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16 julho 2025

18 junho 2015

ÁFRICA SUBSARIANA

Guerra era-lhe palavra familiar. Nascera por ela, por assim dizer. O pai, que nunca vira, era branco, servia no exército colonial e fora já para o fim da comissão que engravidara a mãe. Depois desaparecera, mas nem sequer um nome completo deixara, sabia vagamente ser natural do norte. Era uma coisa que lhe fazia impressão, mesmo tantos anos mais tarde: embora tentado, nunca se decidira a ir a Portugal por receio de se aventurar num local que representava o mistério da existência.
O estado do país fizera com que toda a juventude se escoasse sem a certeza do dia seguinte: guerra civil, não há nada pior para impedir uma pessoa de pensar no futuro. Apesar disso, fora fazendo a sua vida e quando a tropa o deixou deixá-la era médico militar, sem nenhuma especialidade de que se pudesse gabar mas habituado a fazer um pouco de tudo, desde amputar membros a comportar-se de todos os modos necessários às ocasiões, e até quando adormecia durante uma reunião mais longa era capaz de vir à superfície rapidamente e apanhar o essencial do que fora dito.
Agora, sentado à cabeceira da mesa de reuniões – o cargo de director do Hospital Provincial assim o ditava – não dava para dormir ou sequer fechar os olhos: havia três brancos concentrados nele, a explicar-lhe uma série de coisas que pouco o interessavam, que prometiam agitar os serviços pelos quais era responsável, mas  não estava seguro se isso lhe interessava, se interessava fosse a quem fosse. Mas Luanda mandara que recebesse a missão portuguesa e tivera de encaixar a reunião logo a seguir ao almoço, amontoara à pressa os papéis que se empoeiravam sobre o tampo de fórmica da mesa para arranjar espaço para os dossiers e os computadores que as visitas tiraram das pastas, espaço para o caderno com elástico onde a loura não parava de escrever, como se o que ele dissesse lhe fosse servir para alguma coisa.
Estava um calor danado e o aparelho de ar condicionado – oferta da cooperação chinesa – mal refrescava o gabinete onde a porta devia manter-se aberta, pois havia sempre alguém para o vir chatear com um papel a assinar, com o recado de que o camião-cisterna não aparecera e que o hospital ia ficar sem água dentro de  horas ou que – mais uma vez – o gerador não aguentara por haver demasiada gente, dentro e fora da cerca do hospital, a puxar baixadas clandestinas à sua custa; até repartições do Estado tinham sido apanhadas a usar a electricidade alheia! E toda a gente queria sempre que resolvesse tudo, com urgência, sem dinheiro, sem poder efectivo, constantemente a sentir-se um rafeiro entre as ordens ladradas do Governo Provincial e os telefonemas prioritários do Ministério da Saúde...
As pálpebras pesavam-lhe, mas a loura continuava a debitar as vantagens para o progresso do país e para o hospital provincial dos serviços de consultoria – seria isso? – que lhe estava a propor gratuitamente e que passavam por ensaios clínicos, novos medicamentos, formação do ‘staff local’, dizia ela toda fresca, espantava-se como é que uma mulher que já devia ter os seus quarenta e bué não estava ainda transformada numa velha... Se calhar nem casada era, não tivera seis ou sete filhos para lhe derreter os lombos e lhe amarfanhar o corpo. Abanou a cabeça, como se estivesse a concordar com o que ela dizia, mas o aceno foi mais para registo do português sentado ao seu lado direito, mesmo de frente para a loura, o qual lhe parecia tão agoniado quanto ele com o discurso cheio de inputs, outcomes e maisvalias . Nem há vinte minutos, o gajo pedira licença, levantara-se e desaparecera pela porta entreaberta do quarto de banho, onde se demorara mais do que seria necessário, mas as visitas europeias, embora não abrissem o bico, ficavam sempre fascinadas pelas três kalashnikov encravadas entre a retrete e o balde de água que servia as vezes de autoclismo. Coitadas das velhas espingardas, estavam mais ali por companhia do que por outra coisa, duas delas até já tinham ganho capa de ferrugem, embora, já se sabe, uma AK47 nunca se estraga de vez, é sempre recuperável se voltar a ser preciso aplicar uma ração de chumbo. Algumas das visitas até saíam lá de dentro mais brancas do que já o eram e o português, ao voltar, olhara-o com mais incisura; aqui e acolá – enquanto a loura papagueava sobre alavancagens e ganhos em saúde, deixava o olhar passear-se até à porta entreaberta do quarto-de-banho como que a conferir se as armas ainda ali continuavam. Desconhecia que tipo de relação teria ele com a loura ou com a outra, pois virem juntos de Luanda não explicava tudo, não explicava nada. Ao chegarem, tinham-se apresentado, mas não ligara muito, nunca ligava muito, a maioria aparecia uma única vez; prometiam dar continuidade às iniciativas, escrever mails, ele nem os lia, e o que eles faziam na terra deles interessava-lhe pouco.
Agora que ela estava ali à sua frente conseguia encarar a loura tecnicamente, mas gostaria era de ver como se safava a chupar as espinhas de um cacusso entre os dedos ou a dançar kizomba... De qualquer modo, o outro tipo não parecia apreciá-la muito, pois de vez em quando lançava-lhe olhares enraivecidos para a cabeleira ou interrompia-lhe o discurso para explicar – a ele, que tentava não adormecer por fora e por dentro – que não era bem como ela estava a dizer ou que o que ela estava a dizer era que..., embora pudesse ser também de outro modo, logo se ia vendo, dependia também do que Angola achasse sobre o assunto, aquilo era apenas uma reunião de carácter exploratório...
Irritada com a interrupção, a loura folheava as páginas do caderno como que a procurar o que ainda faltava dizer, sarrabiscava vês com a Montblanc nas notas do canhenho, e, pelo canto do olho, apercebeu o português a descolar as costas suadas do espaldar de napa da cadeira, quando ela tomou, de novo, a palavra, pois a outra – uma morena engraçada de que se lembrava dos anos no Uíge como médico militar – pouco abria a boca; sabida... Calculava que ia deixar correr o marfim e que se pronunciaria só no final, não se ia gastar com tretas como a loura. 
Ao olhar os três assim de fora veio-lhe uma enorme vontade de rir à boca e para disfarçar alisou a barba por fazer, compondo uma atitude grave ao cofiar o queixo. Depois, como sentisse a testa perlada de suor, aproveitou a lembrança, pegou no bloco, onde ainda não escrevera uma linha, e começou a usá-lo como leque. Na outra cabeceira, em sincronia, a morena bebeu um gole do gargalo da garrafa de água que ele mandara Faustina colocar na mesa, junto com um pacote de litro de sumo de pêssego e os guardanapos de papel.
Agora o português – achava que ele era professor, embora não soubesse bem de quê – cruzara os braços e espalmara as mãos sobre os punhos da camisa, como se se quisesse defender do discurso da loura, que falava entretanto do que Angola deveria fazer para organizar os seus cuidados de saúde, citava exemplos de sucesso na Tanzânia e no Uganda e em outros sítios que eram um atraso de vida e que o seu país não encarava como modelos a seguir. Disfarçadamente, deixou escorregar o braço para o colo, de modo a poder esticar a manga da bata e olhar o relógio. Mas a loura fitava-o de testa franzida, os olhos consumidos muito arregalados. Dizia:
“Suponho que aqui, na África Subsariana, este é um problema que vos dirá muito...” 
Distraído no gesto encapotado de consultar o relógio e confrontado com o tom inquisitivo da outra, ficou a achar ter deixado escapar algo importante e sentiu-se momentaneamente apanhado, sem perceber em que sentido se devia manifestar. Então, olhou para o português com um certo ar em que se caldeava a estupefação e o pedido de ajuda. Ao ver o outro piscar-lhe um olho  discretamente, sentiu que tudo estava sob controlo e que não precisava de se preocupar a responder.
© Fotografias de Pedro Serrano, Angola, Julho 2008.

22 março 2015

SERVIÇO DE OCASIÃO


Há um espelho com moldura dourada de obra-de-arte nos lavatórios públicos que servem o restaurante e, na recepção, um preçário que categoriza a ocupação dos quartos não somente ao dia mas também à hora.
O Bengo é uma província a norte e a sua capital é o Caxito, uma cidadezita poeirenta cujo símbolo é um crocodilo, distando uns penosos 60 km de Luanda, distância tão dependente dos caprichos do trânsito que pode demorar entre uma e quatro horas a ser percorrida. Nunca se sabe, é escusado ter esperança de que vamos ter sorte, e se os negócios exigem estarmos de forma continuada e cedo no Caxito – a vida oficial em África começa às oito – o melhor é ficarmos a pernoitar por lá.
E ficarmos a dormir por lá significa Hotel Bengo, que outra coisa não há por ali nem nas redondezas. Para além do mais, o tal hotel é contíguo ao recinto onde se encontra o hospital e o centro de saúde, o centro de investigação, precisamente os nossos focos de atenção. E, ainda do lado das vantagens, sabíamos de viagens exploratórias anteriores, o hotel era o único local da cidade que, graças a gerador próprio, mantinha energia eléctrica quando ela faltava, o que acontecia diariamente ou quase. Que cabaz de vantagens para quem, como nós, dependia de computadores para quase pensar, para quem aguentava mal o forno que é o Caxito sem ar condicionado.
Desta vez o meu quarto dá para uma mangueira e, se à noite vou espreitar por trás da cortina, o meu olhar entretém-se com os morcegos que volteiam em torno dela, cativados pelo odor doce das mangas. Vampiros vegetarianos, onde já se viu! Nem pensar em abrir a janela a esta hora tardia, não por causa dos morcegos mas por causa dos mosquitos que, esses sim, são vampiros e mantêm a broca da tromba carregada de malária. Há que viver abafado, o ar condicionado é fraco, talvez tomar um banho... A casa de banho tem uma janela, se me empoleirar em cima da sanita consigo espreitar o pátio lá em baixo e ver de esguelha uma galinha que passa seguida dos seus três pintos. Há um lavatório e um polibã que me encheu de ânsias até o experimentar. É que, não sei se estão a ver, o Caxito é uma cidade cheia de pó: as ruas não são asfaltadas e a zona é passagem para as colunas de camiões chineses que vão a norte buscar a brita com que se asfalta as auto-estradas, em construção epidémica por todo o país. Centenas, milhares de camiões, passando o dia inteiro, como se estivéssemos numa guerra mundial e os asiáticos já tivessem tomado conta de tudo com as suas faces alheias e impassíveis. À noite estará tudo coberto de poeira, se ainda viesse uma chuvada para limpar aquilo, mas as nuvens vogam, obstipadas, sem um ai, acabam por abafar ainda mais a circulação de ar... Os lençóis da minha cama ostentam uma permanente tonalidade cinzento-enxovalhado, sinto-me amortalhado só de pensar em deitar-me ali, nunca me dispo na totalidade, pouso a cabeça na almofada com enojada prudência quando desligo a luz, nunca a pousar antes de extinguir a luz amarelada do candeeirinho. Ontem, quando entrei no quarto e liguei o aparelho de ar condicionado, a tira de plástico abriu-se e uma enorme barata saiu disparada por ali fora a esbracejar, estremunhada pelo mecanismo automático no seu poiso... Hoje, não vi ainda nenhuma por aqui; talvez mais logo.
Vou tomar uma chuveirada, já decidi; talvez arrefeça um pouco e fique com a ilusão de maior higiene corporal. Mens sana in corpore sano, acho que é assim o dito, não tenha a certeza como se escreve, está tanto calor que mal consigo pensar... Mas aquilo acaba sempre mal: a base do polibã está apenas ali para fins estéticos e o buraco de saída da água não está ligado a nenhum esgoto, de modo que toda a água gasta será devolvida ao chão que pisaremos a seguir e transformar-se-á num mar de lama na alegre mistura com o pó que nos cobria, que já cobria tudo. Nem o lavatório me dá a paz que a vista, o som e o uso de água sempre propiciam... Propiciam... Faço a barba seguindo o método do salto atrás, isto é: o lavatório não tem tampa, devo manter um fio de água a correr para ir limpando a lâmina, embebendo o pincel na espuma, mas o ritmo da água – fria, pois não há nunca água quente, embora esteja anunciada – é intermitente como o pulsar do gerador que a propulsiona. Ora agora corre um fio, ora agora dá-se um estertor nos canos e a água seca na torneira, ora agora ouve-se um gorgolejo e um jacto súbito ataca e esparrinha-me como uma cobra cuspideira.
“Está com um ar cansado, Pedro, dormiu mal?”
Isto é ao pequeno-almoço, na tal sala cujos lavabos tem um espelho de talha dourada. Enquanto cirandamos em torno da mesa onde está exposto o buffet, as fatias de queijo transpiradas afundadas nas ondas de cetim rosa ou azul-bebé com que os designers angolanos apreciam revestir as mesas da restauração colectiva; enquanto cirandamos em torno da mesa, dizia, M., já toda energizada de fotovoltaico pela luz da manhã, conta-me a sua recente aventura no balcão do bar.
“Acordei cedo, apeteceu-me um café... Pedi-o à rapariga que se arrastava por trás do balcão... ’Não há café, senhora’..., respondeu-me ela, e eu a ver a máquina, já ligada e tudo... Como não há café, perguntei, estou ali a ver a máquina, acesa, o pacote do pó, as chávenas...”
“Não há açúcar, o homem que tem a chave do armário do açúcar ainda não veio...”
“Não faz mal, eu tomo sem açúcar; não uso açúcar...”
“Ah, mas não dá ainda, senhora, só mais logo...”
Não podia deixar M. divertir-se sozinha, de modo que passei a contar-lhe as minhas idiossincrasias da véspera, logo a seguir a chegarmos e quando tentava desarrumar a mala:
“Sabe o que encontrei na gaveta do meio da cómoda? Um resto de uma sandes de fiambre: devia estar ali há tanto tempo que o fiambre estava cinzento, com uma ourela esverdeada a toda a volta e fiapozinhos, brancos como algodão, a nascer do pão...”
“Teve mais sorte do que eu”, retorquiu ela sem se deixar vencer, “ainda conseguiu abrir gavetas... As minhas não as consigo sequer abrir pois batem no guarda-fatos dois centímetros depois de entreabertas... Estes tipos não terão alguém que lhes transmita a noção das distâncias?”
“Acho que o dono disto é cubano...”
E continuamos alegremente a comparar experiências em volta dos ovos estrelados a quem eu ia escarafunchando a gema com uma acha de fiambre, laminada com a espessura de uma porta anti-incêndio.
“Você reparou no catálogo de preços do quarto? Viu aquela discriminação segundo o tempo de ocupação, a que eles chamam serviços de ocasião...?”
“Vi, e até já encontrei alguns vestígios arqueológicos disso... Sabe aqueles tapetes felpudos que há de cada lado da cama? Pois nas fibras do meu estava incrustado um pedacinho de borracha translúcido, com um ar pegajoso...”
“Ai, Pedro, esteja calado, que até fico sem apetite...”, comentou ela com um ar de radioso divertimento... Olhe, vou pedir um café, quer que lhe peça um também? Temos de ir andando...”
Não quis, ainda estava às voltas com uma posta de fiambre. M. demorou a regressar com a chávena do expresso, esteve ali pelo balcão uns minutos a argumentar com o rapaz que tinha a chave do açúcar e que entretanto tinha chegado. Quando se sentou, uma luz de novidade iluminava-lhe a face.
“Você, não vai acreditar... Ontem tomei aqui um expresso por 80 kuanzas e foi aquele mesmo que mo serviu. Hoje, quando lhe queria pagar, disse-me que eram 100 kuanzas! Desmascarei-o logo, disse-lhe isso mesmo: como era possível ter-lhe pago ontem 80 kuanzas e hoje ele levar-me 100... Você sabe o que é que ele me respondeu, logo, sem pestanejar?!”
Não sabia, mas ia ficar a saber.
“É que o de hoje estava mais cheio, senhora...”

© Fotografias de Pedro Serrano, Caxito (Bengo), Angola: (1) Fevereiro 2008; (2) Julho 2008; (3) Janeiro 2009.



04 janeiro 2015

AI QUE BOM

Ai Que Bom é um restaurante angolano e aqui fica o menu para quem estiver a pensar em visitar Angola ou para aqueles que, estando por lá, sintam saudades de mergulhar num bacalhau bem português. Os preços, entre 7 e 10 euros, são muito em conta considerando o habitual em Angola. Bom proveito!

04 outubro 2014

LUANDA, LUANDA

A minha primeira vez em Angola foi há quase onze anos, o aniversário completar-se-á no final do próximo Novembro e a minha pessoa recém-chegada, ainda abalada pela humilhação sofrida no Aeroporto 4 de Fevereiro, logo se deixou abismar na beleza rutilante das acácias rubras que bordejavam a avenida que levava ao centro da cidade.
Luanda! A minha recordação desses dias, logo após o fim da guerra, é a de uma cidade que se atravessava de nariz trancado, respirando pela boca na tentativa de não vomitar sob o fedor indiscritível do lixo que, aos trinta e cinco graus do Verão tropical, fervia nos contentores transbordantes, um monturo que extravasava para o chão e não havia quem recolhesse. Quem tinha tempo ou lembrança para a recolha do lixo no final de uma guerra civil que durou quase trinta anos?
Nesses dias, que triste era para um expatriado um Domingo à tarde em Luanda, sem um restaurante onde se pudesse ir comer, um café onde a gente se pudesse sentar a ver quem passa. Não havia rua que se pudesse percorrer sem o receio constante de as pernas se afundarem nos passeios rebentados, adentro das caixas de esgotos sem tampa; restava sim a certeza de ir sepultar os sapatos na lama gerada pela mistela de pó com a água que jorrava cronicamente das canalizações rebentadas e corria pela Avenida da Missão abaixo como um rio, arrastando destroços de lixo até a uma Baixa onde a maior atracção eram os edifícios picados pelo acne das balas.
Nos intervalos do trabalho ficava fechado no hotel como um prisioneiro, pois não era seguro sair depois do por do sol e não havia táxis na cidade, estávamos totalmente dependentes do jipe com motorista que nos ia buscar ou trazer ou de algum misericordioso conhecimento que nos mostrasse, na segurança amarga do por trás dos vidros e dos carros trancados por dentro, como a cidade tinha sido bonita e que magnífica era a cidade vista da ilha, quando a gangrena fétida da proximidade se diluída, muda e inodora, na distância. Ah! ao longe Luanda era bela como o Rio de Janeiro, cintilante como Nova York. Havia até, como ao deparar com o corpo de um defunto querido, quem não resistisse ao mar de lágrimas, à crueldade de constatar ao que tinha chegado a cidade da sua meninice, o coração das recordações esventrado e morto como um cenário antigo e abandonado.
Não era o meu caso, que não tinha termo de comparação, a minha única infância da Angola são estes onze anos de que vos falo, 2003-2014.
Uma breve década mais tarde, a cidade mudou tanto que os meus olhos mal a reconhecem nalguns locais: a marginal, onde não se devia andar, onde não se podia permanecer, é agora um passeio largo, onde à sombra de palmeiras, pessoas passeiam, correm pelo seu corpo ou se sentam nos bancos com o olhar perdido nas garças da baía ou nas acácias tenras que tremulam na brisa do fim da tarde.
Mais acima, naquele canto da Avenida da Missão onde fervilhava o lixo ergue-se um hotel novo em folha, orgulhoso dos seus vinte e tal andares e da vista para a água.
Oh, sim, claro que ainda há muito por fazer e a perfeição paira longe e inalcançável, como um papagaio de papel, no azul brumoso do céu da Samba,  o mar, brilhando como um esmalte sem mancha. Ninguém duvida disso, mas, no seu intenso orgulho pátrio, os angolanos acham que vão chegar lá: raramente vi um povo tão certo da superioridade do seu país, da sua capacidade de realização; a cúpula da nova Assembleia da República medindo forças com o Capitólio de Washington ou com S. Pedro, no Vaticano, e a Soares da Costa a esfregar as mãos de contente nas palmas que bate ao desmedido exagero.   
O tempo, como sempre me acontece em África, voou e chegou a hora de regressar ao meu país murcho, a carrinha percorrendo o Prenda em direcção ao aeroporto, entremeada de táxis no engarrafamento, todos em busca daquele aeroporto que costumava ser um pardieiro, atravessado na angústia permanente de qual iria ser a próxima dificuldade à entrada no país, a próxima chantagem. Não havia empregado ou polícia ou autoridade fardada que não se fizesse difícil, que não nos desse a entender que a progressão até à porta de saída dependia da sua vontade e dos dólares que tivéssemos na carteira, sempre exigidos em  quantidade excessiva na voz sussurrada das filas ou nas salas esconsas para que nos tentavam arrastar. Enquanto não aprendi a usar o jogo de cintura, saía daquelas instalações, exíguas e sujas, como se tivesse sido submetido a uma violação colectiva e dava por mim a pensar: que tremendo cartão de visita para um país!
Bem, tudo isso é letra morta: o aeroporto cintila de novidade, brilha de limpeza e profissionalismo, e o único defeito que se lhe poderá apontar é que, apesar de recente, é já pequeno em demasia para o movimento... Também quem podia imaginar que o país ia crescer tanto em tão pouco tempo? Que o mundo inteiro ia cair aqui? Só portugueses são duzentos mil, diz-nos F., um amigo angolano, que conta também que os meus conterrâneos estão a tomar conta da restauração da capital. Chegam, tímidos e escorraçados da pátria, com uma mão à frente e outra atrás, começam por ser empregados, depois gerentes e, no final, compram, são já os sorridentes donos de uma realidade que se vem despedir de nós à porta.
Ei-los, concretizados em carne e osso, nas filas dos voos, repletos, para Lisboa e para o Porto, cinco aviões por dia e se mais houvesse... Mas não há, que a TAP anda distraída no sonho da privatização, indiferente aos atrasos permanentes, aos voos que não se realizam e às ferroadas gozonas dos angolanos que se referem à sigla da companhia como “Take Another Plane”. Sim, todos começam a preferir a TAAG e os Emirates para voar para aquelas paragens.
Brancos e pretos, mas mais brancos do que pretos, palram naquelas infindas bichas que serpenteiam a caminho do check-in, que se contorcem e desdobram para o controlo dos passaportes, afogueados, trocando comentários brincalhões, recomeçando, numa terra que é como um parente distante, uma vida que lhes foi cortada cerce no país de origem.   
© Fotografias de Pedro Serrano, Luanda: (1) 2007; (2) e (3) 2014.

  

26 setembro 2014

FAZ DA TUA CHOUPANA O TEU CASTELO

Ainda não são bem seis da manhã e já há claridade em Luanda, uma luz plúmbea, que foi barrada no seu jorro por um céu carregado de nuvens sujas que parecem anunciar chuva. É uma ilusão tropical: estará assim até ao fim da manhã e depois o céu vai-se abrir, como uma flor exótica, numa revelação de azul e sol crocante.
Aqui em frente à minha janela do nono andar há um musseque, um bairro de lata, portanto, que o Jorge S., noutra janela do hotel, julgava, a uma  distância de olhos mal habituados, desabitado, tal é o seu ar desolado e caótico de vazadouro de chapas e lixo.

Mas uma teleobjectiva faz milagres de subjectividade. Fazendo-a passear-se sobre os detalhes, irrompem no meio da massa confusa as antenas parabólicas, um aparelho de ar condicionado espreita aqui e acolá, há roupa a secar numa corda, uma luz ficou acesa toda a noite, como quem anuncia a porta de um lar para alguém que pode chegar tresmalhadamente fora de horas.
© Fotografia de Pedro Serrano, Luanda, Setembro 2014.