09 abril 2021

O DESENCALACRADOR DOS COLLANTS ROSA

Eis que surge um novo herói no lamaçal portugorriquenho: o Desencalacrador dos Collants Rosa, uma espécie de Robim das Matas invertido, pois em vez de defender os pobres contra os ricos, como o original, escolheu o inverso: defender os ricos contra os tesos. E os tesos somos nós todos, aqueles que pagamos todas as contas (BPN, BES, TAP, Novos Bancos) e não temos milhões nem oportunidade de vir a deitar a mão a alguns, a não ser pela fantasia, como diria Ivo Rosa, da esperança no Euromilhões ou na Raspadinha. Limitamo-nos, como com aqueles tipos que na hora da conta têm de ir ao quarto-de-banho, a ficar e a pagar o à vontade deles diante dos nossos olhos.

Mas se você é rico, e quando falo em rico não falo de milhares ou centenas de milhares de euros, mas de milhões, vários, pois, para que se possa manter uma vida suficientemente regalada torna-se necessário estar sempre a desembolsar: nos advogados, que estão caríssimos, nos subornos, nos almoços, na segurança, por aí fora. Se você é abonado, estava eu a dizer, ou pode, pelo menos, usar a sua importância actual como hipoteca de uma riqueza futura, tem agora um tipo que olha por si como um anjo-da-guarda, que garante que, seja o que for que fizer, mesmo que esteja acusado de várias dezenas de crimes, nada lhe acontecerá. Nada, ouviu? Nada de nada, o desencalacrador fará uma pirueta, humedecerá o dedinho para virar a página à sentença, descomporá o Ministério Público de passagem, e mandará toda a gente em paz para as respectivas mansões. Tudo se sumirá como por magia. Ficarão, somente, umas folhecas do processo para inglês ver e para tapar as vergonhas, mas mesmo esses pecadilhos já estarão prescritos pelo que não correrá nunca o risco de lhe acontecer o que sucede a um Rui Pinto ou a um sem-abrigo qualquer.

Hoje foi um dia histórico para José Sócrates, Carlos Santos Silva, Ricardo Salgado, Armando Vara, Zeinal Bava, Henrique Granadeiro e todos os outros, actuais e futuros, aprendizes da falcatrua, que sentem agora total à vontade para fazer o que lhes apetece: o crime compensa em Portugal, a própria Justiça, ao seu mais alto nível, sanciona esse princípio! Era ver a cara satisfeita de todos, quase rebentavam de alegria, Sócrates de novo deslumbrado e expansivo perante as câmara da TV, perdigotando louvores ao novo amigo Ivo e já ruminando ameaças pelo mal que lhe fizeram. Quem sabe, quem sabe, se um dia não pode outra vez mandar nisto tudo, forrar as paredes de uma penthouse a fotocópias? E, calcula-se, já começam todos a fazer telefonemas nervosos aos seus advogados, a saber se não poderão já meter o Estado em tribunal, pedir indemnizações chorudas por tremendos danos morais! Que isto não se faz a um cidadão! Do lado de lá do fio, os advogados, depois de se assegurarem que o telemóvel é seguro, recomendar-lhes-ão calma, que não embandeirem em arco nem usem em público a linguagem desbragada do Ivo no tribunal; que, sobretudo, não se ponham já para aí a gastar a massa acumulada, a dar nas vistas...; nada de contactos com os offshores! Tudo isto tem de se fazer pau-latina-mente, de pedra em pedra até à prescrição final.

Hoje foi um grande dia para todos eles e terá, mesmo que ainda não o saiba, também sido um grande dia para André Ventura e o seu Chega!, pois a raiva cobra dividendos, muitas vezes da pior forma. Ventura bem pode mandar acender duas velinhas: uma ao Ivo Rosa e outra a VanDunen, que mantém a Justiça num banho-maria e numa modorra prescricional que convém a todos.

 


05 abril 2021

KRIS, COM K, COMO EM KRISTOFFERSON

Kris Kristofferson & Bob Dylan (1973).
No final do Outono de 1965, então com 24 anos, Bob Dylan trocaria Nova York por Nashville, no Tennessee, para aí gravar um álbum de misterioso nome (Blonde On Blonde), obra que ficaria para a história da música popular como um dos melhores álbuns de sempre e, porventura, o melhor do autor.

Para além dos dois músicos que já conhecia de trabalhos anteriores e quis levar consigo para Sul (Al Kooper, de Nova York, e o legendário guitarrista Mike Bloomfield, de Chicago), Dylan contou com a colaboração de extraordinários instrumentistas locais, arregimentados pelo seu novíssimo produtor Bob Johnston, um homem que, nos anos seguintes, ser tornaria o produtor e fiel acompanhante, como músico, nas digressões mundiais de Leonard Cohen.

Nos estúdios da Columbia em Nashville, cidade famosa pela impressionante qualidade da sua produção musical, havia um porteiro, um desconhecido já com perto de 30 anos, que, para além dessas funções acumulava as tarefas de esvaziar os cinzeiros e tomar apontamento das necessidades dos músicos em estúdio. O nome desse pau para toda a colher era Kris Kristofferson e já compunha as suas coisitas em pleno anonimato ('Viet Nam Blues', 1965), mas menos de cinco anos depois tornar-se-ia uma estrela de primeira grandeza por várias canções que escreveu como 'Help Me Make It Through the Night' e 'Me and Bobby McGee' (ambas de 1969) e, no ano seguinte, por 'For the Good Times', uma canção que veria mais de 200 versões, entre as quais as de Elvis Presley, Dolly Parton, Dean Martin, Willie Nelson, Johnny Cash ou Norah Jones. Quanto a 'Me and Bobby McGee', com 215 versões, aconteceu uma que suplantou todas as outras e eternizou a canção: a invocada por Janis Joplin, em 1970, rapariga que, por essa altura, confessaria a Leonard Cohen, num elevador do hotel Chelsea, em Nova York, a grande paixão que nutria pelo autor da canção (um bonitão louro de 1,80), mais até do que pelos seus dotes artísticos.

Nos anos que se seguiram, Kris Kristofferson, comporia 56 originais e entraria como actor, por vezes principal, em dezenas de filmes, como Alice Já Não Mora Aqui, de Scorsese (1974) e Pat Garrett & Billy the Kid (este último interpretado por Kristofferson), de Sam Peckinpah (1973), um filme com banda sonora escrita por Bob Dylan.

Embora a versão de 'Me and Bobby McGee' de Joplin seja inultrapassável e inseparável da memória que conservamos da canção, apesar das suas mais de duzentas versões nenhuma consegue chegar ao modo como o próprio Kris Kristofferson interpreta 'For the Good Times', uma canção triste como a tristeza. Das vezes, muitas, que ele a cantou desde que a escreveu, as melhores interpretações são as tardias, já dos anos 80 e 90, como se ele tivesse precisado da curtição dos anos para aprofundar o sentido a cada palavra do poema. Deixo uma versão dessas, tardia, feita ao vivo, e se, chegado ao final, não sentir os olhos carregados de lágrimas então é porque não percebeu nada de nada ou, na melhor das hipóteses, porque ainda não percebeu nada de nada, pois, dizem, a esperança é a última a morrer.  

   

  

Don't look so sad. I know it's over
But life goes on and this world keeps on turning
Let's just be glad we had this time to spend together
There is no need to watch the bridges that we're burning

Lay your head upon my pillow 
Hold your warm and tender body close to mine
Hear the whisper of the raindrops
Blow softly against my window
Make believe you love me one more time
For the good times

I'll get along; you'll find another,
And I'll be here if you should find you ever need me.
Don't say a word about tomorrow or forever,
There'll be time enough for sadness when you leave me.
 

 



 

31 março 2021

O PÃO NOSSO

Em tempos pandémicos muita gente desatou a fazer pão em casa, percebe-se isso pelo crescimento das prateleiras de farinhas e fermentos nos supermercados. Embora o pão, por ser alimento cozinhado a altas temperaturas e manipulado com relativo cuidado, não seja um veículo de transmissão de Covid19 com que valha a pena ganhar brancas, aqui fica, para as queridas leitoras, uma receita de pão. É simples e prazeroso de fazer, posso adiantar, e a extensão destas linhas só tem a ver com o detalhe com que transmito a receita, pois, na prática, tudo se reduz a meia-dúzia de gestos e de silêncios encadeados.

O que vai precisar:

a) farinha (trigo ou centeio ou, melhor ainda, as duas em mistura). Há à venda sacos de 5 e 25 Kg, pois um pacote de kg vai-se num fósforo. 

Nota: Se fizer pão uma ou duas vezes por semana, um saco de 5 kg aguenta-se perfeitamente sem mais, desde que o mantenha bem fechado. Se optar por um saco de 25 kg, o melhor é distribuir o pó por vários sacos de plástico e congelar. Mesmo congelada, a farinha mantém-se sempre em pó e pronta a ser usada de imediato. 

b) fermento (fresco ou seco)

c) sal

d) água 

e) taça grande para misturar

f) recipiente que vá ao forno

g) papel vegetal

h) papel de prata

i) forno.

j) Use, por exemplo, uma chávena almoçadeira como medida. 

 

Como fazer (pão grande, de aproximadamente 500 gramas, ver fotos)

1. Meça a farinha para a taça grande: 3 chávenas de farinha de trigo; ou 2 chávenas de farinha de trigo + 1 de farinha de centeio.

2. Faça um buraquinho na farinha e deposite aí uma colher de chá de sal, rasa (seja sempre comedida a usar sal, pois aumenta tremendamente a tensão arterial). Noutro ponto, diferente, escave outro buraquinho e deposite aí o fermento (cada saqueta de fermento seco tem aproximadamente 11 gramas e metade de uma saquete é o suficiente para fazer 1 pão).

3. Misture bem tudo com uma colher de pau.

4. Encha a chávena almoçadeira com água e vá despejando aos poucos sobre a farinha. Vá revolvendo com a colher de pau. A pouco e pouco, o pó vai desaparecendo e obteve uma massa grosseira. Vá acrescentando água até que não reste pó de farinha no fundo da taça. Em princípio gastará 1 chávena e 1/2 de água para o conseguir.

5. Terá agora uma bola pegajosa de cor acinzentada no fundo da taça. Cubra com um pano e deixe repousar por 8 a 12 horas. Ao fim deste tempo verá que a massa cresceu e ocupa agora quase toda a taça.

6. Forre o recipiente que vai ao forno (eu uso um de barro) com papel vegetal, de modo a cobrir o fundo e as paredes. Salpique o fundo com farinha em pó, de modo a impedir que a massa adira ao papel no fim de cozedura e o pão fique queimado na base.

7. Espalhe farinha em pó sobre uma superfície lisa (uma bancada) e verta aí a taça com a massa que esteve a fermentar. Use uma espátula de madeira para raspar o que ficou aderente às paredes e ao fundo. Trabalhe um pouco esta massa com as mãos, rolando-a e amassando-a até que ganhe um certo formato de bola achatada. É esta a fase mais satisfatória do processo: o cheiro que se desprende é delicioso e o contacto da massa com as mãos é macio, elástico e funciona como uma massagem. Sentirá também uma sensação de realização e de que se está a aproximar de algo que, em breve, estará concluído a seu favor.

8. Deposite a bola obtida no recipiente de ir ao forno. Deixe repousar cerca de 40 minutos, para que se adapte ao novo local e ganhe o seu formato.

9. Ligue o forno, que deve ser sempre mantido forte ao longo de todo o processo.

10. Tape o recipiente com papel de prata, de modo a evitar que a massa seque demasiado durante a cozedura. Meta no forno.

11. A cozedura dura cerca de meia-hora, terá que ir controlando. Uns minutos antes de a dar como concluída retire o papel de prata para que a superfície do pão adquira uma crosta crocante. Com a experiência aprenderá a lidar melhor com os tempos desta fase: nas primeira vezes poderá usar um palito para apreciar o grau de cozedura (se vier massa agarrada, a coisa ainda não está pronta). Depois, o processo tornar-se-á quase instintivo e tenho uma amiga que consegue avaliar se a cozedura está no ponto pelo tipo de cheiro que lhe chega da cozinha. Pessoalmente, ainda não atingi esse estado de perfeição.

12. No final, retire o pão do recipiente e ponha-o a arrefecer sobre duas colheres de madeira, por exemplo, de modo a que o ar circule, não haja ressoamentos e o pão fique maravilhosamente pronto a ser comido, sem mesmo ter de usar a faca para derreter a manteiga.

 

Nota: Ao contrário do pão que se compra no supermercado, que fica uma borracha no dia seguinte, este pão aguenta-se firme e fresco vários dias, sem precisar sequer de o torrar.


© Fotografias de pedro serrano, 2021.

 

24 março 2021

O PARAÍSO FISCAL DA EDP


Talvez você seja um daqueles que, como eu, usa a conta bancária e a internet para pagar contas. Se assim é, talvez já se tenha apercebido do pormenor, da diferença de tratamento entre privados e Estado. Quando, pela internet, se vai a pagar uma qualquer conta (seja água, telefone ou outra) e por modesta que seja a quantia, o computador, antes de dar a transacção por concluída, pede que confirmemos os valores de várias formas, sendo uma delas o preencher de três números, interpretados num pequeno mapa de referências que o seu banco lhe forneceu, e outra a de inserir um código, que lhe é enviado através de um SMS para o telemóvel. Não poucas vezes, para nossa segurança, somos obrigados a uma combinação dos dois procedimentos.

Tente agora, pelo mesmo meio, fazer um pagamento ao Estado, seja o IRS, o IMI, ou o imposto sobre veículos. Mal se insere o valor a pagar e se clica no rato a transação fica concluída, sem códigos, senhas ou outras maçadas e quase se ouvem as mandíbulas do fisco a entrechocar-se, como quando se atira um pedaço de bife a um cão e este o apanha em pleno voo! Ou seja: connosco, o Estado não está cá com preâmbulos, hesitações éticas, valsas ou tangos, para passar o dinheiro para o lado deles!

Mas isto somente no caso de você ser um reles e banal contribuinte, claro, pois se for uma empresa ou uma entidade com pergaminhos, como a TAP ou a EDP, o critério já se adelgaça, flexibiliza, excepcionaliza, e poderá furtar-se com facilidade, por exemplo, a pagar um imposto de 110 milhões de euros. Foi o que, através de uma gentileza do Bloco de Esquerda, ficámos a saber que sucedeu recentemente com a EDP, que decidiu vender 6 barragens portuguesas aos franceses. Como dizia um amigo meu "eu nem sabia que se podiam vender barragens, quanto mais assim, como pipocas". Pois é, estamos ambos ultrapassados. Não só se pode, como se pode ainda escapar a pagar o imposto devido ao Estado pela venda. Como?!, quererá você saber, já a pensar se poderia fazer o mesmo... É simples: constitui uma empresa-fantasma dois dias antes, declara que está a proceder a uma restruturação da empresa (EDP), passa todos os activos para a nova empresa e isso iliba-o, em nome do progresso e do empreendedorismo, de pagar uma série de impostos, mesmo que essa empresa-fantasma só tenha um funcionário e feche portas mal o negócio for encerrado. Mas isso é uma vigarice, dirá, dirão os transmontanos que ficaram a arder nos tais 110 milhões de imposto que, a ser cobrados, seriam para bem da sua região. Que não, que é perfeitamente aceitável, vem dizer o Ministro do Ambiente, naquele seu tom pausado de batráquio barítono e a quem Rui Rio, acertadamente, apontou parecer ele um advogado de defesa da EDP. E a EDP, senhor ministro, olhe que não precisa de quem a defenda: poderá ainda aguentar mais alguns consultores, mas, advogados, tem do mais finório que anda por aí. Apesar do recente afastamento/arrefecimento do Mexia e do Manso Neto (tipo a quem, só de espreitar pelo olho-de-peixe, não abriria a porta de casa para que me fosse contar a luz), apesar disso, eles ainda lá mantêm malandros suficientes para lhe olear as curvas; esses dois deixaram escola na casa. 

Quem rapidamente cheirou o perigo de água no assunto das barragens, foi o nosso Costa, que logo chutou a bola para canto com o argumento de que o fisco teria de ter dado conta de uma manigância daquele calibre! Quase vi a Directora-Geral da Autoridade Tributária e Aduaneira, que jantaria tranquilamente em frente à TV, a engasgar-se com a sopa ao ouvir aquilo, assim, do nada, sem aviso e em horário nobre:  já não pode um alto-funcionário vestir o roupão, calçar as pantufas e ter um momento de paz! Ora, uma destas! Então não era suposto que pudesse ser assim? Não era admitido por todos, segundo os códices implícitos e nunca escritos, que a EDP se classificava como uma daquelas entidades que possui um Visto Gold anti-dores-de-cabeça?

Agora, após o toque do primeiro-ministro, vem-nos o Matos Fernandes confirmar que o assunto é assunto da autoridade tributária e não do Governo e, como sempre acontece, esta iniciou um rigoroso inquérito, enquanto vários juristas engravatados nos vêm dizer, via Skype, que talvez não tenha sido ilegal de todo o que se fez... Enfim, o costume quando uma grande vigarice é trazida à tona. Para já, a enguia continua a estrebuchar e a escorregar-lhe das mãos perante os olhos atentos da opinião pública, pois não lhe conseguiram deitar ainda a suficiente terra por cima. 

Compreensivelmente ofendido com tudo isto e com o modo como tem sido tratado, o suposto e alegado arguido Manso Neto fez saber publicamente que abandona a EDP, de vez, e vai mudar de patrão. Um pequeno passo para ele e uma grande notícia para a EDP ou, como preferiria dizer Marta Temido, um assunto de "grande complexidade".

 

 

 

14 março 2021

DE BOCA ABERTA!


Diga-me, já foi alguma vez ao dentista? É claro que sim e, assim sendo, deverá ter reparado que, sempre na proximidade do médico-dentista, existe, também debruçada sobre si, uma rapariga ou uma senhora, que se vai encarregando de múltiplas, pequenas e indispensáveis tarefas. É ela que enfia na sua bocarra escancarada um tubinho que injecta ar e mantém o interior da sua boca razoavelmente seco para que, face à formação permanente e natural de saliva, o dentista não tenha de trabalhar debaixo de água. É também ela que aspira o sangue que brotou, as esquírolas e poeiras que a broca provoca; é ela, ainda, quem mpunha aquele aparelho que produz uma luz azul que endurece mais rapidamente a massa com que o médico tapou aquela cratera no seu terceiro molar do lado direito. E, permanentemente, é ela que vai chegando ao médico os ferros que ele necessita a seguir, a seringa da anestesia, é ela que mistura os diversos compósitos que serão aplicados dentro da sua boca.

Durante todo este processo, sublinho, você está de boca escancarada, ao léu, sem nenhuma possibilidade de usar máscara nesse momento. Mas eles, o dentista e as assistentes de medicina dentária, têm de trabalhar ali, a dez, quinze ou vinte centímetros da sua cara, e isso implica que estejam expostos à sua respiração, aos líquidos da sua boca, os que escorrem ou os que espirram sobre eles durante a consulta, a maior parte das quais se prolongam além dos vinte minutos que as autoridades de saúde consideram suficientes para que um vírus, como o do Covid19, se transmita entre duas pessoas. Função de alto risco, portanto: pela falta de protecção total de um dos envolvidos (você), pela distância, pelo tempo de exposição, pelo local do corpo onde eles têm de trabalhar. O risco desta gente é enorme, similar ao de um médico otorrinolaringologista, pois trabalham sobre a zona mais perigosa de um corpo humano em termos de transmissão de doenças respiratórias.

E agora diga-me uma outra coisa? Se lho pedissem, em que categoria de profissionais classificaria estes auxiliares de medicina dentária de que tenho vindo a falar? Acha que são profissionais de restauração ou hotelaria? Dos correios? Acha que são profissionais de metalurgia? Talvez agentes de segurança? Não, penso que é claríssimo para todos que são profissionais que prestam cuidados de saúde, certo? Pois, mas olhe que não, o Estado português não os considera como tal, estão impedidos de ser classificados ou olhados legalmente como tal e isso, conclusão imediata e grave, impossibilita-os de serem considerados como candidatos prioritários a vacinação antiCovid19! Fiquei de boca aberta quando o soube! Brada aos céus e, comparado com outras facilidades a que temos assistido, é de tal modo escandaloso que existe uma petição nacional a correr sobre o assunto; se estiver interessado ou chocado com o que lhe contei o endereço é este (carregue com o rato): Assistentes Dentários excluídas da Primeira fase da vacinação

 


 

10 março 2021

AGORA EU ASSUMIA RESPONSABILIDADES

                            Fonte: Constantino Caetano/Departamento de Epidemiologia do Instituto
                                          Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, 2021.

                              
De modo engenhosamente animado, a imagem condensa o comportamento da epidemia de Covid19 em Portugal desde Setembro de 2020 até aos primeiros dias de Março de 2021. O pontinho negro que dança no ecrã tem a propulsioná-lo dois indicadores importantes no tomar do pulso a uma epidemia: o número de novos casos de doença (incidência) e a velocidade com que o contágio progride (o tal R). Neste contexto, as coisas não estão assim tão mal quando o pontinho anda pela metade inferior da imagem, sobretudo se anda pelos baixios do lado esquerdo. Se se aproxima do lado superior da metade direita da imagem, isso quer dizer que as coisas vão muito mal.

Agora repare no que sucedeu por altura do Natal: quando os nossos governantes decidiram dar ao povo a benesse de abertura para as Festas, o pontinho negro já acusava uma tendência de crescimento da epidemia, ou seja: estavam envenenadas as frutas-secas do bolo-rei que nos estendiam e foi de grande irresponsabilidade essa bondade. Mais: ninguém, lá no alto, onde planam as águias, podia dizer que não estava tecnicamente avisado, e a história da variante inglesa foi (e é) desculpa para inglês ver. Essa abertura natalícia inundou o país de visitantes vindos do Reino Unido, fossem turistas ou compatriotas saudosos, e a variante chegou-nos por causa da abertura, não foi algo que a precedeu! O nervosismo crescente e rápido, quase angustiado, do pontinho negro ilustra bem a desgraça daí decorrente, e a que todos assistimos, ao longo de Janeiro e Fevereiro de 2021.

 

     Fonte: World Meter, 10 Março 2021.

Já o Quadro aqui por cima expõe algo tão estático como são as cruzes dos cemitérios. A imagem mostra os dez países do mundo onde, desde o começo da pandemia, se tem morrido mais por Covid19. Portugal está num honroso 10.º lugar a nível mundial, bem à frente de outras áreas de má-fama, por este motivo, como os Estados Unidos, o Brasil ou a Espanha, outrora considerada, juntamente com a Itália (agora de braço dado connosco), a nódoa negra europeia. Mas a justeza deste 10.º lugar pode ainda ser refinada, e para pior: repare-se que quer Gibraltar (1.º lugar) quer S. Marino (2.º lugar) têm pouco mais do que 33 mil habitantes, isto é, a população de um concelho médio português. Algo de semelhante acontece com o Montenegro (7.º lugar), que tem uma população similar à da cidade do Porto, e a Eslovénia (5.º lugar), com os seus 2 milhões de habitantes terá, grosso modo, a população da Zona Centro do país. Repesco todos estes exemplos para sublinhar que são populações de pequena dimensão, o que torna a robustez do cálculo da taxa de morte por milhão de habitante pouco sólida e ilustrativa. Se puséssemos de lado esta insegurança e usássemos nas comparações apenas países com uma dimensão populacional igual ou superior à nossa, Portugal saltaria para o 6.º lugar no ranking mundial do maior número de fatalidades por Covid19. 

Ora isto que, apesar da cosmética e do "aguenta-me esse papel na gaveta", se pode ver cá de dentro, vê-se seguramente (e até com maior nitidez) de fora do país, o que explica o cuidado com que os viajantes provenientes de Portugal são recebidos por países como a Inglaterra e a Alemanha, o que sempre arrasta o ministro dos Estrangeiros a veementes protestos e afirmações de desproporcionalidade. O homem tem razão, coitado: então nós deixamos entrar toda a gente, com variante ou sem ela, e eles em retorno... 

O panorama dos últimos dois meses, que só agora começa a atenuar-se, de tão mau e impossível de negar, levou a uma nova moda na política, que consiste em os responsáveis assumirem responsabilidades. Todos, do Primeiro-ministro à ministra da Saúde, se apressam a assumir a responsabilidade. Se isso se traduz em saltar de um quinto-andar, em oferecer uma coroa de flores à família de cada um dos milhares de mortos que o poderiam não estar, ou, simplesmente, em apresentar a demissão, é coisa que nunca nos dizem. 

Neste contexto observacional, muito ilustrativo foi ver Marta Temido apressar-se a assumir os tais erros e responsabilidades, mas logo de seguida - quando a entrevistadora, tentando concretizar um deles, lhe apontou o caos na saúde - a tornar-se muito ofendida, negando esse caos e substituindo-o por um "vivemos uma situação muito complexa". Querida senhora, o caos é, quase sempre, de uma complexidade enorme, tão desmedida que nem tempo há para pensar em contextos teóricos ou, até, para arregaçar as mangas convenientemente, o que, apesar de tudo, foi o que fizeram sem descanso aqueles que se apressaram a reconverter e reorganizar serviços e correr ao exterior das instituições a levar oxigénio aos doentes das ambulâncias que se acumulavam, à espera de vez, nos jardins dos hospitais, todos eles rezando para que não lhes faltasse o ar engarrafado, como viria a acontecer no Hospital Fernando da Fonseca.  

04 março 2021

VOU-TE CONTAR: 75. Deus abençoe os ausentes

Queirã?! Sim, Queirã, nunca ouviu falar? É natural, eu próprio nunca teria ouvido falar se não se tivesse dado o acaso de o meu pai ter por lá nascido.

Queirã é uma aldeia do concelho de Vouzela, distrito de Viseu, e dizer Vouzela é dizer já o bastante. Estive em Vouzela recentemente e comprovei a vila parada, pasmada. Imagine-se agora uma aldeia recôndita, satélite de Vouzela, sem outro horizonte do que o ficar deslumbrada com essa vila que é o centro do seu sistema solar. Potencie agora tudo isso colocando-se em 1947, quando se passou a história que lhe quero contar.

Junho de 1947, a 2.ª Guerra Mundial terminou há menos de dois anos e a Europa, o Mundo, está em ruínas, em crise profunda: fome, miséria por todo o lado, cidades e vilas são amontoados de destroços, e isto acontece desde a Espanha ao Japão, não esquecendo a Alemanha, que ficou em farrapos. Mas, mesmo num panorama destes, a vida continua para os vivos, é preciso tentar ser feliz, seguir a nossa vida. Posicionemo-nos, então, como se tudo estivesse a começar de novo e o mundo fosse uma tenra esperança.

O cenário mudou para a cidade do Porto, uma rua residencial, tranquila, de moradias abastadas. Um jardim muito cuidado - a exigir jardineiro residente -, cheio de canteiros e esquadrias, trepadeiras, verdes e flores e, pelas roupas leves de quem se passeia, pode inferir-se que estará um dia encantador, talvez de fim de Primavera, e que será já da parte de tarde, pois os corpos projectam sombras nas paredes e nos muros.

Várias pessoas movem-se pelo jardim, vão parando e tirando fotografias, é para elas que olho a tentar entender o que se me apresenta, pois sei que a minha existência, ao menos os seus fundamentos, começou algures ali. O que será aquilo? O que estará aquela gente a fazer e porque é que uma das mulheres parece estar tão tensa, as mãos persistentemente atadas uma na outra? Apesar de não aparentar ter ainda idade para isso (deverá rondar os quarenta), está vestida como uma viúva, e embora sorria e o sorriso seja bondoso, é um sorriso algo crispado, fabricado, de quem preferiria, talvez, estar noutro local. Mas não é viúva, aquela senhora discreta, a quem o saia-casaco só não assenta discretamente por contraste com os outros, pois o tempo é estival e os companheiros estão trajados levemente. Aliás, embora não apareça nas fotografias, o seu marido também anda por aqueles jardins, na companhia de um padre, ainda novo, alto e forte, de feição irónica e despachada. Esse padre é irmão da senhora embaraçada e, ambos, são irmãos de um outro homem, muito moreno, de fato escuro, em quem sobrenada a atitude de ser o elo entre aqueles dois mundos e parecendo preparar-se para continuar a frequentar aqueles jardins.

O que explica tudo aquilo? O que andarão aquelas almas, os que foram fotografados e os outros, fora do enquadramento, a divagar por ali, naquela tarde de Junho.

A cena retrata o pedido de casamento da minha mãe, que acabou de fazer 21 anos há escassos dias e é a rapariga de cabelo ondulado e ar um pouco aéreo, envergando um casaco ligeiro e claro, às riscas, praticamente igual ao da sorridente irmã mais nova, essa, sim, nas suas sete-quintas e aparentemente divertida com o acontecimento: um pedido de casamento deve ser coisa positiva e divertida, certo? O homem de fato escuro tem 31 anos feitos e é o meu pai, e uma outra dama, que também sorri contidamente à ponta de um banco, é a minha avó, mãe da noiva, a qual se deixa ver em apenas uma das fotografias, após o que desaparece, o que terá sido fácil pois está nos jardins bem tratados da sua casa, o que não sucede com metade da comitiva, vinda de Viseu, a mais de cem quilómetros e três horas de viagem. 

Pelas sobras da tarde, o jardim fica por conta dos visitantes, e o meu avô, o pai da noiva, não deu sequer abertura para descer e posar para a posteridade, como se esperaria de uma solenidade daquelas. Onde estará? Supõe-se que tenha estado nalgum momento anterior, uma vez que a mão de uma filha requer-se na presença de ambos os pais e a ele lhe competiria a palavra final. Mas esse momento já terá sido e o restante entretenimento fica por conta do mulherio, o mulherio que entretenha os visitantes, ele terá mais do que fazer e, bem vistas as coisas, tudo aquilo não lhe agrada sequer muito, não seria o que esperava como futuro para uma filha mais velha. Mas, enfim, os jovens são teimosos e a filha, embora obediente à superfície, tem uma ponta de personalidade; fôra dificultoso impedi-la de querer continuar os estudos e ir para a Universidade, convencê-la do que se esperava dela: que cumprisse o destino e ficasse em casa, entretida a ser uma senhora como as outras!  

O meu avô era, à data destes acontecimentos, um homem poderoso, gerente de um banco, como ocupação principal, e uma figura conhecida na cidade, capital do Norte, pelas costelas artísticas, as herdadas e as desenvolvidas: o homem escrevia, editava revistas, livros e almanaques; era sócio de uma livraria, de uma editora e de uma tipografia; escrevia e produzia peças de teatro e uma delas, A Costureirinha da Sé, estreada há um par de anos, fora um sucesso, não só regional mas também nacional, acabaria por dar um filme, as canções do enredo eram trauteadas pelo povo da cidade. Era esse o mundo em que se movia e agora a sua casa apalaçada, onde onze arcos de pedra embelezavam a arquitectura das fachadas, a sua vida via chegar, precipitadamente, um potencial genro de Queirã (uma aldeola atrás do sol-posto), dez anos mais velho do que a filha, mas licenciado em Medicina há pouco mais do que meses, pois desperdiçara grande parte da juventude num seminário!; um tipo sem nome, sem carreira, sem cheta.

Se deslocarmos a lupa para a perspectiva do meu pai, duplamente órfão há muitos anos, topamos rapidamente na razão que explicava ser a irmã mais velha a fazer as vezes de patrono no pedido de casamento. A Maria do Céu, oito anos mais velha, não restara outra saída senão a de fazer de mãe dos irmãos (dez, contando com ela); tivera de crescer depressa e o meu pai reconhecia-lhe o estatuto com naturalidade: era junto dela que se aconselhava, a quem pedia dinheiro emprestado se estava atrapalhado, era em casa dela, em Viseu, onde residia quando não estava na Universidade, era por lá que tinha quarto e uma cómoda onde guardava os esquálidos pertences. Nada mais natural e apropriado, então, do que pedir à irmã para assumir aquele papel, e o meu tio Vasco (o padre) garantiria um complemento lógico com o seu estatuto, a sua voz forte e o modo de ser assertivo.

Mas como raio, divago eu imiscuindo-me nos eventuais pensamentos do meu avô Heitor Campos Monteiro, fôra aquilo chegar a acontecer? Onde é que um tipo daqueles, escuro como um mouro e peludo como um macaco, teria conhecido a filha e como se pudera aproximar dela? O meu avô, de pele clara e louro nos tempos em que tinha cabelo, conhecia bem o círculo de amigos da minha mãe - a maior parte deles frequentava-lhe a casa -, teria uma ideia razoável dos pretendentes que, necessariamente, surgiriam na costa, dado que a minha mãe era viva, bonita e carismática, dotada de uma apreciável capacidade de manipular o ambiente e concentrar atenções. Com todas esses prendas, distinguia-se no Porto, em Espinho, pelas termas de Melgaço, em Santa Cruz da Trapa, em Oliveira de Frades e até, de passagem, em Vouzela, onde havia uns primos distantes e, imagine-se, se organizavam bailaricos! E surge o acaso a fazer das suas, a divertir-se com o improvável, e o meu pai terá visto a minha mãe, pela primeira vez, dentro das fronteiras do território natal, teria ela catorze anos e ele vinte e quatro. O mundo teria ainda de cumprir várias rotações em torno do eixo, passar por uma guerra generalizada, até que uma aproximação se desse, desta feita em Espinho, onde a família da minha mãe veraneava e, por lhes estar mais à mão quando se traçava a linha recta, as gentes da Beira-Alta procuravam o litoral. 

Nas décadas seguintes o futuro escreveria a história de ambos e, afinal, o meu pai não desiludiu. Mas quem consegue prever o futuro a partir do horizonte estreito de uma bela tarde de Junho?

 


 

 

Nota: O título deste texto está em dívida para com a canção "God Bless the Absentee", de Paul Simon, álbum One-Trick Poney, 1980.

 

16 fevereiro 2021

VOU-TE CONTAR: 74. ROOM SERVICE

Na última quinzena de Dezembro do ano que findou, mas sobretudo ao longo das primeiras três semanas de Janeiro de 2021, desloquei-me ao Porto com uma periocidade razoavelmente semanal com a finalidade de proceder ao esvaziamento da casa que fora a dos meus pais e, em tempos, a minha.

Apesar de se encontrar fechada desde 2007, ano da morte do meu pai, que sobreviveu à minha mãe, a casa, com três andares, mantinha intacto o seu recheio e dizer isto não é dizer apenas que conservava o mobiliário nas várias divisões, mas, também, que esses móveis mantinham o seu conteúdo: livros, molduras com fotografias, roupas, caixas de costura com linhas, dedais e tesouras; pratos e talheres; peças ornamentais de madeira, cerâmica e bronze... Havia também espelhos e quadros pendurados pelas paredes; a lenha que sobrou da que era usada na lareira; pneus velhos na garagem, e até alfaias de jardim e mangueiras enroladas no quintal. Tudo, praticamente tudo, do que ali sempre existiu quando lá morávamos todos: os meus pais, as duas minhas irmãs, uma empregada que ali viveu com o marido; vestígios dos anos de universidade em que o meu filho procurou o Porto e a casa do avô para residência.

"Deus abençoe este lar", constava num prato, redondo, de faiança azul, pendurado sobre a ombreira que separava a cozinha do hall.

Mas, ao fim de um longo estágio no mercado imobiliário, a casa fora finalmente vendida e o articulado do contrato de compra e venda, já assinado, fixava que deveria ser entregue, ao novo proprietário, devoluta (ou seja: vazia, desocupada) no dia da escritura, formalidade prevista para meados de Janeiro.

Assim, antevendo que seria empresa árdua e demorada, pus-me a caminho ainda antes do Natal e, juntamente com a minha irmã mais velha e o marido de uma das empregadas da minha sobrinha, cavalheiro que revelara óptimas qualidades na manutenção do quintal da casa quando este se transformou na selva costumeira dos locais desabitados, juntamente com essa ajuda, dizia, demos começo à imensa, interminável e, à posteriori, dolorosa, tarefa de a esvaziar e decidir sobre o que fazer ao muito que ali restava. 

Às cinco da tarde do primeiro dia dedicado a esse empreendimento, o anoitecer de inverno expulsou-nos dali. Em muitas das divisões, as lâmpadas dos candeeiros tinham fundido e, noutras, estouravam mal se dava ao interruptor: a humidade acumulada numa casa fechada é omnipresente e nada lhe resiste, a água é o primeiro corruptor, o ferro que o diga. De modo que, não se podendo contar com a luz artificial, as sombras cresciam como cogumelos e eu sentia-me já arrasado de tanto subir e descer escadas, de tomar consciência sobre o quase nada que fizéramos nessas primeiras oito horas de trabalho.

"Isto vai ter de ficar para outra vez", desabafei, desanimado, ao Sr. Serafim, que regressava dos contentores do lixo com o carrinho de mão vazio e um cigarro pendurado sobre a máscara descaída. Nada que não soubesse desde sempre que iria suceder, mas, nesse dia, pouco mais iniciáramos do que o esvaziamento de arrumos sob escadas e o empurrar para o lixo da papelada sem préstimo evidente, dos objectos avariados ou destruídos pelo tempo há que estavam enclausurados.

As visitas seguintes encadearam-se a um ritmo progressivamente mais intenso, com menores intervalos entre as minhas viagens de meio milhar de quilómetros, pois Janeiro rompera o calendário com o seu primeiro dente e a escritura fora finalmente agendada para o fim do mês.

Cada um vindo do seu sítio, encontrávamo-nos habitualmente na casa por volta das nove da manhã e eu, que ia dormir ao Porto de véspera, era o primeiro a chegar, a abrir cadeados e portões, a subir estores e escancarar janelas; a tentar expulsar a tristeza, a humidade e o intenso odor a mofo e, sobretudo, a tentar fomentar uma corrente de ar que atenuasse, apesar de todos usarmos máscaras, o risco de contágio por Covid19, caso algum de nós estivesse infectado sem o saber. É que, planeadamente, muita gente se cruzava entreparedes em cada uma daquelas sessões: o tipo que vinha ver os livros; o antiquário; a rapariga das velharias; os primos que gostariam de ficar com alguns dos móveis, os operários que vinham substituir um vidro partido; e, amiúde, de surpresa e surpreso com a actividade frenética, o futuro dono, um homem ainda jovem, de atitude e sorriso benevolamente contidos, que surgia para conferir a altura dos degraus da escada para o primeiro andar - a que pensava substituir a alcatifa por piso em madeira - ou, acompanhado de um carpinteiro, para estudar as característica das tábuas de madeira exótica escondidas sob o verniz das portas dos quartos. 

E sempre, sempre, nós os três, os crónicos: a minha irmã Clara, o Sr. Serafim e eu próprio; cabendo-me, o dia inteiro, o ter de responder aos milhentos "o que se faz a isto?". "Lixo", respondia, cerrando os dentes, arfando atrás da máscara. E ao fim da jornada — as tais cinco da tarde em que o crepúsculo e o cansaço nos expulsavam —, ao ligar o alarme e fechar as portas, tentávamos animar-nos reafirmando que já "se notava qualquer coisa". Um qualquer coisa que era o inverso do que fora o encher — alegre, premeditado ou espontâneo — daquela casa, feito a pouco e pouco, ao longo de quarenta anos, ruminava, já metido dentro do carro, enfiando-me no trânsito em direcção à saída da cidade e à noite.

A última sessão, a que esvaziou mesmo a casa e a deixou só paredes e sombras, arrastou-se por dois dias: no primeiro, a associação benemérita que iria levar consigo os móveis e objectos sobrantes, escolheria e carregaria o que lhe poderia render ou servir para alguma coisa, e o dia posterior seria gasto a recolher o que consideravam inútil, os monos imprestáveis, e esse tempo e transporte restantes seriam pagos por nós. Tinha lógica. Havia um frigorífico quase podre, uma arca congeladora roída pela ferrugem que pesava toneladas e jazia na cave; camas e armários que só conseguiriam atravessar portas desmontados. Mas, para além desses, havia escolhos:

"Estes três vão ter de sair daqui à machadada", apontava, empedernido, um dos tipos da tal associação benemérita.

"À machadada, como?"; eu não compreendia como seria possível referir desse modo os dois enormes móveis-estante da sala-de-estar, o louceiro da sala-de-jantar. Um desses armários, onde estivera a TV, concentrara, concorrendo com a lareira, todos os olhares presentes na sala durante décadas; o outro, os livros mais nobres da casa. Quanto ao louceiro, atrás da suas portas de vidro, expusera porcelanas, cristais, tudo quanto havia de mais comemorativo, frágil, colorido e tilintante.

"À machadada, feitos em tábuas! Quem é que você acha que vai querer isto?", perguntava ele, irado de imaginar o trabalho futuro, apontando o imenso móvel da TV, que fora concebido e construído para ocupar precisamente todos aqueles metros entre o chão e o tecto, a lareira e a porta-janela que dava para o terraço.

"O que é que você acha que se pode fazer com uma coisa deste tamanho? Quem é que hoje tem uma casa para isto? Nem dado, alguém o quer! Vai directo para o ecoponto e, antes disso, vamo-nos ver gregos para o arrancar dali!"

Nenhum daqueles três era grego: o que me falava assim - o mentor, o líder da equipa - era português e afeiçoado à entoação de uma rixa de rua; um dos outros ucraniano e o terceiro brasileiro. Unia-os o serem todos ex-toxicodependentes e trabalharem como cães, sem parar nem pestanejar.

"Você é que sabe...", ouvi-me dizer.

"O Pedro, amanhã, não deveria assistir a isso", sugeria a Elisa, que ouvia a conversa e, após regatear um pouco (já tratara de assuntos semelhantes), desistira também de elencar soluções alternativas. O seu aparte piedoso era o que se poderia considerar, pensei, um conselho de merda: atento, bem-intencionado, irrealizável. Como dizer a um morto que não deve assistir à sua autópsia!

O último dia foi 21 de Janeiro, uma quinta-feira, e começou à hora do costume. Nesse dia, como na véspera, estive sem a companhia ou o auxílio da minha irmã Clara e do Sr. Serafim, ambos fechados em casa com Covid19, tal como o meu cunhado e a mulher do Sr. Serafim, a tal que era empregada da minha sobrinha, vejam só a cadeia de contactos! Já vogávamos naquela fase da pandemia em que ninguém fazia a mínima ideia com quem apanhara a doença e eu próprio deixara de estar seguro do meu estado viral! Como companhia, para além dos três carrejões da associação, voltou a aparecer a Elisa, amiga que levou alguns móveis e reposteiros para si, alguns livros, alguma roupa e ajudou onde pôde, como se fizesse parte daquele filme, onde apenas entrara para o último capítulo. O que é o destino, e, é claro que o destino fez de tudo para que nesse dia chovesse a potes e a humidade fosse tão intensa fora como dentro de casa, onde até os espelhos dos interruptores brilhavam de água e estes escorregavam sob os dedos.

Pela hora do almoço a casa estava praticamente esvaziada: restavam os ferros de uma cama por desatarraxar no andar de cima; um armário na cave para desirmanar; e uns sofás pela sala-de-estar, para além de uns caixotes no hall da entrada. Mas era hora de almoço: os homens tinham de o ir fazer à cantina da Associação, e a Elisa tinha de ir preparar o almoço à mãe.

"Eu gostava de o poder convidar", dizia, prevendo o meu destino imediato. É que tudo, fora daquelas paredes, estava já fechado pelo confinamento e não havia restaurante, café ou fosse o que fosse onde se pudesse entrar, sentar, ir.

"Não se aflija, fico por aqui; trouxe umas bolachas e tenho uma garrafa de água ali na mochila."

Solidária, ela deixou-me uma pera e uma banana, antes de arrancar:

"Estou aqui por volta das três", o que era a hora a que os outros três homens tinham combinado regressar para terminar o serviço. E com a saída dela entrou o silêncio.

Depois de lavar a pera na banca vazia da cozinha, levei tudo para o peitoril da lareira e arrastei um nada a antiga poltrona do meu pai para o meio vazio da espaçosa sala de estar, para mais perto da luz frouxa do exterior. Dali a escassas horas aquela poltrona, de morno veludo vermelho, iria ser exilada para sempre, designada aos adereços de um teatro, fazendo companhia à roupa que ainda sobrara pendurada no guarda-vestidos do quarto dos meus pais. Que fim reconfortante, apesar de tudo, quando a alternativa era o lixo ou os contentores de roupa para sem-abrigo. 

"Darão uns belos trajes de época", ajuizava Elisa.

Sentei-me no cadeirão, trinquei a pera, com casca e tudo: já não restava um prato, uma faca naquela casa. Lá fora, a chuva continuava a cair e, como conservava as portas-janelas da sala abertas, o som chegava-me, claro, monótono, aqui e ali travado na queda pelas folhas das plantas do jardim. Olhei o relógio: era uma e um quarto, teria mais ou menos, uma hora para estar ali, sozinho. Por volta das duas e meia iria aparecer o meu sobrinho João, filho da minha irmã Clara, para recolher uns pacotes para a mãe, emparedada em casa pela quarentena covídica.

Foi por aí, entre o cascabulho da pera e o puxar pelas abas da banana, que me chegou o zumbir da campainha. Soube, de imediato, que era proveniente de uma campainha interior, pois as das portas exteriores estavam avariadas e inactivas há séculos; já ninguém, sequer, as pressionava por erro ou esquecimento! 

Acontece que em várias divisões da casa, sobretudo nos quartos de dormir do andar de cima, existia, à cabeceira da cama, gémeos dos usados para acender e apagar a luz principal do quarto, um fio longo, terminando-se por um interruptor na ponta, um manípulo oblongo a que se chamava, precisamente, "a pera". Em baixo, numa das paredes da cozinha, num pequeno quadro com números, era resumida a informação sobre quem chamava: a cada divisão correspondia um algarismo e, quando a pera respectiva era pressionada, uma pestana com esse algarismo, descaía e tornava visível a origem da chamada. Como o zumbido, vindo da cozinha, continuasse, levantei-me e fui ver. Sem grande surpresa, constatei que o algarismo cuja ficha caíra e vibrava era o correspondente ao quarto dos meus pais. Carreguei no botão, existente sob o quadro, que anulava o toque e fazia regressar os algarismos à posição de espera. Nada aconteceu, o número 6 continuou ali, vibrando levemente.

Subi as escadas e entrei no quarto. Como nos outros, os fios da luz e das campainhas jaziam agora ao longo do soalho, como tripas abandonadas e inúteis. Acocorei-me e premi o interruptor da pera: o zumbido cessou. Olhei o quarto vazio e silencioso e voltei à sala e à minha banana. Lá fora, a chuva acalmara um pouco, a luz aproveitava para tentar atravessar os vidros embaciados, mas o interior da sala continuava sombrio, a lareira parecia agora um enorme estaleiro abandonado e ao lado, na parede, havia uma imensa cicatriz rectangular no local onde o móvel da TV fora arrancado. Sentei-me no cadeirão vermelho. Seria a última vez que ali estaria e esse ali, onde estava, já não era bem nada, embora ainda fosse alguma coisa...

O zunido fez-se ouvir de novo na cozinha. Levantei-me e fui verificar. Era a mesma coisa de há pouco e o botão de desligar sob o quadro voltou a não funcionar. Voltei a subir as escadas, voltei a agachar-me no interior do quadrado onde outrora estivera a cama dos meus pais. Carreguei no interruptor da pera, mas, desta vez, não resultou: o zunido continuou a chegar-me lá de baixo. Desatarraxei as duas metades da pera, reconstruí-a, voltei a tentar o interruptor. Nada. Desisti e, depois de ficar um pouco na cozinha, a olhar a pequena placa onde o 6 vibrava, regressei à sala. O som ficou, em fundo, a balir, um balido eléctrico, enrouquecido, até que se terá cansado e parou. Não voltou a tocar.

Às três chegaram todos, primeiro os homens da Associação. Achei-os agora mais cordatos, o mentor já não latia resmungos com a mesma intensidade, o ucraniano dizia piadas tímidas sobre os parafusos que restavam pelo chão e o brasileiro, um tipo dos seus quarenta anos, considerava que era uma bela casa, apreciava a extensão das janelas, aquela parede quase coberta de vidros que dava continuidade à sala de estar e à de jantar.

"Você passou aqui a sua infância?"

"A infância, não; a juventude, saí para ir trabalhar..."

"Deve ter sido bom morar aqui...", alvitrou.

"Sim, sim; imagine isto num dia de sol..."

"Até hoje...", contentava-se ele.

Depois chegou a Elisa, com o ar apressado com que chega sempre a qualquer lugar, um ar decidido, preparado para resolver, dar instruções. Agora os homens da Associação iam ficar por sua conta, tinha-os contratado para irem levar as coisas, das que agora eram dela, a outro destino. 

"Mas para que quer ela tantas cadeiras?", perguntava o carrejão mentor, apontando a fiada empilhada na sala.

"É que ela tem um teatro", expliquei, "e num teatro gastam muitas cadeiras..."

Ele encolheu os ombros, suspirou.

"Já mal temos espaço no camião e ainda vamos ter de meter esta merda toda! E o sofá vermelho, também é para ir?"

No final, despediram-se de mim com cotoveladas amistosas, um deles de punho contrapunho e desejámo-nos tudo de bom, que a vida podia ser agreste! Eles saltaram para a cabina do camião, fui ajudá-los na manobra de entrar na estrada.

"Não precisa mais de mim?", perguntou a Elisa, "é que fiquei de ir à frente deles, apontar-lhes o caminho."

"Não, vá, vá; obrigado por tudo. Vou só ligar o alarme, fechar as portas e também me vou pôr a andar..."

"Hoje ainda vai chegar a casa a horas de jantar."

Antes de fechar a porta, olhei para dentro. Da posição onde estava, e com a casa vazia, conseguia ver de uma parede à outra, uma perspectiva que não recordava nunca ter tido. Havia a porta em cuja soleira eu estava, a seguir a porta aberta do vestíbulo, depois o hall, depois a porta corrida que dava acesso à sala de estar e, mais ao fundo, os estores descidos das porta-janelas, por onde se insinuava um fio ténue de luminosidade exterior. Meti a chave na fechadura, olhei outra vez o interior e puxei a porta sobre mim. O alarme iniciou os pios intermitentes de que fora activado.  


Fotos, de cima para baixo: 1. pedro serrano, 2010; 2-3-4. pedro serrano 2021; 5-6. Ana Almeida, 2021; 7-8. pedro serrano, janeiro 2021.

 

 

 

 

 

 

 

11 fevereiro 2021

CARPE DIEM

A minha mãe quando tinha 12 anos e um poema escrito mais tarde por ela.

 

09 fevereiro 2021

ALEMANHA AMIGA, FOR EVERS CONTIGO!

Fui às lágrimas, ao ver ontem este Herr (Jens-Peter Evers) e outras Fräulein, vindas com ele, a contar na TV, em horário nobre, da sua satisfação por estar em Portugal, a ser tão bem tratados. Do mais importante que revelaram, foi que todos os médicos portugueses falam inglês e alguns até alemão! Porra, que povo extraordinário. E que, continuava Herr Evers, o patrão da coisa, até se sentiam uma espécie de "estrelas de rock-n-roll", pelo modo como eram encarados por cá, o que só demonstra que eles, vulgares profissionais de saúde militares, estão a ser olhados pelos indígenas daquele modo embasbacado e subserviente useiro e vezeiro neste país, desde os tempos de Eça de Queiroz, para o que nos chega de fora. 

Com o à vontade de quem se sente como faca em manteiga, Herr Evers, ao fim de uma rápida semana em Portugal, pôde também concluir com segurança que os portugueses não fizeram nada de mal no combate à pandemia. Que simpático, que fofo, ouço até daqui as palmas de Herr Costa, Herr SS (Santos Silva) e Frau von Themido. Nada de dissemelhante ao que os alemães fizeram no seu próprio Deutschland, confessou o querido comandante. Pois, a semelhança vê-se nos números de casos e de mortos por milhão de habitante [veja o Quadro abaixo], e nos pedidos de ajuda que a Alemanha tem dirigido a outros países...

Entretanto, esta simpática equipa de 26 profissionais, tem, para se entreter, num serviço com um máximo de 8 camas de cuidados intensivos (e, para já, 2 doentes), 6 médicos e 18 enfermeiros (2 por cama), 50 ventiladores, 150 bombas de infusão, para além de acesso total ao catering da Luz. Perguntem aos médicos e enfermeiros portugueses, aos tais que se entretêm na medicina de catástrofe, o que não poderiam fazer com o mesmo à vontade de meios e recursos e, já agora, pagos pela tabela alemã de vencimentos e com direito a ser rendidos daqui a três semanas.

Estou certo de que no final, todos eles sairão daqui com uma medalha, um voucher para voltar quando o Algarve reabrir e, condescendentemente, a equipa admitirá, durante a medalhada, trincar um pastel de Belém em vez de uma bola de Berlim. 


Números sobre Covid19 na Alemanha (primeira linha) e em Portugal (última linha), 9 Fevereiro 2021: 


Portugal (apesar de ter 8 vezes menos habitantes do que a Alemanha) tem, no dia de hoje, praticamente o mesmo número de novos casos de Covid19 e de mortos do que a Alemanha. Se tivermos em conta a população de cada país significa que temos por cá cerca de 8 vezes mais mortos, e 8 vezes mais casos novos do que eles. Em termos médios, o número de mortos é, desde o início da pandemia até agora, o dobro em Portugal quando comparado com os alemães. Resumindo: não há comparação possível e eles estão apenas a ser simpáticos com o país que visitam.

 

 

08 fevereiro 2021

HERÓIS DO LAR

1. Uma história mal contada

Uns dezanove milhões e quinhentos mil anos-luz (ou melhor: doses) antes de o processo estar concluído, eis que o coordenador da task-force do programa de vacinação anti-Covid19 se põe ao fresco, invocando um pretexto que não convence ninguém. 

O homem terá descoberto que, num dos sítios onde manda (Hospital da Cruz Vermelha), se fez a aldrabice do costume na priorização de que deve ser vacinado? E daí, pergunto eu? O rol dessa falcatrua é diário e interminável em Portugal e, que se saiba, Francisco Ramos não usou do expediente para uso pessoal, da esposa, da sogra ou do capelão da Santa Casa da Misericórdia. Ou usou? Não. Então, o que o levará a abandonar, num momento tão crucial, o que de mais promissor se pode fazer actualmente em termos de luta contra o Covid19? Afirma Ramos (disse-o também o primeiro-ministro), que nada neste fuga tem a ver com o trabalho da task-force, e que foram as irregularidades na priorização de vacinas na Cruz Vermelha que lhe tornaram a posição insustentável! Então, mas no Hospital da Cruz Vermelha, o director clínico e a enfermeira-chefe (ao que parece os responsáveis directos pela lista dos vacináveis) já não tinham posto o lugar à disposição? E, só por isto - que nada põe em causa a sua autoridade ou honradez - o homem salta da coordenação daquilo que nos é, em termos da país, mais precioso, mas continua a dirigir o Hospital da Cruz Vermelha, pois, diz-se, não o deixaram sair, não querem que saia, é considerado imprescindível? É certo que aquela Cruz Vermelha tem andado complicada, quase nas ruas da amargura, alegadamente desde os dias em que entregaram o leme a outro herói nacional conhecido por Francisco George, o qual, após várias acrobacias no cargo, foi encostado às boxes e evoluiu discretamente de chefe-de-turma para chefe-de-escuteiros, e atarefa-se agora na distribuição de hospitais de campismo e de pensos-rápidos, digo:  testes-rápidos. E, estando aquilo atrapalhado na Cruz Vermelha, resolveram chamar outro Francisco para tentar resolver ou atenuar aquilo. Valha-nos S. Francisco!

Quando, há um mês, Francisco Ramos tomou conta da task-force Covid19 (para surpresa de alguns, pois que de vacinas, programas de vacinação e rede nacional de serviços de vacinação nada sabia: é homem da política (PS) e da administração de hospitais), quando ele tomou conta da coordenação das vacinas, dizia, os funcionários do costume rosnaram de admiração: que agora é que era, que, finalmente, tinha sido convocado um "peso-pesado", e o pessoal da geral embasbacou com a "carta na manga" do Ministério da Saúde. O homem iria controlar a missão e, daí em diante, esta estava fadada a só poder correr bem, era isto o que se ouvia pelas esquinas dos corredores do poder. 

O que se viu, nestas breves quatro semanitas, foi bastante diferente, a começar pelo atabalhoamento inicial do discurso, pela altivez e arrogância da pose pública: malgrado a generalidade e imprecisão da linha de rumo exposta, tudo era comunicado com um ar de absoluta certeza ("vamos vacinar 50.000 por dia", por exemplo) e todas as perguntas eram respondidas num trejeito de frete e condescendência, a roçar os tiques do Humphrey Bogart nos piores papéis de cabotino. De cada vez que Ramos aparecia, cada um de nós, lá em casa, se sentia esmagado, estúpido, no sofá, encurralado no canto do ignorante que deve estar, de joelhos, a tentar simplesmente compreender sem discutir e a agradecer que alguém se tenha dignado a descer do Olimpo e ande a pensar no nosso bem, congelado a menos 70 graus lá para os lados de Coimbra. 

Mas, depois, começou a dança, a verdadeira dança do embate com a realidade, do programa vacinal, resolvido em Portugal de forma diferente de todos os outros países da Europa e constantemente alterado; dos vacinados indevidamente; da falta de resposta para as questões concretas e pertinentes em torno da logística, os pormenores de que é feito o sucesso dos pequenos actos; o moroso dia a dia... 

E uma tarde invernosa, naquela surpresa de que um mal nunca vem só, surpreendem-nos com a notícia de que o herói da task-force saltou fora, terá amuado, a vida por ali não lhe estava a correr como ele imaginara; bateu com a porta. 

Do buraco, sobrou-nos Temido, a tremer nos ecrãs, ainda mais zonza e petrificada, a confundir aleatório com errático quando os jornalistas a apertaram nos detalhes concretos do programa de vacinação.

Mas, calma, povo ingrato! Um vice-almirante veste já a capa para encarnar o próximo herói do lar, e a TV apressa-se a divulgar o exímio currículo sanitário: aos 18 anos andava já de submarino, ninguém esteve tanto tempo como ele debaixo de água (só talvez Paulo Portas), pelo que um contacto tão próximo e demorado com os peixinhos lhe terá dado tempo para reflectir longamente sobre vacinas dentro do Barracuda, que, dos submarinos lusos, é o que ele conhece melhor. Bem-vindo à barracada, senhor vice-almirante. Honra lhe seja feita, que nos prometeu, à cabeça, ir ser invisível durante o trabalho; antes isso! 

Saiba, Vossa Almiranteza, que, dantes, a gente costumava ter uma DGS e uns serviços de saúde pública que lidavam com vacinas e programas de vacinação diariamente, fizeram isso por uns cem anos, com sucesso, com persistência, com prática e capacidade de cumprir e avaliar o processo. Era até respeitado no estrangeiro. Agora, parece que nada disso nunca existiu, ninguém se manifesta, ninguém revindica a experiência ou defende a honra da casa, e todo o assunto acabou simplesmente entregue, primeiro, a economistas (Francisco Ramos) e, agora, a militares do subtipo aquático. E embora exista logística no assunto, em que, consta, os militares são bons, um programa de vacinação, o seu planeamento, estratégia e execução são 99 % técnicos, técnicos no sentido da medicina e da enfermagem.

E uma vez que aqui se falou nela, a DGS parece, neste dias de Janeiro e Fevereiro, um outro desparecido em combate: dali nada vem ou transparece como espinha-dorsal da saúde pública que deveria ser ou de expressão de vontade em conduzir tecnicamente os processos realmente importantes. Dessas bandas e de novo, apenas um simulador de prazo de vacinação para o Covid19 que não informa nada de concreto a quem o quiser saber, e renovados conselhos às agências funerárias, o último dos quais solicita a crematórios e cemitérios que trabalhem o mais que puderem, o que equivale a dizer a alguém que, num dia chuvoso, sai de casa de chapéu de chuva: "não te esqueças de abrir o guarda-chuva!". 

Apesar do infortúnio geral, suponho que existirá quem possa estar radiante com alguns destes desenlaces: vide, o nosso Marcelo, nestes dias na sua segunda vaga. É que, inerência da presidência, é ele quem manda nos militares ou seja, tendo na task-force um dos deles (e não um enjoado do PS) poderá ser mais presidencialista na atitude, acompanhar de mais perto o que é feito, e ralhar com o governo com mais substância. O que, olhando para a aragem, talvez não seja assim tão mau.  

2. A invasão alemã

Marta Temido, que aparenta um fraquinho pelas listas de lavandaria e pelo aleatório, presenteou esta semana o país com outra novidade - nada parece suceder com lógica previsível neste país-: o local para onde resolveu enviar os alemães que vieram ajudar à nossa aflição de antigo sucesso da pandemia. No princípio, como é costume, a vinda deles foi um grande segredo, um mistério de Estado: se vinham, quantos vinham, quem vinha, para onde iam. Mas os alemães revelaram tudo, os safados: quantos eram, quem eram, o que traziam na bagagem... Mas Marta guardou até ao final o grande segredo de para onde iriam, e ia-se deixando escapar ao povo ávido que seria para "um hospital da grande Lisboa". Sim, mas qual? Havia tantos. Tendo em consideração as loas permanentes à "maior conquista de Abril" e às sucessivas birras com o sistema privado de saúde, penso que não passou nunca pela cabeça de ninguém que a ajuda externa não fosse parar ao SNS, ao Santa Maria, aos Hospitais Civis, uma vez que tudo se passaria na Área Metropolitana de Lisboa. Talvez, como sugeriu um dia destes na TV, um distinto infecciologista, chamado Silva Graça, fosse boa ideia pensar como destino dos alemães o Centro Hospitalar do Oeste (Torres Vedras-Caldas da Rainha), que serve mais de 300.000 pessoas, e não tem uma única cama de cuidados intensivos. 

Ah, mas Temido cruzou as voltas a toda a gente e mandou os alemães para o Hospital da Luz, um mastodonte privado, um dos locais proibidos, até agora um dos grandes inimigos do SNS! Meus Deus, quem será capaz de explicar isto, uma vez que não se acredita facilmente naquela teoria que já lá tinham até um edifício pronto, à espera de ser recheado por gente da Sr.ª Merkel? Qual será, de facto, a verdadeira razão? Será que a Ministra queria invadir o Privado, tipo blitzkrieg? Será que Temido queria afastar os colaboradores vindos de Leste do depauperado SNS, esconder atrás da peneira o ambiente de guerra em que os nossos serviços hospitalares (e não só) trabalham actualmente? É que, apesar de tudo, os privados sempre têm um aspecto mais próximo de um hotel, a confusão é necessariamente menor, estão menos na linha da frente, as ambulâncias não fazem fila à porta; talvez não lhes falte o cartucho na impressora sempre que é preciso imprimir um requisição. Será isso? Nunca o saberemos ou talvez só o venhamos a saber tarde de mais, quando os surpreendidos visitantes tiverem regressado à pátria e contarem o que viram por cá. Ou será que os obrigaram a assinar um contrato de confidencialidade ou tentaram explicar-lhes que Portugal produz um produto genuíno, quase tão nacional como o Galo de Barcelos (Der Hahn von Barcelos), chamado cortiça, com o qual se fabricam magníficas rolhas e se tapam os sons produzidos pelos orifícios incómodos?