Por Atalho Foi-se (Poemas)




POR ATALHO FOI-SE

Poemas curtos e longos da autoria de Pedro Serrano

© Desenho de Fernando Varanda





1. Room service


Ah, minha querida
Se o esquecimento fora
Um livro
Em cujas tardes mofentas
As impressões digitais
Se detivessem
Folheando
O dourado, o rubro, o cinza
Das páginas olvidadas
Ah, então outros versos
Cantariam
Na lombada daquela aurora
Que não vimos nem ouvimos
Sonhando as bandejas
De pequenos-almoços

Adiados



2. Já as árvores se iludem

Já as árvores se iludem
No tom do ferro esquecido,
No dourado esmaecido,
E no verde em contramão
da folha que grita ao chão:
Ainda não, ainda não!



3. Aguaceiro


A água cai no ribeiro
Que surpreso do chuveiro
Emudece o seu cantar

Fica só o tracejado
Molhando o que está molhado
Da chuva perpendicular



4. Abril, águas mil
Alguma coisa deve ter acontecido em Abril
Uma lua minguante, uma sesta ressonante

Alguma lousa deve ter sido riscada em Abril
Com giz recente, um traço imprudente

Ao ser pousada, na calçada,
Alguma cesta deve ter rangido em Abril

Desfez-se, clara, em águas mil
Alguma coisa se partiu em Abril


5. Sentido Figurado

apanhei o sentido
a um dito comum
fugiu entre os dedos
assim que sentiu um

6. Jet Lag

Querido,
Cinco da tarde, 
Cheguei estafada
E a maior maçada
É que a empregada
Tornou a faltar!
Olhe, vou flirtar as montras
Que nada como umas compras
Para a gente ressuscitar.
Ah!, telefonou a sua prima
Nada urgente, volta a ligar
Acho que a seguir ao jantar.
E a propósito disso:
Janta cá a Milice e,
Veja só a tolice,
De decente só há
Uma base de quiche
E nada para lá pôr...
Seja pois um amor
E passe na Babette’s
Compre qualquer coisa
Traga umas courgettes,
Endívias, lichias, salmão
Sei lá, invente uma solução.
Um imenso beijão  

Querida,
Vi o recado
Que deixou abandonado
No Chippendale do hall.
Giríssimo, mas aspas
Tou bocejantemente mole.
Um não sei quê, um tédio
Para qual o remédio
É espreguiçar a tarde.
Vou, talvez com Gérard,
Ao Centro Cultural
Onde arranca hoje
A temporada musical.
E não abre nada mal...
Isto é, para Belém,
Até começa muito bem:
Epstein interpretando Bach!
(Não há quem me agarre...)
Assim, não espere por mim
Para o seu jantar
Pois, se a fome tentar,
Trincamos, lá no bar,
Eu, e talvez o Gérard,
Uma tosta ou sandwich.
Mil beijinhos à Milice



7. Neve nas terras altas

Hoje está dia para camisola de gola alta
Esconder o pescoço como uma ave pernalta
Neve nas terras altas



8. Morninha

Nuvem que vogas ao sul
Por sobre um mar tão azul
Vai e pergunta por mim

Enamora essa Morninha
Que um dia jurou ser minha
Vai e pergunta por mim

Diz se uma luz de tristeza
Dormita em sua beleza
Quando de través fita o mar

Ventaneia a acácia rubra
Até que seu colo se cubra
De pétalas por desfolhar

Vai, sussurra a essa mulata
Que a saudade me mata
Cá longe, neste cismar

Por sobre um mar tão azul
Nuvem que vogas ao sul
Vai e pergunta por mim



9. À boca cheia

Sob a placa azul-ultramarino
da esquina da rua
Como uma tal, outra qualquer,
Florbela Espanca
Afogada em milhares de beijos
presos na garganta
Debalde matei a minha sede
por uma aparição tua
Sob a placa combinada
da esquina da rua...

© Fotografia: Ana Rodrigues, Maputo (Moçambique), 2010.


10. Vem Chuva

Não cheira a chuva se ela cai
Mas cheira o ar se vai chover
Como depois da erva cortada
Ou a terra depois de molhada
São cheiros que se deixam ver


11. Concerto


Repentino como aguaceiro tropical
Esvaziando a emoção de dez mil almas
O rufar chuvado da salva de palmas






12. A tia Zirinha mandou

A tia Zirinha mandou-te,
Disse ele, logo à chegada,
Saudades e cumprimentos,
Uma saca de pimentos
Tigelas de marmelada



13. Por atalho foi-se

Mil perdões, eu peço,
Se assim interrompo
Sua descansada beleza,
Mas diga, por gentileza,
Se o caminho do Paraíso
Passa algures por aqui?

“Concerteza”, falou ela,
Apontando sorridente:
“Segue dois metros em frente
E encontra-o logo ali.”
[Foi assim que me perdi.]




14. Sonho azul

Sonhei com o farol da Prainha
Em Santiago
Com águas que se alisavam
Feito um lago.
Sonhei com o farol da Prainha
Muito aprumado
Branco como um lenço de assoar
Todo debruçado ao rés do mar
A luzir, a acenar, a espreitar
Como se alguém pudesse chegar
Com olhos sequiosos a enxugar
Marejados, regressados,
Da ausência resgatados.


© Fotografia: Pedro Serrano, Santiago (Cabo Verde), 2011.



15. As lambadas que nunca te darei

As lambadas que nunca te darei
Só pecam por tardia virgindade
As lambadas que nunca te assestei
Estão para lá do prazo de validade

As lambadas que nunca te darei
Choram por mais, como a meia-dose
As lambadas que nunca te assapei
Não desbotarão em verde-equimose

As lambadas que nunca te darei
Não vestem o negro da maldade
As lambadas que nunca te estalei
São rosa-pálido como a ansiedade



16. Domingo à tarde

Sem alarde
No Domingo à tarde
Uma caspa lenta 
Abateu-se na cidade
Fê-la perder velocidade.
Paralisou cada momento
Num bocejo entediado
Como se fosse feriado
Dia dos namorados
Ou outra efeméride
De bandeira desfraldada,
Portadas entremeadas,
Pálpebras semicerradas,
Semáforos cristalizados.
No caminho para o estádio
Acenam os arrumadores
Para um lugar na sarjeta
Apequenam-se condutores
Apreensivos com a gorjeta.



17. Molusco contagiado

Enquanto o diabo esfrega um olho
Aquela lesma, sempre a mesma,
Roeu um palimpsesto de repolho
Destinado à venda no mercado!
Oh, mas pagou-as bem pregadas
A avantesma, sempre a mesma,
Quando podou o pé de hortelã:
Sua viscosidade não mais deslizou
A cauda pelo orvalho das manhãs
E contorcida, grelada, espiralada
Expirou em borbotos, mentolada.



18. Venda de fruta

À berma poeirenta da estrada
Vizinhas da venda de fruta
As coxas cruzadas de uma puta



19. Magda de Águeda

Sob uma bátega
D'água
Fui a Águeda
Ver a Magda
Olha a mágoa
Fôra a Mortágua!

Em Mortágua
Um gajo gago,
Com pigarro,
Cravou-me
Um cigarro.
Perguntei:
"Viste a Magda?"
Gargarejou:
"F-f-foi pra Águeda..."



20. Na eternidade, da parte de tarde

Na eternidade, pela tardinha,
Sopra leve a brisa, 
Traje de passeio, mangas de camisa



21. Deixa que te conte

Deixa que conte tudo enquanto ainda o lembro
Como se pintou em dourado aquele Setembro
E a maresia apaladou de sal a névoa da manhã
Seria Maio? Não, recordo a cesta com romãs.

Deixa que conte tudo enquanto ainda o lembro
O tostado amarelo das castanhas em Dezembro
As impressões digitais sarrafuscadas a carvão,
As linhas da tua palma na palma da minha mão.

Deixa que te recorde enquanto lhes conto tudo
(Sossega, em tenor te canto, em verso te acudo)
A memória esfarela-se como as pegadas n’areia
Como o sangue, além, vai parar de correr na veia.
Deixa que conte tudo enquanto... quanto, canto
Antes que a minha memória, por fim, imploda
E tudo isto, que é sal e água, se foda.



22. Kilo bite

No verso do pacote brilhante,
Mesmo por baixo do bónus,
Agachados, em letra diminuta,
Os hidratos de carbono
Numa dose filha da puta



23. Luz do sol

Afinal
Aquelas tais estrelas cintilantes
D’outrora
Não são mais que mica brilhante
Agora.
Recamavam o banco de granito
Onde me empoleirava a espreitar
A procissão oscilante sobre pétalas
D’outrora
E onde me sento a descansar
Agora,
Friorento, semicerrado e mole.
Sobrevivem-nos as pedras e
A luz do sol



24. Gaspacho

Por entre as hélices cromadas dos moinhos de vento
Que trituram o crepúsculo de vermelho em pazadas
Parcimoniosamente medido, ascende em prumo lento
O delicado fio branco do fumo das queimadas



25. Arre, porra!

Tenho reflectido 
Um bom bocado nisso. 

Os meus poemas são
Como quando

O martelo anseia o dedo, 
Em vez do prego. 

Fechar o caderno 
Após o poema, 

Esvaziar o peito 
No ocaso do palavrão, 

São estróficas atitudes.



26. Quebradas tréguas

1. 
Abandonadas no campo de batalha
Mordiscam a erva esparsas éguas
Quebradas tréguas

2.
Zune a melga de Outono sua toada
Zás, como súbita nuvem,
A almofada 



27. Debaixo da língua

Não removas do cesto da reciclagem
Mesmo em caso d’excesso de bagagem
Recordações perdidas, outros trastes

As palavras paralisadas sob a língua
Insalivadas são para que germinem
E em repentina visita nos iluminem



28. Nocturno # 2 (em B flat, traseiras)

Soturno,
Prato esgotado em menu,
Nem para o bem passado
Nem desmaiado cru,
Espero, sem esperar totais,
Que, entre o tilintar de metais,
Chegue alguém como tu
E me expulse este nocturno
Para um canto mais
Diurno



29. Via sacra

“Pois sabes que mais?
Até que corroboro”
Vociferou ela
Acendendo um Marlboro
E lançando pela janela,
Com uma sacudidela,
O palito do fósforo
Aos pés do semáforo.

No assento ao lado
Num perfil esquinado
Eu olhava a passadeira
Via passar uma freira
Esvoaçando o tracejado



30. Remake

Era loura
Quanto a idade lho permitia
Raramente se avarandava
Nas meias-luas antipresbiopia.
Sorriso vista alegre prêt-à-porter
Afivelado com cintilações inox
Nas maçãs royal gala do rosto
A passerelle engomada do botox
E nos amplos gestos dos abraços
Exibia simetricamente nos sovacos
Uma impecável depilação definitiva



31. Lenga, tipo lenga

Em Alfândega da Fé:
cinco cantos na Sé
quatro calos no tripé
dois galos, 1 garnizé
duas joaninhas no pé
e uma marcha a ré.
Uma nota com puré?!
Uma neta com cholé?!
Ó Zé:
Uma nata e um café.



32. Primazia

Comi
A primazia
Foi em demasia
Provocou-me azia

“Não será azedume?
Uma sensação de lume?”
“Não, não, é mesmo azia,
Estragou-me o dia!”

“E uns sais de frutos,
Uma água mineral?”
“Daquela com picos?
E se me cai mal?!”



33. Tergiversando

Monólogo
Ensurdece o
Sociólogo

Dueto
Assobio ao
Cão preto

Trio
Dias corridos de
Gatos com cio

Quarteto
Piano, baixo e guitarra
Zune à janela uma cigarra

Quinteto
Gato, cigarra, cão preto
Um trompete
Perna balança um soquete

Sextante
O sociólogo 
Tropeçou na psicóloga
Juntaram os livros na estante



34. Ansiedades amainadas

Cobriu-se de violeta
A serra
A noite deitou o vento 
Por terra.
De mãos dadas,
Ansiedades amainadas,
Correndo felizes
À frente
Como crianças
Na muda dos dentes.



35. Belém revisitada

O Menino resolveu fazer a birra
Mesmo quando era ofertada a mirra.

“Jesus, não podes; olha que chamo o Herodes!”

Acudiu a Virgem desaustinada

Desenhando o gesto de uma sapatada.

“Não quero os Reis Magros, não gosto do Gaspar!”

Vociferou o Deus menino a espernear,

Levantando uma nuvem de palhinhas pelo ar.



Adormece a humanidade ao redor,

Eis que se ergue uma voz no escuro:

Ó Zé, que fizeste ao ouro do Melchior?”

“Sossega, pu-lo debaixo da palha do burro”

Informou, sonolento, o carpinteiro.

“Agora que temos algum dinheiro,

Podíamos passar pelo sapateiro.

Estou a precisar de calçado novo

E vi na montra do Judeu um camafeu...”

Mas o patriarca já se desvaneceu.

No escuro, a Virgem, bem desperta,

Cisma em como está entradote

O carpinteiro que, de boca aberta,

Sopra escalas como um serrote.
Vai alta a curva da noite,

Quase roseia a madrugada

A estrela-guia pisca, desmaiada.

Esfriado na bruta manjedoura,

Deitado em palha aguçada como lençol

E tendo tábuas duras por colchão,

O Menino acorda, resmungão.

A mãe faz como quem se levanta,

Mas “Deixa-te estar, que vou lá eu...”

Diz S. José, enrolando-se na manta.


Serenada, Maria vai adormecendo

Sarrabiscando intenções vindouras

Umas urgentes, outras duradouras.

De manhã, desenriçar o cabelo,

Provar as sandálias de pele de camelo...

A fuga do Egipto, a trindade coberta de pó,

O burrito, pela arreata de uma guita,

E uma voz, longínqua, que debita:

“Vá lá, Jesus, tens de fazer o-ó!

Era uma vez, a filha dum Faraó...”



36. Do pé prá mão

À tardinha
A brisa soprou.
Pé ante pé
Teu coração
Abeirou
A palma
Da minha mão.
Ali ficou.



37. Take 5

Take 1
Difícil,
Quando ela passa 
(Macio brilho de cal)
Na minha fremente taça
Alinhar todas as bolhas 
Em ascensão vertical.

Take 2
Um míssil,
Quando doseia 
(Mortífera teia)
O visco insistente
De um olhar aderente
Deflagrado na horizontal.

Take 3
Combustível,
A suavidade triste
Cor velha de whisky 
Nesse olhar partido
De anjo caído.

Take 4
Temível
Postigo de ventura
Na frágil ternura
Do seu ombro ao léu
(Desabado chapéu).

Take 5
E se afinal me tramas
Ao assim pestanejares
Que, oh sim, me amas...
A culpa é toda tua e, 
Na copa dos manjares,
Vomitarei à lua.



38. Entrelinhas

Tardei em compreender o
que outros parecem trazer
a tiracolo.
Como a fé,
a primeira dança de um casamento,
flores que fenecem pelo caule em bisel,
a inútil chama bruxuleante
abandonada em pedra de cemitério.
Como a fé,
a fé, e os mistérios
que as mulheres passeiam
como quem veste
uma nuvem de fímbria dourada



39. D’amor não morreu, mas quasi

D’amor não morreu, mas quasi

Num dia branco de Outono

Ao despertar do seu sono

Meu coração naufragado,

São Sebastião lanceado

Por Cupido ao abandono,

Que após pirueta rasgada,

Se esgueirou célere pr’a casa,

Antes que alguém o acusasse

Antes que a mãe o chamasse.



D’amor não morreu, mas quasi

Sob uma cadeira tombado,

Meu coração afogado

Num paúl de choro e lamento

Esguichando sentimentos,

Derramando pensamentos,

Oh, convulsivos momentos,

Pudesse eu um dia esquecê-los

Pudesse um dia eu revê-los.



D’amor não morreu, mas quasi

Esperando ser chamado,

Ansiando ser tratado,

Aguardando a sua vez

Na fila das manhãs de espera

Às portas de um hospital,

Meu coração passou mal.

E se conservou a ilusão

(De tintura e algodão)

Que tudo pode ser consertado

Ali foi desenganado.



D’espanto não morreu, mas quasi

Com o mágico de tez distante

Que, ao rematar o diagnóstico

E revelando o prognóstico,

Anunciou em tom cortante:

“Vida, só com transplante.”

Meu coração foi-se abaixo,

Mas por apenas um minuto,

E, com um ar grave de luto,

Recorreu da decisão:

“Quero outra opinião...”



Por ti não morri, mas quasi

És um parvo, coração,

E se me sobrasse algum tino

Deixava-te já num vidrão

Ou nos escombros poeirentos

De uma obra em construção.

Mas não passas de um menino

A quem rebentou o balão

E eu cumpro o meu destino

De te amparar o caminho

De te levar pela mão.



D’amor não morreu, mas quasi

O coração que dormita agora,

Esquecendo a qualquer hora
Em que pode findar seu bater.

Mas que posso mais eu fazer?

Todo o dia, a noite inteira,

Em silêncio, à sua beira,

Quebro a luz ao candeeiro,

Acomodo o travesseiro,

Entalo-lhe o cobertor.

E, se em gelada vigília,

Farejar na madrugada

O desamarrar dos laços

Que, ténues, o ligam ao ser

Toma-lo-ei nos meus braços,

Cerrarei seus olhos baços

Para que, enfim, possa morrer.

(É quanto me sobra aprender.)



40. Ponto de vista

Em nenhuma das últimas
fotografias que por ali bati
Se vê o estranho que me tornei
Para aquela casa onde vivi.

Ao ranger da ferrugem
Que empena o portão
Melros surpreendidos
voaram esbaforidos
Para longe do chão
de gavinhas farejantes,
Descidas do poiso habitual.
“Não é mais que natural,”
Diz o antigo jardineiro,
Agachado num canteiro
Arrancando às mãos cheias
Ervas nobres e plebeias.

Rememorando quem se debruçava nelas
Apontei a lente da máquina às janelas
Talvez pudesse reter aqueles instantes...
“Mas, vindo eu aí uma vez por semana,
Isto voltava a ficar tudo como dantes...”




41. Água doce

Não nascida do mar,
mas de uma piscina
Salpicando a tijoleira
em pegadas divinas
Musa, em verso chão
deixa que remate
Essa excelsa visão,
à borda da piscina,
Mordiscando batatas fritas
com ketchup



© Fotografia: Pedro Serrano, Havana (Cuba), 2004.


42. Quase leve, levemente

Maria, a comida vai prá mesa
Chama-me a Ana e a Teresa
Para que deixaram a lareira acesa
Se na sala não está ninguém! 

Não chores, pequenininho,
Que a tua mamã já lá vem
Olha a vaca e o burrinho
A aquecerem o menino
Na casinha de Belém



43. Milagrizar

Deseja-se um frio todo sobrenatural
Ao abrigo de paredes de pedra e cal
Acalanta-se o pavio da chama especial
Sobre a tábua-extra da mesa de Natal



44. High se cai, ai sky

Olha, a nuvem engoliu o avião
Sim, e o que é que isso tem?
Já viste, tão alto que vão?
Ai! Oxalá cheguem bem...

Olha, entrámos no nevoeiro
Sim, e o que é que isso tem?
Oxalá o avião chegue inteiro!
Achas que eles ficaram bem?

Olha, vês aquele pontinho além?
Sim, e o que é que isso tem?
Se o vemos, eles veem-nos também!

Olha, saímos do nevoeiro
Sim, e o que é que isso tem?
Lá em baixo já não se vê ninguém!



45. The butter snail

Riso, meu friso
Liso, meu siso
Derramo meu pranto
Sobre o agapanto.

Visco é meu cisco
No olho da troncha
Que decepa a Concha.

Quem decepa a troncha
É o olho da Concha
Enquanto, liso e friso,
Repolho de riso.



46. Alma & anexos

"E tu longe de o sonhares!"
Arregalou-se, siderada, Helena
Resvalando à sua pose comum
Tão maioritariamente serena.

"É, vê-me tu só a ironia:
Tão maioritariamente serena...
Foi a última, quem o diria?
A tarde que amanheceu amena."

"E a vida que assim corria
Tão maioritariamente serena!"
"Pois, mas a vida é uma pequena
Que nem sempre se pode confiar."



47. Via parentérica

Ao amarelo-torrado
De um semáforo em ânsia
Ela ligou a importância
De uma coisa assim-assim.
[O mesmo é dizer a mim]

Depois guinou à esquerda,
Pela Via Parentérica,
A tonalidade feérica
De um sorriso sem fim.
[O mesmo é dizer em mim]

O embate com os olhos
Foi um acidente de rua,
Janelas voando à luz da lua
No éter da noite de Verão.
[E eu atropelado no chão]

"Não sei porque raio isto foi...
Quer que lhe chame um doutor?"
"Não.., preferia um ascensor
Ou uma torre de marfim."
[É qu’eu ainda não estava em mim]



48. Cantinho do poeta

Há no tecto do meu quarto
Um encanto especial
Ele é todo azul-celeste
E ao centro possui um sol.

Ao centro possui um sol
Num canto guarda-se a lua
Não existe quartilho igual
Nas tascas da nossa rua.

Nas tascas da nossa rua
Param poetas afamados
Uns já são quasi mortais
Outros nem foram cismados.

Outros já foram crismados
Em sessões oficiais
E nas palavras cruzadas
Preferem as horizontais.

Ó horizonte da Europa
Oh cantinho apetrechado
Ó minha trouxinha mole
Oh meu crepe achinesado.

Ao meu coração és bálsamo
Do apetite xarope
Tens encanto, tens timor
Tens madeira, tens palop.



49. Toma lá um soneto

Uma tarde, cismava eu a sesta,
De palácio vagamente à beira-mar
Pousou-me convite para uma festa
Traje de passeio, programa amar.

Agradeci, sincero, a tanta simpatia
Lamentei, cortês, não estar presente
Mas “você bem sabe como a maresia
É senhoria para me pôr doente...”

Pois saiba, birra deste carcomido peito
Que no seu reumatismo já não é quem era
Tolheu-se na graça, é víscera com defeito.

Diapositivo encravado de velho devaneio,
O batimento apressado, tépido, da quimera 
Não se alberga, como outrora, no seu seio.



50. Ao sul das cousas

Ai, bela senhora minha
Sois tão leda quão daninha
Quando assim vos expressais
E a ponta rubra passeais
De uma língua distraída
Na boca em ósculo fendida.
   
O que em mim despertais,
Revoada de pardais
De uma copa frondosa
Sobre searas de trigo,
É melodia ditosa
Ecos de trova d’amigo
Lá ao sul do meu umbigo



51. Harmoniónica

No terceiro canto de ventosa encruzilhada
Recostada em arquetípica relva sem formigas
Surpreendi, certa manhã, manipulando figas
Loura, lânguida e insone mnemónica
Trajando apenas, de dois, um par de ligas.



52. Hipótese nula

À fosforescência de um ecrã de computador
Ou nas quadriculadas páginas de um caderno
Quem dera poder calcular a incidência do amor eterno
Isso sim, seria um exercício moderno!
Mas o amor é como a noção de bem-estar
Que a Organização Mundial nos impingiu:
Se ainda agora aqui o via
Onde está - que já fugiu? 

Hipótese nula é um poema epidemiológico. Alguns esclarecimentos sobre conceitos técnicos usados:
Hipótese nula: Modo de testar estatisticamente o significado de uma hipótese de investigação, a hipótese nula enuncia-se afirmando que não existe associação entre um factor e um efeito. Claro que a esperança do investigador é poder rejeitar a hipótese nula e deste modo afirmar que há uma relação entre o factor e o efeito.  
Incidência: Medida da ocorrência de doença/estado mórbido numa população, o conceito de incidência toma em consideração apenas os novos casos de doença surgidos ao longo de determinado período de tempo e tenta medir a sua duração exacta. É um conceito dinâmico, baseado no sentido de uma mudança de um estado para outro estado.
Organização Mundial: Referência à Organização Mundial de Saúde que define saúde como "um estado de completo bem-estar físico, psíquico e social e não apenas a ausência de doença".



53. Ó que carago!

Ouve lá, ó Deus das Alturas,
Afinal qual é mesmo a tua?
Onde está a puta da lua
Que ainda agora brilhava aqui?

Que "não é o tempo dela...”,
“Mas se está Nova”, resmungas
Raio de desculpa mais chunga,
Não convences o mais reles dos ateus!

Mas quem falou no sol
Ou na alvíssima nuvem
Que, tal branca penugem,
Cocegueia o azul dos céus!?

Se calhar moras confuso
Na tua Infinita certeza
E nunca derivaste a beleza
Da prata a boiar no mar...

Vá, eu peço ajoelhado
Ao Pai, à Mãe e ao Filho,
Mas devolve-me o brilho
Da puta da lua!  



54. Pérgula de imitação

Nas águas-furtadas da memória,
Entre jurássico renque de postais
E naftalínicas ilusões de glória,
Refulge, omnipresente talismã,
A madeixa loura de uma manhã:
Foi no Castelo do Queijo
E na ânsia roçagante por um beijo
Eu bebia, em sucedâneo, um mazagran.

Na quadrícula do passeio à beira mar,
Deslizavam em ondas as cachopas e
Além, na última pegada da areia,
Canelas polvilhadas de maré-cheia,
Pescavam à linha alguns rapazes.
No que é derivado a mim,
Sentado sob a pérgola mais o Quim,
Ia absorvendo, distraído, aquele afã
Descartando a cinza fria do cigarro
E beijando a gole lento o mazagran. 

Pasmava na roleta dos barquilhos
Quando cotovelo assaz discreto
Reclamou minh’ atenção ao picadeiro
Vi-te então, de chofre, em corpo inteiro:
Vinhas mordiscando um sorvete,
Ó brochura deleitosa,
Amarelo e cor-de-rosa
De limão e framboesa
E a transparência opulenta
De tua saia travada
Abrigava o movimento
De um pisar à japonesa.
Passaste tão tangente junto a mim
Um rasto de lavanda (ou de jasmim)
Que afundei a pique e sem remédio
No miasma cheiroso desse assédio. 
Renascido, olvidando o quão sou feio,
Arrulhei, comovido: “adeus, lambona...”
Foi o melhor que achei por galanteio. 

Frechaste, certeira e sem tardança,
Uma resposta jactante e sedutora,
Manjerico com a graça do orvalho, 
Alvíssaras a uma noite redentora:
“E se me fosses pró caralho?”
(Caralho eu fôra...)



55. Subsídios para uma estética da punheta

A punheta é um ramo do conhecimento
Vacina eficaz contra o esquentamento
Razão do nosso contentamento
Sempre à mão a qualquer momento.
Discreta 
Erecta
Circunspecta
A punheta é um ramo do conhecimento.
Subtil
Varonil
Águas mil
Razão do nosso contentamento.
Animal
Canibal
Menstrual
Vacina eficaz contra o esquentamento.
Onanismo
Estrabismo
Egoísmo
Sempre à mão em qualquer momento.
Haja sol
Caia a chuva
Faça o vento
A punheta é um ramo do conhecimento. 



56. Nursery rhyme

Sim, Não e Meibee
Três irmãos siameses
Durante vários meses
Cegaram o céu.
Sim é a madrugada
Foi, já Não é nada
Meibee estava cansada.

Sim, Não e Meibee,
Os três irmãos siameses,
Sempre meigos e corteses
Aceitaram enfim dormir.
Sim, os três abraçados
Não, os três enroscados
Meibee todos aninhados.

Na cabeceira da cama
Aterraram três arcanjos
Que pairavam por ali
E acalentaram o sono
A Sim, a Não e Meibee.
Três arcanjos siameses
Que se entretinham às vezes
A cismar se o tempo é eterno
E a contar as gotas de chuva
Que caem durante um inverno.




57. Go go dada

Ventoinha quente
De brisa e sol poente,
Oscila a lanterna de papel.
Bebé, ainda não fala,
Olha e pedala.



58. Acrílico apócrifo

Ciano de Acrileto
O filósofo pré-surfista
Possuía um servo dúbio
Que se chamava Baptista



59. Zoo (tipo haiku)


1. 
Concha sem caracol
luzidia à luz do sol
sua a lesma de cobiça.

2.
Cobra d’água,
erecta na margem,
gargarejando um peixe

coaxa a rã aliviada.

3.
Melro na relva...
eclipse total na selva
excepto pelo bico.



60. Tangueando

Sentado sobre os joelhos
Invoco, curandeiro,
As ossadas rituais
Dos despojos que deixaste
Quando te foste.

Um cartão de crédito,
Exausto de validade.
Um CD melancólico, 
Sedentas cortinas
Adeusando a janela de uma casa na
Praia temporariamente fechada.

E, clássico, a óbvia fotografia ovóide,
Polaroid dos idos de urgência,
De onde me olhas tal
Emoldurada estivesses
Num passe-partout.
Inacessível
Por trás de um vidro,
Inamovível
Atrás de um vidro
Inabordável e
Sorrindo, sempre sorrindo,
Na promessa marota que
Continuarás assim, sorrindo,
Pelos templos fora.

Há ainda, inventada por mim,
A página arrancada a bloco de
Um papel intensamente branco 
Dobrado em 2 e, depois, 
Macerado em 4 por 8
Desdobrado, tornado a dobrar, e
Onde devia constar, em permanente,
A razão escrita do teu estado ausente.


61. Pintei as unhas de preto (letra para fado)


Pintei as unhas de preto
Ao sentir tudo acabado
Há quem prefira o soneto

ou erguer as mãos num fado


Pintei as unhas de preto
Por descobrir que afinal

Era o vértice de um terceto

Numa história habitual


Pintei as unhas de preto
Como um escrito na alma
Enquanto tu, muito quieto
Rogavas pela minha calma

Pintei as unhas de preto
Já não mais te diz respeito
Se o meu coração está seco
Se transborda de despeito

Pintei as unhas de negro
Abracei o meu caminho
Já estava posta em sossego
Quando soprei o mindinho






62. Arrefecimento nocturno

Arrefecia
Lá fora, a tarde morria
Num silêncio esbanjador

Cá dentro,
A noite acendia
As sombras no corredor




63. Único


Meu filho único
É único
Como só as coisas sem par
Aquelas que gostaríamos
De levar a dobrar, mas
De todo não podemos, pois
“É o único que temos...”
E não o podemos deixar
Por menos
Porque é único



64. Tempo Incerto


Na eternidade, pelas seis a.m.
Larga a barca da aurora
Com um arcanjo ao leme

Na eternidade, pelas dez da matina
Passa um rebanho de eleitos
A caminho da cantina

Na eternidade, pelas treze p.m.
Rescende a canja de galinha,
Aletria e leite creme

Na eternidade, em vaga hora
Um arcanjo em contraluz
Amarra a barca da aurora 

Na eternidade, a tempo incerto
Deu agora a meia-noite
Mas bate meio-dia certo