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14 março 2021

DE BOCA ABERTA!


Diga-me, já foi alguma vez ao dentista? É claro que sim e, assim sendo, deverá ter reparado que, sempre na proximidade do médico-dentista, existe, também debruçada sobre si, uma rapariga ou uma senhora, que se vai encarregando de múltiplas, pequenas e indispensáveis tarefas. É ela que enfia na sua bocarra escancarada um tubinho que injecta ar e mantém o interior da sua boca razoavelmente seco para que, face à formação permanente e natural de saliva, o dentista não tenha de trabalhar debaixo de água. É também ela que aspira o sangue que brotou, as esquírolas e poeiras que a broca provoca; é ela, ainda, quem mpunha aquele aparelho que produz uma luz azul que endurece mais rapidamente a massa com que o médico tapou aquela cratera no seu terceiro molar do lado direito. E, permanentemente, é ela que vai chegando ao médico os ferros que ele necessita a seguir, a seringa da anestesia, é ela que mistura os diversos compósitos que serão aplicados dentro da sua boca.

Durante todo este processo, sublinho, você está de boca escancarada, ao léu, sem nenhuma possibilidade de usar máscara nesse momento. Mas eles, o dentista e as assistentes de medicina dentária, têm de trabalhar ali, a dez, quinze ou vinte centímetros da sua cara, e isso implica que estejam expostos à sua respiração, aos líquidos da sua boca, os que escorrem ou os que espirram sobre eles durante a consulta, a maior parte das quais se prolongam além dos vinte minutos que as autoridades de saúde consideram suficientes para que um vírus, como o do Covid19, se transmita entre duas pessoas. Função de alto risco, portanto: pela falta de protecção total de um dos envolvidos (você), pela distância, pelo tempo de exposição, pelo local do corpo onde eles têm de trabalhar. O risco desta gente é enorme, similar ao de um médico otorrinolaringologista, pois trabalham sobre a zona mais perigosa de um corpo humano em termos de transmissão de doenças respiratórias.

E agora diga-me uma outra coisa? Se lho pedissem, em que categoria de profissionais classificaria estes auxiliares de medicina dentária de que tenho vindo a falar? Acha que são profissionais de restauração ou hotelaria? Dos correios? Acha que são profissionais de metalurgia? Talvez agentes de segurança? Não, penso que é claríssimo para todos que são profissionais que prestam cuidados de saúde, certo? Pois, mas olhe que não, o Estado português não os considera como tal, estão impedidos de ser classificados ou olhados legalmente como tal e isso, conclusão imediata e grave, impossibilita-os de serem considerados como candidatos prioritários a vacinação antiCovid19! Fiquei de boca aberta quando o soube! Brada aos céus e, comparado com outras facilidades a que temos assistido, é de tal modo escandaloso que existe uma petição nacional a correr sobre o assunto; se estiver interessado ou chocado com o que lhe contei o endereço é este (carregue com o rato): Assistentes Dentários excluídas da Primeira fase da vacinação

 


 

10 março 2021

AGORA EU ASSUMIA RESPONSABILIDADES

                            Fonte: Constantino Caetano/Departamento de Epidemiologia do Instituto
                                          Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, 2021.

                              
De modo engenhosamente animado, a imagem condensa o comportamento da epidemia de Covid19 em Portugal desde Setembro de 2020 até aos primeiros dias de Março de 2021. O pontinho negro que dança no ecrã tem a propulsioná-lo dois indicadores importantes no tomar do pulso a uma epidemia: o número de novos casos de doença (incidência) e a velocidade com que o contágio progride (o tal R). Neste contexto, as coisas não estão assim tão mal quando o pontinho anda pela metade inferior da imagem, sobretudo se anda pelos baixios do lado esquerdo. Se se aproxima do lado superior da metade direita da imagem, isso quer dizer que as coisas vão muito mal.

Agora repare no que sucedeu por altura do Natal: quando os nossos governantes decidiram dar ao povo a benesse de abertura para as Festas, o pontinho negro já acusava uma tendência de crescimento da epidemia, ou seja: estavam envenenadas as frutas-secas do bolo-rei que nos estendiam e foi de grande irresponsabilidade essa bondade. Mais: ninguém, lá no alto, onde planam as águias, podia dizer que não estava tecnicamente avisado, e a história da variante inglesa foi (e é) desculpa para inglês ver. Essa abertura natalícia inundou o país de visitantes vindos do Reino Unido, fossem turistas ou compatriotas saudosos, e a variante chegou-nos por causa da abertura, não foi algo que a precedeu! O nervosismo crescente e rápido, quase angustiado, do pontinho negro ilustra bem a desgraça daí decorrente, e a que todos assistimos, ao longo de Janeiro e Fevereiro de 2021.

 

     Fonte: World Meter, 10 Março 2021.

Já o Quadro aqui por cima expõe algo tão estático como são as cruzes dos cemitérios. A imagem mostra os dez países do mundo onde, desde o começo da pandemia, se tem morrido mais por Covid19. Portugal está num honroso 10.º lugar a nível mundial, bem à frente de outras áreas de má-fama, por este motivo, como os Estados Unidos, o Brasil ou a Espanha, outrora considerada, juntamente com a Itália (agora de braço dado connosco), a nódoa negra europeia. Mas a justeza deste 10.º lugar pode ainda ser refinada, e para pior: repare-se que quer Gibraltar (1.º lugar) quer S. Marino (2.º lugar) têm pouco mais do que 33 mil habitantes, isto é, a população de um concelho médio português. Algo de semelhante acontece com o Montenegro (7.º lugar), que tem uma população similar à da cidade do Porto, e a Eslovénia (5.º lugar), com os seus 2 milhões de habitantes terá, grosso modo, a população da Zona Centro do país. Repesco todos estes exemplos para sublinhar que são populações de pequena dimensão, o que torna a robustez do cálculo da taxa de morte por milhão de habitante pouco sólida e ilustrativa. Se puséssemos de lado esta insegurança e usássemos nas comparações apenas países com uma dimensão populacional igual ou superior à nossa, Portugal saltaria para o 6.º lugar no ranking mundial do maior número de fatalidades por Covid19. 

Ora isto que, apesar da cosmética e do "aguenta-me esse papel na gaveta", se pode ver cá de dentro, vê-se seguramente (e até com maior nitidez) de fora do país, o que explica o cuidado com que os viajantes provenientes de Portugal são recebidos por países como a Inglaterra e a Alemanha, o que sempre arrasta o ministro dos Estrangeiros a veementes protestos e afirmações de desproporcionalidade. O homem tem razão, coitado: então nós deixamos entrar toda a gente, com variante ou sem ela, e eles em retorno... 

O panorama dos últimos dois meses, que só agora começa a atenuar-se, de tão mau e impossível de negar, levou a uma nova moda na política, que consiste em os responsáveis assumirem responsabilidades. Todos, do Primeiro-ministro à ministra da Saúde, se apressam a assumir a responsabilidade. Se isso se traduz em saltar de um quinto-andar, em oferecer uma coroa de flores à família de cada um dos milhares de mortos que o poderiam não estar, ou, simplesmente, em apresentar a demissão, é coisa que nunca nos dizem. 

Neste contexto observacional, muito ilustrativo foi ver Marta Temido apressar-se a assumir os tais erros e responsabilidades, mas logo de seguida - quando a entrevistadora, tentando concretizar um deles, lhe apontou o caos na saúde - a tornar-se muito ofendida, negando esse caos e substituindo-o por um "vivemos uma situação muito complexa". Querida senhora, o caos é, quase sempre, de uma complexidade enorme, tão desmedida que nem tempo há para pensar em contextos teóricos ou, até, para arregaçar as mangas convenientemente, o que, apesar de tudo, foi o que fizeram sem descanso aqueles que se apressaram a reconverter e reorganizar serviços e correr ao exterior das instituições a levar oxigénio aos doentes das ambulâncias que se acumulavam, à espera de vez, nos jardins dos hospitais, todos eles rezando para que não lhes faltasse o ar engarrafado, como viria a acontecer no Hospital Fernando da Fonseca.  

27 janeiro 2021

GASES RAROS

Hoje, começo com uma parábola e termino com um conselho, ambos têm a assemelhá-los a volatilidade e os seus perigos.

1. A família Pisco andava, há que tempos, para aderir ao gás de cidade, pois o sistema da mudança da botija, o ter de telefonar ao homem da carrinha, o ficar sem gás a meio da ensaboadela, andava a fazer pressão no agregado.

"Ó Luís, já ligaste para a companhia por causa do gás?", perguntava a mulher de dois em dois dias.

"Telefono prá semana, prá semana isto deve ficar resolvido."

"Vê lá se te mexes! É que já não se pode tomar banho e lavar louça ao mesmo tempo! Ainda ontem a Marta se pôs aos gritos no chuveiro, que o débito descaiu ou não sei quê!"

"Na quinta-feira trato disso..."

E o tempo foi passando e uma noite a mãe Pisco descobre que o piloto do gás está a lançar uns assobios pevidosos, a recordar a fala do Cavaco Silva, sinal de que o precioso elemento se está a finar. Grita ela para dentro:

"Ai Luís, o gás vai-se acabar!"

Mas o pai Pisco era um homem previdente, trabalhava até como especialista em logística e planeamento numa firma de aparelhos ortopédicos e, de imediato, saltou do sofá e resolveu o assunto: recomendou a Marta que acabasse o banho em água-fria, ao filho que fosse jantar ao vizinho do lado, e à mulher que aquecesse três salsichas em lume brando.

"Reconheço que é desconfortável", mas daí não virá mal ao mundo", afirmou com o seu ar de Pai-Natal consolado. "Seria bem pior se estivéssemos a braços com oxigénio a falhar num hospital, como em Manaus!"

 O pai Pisco, também conhecido como O Mirante.

2. Despachada a parábola, passemos a coisas práticas e menos embaraçosas, e baseado no simples, elementar e muito valioso, princípio da precaução em Saúde Pública (ou privada) deixe que lhe sussurre ao ouvido o seguinte: desfaça-se já dessa máscara social/comunitária que tem vindo a usar (apesar de certificada pela indústria têxtil que a produziu; apesar de conter um produto que arrasa os vírus mal eles pousam) e adquira, passe a usar, uma máscara em condições. E máscaras em condições são aqueles que os profissionais sempre usaram: as cirúrgicas (para mudar todos os dias), as bico-de-pato (N95; ou FFP2) ou mesmo os respiradores usados por quem trabalha com pesticidas ou outros produtos tóxicos (N99; ou FFP3). Estas máscaras proporcionam-lhe uma protecção que varia entre os 90 e os 99 % e os seus efeitos defensivos estão mais que estudados e comprovados. Ou porque acha que são usadas há décadas e décadas por quem não brinca em serviço?  

Perco algum tempo a falar nisto por dois motivos principais: primeiro, pois andam por aí variantes do Corona à solta que são muito mais contagiosas (a inglesa, a brasileira, a da áfrica do sul) e algumas até mais mortíferas. Isto significa que o vírus se pode transmitir agora com maior facilidade e rapidez, pelo que todos os meios para evitar o contacto com ele se devem reforçar ou melhorar. Em segundo lugar, e ao contrário do que aconteceu em Março/Abril, agora há máscaras das que recomendo (FFP2 e FFP3; cirúrgicas) em quantidade no mercado (farmácias; lojas; Internet). Aproveite, mas certifique-se do que compra e que verificou, impressas na embalagem ou na descrição do produto, as designações N95/FFP2, ou N99/FFP3.

Já se sabe que embora em todo o mundo civilizado se comecem a adoptar estas precauções de mais apurado rigor com as máscaras que se escolhem para enfrentar as mudanças na pandemia, o nosso Ministério da Saúde, e particularmente a DGS, não se pronunciam em nenhum sentido sobre o assunto, continuam à espera que alguém lhes mande dizer o que fazer, que, por cá não se pensa, copia-se, tarde e mal, basta considerar as mudanças constantes nos destinatários do Plano de Vacinação anti-Covid19 ou os hospitais que ficam sem oxigénio, de repente, como em qualquer outra república das bananas. De resto, a nossa DGS não pode ser acusada, neste aspecto, de incoerência: sempre acarinhou a atitude anti-máscara e quem quiser recordar os penosos antecedentes basta-lhe ir ao YouTube para rever as declarações iniciais sobre o perigo que seria usar estes trapos imundos, que para nada serviam! Apesar de terem tido que engolir todas as declarações sobre o assunto, outro fenómeno governamental bastante frequente em Portugal e que tem feito subir exponencialmente as vendas de omeprazol, quer a Dr.ª Graça quer a Dr.ª Marta torcem sempre os respectivos narizinhos quando são obrigadas a falar nessa ovelha-negra chamada "máscara de protecção facial". Que é apenas um meio complementar, como os outros, enruga-se Temido, enxofrada; e é ainda possível percorrer centenas de km de uma autoestrada sem encontrar um dos múltiplos placards com  conselhos da DGS que se refira a máscaras, pois preferem gastar os caracteres electrónicos sobre as nossas cabeças com o lavar das mãos, o distanciamento e o espirro para o cotovelo. Ah, será naquele placard que se aproxima do nosso automóvel? Não, aquele diz: "ANIMAL NA VIA A 5 KM". Que se há-de fazer, as máscaras é um assunto que as chateia!


Marta, na versão Oxigenada.
3. Quanto à excelência do nosso planeamento na Saúde, em planos de contingência, vibrei ao ver, ontem, na TV a indignação da nossa ministra quando uma jornalista a acusava disso mesmo "ausência de planeamento e estratégia" nesta matéria da pandemia. Foi aos arames, a responsável, e vociferava que a afirmação da jornalista era "criminosa, criminosa!". E refutava com os hospitais, e os serviços hospitalares, mas aí o povo ignorante está careca de saber que esses fazem o que podem, mais do que o que podem, e pensam antecipadamente; por vezes até desobedecem a Lisboa, os safados. Que remédio: é em cima deles que cai tudo. Mas não era ao planeamento de quem cuida que a jornalista se referia, mas sim, e antes, ao planeamento, à estratégia, às medidas de antecipação dos Serviços centrais do Ministério da Saúde, onde coroa o gabinete da entrevistada. E nesse caso, se fosse à senhora ministra, começava a pensar de outro modo nessa palavra que usou para invectivar a jornalista (criminoso, criminoso!) e, como um espelho, a virasse para se tentar rever a si própria. É que um dia destes, quando a coisa acalmar e chegar o tempo de lamber feridas, haverá, com toda a certeza, quem se vá entreter com isso.

Nota: A foto de cima ainda não foi tirada na Amadora, mas sim na América do Sul.

 

23 janeiro 2021

O FADINHO DA VARIANTE

Esta desbragada lata de nos virem com a variante inglesa do Corona como fundamentação para atrasar decisões decisivas é de ir às lágrimas. Usando uma analogia, seria como alguém pedir uns dias para escolher se comprava um carro amarelo ou vermelho para se espetar contra um muro. Ou como se um fumador lesse a notícia de que fumar provoca cancro e continuasse a fumar para verificar se isso era verdade.

De facto, tanto se dá que a variante do vírus seja a inglesa, a sul-africana, a brasileira, a do costume ou a da Baixa da Banheira. Tecnicamente, tanto faz; em termos de intervenção em Saúde Pública, tanto faz. Independentemente se é uma ou outra a dominante, temos um número de novos casos diários de doença impressionante (o pior do mundo), um número de mortes diário assustador (o segundo pior do mundo) e este bando que improvisa na governação da República ainda tem o topete de nos vir dizer que precisavam de mais tempo para decidir como remediar a asneira que provocaram no Natal ao não restringir totalmente as Festas e ao não conseguir prever e acautelar atempadamente o estado de espírito que isso provocou na população, a qual, perante tanta bonomia e pai-natalice do primeiro-ministro e do presidente, se considerou moralmente autorizada a continuar com o mesmo à vontade festivo ao longo das celebrações do Ano Novo. Ao arrepio do que fez todo o mundo civilizado e da Europa que tanto gostamos de invocar. O resultado viu-se, está a ver-se e ainda se há-de ver mais, pois os mortos continuarão a assombrar-nos nas próximas semanas.

E de onde virá o grande mistério de sermos o único país da Europa com tal quantidade e crescimento de casos da nova variante inglesa? Porque será que isso não aconteceu tão exuberantemente noutros locais do mundo? Será pela Inglaterra ser a nossa aliança mais antiga, aquela costela de proximidade que adoramos invocar desde a Idade Média? Não, caros leitores, a razão é dura e transparente como cristal: é que enquanto toda a gente se confinou e fechou portas no Natal, proibiu transportes e voos vindos de Inglaterra, nós, por cá, recebemos todos os compatriotas dessas bandas que quiseram vir ver as luzes e comer o bacalhau, e os turistas ingleses continuaram a chegar (e à Madeira, por onde a variante entrou no país em primeiro lugar) na maior das descontrações. Um convívio porreiro, para citar Tino de Rans. É esse o segredo, pouco tem de complexo ou científico até, basta pensar que 2 mais 2 igual a 4. 

Dias e dias após o desastre, após a desgraça se avolumar, como o Adamastor, sobre o nosso pobre cantinho, os nossos governantes andaram por aí a valsar, a tanguear, a decidir se tomavam medidas mais confinantes, se fechavam as escolas ou não, apesar dos apelos desesperados dos profissionais de saúde, dos autarcas, até das associações de pais! Não, eles, os eleitos, é que sabiam, havia um tempo para tudo e o primado da técnica já era, como afirmou, trumpianamente e muito cheio de si na TV, Lacerda Sales, o ex-médico, agora convertido em secretário de estado da saúde e em burocrata de turno. Não, eles é que sabiam como e quando fazer o que era necessário, embora mal sonhassem os contornos da realidade. E ao lado de Sales, no mesmo enquadramento, igualmente convencida nas suas tamancas de saltos altos, uma qualquer secretária da educação ia papagueando a sociologia de pacotilha sobre os coitados dos meninos que só comiam uma refeição decente estando na escola; por isso elas não podiam fechar. Isso apesar da presidente da Câmara do concelho que os dois governantes se tinham dignado visitar, garantir, à beira do desespero corajoso, que isso, da fomezinha, não seria um problema, que a autarquia tinha meios para fazer chegar comida a quem precisasse.

Menos de 24 horas depois, fecha tudo, afinal, de repente, e a culpa é de quem? Do Governo? Não, claro, que esses até estão dispostos a admitir erros, embora não elenquem consequências práticas desse assumir. A culpa é da variante inglesa, que subiu por aí acima, a malvada, sem se dignar ter a delicadeza de pedir licença ao Santos Silva, que é o responsável pelas coisas com o estrangeiro e não proibiu nunca um avião inglês! Isto não é reciprocidade, porra, não é proporcionalidade, há que lavrar um veemente protesto e mandar ao despenteado do Boris.

É esta incompetência, esta incapacidade de aprender com o passado recente e com os erros anteriores (vide primeira vaga e primeiro confinamento), este navegar à vista mas só com um olho, como o Camões nos seus piores dias de maresia, que todos temos de aturar, e não adianta protestar, não adiantam argumentos nem demonstrações, nem a estupefação do resto do mundo quanto ao que acontece ao bom aluno, à terra do milagre Eles, os eleitos, é que são investidos com a sabedoria e, perante a raiva que vai trepando pelas paredes e saindo às ruas, ainda se admiram com fenómenos como os de André Ventura, um nome que, nos círculos esclarecidos, é de mau-gosto pronunciar, como se valesse negar a realidade ou tapar o sol com a peneira. Pobres peneiras, estão tão esfarrapadas de ser falsamente usadas, tão remendadas, como a grande conquista do 25 de Abril, o famoso SNS, mostrado nos discursos como um velho urso amestrado de circo. Vá lá, SNS, levanta-te nas patas de trás e dá um ar da tua graça, que a senhora Ministra anda a precisar que a animem, coitada, já se cansou de ralhar com os portugueses, já mostrou demasiados frascos de vacinas para o retrato e essa já não pega. De resto, não mostra ideia do que fazer, como se tem visto, e ultimamente, por falta de ideias, agarrou-se até, como o Camões ao manuscrito dos Lusíadas, ao novo conceito, invocado pela Ordem dos Médicos, para o desempenho na Saúde: a medicina de catástrofe, que já se anda a praticar por cá como se fossemos um país em guerra ou vítimas de um tsunami.

A carrinha de transporte de vacinas (deitada).

Quanto à DGS, também parece ter posto o optimismo maquilhado no prego, quase desapareceu dos ecrãs e dos comentários, e quando se mostra não é pelas razões mais conducentes a apontar medidas tomadas, dar bons conselhos, ou a tranquilizar a população. Depois das compotas, o novo negócio dessa casa parece ser agora o encaixotamento e as mudanças, pois fizeram saber ao público que andam a inquirir os cangalheiras sobre se se estão a aguentar ao bife com tanta procura. Uma notícia da maior utilidade para quem, aflito, está lá em casa, diga-se, quase tão útil como vir discutir para a praça pública se o presidente de um lar deveria ser vacinado ou não, assunto da maior premência nacional e dando direito a declarações e respectivos desmentidos.

E, em tudo isto, o que é feito dos mordomos de serviço? Estarão eles calados, nestes tempos duros, confusos e ingratos para os portugueses? Seria bom, não acham? Mas não, lá vem o Cabrita clamar a grande festa da democracia que foi a eleição antecipada nas presidenciais, com bichas de gente a trocar entre si as novas e as velhas variantes: "Queres trocar a minha inglesa pela tua sul-africana?". 

E lesta como um milhafre, eis que surge nos céus revoltos Ana Catarina Mendes, a lulu do PS, a desancar o médico Ricardo Baptista Leite, que, destroçado por uma urgência em que trabalhou no que ninguém gosta, desabafou nas redes sociais que nunca vira tanta gente morrer num só turno de trabalho... Que não, veio logo a outra, a partir da sua cadeirinha em casa e depois de ir escarafunchar estatísticas ao hospital em causa. Teve azar, coitada, acabou desmentida pelo próprio conselho de administração da instituição de saúde.

Mas nem tudo está a correr mal, por isso não desanimem com este texto algo descrente. A vacinação anti-Covid19 segue a toda a velocidade, uma velocidade tal que uma carrinha de transporte de vacinas se despistou numa autoestrada, tendo nós, lá em casa, ficado sem saber se os frascos se partiram e se o asfalto estaria a menos 70 graus e em condições de os receber condignamente. 

 

 

  

04 janeiro 2021

MAÇÃO? QUE MAÇADA!

Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.
1, 2, 3, 4. Três secretários de estado e um ministro. Uma ministra e três secretários vão estar hoje em Cardigos, Mação, lá na ponta do distrito de Santarém, quase já no limite do distrito de Portalegre, ou seja: atrás do sol-posto. Já lá estive, está-se sempre à espera de ver o cu ao Judas a qualquer instante. Grande coisa se deve passar por lá, pensará o mais ingénuo, vibrando na esperança de que a insigne comitiva esteja relacionada com o arranque, a primeira pedra, de qualquer grande empreendimento que desenvolva o interior desértico e queimado pelo incêndios que caracteriza a zona. Uma nova área industrial, um campus, uma linha de TGV, um call-center, um novo Fozcoa, sei lá... Desengane-se, caro ingénuo. Como parece não terem nada com que se ocupar nos respectivos ministérios, os quatro governantes vão observar uma meia-dúzia de infelizes velhos a ser picados contra o Covid19. O número total de vacinados será maior, eu sei, aos quatro é que basta a meia-dúzia, o tempo de ficar na fotografia, talvez, inspirado, um deles pergunte a um dos velhinhos se está feliz, mas ele não ouviu, pois embora o tenham escovado e enfiado num pijama lavado, esqueceram de lhe ligar o Sonotone. E, depois, os quatro, escalonados segundo a hierarquia, sorrirão para as TV, dirão que é um dia de esperança, falarão na luz ao fundo do túnel
 A ministra e Rita Mendes, a amiga Secretária de Estado da Acção Social.
, no empenho do Governo, antes de se enfiarem nos carros e voltarem a Lisboa. Cardigos, Mação, porra! Como é que um sítio daqueles foi parir um Juiz Carlos Alexandre?! Nem um lugar decente para se comer um petisco, existe.
 

Regressarão satisfeitos, foi fácil, apesar de algo maçador, que não há autoestrada mesmo até lá! Mas, tudo contado, não deu assim tanto trabalho: as vacinas chegaram porque a Europa tratou das encomendas, dos contratos e da distribuição pelos países, e até o dinheiro da compra acabará por ser pago por eles, após alguma trasfega de papelada, um autêntico circuito fechado. Correu bem! Mas, mesmo assim, foi preciso alguma coragem para ir àqueles lares... É que locais daqueles, para além do cheiro pouco recomendável, do ar confinado, são um autêntico vespeiro de Covid19 e os velhos estouram como castanhas esquecidas ao lume... Deve ser mais perigoso estar ali, mesmo que por pouco mais do que cinco minutos, do que no meio da nova variante do vírus que os ingleses descobriram! A ministra do

Duarte Cordeiro, Secretário de uma coisa qualquer.
Trabalho, Solidariedade e Segurança social até evitou respirar enquanto lá esteve (com a máscara ninguém dava conta da boca e do nariz aferrolhado); é certo que lhe chegava um pouco menos de oxigénio ao cérebro, mas também não lhe fez grande falta. Felizmente, não era a ela que cabia resolver o mistério do desastre actual e crónico dos lares; explicar tanto caso, tanto surto, tanta morte, pois que o vírus não medra de geração espontânea, alguém o deve estar a meter lá dentro... Mas podia poupar no latim, que o gajo das Misericórdias já tinha vindo explicar que em Inglaterra, na Alemanha, noutro sítio qualquer de que já não se lembrava, a percentagem ainda era pior; de modo que, por esse lado, estavam todos bem.

Secretário de Estado da Saúde.


"Américo, apetecia-me algo", desabafou para o motorista ao regressar ao assento de trás do automóvel do Estado.

"Tomei a liberdade de pôr álcool-gel na prateleira da Senhora Ministra", respondeu o homem reajustando o retrovisor, "e tem também um par de luvas de nitrilo e um pacote de kleenex".

"Obrigado, Américo, mas já chorei a minha lágrima lá dentro... Espero que a CMTV tenha apanhado."

 

12 dezembro 2020

DA FRAGILIDADE HUMANA

Desfez-se em lágrimas, a ministra, enquanto discursava à frente da mão-cheia de pessoas que assinalava os 121 anos do Instituto Nacional de Saúde, mais conhecido por Instituto Ricardo Jorge. Está longe de ser um acaso, o porquê de isso ter sucedido ou o local onde isso sucedeu.

A pressão da pandemia Covid19 tem sido brutal sobre a Saúde, de uma intensidade nunca antes experimentada, de palavreado leva-o o vento, e a essa violência não escapa ninguém, nem sequer um ministro. Marta Temido (a quem compete manter o leme no meio da tempestade) tem sofrido da má orientação de quem lhe é institucionalmente devedor; tem sido vítima da própria inexperiência e, claro está, dos ataques da comunicação social e das redes sociais. Tem sido usada sem piedade (até por colegas de governo), zurzida sem piedade; a muita das vezes justamente, e o seu ar de quem tudo sabe e tem resposta para tudo, não ajudou, assim como não ajuda ver um responsável sistematicamente agarrado ao telemóvel quando, a seu lado, se enunciam problemas ou se invocam mortos e vulnerabilidades.

Nove meses mais tarde, a maioria dos actores directos no processo Covid (médicos, enfermeiros, auxiliares, dirigentes da saúde) estão exaustos e emocionalmente frágeis, é o preço das experiências-limite, seja uma guerra ou uma doença grave que bateu à porta do nosso corpo. Acontece que a coisa lhe bateu também à porta, a miss pispineta, que em demasiadas ocasiões aparentou comportar-se como se pouco tivesse a ver com isto ou como se os outros não compreendessem nada do que sucedia.

Não foi, igualmente, indiferente o local onde a quebra emocional aconteceu, ao final de um discurso e quase sem aviso, sem aquele nó na garganta que estrangula a voz e antecede as lágrimas. Não, de repente debulhou-se em lágrimas, viam-se escorrer-lhe cara abaixo, não foi aquela cenazita encenada para o programa da manhã da TV, quando a câmara que nos enquadra tem a luz ligado acesa. Aquilo subiu como a maré, ao dar-se conta das pessoas a quem se dirigia. A ministra encontrava-se numa instituição que, ao longo deste longo caminho pandémico, a tem fornecido (a tempo e horas e a qualquer hora, como referiu logo que conseguiu recuperar do choro) de informação técnica, credível e fundamentada; de apoio laboratorial em quantidade avassaladora, às dezenas de milhares de análises por semana, 24 horas por dia, e sem recorrer nunca ao truque do 'teste fácil e milagroso', que depois tem de ser repetido... 

Marta Temido, 11 Dezembro 2020.
Mais habituada às colheradas de informação generalista, confusa ou contraditória, por parte de quem a deveria assessorar (o posicionamento da DGS, por exemplo: opinativo, capelista, inconsistente); forçada, por esse apoio deficiente, a ter de dar o dito por não dito, Marta Temido terá sentido, de súbito e para além das palavras, descer sobre ela essa constatação, não conseguindo resistir ao momento em que o referia. Essa assunção de fragilidade foi bonita de ver, assim como foi apropriada a salva de palmas da assistência, que lhe possibilitou o tempo de se recuperar e terminar o seu discurso. 

02 dezembro 2020

PODE SER QUE TALVEZ...

Uf, que alívio! A empresa responsável pelo produto mais quente (Viagra) e mais gelado do planeta (vacina a menos 70 graus) anunciou que assegurará o transporte da vacina antiCovid19 até aos locais onde esta deva ser administrada. Esse transporte será feito, de acordo com a distância, em avião ou por via terrestre, em camiões próprios, dotados de sensor de temperatura que garantirá, a qualquer momento, que o produto se encontra nas condições térmicas exigidas. 

Uf, que alívio! É que eu já tinha visto, no pequeno ecrã, eclodir um novo tipo de especialista, um sábio em logística da saúde (seja lá o que isso for), a satisfazer-se em voz alta e concluindo que sim, que puxados todos os cordelinhos e feitos todos os telefonemas, Portugal deveria ter "capacidade técnica instalada" para o transporte em frio das vacinas, apontava como parceiros para o projecto as companhias de gás líquido e dava como exemplo de produtos conseguidos no campo do zero absoluto o gelo seco das malas térmicas, onde se transportam tubos de sangue para análise clínica, e, não menos impressionante, os gases gelados usados nas discotecas para fazer fumegar as bebidas! E, afinal, o que é uma vacina senão um shot

Entretanto, no seu sereno comunicado, a directora portuguesa da Pfizer informava ainda que a empresa entregaria as vacinas, assim chegassem, onde lhe fosse dito, estando à espera de instruções nesse sentido do Ministério da Saúde.

Mas ora aí é que está o busílis! Isto não funciona assim, que é que pensam os americanos da Pfizer?! É que há, pelo menos, duas comissões a tratar disso e cada uma delas tem o seu ritmo, as suas idiossincrasias, para além de vários elementos: tudo somado, vai para a vintena de individualidades, isto sem contar o secretário de estado, a ministra e os tradutores de linguagem gestual, que também têm uma palavra a dizer. Tem que se lhe diga, é complexo, demora... São, precisamente, estas complexidades da problemática que explicam que, enquanto, entre outros, a Inglaterra ou a Espanha (belíssimo o plano espanhol, na definição de princípios enquadradores, grupos prioritários, procedimentos) já divulgaram os seus planos a nível interno e internacional, nós, por cá, continuamos a inventar a pólvora, a mastigar os cartuchos, e tudo, com excepção do local onde ficarão armazenadas as vacinas, é muito reservado, preliminar e confidencial. 

Até ao momento (2 de dezembro), a única pessoa a produzir informação pública sobre o plano de vacinação português, o que fez de forma clara, completa e indo ao encontro do que as pessoas desejam saber, foi... Marques Mendes, o advogado e político de Fafe, tendo elevado com a sua prestação televisiva a bonita terra nortenha aos píncaros dos centros de excelência, onde viceja na companhia de Rebordões (berço das máscaras mágicas) e Oliveira do Hospital (concelho que revolucionou a tecnologia dos aeroportos antiCovid19).

Bem, sentemo-nos todos (nós - os  hipotéticos beneficiários da futura vacina - e a Pfizer), pois é bem imaginável que, em pleno Verão, continuemos à espera da transformação dos princípios em prática e, à falta de melhor, entretidos a observar como o turismo se restabelece no mundo vacinado e Portugal se mantém como país de destino não recomendável, dado que a esmagadora maioria dos indígenas ainda milita na situação de vulnerável contagioso. Para consolo de todos, nesse dia virtual, o ministro dos negócios estrangeiros vestirá a capa de super-homem e apresentará, junto dos seus congéneres europeus, um veemente protesto pela falta de proporcionalidade da decisão. 

 

27 novembro 2020

MORRER SAUDÁVEL (ou os velhos que esperem!)

O que é que qualquer leigo na matéria está podre de saber sobre as consequências do Covid19 na saúde? Que mata sobretudo quem é velho e que a idade é o principal factor de risco para uma doença com péssimo desfecho. A nível mundial, 50 % das mortes ocorre em pessoas com mais de 75 anos e, em Portugal, sabemos a tragédia que tem sido nos lares (residentes, na generalidade, com mais de 70 anos), onde mais de 40 % dos idosos infectados não resistem. Há, depois, a imensa legião dos velhos acamados em casa, a cargo da família. Acresce, como panorama geral, que Portugal é um dos países da Europa com uma população mais velha.

Ora, olhando para tudo isto, o que pareceria lógico, agora que a possibilidade de uma vacina se aproxima e é necessário planear como vacinar e por onde começar? Dir-se-ia que, à semelhança do que foi decidido um pouco por todo o lado (veja-se Espanha, França, Reino Unido, Suécia, por exemplo), o primeiro grupo prioritário a vacinar fosse o dos velhos, entendido como os dos 65/70 anos em diante, sem limite superior de idade. Sendo, como se diz, as vacinas em fabricação tão eficazes, evitar-se-ia uma imensa quantidade de mortes, sofrimento e entupimento dos serviços de saúde.

Mas, na DGS, a lógica parece ser uma batata grelada e, como já nos habituaram desde o começo da pandemia, dali tinha de sair qualquer coisa arrevesada, atamancada, ao arrepio do que acontece no país e aparenta ser tecnicamente sensato e aceitável. Uma tal Comissão Técnica de Vacinação Contra o Covid19, a primeira das duas comissões que o Ministério desencantou para tratar disto, resolveu que a grande prioridade, em termos dos primeiros a vacinar, seria o grupo dos 55-75 anos de idade! Os outros mais velhos que esperassem, logo se veria quando chegassem mais vacinas. Perante a bizarria, o povo nem quer acreditar no que ouve e fica a interrogar-se: mas porquê tal decisão, o que a baseia, que não estamos a ver? Ora baseia-se na sacrossanta evidência científica, esse escudo mágico dos dirigentes: as bulas das novas vacinas anti Covid19 nada dizem sobre a sua eficácia e segurança além dos 75 anos, de modo que, trigo- limpo-farinha-Amparo, estes não se vacinam. Simples, não é? Bem, pelo menos aparenta-o ter sido para a inteligência molecular que preside à tal comissão e tornou públicos os doutos critérios, tal se uma vacina tivesse de ser encarada como um medicamento perigosíssimo que, administrado fora da baia das recomendações imediatas do fabricante, pudesse matar, estropiar ou deixar de proteger alguém. Um belo e novo fundamento, fornecido pelo próprio Ministério da Saúde, para ajudar a robustecer a histeria dos negacionistas, dos grupos anti-vacinas e, ainda, um belo contributo para amplificar, junto da população em geral, o receio e a falta de confiança nas soluções que lhe são apresentadas. É claro que, apesar do que nos explicam, e conhecendo o que a casa gasta, por trás desta atitude de paladinos da saúde, mais do que tentar proteger os velhinhos poderá estar camuflada uma lavagem de mãos, ou seja: assim, nunca ninguém vai poder responsabilizar-nos por ter aconselhado um produto sobre o qual não foi reportada evidência, outra bonita acha na fogueira da desconfiança da população perante as vacinas e a confusão geral estabelecida em torno delas. Já vimos isto acontecer (igual que até arrepia) com as máscaras e o seu uso, lembram-se? "Não há evidência", "não use", "pode ser um perigo", "podem fazer mais mal que bem", "aconselharemos quando as entidades internacionais...", e o resultado foi o que se viu: andamos todos por aí com elas, é um dos meios de protecção mais eficazes e seguros, sobretudo se associado ao distanciamento e à higienização das mãos. 

Prof. Dr. Valter Bruno Fonseca (Director dos
Serviços de Qualidade da DGS; responsável pela
Comissão Técnica de Vacinação anti-Covid19). 

Mas não, a DGS não vai por aí! Não se antecipa. Duvida. Ainda não tem a evidência que há-de chegar da Agência Europeia do Medicamento, dos fabricantes, da Organização não sei de quê. Prefere ter as costas quentes. Num certo prisma, esta atitude assemelha-se-me tão criminosa como negar água a quem está a morrer à sede, argumentando que os resultados das análises à potabilidade ainda não chegaram... Morres, mas, pelo que depende de nós, morres saudável! 

O que, para mim, sempre foi um mistério, é não ver na tal comissão, na DGS, ninguém pensar segunda outra lógica, isto é, enformada por um pensamento de Saúde Pública: as vacinas são, e têm sido desde sempre, um poderoso aliado da saúde, um produto seguro, e o que está neste momento nos pratos da balança leva a que deva ser usado e aconselhado, pois o risco das consequências da doença neste grupo (70/75 e mais anos) é assustadoramente maior do que hipotéticos efeitos secundários. Nem sequer, nestas decisões disparatadas, se vê a sombra de um outro critério básico em saúde pública: a aceitabilidade. Para uma intervenção ter sucesso é necessário que seja aceite pela população a quem se dirige, como um todo. Calculo o que não terá ficado a pensar toda a gente, o povo votante, desta decisão de excluir aqueles que mais precisam!

Quem, de imediato, se apercebeu do perigo foi o primeiro-ministro, que pode ser acusado de tudo, menos de não ter um apuradíssimo instinto de sobrevivência e de conseguir prever consequências políticas. E, Deus o ajude, saltou logo para a praça pública, dizendo que não aceitaria um critério desta natureza. É óbvio que, com isto, passou mais um cartão de inutilidade à tal comissão (e à DGS), mas quem se põe a jeito... De todo o modo, esta desautorização (merecida) é péssima para a manutenção de uma desejada decisão política baseada na técnica, pois describiliza os técnicos. Já por aqui tinha referido, falando na criação desta comissão, parecer-me inadmissível não ver um único médico especialista em Saúde Pública integrá-la, pois foi, e é, a Saúde Pública que sempre lidou com populações e planeamento de medidas dirigidas a grandes grupos, epidemias, pandemias e vacinas. Está a ver-se o resultado de tal altivez.

 

Nota: Muito mais poderia ser dito sobre os anunciados, e atrapalhados, critérios para vacinação Covid19, limitei-me a escolher apenas o mais gritante.  

 

26 novembro 2020

LINHA ZERO (Diálogo Conjugal)

"Edite, soltaram o Cabrita!", gritei do sofá para a cozinha, onde ela estava ao micro-ondas.

"Puxa aí no riwainde", disse a mulher, regressando à sala com as fatias aquecidas da telepiza.

A Edite nunca perde uma das aparições do ministro da administração interna, segue-o, como um relógio, desde o tempo dos incêndios. Puxei o telejornal para trás e lá vinha ele a toda a brida, a rebentar pelas costuras, com aquele ar raivoso e de olhos esbugalhados que Deus lhe deu, tão parecido com o boxer do nosso vizinho que, sempre que o vejo surgir, me dá na ideia saltar para cima de um banco, a resguardar as canelas. Mas desta vez, coitado, estávamos a ser injustos, que o homem vinha só gabar o comportamento exemplar dos portugueses durante o 2.º confinamento, ainda mais espectacular que no 1.º. Que ele não disse confinamento, usou um daqueles termos proporcionais permitidos pela Constituição e sancionados pelo governo.

Tinha chegado a minha vez de ir à cozinha buscar a sobremesa: um diospiro para a Edite e uma gelatina Royal para mim e, quando voltei ao sofá, já estava a falar a ministra do trabalho, a...., nunca me lembro do nome dela.

"É qualquer coisa Godinho...", esclareceu a Edite, que é melhor para nomes do que eu.

Mas era ela, sem dúvida, a carita deslavada de catequista e aquele olharzinho de "a mim não enganas tu" com que sempre brinda os cidadãos. E, lá está, era mais uma ensaboadela dessas: então não é que havia cidadãos que pensavam que, agora nos feriados confitados, podiam ficar em casa com os pirralhos e receber um complemento, mesmo trabalhando na privada?! Isso é que era bom, esclareceu logo a ministra, sacando, de memória, da alínea f), do número 32, do artigo XVII do Decreto-Lei n.º não sei quantos, com a redacção que lhe foi dada pelo Decreto... Conclusão: ninguém tem direito a coisa nenhuma, quando muito podem ver a falta justificada! Ou esses cidadãos pensavam que eram algum Novo Banco, ou TAP, ou algum dos colegas dela bem-sucedidos na vida, que entraram na política com uma mão à frente e outra na rectaguarda e saem com casa na Comporta e andar na Expo sem que a Van Dunen lhes chegue? 

Mas já aparecia a ministra da saúde e, dos realití xou que já vi, não há melhor, bate o Quem Quer Casar Com o Agricultor, aos palmos - eles deviam pensar fazer um com os ministros todos, em que se veriam 24 horas por dia. A esta, nunca perco a esperança de, um dia, quando as câmaras a filmarem pela perspectiva dos da linguagem gestual, ver o que é que ela está sempre a olhar no telemóvel, que, mesmo durante as conferências de imprensa e os conselhos de ministros, ela nunca o larga! Aquilo devem ser dados que lhe chegam às catadupas: surtos em lares, refeitórios adaptados a cuidados intensivos, torres de refrigeração com legionela, doentes transferidos para a Trofa, coisas assim. Ora os jornalistas estão a perguntar-lhe qual é a probabilidade de, ao contrário do que sucederá nos outros países europeus, as vacinas do Covid19 não chegarem cá ao mesmo tempo que aos outros. "Zero por cento", diz ela sem pestanejar, com aquela certeza que Deus Nosso Senhor lhe concedeu. A Edite, ao meu lado no sofá, até grunhiu de satisfação:

Senhor, faz com que chegue em Janeiro..
"Antunes" (trata-me sempre pelo meu nome de família), "esta é que é esperta! Viste, já está a adaptar a linguagem." E como eu não alcançasse onde queria chegar, explicou-me que aquilo da ministra estar a falar em "zero" era já uma linguagem influenciada pelas vacinas que, se Deus permitir, hão-de chegar cá. "Então, não sabes que aquilo é tudo abaixo de zero? Há uma que precisa de estar a 70 graus? E outra a vinte, abaixo de zero? Já se está a preparar, a moldar."

"Achas?", perguntei, "achas que já se estão a preparar?"

"Sem dúvida! O quê, ninguém sabe, mas a Leontilde disse-me que tinha ouvido dizer que eles até já têm nomes de código para as vacinas que vierem a chegar: parece que, se for a mais fria, a campanha vai chamar-se Capitão Iglo, se for a outra, que ainda é congelada mas menos, será Mini Magnum, e se for a chinesa, que também deve ser congelada (eles ainda não sabem bem, estão à espera que a Agência Europeia lhes diga), vai ser Mistura Oriental (para Wok).

"Tu achas?"

"Acho, não: sei. Diz que tem tudo previsto, como eles já têm no estrangeiro, só que aqui é mais secreto, ainda não nos disseram, para não dar azar. Elas podem chegar, a qualquer momento, pelo aeroporto, no TGV espanhol ou, até, de cacilheiro, se forem as chinesas e vierem por Sines."

Fiquei arrombado com aquela capacidade de planeamento e previsão miudinha e, ainda mais, quando soube que, só para tratar de uma simples vacina, havia duas comissões e tinham chamado até os militares! Mas, ainda eu me embasbacava, e já mostravam no ecrã as imagens de um complexo fabril abandonado, lá para Coimbra, onde as vacinas iam ficar guardadas até chegar o horário de picarem as pessoas. Mostraram o prédio, um barracão esverdeado, todo empoeirado por dentro, a precisar de obras e daquele senhor que aparece sempre na TV, empoleirado num escadote a atarraxar uma coisa.

"Mas, então, isto não devia ser secreto?", pergunta a Edite. "Com tanta gente aí à míngua de vacina, com a propaganda que eles têm feito no governo, até pode haver alguns meliantes a querer roubá-la, para a tomar antes de todos ou vendê-la para a Venezuela, para África, para um paraíso fiscal"

"Estás a sonhar mulher, não sejas descrente! Não vês que eles contrataram os militares! Isto, quando chegar, só vai sair de Coimbra de Chaimite! Ouviu-se dizer que tinham pensado, inicialmente, escondê-las em Tancos. Só que depois consultaram o Nuno Rogeiro e ele achou que, "dados os precedentes", era melhor não..."

"Ai, Antunes, quando chegará a nossa vez de sermos convocados? Ou achas que vamos ter de encomendar na farmácia?"

"Na farmácia?! Tu achas que há militares que cheguem para pôr um em cada farmácia? E aqueles frigoríficos, quase no zero absoluto! Nas farmácias? Tá bem, tá!"

"Sim, mas quando achas que será a nossa vez?"

"Antes de Janeiro não vai ser, não ouviste a Ministra? E no Verão já deve estar tudo mais ou menos vacinado. De modo que lá para a altura da entrega do IRS... Ouve o que ela diz!"

"Sim, sim, com o que essa diz posso eu bem. Agora anda toda arrebitada com isto de haver vacina, até que enfim lhe aparece alguma coisa a que se agarrar de 'luz ao fundo do túnel'. Olha que, dos mortos, não fala ela agora..."

Portugal:mortes diárias por Covid19. Março a Novembro de 2020.


"Quais mortos?"

"Estás obtuso! Não te lembras - não vai assim há tanto - de virem com a teoria de que o número de casos não interessava, que a gravidade da situação tinha de ser medida pelos mortos e pelos internados nos intensivismos?"

"Sim, todos eles papagueavam isso, lá devem ter aprendido com os especialistas. O que não há meio é de conseguirem dizer epidemiológico sem se engasgar."

"Tropeçam no mio, coitados. Mas agora, Antunes, viraram a agulha para as vacinas, que ainda nem sequer foram aprovadas e já é um disco riscado! Mas tu já viste a quantidade de mortos? No começo do pandemónio demoraram cinco meses a duplicar, agora duplicam a cada quinze dias!"

Portugal. Utilização de camas em cuidados intensivos. Março 2020-Março 2021. A linha verde horizontal representa a capacidade disponível.
"Edite, às vezes nem te percebo. Então tu achas que eles iam querer falar disso, do que lhes corre ao arrepio? Olha para ela, olha para os outros, quando os apertam e lhe pedem que sejam concretos... Tornam a conversa redonda como bolas de ping-pong"

"Está bom de ver..", suspirou a Edite, mudando de canal, "agora vai ser vacinas até a gente as vomitar e, entretanto, quem tiver de morrer..."

Portugal. Mortalidade actual por Covid e projecção no futuro (até Março 2021).

Nota: Estatísticas e gráficos do Worldmeter e do The Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), University of Washington.

 

20 novembro 2020

UM SONHO DE VACINA

Em Janeiro (se Vénus ajudar) teremos entre nós uma vacina anti-covid e, "lá para o Verão", (havendo alinhamento entre Andrómeda e Cassiopeia) uma parte "muito significativa" da população estará vacinada. Tudo isto foi garantido ontem (19 novembro), aos portugueses lá em casa, por Maga Temydo e pelo Professor Infar Medu, pois como a realidade é, actualmente, assaz sombria e ambos detestam assumi-lo, viram-se forçados a migrar para os domínios sonhadores da futurologia.

O Presidente da República, presente na feira de levante onde tudo se passou, ainda tentou que o alto responsável concretizasse um pouco, mas o homem não saía do registo de "segundo as melhores informações", "se tudo correr como o esperado", "se a agência europeia do medicamento...", um jardim de 'ses'. E uma grande alegria, convenhamos, uma enorme vontade, em ambos, de comunicar e gerar momentos de rara cumplicidade com os portugueses lá em casa, esgazeados de cor-de-rosa nos sofás.

Mas como iria a vacinação ser feita, insistia o Presidente, que, agarrando-se ao exemplo da vacina da gripe, elencava possíveis dificuldades, atrasos. Mas oh que porra de exemplo fora o mais alto magistrado da Nação desenterrar! A gripe?! Então o Ministério tinha andado a convencer toda a gente a vacinar-se, mas, depois, houve aquele atraso na encomenda de vacinas [revejam-se notícias de Junho de 2020] e elas não chegaram, nem nada que se parecesse, para a procura... Uma maçada, um fiasco, e o Presidente ia logo escolher aquele caso isolado infeliz? Bem, mas aquele, não podia o Professor Medu contrariar e, sintonizado num inabalável sorriso, lá foi largando a sua cortina de fumo: pois, ainda não se sabia muito bem, era uma matéria que a Comissão (recém-formada) iria estudar, baseada nas melhores informações; talvez a vacinação fosse em massa ou, então, em campanha... Será que o Professor quereria significar Campanhã (pois, a Norte, as coisas estão mais assanhadas do que em Santa Apolónia) e, em vez disso, pronunciou campanha? Nunca o saberemos, com as profecias há sempre incerteza.

O que sabemos, de fonte segura, é que nenhuma das cinco potenciais vacinas mais adiantadas foram ainda aprovadas e todo o assunto se transformou numa guerra comercial de quem chega primeiro aos escaparates. E mesmo se não vier a chegar primeiro, as acções da Pfizer já subiram por aí acima. Se bem se recordam, há ainda escassos dias a farmacêutica americana fixava a eficácia da sua vacina nos 90 %. Mas logo apareceu a Moderna a publicitar que o seu produto ia aos 94,5 % e a Pfizer  apressou-se a comunicar que, afinal, a eficácia do seu produto era de 95 % e, mais, que não tinha efeitos secundários, algo que, com honestidade, não se poderá afirmar a não ser quando a vacina já estiver em distribuição, um número significativo de pessoas estiver vacinada, passar o tempo suficiente (meses ou anos) e forem reportados esses efeitos! Resumindo: já está tudo a postos para vender um produto sobre o qual não há resultados definitivos publicados e que não passou pela etapa fundamental de ver esses resultados (e método para lá chegar) avaliados e sancionados pela comunidade científica internacional. Todo o processo ronda a publicidade enganosa ("esta é boa para velhinhos", gritam outros) e a falta de ética profissional, que a ciência costumava praticar. Entretanto, mais atrasados estão a Astra Zeneca-Oxford (que aparentam ser mais sérios na condução do processo), os russos, que olham para a vacina como para um foguete, e os chineses, atarefados a conseguir duas variantes à vacina: uma com sabor a molho de ostra e outra, especial para vegetarianos, com pedaços de bambu.

Voltando ao nosso fumeiro: nem Maga Temydo nem o Professor Infar Medu nos explicaram algumas coisas fundamentais e que, para quem anunciou a vacina para daqui a mês e meio, já deviam saber ou, pelo menos, ter equacionado com clareza e detalhe:


a) Que vacinas irá Portugal receber neste princípio de Janeiro, segundo Themydo, e "eventualmente em Janeiro", segundo Medu? A da Pfizer ou a da Moderna (uma vez que as outras ainda estão no limbo). Se for a da Pfizer, como tenciona o Ministério da Saúde resolver o gigantesco problema levantado pela necessidade de conservação a 70 graus negativos, requisito que irá implicar a aquisição e montagem de uma complexa rede de frio? Irá ser necessário, sempre assegurando aquela temperatura, levar do aeroporto até algum armazém central as embalagens contendo as vacinas. Daí, terão de ser transportadas (em camiões que cumpram as condições térmicas extremas) até aos, digamos, armazéns das 5 regiões de saúde (Porto, Coimbra, Lisboa, Évora, Faro), armazéns que deverão, igualmente, garantir os tais menos 70 graus e, daí, terão de seguir ainda para cada centro de saúde, unidade de saúde familiar ou farmácia, locais onde as vacinas são habitualmente administradas. Tudo isto sempre a menos 70 graus, para garantir a estabilidade e a eficácia da vacina, sabendo nós que em países como o Japão, por exemplo, não existe actualmente um único equipamento que garanta tal requisito térmico. Ou tenciona Portugal levar a Lisboa todos os portugueses ao aeroporto para que sejam vacinados nas escadas do avião de carga? Ou desenrascar a coisa caseiramente com recurso a sacos térmicos do Continente, malas de esferovite do Pingo Doce, ou sacos de gelo das bombas de gasolina? Ah, senhores do Ministério, não esqueçam que, em tudo isto, terão ainda de pensar num arquipélago com 9 ilhas (Açores) e num outro com 2 (Madeira).

b) Outro aspecto sobre o qual me interrogo e, penso, como eu dez outros milhões de chatos. Quantas vacinas nos vão chegar em Janeiro? E de quem partiu a iniciativa da encomenda? Escolhemos e pagamos nós o que consideramos mais efectivo, ou é uma daquelas benesses da UE, em que nos arriscamos a ficar para o fim e com o que sobrar? 

Em relação à vacina da Pfizer, pelo menos essa, a quantidade que nos chegar terá sempre de ser dividida por 2, pois a vacinação completa de cada pessoa exige duas doses, intervaladas cerca de três semanas (outra dor de cabeça logística, como tão bem sabem os serviços locais de saúde pública e as enfermeiras da vacinação). Seja-me permitido um pequeno exercício prático: se as primeiras pessoas a vacinar forem os profissionais de saúde (como deveria acontecer, pois é fundamental garantir, desde logo, que continuam em bom estado de saúde para poder tratar o resto do país), isso exigirá cerca de 300.000 doses de vacina. Ou seja: tranches inferiores a cinco ou seis centenas de milhares para pouco irão servir ou, na melhor das hipóteses, atrasarão o processo e darão cabo do prazo que nos garantiu o professor Medu (será que o homem se referia ao Verão de 2022?).

Várias destas dúvidas, e problemas a resolver, deveriam ter sido postos sobre a mesa da tal sessão de que tenho vindo a ocupar-me. Mas que nada: o que mais lhes interessa é manter as constelações alinhadas e as estrelas a brilhar. Foi constituída, já está nomeada, uma Comissão dedicada exclusivamente à vacinação Covid, revelou o Professor Medu com um brilhozinho de zelo nos olhos. Fui ver... Sim, lá está, uma série de gente da mais diversa proveniência, onde estranhei não ver a presença de um único médico especialista em Saúde Pública, daqueles que, em todo o mundo, são responsáveis nesta área desde que existem vacinas e programas de imunização. Em Portugal são mesmo os serviços de Saúde Pública que, por lei, são responsáveis a nível local (nível em que as vacinas são inoculadas nas pessoas) por todo o processo de planeamento, vigilância e avaliação desta actividade. Mas, no mundo das aparências, o pormenor não sobressai: espera-se desses médicos e enfermeiros que, e como foi dito por um alto especialista na tal feira de levante, "depois colaborem". Entretanto, enquanto não são convocados a colaborar, são mantidos entretidos com inquéritos epidemiológicos e rastreios de contactos (esses, sim, em massa) que já não servem para quase nada, dado que numa fase de disseminação comunitária, como aquela em que estamos, qualquer um pode ser suspeito de poder infectar outro e os surtos já não se conseguem individualizar, já pouco interessa saber quem infectou quem enquanto não voltarmos a um número de casos razoável.

Mas não desesperemos. Ouve-se que aqueles que zelam por nós não dormem! Maga Temydo foi vista no aeroporto, sobraçando uma tripeça, e fontes, que pediram para não ser identificadas, garantem ter ido até à Furna do Enxofre, nos Açores vulcânicos, para aí instalar o seu banquinho e, inspirada nas emanações sulfúricas, produzir cruciais profecias sobre a pandemia. Quanto ao Professor Medu, esse também não cochila em serviço, e ter-se-á sujeitado a um boost intensivo da totalidade dos episódios da série Sim, Senhor Ministro. Por tudo isto, caros leitores, tenhamos fé e Viva Portugal!

 

Nota: a primeira imagem é fragmento da capa do álbum One Size Fits All, de Frank Zappa, 1975