© fotografia de pedro serrano, Cnossos, Creta, junho 2025.
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16 julho 2025
AMIGO INSEPARÁVEL
Classificação:
ANGOLA,
FOTOGRAFIAS,
GRÉCIA,
GUINÉ
18 junho 2015
ÁFRICA SUBSARIANA
Guerra
era-lhe palavra familiar. Nascera por ela, por assim dizer. O pai, que nunca
vira, era branco, servia no exército colonial e fora já para o fim da comissão
que engravidara a mãe. Depois desaparecera, mas nem sequer um nome completo
deixara, sabia vagamente ser natural do norte. Era uma coisa que lhe fazia
impressão, mesmo tantos anos mais tarde: embora tentado, nunca se decidira a ir
a Portugal por receio de se aventurar num local que representava o mistério da
existência.
O
estado do país fizera com que toda a juventude se escoasse sem a certeza do dia
seguinte: guerra civil, não há nada pior para impedir uma pessoa de pensar no
futuro. Apesar disso, fora fazendo a sua vida e quando a tropa o deixou deixá-la
era médico militar, sem nenhuma especialidade de que se pudesse gabar mas
habituado a fazer um pouco de tudo, desde amputar membros a comportar-se de
todos os modos necessários às ocasiões, e até quando adormecia durante uma
reunião mais longa era capaz de vir à superfície rapidamente e apanhar o
essencial do que fora dito.
Agora,
sentado à cabeceira da mesa de reuniões – o cargo de director do Hospital Provincial
assim o ditava – não dava para dormir ou sequer fechar os olhos: havia três
brancos concentrados nele, a explicar-lhe uma série de coisas que pouco o
interessavam, que prometiam agitar os serviços pelos quais era responsável,
mas não estava seguro se isso lhe
interessava, se interessava fosse a quem fosse. Mas Luanda mandara que recebesse
a missão portuguesa e tivera de encaixar a reunião logo a seguir ao almoço,
amontoara à pressa os papéis que se empoeiravam sobre o tampo de fórmica da
mesa para arranjar espaço para os dossiers e os computadores que as visitas tiraram
das pastas, espaço para o caderno com elástico onde a loura não parava de
escrever, como se o que ele dissesse lhe fosse servir para alguma coisa.
Estava
um calor danado e o aparelho de ar condicionado – oferta da cooperação chinesa
– mal refrescava o gabinete onde a porta devia manter-se aberta, pois havia
sempre alguém para o vir chatear com um papel a assinar, com o recado de que o
camião-cisterna não aparecera e que o hospital ia ficar sem água dentro de horas ou que – mais uma vez – o gerador não
aguentara por haver demasiada gente, dentro e fora da cerca do hospital, a puxar
baixadas clandestinas à sua custa; até repartições do Estado tinham sido
apanhadas a usar a electricidade alheia! E toda a gente queria sempre que
resolvesse tudo, com urgência, sem dinheiro, sem poder efectivo, constantemente
a sentir-se um rafeiro entre as ordens ladradas do Governo Provincial e os
telefonemas prioritários do Ministério da Saúde...
As
pálpebras pesavam-lhe, mas a loura continuava a debitar as vantagens para o
progresso do país e para o hospital provincial dos serviços de consultoria –
seria isso? – que lhe estava a propor gratuitamente e que passavam por ensaios
clínicos, novos medicamentos, formação do ‘staff local’, dizia ela toda fresca,
espantava-se como é que uma mulher que já devia ter os seus quarenta e bué não
estava ainda transformada numa velha... Se calhar nem casada era, não tivera
seis ou sete filhos para lhe derreter os lombos e lhe amarfanhar o corpo. Abanou
a cabeça, como se estivesse a concordar com o que ela dizia, mas o aceno foi
mais para registo do português sentado ao seu lado direito, mesmo de frente
para a loura, o qual lhe parecia tão agoniado quanto ele com o discurso cheio
de inputs, outcomes e maisvalias .
Nem há vinte minutos, o gajo pedira licença, levantara-se e desaparecera pela
porta entreaberta do quarto de banho, onde se demorara mais do que seria
necessário, mas as visitas europeias, embora não abrissem o bico, ficavam
sempre fascinadas pelas três kalashnikov encravadas entre a retrete e o balde
de água que servia as vezes de autoclismo. Coitadas das velhas espingardas,
estavam mais ali por companhia do que por outra coisa, duas delas até já tinham
ganho capa de ferrugem, embora, já se sabe, uma AK47 nunca se estraga de vez, é
sempre recuperável se voltar a ser preciso aplicar uma ração de chumbo. Algumas
das visitas até saíam lá de dentro mais brancas do que já o eram e o português,
ao voltar, olhara-o com mais incisura; aqui e acolá – enquanto a loura
papagueava sobre alavancagens e ganhos em saúde, deixava o olhar passear-se
até à porta entreaberta do quarto-de-banho como que a conferir se as armas
ainda ali continuavam. Desconhecia que tipo de relação teria ele com a loura ou
com a outra, pois virem juntos de Luanda não explicava tudo, não explicava nada.
Ao chegarem, tinham-se apresentado, mas não ligara muito, nunca ligava muito, a
maioria aparecia uma única vez; prometiam dar continuidade às iniciativas,
escrever mails, ele nem os lia, e o que eles faziam na terra deles
interessava-lhe pouco.
Agora
que ela estava ali à sua frente conseguia encarar a loura tecnicamente, mas gostaria
era de ver como se safava a chupar as espinhas de um cacusso entre os dedos ou a
dançar kizomba... De qualquer modo, o outro tipo não parecia apreciá-la muito,
pois de vez em quando lançava-lhe olhares enraivecidos para a cabeleira ou
interrompia-lhe o discurso para explicar – a ele, que tentava não adormecer por
fora e por dentro – que não era bem como ela estava a dizer ou que o que ela
estava a dizer era que..., embora pudesse ser também de outro modo, logo se ia
vendo, dependia também do que Angola achasse sobre o assunto, aquilo era apenas
uma reunião de carácter exploratório...
Irritada
com a interrupção, a loura folheava as páginas do caderno como que a procurar o
que ainda faltava dizer, sarrabiscava vês
com a Montblanc nas notas do canhenho, e, pelo canto do olho, apercebeu o
português a descolar as costas suadas do espaldar de napa da cadeira, quando
ela tomou, de novo, a palavra, pois a outra – uma morena engraçada de que se
lembrava dos anos no Uíge como médico militar – pouco abria a boca; sabida... Calculava
que ia deixar correr o marfim e que se pronunciaria só no final, não se ia
gastar com tretas como a loura.
Ao olhar os três assim de fora veio-lhe uma enorme vontade de rir à boca e para disfarçar alisou a barba por fazer, compondo uma atitude grave ao cofiar o queixo. Depois, como sentisse a testa perlada de suor, aproveitou a lembrança, pegou no bloco, onde ainda não escrevera uma linha, e começou a usá-lo como leque. Na outra cabeceira, em sincronia, a morena bebeu um gole do gargalo da garrafa de água que ele mandara Faustina colocar na mesa, junto com um pacote de litro de sumo de pêssego e os guardanapos de papel.
Ao olhar os três assim de fora veio-lhe uma enorme vontade de rir à boca e para disfarçar alisou a barba por fazer, compondo uma atitude grave ao cofiar o queixo. Depois, como sentisse a testa perlada de suor, aproveitou a lembrança, pegou no bloco, onde ainda não escrevera uma linha, e começou a usá-lo como leque. Na outra cabeceira, em sincronia, a morena bebeu um gole do gargalo da garrafa de água que ele mandara Faustina colocar na mesa, junto com um pacote de litro de sumo de pêssego e os guardanapos de papel.
Agora
o português – achava que ele era professor, embora não soubesse bem de quê –
cruzara os braços e espalmara as mãos sobre os punhos da camisa, como se se
quisesse defender do discurso da loura, que falava entretanto do que Angola
deveria fazer para organizar os seus cuidados de saúde, citava exemplos de
sucesso na Tanzânia e no Uganda e em outros sítios que eram um atraso de vida e
que o seu país não encarava como modelos a seguir. Disfarçadamente, deixou
escorregar o braço para o colo, de modo a poder esticar a manga da bata e olhar
o relógio. Mas a loura fitava-o de testa franzida, os olhos consumidos muito
arregalados. Dizia:
“Suponho
que aqui, na África Subsariana, este é um problema que vos dirá muito...” Distraído no gesto encapotado de consultar o relógio e confrontado com o tom inquisitivo da outra, ficou a achar ter deixado escapar algo importante e sentiu-se momentaneamente apanhado, sem perceber em que sentido se devia manifestar. Então, olhou para o português com um certo ar em que se caldeava a estupefação e o pedido de ajuda. Ao ver o outro piscar-lhe um olho discretamente, sentiu que tudo estava sob controlo e que não precisava de se preocupar a responder.
© Fotografias de Pedro Serrano, Angola, Julho 2008.
Classificação:
ANGOLA,
ESBOÇOS e RETRATOS
22 março 2015
SERVIÇO DE OCASIÃO
Há um espelho com moldura dourada de obra-de-arte nos lavatórios públicos
que servem o restaurante e, na recepção, um preçário que categoriza a ocupação
dos quartos não somente ao dia mas também à hora.
O Bengo é uma província a norte e a sua capital é o Caxito, uma
cidadezita poeirenta cujo símbolo é um crocodilo, distando uns penosos 60 km de
Luanda, distância tão dependente dos caprichos do trânsito que pode demorar
entre uma e quatro horas a ser percorrida. Nunca se sabe, é escusado ter
esperança de que vamos ter sorte, e se os negócios exigem estarmos de forma
continuada e cedo no Caxito – a vida oficial em África começa às oito – o
melhor é ficarmos a pernoitar por lá.
E ficarmos a dormir por lá significa Hotel Bengo, que outra coisa não há
por ali nem nas redondezas. Para além do mais, o tal hotel é contíguo ao
recinto onde se encontra o hospital e o centro de saúde, o centro de
investigação, precisamente os nossos focos de atenção. E, ainda do lado das
vantagens, sabíamos de viagens exploratórias anteriores, o hotel era o único
local da cidade que, graças a gerador próprio, mantinha energia eléctrica
quando ela faltava, o que acontecia diariamente ou quase. Que cabaz de vantagens
para quem, como nós, dependia de computadores para quase pensar, para quem
aguentava mal o forno que é o Caxito sem ar condicionado.
Desta vez o meu quarto dá para uma mangueira e, se à noite vou espreitar
por trás da cortina, o meu olhar entretém-se com os morcegos que volteiam em
torno dela, cativados pelo odor doce das mangas. Vampiros vegetarianos, onde já
se viu! Nem pensar em abrir a janela a esta hora tardia, não por causa dos
morcegos mas por causa dos mosquitos que, esses sim, são vampiros e mantêm a
broca da tromba carregada de malária. Há que viver abafado, o ar condicionado é
fraco, talvez tomar um banho... A casa de banho tem uma janela, se me
empoleirar em cima da sanita consigo espreitar o pátio lá em baixo e ver de
esguelha uma galinha que passa seguida dos seus três pintos. Há um lavatório e
um polibã que me encheu de ânsias até o experimentar. É que, não sei se estão a
ver, o Caxito é uma cidade cheia de pó: as ruas não são asfaltadas e a zona é
passagem para as colunas de camiões chineses que vão a norte buscar a brita com
que se asfalta as auto-estradas, em construção epidémica por todo o país.
Centenas, milhares de camiões, passando o dia inteiro, como se estivéssemos
numa guerra mundial e os asiáticos já tivessem tomado conta de tudo com as suas
faces alheias e impassíveis. À noite estará tudo coberto de poeira, se ainda
viesse uma chuvada para limpar aquilo, mas as nuvens vogam, obstipadas, sem um
ai, acabam por abafar ainda mais a circulação de ar... Os lençóis da minha cama
ostentam uma permanente tonalidade cinzento-enxovalhado, sinto-me amortalhado
só de pensar em deitar-me ali, nunca me dispo na totalidade, pouso a cabeça na
almofada com enojada prudência quando desligo a luz, nunca a pousar antes de extinguir
a luz amarelada do candeeirinho. Ontem, quando entrei no quarto e liguei o
aparelho de ar condicionado, a tira de plástico abriu-se e uma enorme barata
saiu disparada por ali fora a esbracejar, estremunhada pelo mecanismo
automático no seu poiso... Hoje, não vi ainda nenhuma por aqui; talvez mais
logo.
Vou tomar uma chuveirada, já decidi; talvez arrefeça um pouco e fique
com a ilusão de maior higiene corporal. Mens
sana in corpore sano, acho que é assim o dito, não tenha a certeza como se
escreve, está tanto calor que mal consigo pensar... Mas aquilo acaba sempre
mal: a base do polibã está apenas ali para fins estéticos e o buraco de saída
da água não está ligado a nenhum esgoto, de modo que toda a água gasta será
devolvida ao chão que pisaremos a seguir e transformar-se-á num mar de lama na
alegre mistura com o pó que nos cobria, que já cobria tudo. Nem o lavatório me
dá a paz que a vista, o som e o uso de água sempre propiciam... Propiciam...
Faço a barba seguindo o método do salto atrás, isto é: o lavatório não tem
tampa, devo manter um fio de água a correr para ir limpando a lâmina, embebendo
o pincel na espuma, mas o ritmo da água – fria, pois não há nunca água quente,
embora esteja anunciada – é intermitente como o pulsar do gerador que a
propulsiona. Ora agora corre um fio, ora agora dá-se um estertor nos canos e a
água seca na torneira, ora agora ouve-se um gorgolejo e um jacto súbito ataca e
esparrinha-me como uma cobra cuspideira.
“Está com um ar cansado, Pedro, dormiu mal?”
Isto é ao pequeno-almoço, na tal sala cujos lavabos tem um espelho de
talha dourada. Enquanto cirandamos em torno da mesa onde está exposto o buffet,
as fatias de queijo transpiradas afundadas nas ondas de cetim rosa ou azul-bebé
com que os designers angolanos apreciam revestir as mesas da restauração
colectiva; enquanto cirandamos em torno da mesa, dizia, M., já toda energizada
de fotovoltaico pela luz da manhã, conta-me a sua recente aventura no balcão do
bar.
“Acordei cedo, apeteceu-me um café... Pedi-o à rapariga que se arrastava
por trás do balcão... ’Não há café, senhora’..., respondeu-me ela, e eu a ver a
máquina, já ligada e tudo... Como não há café, perguntei, estou ali a ver a
máquina, acesa, o pacote do pó, as chávenas...”
“Não há açúcar, o homem que tem a chave do armário do açúcar ainda não
veio...”
“Não faz mal, eu tomo sem açúcar; não uso açúcar...”
“Ah, mas não dá ainda, senhora, só mais logo...”
Não podia deixar M. divertir-se sozinha, de modo que passei a contar-lhe
as minhas idiossincrasias da véspera, logo a seguir a chegarmos e quando tentava
desarrumar a mala:
“Sabe o que encontrei na gaveta do meio da cómoda? Um resto de uma
sandes de fiambre: devia estar ali há tanto tempo que o fiambre estava
cinzento, com uma ourela esverdeada a toda a volta e fiapozinhos, brancos como
algodão, a nascer do pão...”
“Teve mais sorte do que eu”, retorquiu ela sem se deixar vencer, “ainda
conseguiu abrir gavetas... As minhas não as consigo sequer abrir pois batem no
guarda-fatos dois centímetros depois de entreabertas... Estes tipos não terão
alguém que lhes transmita a noção das distâncias?”
“Acho que o dono disto é cubano...”
E continuamos alegremente a comparar experiências em volta dos ovos
estrelados a quem eu ia escarafunchando a gema com uma acha de fiambre,
laminada com a espessura de uma porta anti-incêndio.
“Você reparou no catálogo de preços do quarto? Viu aquela discriminação
segundo o tempo de ocupação, a que eles chamam serviços de ocasião...?”
“Vi, e até já encontrei alguns vestígios arqueológicos disso... Sabe
aqueles tapetes felpudos que há de cada lado da cama? Pois nas fibras do meu
estava incrustado um pedacinho de borracha translúcido, com um ar pegajoso...”
“Ai, Pedro, esteja calado, que até fico sem apetite...”, comentou ela
com um ar de radioso divertimento... Olhe, vou pedir um café, quer que lhe peça
um também? Temos de ir andando...”
Não quis, ainda estava às voltas com uma posta de fiambre. M. demorou a
regressar com a chávena do expresso, esteve ali pelo balcão uns minutos a
argumentar com o rapaz que tinha a chave do açúcar e que entretanto tinha
chegado. Quando se sentou, uma luz de novidade iluminava-lhe a face.
“Você, não vai acreditar... Ontem tomei aqui um expresso por 80 kuanzas e foi aquele mesmo que mo serviu.
Hoje, quando lhe queria pagar, disse-me que eram 100 kuanzas! Desmascarei-o
logo, disse-lhe isso mesmo: como era possível ter-lhe pago ontem 80 kuanzas e
hoje ele levar-me 100... Você sabe o que é que ele me respondeu, logo, sem
pestanejar?!”
Não sabia, mas ia ficar a saber.
“É que o de hoje estava mais cheio, senhora...”
© Fotografias de Pedro Serrano, Caxito (Bengo), Angola: (1) Fevereiro 2008; (2) Julho 2008; (3) Janeiro 2009.
Classificação:
ANGOLA,
ESBOÇOS e RETRATOS
04 janeiro 2015
04 outubro 2014
LUANDA, LUANDA
A minha primeira vez em Angola foi há
quase onze anos, o aniversário completar-se-á no final do próximo Novembro e a
minha pessoa recém-chegada, ainda abalada pela humilhação sofrida no Aeroporto
4 de Fevereiro, logo se deixou abismar na beleza rutilante das acácias rubras
que bordejavam a avenida que levava ao centro da cidade.
Luanda! A minha recordação desses dias,
logo após o fim da guerra, é a de uma cidade que se atravessava de nariz
trancado, respirando pela boca na tentativa de não vomitar sob o fedor
indiscritível do lixo que, aos trinta e cinco graus do Verão tropical, fervia
nos contentores transbordantes, um monturo que extravasava para o chão e não
havia quem recolhesse. Quem tinha tempo ou lembrança para a recolha do lixo no
final de uma guerra civil que durou quase trinta anos?
Nesses dias, que triste era para um
expatriado um Domingo à tarde em Luanda, sem um restaurante onde se pudesse ir comer,
um café onde a gente se pudesse sentar a ver quem passa. Não havia rua que se
pudesse percorrer sem o receio constante de as pernas se afundarem nos passeios
rebentados, adentro das caixas de esgotos sem tampa; restava sim a certeza de
ir sepultar os sapatos na lama gerada pela mistela de pó com a água que jorrava
cronicamente das canalizações rebentadas e corria pela Avenida da Missão abaixo
como um rio, arrastando destroços de lixo até a uma Baixa onde a maior atracção
eram os edifícios picados pelo acne das balas.
Nos intervalos do trabalho ficava fechado
no hotel como um prisioneiro, pois não era seguro sair depois do por do sol e
não havia táxis na cidade, estávamos totalmente dependentes do jipe com
motorista que nos ia buscar ou trazer ou de algum misericordioso conhecimento
que nos mostrasse, na segurança amarga do por trás dos vidros e dos carros
trancados por dentro, como a cidade tinha
sido bonita e que magnífica era a cidade vista da ilha, quando a gangrena
fétida da proximidade se diluída, muda e inodora, na distância. Ah! ao longe
Luanda era bela como o Rio de Janeiro, cintilante como Nova York. Havia até, como
ao deparar com o corpo de um defunto querido, quem não resistisse ao mar de
lágrimas, à crueldade de constatar ao que tinha chegado a cidade da sua
meninice, o coração das recordações esventrado e morto como um cenário antigo e
abandonado.
Não era o meu caso, que não tinha
termo de comparação, a minha única infância da Angola são estes onze anos de
que vos falo, 2003-2014.
Uma breve década mais tarde, a cidade
mudou tanto que os meus olhos mal a reconhecem nalguns locais: a marginal, onde
não se devia andar, onde não se podia permanecer, é agora um passeio largo,
onde à sombra de palmeiras, pessoas passeiam, correm pelo seu corpo ou se
sentam nos bancos com o olhar perdido nas garças da baía ou nas acácias tenras
que tremulam na brisa do fim da tarde.
Mais acima, naquele canto da Avenida
da Missão onde fervilhava o lixo ergue-se um hotel novo em folha, orgulhoso dos
seus vinte e tal andares e da vista para a água.
Oh, sim, claro que ainda há muito por
fazer e a perfeição paira longe e inalcançável, como um papagaio de papel, no
azul brumoso do céu da Samba, o mar,
brilhando como um esmalte sem mancha. Ninguém duvida disso, mas, no seu intenso
orgulho pátrio, os angolanos acham que vão chegar lá: raramente vi um povo tão
certo da superioridade do seu país, da sua capacidade de realização; a cúpula
da nova Assembleia da República medindo forças com o Capitólio de Washington ou
com S. Pedro, no Vaticano, e a Soares da Costa a esfregar as mãos de contente
nas palmas que bate ao desmedido exagero.
O tempo, como sempre me acontece em África,
voou e chegou a hora de regressar ao meu país murcho, a carrinha percorrendo o
Prenda em direcção ao aeroporto, entremeada de táxis no engarrafamento, todos
em busca daquele aeroporto que costumava ser um pardieiro, atravessado na
angústia permanente de qual iria ser a próxima dificuldade à entrada no país, a
próxima chantagem. Não havia empregado ou polícia ou autoridade fardada que não
se fizesse difícil, que não nos desse a entender que a progressão até à porta
de saída dependia da sua vontade e dos dólares que tivéssemos na carteira,
sempre exigidos em quantidade excessiva
na voz sussurrada das filas ou nas salas esconsas para que nos tentavam
arrastar. Enquanto não aprendi a usar o jogo de cintura, saía daquelas
instalações, exíguas e sujas, como se tivesse sido submetido a uma violação
colectiva e dava por mim a pensar: que tremendo cartão de visita para um país!
Bem, tudo isso é letra morta: o
aeroporto cintila de novidade, brilha de limpeza e profissionalismo, e o único
defeito que se lhe poderá apontar é que, apesar de recente, é já pequeno em
demasia para o movimento... Também quem podia imaginar que o país ia crescer
tanto em tão pouco tempo? Que o mundo inteiro ia cair aqui? Só portugueses são duzentos
mil, diz-nos F., um amigo angolano, que conta também que os meus conterrâneos
estão a tomar conta da restauração da capital. Chegam, tímidos e escorraçados
da pátria, com uma mão à frente e outra atrás, começam por ser empregados,
depois gerentes e, no final, compram, são já os sorridentes donos de uma
realidade que se vem despedir de nós à porta.
Ei-los, concretizados em carne e osso,
nas filas dos voos, repletos, para Lisboa e para o Porto, cinco aviões por dia
e se mais houvesse... Mas não há, que a TAP anda distraída no sonho da
privatização, indiferente aos atrasos permanentes, aos voos que não se realizam
e às ferroadas gozonas dos angolanos que se referem à sigla da companhia como “Take Another Plane”. Sim, todos
começam a preferir a TAAG e os Emirates para voar para aquelas paragens.
Brancos e pretos, mas mais brancos do
que pretos, palram naquelas infindas bichas que serpenteiam a caminho do check-in,
que se contorcem e desdobram para o controlo dos passaportes, afogueados,
trocando comentários brincalhões, recomeçando, numa terra que é como um parente
distante, uma vida que lhes foi cortada cerce no país de origem.
© Fotografias de Pedro Serrano, Luanda: (1) 2007; (2) e (3) 2014.
Classificação:
ANGOLA,
RUMINAÇÕES
26 setembro 2014
FAZ DA TUA CHOUPANA O TEU CASTELO
Ainda não são bem seis da manhã e já
há claridade em Luanda, uma luz plúmbea, que foi barrada no seu jorro por um
céu carregado de nuvens sujas que parecem anunciar chuva. É uma ilusão
tropical: estará assim até ao fim da manhã e depois o céu vai-se abrir, como uma
flor exótica, numa revelação de azul e sol crocante.
Aqui em frente à minha janela do nono
andar há um musseque, um bairro de lata, portanto, que o Jorge S., noutra
janela do hotel, julgava, a uma distância de olhos mal habituados,
desabitado, tal é o seu ar desolado e caótico de vazadouro de chapas e lixo.
Mas uma teleobjectiva faz milagres de
subjectividade. Fazendo-a passear-se sobre os detalhes, irrompem no meio da
massa confusa as antenas parabólicas, um aparelho de ar condicionado espreita
aqui e acolá, há roupa a secar numa corda, uma luz ficou acesa toda a noite,
como quem anuncia a porta de um lar para alguém que pode chegar
tresmalhadamente fora de horas.
© Fotografia de Pedro Serrano, Luanda, Setembro 2014.
Classificação:
ANGOLA,
ESBOÇOS e RETRATOS
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