31 julho 2011

JANELAS COM VISTA

© Fotografias de Ana Rodrigues, Angola, gentilmente cedidas pela autora: (1)  Uíge, 2011; (2) Bengo, 2010.

30 julho 2011

NATUREZA VIVA


De vez em quando chega-me ao telemóvel um críptico sms que me permite saber a estação do ano em que estou, mesmo sem olhar pela janela da sala ou ouvir o boletim metereológico:
“Kere lombarda, coração, nabiças?”
E sei que estou no Inverno, em tempo de sopas e acompanhamentos quentes, seja no guarda-vestidos ou no fogão.
Agora que o Verão chegou, mudou a cor das mensagens, o verde carregado deixou de ser dominante:
“Kere tomate, pimento, alface?”
Respondo também de modo telegráfico:
“Sim, obrig, poukinho que vou porto na quarta”.
A resposta vem, pronta:
“ok. Boa viagem, se vir zé saudads nós todos.”
Depois, quando ao fim do dia chego a casa, tenho em cima de uma bancada uma bela composição pictórica à minha espera, às vezes um bilhete explicativo:
“O pepino, os tomates e o pimento verde são meus, o pimento amarelo é do Pedro.”
O Pedro Miguel é o filho mais velho da Carlota, agora já tem vinte e muitos e trabalha numa cooperativa agrícola que produz legumes biológicos. O resto vem do quintal dela que, por tradição, produz tudo biologicamente. Se o cabaz, no formato moderno de um tupperware, é coroado por uns belos cachos dedo-de-dama fico a saber que ela foi no fim-de-semana a Alenquer, visitar o pai, e que as uvas são do quintal do Sr. Francisco, avô do Pedro Miguel e do Ricardinho, o filho mais novo da Carlota.
Mesmo que não me traga nada de Alenquer, por não ser época, fico a saber que esteve por lá se está quase afónica alguma segunda-feira de manhã. Esteve em casa dos pais com as irmãs e falaram tanto que as cordas vocais perderam transitoriamente a capacidade, a afinação.
Este Ricardinho de quem falava, e apesar do ‘inho’, já tem os seus dezassete ou dezoito anos, é bastante mais alto do que eu e, às vezes, aparecia por aí com uma bela namorada de olhos verdes, uma Rita – se não me engano e se é que ainda fala pra ela, que ele sempre foi meio para o sequioso com o sexo oposto.
Agora que estou a pensar nisto tudo, concluo que a Carlota deve trabalhar cá em casa aí há uns vinte anos, era o Zé João qase um bebé e andava o Pedro Miguel a esmurrar os joelhos na escola primária. O Ricardinho nasceu uns anos depois, fui, um Domingo de sol a chispar em mármores claros, ao baptizado dele na igreja de Meca, concelho de Alenquer; a seguir houve uma grande festa. Voltei lá, muitos anos depois, para o funeral da mãe da Carlota, um dia ventoso e gelado, uma hora depois do caixão descer à terra, ainda tremia de frio e desconsolo sentado a uma mesa de um café beira-de-estrada, arrepiado com a memória dos gritos de lamento e dor do pai da Carlota, o que me manda as uvas dedos-de-dama e outros mimos da terra. Gente boa, gente bonita, gente esperta, a família da Carlota que, vai para vinte anos (se já não os passaram) mantém a minha casa limpa, arejada e luzidia, quatro manhãs por semana ao longo da roda do ano, algumas delas com um par de rosas do meu quintal (de que o João Pedro – marido dela – é agora jardineiro), a banharem-se numa jarra, os caules entrecruzados no vidro transparente como as pernas de alguém que se senta para, num descanso entre limpezas e fainas domésticas, escrever no ecrã de um telemóvel:
“Kere pepino, tomate, pimento?”


Nota: "Natureza Viva" é também o nome de uma música, composição de João Bosco e Paulo Emílio, CD Linha de Passe, 1979.


© Fotografias de Pedro Serrano, (1) 2011; (2) 2009.

29 julho 2011

VOU-TE CONTAR: 39. Alvoroço no galinheiro


Lembro que foi comprada numa casa de artigos de caça e pesca ao fundo da Rua de Sá da Bandeira, vizinha do teatro, e foi mais ou menos na altura em que surgiu o álbum branco dos Beatles, o que nos coloca em 1968 e me atribui 15 anos de idade. Recordo, também, a terminante e imediata proibição em lhe mexer.
Mas como podia um tipo resistir a uma tão bela espingarda, macia de coronha e de coice, poderosa no seu tiro de pressão e, multifunções, dotada de uma maravilhosa mira telescópica, amovível, que eu retirava do suporte no dorso da espingarda e usava como engenho amplificador, sobretudo para ver de perto raparigas que estavam fora do alcance e cuja silhueta (um olho arregalado, o outro fechado), queimava a minha retina ansiosa pela proximidade reverberante e muda que o improvisado telescópio proporcionava.
O meu pai guardava a pressão de ar atrás da porta do escritório, em posição estratégica, pois a porta do escritório ficava vizinha da porta de entrada principal da nossa casa. Em tentativa de assalto, ou assim, a defesa já estava ali à mão de semear, a caixa de metal, repleta de uns chumbos que lembravam minúsculas rolhas de garrafa de champagne, escondida na primeira gaveta da estante, dissimulada entre as amostras de medicamentos.
E de cada vez que aparecia em minha casa um amigo que ainda não conhecia o portento, eu desinquietava-a de trás da porta, metia uns chumbos no bolso e subíamos, em silêncio e atitude predadora, até ao meu quarto, o qual ficava defronte ao galinheiro da Dona Aida Mexia, a minha vizinha do lado de lá da rua.
Fechada a porta à chave, descida a persiana da janela até restar apenas uma fresta por onde se pudesse enfiar a ponta do cano, colocado o convidado em posição de atalaia, eu focava a mira telescópica até ter bem enquadrada no centro da cruz, formada pelo cruzamento de duas linhas negras verticais e duas horizontais, uma das aves que picava tranquilamente o solo do galinheiro distante. Depois era só premir o gatilho e ficar, num acesso irreprimível de riso, a ver a galinha acometida de uma agitação física e de um cacarejar angustiado inusitado que faziam com que a Dona Aida, agachada num canteiro do jardim ocupada com dálias e zínias, se levantasse, intrigada, a tentar compreender o que teria perturbado a paz das suas galinhas a um grau semelhando uma súbita possessão demoníaca. Nunca o descobriu, coitada, a não ser que, e é pura especulação, a sua dentadura tenha algum dia tido um encontro inesperado com um chumbo de caça em animal de criação doméstica...
Para além da pressão de ar, o meu pai possuía, mas essa não precisava de advertência – metia respeito por si, uma Franchi italiana de dois canos. Essa transportava-me directamente à minha infância, à quinta perto de Viseu onde passava o último longo mês do Verão e aos tempos em que o meu pai gostava de caçar. Menino, algumas vezes o acompanhei, mais aos meus tios caçadores e respectivos perdigueiros, em sortidas que se iniciavam em manhãs de chão de caruma ainda encharcado pelo relento da noite, o estalar cauteloso dos ramos de pinheiro sob os pés, a súbita suspensão do movimento dos cães, a cauda espetada e a atenção fixada numa silenciosa moita de giestas.
Estafado, os bolsos atulhados de cartuchos vazios, regressava a casa a meio da tarde, eu próprio saboreando a aura de vitória que representavam aquelas duas lebres, a meia-dúzia de perdizes batendo contra a coxa dos caçadores; aqueles lindíssimos animais, parados para sempre no tempo, que jaziam enfileirados na mesa da cozinha, agitando as cozinheiras, e que, nos próximos dias, seriam celebrados em mais do que uma refeição. E, para mim, a assunção maior do mistério seria, ao sentir numa dentada num peito estufado de perdiz uma presença estranha, meter a mão à boca e encarar entre os dedos aquela diminuta esfera de metal que fazia a diferença entre a vida e a morte.   
Com o tempo, o meu pai deixou de caçar, a caçadeira quedou-se no guarda-vestidos do seu quarto, também ela especada à espera que alguma sombra suspeita aparecesse a perturbar o nosso pacífico quintal do Porto.
Quando o meu pai morreu, nem se pôs a questão que as duas armas fossem para outra pessoa que não eu. Mais, a minha irmã mais nova confessou-me, horrorizada que, no revolver póstumo das gavetas, tinham encontrado, entre lenços e peúgas, um revolver Browning do tempo da segunda-guerra, impecavelmente conservado e carregado com seis balas!
Todo esse arsenal jaz agora no meu quarto, cada uma das espingardas encostada ao seu canto de parede, o revólver (com o carregador fora da arma) enfiado numa gaveta. Que vou eu fazer com tudo isto?! Há um ano atrás, perante a promessa de uma intrusão feminina ao meu quarto, as pobres espingardas tiveram de recolher à sombra dos armários, pois não queria assustar a minha visita nem transmitir-lhe a sensação que fora parar ao covil de um qualquer serial killer, monstro nórdico ou similar.
Por lá ficaram, sem se queixar, até que um dia as redescobri, picadas de um acne ferrugento e entristecidas no seu esquecimento. Agora, olham-me de novo dos seus ângulos de parede e esperam, neutras ou inquietantes, conforme as estações, que eu lhes dê um destino ou as encarregue de um desfecho.  

© Fotografias de Pedro Serrano: (1) 2011; (2) 2008.

28 julho 2011

VOU-TE CONTAR: 38. Um peso no peito

Com regularidade, ainda adolescente, acompanhava o meu pai num domicilio a casa dela, na rua Brito Capelo, em Matosinhos, e ficava aflito quando, ao entrarmos no carro após a consulta, o meu pai desabafava:
“Esta mulher tem o coração desfeito, não sei como ainda está viva...”
Depois, com o passar do tempo e o ouvir repetido desta sentença, fui-me tranquilizando perante este paradoxo de uma pessoa poder ter, medicamente, o coração desfeito e continuar a viver como se nada fosse.
Vizela, anos 20: avô Heitor e avó Zaida, tia Feranda e tia Lelé.
A minha tia Lelé (nascida Celeste Campos Monteiro) era irmã do meu avô materno e casada com o meu tio João Castro Guimarães, um personagem de antologia. Morreu cedo, esse meu tio e a gente, olhando para ele sem saber quem era, tomava-o por um lord inglês: era mais alto do que o comum dos portugueses, tinha uns penetrantes e algo alucinados olhos azuis, o cabelo fino penteado para trás com brilhantina, usava laço e tinha um humor extravagante.
“Celeste, vim agora da baixa, a rua de Sá da Bandeira está em chamas...”
E meia-hora após a minha tia, aflita de procurar ouvir notícias no rádio e tentar localizar parentes que pudessem ter sido chamuscados na tragédia, ele confessava, calmamente:
“Então foste acreditar nisso, mulher?! Não se vê logo que é um disparate?”
Mas a minha tia Lelé era uma pessoa crédula e suponho que estes abanões permanentes no seu quotidiano e o facto de ter sempre vivido uma vida economicamente apertada pelo estado de permanente festejo do meu tio, a imbuíram de uma serenidade bem-humorada ante os altos e baixos da existência:
“Então, tia Celeste”, perguntava a minha mãe, “onde vai de férias este ano?”
“Olha, filha, vou para trezentos e cinquenta escudos”, respondia ela na sua voz rouca e de trémulo peculiar, traçando o seu raio de acção veraneante.
O meu tio João, acelerado na sua queda pela paixão pelo vinho tinto, deixou-a viúva relativamente cedo. Com o seu ar de gentleman, o meu tio João, que assinava o ponto na Mabor, passava a maior parte do seu muito tempo livre nas tascas de Matosinhos, na companhia de marinheiros perdidos em terra e de outros frequentadores desses locais. Não se lhe conhecia, dos jantares de Natal ou das festas de Carnaval em casa dos meus avós, outro gosto que não fosse o vinho e desprezava bebidas aristocráticas como o champagne, o porto, ou o whisky.
Viúva, a tia Lelé continuou a morar na sua vivenda da rua Brito Capelo, uma rua de paralelo riscada pelos trilhos do eléctrico. A casa dela era não muito longe das confeitarias que abasteciam de bolos e cremes as praias de Leça da Palmeira. Tendo ficado só, passou a aparecer muito mais pelas casas das sobrinhas, a dos meus pais, a da minha tia Titi, onde passava temporadas, sempre sem pesar, mantendo o bom-humor sereno e levemente auto-irónico ao serviço de ser apreciada por todos.
Fisicamente, era uma pessoa desengraçada e nós, os sobrinhos-netos, pusemos-lhe a alcunha de “leão da montanha”, animal que, nos anos 60 e 70, era um personagem dos filmes de banda-desenhada que passavam na TV: um felino esgrouviado, desajeitado, de juba curta e bigodes eriçados. Dela, todos recordámos o seu buço rijo e os seus beijos picantes, a voz de cana-rachada estafada, e a moeda de 50 escudos que nos oferecia, embrulhada em papel branco de pontas torcidas, como se fosse um rebuçado. Ficou a imagem do carinho descomprometido que nos despertava, não sei bem porquê, talvez, por ser um exemplo silencioso de perseverança em tempo de náufrago no deserto.
Já grande o suficiente para ter carta de condução, lembro de, à noite, no final do dia que passava semanalmente em casa dos meus pais, a ir levar à sua solitária e fria casa de Brito Capelo, uma casa que exalava o mofo plangente dos objectos antigos e tinha o reflexo sem préstimo dos lugares em que o vazio vai tomando conta de tudo e empurrando, como num cerco silencioso, o único habitante para um espaço cada vez mais restrito.
Tia Lelé, Susana e Miguel. Porto, [1969?]
“Não precisam de se maçar”, dizia, a mim e à minha recente mulher, quando saíamos do carro para a ajudar a subir as escadas, a transportar os tupperwares com os restos do jantar que levara da nossa casa e lhe serviriam de refeição nos próximos dias. Mas nós insistíamos, ajudavamo-la mesmo a deitar-se na cama ainda desfeita, fechávamos a porta à saída, fazíamos o caminho de regresso ao Porto imersos no silêncio cismático que provoca observar a velhice abandonada.
Quando morreu, a tia Lelé deixou-me uma balança de cozinha, daquelas antigas, de estrutura de ferro forjado, com dois pratos de cobre, e um bloco de madeira onde vivem os respectivos pesos, incrustados por ordem decrescente de tamanho. Pouco depois, eu e a João fomos, por um ano e uns pozes, pais adoptivos de uma miudinha de três anos cuja brincadeira favorita era brincar, sentada no tapete do seu quarto, com esses pesos antigos e fazer deles uma família: o kg podia ser o avô, o meio-kg a avó, os 250 gramas o pai e por aí fora... Enquanto os dispunha alinhados pelo tapete, a Teresinha ia conversando com eles e estabelecendo as regras de um mundo que estava a começar a construir sobre os despojos de outro mundo que se finara em silêncio, sem um queixume.

26 julho 2011

ANSIEDADES AMAINADAS

Cobriu-se de violeta
A serra
A noite deitou o vento 
Por terra.
De mãos dadas,
Ansiedades amainadas,
Correndo felizes
À frente
Como crianças
Na muda dos dentes.






© Fotografia de Pedro Serrano, Mértola 2008

23 julho 2011

BOLERO BLUES (é impossível cantar essa porra!)

Agora que Chico Buarque de Hollanda tem um novo disco no mercado (Chico, 2011 – o homem sempre se esteve um bocado nas tintas para inventar títulos para álbuns e há já discos anteriores com nome similar), deixem-me contar-vos uma historieta relacionada com o disco anterior, episódio que o U Tube me vai ajudar a ilustrar.
Carioca é um disco de 2006, parido depois de longos anos de espera (o anterior disco de originais de disco foi As Cidades, de 1998) e a primeira sensação que se podia ter, ouvindo o disco como pano de fundo e de modo distraído, é que era um disco um tanto chato.
Mas, perigosos são os discos ou as canções que não entram à primeira! Carioca é um maravilhoso disco, música e letras, produto requintado, e é difícil escolher uma canção que possa ser dita melhor do que outra. Com uma pistola apontada à cabeça, talvez acabasse por escolher “Bolero Blues”, uma canção quase no limite do impossível. “Bolero Blues” é uma daquelas canções que arranham quando se ouve as primeiras vezes e, mais do que o cantor nos soar desafinado, parece-nos uma música desafinada em si. Depois, damos por nós a pensar nela, a carregar na tecla repeat  do leitor de CD quando a última estrofe termina; a trauteá-la mentalmente, a acompanhá-la em voz alta quando a ouvimos de novo e, finalmente, a dar conta da espantosa letra que Chico Buarque lhe engastou. Uma letra com imagens poéticas de enorme beleza, embrulhadas num sentimento nostálgico, com um toque irónico e levemente amargo do tempo que passa como ponto final, e ainda com fôlego para piscar um olho a Vinícius de Moraes. Que mais se pode desejar como tecido dramático?
Dito isto, a tal história.
Durante as gravações de Carioca, Jorge Helder, o (contra)baixista regular de Chico Buarque nos últimos anos, apareceu com uma música composta por ele; uma composição tão complexa e difícil que, de imediato, toda a gente no estúdio a classificou como impossível de letrar e cantar.
Chico Buarque que, como método de trabalho, faz primeiro as músicas e só depois lhes veste o poema, ficou preso na melodia e arranjou-lhe a tal letra impossível. Brincalhão, deu conhecimento do facto aos restantes músicos e, como garotos, combinaram chamar o baixista ao estúdio para, em desconhecimento da vítima, lhe pregaram a partida de revelarem a sua nova canção (que seria a primeira composição que ele veria letrada – e logo por quem!).
O resultado é tocante de se assistir (Vídeo 1). Jorge Helder, como dá para perceber, é um homem tímido, introvertido, e fica extremamente perturbado quando se apercebe do que lhe está a acontecer: deixa a sala, chora, tem de beber um copo de água, enquanto Chico vai brincando ternamente com ele. Depois senta-se, é-lhe enfiado um violão nas mãos, e, em directo, podemos assistir ao milagre do entrosamento entre acordes de guitarra, voz e poema e, ainda mais do que isso, às expressões de compreensão, prazer e maravilhamento que o baixista premiado vai experimentando.
Finalmente, o Vídeo 2 mostra a canção, já encorpada e adulta, no modo como é interpretada por todos os músicos no show Carioca ao Vivo, em 2007.
Meus amigos, minhas amigas, já que estou com a mão na massa deixem que vos diga que, se tivesse que citar um top ten de poetas da língua portuguesa, não deixaria de por lá sarrabiscar o nome de Francisco Buarque de Hollanda que, também com inteiro merecimento, integraria a minha lista de romancistas preferidos em língua portuguesa. Há dúvidas no ar? Leiam, por favor, Budapeste e/ou Leite Derramado e depois voltem aqui para terçarmos armas...  



Video 1: A história de "Bolero Blues".

Video 2: "Bolero Blues", de Jorge Helder/Chico Buarque, 2006.




Quando eu ainda estava moço
Algum pressentimento
Me trazia volta e meia
Por aqui
Talvez à espera da garota
Que naquele tempo
Andava longe,muito longe
De existir
Tantos tristes fados eu compus
Quanto choro em vão,bolero blues
Eis que do nada ela aparece
Com o vestido ao vento
Já tão desejada
Que não cabe em si
Neste crucial momento
Neste cruzamento
Se ela olhar para trás
É bem capaz de num lamento
Acudir ao meu olhar mendigo
Mas aquela ingrata corre
E a Barão da Torre e a Vinícius de Moraes
São de repente estranhas ruas
Sem o seu vestido ficam nuas
E ao vento eu digo
-tarde demais
Quando ela já não mais garota
Der a meia-volta
Claro que não vou estar mais nem aí

22 julho 2011

VAREIA

Proverbial anormalidade, esta de a chuva jorrar nas vidraças e o tempo mais quente lá fora do que aqui mesmo.
Três da tarde, uma varejeira anda sem mestria pelo caixilho da vidraça inferior. Ensurdecida por um insecticida da véspera, não consegue arriscar um voo de ensaio contra os vidros. Zune um pouco, deixa-se estar.
Ele entrou no sonho vindo da direita, na horizontal, veiculado por uma enorme barra de sabão amarelo, onde estava incorporado como se de âmbar se tratasse.
“Não penso que a vida nos traga nada por que valha a pena esperar”, disse-me.
“Então porque não se retira?”, perguntei irritado, pois a presença dele, sentado ao meu lado no balcão, viera perturbar-me.
Sonhava e sonhando eu estava ao balcão de um bar, dando-me conta que um perfil humano ali se encontrava para me ocultar a perspectiva de um terceiro vulto. E sonhava como os sonhos estão espantosamente desenvolvidos, com uma técnica ela própria acessível à análise dos sonhadores.
“Não me retiro, pois assim o decidi”, retorquiu, e eu pude perfeitamente aperceber-me, através do sabão, que ele falava do que sabia.
Tudo se desvaneceu e então eu estava sentado ao balcão, olhando o espelho em frente. Apenas eu, já sem memória, um mundo desmoronado de fresco. Eis-me num bar, num fim de semana (no espelho as pessoas moviam-se, a porta abria-se, um tipo ruivo riu-se) e nem sequer tenho um copo entre as mãos. Um erro no sonho e o erro estava comigo, constatei amargurado.
Acordou com a cabeça a latejar e sentindo um calor exagerado. Foi à cozinha, encheu meio copo de água e voltou à sala. Chovia com força, a água nos vidros diminuía a nitidez da paisagem exterior. Mas a luz era forte, a de uma tarde de Abril. Despejou o pacotinho de pó dentro do copo, mexeu com o cabo de uma esferográfica. “Baaahh”, pior que uma aspirina com sabor a limão só o sabor do sucedâneo de limão de uma aspirina com sabor a limão! Pousou o copo. No caixilho da vidraça inferior uma varejeira, estranhamente parada, emitia reflexos esverdeados. Não parecia morta, mas não se movia, o que era bizarro para mosca. Soprou de leve – a varejeira esboçou um leve movimento de patas.
Pegou num isqueiro e, esperando alívio para a gripe, carbonizou o enorme insecto. As asas, constatou de experiências anteriores, são a primeira coisa a desaparecer.
Ao contrário dos anjos, em que primeiro desaparece a auréola. 

© Fotografia, Pedro Serrano 2011.


20 julho 2011

LEVE, como quem chama por mim


Chico Buarque: "Leve", de Carlinhos Vergueiro/Chico Buarque, 2006.





Nota: É claro que o título deste post pisca o olho ao poema Balada da Neve, de Augusto Gil.


Não me leve a mal
Me leve à toa pela última vez
A um quiosque, ao planetário
Ao cais do porto, ao paço

O meu coração, meu coração
Meu coração parece que perde um pedaço, mas não
Me leve a sério
Passou este verão
Outros passarão
Eu passo

Não se atire do terraço, não arranque minha cabeça
Da sua cortiça
Não beba muita cachaça, não se esqueça depressa de mim, sim?
Pense que eu cheguei de leve
Machuquei você de leve
E me retirei com pés de lã
Sei que o seu caminho amanhã
Será um caminho bom
Mas não me leve

Não me leve a mal
Me leve apenas para andar por aí
Na lagoa, no cemitério
Na areia, no mormaço

O meu coração, meu coração
Meu coração parece que perde um pedaço, mas não
Me leve a sério
Passou este verão
Outros passarão
Eu passo

Não se atire do terraço, não arranque minha cabeça
Da sua cortiça
Não beba muita cachaça, não se esqueça depressa de mim, sim?
Pense como eu vim de leve
Machuquei você de leve
E me retirei com pés de lã
Sei que o seu caminho amanhã
Será tudo de bom
Mas não me leve

O meu coração, meu coração
Meu coração parece que perde um pedaço, mas não
Me leve a sério
Passou este verão
Outros passarão
Eu passo

16 julho 2011

BELÉM REVISITADA

O Menino resolveu fazer a birra
Mesmo quando era ofertada a mirra.
“Jesus, não podes; olha que chamo o Herodes!”
Acudiu a Virgem desaustinada
Desenhando o gesto de uma sapatada.
“Não quero os Reis Magros, não gosto do Baltazar!”
Vociferou o Deus menino a espernear,
Levantando uma nuvem de palhinhas pelo ar.

Adormece a humanidade ao redor,
Eis que se ergue uma voz no escuro:
Ó Zé, que fizeste ao ouro do Melchior?”
“Sossega, pu-lo debaixo da palha do burro”
Informou, sonolento, o carpinteiro.
“Agora que temos algum dinheiro
Podíamos passar pelo sapateiro.
Estou a precisar de calçado novo
E vi na montra do Judeu um camafeu...”
Mas o patriarca já se desvaneceu.
No escuro, a Virgem, bem desperta,
Cisma em como está entradote
O carpinteiro que, de boca aberta,
Sopra escalas como um serrote

Vai alta a curva da noite,
Quase roseia a madrugada
A estrela-guia pisca, desmaiada.
Esfriado na bruta manjedoura,
Deitado em palha aguçada como lençol
E tendo tábuas duras por colchão,
O Menino acorda, resmungão.
A mãe faz como quem se levanta,
Mas “Deixa-te estar, que vou lá eu...”
Diz S. José, enrolando-se na manta.

Serenada, Maria vai adormecendo
Sarrabiscando intenções vindouras
Umas urgentes, outras duradouras.
De manhã, irá desenriçar o cabelo,
Provar sandálias de pele de camelo...
A fuga do Egipto, a trindade coberta de pó,
O burrito, pela arreata de uma guita,
E uma voz, longínqua, que debita:
“Vá lá, Jesus, tens de fazer o-ó!
Era uma vez, a filha dum Faraó...”
































© Fotografia de Pedro Serrano, 2011.

DO PÉ PRÁ MÃO

À tardinha
A brisa soprou.
Pé ante pé
Teu coração
Abeirou
A palma
Da minha mão.
Ali ficou.





© Fotografia de Pedro Serrano, Mértola 2008



14 julho 2011

TAKE 5

Take 1
 Difícil,
 Quando ela passa 
 (Macio brilho de cal)
 Na minha fremente taça
 Alinhar todas as bolhas 
 Em coerência vertical.


Take 2
 Um míssil,
 Quando doseia 
 (Mortífera teia)
 O visco insistente
 De um olhar aderente
 Deflagrado na horizontal.


Take 3
 Combustível,
 A suavidade triste
 Cor velha de whisky 
 Nesse olhar partido
 De anjo caído.


Take 4
 Temível
 Postigo de ventura
 Na frágil ternura
 Do seu ombro ao léu
 (Desabado chapéu).


 Take 5
 E se afinal me tramas
 Ao assim pestanejares
 Que, oh sim, me amas...
 A culpa é toda tua e, 
 Na copa dos manjares,
 Vomitarei à lua.


© Fotografia de pedro serrano, S. Tomé e Príncipe, 2010.

09 julho 2011

ENCHAME DE OVELHAS

“Lembras-te de mim?”
Ela olhou-me com olhos transparente, respondeu:
“Não.”
Invoquei dois ou três episódios de momentos que tínhamos passados juntos, momentos de grande cumplicidade e intimidade, como diria a Caras, voltei a perguntar:
“Não te lembras?”
Ela voltou a responder, a mesma tranquilidade no olhar:
“Não.”
Senti-me um tanto descoroçoado, um abatimento tomou-me. Não tinham, sequer, passado três anos sobre a dezena de dias que vivemos sob o mesmo tecto, inseparáveis! Tínhamos partilhado um sem fim de refeições em comum, passeáramos de mãos dadas, observáramos os mesmos pormenores com os mesmos olhos, eu ofertara-lhe uns óculos de sol por que se apaixonara mal os viu, presente que quase provocou um cisma na família dela.
Desisti, fui sentar-me noutro canto da sala, à mesa onde estavam as sobremesas da festa do aniversariante, entre o bolo de bolacha da Teresa, o apple crumble da João e uma taça de vidro repleta de Maltesers.
Não muito depois, ela aproximou-se, no seu vestido de Branca de Neve, um diadema nos cabelos alourados – parecia não ter desistido de mim, apesar de já não saber quem eu era, de onde me conhecia. Nessa noite o avô materno festejava os setenta anos, ela própria festejaria cinco anos dentro de dias, ambos Caranguejos, como fez menção de sublinhar a alguns dos presentes. Calei-me, já sem coragem para mais aproximações, para declarar:
“Sabes que eu também sou Caranguejo?”
Três anos antes, num tórrido Agosto, a mãe dela convidara-me para passar uns dias na casa do Alentejo, tinha trabalho por lá, precisava de alguém para deitar um olho na filha de dois anos durante o dia, pediu-me colaboração, estava desguarnecida em termos de quem lhe ficasse com a Sofia durante a tarde: vigiar-lhe a sesta, mudar-lhe as fraldas, dar de comer, entretê-la... Apesar de ter plena consciência do que significava lidar com uma criança de dois anos, praticamente desconhecida, disse que sim, gostava muito da casa e das pessoas; a mim também me dava jeito afastar-me por uns dias dos locais do costume, tinha entre mãos a revisão técnica do Musicofilia (livro que viria a ser editado uns meses depois pela Relógio d’Água), trabalho que eu pressentia ir dar-me água pela barba. Meti tudo na mala do carro e fui ter com as duas a Mértola.
Os nosso melhores momentos eram no fim do dia quando, depois da sesta dela e da papa de fruta do lanche, nos atrevíamos finalmente a sair de casa e a percorrer as escassas centenas de metros que nos separavam do café Guadiana. A ritmo normal, é um trajecto que poderá demorar os seus dez minutos, mas com a Sofia como par não o conseguíamos cumprir em menos de meia-hora. Pois que ela queria subir a cada murete do caminho, parar para fazer festas a todos os gatos que se acoitavam na sombra das soleiras, pôr-se de cócoras para escrutinar todos os detalhes do empedrado, pedir-me colo para espreitar o rio que passava lá em baixo, carregado de verde glauco e de preguiça em direcção ao Algarve.
“Olha tantas andorinhas!”
Chegados ao Guadiana, esparramados na esplanada, numa mesa encostada à parede para fugir do braseiro das seis da tarde, cumpríamos a nossa rotina de arrefecimento em satisfação e silêncio: ela lamberia filosoficamente um minimilk, eu caçaria caracóis com um palito de dentro da concha, gorgolejaria a minha imperial. Para mim vinha sempre um prato com uma pirâmide de pálidos caracóis e para ela um prato vazio, para aparar as pingas de gelado que, com aquele calor, não tardariam em ensombrar-lhe o vestido e a disposição da mãe que haveria de aparecer por ali. De vez em quando, pousava-lhe o recheio de um caracol sobre a papa de gelado acumulada no pratinho e, deliciada, ela ia engolindo aquilo tudo – a Sofia sempre foi um bom garfo.
Agora, na festa de anos do avô, estava de novo ao meu lado, aproveitando a circunstância de a mãe, sentada à minha direita, estar algo de costas, para, metodicamente, ir pescando bolinhas de Maltesers da taça.
“Gostas de chocolate?”, perguntou-me
“Gosto...”
“De que tipo?”, quis saber
“Oh, de todos... Gosto de Maltesers; de chocolate normal; em tabletes, sem nada ou com avelãs...”
“O meu pai também gosta muito de chocolate...”
“Ai sim? E de quais é que ele gosta mais?”
Olhou-me, numa pausa pensativa e, depois, levantando o tom de voz confessional em que estávamos conversando, perguntou ao pai, que estava sentado no outro lado da sala:
“Daddy, do you like chocolate?”
Do sofá da parede oposta, um tanto surpreendido, Anthony John, um guitarrista de jazz inglês, lançou um “yes” por sobre o ruído envolvente de conversa e música.
“Gosta”, traduziu ela, “também gosta de todos os tipos, e de Maltesers também”,
acrescentou tirando mais uma bolinha da taça. Segui-lhe o exemplo.
“São muito bons”, comentei.
Ela balançou a cabeça, mas parecia ensimesmada a observar a taça, como se estivesse a ler augúrios em borras de café. Depois disse, encantada:
“Olha, uma flor...”
Espreitei para dentro da taça. De facto, por aquelas felizes circunstâncias que o acaso às vezes produz, uma circunferência perfeita de bolinhas de chocolates, centrada por uma outra, destacava-se e produzia o desenho perfeito de uma flor: uma corola de pétalas e um cálice central.
“Olha as pétalas”, apontei, desenhando com o dedo o contorno circular da flor.
“E o pólen...”, disse ela, espetando o dedo para o Malteser que emulava, com exactidão, o centro da flor imaginária.
“Sim”, disse eu, “é ali que as abelhas pousam para sugar o pólen e, depois, irem fazer mel em casa delas”.
“Ovelhas?!”, pareceu surpreendida com a minha ignorância. “As ovelhas não fazem mel!”
“Não, eu disse a-b-e-l-h-a-s,” repeti mais alto por sobre o sururu de conversas que nos envolvia.
“Não te devo ter ouvido bem”, respondeu ela, “deve ser do barulho que está hoje nesta casa. Achei que lhes tinhas chamado ovelhas!”
“É por serem os anos do teu avô, está muita gente...”

Abanou a tiara em concordância e, escolhendo um Malteser que não desfizesse a harmonia floral, afastou-se noutra direcção. 

© Fotografias de Pedro Serrano, de cima para baixo: Lisboa, 2011; (2) e (3), Mértola 2008.

08 julho 2011

02 julho 2011

Da imobilidade circundante


Kathmandu, Nepal. Da esquerda para a direita: Marie Jo, Pedro Serrano, e R.
Nos primeiros dias de Agosto do ano de 1976 concluí a minha licenciatura em Medicina. Metade de um Verão e todo o Outono se estendiam diante de mim como um deserto de possibilidades, antes de iniciar, em Janeiro seguinte, a minha vida profissional como médico e, então, para sempre, adeus ó férias grandes!
Com a consciência de que seria um espaço de tempo irrepetível, eu e um amigo decidimos dar corpo a um velho sonho: fazer uma viagem, por terra, até à Índia. Este tipo de peregrinação estava então muito em voga, de tal maneira que tinha designação internacional – overland to India – e se conseguiam, na imprensa underground, guias dedicados ao assunto. A moda tivera início no final dos anos 50 com os discípulos menos excitados da beat generation, a que se seguiram, com grande responsabilidade dos Beatles no êxodo, as manadas ambulantes de hippies e freaks da segunda metade dos anos 60. Bem, nós éramos ambos portugueses e, como tal, entrámos na rota algo retardados.
A nossa finalidade era chegar à Índia por terra, usando todos os tipos de transporte à mão (camionetes de carreira, comboios, boleias e outros tipos de transportes locais) e a novidade causou grande impacto na tranquilidade das respectivas famílias. Em Setembro, batemos com a porta de casa e partimos entre as lágrimas e os suspiros de quem ficava. Demorámos um mês a chegar e por lá andámos cerca de três meses. A nossa juventude (eu acabara de fazer 23 anos) e ímpeto eram tal que nem a Índia nos deteve e, ao dar-nos conta, perambulávamos pelas ruas e vielas de Kathmandu, cidade dos 1.000 templos e capital do Nepal.
Tudo isto me veio à mente hoje de manhã, ao entrar no quarto-de-banho e dar com uma osga colada ao tecto. Osgas são animais da minha simpatia, estou familiarizado com elas pelas minhas estadias no Alentejo e Algarve, e esta tinha a dimensão aproximada de uma palma de mão e aquela cor meio ambígua do costume, entre o amarelo-areia e o cinzento-polvo-camuflado. Depois, ao contrário dos lagartos e das lagartixas, as osgas não têm olhos frios de réptil, antes tem o olhar quente e simpático mais comum aos mamíferos; para além de não se agarrarem às coisas com aceradas garras, mas sim com umas ventosinhas muito copiadas por todos os gadgets usados para colar tralha na porta dos frigoríficos.
Nas associações da minha memória, agarrada à imagem da osga como uma ventosa, emergiram os lagartos que eram presença obrigatória em todos os lamentáveis dormitórios e quartos-de-banho do Oriente que atravessámos, do Médio ao Extremo. Esses não tinham a modesta dimensão de uma palma de mão, eram mais do tamanho de um braço; grossos e pardos, e a gente interrogava-se o que poderiam bicharocos daquela dimensão ambicionar num quarto de dormir, pois não se imaginava que atingissem aquela pujança com uma dieta de mosquitos! Eram muito perturbadores na Turquia, ainda me metiam alguma impressão no Irão, mas na Índia e no Nepal já estava, por não ter alternativa nem cartão de crédito gold, mais do que habituado a ter um pendurado sobre a minha cabeça enquanto, deitado no catre sem colchão, lia, à luz ictérica de uma lâmpada, as obras de Herman Hess, requisitadas na biblioteca do Goethe Institute de Kathmandu.
Mas, apesar da pacífica coabitação, há uma noite em Kandahar, cidade do Afeganistão que, 25 anos mais tarde, se tornaria famosa por ser poiso de Bin Laden, que me deixou uma gelada recordação desses lagartos. Eu e o meu amigo R. partilhávamos um quarto miserável numa espelunca e, antes de nos deitarmos, num gesto clássico, espalháramos sobre as enxergas de palha uma generosa porção de pó de DDT que nos garantiria uma noite relativamente arredada dos milhares de percevejos que, escondidos em todas as frestas da cama e interstícios do colchão, esperavam que adormecêssemos para nos sugar o sangue.
Deitado naquele quarto desconhecido, sentindo o cheiro do DDT penetrar-me as narinas, aguardava a descida do sono quando um violento espasmo me assaltou as entranhas.
“Porra”, pensei, “mais uma toxi-infecção alimentar a caminho!”, o pão nosso de cada dia desde que tínhamos ultrapassado a relativa segurança alimentar da civilizada Istambul.
Concentrei-me em mim próprio e tentei respirar devagar, numa tentativa ingénua de caminhar sobre a maré...
Minutos depois, de lanterna na mão, estava a sair pelo quarto-fora, a correr em direcção ao esquálido quarto-de-banho comum que, atravessado um pátio, havia nas traseiras do nosso quarto. Essas instalações sanitárias, sem luz eléctrica, consistiam de uma torneira na parede, com uma lata a servir de lavatório, e de um buraco no chão, enquadrado por uma tampa em metal esmaltado onde, de cada lado do buraco, estavam impressas, em alto-relevo, umas linhas paralelas que eram os locais onde, antes de nos agacharmos, deveríamos colocar os pés para que o orifício remetente e o buraco destinatário ficassem convenientemente alinhados.
Depois de espremido, algum alívio se espalhou pelo meu ventre aflito e apenas um leve enjoo embriagava a minha tranquilidade. Mas, conhecedor da realidade de que “não há duas sem três”, deixei-me estar por ali, de cócoras, antes de decidir levantar-me e regressar ao quarto que, se as cólicas regressassem, não era assim tão perto da latrina-à-turca. Enquanto esperava, ergui a cabeça da minha atenção anterior e comecei a passear a luz da lanterna pelo espaço em volta. Acachapados, com o longínquo olhar algo incomodado pelo foco de luz que os arrancara às trevas, uma quase dezena de anafados bichos lagarteavam pelas paredes caiadas, olhando-me, de cima para baixo, na sua imperscrutável imobilidade.
Apaguei a lanterna e mantive-me agachado, poupando pilhas e irmanando-me na imobilidade circundante. 

© Fotografias, de cima para baixo: (1) Luc Laurent, Nepal, Novembro de 1976; (2) e (3) Pedro Serrano, Praia Areia Branca, 2011.