04 março 2011

VOU-TE CONTAR: 31. Amanhã é longe de mais


Por ter sido o primeiro a tomar banho, consegui lascar uma fatiazita de goiabada entre a confusão dos banhos dos outros e a azáfama da preparação do jantar.
Agora estou aqui, sentado a uma ponta da mesa da cozinha, olhando atentamente o meu baldinho de praia, as pernas a balançar contra a trave do banco ao ritmo do cascalhar dos ovos a cozer.
O meu baldinho é o azul, no fundo tem alguma areia, dois búzios e uma lapa e, na água, gira loucamente um peixito de olhos esbugalhados e um camarãozinho transparente, de cor acinzentada, sobe e desce no balde como se fosse um cavalinho de carrossel. 
Pedi à Maria se ela me deixava cozer o camarão na água dos ovos, mas ela não deixou, diz que é um crime cozinhar uma coisa deste tamanho, que nem tem por onde ser comido. Mas a minha ideia não era comê-lo, era comprovar que iria ficar vermelho; quase não acredito que uma cor tão desanimada e com as tripas à mostra como esta fique com aquele bonito alaranjado dos camarões que vem à mesa na marisqueira do Senhor Henrique Torres, em Matosinhos e que faz o meu tio Rui perguntar sempre:
“Belos camarões, Sr. Torres, são da costa?”
Em seguida dá um gole profundo no fino, a mim espanta-me como é que a cerveja não lhe sobe ao nariz com tantas bolhinhas que engoliu de uma vez só.
Este fim de semana vamos lá encontrar-nos com os meus primos e tios, só que, desta vez, eles vêm de mais longe do que nós, pois a nós, que estamos aqui em Leça, basta-nos sair da casa, entrar no carro e atravessar a ponte nova. Depois, os meus primos ficam cá para Domingo e vamos todos para a praia. Os meus tios não, que não há camas para toda a gente, mas vêm cá ter à hora do almoço. Gosto sempre muito de ir por aquela ponte e acho que o meu pai gosta tanto como eu, pois fica todo entusiasmado (ao contrário da minha mãe que tem medo que o mecanismo possa – por contágio e avaria – emperrar e arrastar os carros) quando, subitamente, o semáforo fica vermelho e temos de parar para a ponte se abrir e passar um barco. Ali ficámos, a espreitar pela janela, a ver o chão da ponte a subir lentamente no ar e a mim faz-me impressão como é que uma rua onde a gente passa com o carro pode mudar tanto de posição em tão pouco tempo. 
Do lado de lá é logo o Mercado, depois a rua das confeitarias e, ao fundo de uma voltas, numa esquina, é a Marisqueira.
O que aprecio mais, quando vamos à marisqueira, nem é bem o marisco, de marisco só gosto de lombos de lagosta, que é a única coisa que não pica os dedos. O que gosto mais são os Grissinos que eles trazem para a mesa antes do resto e, enquanto toda a gente fica ali a martelar cascas e a esgravatar patas, levantarmo-nos para ir espreitar as santolas, sapateiras e lagostas a subirem umas por cima das outras nos grandes aquários que eles tem à entrada; e pensar o que poderia suceder se os elásticos, que mantêm as pinças dos lavagantes presas, rebentassem. Depois voltamos à mesa para comer um gelado, que ficámos a lamber a toda a volta enquanto vemos a dança que o meu pai e os meus tios fazem quando é preciso pagar a conta, pois cada um deles parece ter grande prazer em puxar da carteira antes do outro, em pôr a mão sobre a mão do outro quando ele a leva ao bolso do casaco onde deve estar a carteira e dizer verdades como:
“Ó Eduardo, olhe que eu até fico ofendido!”
Ao Sábado, a seguir ao mercado que “quanto mais cedo formos mais se apanham frescos”, vamos também à confeitaria, sempre a uma que é mais ou menos perto da casa da tia Lelé, irmã do meu avô Heitor. Estas confeitarias são a central, os sítios de onde partem os batalhões que vendem bolos na praia e, às vezes, até encontrámos lá a trabalhar uma das senhoras que costumámos ver, descalças e de avental, a percorrer a praia com uns armarinhos de lata azuis, com tampa, gavetas e gavetinhas onde os bolos estão arrumados por categorias.
Aqui, na confeitaria, a quantidade de bolos é tão grande que até fico tonto só de os ver acumulados nas vitrinas e montras, enquanto que na praia a gente tem de se concentrar imenso e ser certeiro na escolha quando a minha mãe, a meio da manhã, finalmente chama a senhora com um gesto e nos vai avisando:
“Olhem que só podem escolher um cada um!”
A senhora, numa cerimónia do género do Japão, ajoelha-se na areia em frente à barraca e nós aterrámos, também sobre os joelhos, em frente à arca do tesouro, ao mesmo tempo que, nas barracas do lado, miúdos vigiam de soslaio a nossa hesitação enquanto fingem que jogam ao prego.
E, embora saiba que podia comer hoje um tipo de bolo e amanhã outro e assim sucessivamente, amanhã é longe de mais e custa-me decidir entre uma bola de Berlim, um caramujo, um mil-folhas ou um pão-de-deus, que é maior, embora não tenha creme. 
A minha irmã Clarinha, que tem uma queda contabilística para assuntos de comida, pergunta:
“Mãe, se eu comer bolo também posso comer batatas fritas?”
“Já sabes que não”, responde a minha mãe, “é uma coisa ou outra...”
Ela não desiste logo, tenta:
“E se forem barquilhos? Posso comer bolo e, se aparecer o homem, barquilhos?” 
A nossa mãe bufa, diverge:
“Decidam-se, não veem a senhora aí à espera?”
Os miúdos da barraca a seguir já não disfarçam e levantam areia com os pés, como se fossem cavalos danados por desatar a galopar.

© Fotografias de Pedro Serrano, de cima para baixo: (1) S. Miguel (Açores), 2008 ; Lisboa, 2003.