24 agosto 2026

HEY MAN, WHAT'S YOUR STYLE?

 

 © Fotografia de pedro serrano, Bissau, sede da Ordem dos Médicos, 2015.

10 agosto 2026

SANTA CRUZ DO DOURO (Visita Guiada)

 


Além de melhores amigos, éramos os dois fãs intensos de Eça de Queiroz. Ambos tínhamos lido praticamente tudo o que escreveu, mormente as três biografias sobre o homem: a de João Gaspar Simões (por muito tempo a única), a de Maria Filomena Mónica, e a de A. Campos Matos (para mim a mais neutra e a melhor de todas). Estávamos em Junho de 2022, e ainda se respirava um ar mais leve, após os demorados meses de ameaça e confinamento da pandemia Covid19, quando lhe telefonei a propor irmos a Santa Cruz do Douro visitar a casa-museu e o local onde Eça fôra sepultado — isto passou-se antes de terem desterrado os seus restos mortais para o Panteão. Deixámos o meu carro estacionado numa velha rua conhecida do Porto e embarcámos no Mercedes dele, o condutor lendo em voz alta todas as placas de aproximação de localidades que cruzávamos, como se tivesse sido mordido e infectado por alguma locutora de GPS. No Marco de Canaveses, já não assim tão distante de Santa Cruz do Douro (uma trintena de quilómetros), ele fez um pequeno desvio para me mostrar, como se fosse uma primeira vez, a casa onde tinha nascido e morado até à ida para o Porto, uma casa onde, porém, eu já estivera e agora tão vazia como todas as outras casas dos tempos em que nos tínhamos conhecidos, nos idos dos anos setenta. Foi apenas um cheirinho, nem sequer parámos para entrar.  Chegámos a Santa Cruz do Douro ainda pela manhã, uma manhã de Junho a ensaiar asas em direcção ao Verão, uma brisa indolente a estorvar o prumo orgulhoso do fumo de uma queimada, ascendendo, branco como o leite, por entre os verdes intensos da vegetação e das encostas.
 

Embora seja pedra basilar na A Cidade e as Serras, Eça de Queiroz nunca esteve na propriedade mais do que em três ocasiões (1892, 1895, 1898), em visitas curtas (a mais prolongada durou quatro dias), e o solar chegou à sua posse através da família de Emília Castro, a mulher; de modo que nada daquilo foi paisagem (ou pedras) vinda pela infância ou por herança de sangue — essas a que um autor se prende por nostalgia — para poder justificar a paixão com que usa a casa no romance. A aguardar os visitantes, para além de nós os dois apenas um casal de espanhóis, uma rapariga recebeu-nos no hall ao cimo da escadaria dupla de granito, onde, num canto sombrio, nos vendeu os bilhetes de ingresso na Fundação Eça de Queiroz.
Era, portanto, uma guia para todo o serviço e lá foi arengando, ao longo de salas, quartos, corredores e cozinha, os factos e os faits divers que ambos conhecíamos de ginjeira, pelo que foi com alívio que, a pouco e pouco e enquanto a guia se concentrava nos espanhóis, nos fomos distanciando — não muito, pois ela não largava do olho a honra do convento — e pudemos olhar demoradamente e num silêncio reverente todos aqueles bens e objectos que tinham envolvido os dias do escritor e que perduraram além dos que lhe foram concedidos pela sorte, como acontece com os nossos objectos após partirmos.
Duas horas mais tarde estávamos abancados na esplanada das traseiras de um restaurante de estrada, onde o Mercedes ficou a partilhar a sombra de uma grande árvore junto de um enorme camião ali estacionado, e cujo dono estaria provavelmente aboletado a uma outra mesa do restaurante, confiado à vigilância da estátua de Nossa Senhora de Fátima que, subida como se num altar, velava atrás do para-brisas. Fomos pela feijoada de feijão branco, o prato do dia e, a condizer, o Juca bebeu, consolado e mirando o copo à transparência, o seu jarrinho de branco, repartindo o olhar pelo Douro que ondulava preguiçosamente ao fundo da paisagem, e confessando ao seu jeito: "Esteve-se bem de caralho...", querendo o "de caralho" dizer (para os menos acostumados às analogias do discurso nortenho) que lhe tinha sabido muito bem a manhã e o almoço. Sim, a mim soubera-me ao mesmo e talvez tivessem já decorrido mais de quarenta anos sobre uma viagem do género, em companhia. Ao chegar a casa, umas centenas de quilómetros mais tarde, transferi as fotografias que tirara da máquina para o computador e pus-me a ver como tinham ficado, pois não basta enquadrar e olhar por um visor para ficar a saber o que irão parecer as imagens capturadas.
J. observando a cama onde morreu Eça. 
Eram umas dezenas, o verde e a pedra surgiam em muitas delas, assim como a madeira dos soalhos e dos tectos, as sombras geradas pela espessura das paredes, as estantes de livros, as vitrines com as sobras de um dia a dia que deixara de existir, embora ali permanecessem os indícios. Mas a impressão mais vincada deixada pelo visionamento, flutuando sobre todas as outras sensações, viera das imagens em que o meu amigo, fotografado espontaneamente e sem aviso, surgia: em todas ele aparentava já não estar ali, embora a sua figura se visse claramente e o seu olhar se detivesse atentamente no que observava; em todas parecia estar um passo adiante, num tempo que já não me pertencia, um tempo que já não lhe pertencia, ou mesmo fora de qualquer tempo que se pudesse medir*.
A alguém que se interessasse com o que achara dele nessa manhã de quase Verão, suponho que o sintetizaria em algo como "estava como se não estivesse bem lá", "um tanto ausente", por aí. A manhã de que falo teve lugar a uns, quase exactos, quatro anos antes do dia da sua morte, ocorrida no mês de Maio de 2026, levado por uma doença tão rápida, tão fulminante (desde que se anunciou até que tudo terminou) que ainda procuro pelo chão os cacos do irremediável, sabendo que, mesmo que a todos encontre e reúna, não haverá cola que o junte de volta àquela manhã em que se passeou distraído por Santa Cruz do Douro, quem sabe se entretido a meditar no seu trajecto de vida, que, ao invés do que acontecera ao Jacinto do romance, o levara das serras onde nascera até acabar na cidade.


* Veja também fotografias em (carregue aqui): Fundido Encadeado


© Fotografias de pedro serrano, Santa Cruz do Douro, 2 Junho 2022.

02 agosto 2026

DR. ANTHONY FAUCI (The being and the nothings)

 

Over the past fifty years, all Portuguese medical doctors have been trained using Harrison’s Principles of Internal Medicine*, a voluminous treatise first published in 1950 and now in its 22nd edition (2025). In Portugal, Harrison’s, as it is commonly known, was and is used not only as a fundamental resource starting in the fourth year of medical school—supporting training in all areas of medical knowledge (that is, non-surgical areas) such as internal medicine, cardiology, nephrology, hematology, neurology, pulmonology, oncology, and immunology—but also as the sole resource for preparing for the national exam that preceded and determined, based on the grade obtained, the choice of a medical specialty. This book was so central, and its reputation so closely tied to this exam, that it was informally referred to among candidates as the “Harrison exam.” All of this serves to highlight not only the quality, scope, and scientific value of the work, but also the significance it has held in the Portuguese medical landscape for over half a century. The book, with over 2,500 pages and currently published in two volumes, is the result of contributions from dozens of specialists in the various fields covered, led by a small team of five or six editors—all of whom were physicians and specialists of highly recognized expertise in the international medical community. One of these individuals was Dr. Anthony, editor of Harrison’s since its 10th edition (1960) and editor-in-chief of several others. This American physician, known and respected worldwide for decades, is the same man who is now being vilified and persecuted by the Trump administration, which seeks, among other despicable acts, to blame him for the more than 1.5 million deaths caused by the pandemic in that country, as if he were some kind of mass murderer on par with high-ranking figures of the Nazi regime during the Holocaust. For those who may not recall the matter clearly, it was current President Trump (during his first term) who suspended a series of initiatives aimed at controlling the pandemic in the country, even going so far as to publicly recommend intravenous injections of bleach as a way to quickly resolve the issue—based on the Neanderthal-like reasoning that if bleach is successfully used to eliminate bacteria and viruses... By the same line of reasoning, one might as well have resorted to napalm or used an atomic bomb for that purpose. It should also be recalled that, in the face of the disaster the pandemic had become in the United States at a certain point—largely as a result of the administration’s ill-timed and irresponsible measures—the president was forced to call on Dr. Anthony Fauci once again to coordinate the response, showering him with repeated praise and compliments, as he always tends to do when he’s in a tight spot. Now that all the turmoil has passed, the Trump administration—exemplified in the health sector by the unspeakable Robert F. Kennedy Jr., who serves as the equivalent of a Ministry of Health (to the disgrace of that office)—is wiping the slate clean of everything that happened and subjecting poor Dr. Fauci to persecution, interrogations, and the dock, with some even seeking to accuse him of having created the virus responsible for the previous pandemic! What a unfortunate country, one that subjects its best and brightest—those most dedicated and loyal to the public cause—to such villainy. I never expected to witness such absurdity with my own eyes, much less see it happen in a country where its central public health institutions (such as the CDC, Centers for Disease Control and Prevention; and the NIH, National Institutes of Health—both dismantled by this administration) used to serve, through their competence and advancements, as beacons and models for the rest of the world.

* published by McGraw-Hill.

DR. ANTHONY FAUCI (O SER E OS NADAS)

Durante os últimos cinquenta anos, todos os médicos portugueses foram formados pelo livro Harrison´s Principles of Internal Medicine*, um grosso tratado que viu a primeira publicação em 1950, e que vai actualmente na 22.ª edição (2025). Em Portugal, o Harrison, como é abreviadamente conhecido, era e é usado não só como instrumento fundamental a partir do quarto ano da licenciatura em Medicina — apoiando a formação em todas as áreas do saber médicas (isto é, as áreas não cirúrgicas) como a medicina interna, a cardiologia, a nefrologia, a hematologia, a neurologia, a pneumologia, a oncologia e a imunologia, mas também como documento único de preparação para o exame nacional que antecedia e determinava, pela classificação obtida, a escolha de uma especialidade médica. De tal modo este livro era fulcral e a sua imagem estava colada a esta prova que ela era designada informalmente entre os candidatos como "exame do Harrison". Tudo isto para expor e salientar não só a qualidade, a abrangência e o valor científico da obra, mas igualmente o peso que adquiriu no panorama médico português ao longo de mais de meio século. O livro, com mais de 2.500 páginas e actualmente editado em dois volumes, resulta do contributo de dezenas de especialistas nas áreas desenvolvidas, capitaneados por uma pequena equipa de cinco ou seis editores, todos eles médicos e especialistas de reconhecidíssima competência no mundo médico internacional. Uma destas pessoas foi o Dr. Anthony Fauci, editor do Harrison desde a sua 10.ª edição (1960) e editor-chefe de várias outras. Este médico americano, conhecido e respeitado há décadas a nível mundial, é o mesmo que se vê agora vilipendiado e perseguido pela administração Trump, que pretende, entre outras sacanices, acusá-lo do mais de milhão e meio de mortos provocados pela pandemia naquele país, como se fosse uma espécie de assassino em massa, ao mesmo nível das altas figuras do regime nazi durante o Holocausto. Para quem possa não recordar bem o assunto, foi o actual presidente Trump (durante o primeiro mandato) que suspendeu uma série de iniciativas em torno do controlo da pandemia no país, chegando a aconselhar publicamente a injecção intravenosa de lixívia como modo de resolver rapidamente o assunto e partindo da neandertal ilação de que se a lixívia é usada com sucesso para eliminar bactérias e vírus... Na mesma ordem de raciocínio poder-se-ia ter recorrido ao napalm ou usado uma bomba atómica para o efeito. Recorde-se, também e ainda, que perante o descalabro a que a pandemia chegou nos Estados Unidos numa certa altura, e muito na sequência das medidas intempestivas e irresponsáveis da administração, o presidente foi forçado a chamar de novo o Dr. Anthony Fauci a coordenar o assunto, afogando-o em repetidos louvores e elogios como sempre costuma fazer quando está entalado. Pois agora, que todo o aperto passou, a administração Trump, ilustrada na área da saúde pelo inenarrável Robert F. Kennedy Jr., equivalente a Ministro da Saúde (para desgraça de tal cargo), faz tábua-rasa de tudo o que aconteceu e sujeitam o pobre Dr. Fauci a perseguições, interrogatórios, o banco dos réus, havendo inclusive quem o queira acusar de ter criado o vírus responsável pela anterior pandemia! Triste país, o que submete os seus melhores, os mais esforçados e mais leais à causa pública, a tais vilanias. Nunca esperei ver tal bizarria perante os olhos, muito menos vê-la acontecer num país onde as estruturas centrais de Saúde Pública (tal o CDC, Centers for Diseases Control and Prevention; e o NIH, National Institutes of Health, ambos desmantelados por esta administração) costumavam, pela competência e desenvolvimento, constituir faróis e modelo para o resto do mundo.

* editado pela Mc.Graw-Hill.