreitou da guarita. Arrancou. 
***
A decisão veio num semáforo vermelho, uma manhã em que saía da cidade para uma visita ao seu território a norte de Lisboa. Enquanto aguardava o verde, olhou à direita e viu as empregadas de uma florista disporem os escaparates de flores de um lado e outro da porta da loja. Parou e comprou duas rosas, embora a florista insistisse para que levasse, pelo menos, meia-dúzia. Estava a tratar a encomenda como um presente romântico, imaginou a cara dela se lhe confessasse que as rosas eram para alguém que nunca vira e que tinha idade para ser sua avó.
Chegou a Sobralinho passava um pedaço das quatro da tarde. A chuva parara. À entrada, o soldado pediu-lhe um documento de identificação, podia levantá-lo quando saísse. Por dentro, o lar, uma enorme casa apalaçada, estava cuidado como se fosse um museu, impecável e silencioso. Na recepção anunciou vir visitar a Sr.ª Graça Neves, que era amigo da família, acrescentou com as rosas na mão e um calafrio no estômago. Pediram-lhe para esperar na “sala de receber as visitas”, uma espécie de átrio com cadeiras almofadadas em dourado e fotografias antigas de homens em traje militar na parede. Iam ligar para cima, pedir para ela descer. Esperou, olhando em volta com o sorriso inseguro que revela o desconhecido. Foram aparecendo e passando por ali várias senhoras idosas, mas nenhuma lhe parecia a avó de Graça. Nunca a vira, mas, pela descrição da neta (mais psicológica que física), tinha um feeling acerca do que ela poderia parecer.
Longos minutos depois viu aproximar-se pelo corredor uma velhinha pequenina, com uma manta pelas costas, conduzida por uma empregada da casa. Sim, aquela batia certo.
Ela olhava, à procura de alguém familiar, e a empregada, sorrindo, dizia mirando-o:
“Está ali a sua visita...”
Adiantou-se, estendendo a mão:
“A senhora não me conhece, mas eu sou um amigo da Graça.”
Ela abriu um sorriso:
“Então se é amigo dela dê cá um beijinho.”
Sentaram-se na “sala de visitas”, ele muito perto dela, pois lembrava-se que ouvia mal e, por outro lado, tinha dificuldade em falar alto às pessoas, no seu mundo, gritar não permitia estabelecer uma relação. Foi-lhe tentando explicar quem era: amigo da Graça, colega da Graça na universidade. Mas ela não pareceu muito preocupada ou ansiosa por justificações, estava, simplesmente, satisfeita com a visita. Justificou-a com uma mentira piedosa:
“Soube que a senhora estava aqui hospedada e, como vim para estes lados, resolvi fazer-lhe uma visita...”
Depois deu-lhe os dois botões de rosa, pediu desculpa por não conhecer os gostos dela. Mas ela ficou agradada, pousou a flor no colo e assim a manteve o tempo todo.
Falou mais que ele, que a ouvia olhando-lhe o belo cabelo branco, as rugas da testa, os olhos vivos, as mãos. Sim, era a avó da Graça. A conversa saltou suavemente de assunto para assunto: a Gracinha, a Margarida (“conhece a Margarida?”), os meninos da Margarida. Sim, os meninos ele conhecia. Outra vez a Graça, o filho já morto, a nora; o nascimento em Tavira, a infância, a juventude, o casamento; os tempos em Évora, em Sobralinho, em Lisboa. Os netos, o pai:
“O meu pai era muito meigo para mim (“a minha mãe morreu tinha eu três anos”), ainda hoje me lembro dele com muito afecto. Tentei educar o meu filho – o pai delas, não sei se o conheceu quando era vivo – da mesma maneira.”
Depois entoou a canção de embalar que, em Tavira, o pai lhe cantava para a ajudar a adormecer e uma outra sobre um botão de rosa que cai ao chão e se desfolha, também aprendida na meninice, com uma tia.
“Quando chegar ao quarto vou tratar das suas rosas. Vou-lhes cortar o pé e metê-las em água, para que durem.”
Ele ia ouvindo, dando um toque aqui e ali, pois raramente era obrigado a falar.
Explicou-lhe a ida para o lar, objectivamente, sem o mínimo sinal de amargura ou tristeza. Ali estava bem. Lamentou um pouco a idade, sobretudo pela inutilidade que traz.
“Mas não é preciso estar a fazer coisas para se ser útil, respondeu ele. “A presença da senhora é muito importante na vida dos seus: basta ouvir a Graça falar de si, para se ter a certeza disso.”
“Ah, a Gracinha”, disse ela, encantada, “deram-lhe o mesmo nome que o meu e fizeram bem..., é mais parecida comigo no feitio do que a Margarida...”
Entretanto passara uma hora, o tempo que lhe tinham recomendado como duração da visita; foi à recepção perguntar o que deveria fazer, ofereceu-se para a acompanhar ao quarto, se fosse preciso. Disseram-lhe que chamariam uma empregada.
Regressou à sala de visitas, sentou-se. Da sua serenidade, ela olhou-o com os olhos vivos, disse:
“Assim se conta uma vida, não é?”
E, após uma pausa:
“É engraçado como as coisas sucedem... O senhor, que andou aqui e ali (falara-lhe de Braga, dos Açores, de Trás-os-Montes), acaba por cruzar a vida da Gracinha e estar agora aqui.”
“É verdade”, respondera, “assim se vão fazendo as vidas: começam separadas e depois encontram-se, é engraçado...”
“É verdade”, disse ela, dando a conversa por terminada, “alegrias e tristezas, encontros e desencontros...”
A empregada chegou. Ele levantou-se, ofereceu um braço para a ajudar.
“Gostei muito que me tivesse vindo visitar e, se voltar a passar por aqui, venha ver-me de novo. Se estiver com a Gracinha por favor mande-lhe um grande beijo meu. Sei que ela gostaria de vir aqui mais vezes, mas Lisboa ainda é longe e com aquela vida dela...”
Sorriu-lhe, disse, numa voz que fez com que soasse banal:
“Penso que não a vou ver tão cedo, sabe? Mas às vezes falo com ela ao telefone e não deixarei de lhe transmitir o seu beijo.”
E ficou a vê-la ir-se, de braço dado com a empregada, a quem, pelo corredor fora, informava:
“É muito amigo da minha neta Graça...”
Saiu. Cá fora o tempo estava tépido e húmido. Sim, a pessoa correspondia ao retrato que a neta lhe pintara, aos poucos, com intensa ternura por aquela avó que, mais do que a mãe, era a figura central da sua vida interior.
“Sabe, sempre fui muito afectiva, desde pequenina; foi bom ter nascido com esta qualidade...”
Meteu-se no carro, foi buscar a identificação à portaria. Pelo caminho veio recordando aquela visita tão estranhamente estranha. Não usara prudência nenhuma na conversa: conhecia as pessoas, sabia nomes, demonstrou saber alguns pormenores... Não podia ser de outro modo. A única coisa que não lhe disse foi que, de certo modo, estava ali também a mitigar as horríveis saudades que tinha da neta, neta de quem gostava demais. Mas arriscar tanto tinha compensado: em que outro sítio do mundo poderia ter pronunciado tantas vezes o nome dela com alguém que a conhecesse?
***
Vinte e três de Novembro, 8 da manhã, tocou o telefone. Onde estava? Ah.., sim, era o despertar que pedira ontem. Ligou o rádio, enquanto fazia a barba. Estava frio. Notícias: em Lisboa a chuva atravessara telhados e infiltrara tectos.
Apesar de ser apenas o segundo encontro, fora, na véspera, mais vezes beijado pela avó do que pela neta, a última vez que a vira! Assim, de repente, conseguia identificar oito beijos: dois à chegada, dois quando lhe dera o tubo com pastilhas de chocolate, dois à primeira tentativa de despedida e, finalmente, mais dois no despedir definitivo. Mas talvez tivesse havido alguns outros, não contando com as meiguices que ela lhe fizera na face e nas mãos... Um encanto.
Desta vez mandaram-no subir e encontrou-a sentada à porta do quarto, ao fundo do Corredor Linhas de Torres. À chegada, achou-a pior que na primeira visita: um pouco agitada, tensa (notava-se nos olhos – exactamente como na neta), queixando-se dos brônquios, do tempo húmido, da inutilidade de ser velho.
“Isto não é viver, é vegetar...”
“A senhora não pode falar assim, olhe que para a Graça...”
O costume, mas que variações podia ele introduzir? Os bisnetos ainda não contavam para estas demonstrações, à nora só a vira uma vez (não a podia invocar) e a Margarida não conhecia, coisa que ela parecia sentir, pois entreteve-se a caracterizá-la:
“A Margarida é muito explosiva, ao contrário da Graça. A Gracinha é mais parecida comigo no feitio.”
A tosse preocupava-a, gostaria até de fazer um raio-X, tinha medo por causa dos pequenos, durante as visitas. Deu consigo numa de médico, invocou todas as bulas que fora obrigado a ler, indagou mesmo outros sintomas e sinais. Tudo ao serviço de um já planeado:
“Não, não precisa de se preocupar. É apenas uma tossezita de inverno; anda tudo assim...”
No fundo havia razões físicas para que ela se sentisse mal, pois evidenciava uma aflitiva falta de ar: fez-lhe companhia enquanto lanchava e só o acto de comer fê-la ficar a arfar.
“Não tenho apetite nenhum, comer é uma obrigação.”
Por outro lado, embora não se queixasse explicitamente, apetecia-lhe regressar a Lisboa, a casa.
“Não foi a melhor época para vir para aqui. Tinha sido melhor na Primavera... Mas elas não podiam tomar conta de mim o tempo todo durante a pneumonia...”
“Mas olhe que em Lisboa, venho de lá agora, o tempo também está péssimo. E o ar aqui é muito mais puro.”
Foi melhorando ao longo da conversa e, às tantas, já não se distinguia da D. Graça Neves da primeira visita. Pessoas iam parando, para a cumprimentar, para saber quem ele era.
“Amigo da família”, dizia-lhes. “Veio de Lisboa aqui só para me visitar.”
No fim do lanche, mostrara-lhe o quarto, as coisas dela.
“A minha colega de quarto tem a cómoda cheia de fotografias, vê? Eu só trouxe uma, o resto tenho tudo aqui”, dizia apontando a testa.
Ele concordava que ainda era o melhor sítio para guardar “o resto”.
“Está a ver? Esta era a carta que lhes ia mandar, a dizer para não virem no Domingo: não gosto de festejar os meus anos. Mas se eles fazem gosto em vir, que venham...”
“Que engraçado, comentou ele, o seu aniversário é mesmo na véspera do da Gracinha...”
“Olhe que nem sei quantos faço: noventa e um, noventa e dois...”
Despediu-se com um “até qualquer dia”, afastando-se na direcção do elevador.
“Até sempre”, preferiu ela da porta do quarto.
“Até sempre”, anuiu já próximo da porta do elevador, virando-se para a saudar, as mãos de ambos levantadas num aceno final.
Com o passar dos séculos, Graça foi definhando nele, os verdes momentos cobrindo-se de cinza. A vida retomou o seu curso monótono e dela apenas ficou a incapacidade de gostar de outra que não fosse por breve teimosia, como quem toma um remédio. Nesse afastamento desleixou também as visitas ao Sobralinho, quando se deu conta tinham passado oito meses sobre a última. Uma tarde de início de Outono voltou lá, o mesmo pacote de pastilhas de chocolate no assento do carro ao seu lado.
“Gosto muito de flores”, confessara-lhe com olhos interesseiros durante a primeira visita, “mas não gosto menos de chocolate...”
A senhora da recepção sorriu em reconhecimento quando o viu, mas desceu o véu da compaixão quando, poucos minutos depois, veio acompanhar à porta a desilusão dele.
A avó Graça morrera três meses antes, ali no lar. As netas vieram a correr, sobressaltadas por um telefonema a meio da noite, mas chegaram depois do último suspiro.  
“Ficaram desolados, sobretudo a menina Graça, que era muito chegada a ela. Mas olhe que a pobre foi-se em paz, sem sofrimento...,” acrescentou, como se isso pudesse aliviar o acanhamento dele, os seus remorsos.
Cá fora, os pavões exibiam os azuis e os verdes da plumagem na tarde.
***
Passaram, talvez, cinco anos. Um dia, ao sair apressado de uma agência bancária, quase a atropelara em pleno passeio. Nunca mais a vira e continuava bonita, apesar dos fios prateados que se mesclavam no cabelo, agora mais curto.
A avó Graça acabou por deter quase o exclusivo da conversa e, com os olhos tão fugidios como no passado, ela agradeceu o carinho que ele lhe dedicara.
“Fiquei muito surpreendida quando me contaram que ias lá visitá-la e, ao mesmo tempo, muito contente... Pobre avó, ali tão sozinha...”
De mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo ele detestava-se por não saber o que dizer, por sentir que a simples presença dela ainda o perturbava daquele modo. Então nada conseguira de afastamento, a nada servira a disciplina desses anos todos?
Ela já se despedia, com muita urgência de chegar não sei onde. Depois, para amenizar, para fingir que haveria um qualquer prolongamento daquele encontro, trocaram telemóveis. O número dela ainda era o mesmo, o dele mudara, mas que importava que ela, num emaranhado de tentativas e enganos, o tivesse registado? Nunca seria para utilizar e passar-se-iam mais dez anos até que o acaso os fizesse chocar de novo.... Foi por aqui que se enganou redondamente e, no preciso momento em que mastigava estas suposições, menos de vinte minutos após se terem separado no encontro na avenida, o telefone vibrou com o aviso de mensagem a chegar:
“Desculpa se um dia te magoei.”
Não respondeu. Já tudo dobrara o cabo das explicações e das palavras.


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O QUARTO DE HÓSPEDES

A casa está bonita
A dona está demais
A última visita
Quanto tempo faz

 Chico Buarque (“Suburbano Coração”)



Foi quando apareceram os Spectrum. Hoje tudo parece distante como máquinas de costura a pedal mas, na altura, aquelas máquinas fizeram-me ganhar uma porção de massa e Deus sabe como estava a precisar de mostrar que era capaz.
Contra a vontade deles – o meu pai era dono de uma pequena retrosaria e a minha mãe trabalhava com ele – licenciei-me em Filosofia, um sopro na esperança que acalentavam de ver a família subir um patamar no julgamento dos vizinhos. No entanto, graças a um professor que me achava uma mente espiritualmente irrequieta passei os últimos anos do ensino secundário a ler Sartre, Camus, Kierkegaard e outros do mesmo calibre; dá para imaginar o que este tipo de combustível pode atear numa cabeça de dezasseis anos! Fui parar a Filosofia e o que melhor me lembro desses tempos é que os corredores da universidade cheiravam a merda de cavalo por serem paredes meias com um quartel.
Cinco anos mais tarde percebi o difícil que é viver de ideias e dei comigo professor em Chaves, por um triz não arranjei trabalho no norte do país. Outro lustro passado e já não podia suportar os meus alunos ou o programa que era forçado a impingir-lhes; diga-se que também eles recebiam com entusiasmo antagónico os corolários de Espinosa e o toque de saída.
Chegaram os anos 80, que, à chegada, soaram como extravagantemente modernos e excitantes, e agora eu definhava em Braga, um progresso que me permitiu voltar a casa dos meus pais e ao meu quarto de porta sem chave. Foi então que surgiram por cá os Spectrum – esses espantosos computadores que dependiam de um leitor de cassetes para carregar o programa e de um ecrã de TV para se lhe ver as imagens – primeiro o ZX81, depois os outros; ao ritmo de um novo modelo por ano. Eu estava a precisar de me fazer um homem, de poder bater uma porta que fosse minha; troquei as ideias por circuitos integrados: foi o melhor que fiz.
O tipo que me alertou para a oferta de emprego, um  antigo colega de liceu que abandonou os estudos por volta do nono ano, era vendedor da Sinclair na área do Porto e Minho e claro que não me ofereceu a sua zona de caça, mas passou-me a informação de que o concessionário da marca em Portugal procurava um vendedor para o Sul. Estando Lisboa tomada, como fiquei a saber na entrevista, ficou-me o pedaço mais duro de roer, o território não desbravado do Alentejo e Algarve... Mas, Descartes seja louvado, o dinheiro que eu vim a ganhar com aquilo! Em pouco mais de dois anos o meu salário de filósofo quintuplicou e, note-se, ganhava à comissão. E que mina se revelou o Algarve com todos aqueles jovens mimados a demandar o sul como quem procura a Califórnia, aos quais, para o efeito, se deviam adicionar os numerosos estrangeiros que por lá viviam: ninguém conseguia resistir à novidade de uma máquina de flippers que podia ser jogada sem se sair de casa; que engolia o tédio como os glutões do Pac-Man, jogo que, juntamente com o teclado táctil de teclas de borracha azul, ia vendendo como pãezinhos quentes.


De praias, nunca passara da Apúlia e do Ofir. Não conhecia ninguém no Algarve, nunca lá estivera, nas mãos apenas a lista fria dos estabelecimentos que deveria contactar e convencer a comercializar o meu produto. Depois lembrei-me da Isménia, procurei numa agenda antiga o telefone dela. A Isménia dava História, fora minha colega em Chaves e enevoava-me a memória o ter ouvido dizer que leccionava agora num liceu algarvio.
Atendeu-me uma mãe desconfiada, que só acalmou quando percebeu o meu desconhecimento da vida presente da filha e reconheceu eu saber pormenores da vida passada suficientes para ser quem dizia que era. E, metendo a mão de permeio nos meandros, lá me deu o telefone actual da rapariga que, pelos vistos, partilhava casa com uma colega, como a filha professora no liceu de Faro.
– Não é bem na cidade, mas também não é longe e, por ser desviado, puderam alugar uma moradia com quintal por menos do preço que pedem por um apartamento!
Reconheci ser um grande achado e comecei a tentar desligar, mas ela ainda não estava preparada:
– A Meninha liga dia sim dia não, à noite; vou dizer-lhe que o senhor telefonou a saber dela...
A Isménia recebeu a minha chamada com alegria, com o entusiasmo de uma novidade em primeira mão. Entreteve-se a pôr-me a par do destino de alguns dos nossos colegas do liceu de Chaves como se isso me pudesse interessar: quem tinha casado; quem já tinha filhos e o respectivo sexo; quem mudara de escola. Depois, quando me permitiu que falasse e percebeu que a minha rota ia começar a passar pelo Algarve, borbulhou de entusiasmo, deu largas à famosa hospitalidade trasmontana:
– Claro que ficas aqui em casa, para que hás-de estar a gastar dinheiro em pensões ou residenciais que, ainda por cima, são um roubo por estas bandas?! Vivemos numa casa, temos um quarto a mais; e a Inês é uma tipa porreirinha, vais ver.
Mas entre a promessa de lhe bater à porta em breve e a sua concretização acabaram por se intrometer uns meses. Não que não tivesse entretanto descido ao Algarve, mas ainda morava em Braga e calculei mal a distância e o esforço. Cheguei a Faro derreado de tanta estrada e, depois de uma carne de porco com conquilhas num restaurante chamado Centenário, atirei-me para cima da cama de um dos quartos da primeira pensão que encontrei.
Voltei ao Algarve um pouco antes da Páscoa que, nesse ano, foi alta. Atravessei o Alentejo com as janelas do Peugeot escancaradas, aquele ar tépido era uma surpresa boa para quem largara de uma Lisboa chuviscosa. Dançando à minha volta, extensões suavemente onduladas, cobertas de um verde muito pastável, e a berma da estrada, como se fosse bordada, pontilhada por uns arbustos de flores brancas e odor resinoso. Nas colunas do Aiwa o Chico Buarque esforçava-se em se fazer ouvir por sobre a deslocação desabrida de ar que atravessava as janelas. Acabara de sair um disco novo dele – um daqueles álbuns sem título tão comuns no homem – e eu passara-o para cassete, pois andava viciado nas canções.
A casa da Isménia ficava além da saída para São Brás de Alportel e demorei a dar com ela, primeiro com a povoação (que aparecia e desaparecia nas placas de sinalização) e depois com a casa propriamente dita, uma morada sem rua nem número.
– Por acaso não me sabe dizer onde moram umas professoras que dão aulas em Faro...?
Era vago, mas de tanto repetir a pergunta acabei por chegar a quem me apontasse um telhado que, entre árvores, espreitava do lado de lá da estrada.
Com um pé no travão, desci com cautela as bossas de um caminhito em terra batida e virei num portão escancarado que abrigava um pomar de laranjeiras. A casa, térrea e sobre o comprido, ficava ao fim do laranjal.
Ainda surpreendido com a quietude reinante – de súbito parecia que tudo se calara em volta, à escuta do meu punho erguido – bati à porta, um sorriso chistoso a envolver a frase com que reencontraria Isménia ao fim de tantos anos:
– Vieste morar no fim do mundo, rapariga!
Mas quem abriu a porta não foi a Isménia. Reparei, primeiro, que estava descalça, em seguida nos olhos claros, ao princípio surpreendidos, logo depois convertidos num brilho disfarçadamente divertido ao assistir ao emurchecimento da minha expressão.
– Boa tarde – recuperei para o tom do estranho inofensivo –, venho à procura da Isménia Pinto. É aqui que mora, não é?
– É, mas ela não está...” – respondeu tranquilamente e, de súbito, a maleta que tinha na mão e onde levava os meus pertences ganhou o peso-morto das coisas fora de sítio.
– E não sabe se se demora...?
– Ela não está cá; foi numa excursão a Sevilha, com alunos. Férias da Páscoa...? Só está de volta daqui a duas semanas...
– Ah... É que tinha combinado com ela, quer dizer: pré-combinado, passar a visitá-la... Desculpe, não disse quem sou...
– Acho que sei... – respondeu com a mesma mistura plácida de curiosidade e divertimento nos olhos verdes – ela falou de si; é o antigo colega de Chaves, não é? A Isménia avisou que viria por cá um destes dias... Mas, perdoe, nem sequer o convidei a entrar...
– Não vale a pena, obrigado; ainda tenho de voltar para Faro. Por favor transmita à Isménia que passei por aqui, que volto noutro dia... Tentarei telefonar antes!
O olhar dela, como se estivesse ocupado noutros afazeres, pareceu congregar num todo as minhas mãos – uma pendurando a maleta, a outra o saco de plástico com a garrafa de vinho – e o sol, que desaparecia do céu correndo uma cortina rosada por entre a copa baixa das laranjeiras.
– Não, entre... Ia agora começar a pensar em o que fazer para jantar... Sei que a Isménia teria gosto em que ficasse cá. Não há nenhuma razão para que não fique: temos um quarto de hóspedes vazio.
Entrei com o passo cerimonioso dos hesitantes, estendi-lhe a garrafa:
– Tinha trazido isto...
Ela pousou-a na bancada da cozinha, apontou para uma porta entreaberta por onde se vislumbrava a semiobscuridade de um corredor.
– Venha, vou mostrar-lhe o quarto.
A casa repartia-se em duas metades, separadas justamente pela porta do corredor: de um lado havia o espaço amplo por onde eu entrara e em que convivia a cozinha, a sala de jantar e, ao fundo, uma pequena sala de estar com cadeirões de verga; do outro lado, ao que parecia, ficavam os quartos e a casa de banho.
O quarto de hóspedes deitava para o laranjal e era tristonho como geralmente são os quartos de hóspedes. Como mobília, uma cama de casal, uma mesinha de cabeceira sem par e uma cómoda tendo por cima um espelho embaciado pela falta de uso. Inês puxou a persiana de madeira, abriu uma nesga na janela e puxou uma gaveta perra à cómoda:
– Vou arranjar-lhe uma toalha. Ao sair feche a porta para o corredor ou, então, corra a persiana: temos por aqui bastante mosquitada, embora no Verão seja pior. Como vê a cama está feita a contar com a sua vinda...
Por alguma razão inclassificável – tudo isto o pensei depois, na cama silenciada do quarto de hóspedes – o jantar correu como se não fosse a primeira vez que nos sentávamos à mesma mesa, como se um qualquer encontro anterior nos tivesse preparado um para o outro. Inês cozinhava lindamente e o vinho tinto que levei casou bem com o strogonoff que preparou, assobiando baixinho quando se esquecia da minha presença.
Havia no ar uma tranquilidade que não me compelia a matraquear conversa de circunstância, mas, por não a conhecer bem, por temer que a apropriação da sensação fosse mais minha do que dela, acabei por dizer:
– Deixe-me ajudá-la nalguma coisa...
– Não vale a pena, a sério. Para além do mais não sabe onde está nada nesta casa... Às vezes nem eu sei, estamos ambas tantas vezes fora, as coisas têm um ar tão transitório como se isto fosse uma casa de praia!
– Então, no fim, deixe-me, ao menos, lavar a louça do jantar... Sinto-me um peso, assim sem fazer nada!
– Não se preocupe, gosto de lavar louça...
Mais tarde, já a mesa estava posta, os bicos do fogão desligados e a salada remexida, desapareceu por uns minutos. Voltou calçada, o cabelo, liso e de um dourado esmaecido, ajuizadamente alinhado à pajem e essas foram as únicas  formalidades com que assinalou a presença do estranho. Ou talvez fosse apenas o desconforto do chão de tijoleira a arrefecer com a noite.
Ao jantar expliquei-lhe um pouco o que fazia, ela pareceu sentir curiosidade pelo meu trajecto de vida:
– Como é que um filósofo decide pôr-se a vender computadores?
– Bem, por sufoco, acho eu. E depois, nunca me considerei um filósofo... foram as más companhias que me empurraram para ali! E a Inês, gosta do que faz?
– Para já... Mas, caramba, confesso que tenho algum horror a entrar um dia na sala de aulas e não saber o que estou ali a fazer!
 – A mim aconteceu-me precisamente isso: os alunos ouviam com tanto desinteresse o que tinha para lhes dizer que era doloroso continuar. Aturavam as minhas aulas como se fosse uma calamidade daquelas que não se consegue evitar, tipo ter de tomar banho mais do que uma vez por semana!
Ela riu-se, levantou-se da mesa para ir apanhar um maço de cigarros.
– Por aqui ainda se vai tomando banho com maior frequência, parece-me, quanto mais não seja de mar! Eu também sempre os seco com coisas mais concretas: bichos, plantas, rochas... Bem, vai-se vendo...
Ofereceu-me um cigarro e depois um licor de alfarroba, enquanto ia avisando:
– Nesta casa não há TV. Estamos sempre a dizer que um dia havemos de comprar uma, mas depois vem o pormenor de quem virá cá colocar a antena no telhado... E, no fundo, a Isménia prefere sair sempre que pode e eu passo bem sem ela: não é dos meus ruídos de fundo favoritos! Prefiro ouvir rádio ou estar em silêncio, a ler.
Por sugestão da dona da casa passámo-nos dos confortáveis bancos de pau em volta da mesa da cozinha, onde esgotáramos os cálices de alfarroba, para as cadeiras de verga do canto que era a sala de estar e, nessa mudança, alguma da ténue familiaridade que se criara entre nós desvaneceu-se no ranger dos móveis e no evidente pouco uso do espaço. Deixei-a acabar um novo cigarro, fiz chiar a minha cadeira ao colocar-me em posição na ponta do assento, e disse:
– Se não me leva a mal, vou andando para a cama. Foi um dia comprido e amanhã não vai ser melhor com 300 km para cumprir...
Ela passou dois dedos longos pelo corrupio que lhe avarandava o cabelo sobre a testa, e fitou-me com um olhar confortado, como se se tivesse dado conta do meu raciocínio e me estivesse grata por ter proposto o ponto final no momento exacto.
– Então vemo-nos ao pequeno almoço... Gosta de sumo de laranja? Natural? Aqui temos sempre laranjas doces, mesmo fora da época.
Deitei-me, revi o roteiro das visitas do dia seguinte no caderno de notas; confirmei as características e a quantidade dos aparelhos de 167´175´40 mm que, no exterior, sob as laranjeiras, dormitavam na mala do carro. Um pouco mais tarde senti-a passar para a casa de banho e, depois, fazer o caminho de regresso. Ao passar pelo quarto de hóspedes pulverizou a minha trincheira de mirone ao projectar através da porta:
– Boa noite, até amanhã.
Encostado na cama, à luz amarelada do candeeirinho, dei comigo, pensativo e de braços cruzados, no reflexo farrusquento do espelho.
Lá de dentro, da outra ponta da casa, chegavam-me sons morrediços; ela devia andar ainda a mexer pela cozinha ou pela saleta. Fiquei, esquecido, a tentar interpretá-los como se fossem hieróglifos sonoros. Depois fez-se silêncio; apurei o ouvido, mas não havia mais do que uma simples ausência de som. Apaguei a luz, deitei-me para baixo e, estranhando as reentrâncias do colchão, adormeci como um santo.


Descobri que alguma coisa se estava a passar quando a Isménia atendeu à porta e senti uma pontada fina de desilusão.
– Ora até que enfim Sua Excelência decide aparecer quando eu estou em casa!
– Não sou eu que passa vida a correr para Portimão... – respondi.
– E ainda por cima bem informado…–, disse ela, rindo e chamando por cima do ombro:
– Inês, olha quem chegou…
Ela surgiu, vinda da penumbra, uma mão apoiando o cotovelo do outro braço, onde um cigarro fumegava entre os dedos da mão; o sorriso caçado tomando conta da ombreira. 
Era a terceira vez que estacionava o Peugeot entre as laranjeiras e da última vez que ali estivera ela abrira a porta com um:
– Olha que a Isménia também não está hoje – e uma gargalhada pequena.
– Juro que desta vez deixei tudo na mala do carro –, retorqui, mostrando apenas uma mão ocupada com o cartuxo onde levava vinho e uns figos recheados com nozes para a sobremesa.
– Mas podes trazer as tuas coisas para dentro, se quiseres, o quarto de hóspedes continua sem hóspedes...
Sentindo-me recebido como se a casa tivesse acusado a minha ausência fui buscar a maleta ao porta-bagagens. E ela voltou a cozinhar para nós como da primeira vez e, igualmente, não quis que levantasse a mesa ou lavasse a louça.
– É uma pena não termos música aqui em casa, caramba, apetecia-me ouvir o disco do Chico de que falaste.
– Isso é fácil de resolver, caramba! –, respondi brincando e saindo para o quintal.
Aproximei o carro o mais que se podia da casa e deixei-lhe as portas e janelas abertas, o volume do Aiwa quase no máximo.
– Uma vez que não tens vizinhos, só os grilos é que se podem queixar...
– Cigarras, ou cega-regas, se preferires. Cigarras e grilos são insectos, mas de famílias diferentes...
E sorrira do seu posto na banca da cozinha, os braços nus enfiados numas luvas de borracha cor de laranja.
Nessa noite deixámo-nos ficar sentados à mesa da cozinha a fumar e a combinar figos com o resto da garrafa, para além do mais aquele local era o ideal para se ouvir a música que nos chegava pela porta aberta.
Despedimo-nos não davam as onze, pois no dia seguinte a minha jornada seria longa e a dela começava igualmente bem cedo. Pedi-lhe um livro emprestado para a noite:
– É um hábito que tenho. Às vezes não leio mais do que umas linhas, mas se não tenho nenhum comigo parece-me certo ir ter uma insónia...
Ela riu: – És como a minha avó com o Lorenin, o seu comprimido amarelo SOS. Nem sempre o toma, mas tem de o ter à cabeceira; de outro modo diz que não dorme...
Levou-me ao quarto dela para escolher um na estante de tábuas e tijolos da parede aos pés da cama, na qual se apoiava também um espelho antigo com fotografias entaladas na moldura. O quarto, caiado de branco, abria directamente para o espaço comum onde ficava a sala e a cozinha e, no lado oposto à porta, havia uma janela resguardada por barras de ferro onde ondulava à brisa um cortinado de tecido branco e quadrícula ténue que lembrava gaze.
– É bonito o teu quarto; faz lembrar uma cela de monge...
– De monja, neste caso! Também acho e foi muito fácil ficar com ele, pois à Isménia arrepia-a o facto de ser tão antiquado, de dar tão directamente para as traseiras da casa. Mas eu gosto desta janela gradeada, de ver os ramos da figueira encostados aos vidros. Se a noite está boa – depois de apagar a luz, claro, senão é uma desgraça com os mosquitos – costumo dormir com a janela aberta, gosto do cheiro que chega lá de fora, sobretudo quando as laranjeiras estão em flor...
– Por falar em cheiros, e já que és s’tora de Ciências, deves saber: que plantas são aquelas que enchem as bordas da estrada do Alentejo para baixo? Umas que dão uma flor branca, grande, que enchem o ar de um aroma forte, meio resinoso?
Ela riu, divertida com a minha botânica do bolso: – Com essa descrição só pode ser a esteva...
Regressei ao meu quartinho abafado e, apoiado num braço – a almofada era demasiado espalmada para que me pudesse recostar nela –, li duas páginas da Cerimónia do Chá, ouvindo como pano de fundo os sons caseiros que chegavam, amortecidos, dos lados da cozinha. Depois fechei o livro, pousei-o na mesinha de cabeceira e fiquei a cismar à luz amarelenta. Claro que seria bom tê-la ali ao lado, reflectida no espelho baço, espessando o tempo;  o tempo, que me parecia cada vez mais curto, daquelas visitas. Pairava um pouco de melancolia quando, a seguir ao “boa noite, dorme bem”, voltava ao quarto de hóspede e ela ficava para além da porta do corredor. Mas, concluí suspirando, mesmo assim era melhor do que não sentir o conforto da sua presença próxima, estivesse ela onde estivesse na casa.
Na manhã seguinte encontrámo-nos ao pequeno-almoço. Dei-lhe uma boleia até Faro e, premeditado como um criminoso, acabei por a deixar ao cimo da avenida, mesmo à porta do liceu, desculpando-me com piadas à empregado de café:
  Não me faz diferença nenhuma, é o automóvel que se esforça...
– Boas vendas! A gente vê-se por aí...
– Boas aulas. Obrigado por tudo... – despedi-me pela janela, o olhar pendurado na figura que se afastava.
E uma estúpida vontade de andar outra vez no liceu inalando-me o peito do azul da manhã. Remeti-a para segundo plano durante as minhas voltas pelas lojas de electrodomésticos, mas, na viagem para cima, a recordação dela intrometeu-se constantemente no meu fluxo de consciência, como se diz na Filosofia.


– Vai ter comigo às Pirâmides, tipo quatro da tarde, pode ser?

No telefonema da véspera fiquei também a saber que não encontraria a Isménia em casa, seguia directamente para Portimão ao encontro do fim de semana e do namorado. Inês ia a casa, pois só teria de estar de volta ao liceu na terça-feira seguinte, mas como tinha aula no primeiro tempo da tarde de sexta-feira só conseguiria apanhar comboio no sábado de manhã.
– Posso levar-te para cima, até Lisboa ou mesmo até Coimbra ou Montemor. Não tenho o fim de semana grandemente ocupado...
– A gente depois fala, tenho de ir que a Isménia quer usar o telefone.... Encontramo-nos nas Pirâmides...
Sorri, a coberto da linha. Agora, que a começava a conhecer, dava-me conta que era um pouco assim, reservada, como se só ultrapassasse o patamar dos monossílabos quando um número suficiente de questões ou pensamentos se acumulavam, empurrando-a pronunciar-se.
As Pirâmides eram um café-esplanada cujas mesas se dispunham em volta do coreto da praça em frente ao porto de Faro. O nome vinha-lhe da cobertura das instalações, a qual imitava o pontiagudo do tecto de uma barraca de praia e, como tal, se toldava também em riscas azuis e brancas.
Quando cheguei já me esperava, sentada a uma mesa abrigada pela parede do coreto. Estava uma tarde de Junho a quem não se podia pedir maior perfeição: quente, sem o ser demasiado; serena, no quase silêncio dos ruídos da cidade que chegavam até ali e na sensação reinante de ocupações concluídas de quem passava – o todo abençoado por um firmamento de puro anil. Pude aproximar-me e olhá-la sem que reparasse na minha chegada, pois estava entretida a tomar apontamentos numa agenda. Vestia uma t-shirt de uma cor que se furtava do azul-bebé ao azul-cobalto e que lhe deixava os ombros descobertos,  e o cabelo, no seu corte em formato de sino, tombava-lhe sobre a face, refulgindo cor de linho à luz do sol. Ao sentir-me levantou a cabeça, protegendo os olhos com uma mão em pala.
– Blue and green should never be seen... –, cumprimentei, zonzo de todas aquelas tonalidades.
– Ah...? – ela pousara o caderno, continuando a fitar-me com os olhos estremunhados de luz.
– Diz-se que o azul e o verde são cores incompatíveis, que não devem ser usadas juntas, mas estava a ver-te e a pensar que há sempre uma excepção para tudo...
– Qual verde? – olhou-se como se pudesse ter deixado escapar uma cor na roupa que escolhera: a t-shirt cabeada, as calças folgadas de sarja creme, as sapatilhas azuis orladas de borracha branca.
– Os teus olhos...
– Que tolo! Vá, senta-te que, por falar em verde, me tapas a vista da água...
Sentei-me, empurrei o embrulho por sobre o esmaltado encarnado da mesa:
– Despachei-me cedo, enquanto fazia horas comprei-te uma coisa...
– O que é...?
– Vê! É um livro; espero que ainda não tenhas...
Desembrulhou-o, um meio-sorriso de gula infantil afogado na franja do cabelo.
– Caramba, como adivinhaste? A Insustentável Leveza do Ser, tem-me falado imenso, andava cheia de curiosidade... Já o leste?
– Acabei de ler... Saiu há uns meses; achei que ias gostar...
– De certeza...
Apoiou-se sobre o braço largo da cadeira para alcançar a carteira e uma das alças da t-shirt resvalou pelo ombro, criando um decote transitório por onde o meu olhar foi sugado com a rapidez de um abismo. Enfiou o livro na carteira, depois inclinou-se para trás e deixou-se escorregar pelo encosto de lona, o verde dos olhos perdendo-se no verde mais escuro da baía. Ficámos assim, calados, uns longos minutos, a minha palpitação azul desarrumada pelo contorno do ombro dela a centímetros de mim, diminutos pelos delineando em poalha dourada o relevo do bíceps. Depois, como se a tensão a tivesse contagiado, quebrou o silêncio:
– Queres continuar aqui ou vamos andando? Onde tens o carro?
– Como quiseres. Está ali, por trás do Hotel Eva...
– Então vamos, antes que apareça alguém conhecido a chatear-nos.
Ela nunca explorava o assunto ou se detinha a nomeá-lo, mas ia-me apercebendo nos requebros do discurso, pelas frases inacabadas (como se eu as pudesse completar sem ajuda), até na crueza de algumas observações da Isménia que Inês, na sua mudez, parecia não querer para ali chamadas, ia-me apercebendo, dizia, que havia uma presença, quase oculta, na vida dela: um namorado que ficava vagamente lá para o norte, que, às vezes, vinha cá baixo em visita; entrevira uma fotografia, não muito nítida, entalada na moldura do espelho do quarto dela. E assim como a mim, suspenso no presente, não me interessava chamar por essa faceta da vida dela, ela, por seu lado, parecia preferir tomá-la por inexistente e, nessa lógica, um “antes que apareça alguém a chatear-nos” era mais do que suficiente para deduzir que, uma vez que eu não conhecia ninguém na cidade, ela se poderia estar a referir a conhecidos do seu outro mundo, um mundo no qual eu me despenhara um dia, sem paraquedas. Talvez também ela não estivesse à minha espera.
– Vou pagar... – informei.
E do balcão, enquanto esperava o troco, fitava a minha loura bonita, perguntando-me o que fazer para chegar até ela, como percorrer as milhas náuticas que me separavam do acto tão elementar de estender uma mão e abraçá-la. O que me impedia? Um namorado bruxuleante, porventura um apeadeiro provisório entre dois portos? Na mesa, esperando-me, o olhar dela estava deitado para longe, entretido num barco que saía para a ria e dividia as águas como talvez, naqueles dias, a minha presença a estivesse a dividir entre um desejo e um remorso. Mas, essa tarde, era já uma felicidade, um valor que me distinguia, o saber ser o destinatário da espera dela, que a espera dela me pertencia.
– Podemos ir, princesa... – disse ao regressar à mesa.
Olhou de baixo para cima e num tom de voz quase suplicante, pediu:
– Não me chames isso...


Pela minha mão, em cima da mesinha de cabeceira tinha só ficado A Cerimónia do Chá, o livro que me emprestara numa dessas primeiras noites em que dormi no quarto que dava para o laranjal, mas, hoje à noite, havia, empilhada, uma pequena resma deles, como se alguém ávido de leituras ali tivesse dormido ultimamente ou, mais prosaicamente, como se para ali tivessem sido encavalitados em trânsito livros a destinar em melhor altura. É para isso que também pode servir um quarto de hóspedes, para adiar decisões e desatravancar circuitos mais imediatos.
Ou, pensei, nu, ao enfiar-me na cama, como se uma qualquer entidade, numa  previsão divina, pudesse ter antevisto que nessa noite eu iria precisar de abundante entretenimento, de matéria para entreter a insónia até de madrugada, pois todo eu me debatia numa agitação interior que não parecia poder resolver-se por si própria.
Sem, ao menos, passear os olhos pelas lombadas peguei no livro que encimava a resma e, encostado à cabeceira da cama, abri-o sobre o peito. O livro cedeu entre duas páginas onde um papel aprisionado funcionava como uma marca de leitura, aí criando maior probabilidade de abertura. Era um pequeno papel branco, de recado, e nele estava escrito em letra arredondada e feminina:
“Quem dera que esta noite estivesses aqui à minha beira.”
Mais nada. Não havia assinatura. Não havia mais papéis nem mais recados no livro ou em todos os outros da pilha, que me apressei a sacudir e vasculhar. Não havia pista que conduzisse a uma sugestão de resposta à pergunta que, de imediato, subalternizando todas as anteriores, se me cravou na mente: Teria aquele recado sido escrito em minha intenção ou, pelo contrário, aquelas palavras eram sobra fria de um episódio passado, alheio? A letra seria a dela? Ou a da Isménia ou, quem sabe, de outra gaja qualquer que um dia tivesse deixado um recado num livro? A bem ver, aquele recado podia ter sido escrito em Faro, em Braga ou na China e ter ido ali parar numa permuta de livros! Não tinha maneira de o saber e tudo quanto conhecia da letra dela eram as raras palavras sarrabiscadas numa lista de compras... Quanto ao livro onde encontrara o papel (Justine, de Lawrence Durrel), nele não figurava nome de dono na página de rosto: como saber então a quem pertencia e, mesmo que o soubesse, que acréscimo isso traria?
Será que teria sido ali posto (o livro e o recado, ou o recado dentro do livro – que já lá estaria) nesse dia, depois de chegarmos e tendo em conta o que sucedera desde a chegada a casa? Poderia ela tê-lo lá colocado enquanto eu, como um danado, desiludido por ter queimado todos os indícios da noite, esfregava os dentes no espelho do quarto de banho?
Pus-me a revasculhar todos os fotogramas do dia, desde o momento em que chegáramos a casa vindos das Pirâmides, e as oportunidades que teria tido de entrar no quarto e enfiar o papel entre as folhas do livro ou, até, de colocar um livro marcado sobre a pilha pré-existente. Que idiota!, eram mais do que muitas as abertas: estávamos em sua casa e, ao invés de um hospedado, ela movia-se quanto queria entre as duas partes da casa. Aliás, ao chegarmos de Faro, logo a seguir a ter regressado à cozinha de pousar os meus pertences no quarto de hóspedes, ela atravessara-me com uma muda de roupa nas mãos e, em trânsito para o corredor, deixara, ao passar, uma frase a serpentear no ar:
– Vou tomar um duche, estou toda pegajosa! Não queres vir tomar um?
Aquela proximidade entre o banho dela e um possível banho meu, a contiguidade temporal e o quarto de banho único; o desaparecimento silencioso sobre uns pés descalços e por uma tijoleira tépida de um corpo todo pegajoso entesou-me os nervos numa tal crispação que dei por mim a responder para o vazio:
– Para já não, obrigado... – pois não consegui desdobrar coragem para explorar as nuances do convite.
Será que teria sido na esteira desse atrevimento de jogos aquáticos? Será que o livro com o recado – ou o recado, sem o livro – ia dissimulado naquela pilha de roupa limpa? Mas eu estava suficientemente perturbado a encenar como natural aquela visão de roupa interior, aquela sugestão de água sobre um dorso que deixava escorregar uma t-shirt sem soutien, para poder reparar nos entrefolhos da trouxa que ela sobraçava.
Aquela noite de sexta-feira teve para mim o sabor de uma última noite, como se toda ela anunciasse a passagem para um outro patamar de relação – alguma coisa teria de acontecer entre nós, nem que fosse um nada mais vincado.
Ela regressara do banho ainda com nódoas de um episódio molhado, revelando-me, visita jazente num cadeirão da sala, a intimidade de um cabelo húmido que lhe evidenciava o torneado do corrupio sobre a testa, a finura do pescoço, e que no louro agora mais escuro a faziam parecer outra mulher. Espreitando do meu respeito parado de hóspede como gostaria de poder vencer a paralisia, de me levantar e intrometer naquele pescoço elegante, demorar os dedos nas marcas de água que tinham pingado do cabelo para o recorte redondo da t-shirt largueirona; abraçá-la e rumorejar o que me inspirava no seu pisar leve, no seu silêncio, na sua reserva de fada do norte:
– Princesa...              
– Preferes batatas ou arroz a acompanhar...? – quis saber, enrolando uma toalha em volta da cabeça e aparecendo, sob aquele turbante, como uma terceira ninfa de pestanas de linho e olhos cintilantes.
Desisti. Li uma última vez o recado e, vencido pelo recato do hóspede cortês, apaguei a luz do candeeirinho e deitei-me, dando-me, de novo, conta de como a noite estava quente e o quarto abafado, a pele suava-me no vinco onde o livro repousava. A casa estava em total silêncio, mas, de fora, chegava o bramido ensurdecedor das cigarras. E se o bilhete era para mim? E se ela, surpreendida, pasmada pela minha indecisão, que tropeçava na dela, resolvera dar um empurrão ao assunto? Pois não seria perceptível na linguagem do meu corpo, dos meus olhares, dos meios-termos, que estava alterado e que a causa só podia ser próxima...? Quando agora ouvia o disco do Chico Buarque todas aqueles versos pareciam ter sido escritos por encomenda para cantar um prelúdio de romance a passar-se em Portugal: “A casa está bonita, a dona está de mais, a última visita quanto tempo faz...” E ela não me parecia indiferente a tudo isso... Que diabo, aquilo não podia ser só eu, a intimidade fora crescendo com as minhas visitas, havia ocasiões em que sentia que nos tínhamos afeiçoado como as duas metades de uma concha. E, se assim era, que perda irreparável para ambos estaria eu a provocar não dando seguimento ao recado escrito; que oportunidade – talvez única – estava a desperdiçar; que descortesia, mesmo, estaria a perpetrar perante uma iniciativa tão corajosa...
Ela comprara tamboril, raia, safio, propusera uma caldeirada à algarvia... Estava a refogar cebola e pimento no fundo de um tacho, um cheiro apetitoso subia na cozinha. Na bancada, eu cortara pão caseiro às fatias, abrira uma garrafa de vinho branco, servira-lhe um copo e beberricava o meu olhando os despojos do crepúsculo pela porta aberta, as laranjeiras, perfilando-se em negro no desmaiado  do ocaso, libertando o seu perfume doce.
– Já viste o poente? Olha só esta calmaria...
Ela levantara os olhos do tacho por um momento. Depois tapou-o, pousou a colher de madeira sobre o testo, regulou o gás no mínimo, acendeu um cigarro e veio fumar para o meu lado, encostada à ombreira da porta. Disse:
– Uma vez, ao crepúsculo, na estrada de Montemor para Coimbra, tive quase uma visão: vi cair poeira das estrelas sobre um velho que estava sentado no muro de uma casa na berma da estrada. Tive a certeza de que ele não ia andar muito mais tempo por cá...
Voltei a acender o candeeirinho, olhei o relógio: faltavam vinte minutos para as quatro da manhã. Sentei-me na borda da cama, reli o recado:
“Quem dera que esta noite estivesses aqui à minha beira.”
Enfiei as calças e abri a porta do quarto como se tencionasse deixar a casa sem que ninguém desse conta.
A porta ao fundo do corredor estava meio aberta e, embora não houvesse luzes acesas, uma luz ténue alumiava o caminho, cortesia de uma casa transitória, sem cortinas nas vidraças, e de uma noite enluarada no meio do campo.
No quarto dela a porta estava encostada, empurrei-a vagarosamente. Ao fundo, a janela devia estar aberta, pois o cortinado de gaze ondeava, leve como espuma, e apercebia-se o traço negro das grades à claridade exterior. Ela dormia de costas para a porta, deitada de lado, o contorno do corpo desenhado pelo lençol que a protegia.
Acocorei-me junto à cama, chamei baixinho:
– Inês...
Ela não respondeu, dormia, talvez.
– Inês – voltei a chamar, desta volta tocando-lhe ao de leve no ombro.
Ela acenou um pouco, dando a entender que me ouvia. Estendi o papel sobre ela, de modo a que lhe ficasse frente aos olhos.
– Encontrei isto num livro do meu quarto; fiquei a pensar se podia ser para mim..., por isso vim...
Sem se mover, sem se voltar, sem se exaltar, ela disse:
– Não, não era para ti...
Voltei a tocar-lhe o ombro.
– Desculpa ter-te acordado, mas precisava ter a certeza...
Fiz a volta em menos de metade do tempo do trajecto inicial, uma dimensão de imbecilidade a crescer em mim, a garantir-me que a segunda parte da minha insónia seria, agora que a expectativa fora decepada, bem amarga. Despi as calças, apaguei o candeeiro e decidi que mal a luz da aurora surgisse escreveria um bilhete a despedir-me e pôr-me-ia a andar, lamentando o caminho entre as laranjeiras não ser em declive, pois, se o fosse, partiria em ponto-morto e evitaria a intromissão do motor no sono dela, na minha vergonha.
Deitado, incapaz de acender uma luz e entreter o tempo que me restava lendo, percorri uma vez mais as contas do rosário, os indícios daquela noite, de outras visitas ao Algarve. A penúltima vez, por exemplo. Dessa vez Isménia estava em casa e, era inseparável do seu temperamento expansivo, monopolizara tudo, não deixando instalar-se uma réstia daquele silêncio sereno que pautava as visitas quando só Inês estava em casa. Desconfio que isso nos fez falta aos dois, pois, no cigarro que fumámos antes de ir dormir, sentados na soleira da porta, ela perguntara com o tom inexpressivo de quem faz conversa:
– Amanhã vais logo para cima...?
– Não, só a meio da tarde. Ainda tenho a minha volta por Albufeira e Lagos. E tu, tens aulas cedo...?
– Amanhã não tenho aulas... Vou ficar por aqui a corrigir testes.
A ideia surgiu-me como o penso-rápido para redimir aquela visita tão fruste.
– Não queres vir comigo? Quer dizer: não é um programa fantástico, mas fazias-me companhia... Depois trazia-te aqui, subia por Alcoutim e Mértola até Beja...
– Que seca, coitado... – e não percebi (nunca tinha a certeza com ela) se a seca era o programa que lhe propunha ou os quilómetros de curvas bravias que me esperavam no itinerário que decorria do vir deixá-la a casa. Depois esmagou a ponta do cigarro numa pedra, levantou-se e despediu-se:
– Está bem. A que horas te dá jeito sair?
Em Inglaterra, a estratégia da Sinclair para vender Spectrum em massa passara por estabelecer pontos de comercialização em postos de vendas de jornais: vender computadores em quiosques, como é que ainda ninguém pensara nisso? Em Portugal, a nossa abordagem fora mais tímida: como para pôr o computador a correr os jogos se tornava necessário um leitor de cassetes e uma TV, era nas lojas de artigos para casa que eu atacava, apresentando o produto como uma espécie de electrodoméstico do futuro...
Inês deu a volta comigo às lojas onde já tinha estabelecido contactos em Albufeira, Portimão e Lagos. Não entrava, ficava cá fora a dar uma volta nas cercanias; em Albufeira apanhei-a a espreitar pela montra, talvez intrigada em avaliar ao vivo a minha faceta de filósofo que deu em homem-de-negócios.
Almoçámos com vista de água na Praia da Rocha, estava ventoso na esplanada e ela usou a echarpe como lenço de cabeça, uma ponta a esvoaçar como se quisesse fugir para o céu. Mas como é que eu, tendo-a já contemplado tantas horas, nunca tinha reparado que era tão bonita?! Talvez ela fosse do estilo das que se impregnam devagar – hoje os olhos, amanhã o cabelo, depois as mãos e os gestos que vêm com elas – e, de repente, surge o todo que não mais larga o desejo de estar por perto e dão à ausência uma ressonância côncava. Esse dia fora definitivo para esculpir um tal tipo de sentimento em mim, é possível que seja por isso que, passados todos estes anos, a associe a um arbusto de trombeteiras que vimos em Lagos num canteiro subido, encaixado entre a parede e o contraforte de pedra roída de uma igreja antiga.
– Topa-me só o amarelo daquelas flores – comentei – parece uma manif de altifalantes de gramofone!
– Aquilo é uma Datura mollis, tolo! Fica sabendo que aquelas lindas flores são super-tóxicas, têm propriedades alucinogénicas!
– Não me diga, senhora professora! E se levássemos algumas para o chá...?
Há males que vêm por bem e se o mal – regressado de apanhar uma tampa no quarto dela – foi o de não ter tido coragem de acender a luz para entreter a insónia com leituras, o bem beneficiou de a falta de luz no quarto de hóspedes, situado na ponta mais escura da casa, não permitir mais do que o vislumbrar do relevo da janela. Assim, quando a porta do quarto de hóspedes se entreabriu e ela deslizou sem uma palavra para dentro da minha cama, nenhum de nós teve de ver as respectivas expressões, a minha, sem dúvida, de maravilhamento pelo desejo que já não se espera realizado – uma cara imprópria para ser vista àquela hora.
Quando acordei, jazia sozinho na cama e a luz estorcia-se por todas as frestas das persianas, o sol devia ir alto. Não dei conta que se tivesse levantado e o ela não estar ali tinha o sabor de um mau pressentimento. A porta do quarto estava fechada, a camisa de noite sumira-se e da casa não vinha o mínimo ruído; não fosse o cheiro na ponta dos meus dedos e podia julgar que adormecera em devaneio ou que passara a noite com um fantasma. Mas não: ela metera-se na minha cama, decidida, embora possivelmente contaminada por um remorso, pelo que as minhas mãos encontraram um corpo tenso sob a suavidade da pele; uma sensação estrangeira no toque macio daquele cabelo que tanto tinha imaginado mimar. Sim, apesar de tudo não houvera intimidade no encontro, mais um desespero, mas eu estava suficientemente apaixonado para o menorizar e adormeci abraçado a ela como, na escuridão, se prende o passaporte no dormitório de um país perigoso. Espreitei o relógio, eram dez da manhã, hora de irmos embora, de a deixar em Lisboa.
– Não queres que te leve a Coimbra? – perguntara-lhe na véspera, no fim do serão, antes de aceitar que a noite terminara ali e chegara o momento de ir cada um para o seu quarto, mas ainda preso à esperança que alguma coisa pudesse suceder naquele diálogo final.
– Não, obrigada, Lisboa é suficiente – Hesitou e acrescentou: – Vão-me buscar a Coimbra B, já combinei...
– Tu é que sabes, a mim não me custa nada – respondera, fazendo daquela resposta o ponto final definitivo daquela visita ao Algarve. Fosse o que fosse – julgava eu – que estivesse escrito para acontecer entre nós não o ia ser já, não ia ser hoje.
Encontrei-a na sala a inspecionar o frigorífico, a dar os últimos toques na casa, uma mala já estacionada à porta da cozinha. Vestia uma t-shirt preta, uma saia curta e parecia acabada de nascer. Recebeu-me com um sorriso familiar, contente:
– Olá, dormiste bem?
– Senti a tua falta ao acordar...
Disse que era melhor irmos andando.
Vista de aqui, foi uma viagem feliz. Subimos o Alentejo por Alcoutim e Mértola,  almoçámos numa tasca perdida num desvio da estrada, numa mesa cá fora com vista para um biombo de montes e, na lonjura, a planície; o dono a improvisar um repasto de pão, azeitonas, salada de tomate e febras a recender a limão. De vez em quando ela pousava a mão na minha, sorria. Outras vezes o olhar toldava-se-lhe, o presente estremecido por algum pensamento turvo.
– Que foi? – perguntei num desses momentos – fala comigo, podes falar comigo...
– Estou preocupada... Não sei como vai correr este fim de semana... Já deves ter percebido que tenho um namorado... Ele não anda muito satisfeito com as visitas que me tens feito...
– E sabe que estou aqui, esta vez? – inquiri, tentando aperceber o quanto, na realidade, estivéramos a sós na noite anterior.
Acenou afirmativamente. Acrescentou:
– Ficou muito zangado. Contei-lhe ao telefone que vinhas, ontem, antes de ir ter contigo às Pirâmides. Sabe que a Isménia não está cá, tem-se apercebido de cada uma das tuas visitas e deve ter havido alguma coisa no modo como falei de ti que o fez sentir mal, desconfiar... Sinto que, desta vez, me vai fazer uma grande cena...
Tirei a mão do volante e fiz-lhe uma festa no joelho, deixei-a pousada sobre a coxa dela, nua e desamparada.
– Sabes uma coisa? Se calhar o melhor é não contares nada; seja o que for que digas não vai adiantar: ficará sempre furioso contigo, comigo, é inevitável...
– Não sei se consigo...
Estendi a mão, ela entrelaçou os dedos nos meus até à próxima terceira que tive de engatar.
Em Santa Apolónia já entardecia, não tivemos tempo para voltarmos a estar face a face. Ao estacionar o carro voltei a perguntar:
– Não queres mesmo que te leve a Coimbra A, quiçá a Montemor-O?
– Tolo...
Acompanhei-a à gare. Abracei-a como um namorado que se vai despedir da amada que parte, mas logo vai voltar. Temendo os incidentes que a separação podia arrastar, voltei a sugerir:
– Não contes nada de nós, Inês, sobretudo não entres em detalhes; é o melhor...”
– Vamos ver...; depois digo-te o que se passou...
– Telefonas-me, logo que possas? Vou ficar à espera, dia e noite...
Sorriu debilmente e, como tinha uma mão no tirante que auxiliava a subida do estribo para a carruagem e outra a segurar a mala, não pôde limpar no imediato a lágrima que lhe escorregava pela face.
Regressei ao Peugeot com a alma enrodilhada nos pés.
   

Telefonou terça-feira, já noite. Foi breve e lacónica, calculei que talvez não pudesse falar à vontade.
– Achas que podes vir cá esta semana? Quero dizer-te uma coisa e preferia que não fosse ao telefone...
– Posso ir aí quando quiseres – prontifiquei-me, o coração esperançoso pela surpresa de a poder rever tão cedo –, mas, diz, como correu o fim de semana?
– Depois falamos...
Já era demasiado em cima da hora para que conseguisse ir no dia seguinte, inventar um pretexto e desaparecer da Sinclair. Telefonei a Inês comunicando que poderia aparecer em casa dela na quinta ao fim da tarde ou, se não desse jeito (e nesta fórmula estava a incluir a plausível presença de Isménia durante a semana), na sexta, logo a partir da manhã. Dormiria em Faro e procurá-la-ia logo que ela pudesse, na cidade ou em casa.
– Vem ter aqui a casa na sexta de manhã...
E, deste modo, arranquei para sul sem perceber se a escolha de sexta-feira teria a ver com o facto de não me querer tão cedo no quarto de hóspedes ou se a precaução se devia apenas à possível interferência da Isménia num reencontro tão especial. Estrada abaixo, sob um céu azul que se ia adoçando em dourados para o lado do poente, fui-me convencendo que a razão mais certa era o evitar que Isménia se atravessasse entre nós e embebendo na ideia de que, sendo de novo fim de semana, não havia motivo para que não pudéssemos dar continuidade ao romance interrompido. Nessa esperança, na sexta de manhã, ao deixar a Pensão Nautilus, passei na mercearia pegada ao Café Aliança onde comprei uma garrafa de vinho, um pacote de figos com amêndoas e mandei que me aninhassem na palha de papel de uma caixa de cartolina uma dezena de galinhas, joaninhas, tartarugas e outras figurinhas de maçapão.
Ela deve ter ouvido o carro descer o caminho de terra e esperava-me à porta da cozinha. Não disse nada quando esvaziei o saco com as compras em cima da bancada, perguntou-me se tomava um café, estava justamente a fazer um para ela. Depois acendeu um cigarro e levou-me para a sala de estar, onde dei por mim a remexer o açúcar na chávena como se fosse uma visita de cerimónia. Menos de uma hora depois serpenteava sem rumo pela estrada para Vila Real de Santo António, perdido por não atender às placas de sinalização; sem saber o que fazer, para onde ir, guiando como um autómato. Por hábito, premira a tecla do Aiwa e o Chico Buarque cantava:

Movendo as bocas
Com palavras ocas
Ou fora de si
Minha boca
Sem que eu compreendesse
Falou c’est fini
C’est fini...

O namorado estava à espera em Coimbra B e ela percebera logo pelo beijo esquinado, pela brusquidão com que batera a tampa do porta bagagens após atirar a mala dela lá para dentro, que bastava um rastilho para que a tempestade se despenhasse.
Depois de debicarem uma refeição tardia num café quase deserto, durante a qual ele evitara olhá-la de frente, tinham ido directamente para o apartamento dele e a tempestade fora desencadeada por um mensageiro que anunciou:
– Então, o que tens para me contar deste teu fim-de-semana?
Como se não fosse ainda Sábado e o fim-de-semana já tivesse terminado! Cansada por aquele dia que teimava em se arrastar, constrangida ao pressentir que o que se seguiria ia encher de salpicos de lama um canto do seu coração que acarinhava; tentando respeitar a lealdade que a relação com o namorado lhe merecia mas irritada com o seu tom de direito absoluto sobre ela, dera por si a contar tudo, para ver se despachava aquilo e podia ser deixada em paz, ir dormir. Mas este género de transacções nunca é simples ou breve e já amanhecia e o julgamento continuava, agora no quarto, para onde ela se arrastara depois de informar:
– Já te disse tudo. Agora vou-me deitar, não aguento mais.
Para trás ficara o momento em que, ao descobrir na carteira dela o livro que, na folha de rosto, se dedicava “Para a Inês com um beijo”, ele regara com gasolina de isqueiro a Insustentável Leveza do Ser, o qual, afogadas as chamas que ameaçavam atingir a fórmica dos armários da cozinha, ficara a fumegar abominavelmente dentro da pia de lavar a louça. Na onda de fúria seguinte, ele quisera saber todos os detalhes do que se passara em Faro nos últimos três meses, detalhes exigidos numa cronologia microscópica e demente. E, a partir de determinado nível de confissão, o saca-rolhas não servira outro intento do que o esfuracar  uma ferida que já não sangrava. Tudo aquilo era mórbido e, pior do que isso, entediante e Inês acabara por adormecer de exaustão. Mas, mesmo no seu sono ligeiro, era erraticamente arrancada dos braços do esquecimento para dar com uma face torturada que, debruçada sobre ela, censurava:
– Como é possível que possas dormir numa altura destas?!
E ela, que já mal pensava, respondia, contando o que já contara, escolhendo as palavras que, calculava, pudessem magoar menos, mas que só tinham como efeito incendiar, de novo, a suspeita:
– Não foi isso que disseste há bocado!
No Sábado, já depois das duas da tarde, dois pobres destroços acordaram, cada um na sua extremidade da cama. O ambiente no apartamento era lúgubre e ele, mal se levantara, encarara com exasperação a trouxa vestida deitada na sua cama para lhe lançar, como se fora uma acusação:
  Não te esqueças que ficamos de jantar hoje nos teus pais!
No caminho para Montemor, enquanto ela olhava a paisagem pela janela, tal se pretendesse, naquele alheamento, maquilhar o presente e chegar a casa como sempre chegara, ele fizera a sua proposta de reconciliação, a qual incluía a promessa de ela nunca mais ver esse gajo ou entrar em contacto com ele, a não ser para lhe ordenar, à distância, que desaparecesse da vida dela. Inês prometera e, sendo uma honesta discípula da verdade, cumpriu escrupulosamente tudo quanto acordara. Apenas achou, nesta mesma inclinação em ser correcta, que eu merecia mais do que um telefonema e, agora que compreendera o valor cambial de uma mentira piedosa, o segredo deste último encontro deveria ficar entre nós.
Tudo isto, bem examinados os factos, mais o reconstitui em sua sequência e gradações de negro e cinzento do que propriamente ela mo revelou. Nessa derradeira manhã na casa do laranjal ela foi concisa e parca em palavras – estava decidida no caminho a tomar e não queria atraiçoar o que prometera nem mostrar-me demasiado sobre esse seu caminho, uma vereda que, tendo de passar por mim, me empurrava para as silvas da berma. Condensou a narração da entrevista em Coimbra, que classificou como horrível, a um mínimo; citou a queima do livro como sinal do sentimento geral a meu respeito e, finalmente, tornou cristalina a sua opção final quando, fitando-me com olhos que partem e uma voz morrente, ordenou:
  Agora vai embora, por favor...
Levantei-me, ela permaneceu sentada na cadeira de verga da sala de estar, em frente às chávenas vazias. Não veio à porta dizer adeus enquanto eu dava a volta ao carro e me afastava em direcção ao portão. Eu, eu sim, espreitei pelo espelho retrovisor até deixar de ver o telhado da casa.
Esse fim-de-semana o meu T0 na rua Inácio de Sousa, em Benfica, recebeu-me tão desinspiradamente que, precavendo passá-lo afundado na cama, virei a tromba do Peugeot para norte e fui até ao Porto, constituindo-me numa visita pesada para os amigos. No dia seguinte, ao regressar a Lisboa, apeteceu-me virar à direita pelas estradas que levavam a Montemor-O-Velho, vejam só como é estúpido, se nem sequer ela lá estava! Pela amostra podem calcular o que me passou a custar ir a Faro e não a poder procurar. Nunca a vi, nem por acaso, embora subisse às vezes a avenida do liceu e esticasse o pescoço para o desvio da casa no meio do laranjal quando, torturando-me, decidia deixar o Algarve pelo caminho mais sinuoso.
Como não a encontrava, não me era autorizado vê-la, nem tinha notícias dela, e porque a um coração não é fácil renunciar a uma promessa que nunca fez, telefonava às vezes, sempre muito menos do que desejava. Ligava pelo fim da tarde, quando calculava que já estivesse em casa; às vezes ao Sábado, pelo fim da manhã, esperando que nem sempre passasse o fim de semana em Coimbra ou em Montemor. Ela deve ter captado as entranhas das minhas estratégias e nunca atendia. Minto, atendeu uma vez, porventura desprecavida, e numa voz onde havia súplica e mágoa pediu:
– Por favor não ligues mais para aqui...
Fiz-lhe a vontade, contive-me um mês, talvez quase dois; depois voltei a ligar e numa das tentativas atendeu a Isménia. Em vez de desligar, como fazia quando era ela, falei; falei para saber como iam as coisas, esperando que desse informações espontâneas sobre Inês. Não mas deu e, em desespero, carregando pela boca a voz de neutralidade, perguntei:
– E a tua colega, vai tudo bem com ela...?
– A Inês? Sim, está boa; só deve ficar por cá mais este ano lectivo, sabes? Ficou noiva, quer ir para cima, ver se fica colocada em Coimbra. Tenho de pensar no que vou fazer com esta casa, é grande de mais só para mim; dou comigo em doida a pensar em ter de ficar aqui sozinha...
Os Spectrum passaram de moda, toda a gente já parecia ter um, começaram a aparecer máquinas mais sofisticadas e potentes e a estrela da Sinclair mirrou. Arranjei emprego na IBM, as minhas viagens internacionalizaram-se, deixei de ir ao Algarve por profissão. Ao fim de dois anos dei por mim a pensar nela com menor frequência, parei de me preocupar tanto com a análise retrospectiva do que tinha representado o nosso breve encontro.

Um dia, numa ida ao Porto no Natal dei de caras com a Isménia no Norte Shopping, quase chocou comigo ao virar-se de uma máquina Multibanco. Pelo final do encontro considerei já ter dito o suficiente para poder considerar a pergunta diluída:
– E a Inês, tens tido notícias dela...?
– Perguntas por ela sempre que falas comigo! – disse, com um ar entre o divertido e o curioso. – Sempre achei que tinhas um fraquinho por ela, não...?
Mais de dez anos passados, achei poder rir, encolher os ombros e, com desprendimento, reconheci que me era muito simpática. Que era, afinal, feito dela?
– Vive na Suécia, imagina tu! Casou com um tipo que trabalha em petróleo ou minas, uma coisa assim...
– Sueco...?!
– Não!, português. Tem dois filhos, disse-me que é um bom país para criar crianças...
Desejei que fosse feliz, fosse lá o que isso fosse.

♪♪
Março/Maio 2014

Predominantemente escrito ao som do Adagio assai do Concerto para piano e orquestra, em sol maior, de Maurice Ravel.
Canções: “Suburbano Coração” (Chico Buarque, 1984) e “Tantas Palavras” (Dominguinhos/Chico Buarque, 1983), ambas do álbum Chico Buarque, 1984. © Fotografias: Faro, de cima para baixo: Pedro Serrano, 1986 e 2014.A fotografia da Trombeteira em flor foi obtida no blog À Esquina da Tecla.


AO SUL DAS COISAS

                      Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,
                      Muito a leste não fosse o oeste já!
                      Pra que fui visitar a Índia que há
                      Se não há Índia senão a alma em mim?
                                                  Álvaro de Campos in Opiário

                          
     
Estendeu o braço por sobre a cabeça, a mão procurou a pera de baquelite que, pendurada da cabeceira da cama, permitia acender a luz do quarto. Não a encontrou, e a memória na ponta dos dedos igualmente não reconheceu o toque envernizado à madeira em que se amparavam as almofadas. Depois, o mundo como que se focou, a linha do tempo e a do atemporal combinaram-se e o sonho deslizou para plano mais longínquo, onde logo se começou a decompor como um mar nevado sob a quilha de um quebra-gelos.
Pela fresta nos reposteiros da janela insinuava-se uma claridade acinzentada, tímida, que mal ousava afrontar a noite ao redor. Sim, lembrava um candeeiro de mesinha de cabeceira, uma tulipa de vidro baço envolvendo a lâmpada, um interruptor... até empurrara pelo tampo de mármore o copo de água para mais longe, precavendo poder virá-lo no despertar estremunhado, comum a uma cama estranha. Chegara ontem. Acendeu-o, levantou-se, foi espreitar à janela.
A praça ainda se encontrava imersa em sombra, mas o seu recorte triunfal já se deixava intuir na escuridão... Deixou-se ficar, quase a espiar de trás dos reposteiros, a surpreender o nascer do sol que, naquelas paragens, tal como o cair da noite, acontecia com brusquidão. E, quando o local em que surgiria o astro apenas enrubescia ligeiramente o horizonte, o mar, antes dos prateados reais, foi ganhando a tonalidade azul-acinzentada de um forro puído pelo excessivo uso dos amanheceres, dos anoiteceres, das palavras que os referem.
We are offering you a room with a view to the bay, sir, so you can see the sunrise over the sea...
Sendo naval, o engenheiro estranhou a observação. Bombaim situava-se na costa ocidental da Índia, no mesmo mar que, umas centenas de milhas a sul, banhava Goa e onde (tão bem o soubera) o sol se punha, com o feérico estendal de uma gema estrelada sobre talhadas de melancia nas águas, e debutava, a levante, por entre coqueiros estáticos, na espinha quebrada das montanhas. Fê-lo notar ao tipo de casaco branco que o acompanhara ao quarto e que, malgrado o esganiçado do acento, se exprimia em impecável inglês. Este, não se atrapalhou na explicação: tudo tinha a ver com o formato da baía e com o ponto onde estava edificado o hotel.
Um pequeno bote, deslizando rápido, desviou-lhe o pensamento para o perfil dos três homens que, em andrajos demasiado leves para a hora matutina, se amontoavam no barco, um aos remos, os outros fitando a imensidão.
Apesar da ausência do disco solar, a manhã volvera-se nítida como um quadro e na praça fronteira ao Taj Mahal Palace Hotel, nascidas de todas as empenas, beirais e cornijas da cidade baixa, pousara uma multidão de pombas por entre as quais, com o gesto largo de quem semeia, lavrava um homem que as fornecia de migalhas. Sem motivo aparente, as aves, todas à vez e de vez em quando, levantavam voo descrevendo uma parábola colectiva sobre as águas, antes de acalmarem de novo sobre as lajes em que debicavam há instantes. Alheios às sensações que lhe intumesciam a alma como um balão quente, no passeio sob a janela ladeado pelo murete que o separava das águas, alguns vultos iam dispondo o colorido das vestes e das vendas ambulantes para o futuro bulício da manhã. Agora o sol ascendia sobre o mar e o excesso de luz esborratara os contornos delicados da paisagem, amalgamando o silêncio e as sensações numa pasta desinteressante. Voltou para a cama, puxou o lençol até ao queixo e deixou-se ficar, quieto, procurando aquecer os pés e – usando os gatos da memória – tentando agrafar os cacos dispersos do sonho que o despertara.

Ontem, no itálico prefácio da noite,
Quando fraquejava a luz ao mar e de
Seu forro puído, o azul-acinzentado
Boiando afogueado, enfim se revelava,
Pousaste leve na minha tua mão esguia...

Em Goa, nem uma semana antes, o hotel, se assim se lhe poderia chamar, fora, por igual, construído à vista de água, mas a sua qualidade de barco era bem mais intensa do que a do luxuoso congénere em Bombaim. Chegara de noite, estafado por uma viagem de comboio que se arrastara o triplo do necessário e, só o percebeu na manhã seguinte ao escancarar as portadas de ripas da janela de sacada, achou-se numa varanda, generosa como um tombadilho, que parecia projectar-se até às águas cintilantes do rio que lambia o outro lado da avenida.
Contagiado pela vista larga, pela luz intensa, pelo fervilhar dos ecos que trepavam da rua, apressara-se no arranjo, desleixara o relógio e o monóculo sobre a cómoda, e descera em busca do almoço da manhã. O restaurante ficava no primeiro andar, uma sala sombria de tecto trabalhado em rococós de estuque pintado em azuis de cauda de pavão, e a luz das janelas chegava amortecida por espessos caixilhos de madeira talhada em arabescos. A sala estava deserta e sentiu-se constrangido pela abundância de criados, mas já se aproximava um chefe de mesa de bigodes escovados que, num português de rotações lentas, lhe propôs estendendo a mão nessa direcção:
– Talvez Vossa Excelência queira tomar a refeição na varanda exterior...
Era mais um terraço do que uma varanda e, pelo chão de tijoleira, havia grandes vasos imitando sapos, profusamente atafulhados de verdes. As mesas, no entanto, contrariando a vastidão do espaço, acanhavam-se ao longo da parede interior. Numa delas, sendo no momento a única ocupada, achava-se sentada uma senhora vestida em claro, e que, por se achar concentrada a bater com o convexo de uma colher na casca de um ovo, não deu pelo leve aceno de cabeça do engenheiro.
Dividido entre o incómodo da proximidade com a desconhecida e o recusar a gentileza do empregado que lhe fazia espaço a uma mesa puxando a cadeira, optou por se sentar à mesa mais distante. Mas a estrangeira parecia ter-se dado conta do incidente e levantara a cabeça, o olhar resguardado pela aba abaulada do chapéu de palhinha.

Chegar ao conhecimento com Cecily, pensou muito nisso depois, tornou-se uma inevitabilidade, como um caminho que não poderia levar a outro destino.
Na segunda noite, ao entrar na sala de jantar, deu com um pequeno motim de empregados no centro do qual girava uma cabeça loura que, de menu na mão, se tentava fazer explicar.
– Posso ajudar? – Perguntou ao passar, e a voz provocou silêncio no linguajar que se tecia em torno da hóspede; um dos empregados fazia-lhe já lugar à mesa da desconhecida afastando uma cadeira para trás.
– Queira desculpar – pediu, um tanto embaraçado – estes tipos são um tanto dados à confusão e à precipitação...
Divertida e prática, ela estendeu uma palma de mão bem torneada para o lugar em frente:
– Por favor, sente-se, acho que acaba de me salvar o jantar ou, no mínimo, por me devolver o oxigénio... O inglês desta gente não parece suficiente para me entenderem e, confesso, o meu português – para não mencionar o meu konkani[1]deixa muito a desejar. E cada nova dúvida que levantava por causa de um simples cesto de pão, tinha como única consequência acrescentar mais um deles ao cerco...
Sentou-se, apresentou-se, ela beberricou o gin and tonic, perguntou se ele não queria pedir uma bebida para que brindassem, para que pudesse retribuir-lhe a gentileza.
           Excelente, este pão... – confessou minutos mais tarde – lamento tanto que tenha sido precisamente o pomo da discórdia... Sabe, eu perguntava por bread e eles diziam “no bread”, e, todavia, eu cheia de ver pão a passar em todas as direcções...
– É que o usam mais como talher do como amuse-bouche e, além disso, chamam-no por outros nomes... Este, por exemplo, tem de o pedir por naan... Plain, se o quiser assim, pois há uma variedade com manteiga e alho que não sei se iria apreciar...
– Tal como nem todos os portugueses parecem exprimir-se tão fluentemente em inglês como o senhor, nem todos os ingleses são avessos aos sabores alheios, dê-me, ao menos esse pequeno benefício de dúvida – respondeu com um sorriso dos olhos imensamente azuis que pareciam, em permanência, dois encantadores pontos de interrogação de perímetro variável.
Touché – respondeu ele – para usar, de novo, um idioma neutro ao conflito... E quanto ao meu inglês: sou quase um expatriado no meu país, sabe? Aconteceu nascer por lá, é tudo. Como vê, reúno num só as qualidades do anglo-saxão e os sabores do Sul! Diria que me está na massa do sangue...
– Poderia atestá-lo em tribunal – disse ela abanando o leque e provocando forte ondulação na madeixa loura que lhe escorregava da testa – este caril de gambas que recomendou incendiou-me os lábios...
– Olhe que não creio que o melhor modo de acalmar um incêndio seja agitar o ar à sua volta... – ouviu-se dizer como se quem tal dissesse não fosse ele mas alguém com maior pujança no atrevimento.
Não foi pelo que ela propôs de seguida que Álvaro de Campos ficou certo de que a conversa resvalara para terreno de turvo flirt, mas mais pelo gesto com que, usando dois esguios dedos em pinça, desencravou os cabelos soltos do penteado encalhados numa das sobrancelhas.
– Não quer ir tomar o café lá fora, na esplanada? Pobres ventoinhas... Fartam-se de espadanar, mas aqui, positivamente, abafa-se... Uma vez que é quem tem feito todos os pedidos, devo avisá-lo que, para mim, tomar o café é força de expressão, sou atreita a insónias e não consigo pregar olho com tal bebida após as quatro da tarde... Mas um chá de jasmim e um cigarro, isso parecer-me-ia o céu...
O engenheiro desenhou no ar o hieróglifo correspondente a um pedido de nota de despesa e levantou-se a tempo de lhe conseguir desimpedir a cadeira, para que ela pudesse mostrar a silhueta alta e o vestido pérola de cintura descaída. Toda aquela abundância e, de sobremaneira, o pormenor do desejo de fumar a coberto da noite, excitavam-no de forma imprecisa.
Mas a mudança para o exterior, como um afastamento físico, provocou um esmorecimento na conversa, agravado pela iluminação débil e por ele pouco mais entrever dela do que a brasa do cigarro e, intermitente, o lampejo dos fios de ouro bordados no shawl de caxemira que pousara sobre os ombros. Tornou-se banal como um correspondente estrangeiro de uma casa comercial:
– E o que a traz por estas paragens? Sendo inglesa, seria mais fácil imaginá-la em territórios do seu domínio... Deli, Calcutá, Jaipur, digamos, até, Bombaim...
Do escuro, ela emitiu uma pequena gargalhada, respondeu com outra pergunta:
– Porquê? Acha, talvez, que invado o seu Império?
– Não, não, por quem é... Diria que é uma felicidade para o meu Império contar com tal intrusão...
– Deixe, antes de lhe responder e perante o risco de vir a tornar o resto da conversa maçadora, que lhe faça uma pergunta: é religioso?
Ele encolheu-se um pouco, passou as mãos sobre os vincos das calças:
– Diria, para simplificar, que sou agnosticamente gnóstico.
No decorrer da explicação não conseguiu reprimir uma exclamação quando ela revelou que estudava, mais do que ensinava, religião comparada na universidade de Manchester:
– Manchester!? Então fomos quase vizinhos!
E contou-lhe a passagem por Glasgow, onde se licenciara em engenharia naval.
– Tem graça – reparou ela – se não o dissesse nunca o imaginaria engenheiro... Via-o mais a perder o seu tempo como professor de uma área nebulosa como a minha... Quando muito, arqueólogo...
Ele casquinou uma risadinha que lhe encurtou o lábio superior, pigarreou um pouco:
– Mas ainda não me disse o que a trouxe a Goa? Ou prefere deixar as razões na sombra?
– De modo algum; a razão é o contraste, o imenso contraste de uma população maioritariamente católica encravada numa imensidade hindu! Isso fascina-me... Como foi possível em tão poucos anos – quatrocentos anos é um breve momento num país como a Índia – vocês conseguirem uma conversão tão maciça...
Modestamente, ele encolheu os ombros, desencaixou o monóculo do olho e lustrou-o no lenço que retirara ao bolso de cima do casaco.
– Não faço ideia; acho que teria de perguntar aos nossos jesuítas... Dentro da minha humilde capacidade na matéria, o máximo que posso fazer é servir-lhe de guia numa peregrinação pelas igrejas daqui... São muitas, sabe? Os portugueses construíram uma igreja quase em cada esquina das terras onde aportaram... Em Goa, quase tantas como os templos que destruíram ou que, para subsistir, tiveram de se mudar, pedra por pedra, para o interior da Província...
– A política tabula rasa… perdi algumas horas com isso nas bibliotecas de Londres...
No dia seguinte ele deambulou ao longo do rio e penetrou no interior da cidade até se confundir em encantadoras pequenas ruas, muito limpas, que pareciam um bairro português perdido. À noite não a encontrou na sala e, sem ter de o perguntar, o chefe de mesa informou-o com naturalidade que Miss Westin não jantava.
No quarto, abriu as portadas de par em par, empurrou a poltrona para o lancil e pescou a caixinha de prata na roupa interior da gaveta da cómoda, pousando-a, ao lado do maço de cigarros e dos fósforos, no tamborete que rolara para a vizinhança do cadeirão. Montava o seu cenário... É que, sabia-o de incómodos anteriores, ao ópio, a posição mais favorável é a horizontal e, depois de inalado o primeiro travo, todas as intenções se esvaem numa rêverie.
Em frente, a noite vibrava de sons ocultos e o ininterrupto crocitar diurno das gralhas fora substituído pela estridência do canto das cigarras. Do Mandovi invisível, onde invisíveis crocodilos se acomodavam no lodo para a hibernação nocturna, subia uma bênção de névoa que tornava o calor um pouco mais suportável. Após a primeira fumaça apercebeu-se ainda do vulto branco de uma coruja a atravessar o ar em direcção a uma das enormes árvores que marginavam o rio...

Ontem, no itálico prefácio da noite, dizia,
Uma coruja branca voou por sobre a estrada
Calada, macia e, talvez, estremunhada
Pelos laivos púrpura e ciscos de gaivota
Irradiantes num transitoriamente belo 
Arranha-céus de nuvens-em-castelo.

Cecily vinha recomendada a um casal de ingleses residentes em Dona Paula - localidade costeira a uma meia-dúzia de quilómetros de Panjim - gente que visitara na véspera e suficientemente bem acomodada para lhe porem à disposição, por todo um dia, um veículo automóvel e respectivo chauffeur. Foi isso que lhe comunicou na manhã seguinte, à hora do ovo escalfado sobre o Mandovi e umas torradas com mel que mastigava com indisfarçável apetite.
– Assim, se a oferta de companhia na peregrinação pelas igrejas de Goa ainda for válida, contaria consigo amanhã, pelas oito, que é quando chega o transporte dos Mottram...
– Parece perfeito... – respondera ele com teórico arrojo, tendo passado o resto do dia disperso em frenéticas actividades, como a de se informar sobre as igrejas a merecer visita ou a de combinar com o Sr. Pinto, o chefe de mesa do restaurante, o recheio da cesta de picnic que levariam na jornada, sugestão sensata de Cecily e que o Sr. Pinto abraçara com entusiasmo, pois era óbvio que os encantos da iniciativa, bem como os da dourada hóspede, lhe alvoroçavam a rotina.
Not safe refeição por aí, beira de estradas... – ia comentando o goês no patuá misto em que se entendiam – Comida not safe; meter no cesto também algumas botelhas de água gelata, botelhas de água gelata....
Finalmente, já a meio da tarde, conseguiu, a troco de discreto suborno, que a recepção lhe emprestasse o único mapa da Província existente no hotel, sob compromisso solene de o devolver no dia seguinte, no regresso da expedição. Durante estas horas de azáfama, Cecily desaparecera para o quarto, possivelmente, imaginou ele, a garatujar notas de religião comparada no caderno preto com elástico que sempre lhe fazia companhia à mesa.
Estenderam a toalha para almoço na Estenderam a toalhapois era  Goa convertida..."meiras, onde se espetavam na longura, asno caderno preto com el pois era sombra sólida de um contraforte da igreja de Nossa Senhora do Monte, fechada àquela hora, edifício construído no topo de uma colina coberta por acácias e com panorama soberbo sobre um vale verde, inteiramente atapetado pelas copas de uma infinitude de coqueiros e palmeiras, e onde se espetavam na longura, tais fios de fumo tornados pedra, as alvas torres e campanários de alguns dos templos católicos que tinham visitado em Velha Goa.
– Veja só a beleza paroquial do meu Império – anunciou num gesto largo de proprietário e um toque de ironia na entoação.
– De facto... – respondera ela com um suspiro de vencida – acho que corro o risco de sair daqui convertida, quanto mais não seja a um gnosticismo agnóstico...
Manhãzinha, não batiam as oito e, ao contrário do que pudera pensar, deu com ela mal desceu do quarto, rodeada por dois criados, uma cesta de verga de duas tampas e um saltitante Sr. Pinto, acorrentado ao suplementar fascínio de a loura inglesa do número seis ter surgido enfiada em roupas indianas.
– Que diz ao meu salwar-kameez? – Perguntou ela como cumprimento – Achei que talvez fosse apropriado para um ambiente de picnic, formigas e outros possíveis convidados rastejantes...
– Estarei pronto a adorar se me explicar ao que se refere...
– Ora, não me diga que não sabe o que é uma kameez? Não é, aliás, o termo que usam para o mesmo na sua língua? Quanto ao salwar, é o que resta: estas calças folgadas e muito confortáveis. – respondeu, dando uma volta sobre si própria e pinçando entre o polegar e o indicador de ambas as mãos, de modo a desfraldar-lhes a amplitude, umas calças de pernas largas, subitamente justas ao nível dos tornozelos e algo translúcidas à luz violenta da manhã.
Ainda não eram exactamente nove horas quando chegaram à primeira paragem da peregrinação, mas o pátio da Igreja do Bom Jesus já fervilhava de gente e tiveram de ir engrossar uma fila compacta, onde não se viam turistas, para conseguir chegar ao interior do majestoso templo. Ultrapassada a porta central, Cecily, após cobrir a cabeça com uma echarpe azul como a túnica, estremecera-lhe o ouvido com uma informação:
– Não sei se sabe, mas expõem as relíquias de Saint Francis Xavier de vinte em vinte anos e o ano da graça de 1913 é um deles: é isso que explica a multidão de devotos e a circunstância de me encontrar em Goa este ano e não noutro qualquer...
– Não, de todo – sussurrara em resposta – tudo quanto sabia é que a múmia do santo, todos estes séculos depois, se encontra razoavelmente incorrupta.
Apesar de tudo, o razoavelmente incorrupto dos remanescentes do santo impressionava, e o contraste, como um humor esverdeadamente sinistro, entre a pele apergaminhada das mãos, esfarelada e revelando o amarelado dos ossos, e as vestes sumptuosas que ornamentavam o corpo, provocaram o silêncio na inglesa que, uma vez cá fora, quis fumar um cigarro antes de seguir para a Sé que os esperava do outro lado da estrada.
Fumava agora um outro, reclinada no tronco de uma acácia cuja ramagem delicada lhe oscilava sobre a cabeça como dezenas de obedientes leques verdes, os olhos lacrados no entrelaçado das pestanas cor de areia, o cigarro apoiado no lábio inferior, deliciosamente mais saliente do que o superior, as mãos molemente abandonadas no colo.
– Contava-me há pouco que em Macau nada disto que vimos hoje de manhã era tão vincado... – Interrompeu o silêncio sem descerrar os olhos, como se pretendesse que ele continuasse as rimas de uma qualquer canção de embalar.
– Sim... – instintivamente desviou por um momento o olhar dos tornozelos cruzados da companheira, para logo aí voltar mal se assegurou de que o tom da conversa não requeria uma pontuação de olhares – Sim... Em Macau o que sobressai, mais que tudo, é a China... Um punhado de portugueses diluído numas centenas de milhares de chineses. Enquanto que por aqui é reconfortantemente frequente, lá não encontra ninguém que fale português e os chineses seguem pela rua sem olharem para si, como se lhe recusassem a existência... Macau é uma doce ilusão: eles ainda não deram pela nossa presença e nós não queremos que ninguém nos acorde do sonho...
– E quanto a igrejas...
– Oh, também as há, claro, mas submersas no meio de santuários e templos - nada que se note...
– Não fala desse canto do Império com muito entusiasmo... – ela desenganchara as pestanas e os pequenos pontos de interrogação nos seus olhos azuis fitavam-no sem expressão aparente.
– Não gostaria que ficasse a pensar assim! Macau marcou-me além do entendimento, sabe? Esta foi a segunda vez que lá estive... A primeira foi já há anos... Era muito novo, então, acabado de formar... Fui lá parar sem fito preciso, deixei-me descer o Suez, contornei, sem quase sair de bordo, a Índia e o Ceilão, fiquei três semanas, talvez mais, custou-me apanhar o paquete de regresso à Europa. Entre visitas, durante o sono, sonhei amiúde com a cidade, via-me por lá, identificando com detalhe ruelas por onde havia passado distraído... Não lho sei passar para palavras, mas Macau derrama em nós – em mim, pelo menos – uma saudade tão intensa que toda esta minha viagem, esta – a de agora – foi quase pretexto para lá voltar de novo... Desta vez, na subida de regresso, antes que a vista de Port Said me aperte e me devolva ao Norte, parei na Índia à procura de justificação mais consistente para a viagem... Falta ainda, por um dia destes, quando passar por Bombaim, fazer-me retratar com o Taj Mahal Palace nas costas, para ter algo que mostrar em Lisboa!
– E Macau, que trouxe de lá desta vez...? – Ela sentara-se, interessada, alinhara o seu tronco pelo tronco da acácia, os braços envolvendo os joelhos, o olhar preso ao modo como ele esfregava o monóculo com o lenço.
– Mais do mesmo: combustível para as minhas saudades vagas e... – hesitou um momento – um pouco de ópio, que, se calhar, é algo semelhante...
Ela mirava-o agora de olhos bem abertos, o indicador da mão direita acariciando o desnível entre os lábios:
– Ópio, a sério?! Tem-no aí consigo, que se possa ver? Desde sempre, às tantas vem dos livros que lia em menina, senti curiosidade por esses entorpecentes orientais... Mas nunca vi; como é? O que se sente? Trouxe também um cachimbo e uma esteira?
Ele riu, retorquiu:
– Isso é mesmo um colar de perguntas de menina! Claro que não o tenho aqui comigo, está no hotel, numa gaveta, misturado com a roupa lavada. E não, não trouxe cachimbo nem esteira, ocupam muito espaço, dão nas vistas... Para o fumar uso uma técnica abreviada que, suponho, deve fazer o horror dos connoisseurs: risco uma linha do produto num cigarro. E fuma-se...
– Não disse o que se sente...
– Não leu De Quincy, Poe, Baudelaire? É que é tão difícil explicar... É, estranho que lhe possa parecer, uma coisa muito física, uma espécie de bem-aventurança terráquea...
Fizeram a viagem de regresso em silêncio. Para o lado do mar, o sol descia e preenchia de um dourado de iluminura os espaços livres entre o verde da vegetação. À entrada de Panjim o chauffeur acendeu os faróis do automóvel e foi por altura desse gesto que ela quebrou o silêncio:
– Acho que gostaria de experimentar esse ópio... Partilharia um desses seus cigarros comigo ou será pedir demasiado à sua intimidade? Não me apetece fazê-lo sozinha, confesso que, junto com a excitação, tenho algum receio...
Ele tinha tido tempo para engolir em seco e aparentar fleuma na resposta:
– Se o quiser... E não precisa de estar apreensiva: é droga muito mansa, abençoa sempre os neófitos...
– Isso é um sim ou um adiamento na resposta...?
– É um sim, desculpe se o fiz parecer coisa diversa...
– E, visto que me deu a entender dever ser actividade discreta: no seu quarto ou no meu...?
– No seu... – respondeu, passando umas mãos nervosas pelos vincos das calças, – temo que o meu esteja demasiado desarrumado...

Ontem, no itálico prefácio da noite,
Pousaste com ternura e teus dedos iam
Sobre uma de minhas mãos que conduziam.
                Por onde vamos? quis então saber
                Tanto se me dá, não sei se sei dizer...
Liguei os faróis, comuniquei, Perfeito!
E, sem decisão de por onde iria,
Fui guiando pela noite que caía.
 –—
O quarto dela ficava no primeiro andar e ele achava-se sentado numa poltrona igual à que tinha no seu quarto, dispondo o tabaco, os fósforos e um montinho de palitos da sala de jantar num tamborete gémeo ao que lhe pertencia no andar de cima. Sentada na borda da cama, cintilante no pijama lamé e resguardada no quimono com que viera abrir a porta, Cecily inclinou-se para a frente quando o viu tirar do bolso a caixinha de prata.
– Meu Deus, tem aspecto medonho! – exclamou quando pousou os olhos na pasta viscosa e quase negra.
Senhor do momento, ele não respondeu. Enfiou um palito dentro da caixa, rolou-o bem pelo interior e besuntou as faces opostas de um cigarro até toda a massa viscosa do palito se espraiar no branco do papel. Depois estendeu-lho. Ela pegou-lhe com uns dedos esguios que tremiam um pouco; perguntou:
– Como faço? Como o fumo?
– Como um cigarro, justamente! Mas inspire o fumo mais profundamente... E acendeu um fósforo sob a ponta do cigarro.
Como quem altera apressadamente uma cláusula num testamento, ela pediu, com uma voz já entrecortada de fumo:
– Por favor cuide de mim...
Esta frase curta, proferida imediatamente antes de ela lhe estender o cigarro e do cheiro adocicado e acre do ópio lhe picar as narinas, fez murchar as vantagens que se pusera a imaginar enquanto se vestia para o jantar, como se já acariciasse uma inexperiente Cecily toldada pelo ópio.
– Acho que me sinto um pouco enjoada e que preciso de me deitar para trás... Não se importa?
– É normal... No princípio vem-nos um enjoo – vai passar – e o corpo pede a posição horizontal – ouviu-se responder, de longe, com um sorriso mental de divertimento ao ver o modo como ela se desenrolara sobre a cama por abrir.
– Sinto-me como se estivesse deitada numa nuvem... – a voz dela chegava-lhe amortecida à poltrona, interrompendo-lhe o fluxo de pensamentos por onde já divagava. Pensou num comentário...
– Álvaro...? Está aí ainda...?
– Sim... – Da poltrona ele agitou no ar um braço, como que a provar ao outro náufrago à deriva, que boiavam no mesmo mar.
– Venha para mais perto; está aí a centenas de milhas daqui... Deite-se ao meu lado, na minha nuvem há espaço para dois.
Em pé, ao lado da cama, observando os pés nus dela, perdeu-se um pouco na contemplação daqueles dedos bem contornados, previamente a conseguir achar que deveria tirar os sapatos antes de se esticar na cama; mas o esforço pareceu-lhe inultrapassável e, depois, inútil. Deitou-se assim mesmo, de colete e gravata, que o casaco, esse vogava debruçado num dos braços da poltrona.
– Assim... muito melhor – ouviu-a dizer, perto de si, sem se mover, deitada de costas, os olhos cerrados.
– Sente-se melhor? O enjoo passou?
– Enjoo...? Oh, sim, muito melhor... Percebo agora aquilo da bem-aventurança terráquea de que falava...
– Álvaro... Campos... – voltou ela, falando em direcção ao tecto – o seu Álvaro tem ressonâncias árabes, será que o é...?
– Não... – respondeu também para o tecto – Álvaro tem raiz nórdica e o Campos é judeu...
– Mediterrânico, quand même...
– Sim, quanto a isso... A luz do sol, uma azeitona...
Durante uns minutos ela não disse nada e, breves ou longos, foi tempo suficiente para que ele se desinteressasse do local onde estava, ficasse tranquilamente a sós.
– Álvaro – sem que se tivesse apercebido ela rolara sobre si própria e a sua face espreitava agora a dele, os pontos de interrogação dos olhos azuis reduzidos ao tamanho do ponto sob o sinal, os cabelos louros, leves como penas, cocegando-lhe a testa.
– Álvaro – tornou ela, separando as sílabas e duplicando o “r” ternamente – cheira-me que você é um poeta na clandestinidade, seu engenheiro moreno... Conte-me toda a verdade...
Atrapalhado, aprisionado entre a almofada e a face dela, ficou a olhar em adoração aquele lábio inferior um pouco avançado, de onde as palavras brotavam como que de uma gruta macia.
– Minha caixinha de surpresas! Tem a certeza que o seu negócio gira em torno de barcos ou isso é só uma dissimulação e todos os seus barcos são de papel? Será que viaja sob outra identidade? Todos estes dias, ao vê-lo entrar (um pouco curvado, um pouco ensimesmado) na sala de jantar me pareceu muito mais um poeta mediterrânico em fuga de si mesmo... Mas, garanto-lhe, vou descobrir toda a verdade um dia destes... Dê-me tempo...
Ele continuava por baixo dela, apanhado naquela suave e cheirosa armadilha, um sorriso beatífico, de alienado, arrebitando-lhe o lábio superior.
– Prometa que me vai dar tempo... Um dia, um dia você vai ser grande e eu quero poder dizer que o conheci, quero estar por perto... Prometa...
Prometeu, ela pareceu satisfeita. A face desapareceu do poço para onde espreitava e ele ouviu a cabeça cair pesadamente sobre a almofada ao seu lado. Fez-se silêncio e, uns minutos depois, a respiração dela tornou-se leve e regular.
– Cecily...? – Chamou baixinho.
Ela não respondeu, nem nas vezes seguintes em que pronunciou o seu nome, cada vez mais alto, como que a testar o seu entorpecimento; cada vez mais apaixonadamente, como quem declama a sua entrega. Adormecera.  
Ainda era noite quando desceu com as malas, o rapaz da recepção dormia no cadeirão ao fundo do balcão. Pareceu surpreendido com a antecipação da saída e, não fosse o sono, seria certo um encadeado de perguntas a tentar avaliar os motivos da insatisfação do hóspede que partia quase uma semana mais cedo.
– Em Mormugão, o barco para Bombaim só vai mais tarde... Não tem de sair daqui tão cedo... Basta ao fim da manhã...
Foi inútil explicar, o hóspede estava nervoso, fazia já tenção de empurrar as malas em direcção à porta.
Mas, após saldada a conta, como quem recorda algo esquecido e de súbito lembrado, pediu uma folha de papel e um envelope, o qual endereçou a
Miss Cecily Westin, Room # 6.
Ficou uns instantes com a caneta no ar, o rapaz a olhar para ele, desolado e ensonado, e depois, em letra rápida, deixou escrito:

Tenho de ir agora. Grato pelo sonho.

E, por baixo, assinou o nome com que ela o chamara.


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[1] Konkani – Língua falada na região de Goa.