Mostrar mensagens com a etiqueta VOU-TE CONTAR. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta VOU-TE CONTAR. Mostrar todas as mensagens

31 março 2024

UMA CASA NÃO É UM LAR


 A chair is still a chair

 Even when there's no one

 sitting there

 But a chair is not a house

 And a house is not a home

 When there's no one there to

 hold you tight,

 And no one there you can kiss

 good night.


        Burt Bacharach/Hal David (A House Is Not a Home)

 

        

Agora podia ser a minha sogra que descia e se detinha um momento a saber o que lia eu, reclinado no sofá verde do patamar. Mostrava a capa do livro, ela perguntava se era bom e fazia-se ao último lance de escadas, antes de desaparecer numa das portas do hall, como se passasse dos bastidores para o palco; era isso o que me parecia da perspectiva sobranceira onde me encontrava.

Regressava o silêncio, eu voltava ao livro, alumiado pela luz larga das vidraças, que ocupavam todo o pé direito do patamar, uma luz tamisada pelos reflexos verdes do grande pinheiro manso, de copa espreguiçada em dossel sobre o jardim, as pontas verdes das agulhas a beliscar os vidros. Uma ocasião, o meu sogro tivera a inspiração de mandar abater a árvore, citando-lhe as desvantagens: a sombra sobre a casa; o empedrado do quintal levantado pelas raízes; as pinhas caídas, o manto de caruma a atrair fogos e bicharada; a tonalidade esverdengada que salpicava os vidros fixos do patamar, impossíveis de limpar a partir do interior...

Felizmente, ninguém, nem sequer a empregada encarregue de manter as janelas cristalinas, se prestou a câmara de ressonância da ideia, pelo que a peregrinação se ficou pelas intenções e a copa oblonga do pinheiro ali continuou, muito além da morte do meu sogro, bem depois de a casa ser fechada e vendida e de a minha sogra ter  esquecido por completo que ali morara durante cinquenta anos.

Agora, no caminho de deixar o hall, a minha sogra poderia ter optado por rodar a maçaneta transparente da porta para a sala de estar e, entrando, ter deparado com a nora recostada no sofá cor de mostarda, um cigarro comodamente entalado na boca, pois necessitava ambas as mãos para folhear e alisar as páginas, mais altas do que largas, de um semanário. 

"Ah, já cá estás!", diria ela numa prazenteira constatação de boas-vindas.

"Cheguei há uns três quartos de hora, mas o António, que ia a sair, disse-me que a sogra ainda estava lá em cima."

A cunhada que folheia jornais não é mais casada com o filho da minha sogra, mas mantém-se na família e não se nega jamais a qualquer sugestão para que ali jornadeie um fim de semana, ou se junte a um outro pretexto festivo. É claro que a presença poderia ser sempre justificada  pelo alibi de acompanhar aos avós os dois filhos que vivem com ela, mas a verdade é mais extensa... Ela ama aquele lugar; encontrou ali tudo quanto uma casa deveria ser. Talvez por vir de uma gente um tanto formal, distante, incapacitada de alcançar a arte gregária da culinária e que arrisca encomendar uma pizza para a ceia de Natal, pois tanto faz o que se come... Não podia ser mais o oposto do que acontece na casa onde agora vagueia pelas páginas dos jornais: ali come-se com gosto e acarinha-se o prazer de ver os comensais apreciar o que comem; a cozinha é um prolongamento imprescindível da sala de jantar e é habitual encontrar por lá os restantes membros da família, encaixados em todos os espaços livres e contribuindo para o sucesso da refeição que se prepara: um fatia o rosbife braseado accionando a lâmina serrilhada de uma faca eléctrica tremente, outro revolve a salada com a maestria de um louco; uma outra, envolta em baforadas, verte na pia da banca a água onde cozeram as batatas. 

Quando se chega e toca à porta, é a senhora da casa que vem abrir, para nos envolver num abraço estreito que deixa os próprios filhos à beira do embaraço.

"Mãe, estás a magoar-me", poderá queixar-se um deles, num riso nervoso de resistência ao abraço vindo directamente da infância.

"Vou à cozinha, fazer um café; queres que te traga alguma coisa?"

A minha cunhada suspende o restolhar do jornal; fica-se a pensar... Depois, talvez já a sonhar com o almoço e em como será doce a breve penitência da espera, agradece, diz não, pergunta se é necessária ajuda "lá dentro". Descartando a necessidade e conhecendo-a bem, a sogra atravessa a sala em direcção à porta para a copa, deixando no ar:

"Olha que ainda pode demorar: foi  o António que ficou de trazer os mariscos para o arroz..." 

A sala onde esta conversa acabou de se evaporar em silêncio, é ampla e ocupa todo o espaço entre duas das paredes mestras da casa. Serve comodamente o propósito de ser sala de estar e de jantar, e as zonas destinadas a cada uma delas são sugeridas por uma boca de lareira e pelo conjunto de tapetes, sofás e maples dispostos sobre o parquet encerado. Quem entra do hall, acha-se na sala de estar: um sofá de cor mostarda com três lugares e dois maples a condizer, ao abrigo de uma parede decorada por quadros da escola impressionista francesa e portuguesa, e uma pequena arca de madeira a funcionar como mesa de apoio, onde, no momento, repousam as pernas cruzadas da minha cunhada, os pés contentes baloiçando o ar como a cauda de um cachorro. 

Margarida continua entretida no seu restolho privado, sentindo promissor o futuro, pois sabe que o nosso sogro trará, no regresso, para além das gambas, das ameijoas e dos coentros, mais uma ou duas revistas, certamente um daqueles jornais maçudos que somente será lido por se ter esgotado a leitura de todos os outros. Consolada, põe de lado o caderno principal, acende um novo cigarro e pega no suplemento, redimida por tantas páginas a pastorear-lhe o apetite. O local onde está é-lhe tão familiar, tão envolvente, que não se imagina a prescindir dele; e, antes de regressar à leitura, deixa passear o olhar pela da sala de jantar ao fundo, que aguarda, serenamente imóvel, que a mesa de madeira escura, em permanência aumentada por uma tábua extra e coberta por uma toalha branca, venha a ser posta e usada. 
Agora, do sofá do patamar, apercebo-me de uma porta a fechar-se acima da minha cabeça. Levanto os olhos do livro para adivinhar o aparecimento de D. Lívia, mãe da minha sogra, avó da minha mulher e dos meus cunhados, bisavó dos meus sobrinhos e do meu filho... O meu sogro, ao casar-se com uma viúva bonita (e sem ainda trinta anos), herdou, juntamente com uma sogra também viúva, um trio de enteados de idades escadeadas, todos os três com um só dígito nos anos contados. 

Aí vem ela, evoluindo cautelosamente e apoiando-se ao de leve numa bengala. Ao ver-me, e antes de iniciar a descida dos degraus, levanta um nadinha a bengala, saudando-me com a  borracha afixada na ponta e que faz lembrar um daqueles calços que se pregam ao chão para evitar que as portas batam nas paredes. Falta-lhe agora um degrau para atingir o terreno seguro do patamar; levanto-me para a cumprimentar e perguntar se quer ajuda para o longo lanço de escadas até ao hall, um percurso onde não existe corrimão onde se possa amparar.

"Não, deixa estar", diz no seu tom um pouco seco, definitivo, "apoio-me à parede - já estou acostumada". 

"Tem a certeza?", insisto. Não passarão três anos e eu mesmo, convalescendo naquela casa de uma doença grave, que praticamente me obrigou a reaprender a andar, terei horror àquele lanço desamparado das escadas, sobretudo na descida, pois é mais assustador deparar com o vazio ainda por percorrer do que enfrentar esse vazio quando nos ficou para trás das costas.

"A sério? Não custa nada fazer-lhe companhia até lá em baixo...".

"Não, não, continua a ler o teu livro...", responde num tom que envolveu o meu entretém numa ténue capa de desmerecimento.

Mas não me é assim tão fácil regressar no imediato às minha páginas, e fico-me a vê-la descer, a mão ossuda e de veias azuladas apoiando-se discretamente à parede do lado interno dos degraus. É leve e, mais depressa do que se suporia, chegou ao hall e demandou a sala de estar - ouço daqui tilintar nos caixilhos, os pequenos espelhos que forram a porta. 

Lá dentro, a meio do salão, vigiados pelos sofás azuis dispostos em torno do fogão de sala, acotovelam-se duas filas de passe-partouts sobre o lintel da lareira. Ali se perfilam todos os membros da família, mesmo as aves de arribação que, como eu, vieram, estiveram e partiram. Algumas fotografias pintalgam de preto e branco o colorido da maioria - uma delas retrata a mãe da minha sogra ainda na meia idade, muito antes dos dias da bengala; outras são já dos dias da bengala e dos que vieram depois, recordando a quem lhe sobreviveu aquela pessoa que ali morou ao longo de décadas, encaixando-se e apagando-se tão diplomaticamente quanto pôde, a fim de não chocalhar o ambiente com a sua presença.

"Cada um tem o seu feitio...", é tudo quanto se permite comentar quando os restantes se exasperam com a personalidade do meu sogro, um homem que arrasta consigo céus cinzentos, ainda que o dia vá de perfeito anil e uma brisa perfeita agite delicadamente as frágeis flores das buganvílias que espreitam a varanda.

Ouço o clique familiar de uma chave a ser introduzida na porta da rua, um ruído atenuado àquela hora do dia, mas que, à noite, no silêncio, invade o hall e sobe pelo saguão das escadas, cronometrando quem chega a horas tardias. É o meu sogro, regressado das compras, e que, mal bate a porta, chama:

"Zé?!" 

"Ó Zé!", vai engrossando o chamamento à medida que não chega uma réplica imediata. 

O meu sogro é incapaz do mais modesto acto doméstico, pelo que é totalmente dependente da mulher para sobreviver. Além do mais, na hierarquia das obrigações, acha que a principal é a de que ela esteja presente de cada vez que a resolva chamar.

"Zé!; ó Zé!"

Ficando sem resposta e (tendo-me eu encolhido no sofá) não vendo alguém que lhe acuda aos sacos com que vem ajoujado, precipita-se pela porta que dá para a copa e a cozinha.

"Ah, estás aqui! Fartei-me de chamar! Para que horas é o almoço?"

Sentada à mesa da cozinha, entretida a saborear o seu café, a minha sogra é a imagem aparente da tranquilidade.

"Nunca antes das duas. O Pedro, a João e os miúdos ainda não chegaram da praia; além de que é preciso tratar de tudo isso que trouxeste..."

O meu sogro, que tem uma perspectiva mágica da culinária, garante que o peixeiro lhe garantiu que as amêijoas estão livres de areia e podem ir directamente para o lume.

"Dizem-te sempre isso, António, mas depois és o primeiro a queixar-te se encontras um grão que seja..."

O meu sogro consulta o relógio de pulso, exasperado, e decreta querer comer quanto antes - não quer esperar tanto tempo.

"Está bem", concede a minha sogra; "aqueço-te sopa e um filete de pescada dos que sobraram ontem; vais comendo, sozinho."

O meu sogro vira costas, hesita entre a porta da sala de jantar e a do hall e acaba por se decidir pela última - vai chegar a minha vez.

"Ah, olá, estás aqui...", diz do meio dos degraus do primeiro lance de escadas, implicando na frase que se poderá ter apercebido de eu estar ali e não ter reagido à sua chegada a casa.

"Sim; estou a ler um pouco - este sítio tem uma luz magnífica a esta hora."

"É", consente, "e poderia ser bem melhor se não fosse o pinheiro a tapar os vidros."

Não respondo. Com o meu sogro, a melhor estratégia é procurar não existir, pois agarra-se a qualquer presença como uma carraça à orelha de um cão. Não há nada que mais o deleite do que chegar a um sítio e desestabilizar quem lá se encontra, impedindo-o de continuar a fazer o que porventura esse alguém esteja a fazer. Por exemplo:

Entra na sala, senta-se no seu maple, abre o jornal e põe-se a espreitar por cima deste. Ah, eis uma vítima no seu radar, neste caso a minha cunhada Margarida a ler regaladamente um semanário, as pernas cruzadas sobre a pequena arca de madeira. Durante um longo minuto parece que nada vai acontecer, que ambos leem... De seguida, o meu sogro pigarreia e comenta uma qualquer insignificância que encontrou no seu jornal, usando um tom irónico e dando uma gargalhadinha de desdém. Como nada lhe chega dos lados da nora, pergunta:

"Já viste isto, ó Margarida? Só num país como este é que se pode passar tal coisa..."

A minha cunhada emite um breve grunhido de retorno, e continua a ler. Talvez se ache num dia de sorte e pense que escapa... Mas nem por sombras: nos próximos dez minutos ele emitirá opiniões sobre o que debica no seu jornal e quando se der conta de que esse tipo de investida não resultou, passará a comentar o que, de onde está sentado, consegue ler nas páginas traseiras do jornal onde a minha cunhada escondeu a cara - assim já não poderá ela sustentar que desconhece ou não está por dentro do tópico que ele glosa! Finalmente, ela desiste, levanta-se e anuncia que vai à cozinha, ver se por lá necessitam de ajuda... O meu sogro permanece regaladamente sentado, debicando agora o jornal que a minha cunhada abandonou sobre a arca e aguardando a chegada da próxima vítima.  

          

Suponho que, na calmaria da meia hora depois da uma, adormeci no sofá, pois, de repente, tenho a Domi ao meu lado, a comunicar qualquer coisa.

"Tio, a avó manda dizer que o almoço está na mesa."

A Dominique vive em Bruxelas com os pais e o irmão, mas se está naquela casa gosta, como eu, de entreter tempo no patamar. Acho que, nos seus nove anos, olha para aquele lugar como se fosse assim uma espécie de casa na árvore, um refúgio de onde se pode antecipar a aproximação dos acontecimentos.

"Já chegaram todos?", pergunto, tentando situar-me.

"Sim... Os tios e os primos chegaram agora do Guincho - estão lá em baixo, no jardim, a passar-se pela mangueira, e já sobem. O avô está furioso por ter almoçado sozinho; diz que vai sair para tomar café na Sacolinha e que não espera por mais ninguém! A avó disse que fosse, e ainda lhe encomendou coisas para o lanche", ponteia ela com um sorrisinho.

Meneio a cabeça, sorrio também; digo que vá descendo - eu irei já. Mas ela quer ainda saber de que trata o livro que escorregou para o chão do patamar, quando a minha consciência deixou de ter alento para o segurar entre os dedos.

"É, mais ou menos, uma história de fantasmas... Uma família completa deles, que mora numa casa habitada por gente viva. Mas ninguém - de quem lá vive - os consegue ver nem sabe que moram também ali..."

Ela sabe bem o que são fantasmas, quer antes saber se acredito nisso. Talvez tenha um pouco de receio e se sinta mais tranquila se eu disser que são apenas produto da imaginação. Afinal, ando a ler um livro de fantasmas em absoluta tranquilidade, até adormeci ao fazê-lo.

"Achas que eu já podia lê-lo?", pergunta apanhando o livro da carpete e estudando a capa.

"Mmm..., não sei se ias gostar e - mais do que isso - desconfio que a tua mãe não ia gostar...", respondo pensando na minha cunhada Nita, que prefere livros com histórias positivas e finais felizes.

"Mas a Carolina lê! Adora ver filmes destes..."

"Não queiras comparar: a tua prima é muito mais velha do que tu!"

"Sim, mas já os lia quando era pequena: às escondidas, até; disse-me. E disse que a deixavas ver filmes de terror em tua casa quando tinha treze anos!"

"Tá..., voltamos a falar quando fizeres treze anos. Vai descendo e diz que fui só lavar as mãos...", despachei-a, pois aquela linha de argumentação já dera o que tinha a dar. Fantasmas...

Agora a casa foi fechada e vendida, estava a crescer demasiado para o número de pessoas que lá viviam; os lances de escadas multiplicaram-se, tornaram-se perigosos, coitados, eles que viram tanta gente subir e descer. A maior parte do recheio foi já retirada e transportada para o novo apartamento na baixa de Cascais... Mas como as chaves ainda não foram entregues definitivamente aos novos proprietários, algumas peças de mobiliário ainda aguardam destino na casa velha. Uma delas é o sofá verde, que continua no patamar, actualmente na penumbra, pois os reposteiros das largas janelas foram corridos, assim o sol não crestará a madeira dos degraus nus.   

Fantasmas... Quando se está na infância, como estava a Dominique nesse dia, os fantasmas arrepiam, tem-se-lhes pavor instintivo, à flor da pele, sem precisarmos de raciocinar sobre eles, sobre a sua substância ou existência. O tempo passa e esse medo atenua-se, descoloriu-se, pode até tornar-se risível: como pudemos um dia acreditar ou recear tal inexistência?! Mais tarde, bastante mais tarde, quando o ruído da vida regrediu à sua real importância, é possível que nos venhamos a aperceber que, afinal, os fantasmas existem e eramos nós, todos nós: eu, tu, ele; nós, vós; eles. 

 

© fotografias de pedro serrano, Cascais, 2007 e 2016.

28 setembro 2021

VOU-TE CONTAR: 76. Coincidências

Em um dia lastimosamente chuvoso do mês de Janeiro de 2021 olhei, por uma última vez, o interior da casa que acabara de esvaziar e fechei a porta sobre mim. Aos meus pés, no lado exterior da soleira, quedava o caixote de cartão onde fora enfiando aqueles pequenos objectos que, embora sem utilidade previsível, não consegui deixar no contentor de lixo mais próximo. Peguei o caixote, meti-o na mala do carro e virei costas ao local em que morara até abandonar o ninho paterno e onde, sem ter de me interrogar, entrara e saíra durante os últimos cinquenta anos.

Um dos despojos abrigados no caixote consistia em dois ou três maços, ainda cintados, de cartões de visita do meu pai, pequenos rectângulos de cartolina branca de 9 centímetros de comprimento por 5 de altura. Como deitar fora, assim, sem mais, algo tão tremendamente pessoal? E, arrastando-os comigo, olhando agora para eles entre as paredes da minha casa, como dar-lhes serventia sem vir a ser assaltado pela sensação de que o fazia indevidamente? Uma coisa é passarmos um traço de caneta sobre o nosso nome num cartão - pretendendo com esse gesto suspender ou atenuar a nossa persona - outra, muito diferente, é riscar o nome por outrem, por uma pessoa que não pertence já sequer ao mundo dos vivos, mas cuja lembrança permanece viva em nós. Seria o equivalente a negar-lhe a voz. Tendo decidido que os conservaria, resolvi então que os utilizaria como marcador de livros, para rabiscar notas pessoais ou memorandos, enfim, como algo prestável mas usado somente em circuito fechado e que só poderia ser prescindido após ter cumprido a sua função de mensageiro. Eram algumas centenas, chegar-me-iam para muitos meses, porventura alguns anos...

Passei a tê-los em profusão ao alcance dos olhos, sobre a secretária, a encontrá-los pousados em diferentes locais da casa, esquecidos em cima de uma mesinha acabado que fora o livro em que usara um deles para marcar páginas. Mas, um dia, dei comigo a olhar atentamente para um desses pequenos rectângulos, pois, por razões que ignoro, a sua individualidade descera sobre a minha consciência. Reparei então, e pela primeira vez, que no cartão constava apenas o nome nu do meu pai, sem o atributo prévio que costumava ilustrar o papel de receita ou cartões anteriores em que a sua profissão de médico era assinalada com um 'Dr.'. Observei também que na morada inscrita no rodapé constava já um código postal de sete dígitos e um número de telefone com nove algarismos, o que me permitiu concluir serem estes cartões relativamente recentes, pois datava de 1999 essa alteração na extensão dos números de telefone. Daí o pensamento saltou rapidamente para o meu pai, falecido em 2007, e para esses dias em que terá decidido mandar substituir os velhos cartões de visita por novos cartões em que toda a vida anterior, vincada sob traços de uma profissão, fora mandada apagar. Conhecendo-o, estou certo de que essa decisão terá sido longamente premeditada e o instante em que a tomou sentido como um degrau que se desce num caminho até pouco antes ascendente, pois que a existência passa depressa como um sopro. Mas o meu pai não era pessoa de se anunciar, de se queixar, de tudo isso restou apenas um vestígio e a minha interpretação.


Intrigado e impressionado pela revelação silenciosa, vasculhei os meus papeis na tentativa de encontrar um papel de receita dos seus dias activos como médico, queria comparar o que constava num e noutro desses documentos de uso tão exclusivamente pessoal e onde não havia lugar a manuseio de terceiros. Encontrei, quase perdida, uma única folha amarelada, em cujo cabeçalho está inscrito o nome, a actividade médica, e duas moradas, uma profissional e a outra pessoal. A primeira indica o seu consultório na Rua de Sá da Bandeira, no Porto, um prédio de esquina, de fachada arredondada, onde, em criança, fui levado frequentes vezes, pois no mesmo andar - o terceiro - ficava também o consultório do meu pediatra, do pediatra das minhas irmãs. Desses dias longínquos e desse local retinha imagens remotas e vagas, a necessitar que uma nova visita as refrescasse e cristalizasse com nitidez...  

Havia um elevador estreito, forrado a madeira escura, com uma porta de correr de malha de ferro que produzia, ao ser movimentada, o ruído de sabres entrechocando-se, armaduras de metal. Depois, à saída do elevador, erguia-se uma porta em cada lado do átrio, que na sua mudez expectante de ferragens e vidro martelado, quase gritava que a responsabilidade pelo mundo onde entraríamos seria totalmente de quem chegava e escolhia à esquerda ou à direita... Mas a nossa mãe sabia a campainha a que tocar e quando a porta se abrisse com um traquejo eléctrico estaríamos num vestíbulo onde, atrás de um balcão de madeira (tão escura como a do forro do elevador e a do painel da porta), se sentava uma senhora que, ruidosamente, nos saudava, envergonhando-nos perante as outras pessoas que esperavam consulta numa sala de porta aberta e, sem mais nada para fazer, se entretinham a ouvir quem chegava e qual o seu destino em termos dos quatro ou cinco médicos que ali prestavam serviço.

Mesmo se o fito da visita não fosse o nosso pai, mas, antes, consultar o médico de crianças, esta não aconteceria sem que, depois, ele fosse alertado da nossa presença, fosse pela recepcionista, fosse pelo próprio pediatra que, finda a consulta, atravessaria o espaço para ir bater à porta do nosso pai para o informar que ali estávamos e qual o resultado do nosso estado de saúde, informação que ficaria também na posse do doente sentado em frente ao meu pai e ressoaria no lençol da marquesa onde se deitavam, se enroscaria no tampo rotativo, para ajustamento da altura, do banco e, finalmente, pousaria numa das prateleiras do armário envidraçado onde eram guardados os instrumentos do ofício e as amostras dos medicamentos.

À saída, fechou-se a porta desse terceiro andar em Sá da Bandeira, bateu-se a porta do elevador, encostou-se a pesada porta de ferro forjado e vidro martelado da saída e uma dessas vezes, sem o saber, fora a última em que ali se entrara. Pela mesma última vez fechou-se depois a porta da casa onde eu morara e a tampa da bagageira após aí ter acondicionado o caixote com os cartões de visita do meu pai. 

Após a sua morte tornou-se necessário tratar de heranças e partilhas e quem melhor do que um advogado competente para desenrolar esse novelo, aliviar do algo doloroso que é olhar esses assuntos do ponto de vista legal? Saído do Porto há mais de trinta anos, eu não conhecia ninguém, mas o Vasco e a Margarida, filhos da minha irmã mais velha, sabia de um, a quem costumavam recorrer, excelente, segundo diziam de serviços que lhe tinham sido prestados. Marcou-se uma entrevista e um dos meus sobrinhos forneceu o nome e a morada aonde me dirigir. 

Era na Rua Sá da Bandeira e ao chegar ao local e confirmar o número da porta olhei com um misto de espanto, temor e expectativa o prédio arredondado, de esquina, onde ficara o consultório do meu pai, do pediatra... O andar do advogado, dizia o papel que eu guardara na carteira, ganhava agora uma luz de impossibilidade: era o terceiro, como só acontece nos filmes e nos contos.

E o elevador continuava a ter uma porta de correr, a ser forrado a madeira escura e, em cima, o átrio mantinha as mesmíssimas portas de vidro martelado e ferro forjado e até a campainha continuava a soar como um besouro sonolento. Mas tudo tinha um ar recente, classificado, cuidado: a decadência dos anos corridos não afectara nem entristecera o local, provavelmente fora tudo restaurado por alguém sabedor, atento e reverente ao que encontrou. 

A porta abriu-se com um trincolejo e, atrás de um balcão de madeira escura, uma menina sorria e, pela hora, adivinhava que eu seria fulano, à procura do Dr...

"O mundo é pequeno", disse o advogado quando, sem o conseguir evitar, lhe transmiti a incredulidade pela coincidência do local onde o encontrava.

"Tinha uma ideia que o consultório do avô ficava por aqui, mas não sabia que era neste prédio e, muito menos, neste andar", comentou a Margarida com naturalidade, rodando as páginas do seu Moleskine e preparando a esferográfica.

Muitos meses corridos sobre esta primeira consulta jurídica e na sequência dos seus frutos regressei à cidade para a escritura da venda da casa de onde levara os cartões de visita. Era inverno outra vez, chovia e rondava no ar aquela bruma espessa de que o Porto é pródigo. Ao contrário de outros tempos, em que os cartórios eram avaros e rígidos como repartições, agora eles abundam pela cidade, o advogado pôde escolher o mais conveniente e o local parecia-se mais com uma agência de viagens: tinha-nos calhado um vizinho do Mercado do Bom Sucesso, cuja existência eu ignorava de todo. No final, ao sair para o exterior, a bruma tinha-se dissipado um pouco e embora continuasse a chover era claro o pedaço de cidade perante mim. Do outro lado da rua, a escassas dezenas de metros, erguia-se um prédio onde nos andares mais baixos está instalado um centro comercial, espaço que se pode atravessar até sair por uma das portas das traseiras que deita para a Rua da Meditação, artéria curta e discreta cujo topo é constituído pelo muro do cemitério de Agra Monte. Ao contrário do que tudo faria crer, o meu pai não escolhera o jazigo de família do cemitério mais próximo da sua antiga casa, nem sequer o outro Prado do Repouso onde jaziam as cinzas da minha mãe, falecida uma dúzia de anos antes dele. Por razões que nunca revelou, optou por uma campa naquele cemitério cujos ciprestes e cimos de jazigo eu podia vislumbrar dali, à porta do cartório onde a sua casa, por mãos que ele conhecera bem, mudara para mãos que ele nunca conheceria. 

© Fotografias de pedro serrano, Porto 2018.

04 março 2021

VOU-TE CONTAR: 75. Deus abençoe os ausentes

Queirã?! Sim, Queirã, nunca ouviu falar? É natural, eu próprio nunca teria ouvido falar se não se tivesse dado o acaso de o meu pai ter por lá nascido.

Queirã é uma aldeia do concelho de Vouzela, distrito de Viseu, e dizer Vouzela é dizer já o bastante. Estive em Vouzela recentemente e comprovei a vila parada, pasmada. Imagine-se agora uma aldeia recôndita, satélite de Vouzela, sem outro horizonte do que o ficar deslumbrada com essa vila que é o centro do seu sistema solar. Potencie agora tudo isso colocando-se em 1947, quando se passou a história que lhe quero contar.

Junho de 1947, a 2.ª Guerra Mundial terminou há menos de dois anos e a Europa, o Mundo, está em ruínas, em crise profunda: fome, miséria por todo o lado, cidades e vilas são amontoados de destroços, e isto acontece desde a Espanha ao Japão, não esquecendo a Alemanha, que ficou em farrapos. Mas, mesmo num panorama destes, a vida continua para os vivos, é preciso tentar ser feliz, seguir a nossa vida. Posicionemo-nos, então, como se tudo estivesse a começar de novo e o mundo fosse uma tenra esperança.

O cenário mudou para a cidade do Porto, uma rua residencial, tranquila, de moradias abastadas. Um jardim muito cuidado - a exigir jardineiro residente -, cheio de canteiros e esquadrias, trepadeiras, verdes e flores e, pelas roupas leves de quem se passeia, pode inferir-se que estará um dia encantador, talvez de fim de Primavera, e que será já da parte de tarde, pois os corpos projectam sombras nas paredes e nos muros.

Várias pessoas movem-se pelo jardim, vão parando e tirando fotografias, é para elas que olho a tentar entender o que se me apresenta, pois sei que a minha existência, ao menos os seus fundamentos, começou algures ali. O que será aquilo? O que estará aquela gente a fazer e porque é que uma das mulheres parece estar tão tensa, as mãos persistentemente atadas uma na outra? Apesar de não aparentar ter ainda idade para isso (deverá rondar os quarenta), está vestida como uma viúva, e embora sorria e o sorriso seja bondoso, é um sorriso algo crispado, fabricado, de quem preferiria, talvez, estar noutro local. Mas não é viúva, aquela senhora discreta, a quem o saia-casaco só não assenta discretamente por contraste com os outros, pois o tempo é estival e os companheiros estão trajados levemente. Aliás, embora não apareça nas fotografias, o seu marido também anda por aqueles jardins, na companhia de um padre, ainda novo, alto e forte, de feição irónica e despachada. Esse padre é irmão da senhora embaraçada e, ambos, são irmãos de um outro homem, muito moreno, de fato escuro, em quem sobrenada a atitude de ser o elo entre aqueles dois mundos e parecendo preparar-se para continuar a frequentar aqueles jardins.

O que explica tudo aquilo? O que andarão aquelas almas, os que foram fotografados e os outros, fora do enquadramento, a divagar por ali, naquela tarde de 4 de Junho, uma quarta-feira?

A cena retrata o pedido de casamento da minha mãe, que acabou de fazer 21 nesse mesmo dia e é a rapariga de cabelo ondulado e ar um pouco aéreo, envergando um casaco ligeiro e claro, às riscas, praticamente igual ao da sorridente irmã mais nova, essa, sim, nas suas sete-quintas e aparentemente divertida com o acontecimento: um pedido de casamento deve ser coisa positiva e divertida, certo? O homem de fato escuro tem 31 anos feitos e é o meu pai, e uma outra dama, que também sorri contidamente à ponta de um banco, é a minha avó, mãe da noiva, a qual se deixa ver em apenas uma das fotografias, após o que desaparece, o que terá sido fácil pois está nos jardins bem tratados da sua casa, o que não sucede com metade da comitiva, vinda de Viseu, a mais de cem quilómetros e três horas de viagem. 

Pelas sobras da tarde, o jardim fica por conta dos visitantes, e o meu avô, o pai da noiva, não deu sequer abertura para descer e posar para a posteridade, como se esperaria de uma solenidade daquelas. Onde estará? Supõe-se que tenha estado nalgum momento anterior, uma vez que a mão de uma filha requer-se na presença de ambos os pais e a ele lhe competiria a palavra final. Mas esse momento já terá sido e o restante entretenimento fica por conta do mulherio, o mulherio que entretenha os visitantes, ele terá mais do que fazer e, bem vistas as coisas, tudo aquilo não lhe agrada sequer muito, não seria o que esperava como futuro para uma filha mais velha. Mas, enfim, os jovens são teimosos e a filha, embora obediente à superfície, tem uma ponta de personalidade; fôra dificultoso impedi-la de querer continuar os estudos e ir para a Universidade, convencê-la do que se esperava dela: que cumprisse o destino e ficasse em casa, entretida a ser uma senhora como as outras!  

O meu avô era, à data destes acontecimentos, um homem poderoso, gerente de um banco, como ocupação principal, e uma figura conhecida na cidade, capital do Norte, pelas costelas artísticas, as herdadas e as desenvolvidas: o homem escrevia, editava revistas, livros e almanaques; era sócio de uma livraria, de uma editora e de uma tipografia; escrevia e produzia peças de teatro e uma delas, A Costureirinha da Sé, estreada há um par de anos, fora um sucesso, não só regional mas também nacional, acabaria por dar um filme, as canções do enredo eram trauteadas pelo povo da cidade. Era esse o mundo em que se movia e agora a sua casa apalaçada, onde onze arcos de pedra embelezavam a arquitectura das fachadas, a sua vida via chegar, precipitadamente, um potencial genro de Queirã (uma aldeola atrás do sol-posto), dez anos mais velho do que a filha, mas licenciado em Medicina há pouco mais do que meses, pois desperdiçara grande parte da juventude num seminário!; um tipo sem nome, sem carreira, sem cheta.

Se deslocarmos a lupa para a perspectiva do meu pai, duplamente órfão há muitos anos, topamos rapidamente na razão que explicava ser a irmã mais velha a fazer as vezes de patrono no pedido de casamento. A Maria do Céu, oito anos mais velha, não restara outra saída senão a de fazer de mãe dos irmãos (dez, contando com ela); tivera de crescer depressa e o meu pai reconhecia-lhe o estatuto com naturalidade: era junto dela que se aconselhava, a quem pedia dinheiro emprestado se estava atrapalhado, era em casa dela, em Viseu, onde residia quando não estava na Universidade, era por lá que tinha quarto e uma cómoda onde guardava os esquálidos pertences. Nada mais natural e apropriado, então, do que pedir à irmã para assumir aquele papel, e o meu tio Vasco (o padre) garantiria um complemento lógico com o seu estatuto, a sua voz forte e o modo de ser assertivo.

Mas como raio, divago eu imiscuindo-me nos eventuais pensamentos do meu avô Heitor Campos Monteiro, fôra aquilo chegar a acontecer? Onde é que um tipo daqueles, escuro como um mouro e peludo como um macaco, teria conhecido a filha e como se pudera aproximar dela? O meu avô, de pele clara e louro nos tempos em que tinha cabelo, conhecia bem o círculo de amigos da minha mãe - a maior parte deles frequentava-lhe a casa -, teria uma ideia razoável dos pretendentes que, necessariamente, surgiriam na costa, dado que a minha mãe era viva, bonita e carismática, dotada de uma apreciável capacidade de manipular o ambiente e concentrar atenções. Com todas esses prendas, distinguia-se no Porto, em Espinho, pelas termas de Melgaço, em Santa Cruz da Trapa, em Oliveira de Frades e até, de passagem, em Vouzela, onde havia uns primos distantes e, imagine-se, se organizavam bailaricos! E surge o acaso a fazer das suas, a divertir-se com o improvável, e o meu pai terá visto a minha mãe, pela primeira vez, dentro das fronteiras do território natal, teria ela catorze anos e ele vinte e quatro. O mundo teria ainda de cumprir várias rotações em torno do eixo, passar por uma guerra generalizada, até que uma aproximação se desse, desta feita em Espinho, onde a família da minha mãe veraneava e, por lhes estar mais à mão quando se traçava a linha recta, as gentes da Beira-Alta procuravam o litoral. 

Nas décadas seguintes o futuro escreveria a história de ambos e, afinal, o meu pai não desiludiu. Mas quem consegue prever o futuro a partir do horizonte estreito de uma bela tarde de Junho?

 


 

 

Nota: O título deste texto está em dívida para com a canção "God Bless the Absentee", de Paul Simon, álbum One-Trick Poney, 1980.

 

16 fevereiro 2021

VOU-TE CONTAR: 74. ROOM SERVICE

Na última quinzena de Dezembro do ano que findou, mas sobretudo ao longo das primeiras três semanas de Janeiro de 2021, desloquei-me ao Porto com uma periocidade razoavelmente semanal com a finalidade de proceder ao esvaziamento da casa que fora a dos meus pais e, em tempos, a minha.

Apesar de se encontrar fechada desde 2007, ano da morte do meu pai, que sobreviveu à minha mãe, a casa, com três andares, mantinha intacto o seu recheio e dizer isto não é dizer apenas que conservava o mobiliário nas várias divisões, mas, também, que esses móveis mantinham o seu conteúdo: livros, molduras com fotografias, roupas, caixas de costura com linhas, dedais e tesouras; pratos e talheres; peças ornamentais de madeira, cerâmica e bronze... Havia também espelhos e quadros pendurados pelas paredes; a lenha que sobrou da que era usada na lareira; pneus velhos na garagem, e até alfaias de jardim e mangueiras enroladas no quintal. Tudo, praticamente tudo, do que ali sempre existiu quando lá morávamos todos: os meus pais, as duas minhas irmãs, uma empregada que ali viveu com o marido; vestígios dos anos de universidade em que o meu filho procurou o Porto e a casa do avô para residência.

"Deus abençoe este lar", constava num prato, redondo, de faiança azul, pendurado sobre a ombreira que separava a cozinha do hall.

Mas, ao fim de um longo estágio no mercado imobiliário, a casa fora finalmente vendida e o articulado do contrato de compra e venda, já assinado, fixava que deveria ser entregue, ao novo proprietário, devoluta (ou seja: vazia, desocupada) no dia da escritura, formalidade prevista para meados de Janeiro.

Assim, antevendo que seria empresa árdua e demorada, pus-me a caminho ainda antes do Natal e, juntamente com a minha irmã mais velha e o marido de uma das empregadas da minha sobrinha, cavalheiro que revelara óptimas qualidades na manutenção do quintal da casa quando este se transformou na selva costumeira dos locais desabitados, juntamente com essa ajuda, dizia, demos começo à imensa, interminável e, à posteriori, dolorosa, tarefa de a esvaziar e decidir sobre o que fazer ao muito que ali restava. 

Às cinco da tarde do primeiro dia dedicado a esse empreendimento, o anoitecer de inverno expulsou-nos dali. Em muitas das divisões, as lâmpadas dos candeeiros tinham fundido e, noutras, estouravam mal se dava ao interruptor: a humidade acumulada numa casa fechada é omnipresente e nada lhe resiste, a água é o primeiro corruptor, o ferro que o diga. De modo que, não se podendo contar com a luz artificial, as sombras cresciam como cogumelos e eu sentia-me já arrasado de tanto subir e descer escadas, de tomar consciência sobre o quase nada que fizéramos nessas primeiras oito horas de trabalho.

"Isto vai ter de ficar para outra vez", desabafei, desanimado, ao Sr. Serafim, que regressava dos contentores do lixo com o carrinho de mão vazio e um cigarro pendurado sobre a máscara descaída. Nada que não soubesse desde sempre que iria suceder, mas, nesse dia, pouco mais iniciáramos do que o esvaziamento de arrumos sob escadas e o empurrar para o lixo da papelada sem préstimo evidente, dos objectos avariados ou destruídos pelo tempo há que estavam enclausurados.

As visitas seguintes encadearam-se a um ritmo progressivamente mais intenso, com menores intervalos entre as minhas viagens de meio milhar de quilómetros, pois Janeiro rompera o calendário com o seu primeiro dente e a escritura fora finalmente agendada para o fim do mês.

Cada um vindo do seu sítio, encontrávamo-nos habitualmente na casa por volta das nove da manhã e eu, que ia dormir ao Porto de véspera, era o primeiro a chegar, a abrir cadeados e portões, a subir estores e escancarar janelas; a tentar expulsar a tristeza, a humidade e o intenso odor a mofo e, sobretudo, a tentar fomentar uma corrente de ar que atenuasse, apesar de todos usarmos máscaras, o risco de contágio por Covid19, caso algum de nós estivesse infectado sem o saber. É que, planeadamente, muita gente se cruzava entreparedes em cada uma daquelas sessões: o tipo que vinha ver os livros; o antiquário; a rapariga das velharias; os primos que gostariam de ficar com alguns dos móveis, os operários que vinham substituir um vidro partido; e, amiúde, de surpresa e surpreso com a actividade frenética, o futuro dono, um homem ainda jovem, de atitude e sorriso benevolamente contidos, que surgia para conferir a altura dos degraus da escada para o primeiro andar - a que pensava substituir a alcatifa por piso em madeira - ou, acompanhado de um carpinteiro, para estudar as característica das tábuas de madeira exótica escondidas sob o verniz das portas dos quartos. 

E sempre, sempre, nós os três, os crónicos: a minha irmã Clara, o Sr. Serafim e eu próprio; cabendo-me, o dia inteiro, o ter de responder aos milhentos "o que se faz a isto?". "Lixo", respondia, cerrando os dentes, arfando atrás da máscara. E ao fim da jornada — as tais cinco da tarde em que o crepúsculo e o cansaço nos expulsavam —, ao ligar o alarme e fechar as portas, tentávamos animar-nos reafirmando que já "se notava qualquer coisa". Um qualquer coisa que era o inverso do que fora o encher — alegre, premeditado ou espontâneo — daquela casa, feito a pouco e pouco, ao longo de quarenta anos, ruminava, já metido dentro do carro, enfiando-me no trânsito em direcção à saída da cidade e à noite.

A última sessão, a que esvaziou mesmo a casa e a deixou só paredes e sombras, arrastou-se por dois dias: no primeiro, a associação benemérita que iria levar consigo os móveis e objectos sobrantes, escolheria e carregaria o que lhe poderia render ou servir para alguma coisa, e o dia posterior seria gasto a recolher o que consideravam inútil, os monos imprestáveis, e esse tempo e transporte restantes seriam pagos por nós. Tinha lógica. Havia um frigorífico quase podre, uma arca congeladora roída pela ferrugem que pesava toneladas e jazia na cave; camas e armários que só conseguiriam atravessar portas desmontados. Mas, para além desses, havia escolhos:

"Estes três vão ter de sair daqui à machadada", apontava, empedernido, um dos tipos da tal associação benemérita.

"À machadada, como?"; eu não compreendia como seria possível referir desse modo os dois enormes móveis-estante da sala-de-estar, o louceiro da sala-de-jantar. Um desses armários, onde estivera a TV, concentrara, concorrendo com a lareira, todos os olhares presentes na sala durante décadas; o outro, os livros mais nobres da casa. Quanto ao louceiro, atrás da suas portas de vidro, expusera porcelanas, cristais, tudo quanto havia de mais comemorativo, frágil, colorido e tilintante.

"À machadada, feitos em tábuas! Quem é que você acha que vai querer isto?", perguntava ele, irado de imaginar o trabalho futuro, apontando o imenso móvel da TV, que fora concebido e construído para ocupar precisamente todos aqueles metros entre o chão e o tecto, a lareira e a porta-janela que dava para o terraço.

"O que é que você acha que se pode fazer com uma coisa deste tamanho? Quem é que hoje tem uma casa para isto? Nem dado, alguém o quer! Vai directo para o ecoponto e, antes disso, vamo-nos ver gregos para o arrancar dali!"

Nenhum daqueles três era grego: o que me falava assim - o mentor, o líder da equipa - era português e afeiçoado à entoação de uma rixa de rua; um dos outros ucraniano e o terceiro brasileiro. Unia-os o serem todos ex-toxicodependentes e trabalharem como cães, sem parar nem pestanejar.

"Você é que sabe...", ouvi-me dizer.

"O Pedro, amanhã, não deveria assistir a isso", sugeria a Elisa, que ouvia a conversa e, após regatear um pouco (já tratara de assuntos semelhantes), desistira também de elencar soluções alternativas. O seu aparte piedoso era o que se poderia considerar, pensei, um conselho de merda: atento, bem-intencionado, irrealizável. Como dizer a um morto que não deve assistir à sua autópsia!

O último dia foi 21 de Janeiro, uma quinta-feira, e começou à hora do costume. Nesse dia, como na véspera, estive sem a companhia ou o auxílio da minha irmã Clara e do Sr. Serafim, ambos fechados em casa com Covid19, tal como o meu cunhado e a mulher do Sr. Serafim, a tal que era empregada da minha sobrinha, vejam só a cadeia de contactos! Já vogávamos naquela fase da pandemia em que ninguém fazia a mínima ideia com quem apanhara a doença e eu próprio deixara de estar seguro do meu estado viral! Como companhia, para além dos três carrejões da associação, voltou a aparecer a Elisa, amiga que levou alguns móveis e reposteiros para si, alguns livros, alguma roupa e ajudou onde pôde, como se fizesse parte daquele filme, onde apenas entrara para o último capítulo. O que é o destino, e, é claro que o destino fez de tudo para que nesse dia chovesse a potes e a humidade fosse tão intensa fora como dentro de casa, onde até os espelhos dos interruptores brilhavam de água e estes escorregavam sob os dedos.

Pela hora do almoço a casa estava praticamente esvaziada: restavam os ferros de uma cama por desatarraxar no andar de cima; um armário na cave para desirmanar; e uns sofás pela sala-de-estar, para além de uns caixotes no hall da entrada. Mas era hora de almoço: os homens tinham de o ir fazer à cantina da Associação, e a Elisa tinha de ir preparar o almoço à mãe.

"Eu gostava de o poder convidar", dizia, prevendo o meu destino imediato. É que tudo, fora daquelas paredes, estava já fechado pelo confinamento e não havia restaurante, café ou fosse o que fosse onde se pudesse entrar, sentar, ir.

"Não se aflija, fico por aqui; trouxe umas bolachas e tenho uma garrafa de água ali na mochila."

Solidária, ela deixou-me uma pera e uma banana, antes de arrancar:

"Estou aqui por volta das três", o que era a hora a que os outros três homens tinham combinado regressar para terminar o serviço. E com a saída dela entrou o silêncio.

Depois de lavar a pera na banca vazia da cozinha, levei tudo para o peitoril da lareira e arrastei um nada a antiga poltrona do meu pai para o meio vazio da espaçosa sala de estar, para mais perto da luz frouxa do exterior. Dali a escassas horas aquela poltrona, de morno veludo vermelho, iria ser exilada para sempre, designada aos adereços de um teatro, fazendo companhia à roupa que ainda sobrara pendurada no guarda-vestidos do quarto dos meus pais. Que fim reconfortante, apesar de tudo, quando a alternativa era o lixo ou os contentores de roupa para sem-abrigo. 

"Darão uns belos trajes de época", ajuizava Elisa.

Sentei-me no cadeirão, trinquei a pera, com casca e tudo: já não restava um prato, uma faca naquela casa. Lá fora, a chuva continuava a cair e, como conservava as portas-janelas da sala abertas, o som chegava-me, claro, monótono, aqui e ali travado na queda pelas folhas das plantas do jardim. Olhei o relógio: era uma e um quarto, teria mais ou menos, uma hora para estar ali, sozinho. Por volta das duas e meia iria aparecer o meu sobrinho João, filho da minha irmã Clara, para recolher uns pacotes para a mãe, emparedada em casa pela quarentena covídica.

Foi por aí, entre o cascabulho da pera e o puxar pelas abas da banana, que me chegou o zumbir da campainha. Soube, de imediato, que era proveniente de uma campainha interior, pois as das portas exteriores estavam avariadas e inactivas há séculos; já ninguém, sequer, as pressionava por erro ou esquecimento! 

Acontece que em várias divisões da casa, sobretudo nos quartos de dormir do andar de cima, existia, à cabeceira da cama, gémeos dos usados para acender e apagar a luz principal do quarto, um fio longo, terminando-se por um interruptor na ponta, um manípulo oblongo a que se chamava, precisamente, "a pera". Em baixo, numa das paredes da cozinha, num pequeno quadro com números, era resumida a informação sobre quem chamava: a cada divisão correspondia um algarismo e, quando a pera respectiva era pressionada, uma pestana com esse algarismo, descaía e tornava visível a origem da chamada. Como o zumbido, vindo da cozinha, continuasse, levantei-me e fui ver. Sem grande surpresa, constatei que o algarismo cuja ficha caíra e vibrava era o correspondente ao quarto dos meus pais. Carreguei no botão, existente sob o quadro, que anulava o toque e fazia regressar os algarismos à posição de espera. Nada aconteceu, o número 6 continuou ali, vibrando levemente.

Subi as escadas e entrei no quarto. Como nos outros, os fios da luz e das campainhas jaziam agora ao longo do soalho, como tripas abandonadas e inúteis. Acocorei-me e premi o interruptor da pera: o zumbido cessou. Olhei o quarto vazio e silencioso e voltei à sala e à minha banana. Lá fora, a chuva acalmara um pouco, a luz aproveitava para tentar atravessar os vidros embaciados, mas o interior da sala continuava sombrio, a lareira parecia agora um enorme estaleiro abandonado e ao lado, na parede, havia uma imensa cicatriz rectangular no local onde o móvel da TV fora arrancado. Sentei-me no cadeirão vermelho. Seria a última vez que ali estaria e esse ali, onde estava, já não era bem nada, embora ainda fosse alguma coisa...

O zunido fez-se ouvir de novo na cozinha. Levantei-me e fui verificar. Era a mesma coisa de há pouco e o botão de desligar sob o quadro voltou a não funcionar. Voltei a subir as escadas, voltei a agachar-me no interior do quadrado onde outrora estivera a cama dos meus pais. Carreguei no interruptor da pera, mas, desta vez, não resultou: o zunido continuou a chegar-me lá de baixo. Desatarraxei as duas metades da pera, reconstruí-a, voltei a tentar o interruptor. Nada. Desisti e, depois de ficar um pouco na cozinha, a olhar a pequena placa onde o 6 vibrava, regressei à sala. O som ficou, em fundo, a balir, um balido eléctrico, enrouquecido, até que se terá cansado e parou. Não voltou a tocar.

Às três chegaram todos, primeiro os homens da Associação. Achei-os agora mais cordatos, o mentor já não latia resmungos com a mesma intensidade, o ucraniano dizia piadas tímidas sobre os parafusos que restavam pelo chão e o brasileiro, um tipo dos seus quarenta anos, considerava que era uma bela casa, apreciava a extensão das janelas, aquela parede quase coberta de vidros que dava continuidade à sala de estar e à de jantar.

"Você passou aqui a sua infância?"

"A infância, não; a juventude, saí para ir trabalhar..."

"Deve ter sido bom morar aqui...", alvitrou.

"Sim, sim; imagine isto num dia de sol..."

"Até hoje...", contentava-se ele.

Depois chegou a Elisa, com o ar apressado com que chega sempre a qualquer lugar, um ar decidido, preparado para resolver, dar instruções. Agora os homens da Associação iam ficar por sua conta, tinha-os contratado para irem levar as coisas, das que agora eram dela, a outro destino. 

"Mas para que quer ela tantas cadeiras?", perguntava o carrejão mentor, apontando a fiada empilhada na sala.

"É que ela tem um teatro", expliquei, "e num teatro gastam muitas cadeiras..."

Ele encolheu os ombros, suspirou.

"Já mal temos espaço no camião e ainda vamos ter de meter esta merda toda! E o sofá vermelho, também é para ir?"

No final, despediram-se de mim com cotoveladas amistosas, um deles de punho contrapunho e desejámo-nos tudo de bom, que a vida podia ser agreste! Eles saltaram para a cabina do camião, fui ajudá-los na manobra de entrar na estrada.

"Não precisa mais de mim?", perguntou a Elisa, "é que fiquei de ir à frente deles, apontar-lhes o caminho."

"Não, vá, vá; obrigado por tudo. Vou só ligar o alarme, fechar as portas e também me vou pôr a andar..."

"Hoje ainda vai chegar a casa a horas de jantar."

Antes de fechar a porta, olhei para dentro. Da posição onde estava, e com a casa vazia, conseguia ver de uma parede à outra, uma perspectiva que não recordava nunca ter tido. Havia a porta em cuja soleira eu estava, a seguir a porta aberta do vestíbulo, depois o hall, depois a porta corrida que dava acesso à sala de estar e, mais ao fundo, os estores descidos das porta-janelas, por onde se insinuava um fio ténue de luminosidade exterior. Meti a chave na fechadura, olhei outra vez o interior e puxei a porta sobre mim. O alarme iniciou os pios intermitentes de que fora activado.  


Fotos, de cima para baixo: 1. pedro serrano, 2010; 2-3-4. pedro serrano 2021; 5-6. Ana Almeida, 2021; 7-8. pedro serrano, janeiro 2021.