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01 setembro 2018

É QUE EU NÃO ESTOU LÁ

Maciel ia mantendo a conversa enquanto dispunha uma espreguiçadeira sobre a relva, apontava-me outra.
“Estava a pensar em quatro dias, é tudo quanto tenho de férias...”
“Quatro dias...? É pouco...”, respondi tentando acomodar o paraíso que lhe aconselhava para aquele período de tempo tão curto. “Bem, daqui a Atenas, com escala, faz umas cinco horas; mais duas para transportes e uma para o barco até à ilha... Ficas com dois dias limpinhos... É curto, mas mesmo assim vale a pena.”
Ele não respondeu, já deitado na cadeira, um braço dobrado sobre a testa e a cabeça levemente voltada na minha direcção, único sinal de que ainda me seguia o discurso.
Agora o cenário é já outro, naquela sem cerimónia dos sonhos que nunca se incomodam com transições e sequências lógicas. Havia um extenso relvado e gente disposta por ali, em pequenos grupos, como se todos aguardassem por um picnic. Eu fora colher erva-príncipe para o chá colectivo e voltava com um grande arbusto, empinado nos braços, e todos os sentados seguiam com admiração o meu percurso tacteante e a majestosa magnificência do exemplar que arrancara pela raiz. Quanto a mim, seguia absorto e descalço, tentando manter o porte vertical ao arbusto, mas, pelo canto do olho, tomando nota de que Piero trepava pelo limoeiro acima em direcção aos limões. O limoeiro era árvore altíssima, o italiano pairava acima de nós já uns dez metros, e eu a considerar que o esforço tinha algo de disparatado, pois a erva-príncipe tem um aroma de limão, de modo que para quê tal esforço. Todavia era bonito ver aquele entusiasmo, quadrava com o tremente das folhas da minha planta.
No relvado, as pessoas continuam à espera, sem pressa, algumas seguem Piero lá no alto, outras passeiam por ali. Mimi e uma amiga passam por mim, com a pose curiosa de turistas. Abraçado à minha árvore, pergunto se já foram espreitar junto do gradeamento de ferro que fecha o relvado no limite que dá para a cidade. Eu próprio estivera lá momentos antes (ou seria depois?) e ficara deslumbrado com a visão. Que miríade de pormenores, que vista da cidade... No primeiro plano, um gigantesco penedo, formado por três corpos que se fundiam harmoniosamente num só, imenso, cor de pedra, cinzento brilhante, esfumando-se. E só após deixar os olhos habituar-se se percebia que a mole não era mais do que as costas altaneiras de uma catedral que ali esperava, fechada sobre si na paisagem.
Elas aceitaram a sugestão, fiquei a vê-las afastar-se em direcção ao gradeamento, sem urgência ou preocupação de que o chá pudesse arrefecer. Reparei então nas descomunais medas de feno, de cor amarelo-maduro, quase avermelhado, que tinham surgido e ocupavam quase todo o prado. No cimo de duas delas andava já gente a explorar aquilo. Pudera, como era tentador pensar em subir, apreciar as vistas dali, sentado ou deitado no acolhedor daquele material fofo, seco e perfumado! Estou sentado no cume, entretenho-me com a cabeleira loura de alguém deitado logo abaixo de mim e de quem reconheço vagamente as feições, mas não o suficiente para lhe conseguir dar o nome. Se lho desse, seria o reconhecimento.
“Amor”, escuto dizer. Fico sem a certeza de a palavra ter relação comigo ou me ser dirigida. Deixo-me estar, mas, um minuto passado, a cabeleira loura pronuncia o meu nome. Sinto-me extasiado, é um lado de lá; o dia tornou-se perfeito como se estivesse sentado no topo do mundo.
Mariano aparece em minha casa, já não o via, nem lhe falava, há uns dez ou quinze anos. Percorre a casa, detém-se na sala a observar os livros e os CD.
“Tens muito mais livros e discos do que antigamente...”
“Achas?”, pergunto, algo espantando que se note, mas compreendendo ser lógico tendo em consideração o tempo decorrido.
Mas ele já se distraiu de mim e conversa com o meu filho sobre coisas várias, põe-se a par, como se o que o meu filho lhe pudesse contar fosse informação mais curiosa ou fidedigna. O meu filho está a explicar-lhe que o pai só se zanga mesmo quando está debruçado a escrever e alguém, sem aviso, se chega e o interrompe.
“Até estremece”, diz rindo-se. Mariano ri também. Confirmo, mas tento justificar:
“É que eu não estou lá...”
© Fotografias (de cima para baixo): 1. Torreira, 2017; 2. Urgeiriça 2016; 3. Praia da Areia Branca, 2016.


07 fevereiro 2018

NEM SEMPRE DO FUNDO DO MAR SE CONSEGUE VER O CÉU

Havia uma sala, ampla, mesas e cadeiras, um balcão de bar com bancos altos e, contíguo, um outro espaço cujo acesso era separado do primeiro apenas pela sugestão de passagem formada pela intersecção de um lintel e duas paredes. Esse segundo salão era praticamente ocupado por um grande tanque de formato reniforme em cujo centro, como se lhe tivesse crescido ali um cálculo, destacava uma plataforma também em forma de rim. Com uma profundidade desnivelada, que atingia o metro e sessenta na zona mais funda, supunha-se ser uma piscina e havia quem usasse o tanque como tal, buscando após o banho as espreguiçadeiras do relvado exterior para uma cura de sol.
Na plataforma do tanque-piscina estava estendida, descalça, uma mulher de vestido alaranjado, solto, que lhe chegava abaixo dos joelhos. Parecia adormecida ou talvez, crendo na expressão geral do corpo, num estado de desalinho entorpecido. Dentro de água, próximo do sítio em que jazia, viam-se dois objectos alongados que, de longe, a quem chegava ao salão vindo do restaurante pareciam dois casulos claros, de contornos arredondados e frouxos e medindo cerca de três palmos cada.
Eu entrara no complexo à procura de alguém e como não o encontrasse na cafeteria tinha avançado para o salão da piscina, pois era frequente as pessoas espalharem-se por ali, entretendo-se com as vistas de água ou com o chapinhar de crianças na parte menos profunda do tanque. Só quando, intrigado por aquela mancha laranja que tomava uma posição mais de cama do que de piscina, me aproximei é que compreendi que as duas formas paradas na água, uma submersa outra boiando de borco, eram crianças pequenas, crianças de colo e obviamente já afogadas.
Senti formar-se-me uma exclamação na garganta, talvez um alerta sonoro dirigido àquela mãe tão ausente, grito travado na sua emissão por ter vislumbrado, surgindo na curvatura da parte mais estreita do rim, um terceiro objecto, este flutuante e movendo-se lentamente ao sabor do suave ondulado da água. Percebi rapidamente que se tratava de uma terceira criança, do tamanho aproximado dos irmãos, mas esta ainda viva e deitada de lado quase à tona da água. O corpo estava agora muito próximo do local onde me encontrava e pude observar que a situação do bebé – tratava-se de criança dos seus cinco ou seis meses – era periclitante: de facto, embora a cabeça estivesse ainda ao rés da água, a roupa enchumaçada de água que vestia puxava-o para o fundo e a boquita, entreaberta e arfante, ficava por breves instantes abaixo da linha de água, só o nariz se mantendo desobstruído. Então quando passou por mim, flutuando como uma mala não reclamada no tapete rolante de um aeroporto, pus-me de joelhos e puxei-o para fora de água. Era uma menina, intuí pela roupa que usava e por um não sei quê feminino. Peguei nela ao colo e espalmei-lhe os ossos do peitinho numa palmada vigorosa até que um pequeno jacto de água foi gorgolejado e ela abriu os olhos para mim.
“Estás bem?”, perguntei.
Ela acenou a cabeça, ao mesmo tempo que cuspia outro golo de líquido.
“Tens frio?”
Embora me tivesse acenado negativamente, eu sabia que um dos problemas de estar imerso na água – tinha-o visto nos conselhos televisivos da Direcção-Geral da Saúde – era a hipotermia, o perigoso arrefecimento dos corpos que torna as pessoas azuis e pode ser tão fatal como as braseiras não ventiladas em ambiente rural. Como, entretanto, tinha entrado no salão uma senhora, que se quedara assarapantada ante o incidente, gritei-lhe que corresse a buscar uma toalha em que pudéssemos enrolar e aquecer a pobre criança.
Enquanto esperava abracei-a contra mim, o que expulsou o derradeiro gole de água que ela ainda manteria nos pulmões.
“Como te chamas?”, quis saber.
“Renata Sofia”, respondeu, “obrigado por me teres tirado da água...”
“Os teus irmãos não se safaram, quando cheguei já estavam naquele estado...”, disse apontando os objectos naufragados. “São teus irmãos, não são?”
“São... E aquela ali de cor de laranja, sem dar acordo, é a minha mãe...”
Entretanto a senhora chegou, esbaforida, com uma toalha que calculei tivesse arrancado a uma mesa posta, pois ouvira momentos antes o ruído de louça partida e o tilintar metálico de talheres a tombar.
“Já te sentes melhor, minha querida?”, perguntou ela a Renata Sofia assumindo o fácies compungido que se usa com os desventurados.
Renata Sofia acenou com a cabeça e recebeu com passividade desconfiada as carícias que a outra lhe prodigalizou no cabelo ainda encharcado.
“Coitadinha”, gemeu a senhora, “como te chamas, meu amor?”
“Sofia Renata”, disse a miúda do meu colo.
“Ah, Sofia Renata, que lindo nome! Tenho uma netinha, um pouco mais velhinha do que tu chamada Sofia Alexandra... Que idade tens, minha querida?”
“Seis meses e três semanas...”
Eu mantivera-me em silêncio o tempo todo, mas quando a senhora deu por finda a boa acção e se foi, perguntei à catraia:
“Ouve lá, afinal em que ficamos? Chamas-te Renata Sofia ou Sofia Renata?”
Ela estava sentada no chão ao meu lado, entretida a limpar a concha do ouvido com uma ponta da toalha, mas olhou-me com ar malandro e disse:
“Renata Sofia, é claro; mas chateiam-me as pessoas intrometidas como ela. Já viste o raio de toalha que desencantou para me secar?! É que isto nem sequer algodão é, é uma espécie de tecido engomado; arranha imenso!”
“Deixa lá”, tentei consolá-la, “nem sempre do fundo do mar se consegue ver o céu...”

Imagem: Composição plástica "No fundo do mar está o céu que não vemos" da autoria de Fernando Varanda, Lisboa, 2018.




   

12 junho 2015

JÁ NÃO ESTAVA ALI NINGUÉM

Estava em casa da minha tia Fernanda, que migrara da sua localização habitual na rua do Amial para a esquina da Antero de Quental com a Arca de Água, mais ou menos no local onde antes havia uma mercearia onde as Pais tinham conta aberta. Preparava-me para ir a Coimbra, onde o tinha deixado, buscar o carro, mas antes disso ficara de me encontrar com o meu pai e devia fazer a barba.
Assim sendo, não fosse ele chegar, apitar lá baixo do automóvel e eu não estar ainda disponível, solicitei à Denise, levando-a comigo até à janela e sob o olhar do Ricardo que continuava sentado, os braços estendidos e apoiados no maple:
“Denise, se o meu pai chegar enquanto estou a fazer a barba, pedes-lhe para esperar um bocadinho? Ele que encoste ali...”, acrescentei apontando um espaçoso lugar entre carros estacionados.
Fui para o quarto de banho e comecei a ensaboar a cara quando o vi o meu primo Manel, encostado ao vidro martelado da porta, que se materializara ali de repente e me observava.
“A tia Fernanda ainda é viva?”, perguntei-lhe, pois estranhara o silêncio na casa toda.
“Não”, disse ele, “já morreu há que tempos...”
“Então quem está agora nesta casa?”
Ele encolheu os ombros:
“É uma senhora que toma conta dela, mas não está cá agora, penso eu.”
Acabei de escanhoar a cara e voltei à sala pensando em que, se calhar, o melhor era apanhar um táxi para deixar o Porto e ir a Coimbra buscar o carro. Pelo menos até à saída da cidade. Na sala já não encontrei a Denise nem o Ricardo e a janela para a rua continuava escancarada. Espreitei, vi o Xantia do meu pai estacionado lá em baixo. 
Falei e despedi-me do meu pai à porta da casa, já do lado de fora. Ele não falou, esticou um dedo e começou, com um gesto de mão leve e carinhoso, a desenhar como se fossem letras no meu queixo. Era uma frase longa e embora não tenha reconhecido as palavras uma a uma alcancei-lhe o sentido geral. Depois abraçamo-nos e ele foi-se embora. Chorei um pouco, emocionado com o encontro e o seu carácter de despedida. Já não estava ali ninguém comigo.

© Fotografia de Pedro Serrano, Porto, 2015.

10 novembro 2013

EM BUSCA DO LUGAR PERDIDO

We are such stuff as dreams are made on and our little life is rounded with a sleep
                       W. Shakespeare, The Tempest

Vou agora falar de sonhos recorrentes, não dos sonhos que qualquer um de nós alimenta como algo que se almeja, mas dos comezinhos que temos quando nos deitamos para dormir. Isto, aviso, não é fácil explicar, pois os atalhos que tenho de percorrer não são os da lógica comum. Sabem como é com os sonhos...
Deixem que me socorra de um paralelismo: em epidemiologia, uma disciplina científica que estuda as doenças e os factores que as determinam, há três dimensões que é obrigatório considerar na apreciação de qualquer acontecimento – pessoa, tempo, e lugar.
Nos sonhos, as pessoas estão presentes como noutra qualquer dimensão real, embora possa acontecer que os mortos convivam, lado a lado, com os vivos ou algum vivente que tenho a certeza que é X me apareça no corpo de Y. Quanto ao tempo, tão importante e vincado no mundo real, nos sonhos não existe ou, a existir, poderemos atravessá-lo e percorrê-lo em todas as direcções e sentidos.
Resta o lugar e esse sim é a dimensão por excelência dos sonhos, o local onde as coisas sucedem, há sempre um cenário a enquadrar cada sonho.
Não sei se acontece a toda a gente (suponho que sim – está até descrito) mas acontece-me ter sonhos recorrentes, isto é, motivos que se repetem ao longo dos anos, mais ou menos num padrão ou numa sequência idêntica. Lembro o meu pai dizer, irritado por aquela faceta absurda lhe visitar o sono, que, tantos anos mais tarde na sua vida, acordava aflito com o não estar preparado para uma prova de liceu.
Quanto a mim, estou num local chamado Cais dos Bacalhoeiros, um território à beira de água, numa parte baixa e antiga da cidade, e quero ir para um sítio lá no alto, de onde um Hong Kong sonâmbulo me surgirá em toda a sua dimensão e esplendor, como se fosse a chegada a partir da qual não é preciso procurar mais. Para isso devo atravessar Macau, um Macau que da cidade real só vai buscar emprestado as ruas estreitas, as casas antigas, os labirintos das vielas fundas.
Nesta busca, saberei que estou perto do cume em que se avista Hong Kong quando entrar numa rua onde se alinham diversos restaurantes, chineses como seria de esperar. Uns são de crepes e salgados, outros confeitarias com atraentes bolos enfarinhados em redomas de vidro... Aliás costumo parar num deles, quase sempre o mesmo, a comer e descansar, sempre sozinho, numa mesinha ao lado da fachada para o exterior, posso demorar-me pois sei que já estou próximo e a partir dali o caminho é evidente.
Mas até lá, santo Deus, as voltas e canseiras que me esperam, os becos sem saída permanentes; o recomeçar tudo, pois a rua que percorro a correr, em marcha acelerada ou, às vezes, em voo planado, termina-se sem aviso na porta de uma casa (são sempre velhas casas de madeira, com escadas de madeira nua e janelas com vidraças foscas) que se deixa abrir sem se ter de bater; passando por quartos onde, com frequência, há pessoas a desempenhar a sua vida, gente que não dá conta da minha presença ou me deixa seguir caminho sem me interpelar.

Neste invadir involuntário da vida de desconhecidos, sou assaltado por escrúpulos, desconfianças, receios, e tudo isto me faz perder tempo, sobretudo quando o último quarto não leva a lado nenhum e devo abrir uma janela de guilhotina para escapar dali e ir dar a uma varanda de madeira que me leva a outra janela pela qual penetro até chegar a um pátio que, esse sim, me despeja numa rua desconhecida e, pouco mais à frente, há uma esquina de onde partem duas ruas. E agora, qual devo escolher para chegar à rua dos restaurantes, às cercanias do cimo de onde se avista Hong Kong?
Claro que poderia perguntar a alguém, há gente que se cruza comigo ou está por ali como se apenas por ali estivesse para testemunhar a minha passagem, mas sei, de experiência acumulada, que a emenda pode ser pior que o soneto! A explicação pode ser tão baralhada que de nada me adianta ou, pior, o meu interlocutor vai propor que espere, que o acompanhe a um outro local onde se irá informar para me poder iluminar o caminho e eis-me metido em derivas secundárias que logo se transformam em epopeias e atrasam a minha demanda de chegar ainda hoje a Hong Kong, uma Hong Kong onde não é possível aportar por mar nem sobrevoar por avião.

© Fotografias de Pedro Serrano: (1) Praia Areia Branca, 2011; (2) Barcelona, 2012.

18 agosto 2013

ENSOPE O PÃO NO MOLHINHO


Não sei como se chegou àquilo, mas, de repente, tínhamos Isabel II, rainha de Inglaterra, tranquilamente na nossa sala de estar, esperando o almoço como o resto de nós.
Eu fora meter gasóleo a uma bomba discount e chegara algo atrasado, mas reconheci-a mal entrei na sala, apesar de, no seu casaco de malha lilás, parecer uma velhinha mais pequenina e insignificante do que nas fotografias oficiais ou nos instantâneos dos tabloides. E ali estava entre nós completamente sozinha, sem mais nenhum dos Windsors, seguranças ou mesmo alguém da porra do corpo diplomático! O ambiente era de tal maneira o de um almoço dominical em família que até tive de dar uma arregadela de olhos à minha irmã Clarinha que, distraída das convenções, cortava as unhas no sofá da sala! Imagine-se alguma das aparas, como tanto sucede quando se usa corta-unhas, a voar e a atingir o real personagem! Era motivo certo para irmos todos parar à Hola pelo mais ignóbil dos motivos.
Finalmente sentamo-nos à mesa e notei alguns sinais de expectativa no fácies da minha irmã Susana, responsável (juntamente com a Carla , a sua fiel mulher-a-dias) pela escolha da ementa e sua confecção. Mas Isabel II, sentada a uma das cabeceiras, mal viu a grande travessa de alumínio atulhada de amêijoas à Bulhão Pato ser pousada no centro da mesa, exclamou:
“Oh, I adore bivalves...”
E observando-a durante uns minutos a comer com apetite, o meu cunhado Gil, sentado à outra cabeceira, ofereceu por sobre a mesa uma fatia de pão de mistura e aconselhou-a num aparte tímido:
“Experimente só ensopar o pão no molhinho...”
Fotografia: © Blog JóJóJoli.

15 agosto 2013

CINEMA TRANSCENDENTAL


Talvez fosse o norte de África, talvez fosse até a Arábia Feliz, o certo é que, assim à partida, não conseguia identificar com precisão o país. Gente acocorada, paredes de cal faiscantes, sombras espessas onde alguém chegara sempre antes de nós.
Estava com o Zé João num território desses e numa espécie de caverna imensa que funcionava como cinema. Filas de bancos sem gente como numa igreja abandonada, os ecrãs eram dois enormes lençóis pendendo na entrada da caverna e, no momento, servindo de guarda-sol aos espectadores ociosos, o bordo inferior oscilando indolente ao sopro quente que chegava do exterior, como a barbatana a caminho da imobilidade de um peixe na lota.
Ao contrário dos nossos vizinhos, amontoados ao longo da parede irregularmente circular da caverna, eu e o Zeno estávamos impacientes de estar ali acocorados, sem fazer nada, uma infinitude de horas antes da primeira sessão da noite... Então, perante o olhar indiferente dos outros, saltámos sobre os ecrãs tal quem se agarra às velas desfraldadas de um navio. Com o impulso, as telas acordaram do torpor e balançaram-se alto no ar, revelando o verde brusco do mar e o azul fixo do céu aos dois cinéfilos arrebatados.

Nota: Cinema Transcendental é também o nome de um CD de Caetano Veloso, 1979.

© Fotografia de Pedro Serrano, Santiago, Cabo Verde, Julho 2012.