06 abril 2020

COVID19: A DITA CUJA CULTURA

Quem, hoje em dia, usa algum do seu tempo para ver TV, arrisca-se a assistir, num único visionamento, a extraordinários fenómenos. E nem precisa sintonizar canais de pendor mais populista, como a CMTV. Veja-se só tudo quanto vi e aprendi na respeitável SIC de ontem à noite:
Aparece no ecrã uma senhora, que as legendas identificam como Directora-Geral da Saúde da Escócia, a dizer que andou a pregar às pessoas que, derivado ao Covid19, ficassem em casa, mas que ela própria, por duas vezes, tinha ido passar fins-de-semana à casa de férias que possui lá nas Terras Altas e que isso fora muito feio, inadmissível, e estava muito arrependida de o ter feito; tudo isto declarado preto no branco e sem floreios ou atenuantes. Tirei os óculos e estava a limpá-los quando, na imagem seguinte, aparece outra senhora, que as legendas identificaram como Ministra da Saúde da Escócia (e, portanto, patroa da anterior), a dizer que o que a outra tinha feito era muito feio e inadmissível, que, de momento, não a ia afastar da função por causa disso, mas que, desde aquele instante, deixaria de aparecer nas conferências de imprensas diárias do Ministério da Saúde lá deles. Tudo isto dito igualmente pão-pão-queijo-queijo e sem floreios ou louvores ao trabalho prévio da primeira senhora. 
Limpei outra vez os óculos e fiquei a pensar para mim: Ena pá, olha que vantagem; vai só passar a aparecer uma! 
Como pode ser diferente a cultura de cada país!
E estava a pensar deste modo, pois, nesse mesmo visionamento televisivo, tinha acabado de ver 4 pessoas (mais uma tampinha) a entrar num elevador tipo lata de atum Tenório, daqueles de prédio de habitação dos anos 50 onde só cabem três adultos e uma criança, desde que acompanhada por um adulto. Acontece que três dessas pessoas eram os mais altos responsáveis da nação pela área da Saúde (uma Ministra, um secretário de Estado, uma Directora-geral da Saúde), autoridades que, todos os dias e desde há largas semanas, nos pregam as vantagens e a necessidade imperiosa do distanciamento social, chegando ao pormenor técnico e rigoroso de o quantificar em metro e meio a dois metros. Já no que diz respeito à tal tampinha, eu (e dez milhões de portugueses distanciados socialmente lá em casa) ficámos sem saber o que seria, por mim só percebi que a tampinha era ministerial. Será que teria saltado, por algum motivo imperioso, a tampa à Senhora Ministra? Nos tempos conturbados e de grande pressão que correm é bem possível.
E voltei a pensar para comigo, enquanto soprava nas lentes dos óculos para produzir um vapor de água que, mais facilmente, permitisse melhorar-lhes o alcance: o que é a cultura de cada país e como podem ter consequências diversas!
Veja-se os chineses, os japoneses, os coreanos, os singapurenses, os taiwaneses: explicava-nos a Organização Mundial de Saúde (OMS) que usavam máscara por questões culturais, seria uma cultura naturalmente mascarada. Nós, o resto do mundo, não devíamos fazer o mesmo, pois as máscaras não tinham eficácia alguma naquela epidemia que, muito a custo, se volveu em pandemia. Já eles, os orientais, nos dizem que andam todos de máscara ou respirador para se defender do contágio do Covid19,  que a estratégia tem resultado, e que assim não tem de estar cá com aquelas preciosidades (difíceis de distinguir e classificar) do sintomático e do não sintomático com que a OMS e o Ministério da Saúde nos têm entretido.
"Espirraste três vezes, pá, podes estar sintomático!"
"Não é nada, pá, na primavera espirro sempre: sou alérgico ao pólen."
"Hoje já tossiste quatro vezes, madrinha, podes estar sintomática; vamos já ligar para a Saúde24."
"Que disparate, filha, é do refluxo, dá-me para tossir. E agora engasguei-me com uma migalha! Bate-me aqui nas costas e já passa." 
Deve ser da questão cultural e de ser uma pandemia muito dinâmica, discorria eu, pensando que ainda há uns dez dias atrás ouvira a nossa DGS afirmar, quase implorando: "não use máscara, é uma falsa sensação de segurança; não servem para nada... É um pano..." 

Sim, mas ontem, estranhamente, nesse mesmo dia em que via estes fenómenos todos da Escócia, essa mesma DGS que ainda há minutos estava de costas voltadas para a Ministra no elevador, dizia agora que, afinal, as máscaras podiam ser boas e deviam ser usadas não somente por sintomáticos (aqueles que tossem, espirram, e pode ser do Covid) mas também pelos profissionais que, embora de perfeita saúde, lidam de perto com outras pessoas, como é o caso dos empregados de supermercado, padeiros, farmácias, transportes públicos, bombas de gasolina, forças de segurança, bombeiros e, é claro, pessoal de saúde. Acho que se esperarmos mais uns dias, concluí para com os meus botões, isto vai acabar por ser alargado também aos seres-normais-e-assintomáticos-que-vão-a-locais-onde-trabalham-profissionais-que-lidam-de-perto-com-outras-pessoas.
Tudo somado, deve dar uns 10 milhões de portuguesitos, computei, soprando os óculos e dando-me conta de que não os conseguia embaciar por estar (parafraseando a expressão condescendente usada por Marta Temido para se referir a este equipamento) com a "dita-cuja-máscara" afivelada na cara.
   

02 abril 2020

COVID19: OS SINTOMAS EXPLICADOS AO POVO



Seja bem aparecida, Dona Sofia
Como vai hoje a sua disgueusia?
Ai, nem me fale nisso, vizinha
Que estou aqui toda tolhidinha,
Passei a santa noite a delirar, na verdade  
Sonhei que nos tinham cercado a cidade!
Alevantei-me, pus o xaile, enfiei as chinelas
A ver se me ventilava ao peitoril da janela
Mas não se aliviavam, os bofes malditos
Tive de ir à credência entornar um copito.
Maduro branco, uma pomada de categoria
Mas soube-me como se fosse só água fria
Acho que poderá ser essa tal disenteria
E, vosmecê, já arrebitou da sua anosmia?

Credo mulher, lá vem você com os exageros
É preciso fazer como dizem as autoridades
Ver a coisa pelo lado das proporcionalidades!
Derivado à asnomia, já nem sei o que pensar
Ontem, o meu homem, assentado à sala-de-jantar
Contrariou-se no turno do teletrabalho
Queria-me mandar os colegas pró ca*****
Tive de recapitular: Antunes, olha-me a tua cólica
Que, entre nós, quando o aperto o assedia
Pulveriza-me o ar que nem uma central eólica 
Para descontaminar, tenho de meter a casa a arejar.
Depois fui espreitar a minha Elizabete, ralada
Beta, estás isolada?, gritei sem cruzar a entrada.
Ai, mãezinha, que foi agora, quis ela apurar
Soprando nos sabugos  que estavam a caiar. 
Nada, é o teu pai que está a dar rateres à toa
Mas ainda não é critério para uma zaragatoa.
Oh, senhora, não me venha com esse retrato
Que não vou pôr-me a ligar para a Saúde24
E ficar o estupor do dia todo a martelar,
Tenho as unhas a estrear! 
Mas a mãezinha, voltou ela, como espantada
Não está com a fachada da marquesa encrespada
Que aspirou uma fragrância avinagrada
Ou farejou tampa de esgoto destapado
Será que não terá o olfacto avariado?
Olhe que vi ontem no Watsàpe do David
Que isso pode ser derivado ao Covid.

Nota razoavelmente técnica: Disgueusia consiste na perda ou modificação da percepção do sabor dos alimentos (podem saber a uma coisa diferente do habitual e isso pode acontecer apenas com certo tipo de alimentos, e não com todos, podendo também variar de pessoa para pessoa. Quanto à anosmia consiste na perda do cheiro, sem a pessoa estar com o nariz entupido.

© Fotografia: Portografia.


01 abril 2020

ANTIGAMENTE


    © Fotografia: pedro serrano, Porto (Ordem dos Médicos), 2019.

O CERCO DO PORTO - O Regresso

Adorei, adorei, o modo como a Direcção-Geral da Saúde (DGS) catapultou a sua atrapalhada aritmética de considerar que, em 24 horas, os casos de Covid19 no Porto tinham passado de 417 para 941, para a sugestão de um cerco sanitário à cidade do Porto. Ainda por cima ao Porto, uma cidade experimentada e traumatizada em cercos (sanitários ou outros), e tão ciente disso que até tem uma rua a comemorar um deles.
Não foi pois de espantar que o Porto, através do seu presidente Rui Moreira, tivesse reagido à 'cavalada'* com um tremendo coice. Ficou-lhe bem, ficou-lhe como seria de esperar, digo eu, que, confesso, embora emigrado há longas décadas, sou natural da cidade ou, que como é costume agora, quando se quer exibir o penacho da transparência, declaro desde já os meus conflitos de interesses. Ainda na declaração de conflitos íntimos, devo acrescentar a suave desilusão que me acometeu quando, no dia seguinte — a velocidade com que o corona obriga a rotações de 360 graus  o secretário de estado da Saúde veio desmentir, lacónica e veementemente, a sugestão de cerco da véspera, pois eu já imaginava um emissário nacional para tratar da envolvência da minha cidade: Francisco Jorge, um profundo conhecedor dos nano-micras virais e homem que se sonha a si mesmo como uma encarnação actual de Ricardo George. Ainda não foi desta! 
E como pelo sonho é que vamos, já estava por aqui a imaginar as fronteiras ao tal cerco, como seria que iam delimitar a coisa? Onde, a Norte e a Sul, seriam fixadas as fronteiras? É que não é fácil... A sul, o Porto confunde-se com Gaia e, a Norte, alastra como uma seta até Matosinhos, até à Maia. Onde iria ser então a linha transgressora, a partir da qual se dispararia sobre o meliante que se dirigisse ao IKEA, à EXPONOR? Imagino-a em Antuã, a Sul, aproveitando o passadiço sobre a A1 da estação de serviço como poiso confortável para os vigilantes e a Norte, a Norte... Bem, estou certo de que a DGS teria uma qualquer ideia, depois de ouvida a Europa a 27 que, como dizia a Ministra da Saúde nos saudosos dias dos primeiros casos de Covid19, nesta cena de progressão a epidemia portuguesa está alinhada pelos outros países europeus. 
Perdi-me, perdi-me no sonho e já sonhava com os rastreios mágicos e antecipatórios da Cruz Vermelha Portuguesa estendidos acima do Douro, uma tenda de campanha em cada um dos municípios cercados. Adeus ovos moles, adeus tripas à moda do Porto (mesmo se servidas frias), adeus bacalhau à Narcisa, adeus aos bolinhos de amor de Felgueiras, às empadas do Natário em Viana.
Termino, mas não de imediato, como sucede nas longas conferências diárias do Ministério da Saúde. Tinha prometido a mim mesmo que não mais da minha pena sairia uma linha que pudesse perturbar a vital unanimidade necessária ao enfrentar destes tempos difíceis, e que os nossos benfeitores não se cansam de propalar. Mas um homem não é de ferro e as pérolas diárias que os tais pontos da situação nos despejam são de engasgar uma ostra. Um dia mandam-nos ver os nossos velhinhos e enchê-los de afectos, e no dia seguinte os lares estão como era bom de ver que ficariam, embora os números de casos e mortos não sejam nada de por aí além (como diz a DGS) e, basicamente, a responsabilidade seja dos próprios lares (como metralha a Ministra da Saúde) que não activaram planos de contingência; uma manhã quem decide o que se vai fechar, cercar ou fazer são as autoridades de saúde locais e, na tarde seguinte, essa responsabilidade é puxada, à rédea curta, para Lisboa... Pelo meio da conferência, ainda sobra tempo para nos inteirarmos das últimas sobre a etapa de isolamento social das netinhas da Directora-Geral ou ouvir as analogias misteriosas de Marta Temido que relacionam o Covid19 com os adolescentes tailandeses aprisionados numa gruta subaquática... Será que era suposto ficarmos comovidos? Bem faz António Sales, o secretário de estado que recorda vagamente o primeiro ministro japonês, e que, lacónico, sóbrio, cingido à objectividade do que tem a transmitir, recorre, sempre que pode, a discurso escrito! Que nunca lhe falte uma máscara, das boas e não dos ilusórios trapos molhados a que se refere Graça Freitas, é o que lhe desejo  (com respeito) nestes tempos de perdigotos potencialmente mortais.   
Termino, agora sim, com um apelo à autarquia do Porto para que não deixe de, usando uma das vielas ainda sem nome da cidade, a cognominar de Rua do Cerco do Porto II ou, mais cinematograficamente, Rua do Cerco do Porto - o Regresso.

*Nota razoavelmente técnica: No dia 30 de Março de 2020 as estatísticas oficiais do Ministério da Saúde/DGS divulgaram publicamente que, em 24 horas, os casos de Covid19 tinham crescido no Porto 126 %, um aumento nunca alcançado em território específico de nenhum país do mundo nesse espaço de tempo, nem compatível com o comportamento epidemiológico conhecido de qualquer fenómeno epidémico dos últimos 100 anos, designadamente o do Covid19. Assim sendo, teria sido tecnicamente obrigatório ter desconfiado de tais valores (uma atitude de clássica sensatez aconselhada em todos os manuais perante valores inesperados); reintroduzir os dados na base de dados desde o início da colheita desse dia; proceder à sua validação (dupla contagem, verificada por mais do que uma pessoa) e só então proceder à sua divulgação pública, sobretudo quando essa divulgação poderia desencadear o pânico de uma população e implicar uma decisão como a de um cerco sanitário.
   


24 março 2020

COVID19: MÁSCARAS REAJUSTADAS

Curvas progressão Covid19/país (Fonte: Financial Times).
É para mim um mistério, quase uma questão de fé (ou se acredita ou não, independentemente da realidade), o facto de uma máscara poder proteger um profissional de saúde do Covid19, mas o mesmo não acontecer se a pessoa que se protege, usando o mesmo meio, for um vulgar cidadão. E, pergunto-me, será que quando o dito profissional de saúde termina a sua função, mas continua a usar uma máscara nas suas idas ao supermercado, esta deixa de lhe proporcionar protecção?
Argumento 1 [usado pelas autoridades]: O problema é que as pessoas comuns não sabem usar máscaras (ou respiradores) e, então, pode a emenda ser pior do que o soneto e dar ao povo uma sensação de falsa protecção e, derivado dessa sensação, a pessoa baixar a guarda e facilitar, levar as mãos à cara e coçar a máscara, puxá-la para os olhos como o Bolsonaro, etc. 
E quanto ao profissional de saúde, já nasce ele ensinado a usar máscara ou luvas? Será uma predisposição genética, essa sabedoria sobre uso de equipamento individual de protecção? Ah, aprendeu a fazê-lo. E não poderiam (as entidades competentes do Ministério da Saúde, claro) ter a gentileza de nos ensinar, de passar essa informação a quem está aflito e vai usar (já usa!) máscara de qualquer maneira? Talvez que as pessoas 'lá em casa' consigam aprender a fazê-lo.
Argumento 2 [usado pelas autoridades]: Mas as máscaras não são para uso indefinido, devem ser mudadas com frequência para continuar eficazes; de outro modo ganham vapor da respiração, empapam-se, e podem deixar passar o vírus. Sim, sabemos isso, que acontece sobretudo às máscaras ditas cirúrgicas (FPP1), moles, simples tecido com elásticos, sem bico de pato ou respirador, que são as máscaras que médicos e enfermeiros geralmente usam no dia-a-dia. Para que funcionem na perfeição, essas máscaras devem ser mudadas, mais ou menos, de 2 em 2 horas. Será que isso está a acontecer nos nossos serviços de saúde? Parece que não. E porquê? Não há máscaras suficientes para tal. Se isso fosse feito, cada profissional de saúde teria de usar 4 a 6 máscaras cirúrgicas por dia, dependendo da duração da jornada de trabalho. Se multiplicarmos isto por 150.000 profissionais de saúde lá se ia a reserva estratégica, de que tanto nos falam na TV, em três ou quatro dias. O óptimo é inimigo do bom.
Argumento 3 [usado pelas autoridades]: Suspeita-se que por trás deste discurso oficial "as máscaras não protegem" está uma ingénua tentativa de evitar que faltem máscaras aos profissionais de saúde, que são quem mais delas precisa e que, todos nós, necessitamos de manter bem protegidos para que não adoeçam e deixem de prestar cuidados — não posso concordar mais com isto da defesa dos profissionais da linha da frente. Mas esta argumentação parece ignorar um facto: o circuito de distribuição e venda de equipamento de protecção é (ou deveria ser) distinto entre o uso profissional e o uso leigo. São as farmácias e as lojas de produtos agrícolas ou de construção civil que vendem as máscaras/respiradores e as luvas que o povo tem comprado. Ou será que o Ministério da Saúde se anda a abastecer nesses locais de venda? Se anda, o sinal é péssimo e evidencia uma notória falta de planeamento, prévio e atempado, das necessidades em recursos que uma pandemia gera e que um verdadeiro plano de contingência deve acautelar. Deste modo, o argumento de que se o povo as compra não há para os outros é falacioso e inconsistente.
Argumento 4 [usado pelas autoridades]: Mas os fabricantes deste material são os mesmos, de modo que se forem distribuídos num lado (farmácias, lojas agrícolas) vão faltar no outro (centros de saúde, hospitais). Mas, atrevemo-nos a perguntar, não compete ao Governo acautelar isto, ou seja: requisitar toda a produção nacional (duas fábricas, suponho) para uso do Estado? E isso foi já operacionalizado e conseguido de modo inequívoco e radical? 
E depois, digo eu, há outras iniciativas que se poderiam, talvez, tomar: se o povo está cheio de equipamento de protecção individual (luvas, máscaras/respiradores, até óculos), se andou no açambarcamento enquanto o havia, não seria de pedir — usando os canais de comunicação do costume onde nos dizem que as máscaras são inúteis  ao povo 'lá em casa' que doasse esse equipamento a quem mais precisa, isto é às instituições de saúde? Claro que o povo, que não é parvo e não confia totalmente em quem o dirige, não iria entregar tudo, iria ficar com algum para si, e fazia bem. Mas estou certo que alguma coisa havia de ser doada e, multiplicada pelo país inteiro, seria algo que se veria, seria útil. Ou talvez acontecesse que as pessoas que continuam a encomendar máscaras nos locais do costume dissessem algo como: 
"Oh Sr. Foskamónio, já chegou o sulfato de cobre que eu tinha encomendado para o míldio? Olhe, peça-me aí também 2 caixas de máscaras, das FFP3, ao fornecedor, que assim ofereço uma à minha médica de família que, coitada, está para ali sem mâscara, encravada entre a secretária e o espelho de ver Rx, a apanhar com perdigotos de toda a gente!"
Suponho que haverá muitas pequenas (crowdfunding para comprar material, doações particulares) e grandes (ensinar a usar máscaras e luvas) iniciativas que podem ser tomadas, pois a população participará com a generosidade que já vimos suceder na desgraça que foram os incêndios de há três anos. Agora continuar, desdenhosa e condescendentemente, a afirmar que as máscaras não servem para nada, que é quase um crime a gente usá-las, não é o sinal de transparência ou de verdade que nos dizem ser apanágio na comunicação das autoridades responsáveis.
O gráfico que abre este texto foi tomado de empréstimo ao Financial Times e mostra-nos as curvas epidémicas* do Covid19 segundo vários países do mundo e ao longo do tempo. É interessante notar que os países que apresentam curvas menos pujantes ou mais controladas são precisamente aqueles que usaram máscaras/respiradores durante esta pandemia (Coreia do Sul, Japão, Singapura, Hong Kong/China). É óbvio que as máscaras não explicam todo o sucesso, mas estão lá a contribuir.
Covid19 por país, assinalando aqueles em que se pratica uso generalizado de máscara.
Argumento 5 [usado pelas nossas autoridades]: Ah, mas o uso de máscara é 'cultural' nesses países, como se fosse tão natural e frequente aquela gente de olhos aguçados usar máscara como comer arroz Xau-Xau ou Sushi. O que não é verdade. O que é verdade é que aqueles povos têm menos inibições, e maior disciplina, em usar máscara em certas situações, e agora, durante a pandemia, não se vê um único habitante daquela zona do planeta que não use uma. Porque será?    
Argumento 6 [usado pelas autoridades]: O uso de máscara só seria eficaz se toda a população a usasse. Percebe-se a lógica, mas, como foi dito, o óptimo é inimigo do bom. Deste modo, quem se puder proteger com máscara nas saídas em direcção a locais onde possa haver concentração de pessoas que o faça. É que na fase em que nos encontramos da epidemia (transmissão comunitária livre) qualquer um de nós pode estar infectado sem o saber e desse modo passar o vírus a quem está ao seu lado no supermercado, na frutaria, na farmácia ou no elevador.

* Será que alguém podia informar a Dr.ª Marta Temido que não se diz curva epidemiológica, mas sim curva epidémica? É que, quando ela fala disso, está a falar da tradução gráfica da progressão de uma epidemia ao longo do tempo (por isso curva epidémica ou curva da epidemia), ao passo que epidemiologia é o ramo do conhecimento que estuda estas (doenças transmissíveis) e muitas outras doenças.

Nota: Agradeço a David Peres, médico na Unidade de Saúde Pública da Póvoa de Varzim e membro da comissão de Controlo da Infecção na Unidade Local de Saúde de Matosinhos, os conselhos (abaixo reproduzidos) de bom uso de máscaras e respiradores que elaborou e divugou.

22 março 2020

COVID19: ENTRETANTO EM MARTE...

1. Marta Temido, ministra da Saúde, anunciou ontem (21 de março) que o pico da epidemia de Covid 19, ou seja: o ponto a partir do qual o número de casos não crescerá mais, será no próximo dia 14 de Abril. Só se esqueceu de dizer a hora! Este tipo de informação, que não pode ser garantida no estado actual de conhecimento, é, para além do mais, contraproducente, pois as pessoas 'lá em casa' podem ser tentadas a afrouxar as medidas que tão corajosa e esforçadamente têm tomado e mantido.
2. O Ministério da Saúde enviou recentemente aos Agrupamentos de Centros de Saúde de todo o país um questionário em torno da preparação para o Covid19, em que uma das perguntas que o respondente tem de marcar com um vêzinho é: há espaço na sua unidade para armazenar o material de protecção individual? Sabendo todos nós da inexistência (ou quantidade ridícula) de material de protecção na maior parte dos serviços de saúde dos cuidados de saúde primários, esta pergunta atinge a categoria do humor macabro.
3. Ontem mesmo, na TV, ouviu-se falar de uma eventual desacelaração da epidemia, uma esperança baseada numa diminuta redução de casos novos em dois dias de observação. É claro que hoje (22 de março) a realidade já demonstrou que não há desacelaração, o que é lógico tendo em linha de conta o que se passa nos nossos vizinhos europeus, a quem o milagre não protege como a nós. Este tipo de ejaculação precoce devia ser evitado, pois, como dito em 1., a) cria falsas esperanças (que depois têm de ser desmentidas e gera desânimo na ressaca); b) pode conduzir ao afrouxar de medidas essenciais à nossa sobrevivência.
4. Igualmente pouco apropriado será ceder à tentação de publicitar previsões de números grossos, do tipo: vamos atingir os 250.000 ou os 500.000 casos no dia tantos de tal do mês Y. Para além de não serem números garantidos, a sua monstruosidade numérica (assim serão vistos 'lá em casa') não tem tradução  prática e causará apenas imenso desalento.   

18 março 2020

O COVID À MESA: dicas sobre alimentação segura em tempos pandémicos

Importa sublinhar, para começar, que o Covid19 não é uma doença em que a transmissão através dos alimentos seja a mais usual ou frequente, ela não é nenuma gastrenterite ou toxinfecção alimentar. O coronavírus é um vírus respiratório e, deste modo, o grande perigo de contágio faz-se através do contacto com alguém infectado, através da tosse, espirros ou gotículas expelidas por essas pessoas, gotículas que ficam nas superfícies durante algumas horas e até dois dias (embora, à medida que cada hora passa, o número de vírus contaminantes diminua de forma rápida). Isto não quer dizer que os alimentos e a sua confecção não possam ter algum papel na transmissão da doença: se um manipulador de alimentos doente tossir sobre os alimentos, o vírus vai-se manter viável neles como se se tratasse de uma superfície inerte e, por isso, é preciso tomar algum cuidado com esta área tão importante da vida: cozinhar e comer.
Mas comecemos pelo princípio:
1. Ironicamente está a acontecer-nos aquilo que praticamos quando, à porta dos supermercados, nos pedem que sejamos solidários com os sem-abrigo ou o Banco Alimentar Contra a Fome. Estamos sobretudo a comprar, para enfrentar o isolamento gerado pela ameaça do Covid19, arroz, massa, feijão, conservas e outros enlatados, isto é: alimentos que se aguentam por muito tempo. Frescos (legumes e vegetais, carne e peixe fresco) compramos muito menos, pois temos medo que possam estar contaminados. Já lá vamos.
Uma das características da comida processada ou em conserva (fumados, salchichas, cubos concentrados de carne, sopas chinesas instantâneas, conservas de peixe e carne, batatas fritas, milho frito) é que o seu teor em sal é altíssimo e o teor em gorduras saturadas também o pode ser. Deste modo, devemos contrabalançar um consumo exagerado, em relação ao que habitualmente consumimos, com uma grande redução no sal com que temperamos a comida. O sal mata, nunca se esqueça: demora, mas até mata mais do que o Covid19. Quanto ao excesso de gordura animal presente em alguns alimentos (salchichas, patés, batatas fritas, mesmo bolachas) devemos contrabalançá-lo usando e abusando dos legumes e vegetais.
2. Um dos modos seguros de consumir legumes e outros vegetais é a sopa, um alimento essencial, que além de aplacar a fome, hidratar o corpo (tem uma grande quantidade de água) nos pode ajudar a repor as vitaminas e sais minerais que precisamos. Falo de sopas de legumes, claro, e das feitas em casa, não das compradas já preparadas, pois nessas caímos no problema referido do excesso de sal e nos ingredientes liofilizados que reduzem a eficácia de algumas vitaminas. A segurança que advém de comer legumes e outros vegetais na sopa provém de ser um alimento cozinhado: o coronavírus (e outros vírus) é destruído se submetido a uma temperatura superior a 60º graus durante mais do que quinze minutos, pelo que um alimento fervido (100º) destruirá qualquer vírus, eventualmente presente, ainda mais rapidamente (escassos minutos).
3. Uma dúvida muito frequente é a seguinte: será que o micro-ondas, como método de cozinhar, e o congelamentoem arca frigorífica destroem o vírus? O micro-ondas sim, destrói o vírus em todas as modalidades de confecção que durem 45 segundos (ou mais). Já o congelamento (à temperatura das arcas domésticas) não destrói o vírus, mas não se esqueça que se congelar pão acabado de comprar durante três ou quatro dias, a probabilidade de ele conter vírus activo ao descongelá-lo e torrá-lo é nula, uma vez que o vírus é como o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa: não consegue viver longe das pessoas, precisa de estar dentro de uma célula humana para sobreviver muito tempo. De igual maneira, os métodos de confecção como cozer, fritar, assar, grelhar, estufar, destroem o coronavírus facilmente pelos motivos já indicados: temperaturas iguais ou superiores a 100º centígrados. Assim sendo, não devemos ter receio em consumir carne ou peixe cozinhados, mas, como recomendação geral, lavem-se previamente em água corrente antes da confecção.
4. Ficam-nos então os alimentos que consumimos frescos e crus: as alfaces, os tomates, couves não cozinhadas, as frutas. O que dizer sobre eles? Em primeiro lugar que são excelentes como fonte de fibra, vitaminas e sais. Um conselho possível durante esta fase de isolamento, e se é previsível que os vamos consumir em menor quantidade, é complementar a dieta com um suplemento vitamínico, um qualquer daqueles que têm um espectro alargado de ingredientes (um por dia) e, para os obter, não precisamos sequer de nos deslocar à farmácia.
4.1. Saladas (cruas)
A primeira sugestão, tal como é feito para as nossas mãos (mas sem o sabão/sabonete) é que lave abundantemente em água corrente todos os vegetais que vai usar crus. Quando se recomenda às pessoas que lavem as mãos muitas vezes ao dia não é só por causa do efeito do sabão/sabonete sobre o vírus, é também porque o arrastamento provocado pela água que corre faz com que o vírus vá parar ao cano, apesar de ser invisível e quase não ter peso. Este método de diminuir a carga de bactérias ou vírus é usado há muitos anos com eficácia em medidas de saúde pública.
Mas, admitamos, mesmo com estes cuidados podem permanecer alguns vírus nos ingredientes de uma salada crua? Podem, mas como já foi dito, esta via de contaminação é longínqua. Mas, mesmo assim, você é um pouco hipocondríaco, não se sente seguro e, como se não bastasse o Corona, é velhinho ou tem uma doença crónica ou está imunodeprimido, ou tudo junto. Então, encha de água um recipiente, deite-lhe 1 colher de sopa de lixívia pura/litro de água e deixe os legumes/vegetais imersos nela durante 15 minutos - tudo quanto é vírus e bactérias será destruído. No final, passe os vegetais ou fruta por água corrente para eliminar o sabor a lixívia.
Nota: a lixívia (ou o cloro, que é o seu princípio activo) é extremamente eficaz, mais do que o álcool, para destruir bactérias e vírus. É, aliás, o produto usado para tratar a água que nos chega a casa e que podemos usar em total segurança. Quanto ao vinagre, é sobretudo útil para temperar a salada, não confie nele para desinfectar, pois não é eficaz.
4.2. Fruta (fresca)
Poderá usar o mesmo método da lixívia com a fruta (sobretudo a que se come com casca, como as uvas ou morangos), mas é suficiente lavá-la abundantemente com água fria, secá-la com papel de cozinha e depois descascá-la. É mais seguro comer fruta descascada nos tempos que correm. Resta-nos a fruta em conserva, enlatada ou enfrascada: é uma alternativa, mas não esqueça que tem demasiado açúcar acrescentado e que os processos de conservação destroem algumas das qualidades alimentares.
5. Comida de outros países (nota sugerida por Raquel Braga)
Das cozinhas de outros países, as mais populares e usadas em Portugal são a chinesa e a japonesa. Quanto à cozinha chinesa esta é perfeitamente segura, pois baseia-se em cozidos e fritos. No que se refere à cozinha japonesa, são de evitar o sashimi (peixe cru) e o sushi, uma vez que são confeccionados à base de ingredientes crus. Este cuidado é sobretudo de observar em idas a restaurantes e comida de takeawy/entrega em casa. Já a tempura (comida frita) e as saborosas sopas ram são completamente seguras.
6. E, finalmente, pode ir comer em paz. Não se esqueça de lavar as mãos com água e sabão/sabonete antes de o fazer e o mesmo deverá fazer antes de começar a cozinhar. Enquanto mastiga, não se ponha a amaldiçoar o Corona. Ele simplesmente luta pela vida, como qualquer outra espécie, e já se viu que é suficientemente inteligente (os vírus são dotados de uma tremenda inteligência colectiva, toda orientada para a sobrevivência) para não nos querer eliminar a todos nós - humanos. Ficaria sem mesa e almofada, sem ter onde comer e se reproduzir, e seria o fim dele! 
Por conseguinte, caro/a compatriota/o, ponha-se fino/a e vá à vida, como ele/a. 

PS: Se quiser fazer algum comentário, sugestão ou pergunta, faça-o aqui neste blog a seguir ao texto.



17 março 2020

CUIDE DOS SEUS: os acamados em casa e os cuidadores externos (Covid19)

Há em Portugal muitos milhares de pessoas acamadas (ou dependentes) em casa, que recorrem diariamente ao apoio de cuidadores que vêm do exterior prestar cuidados de enfermagem, fisioterapia e, a maior parte das vezes, simples cuidados gerais de higiene, alimentação e manutenção. Muitos destes cuidadores externos não são sequer profissionais de saúde, ou seja: a sua preparação em termos de conhecimentos de como evitar o contágio de doenças ou cuidados de higiene (exemplo: como mudar uma fralda e desfazer-se dela) é pouca ou inexistente. Uma não pequena proporção deles são estrangeiros, e imigrados recentes, e ou dominam mal o modo portuga de falar a língua portuguesa ou vêm de países onde a denominada literacia em saúde é rudimentar; estão ainda a adaptar-se ao país de acolhimento, e tudo isso dificulta ou atrasa a interiorização dos conhecimentos que vão adquirindo sobre higiene ou etiqueta preventiva - têm de ser orientados pelos empregadores (as empresas de cuidadores) e pelas famílias onde trabalham, que devem ser vigilantes e usar de pedagogia e paciência para com eles: não se pode exigir a quem não sabe - façamos também esse trabalho, explicando com calma quais são os aspectos particulares da nossa casa e do nosso familiar acamado/dependente. 
Acresce que alguns destes cuidadores mudam com grande rotatividade, seja ou porque o trabalho é pesado, ou porque é mal pago e uma consequência prática é que as pessoas que entram em nossas casas diariamente (mais do que uma vez ao dia, às vezes cuidadores diferentes ao longo do mesmo dia) estão constantemente a mudar e, pior do que isso, visitam várias casas no mesmo dia. 
Tanto quanto se vai sabendo, esses cuidadores externos têm estado a trabalhar - na grave e presente situação provocada pelo coronavírus - sem protecção alguma, isto é sem máscaras ou luvas. As empresas que os empregam, elas próprias aflitas a tapar os buracos dos que não se apresentam ao trabalho à hora combinada ou simplesmente se foram embora sem aviso, quando confrontadas com a ausência de protecção dos seus trabalhadores escudam-se no argumento de não terem orientação específica sobre o assunto por parte dos responsáveis nacionais do Ministério da Saúde, da Segurança Social ou de quem devia desempenhar este papel. 
Tendo em consideração a segurança geral das famílias e, sobretudo, a das pessoas muito fragilizadas de quem cuidam, é essencial que todos os cuidadores domiciliários usem protecção individual: máscara (é suficiente a simples máscara cirúrgica, tipo FFP1) e luvas descartáveis, para além de anteciparem e terminarem a sua tarefa em cada casa com a lavagem cuidadosa e demorada das mãos. Na fase em que nos encontramos de transmissão comunitária do vírus, qualquer pessoa deve ser encarada como podendo estar infectada (mesmo que não tenha sintomas ou sequer o saiba) e todas as precauções são poucas. # Fique em casa, mas cuide também de si e dos seus e ajude os cuidadores externos a cuidar.
Assim, e numa perspectiva eminentemente prática, olhando para o que fizeram os países que já conseguiram suster o primeiro embate do Covid19, e à luz do velho princípio 'o seguro morreu de velho':
1. Pressione as empresas de prestação de cuidados a acamados/dependentes no sentido de fornecerem e instruírem os seus cuidadores a usar equipamento de protecção (máscara e luvas). 
2. Se puder, e enquanto as empresas não se decidem, compre você mesmo esse material (eu sei que é difícil encontrá-lo), pois estará a antecipar a protecção dos seus, e subtraia a despesa à factura da empresa! Considere esse material como seu, isto é: não o deixe sair de sua casa.
3. Obrigue a que o cuidador lave as mãos mal entre a porta de casa (lavagem tipo profissional de saúde: durante 30 segundos; água quente; palma e costas até ao pulso, entre os dedos, esfregar as unhas contra a palma da mão, e usando neste procedimento água e sabonete/sabão, produto que é mais adequado e mais barato do que álcool ou géis alcoólicos). 
Nota: Deixe o álcool e o gel para situações em que não possa lavar as mãos no momento, por exemplo: quando veio de algum lado público (supermercado, farmácia) e entra para o automóvel e só vai chegar a casa meia-hora depois. 
4. Depois das mãos lavadas, o cuidador deve calçar as luvas, que devem ser retiradas no final dos cuidados e deitadas ao lixo.
Nota: se não houver luvas descartáveis, use das outras, de borracha por exemplo e desinfecte-as no final (solução de água com lixívia) depois de o cuidador se ir embora. Ponha-as a secar usando o método descrito no ponto seguinte.
5. A máscara deve, em seguida, ser posta a tapar boca e nariz, tentando a colocação sem tocar no tecido, mas apenas usando os elásticos e o rebordo da própria máscara no ajustamento. Deve ser mantida durante todo o tratamento. 
Nota: Se a máscara for de tipo descartável e tiver as suficientes, deve ser deitada fora no final de cada sessão de cuidados. Se tiver muito poucas e não tenha outro remédio senão voltar a usá-las (o óptimo é inimigo do bom) faça o seguinte: pendure a máscara usada, longe da circulação de pessoas ou o alcance de crianças, do lado de dentro de uma vidraça exposta ao sol. O sol irá secá-la e a luz solar tem um efeito ultravioleta desinfectante. Nenhum vírus gosta disto, os vírus (incluindo o corona) sobrevivem mal fora do corpo humano e perante o calor, a secura e os raios ultravioletas. Não é um remédio milagroso, nem garantido a toda a prova, lembre-se disso: mas é 'melhor que nada' e a vida real obriga-nos muitas vezes a este tipo de escolha. Se conseguir, mantenha esta máscara assim por uns dois dias antes de pensar em usá-la de novo.
6. Será preferível que seja você a fazer a gestão das máscaras, isto é: o cuidador usa a máscara que espera por ele em sua casa, ao invés de usar uma que ele/ela já trás e você desconhece por onde andou e em que estado de contaminação pode estar (a não ser que o veja tirar a máscara de uma embalagem inviolável, aberta à sua frente). A excepção será quando se pode confiar na empresa de cuidadores: médicos, enfermeiros ou fisioterapeutas dos serviços de saúde oficiais ou privados terão, à partida, os conhecimentos, o treino e os cuidados necessários, sem necessidade de orientação por parte das famílias. Neste caso, aprenda com eles, observando bem para que possa repetir estes gestos em caso de necessidade futura.   
7. O cuidador deve lavar bem as mãos (seguindo o método descrito) no final da visita a sua casa. Deste modo não irá contaminar as suas superfícies (puxador de porta, por exemplo) na saída e diminuirá a probabilidade de contaminar a visita na casa seguinte.
8. Quando a porta se fechar sobre ele, vá ao quarto de banho e lave as mãos conforme o explicado. Depois, e se tem a obsessão das limpezas, pode-se entreter a passar um papel de cozinha molhado em álcool ou lixívia por todas as superfícies onde acha que ele tocou.
9. Tente despejar este lixo gerado todos os dias (à noite de preferência e pensando que ele deve permanecer o menor tempo possível no contentor público).

Nota final: As considerações feitas acima, mais do que sustentadas na evidência científica do último paper/artigo publicado, baseiam-se nas práticas aconselhadas em termos de medidas de precaução em Saúde Pública, conhecidas e testadas há muitos anos, e no bom-senso doméstico.

© Fotografia: pinheiro novo num círculo de proteção. Fotografia de pedro serrano, Praia da Areia Branca, março 2020. 



07 março 2020

COVID 19: O FUTURO A DEUS PERTENCE...

DGS afasta restrições em visitas a lares de idosos devido ao coronavírus


A diretora-geral da Saúde garantiu que as autoridades estão preparadas para emitir orientações diferentes numa eventual escalada do risco
(TSF)



'Garantias' e factos:
Contrastem-se as recentes declarações dos mais altos responsáveis do Ministério da Saúde de Portugal (feitas ontem, 6 de Março) com os números divulgados pelo prestigiado Centers for Disease Control sobre: 1) diferença de mortalidade causada pela gripe clássica (à esquerda no gráfico) quando comparada com a causada pelo coronavírus19; 2) idades mais atingidas pelo Covid19 e a respectiva mortalidade. 
O que concluir dos factos demonstrados?: 
Que a mortalidade causada pelo Covid19 é sempre muito maior do que a causada pela gripe e que essa mortalidade é tanto maior quanto mais velhos são os idosos atingidos (nos idosos com 80 anos ou mais é de 0,83 % para a gripe e de 15 % para o Covid19, isto é quase 20 vezes superior para a infecção por coronavírus).
Daqui decorre que tentar comparar o Covid19 com a vulgar gripe, como se tem visto fazer por essas televisões, é um tremendo disparate.
Mais valia estar calado:  
Partindo da realidade conhecida e desconhecendo, até à data, qualquer plano de contingência do Ministério da Saúde português dirigido especificamente ao grande grupo português dos idosos (superior a 2 milhões), não só aos dos lares, mas também aos que frequentam centros de dia, ou aos que ficam em casa e são aí visitados diariamente por cuidadores vários, parece-nos uma leviandade futurológica produzir afirmações públicas como as transcritas no início deste texto. 
Amanhã é demasiado tempo:
A aparente circunstância de as autoridades de saúde portuguesas estarem preparadas para emitir orientações diferentes em caso de "escalada do risco" não tranquilizam: do ponto de vista do planeamento e da execução das medidas práticas, e da máquina que implica montar e olear, para além de hoje será sempre demasiado tarde e, como se sabe, em qualquer área de actividade, desde a Bolsa à Saúde ou à Economia Doméstica, os riscos devem ser antecipados e precavidos, sobretudo numa situação nova em que a realidade  tem demonstrado modificar-se de forma galopante de um dia para o outro.

PS: Agora mesmo, na SIC-notícias, uma senhora (Maria João Quintela) representando as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), e entre outras pérolas de cultura coronística (em que identifiquei os termos proporcional risco, estigma), afirmou que as suas instituições usam como orientação, enquanto esperam que o Ministério da Saúde produza outras mais específicas, as recomendações feitas para as empresas, que também dão a ler aos velhinhos como informação sobre o assunto. Estamos esclarecidos!

06 fevereiro 2020

O 21.º PASSAGEIRO (imprevisto virulento)

O taxista olhou com espanto aquele comboio de ambulâncias que, vindo do acesso da Rotunda do Relógio, piscava ordeiramente à esquerda para assinalar a entrada na Segunda-circular. Agora, que se tinha adiantado uns metros e os controlava pelo retrovisor, concluiu nunca ter visto tal aparato anteriormente: uma meia-dúzia de ambulâncias do INEM, entremeadas por carrinhas e jipes, todos com os pirilampos do tejadilho desligados, seguindo lentamente pela faixa da direita e fazendo presentemente sinal à direita na aproximação da saída para o Campo Grande e para Loures. O que seria aquilo e para onde iriam?
O condutor da segunda carrinha não estava à espera daquele tipo de intercorrência e, ao sentir as pancadas no vidro que o separavam do habitáculo, o seu olhar procurou o do médico que seguia sentado ao seu lado, lendo umas orientações da DGS que acabara de descarregar no telemóvel. Este encolheu os ombros, puxou a máscara para cima do nariz e correu o vidro da divisória. Um dos passageiros que seguia na primeira fila de bancos da carrinha inclinou-se para a frente e, com a voz algo abafada pela máscara facial que lhe cobria boca e narinas, disse:
"Quero sair aqui."
Como se tivesse sido espicaçado por um chuço eléctrico, o condutor exclamou:
"Aqui? Sair aqui?!"
"Sim, quero sair aqui - pare a carrinha e encoste no passeio."
"Dr....", implorou o condutor travando o carro e encostando na berma.
O médico, ajustando os elásticos da máscara, torceu-se no banco para melhor encarar o passageiro.
"Ouça... estamos quase a chegar ao Hospital, viramos aqui à direita e estamos lá em menos de cinco minutos..."
"Eu sei onde estamos... Mas quero sair aqui, ou quer obrigar-me a ir onde eu não quero?"
Perplexo, o médico introduziu um dedo indicador no interior da máscara para coçar o nariz, um gesto que sempre fazia quando queria ganhar tempo.
"Mas o que lhe deu para querer ficar aqui? Tínhamos combinado que todos vocês iam ficar em isolamento voluntário, foram vocês que o propuseram, aliás, pois a lei portuguesa não permite internamentos compulsivos a não ser..."
"Já sei isso", interrompeu o passageiro, "mas, entretanto, mudei de ideias..."
O condutor da carrinha - cuja dicção se entendia com maior clareza, pois seguia sem máscara - virou-se para trás e juntou-se à conversa:
"Ó amigo, você não está a ser razoável: quer ficar aqui, no meio do Campo Grande, a fazer o quê? Olhe que ainda no outro dia - talvez você não saiba, pois estava lá para a China, deram aqui uma facada num inocente que ia a passar! Foi desta para melhor!"
"Por acaso, vocês até nem têm nada que saber o que eu vou ou não fazer - estamos num país livre e democrático, certo? Mas até vos vou dizer, para que possam informar as chefias e não serem chateados. A minha intenção é ir ali à Churrasqueira comer um franguinho à Guia e depois apanhar o metro e ir ao cinema. Estou cheio de estar fechado: há quinze dias que estou confinado e passei as últimas 24 horas a correr para aviões, enfiado em aviões!"
"Ó amigo, repetia o condutor olhando o médico de lado e esperando que este tomasse alguma iniciativa, "você não está a ser razoável... Isto não é propriamente um táxi! Não acha, Dr.?"
O médico achava, tentara até que os restantes passageiros se pronunciassem sobre o desejo súbito do colega, mas estes pareciam alheados a mirar a noite, os carros que iam passando; alguns deles tinham adormecido de cansaço nos seus assentos, as malas encaixadas entre as pernas.
"Você podia, ao menos, ir até ao Hospital, fazer a zaragatoa e depois logo se via...", propôs o médico tentando conduzir o repatriado até ao redil.
"Zaragatoa? O Dr. faz alguma ideia das zaragatoas que eu fiz nos últimos dias? Só hoje já vai em duas, tenho o nariz praticamente em ferida! Já posso sair?", insistiu o 21.º passageiro fazendo um arremedo de se levantar do banco.
"Espere só um bocadinho", lembrou-se o médico, "deixe-me expor o assunto à Linha de Saúde 24; é o protocolo... É um instante e fica tudo mais nos conformes". E, virando-se para o condutor:
"Você sabe o número de cor?"
"808242424", papagueou o outro.
O médico empunhou o telemóvel e fez a ligação. 
"Não atendem...", desabafou para o condutor.
"Espere um bocadinho, Dr., é hora do jantar, demoram sempre a atender: acontece-nos o mesmo lá no INEM."
"Estou? Linha de Saúde 24? Colega, daqui o profissional médico nCO19, para relatar uma ocorrência e pedir instruções. Vou meter a chamada em alta voz, afirmativo?, para que a equipa possa acompanhar."
Do lado de lá da linha, à medida que o médico ia expondo a situação, uma voz feminina, impessoal e enjoada, ia pontuando os passos do incidente com entediados 'OK'. No final, comunicou:
"O incidente descrito não se encaixa em nenhum dos algoritmos, por isso não podemos propor nenhum dos procedimentos do fluxograma de decisão aprovados Superiormente. Sugiro que contactem o Gabinete de Crise da DGS... Há mais alguma coisa em que o possa ajudar?"
"Não...", respondeu o interlocutor desconsoladamente.
"OK. O seu contacto foi importante para nós. Por favor não desligue e responda ao breve questionário sobre satisfação com este contacto, em que 0 corresponde a 'nada satisfeito' e dez corresponde a 'totalmente satisfeito'.
"Roger", concluiu nCO19.
"Posso sair agora...?" voltou a perguntar o 21.º passageiro.
"Aguente só mais um segundo, amigo. Por precaução, deixe só ver o que dizem do Gabinete de Crise."
Do Gabinete de Crise ninguém atendia, e a chamada - após se ouvirem os mesmos compassos do primeiro andamento das Quatro Estações, de Vivaldi - voltou por três vezes ao PBX, até que a telefonista confidenciou que iam ser reencaminhados para a Sr.ª Directora Nacional.
A Directora Nacional, alvoroçada pela decisão do 21.º passageiro, insistiu que lhe passassem o telefone, e informou-o que, embora a lei portuguesa não previsse o internamento compulsivo, todos ficariam muito mais tranquilos se o dissidente se sujeitasse aos mesmos procedimentos que os restantes..."
"Mas, afinal, vocês podem ou não obrigar-me a ir ao Hospital; a fazer a zaragatoa; a permanecer isolado contra minha vontade? É que está a parecer-me que estou a ser pressionado!"
"De todo, de todo, caro compatriota", contraditava a Directora Nacional, "estamos perante uma situação, claramente definida, uma proposta - para ser mais rigorosa - de isolamento optativo, nunca compulsivo. Há outros países que praticam um isolamento compulsivo em situações similares, mas não é o caso português, poderíamos neste caso afirmar até que estamos risonhamente sós..."
"Então isso quer dizer que posso sair aqui?"
Intuía-se a angústia no silêncio da Directora Nacional. Maternalmente, adoçando a voz como uma professora primária em dia de visita do Ministro da Educação, apelou à paciência e à compreensão do 21.º passageiro, contou que ela mesmo ainda não jantara nesse dia, que, no anterior, comera apenas uma sanduiche de pasta de atum; que adorava um "franguinho à Guia", tentou, por razões puramente epidemiológicas, compreender os motivos de tal desejo alimentar, e não de outro petisco, por parte do 21.º passageiro.
"Sabe, é que, lá em Wuhan, tenho uma namorada, nativa. O pai dela é dono de uma banca de frangos no mercado e inaugurámos há meses uma startup de frango à Guia, entregue ao domicílio, uma receita que era desconhecida na cidade e tem feito sucesso, pois os chineses são loucos por frango. Acho que foi isso que me fez saudades..."
Em seguida, a Directora Nacional quis ainda saber - para registo no inquérito — qual era o filme que o 21.º passageiro tencionava ir ver, e onde. 
"Quando vinha no avião estive a estudar o cartaz de filmes em Lisboa e vi que no Corte Inglês passam uma reposição do Outbreak: Fora de Controlo..."
"Ah, com o Dustin Hoffmann...", a Directora Nacional já tinha visto o filme que, confessou, ligava optimamente com as excelentes pipocas daquelas salas.
"Mas, se pedir das salgadas, peça com pouco sal: o sal é um dos maiores inimigos do coração." 
E, antes de dar a chamada por concluída, a Dirigente pediu do compatriota que lhe fizesse somente um último favor e que, se por causa disso, chegasse atrasado à sessão, ela teria todo o gosto em o ressarcir do preço do bilhete do próprio bolso:
"Atenda pessoalmente a chamada que esse número irá receber dentro de minutos..."
O 21.º passageiro prometeu - tanto lhe fazia, podia mudar de ideias a quando lhe conviesse.
Entretanto, alguns dos passageiros, maçados com a espera, tinham deixado a carrinha e exercitavam as pernas fazendo corridinhas curtas no passeio; um deles conversava com o condutor de uma das ambulâncias enquanto fumavam o seu cigarro e partilhavam como cinzeiro o contentor de lixo mais próximo. Alguns passantes ficavam a pasmar para aquele ajuntamento de veículos, um deles aproximou-se a perguntar o que era aquilo e se tinha alguma coisa a ver com o Sporting.
O telefone de nCO19 retiniu e, como combinado, o 21.º passageiro atendeu. Do lado de lá, uma voz aguda e metralhante invadiu-lhe os ouvidos:
"Muito boa noite, Sr. Utente, fala-lhe a Ministra da Saúde. Queria, antes do mais, informá-lo de que a lei portuguesa não permite o isolamento compulsivo, a não ser em situações de alta perigosidade do foro da saúde mental... Posto isto, e tendo chegado ao meu conhecimento que o Sr. Utente exprimiu recentemente o desejo de abandonar o afastamento optativo em ambiente protegido - ao qual tinha aderido voluntariamente e sem qualquer pressão, a não ser a atmosférica - é minha obrigação informá-lo de que a manifestação mais recente do seu legítimo direito de liberdade sem peias poderá, não obstante, colocar em causa..."
O 21.º passageiro tentou interromper o jacto torrencial que lhe inundava o ouvido médio e começava a causar-lhe tinidos no cérebro, mas sem sucesso. Como uma verruma, a voz continuava:
"De todo o modo, estaríamos em condições de lhe propor que a sua hospedagem optativa pudesse passar a ter lugar no Parque de Saúde de Lisboa, sito à avenida do Brasil, local que, indubitavelmente, proporciona um ambiente..."
"E quais são as vantagens desse lugar em relação ao anterior?", conseguiu o 21.º passageiro inserir no monólogo.
Do lado de lá da linha, a Ministra da Saúde pareceu ficar perturbada com a interrupção, e, após tossicar e aclarar o soprano, desfiou:
"Bem, para começar e como o nome indica, trata-se de um parque, de maneira que irá encontrar abundantes árvores e espaços relvados... Por outro lado, os edifícios, espalhados por espaçosa área, estão encantadoramente dispersos e, como verá, nem todos tem perfil ou vocação hospitalar. Encontrará na cerca um Infarmed, um Instituto Português do Sangue e do Transplante, uma Administração Central do Sistema de Saúde, uma cafeteria dotada de pequena esplanada..."
"Espere lá", atirou o interlocutor para o meio do discurso, "acho que estou a ver aonde isso fica: não é lá que fica o Júlio de Matos, o manicómio?"
"É minha obrigação informar o Senhor Utente de que, hoje em dia, preferimos desusar a designação que empregou, pois consideramo-la, quer conceptualmente quer equitativamente, pouco adequada e desproporcionada. Mas, não querendo iludir a dúvida que levantou, posso informá-lo que sim, é estatisticamente plausível que possa cruzar-se por lá com algum paciente sujeito a restrição temporária de poder passear nas vizinhas avenidas de Roma ou dos Estados Unidos da América. Não seria, no entanto, nunca o seu caso e, como poderá constatar — caso venha a aceitar o nosso oferecimento - verá que nenhum deles ostenta a pulseira laranja com os dizeres all inclusive que seria facultada ao Senhor Utente com quem partilho esta chamada."
E o patuá continuou-se, mas o 21.º passageiro, estafado, já o deixara escorregar para um plano secundário da sua consciência, a qual se entretinha agora a espiar pelo vidro as manobras do tipo de bata curta e barrete de cozinheiro que escancarava as janelas de uma roulotte recentemente estacionada.
"Você acha que eles poderão ter frango assado?", perguntou ao condutor da carrinha enquanto tapava o bocal do telemóvel.
"Não faço ideia... Costumam ter salchichas, bifanas, torresmos; frango não sei... Pode ser que vendam asas fritas, isso talvez. Quer que lhe vá ver?", ofereceu-se o condutor, lobrigando ali uma possibilidade de o dissidente vir a desistir do frango da churrascaria do Campo Grande.
Um pouco mais animado, o 21.º passageiro levou, de novo, o telefone ao ouvido.
"De todo o modo, há algumas medidas simples que talvez algum senhor profissional médico o tenha já posto a par, mas que nunca é demais repetir. O Senhor Utente deverá sempre lavar as mãos após contacto com pessoas ou objectos possivelmente contaminados, e tossir para o tornozelo de cada vez que lhe surgir a vontade irreprimível de o fazer. E, a terminar, solicitava-lhe que, antes de darmos por esgotado este contacto, respondesse a um brevíssimo inquérito epidemiológico - [o quê...?]; perdão, estão a dizer-me que, afinal, o inquérito que referi é de satisfação] — em que o valor 0 da escala significa 'nada satisfeito' e o valor 10 'totalmente satisfeito com o Governo do actual primeiro-ministro'."
O 21.º passageiro pousou o telemóvel no assento e olhou com vivo interesse a roulotte, em torno da qual se tinha juntado uma pequena multidão, na qual reconheceu alguns colegas de viagem e profissionais do INEM. Nesse preciso momento, o condutor da sua carrinha percorria o caminho entre a roulotte e a viatura, e informou:
"Não tem frango, nem sequer asas..., relacionado com frango tem apenas sandes de pasta de frango. Se quiser, posso encomendar-lhe um cachorro, vou pedir um para mim."
"Cachorro?! Você deve estar a brincar comigo!"
Enquanto combinava com o condutor o que pedir, o profissional médico nCO19 aproximara-se com o telemóvel estendido.
"É o Marcelo...".
"Marcelo?! Não conheço nenhum Marcelo..."
"Você deve estar a gozar... Há quanto tempo está na China?"
"Vai para três anos...", esclareceu o 21º passageiro aceitando o telemóvel.
"Caro sem-abrigo do Campo Grande...", ouviu dizer uma voz um pouco rouca, "estive para passar por aí, mas a Casa Civil diz-me que há trapalhada por perto, suponho que relacionada com uma evacua... [o quê? ele é um dos da quarentena?]... Queira desculpar, estimado evacuado, houve aqui uma confusão qualquer com a informação que nos chegou de S. Bento e das Necessidades. Para resumir, acontece que não me deixam ir aí: parece que, sendo o Presidente, não me posso expor, mesmo teoricamente, a que o país fique sem mim...; uma trapalhada! De todo o modo, podia mandar aí uns batedores e vinha você até Belém, tirávamos uma selfie, com máscara, claro: tenho até uma que me ofereceu - quando lá estive em visita de Estado — o Presidente Ping, uma bela máscara bico-de-pato, lacada... O que me diz, o estimadíssimo amigo?"
"Belém...? É pá, é um bocado fora de mão, mas é bué de tentador, com os pasteis e assim... O senhor nem sonha a porcaria que eles são lá na China - que os há, de franchising, por todo o lado - sabem mais a omelete do que a outra coisa!"
"Pois se quiser vir, é só dizer. Não sei se, a esta hora, há pasteis aqui no palácio, mas sempre lhe arranjo uma medalha, que ainda há menos de uma hora estive entretido a polir algumas, gosto do cheiro do Duraglit e é uma rotina que me distrai a seguir a jantar, relaxa-me para aquela maçada das promulgações de leis e decretos. A qualidade da produção legislativa de hoje em dia! Olhe, agradeça aos céus o estar na China!"
E, evolando um eco de risada no ar, a chamada desligou-se, deixando o 21.º passageiro a olhar para o telemóvel suspenso.
"Acho que não vou..." acabou por dizer para o médico, que o olhava com ansiedade; "é longe, se calhar não há pasteis, e palácios e medalhas é uma cena que não me assiste...".
Dizendo isto, levantou-se do assento, pegou na mochila, contornou a roulotte e desapareceu no meio da noite. Nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima, embora o Correio da Manhã tenha, alguns dias mais tarde, divulgado uma fotografia, muito pixelizada, em que uma seta vermelha apontava uma cabeça de perfil, alegadamente pertencente ao desaparecido 21.º e tirada numa Assembleia Geral do Sporting. 
Em Abril, no dia Mundial da Saúde, ao serem distribuídas as medalhas de mérito do Ministério da Saúde que distinguiram os intervenientes na evacuação e no isolamento optativo (20 evacuados; 35 funcionários do Ministério da Saúde e das forças de Segurança; o porteiro do Hospital - a recibo verde; 6 empregados do McDonald do Campo Grande; 3 motociclistas do Uber Eats), nesse fim de manhã, o ouro da medalha destinada ao 21.º viajante ficou a brilhar, solitário e não reclamado, na horizontalidade da seda azul-celeste que forrava a respectiva caixa.