06 fevereiro 2020

O 21.º PASSAGEIRO (imprevisto virulento)

O taxista olhou com espanto aquele comboio de ambulâncias que, vindo do acesso da Rotunda do Relógio, piscava ordeiramente à esquerda para assinalar a entrada na Segunda-circular. Agora, que se tinha adiantado uns metros e os controlava pelo retrovisor, concluiu nunca ter visto tal aparato anteriormente: uma meia-dúzia de ambulâncias do INEM, entremeadas por carrinhas e jipes, todos com os pirilampos do tejadilho desligados, seguindo lentamente pela faixa da direita e fazendo presentemente sinal à direita na aproximação da saída para o Campo Grande e para Loures. O que seria aquilo e para onde iriam?
O condutor da segunda carrinha não estava à espera daquele tipo de intercorrência e, ao sentir as pancadas no vidro que o separavam do habitáculo, o seu olhar procurou o do médico que seguia sentado ao seu lado, lendo umas orientações da DGS que acabara de descarregar no telemóvel. Este encolheu os ombros, puxou a máscara para cima do nariz e correu o vidro da divisória. Um dos passageiros que seguia na primeira fila de bancos da carrinha inclinou-se para a frente e, com a voz algo abafada pela máscara facial que lhe cobria boca e narinas, disse:
"Quero sair aqui."
Como se tivesse sido espicaçado por um chuço eléctrico, o condutor exclamou:
"Aqui? Sair aqui?!"
"Sim, quero sair aqui - pare a carrinha e encoste no passeio."
"Dr....", implorou o condutor travando o carro e encostando na berma.
O médico, ajustando os elásticos da máscara, torceu-se no banco para melhor encarar o passageiro.
"Ouça... estamos quase a chegar ao Hospital, viramos aqui à direita e estamos lá em menos de cinco minutos..."
"Eu sei onde estamos... Mas quero sair aqui, ou quer obrigar-me a ir onde eu não quero?"
Perplexo, o médico introduziu um dedo indicador no interior da máscara para coçar o nariz, um gesto que sempre fazia quando queria ganhar tempo.
"Mas o que lhe deu para querer ficar aqui? Tínhamos combinado que todos vocês iam ficar em isolamento voluntário, foram vocês que o propuseram, aliás, pois a lei portuguesa não permite internamentos compulsivos a não ser..."
"Já sei isso", interrompeu o passageiro, "mas, entretanto, mudei de ideias..."
O condutor da carrinha - cuja dicção se entendia com maior clareza, pois seguia sem máscara - virou-se para trás e juntou-se à conversa:
"Ó amigo, você não está a ser razoável: quer ficar aqui, no meio do Campo Grande, a fazer o quê? Olhe que ainda no outro dia - talvez você não saiba, pois estava lá para a China, deram aqui uma facada num inocente que ia a passar! Foi desta para melhor!"
"Por acaso, vocês até nem têm nada que saber o que eu vou ou não fazer - estamos num país livre e democrático, certo? Mas até vos vou dizer, para que possam informar as chefias e não serem chateados. A minha intenção é ir ali à Churrasqueira comer um franguinho à Guia e depois apanhar o metro e ir ao cinema. Estou cheio de estar fechado: há quinze dias que estou confinado e passei as últimas 24 horas a correr para aviões, enfiado em aviões!"
"Ó amigo, repetia o condutor olhando o médico de lado e esperando que este tomasse alguma iniciativa, "você não está a ser razoável... Isto não é propriamente um táxi! Não acha, Dr.?"
O médico achava, tentara até que os restantes passageiros se pronunciassem sobre o desejo súbito do colega, mas estes pareciam alheados a mirar a noite, os carros que iam passando; alguns deles tinham adormecido de cansaço nos seus assentos, as malas encaixadas entre as pernas.
"Você podia, ao menos, ir até ao Hospital, fazer a zaragatoa e depois logo se via...", propôs o médico tentando conduzir o repatriado até ao redil.
"Zaragatoa? O Dr. faz alguma ideia das zaragatoas que eu fiz nos últimos dias? Só hoje já vai em duas, tenho o nariz praticamente em ferida! Já posso sair?", insistiu o 21.º passageiro fazendo um arremedo de se levantar do banco.
"Espere só um bocadinho", lembrou-se o médico, "deixe-me expor o assunto à Linha de Saúde 24; é o protocolo... É um instante e fica tudo mais nos conformes". E, virando-se para o condutor:
"Você sabe o número de cor?"
"808242424", papagueou o outro.
O médico empunhou o telemóvel e fez a ligação. 
"Não atendem...", desabafou para o condutor.
"Espere um bocadinho, Dr., é hora do jantar, demoram sempre a atender: acontece-nos o mesmo lá no INEM."
"Estou? Linha de Saúde 24? Colega, daqui o profissional médico nCO19, para relatar uma ocorrência e pedir instruções. Vou meter a chamada em alta voz, afirmativo?, para que a equipa possa acompanhar."
Do lado de lá da linha, à medida que o médico ia expondo a situação, uma voz feminina, impessoal e enjoada, ia pontuando os passos do incidente com entediados 'OK'. No final, comunicou:
"O incidente descrito não se encaixa em nenhum dos algoritmos, por isso não podemos propor nenhum dos procedimentos do fluxograma de decisão aprovados Superiormente. Sugiro que contactem o Gabinete de Crise da DGS... Há mais alguma coisa em que o possa ajudar?"
"Não...", respondeu o interlocutor desconsoladamente.
"OK. O seu contacto foi importante para nós. Por favor não desligue e responda ao breve questionário sobre satisfação com este contacto, em que 0 corresponde a 'nada satisfeito' e dez corresponde a 'totalmente satisfeito'.
"Roger", concluiu nCO19.
"Posso sair agora...?" voltou a perguntar o 21.º passageiro.
"Aguente só mais um segundo, amigo. Por precaução, deixe só ver o que dizem do Gabinete de Crise."
Do Gabinete de Crise ninguém atendia, e a chamada - após se ouvirem os mesmos compassos do primeiro andamento das Quatro Estações, de Vivaldi - voltou por três vezes ao PBX, até que a telefonista confidenciou que iam ser reencaminhados para a Sr.ª Directora Nacional.
A Directora Nacional, alvoroçada pela decisão do 21.º passageiro, insistiu que lhe passassem o telefone, e informou-o que, embora a lei portuguesa não previsse o internamento compulsivo, todos ficariam muito mais tranquilos se o dissidente se sujeitasse aos mesmos procedimentos que os restantes..."
"Mas, afinal, vocês podem ou não obrigar-me a ir ao Hospital; a fazer a zaragatoa; a permanecer isolado contra minha vontade? É que está a parecer-me que estou a ser pressionado!"
"De todo, de todo, caro compatriota", contraditava a Directora Nacional, "estamos perante uma situação, claramente definida, uma proposta - para ser mais rigorosa - de isolamento optativo, nunca compulsivo. Há outros países que praticam um isolamento compulsivo em situações similares, mas não é o caso português, poderíamos neste caso afirmar até que estamos risonhamente sós..."
"Então isso quer dizer que posso sair aqui?"
Intuía-se a angústia no silêncio da Directora Nacional. Maternalmente, adoçando a voz como uma professora primária em dia de visita do Ministro da Educação, apelou à paciência e à compreensão do 21.º passageiro, contou que ela mesmo ainda não jantara nesse dia, que, no anterior, comera apenas uma sanduiche de pasta de atum; que adorava um "franguinho à Guia", tentou, por razões puramente epidemiológicas, compreender os motivos de tal desejo alimentar, e não de outro petisco, por parte do 21.º passageiro.
"Sabe, é que, lá em Wuhan, tenho uma namorada, nativa. O pai dela é dono de uma banca de frangos no mercado e inaugurámos há meses uma startup de frango à Guia, entregue ao domicílio, uma receita que era desconhecida na cidade e tem feito sucesso, pois os chineses são loucos por frango. Acho que foi isso que me fez saudades..."
Em seguida, a Directora Nacional quis ainda saber - para registo no inquérito — qual era o filme que o 21.º passageiro tencionava ir ver, e onde. 
"Quando vinha no avião estive a estudar o cartaz de filmes em Lisboa e vi que no Corte Inglês passam uma reposição do Outbreak: Fora de Controlo..."
"Ah, com o Dustin Hoffmann...", a Directora Nacional já tinha visto o filme que, confessou, ligava optimamente com as excelentes pipocas daquelas salas.
"Mas, se pedir das salgadas, peça com pouco sal: o sal é um dos maiores inimigos do coração." 
E, antes de dar a chamada por concluída, a Dirigente pediu do compatriota que lhe fizesse somente um último favor e que, se por causa disso, chegasse atrasado à sessão, ela teria todo o gosto em o ressarcir do preço do bilhete do próprio bolso:
"Atenda pessoalmente a chamada que esse número irá receber dentro de minutos..."
O 21.º passageiro prometeu - tanto lhe fazia, podia mudar de ideias a quando lhe conviesse.
Entretanto, alguns dos passageiros, maçados com a espera, tinham deixado a carrinha e exercitavam as pernas fazendo corridinhas curtas no passeio; um deles conversava com o condutor de uma das ambulâncias enquanto fumavam o seu cigarro e partilhavam como cinzeiro o contentor de lixo mais próximo. Alguns passantes ficavam a pasmar para aquele ajuntamento de veículos, um deles aproximou-se a perguntar o que era aquilo e se tinha alguma coisa a ver com o Sporting.
O telefone de nCO19 retiniu e, como combinado, o 21.º passageiro atendeu. Do lado de lá, uma voz aguda e metralhante invadiu-lhe os ouvidos:
"Muito boa noite, Sr. Utente, fala-lhe a Ministra da Saúde. Queria, antes do mais, informá-lo de que a lei portuguesa não permite o isolamento compulsivo, a não ser em situações de alta perigosidade do foro da saúde mental... Posto isto, e tendo chegado ao meu conhecimento que o Sr. Utente exprimiu recentemente o desejo de abandonar o afastamento optativo em ambiente protegido - ao qual tinha aderido voluntariamente e sem qualquer pressão, a não ser a atmosférica - é minha obrigação informá-lo de que a manifestação mais recente do seu legítimo direito de liberdade sem peias poderá, não obstante, colocar em causa..."
O 21.º passageiro tentou interromper o jacto torrencial que lhe inundava o ouvido médio e começava a causar-lhe tinidos no cérebro, mas sem sucesso. Como uma verruma, a voz continuava:
"De todo o modo, estaríamos em condições de lhe propor que a sua hospedagem optativa pudesse passar a ter lugar no Parque de Saúde de Lisboa, sito à avenida do Brasil, local que, indubitavelmente, proporciona um ambiente..."
"E quais são as vantagens desse lugar em relação ao anterior?", conseguiu o 21.º passageiro inserir no monólogo.
Do lado de lá da linha, a Ministra da Saúde pareceu ficar perturbada com a interrupção, e, após tossicar e aclarar o soprano, desfiou:
"Bem, para começar e como o nome indica, trata-se de um parque, de maneira que irá encontrar abundantes árvores e espaços relvados... Por outro lado, os edifícios, espalhados por espaçosa área, estão encantadoramente dispersos e, como verá, nem todos tem perfil ou vocação hospitalar. Encontrará na cerca um Infarmed, um Instituto Português do Sangue e do Transplante, uma Administração Central do Sistema de Saúde, uma cafeteria dotada de pequena esplanada..."
"Espere lá", atirou o interlocutor para o meio do discurso, "acho que estou a ver aonde isso fica: não é lá que fica o Júlio de Matos, o manicómio?"
"É minha obrigação informar o Senhor Utente de que, hoje em dia, preferimos desusar a designação que empregou, pois consideramo-la, quer conceptualmente quer equitativamente, pouco adequada e desproporcionada. Mas, não querendo iludir a dúvida que levantou, posso informá-lo que sim, é estatisticamente plausível que possa cruzar-se por lá com algum paciente sujeito a restrição temporária de poder passear nas vizinhas avenidas de Roma ou dos Estados Unidos da América. Não seria, no entanto, nunca o seu caso e, como poderá constatar — caso venha a aceitar o nosso oferecimento - verá que nenhum deles ostenta a pulseira laranja com os dizeres all inclusive que seria facultada ao Senhor Utente com quem partilho esta chamada."
E o patuá continuou-se, mas o 21.º passageiro, estafado, já o deixara escorregar para um plano secundário da sua consciência, a qual se entretinha agora a espiar pelo vidro as manobras do tipo de bata curta e barrete de cozinheiro que escancarava as janelas de uma roulotte recentemente estacionada.
"Você acha que eles poderão ter frango assado?", perguntou ao condutor da carrinha enquanto tapava o bocal do telemóvel.
"Não faço ideia... Costumam ter salchichas, bifanas, torresmos; frango não sei... Pode ser que vendam asas fritas, isso talvez. Quer que lhe vá ver?", ofereceu-se o condutor, lobrigando ali uma possibilidade de o dissidente vir a desistir do frango da churrascaria do Campo Grande.
Um pouco mais animado, o 21.º passageiro levou, de novo, o telefone ao ouvido.
"De todo o modo, há algumas medidas simples que talvez algum senhor profissional médico o tenha já posto a par, mas que nunca é demais repetir. O Senhor Utente deverá sempre lavar as mãos após contacto com pessoas ou objectos possivelmente contaminados, e tossir para o tornozelo de cada vez que lhe surgir a vontade irreprimível de o fazer. E, a terminar, solicitava-lhe que, antes de darmos por esgotado este contacto, respondesse a um brevíssimo inquérito epidemiológico - [o quê...?]; perdão, estão a dizer-me que, afinal, o inquérito que referi é de satisfação] — em que o valor 0 da escala significa 'nada satisfeito' e o valor 10 'totalmente satisfeito com o Governo do actual primeiro-ministro'."
O 21.º passageiro pousou o telemóvel no assento e olhou com vivo interesse a roulotte, em torno da qual se tinha juntado uma pequena multidão, na qual reconheceu alguns colegas de viagem e profissionais do INEM. Nesse preciso momento, o condutor da sua carrinha percorria o caminho entre a roulotte e a viatura, e informou:
"Não tem frango, nem sequer asas..., relacionado com frango tem apenas sandes de pasta de frango. Se quiser, posso encomendar-lhe um cachorro, vou pedir um para mim."
"Cachorro?! Você deve estar a brincar comigo!"
Enquanto combinava com o condutor o que pedir, o profissional médico nCO19 aproximara-se com o telemóvel estendido.
"É o Marcelo...".
"Marcelo?! Não conheço nenhum Marcelo..."
"Você deve estar a gozar... Há quanto tempo está na China?"
"Vai para três anos...", esclareceu o 21º passageiro aceitando o telemóvel.
"Caro sem-abrigo do Campo Grande...", ouviu dizer uma voz um pouco rouca, "estive para passar por aí, mas a Casa Civil diz-me que há trapalhada por perto, suponho que relacionada com uma evacua... [o quê? ele é um dos da quarentena?]... Queira desculpar, estimado evacuado, houve aqui uma confusão qualquer com a informação que nos chegou de S. Bento e das Necessidades. Para resumir, acontece que não me deixam ir aí: parece que, sendo o Presidente, não me posso expor, mesmo teoricamente, a que o país fique sem mim...; uma trapalhada! De todo o modo, podia mandar aí uns batedores e vinha você até Belém, tirávamos uma selfie, com máscara, claro: tenho até uma que me ofereceu - quando lá estive em visita de Estado — o Presidente Ping, uma bela máscara bico-de-pato, lacada... O que me diz, o estimadíssimo amigo?"
"Belém...? É pá, é um bocado fora de mão, mas é bué de tentador, com os pasteis e assim... O senhor nem sonha a porcaria que eles são lá na China - que os há, de franchising, por todo o lado - sabem mais a omelete do que a outra coisa!"
"Pois se quiser vir, é só dizer. Não sei se, a esta hora, há pasteis aqui no palácio, mas sempre lhe arranjo uma medalha, que ainda há menos de uma hora estive entretido a polir algumas, gosto do cheiro do Duraglit e é uma rotina que me distrai a seguir a jantar, relaxa-me para aquela maçada das promulgações de leis e decretos. A qualidade da produção legislativa de hoje em dia! Olhe, agradeça aos céus o estar na China!"
E, evolando um eco de risada no ar, a chamada desligou-se, deixando o 21.º passageiro a olhar para o telemóvel suspenso.
"Acho que não vou..." acabou por dizer para o médico, que o olhava com ansiedade; "é longe, se calhar não há pasteis, e palácios e medalhas é uma cena que não me assiste...".
Dizendo isto, levantou-se do assento, pegou na mochila, contornou a roulotte e desapareceu no meio da noite. Nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima, embora o Correio da Manhã tenha, alguns dias mais tarde, divulgado uma fotografia, muito pixelizada, em que uma seta vermelha apontava uma cabeça de perfil, alegadamente pertencente ao desaparecido 21.º e tirada numa Assembleia Geral do Sporting. 
Em Abril, no dia Mundial da Saúde, ao serem distribuídas as medalhas de mérito do Ministério da Saúde que distinguiram os intervenientes na evacuação e no isolamento optativo (20 evacuados; 35 funcionários do Ministério da Saúde e das forças de Segurança; o porteiro do Hospital - a recibo verde; 6 empregados do McDonald do Campo Grande; 3 motociclistas do Uber Eats), nesse fim de manhã, o ouro da medalha destinada ao 21.º viajante ficou a brilhar, solitário e não reclamado, na horizontalidade da seda azul-celeste que forrava a respectiva caixa.




















02 fevereiro 2020

UM ATCHIM CHINÊS

Saúdo os 17 portugueses que daqui a umas horas pousarão em território nacional, desejando-lhes o discernimento e o bom-senso (já manifestado, aliás, por um deles) de, pela saúde dos seus e do resto da população, exigirem um isolamento temporário das suas pessoas até que o risco de poderem ser transmissores de infecção por coronavírus possa ser completamente posto de lado. É o que nos resta, pois este discernimento não tem iluminado quem, tecnicamente, tem essa responsabilidade a nível nacional e se vai refugiando, para o adiar, atrás de esfarrapadas considerações cujo mofo original é o Diário da República da primeira metade da década de 70.
Nos últimos dias — ao contrário do acontecido inicialmente - cada imagem televisiva de um avião que roda numa pista chinesa é acompanhado de uma voz off, ou de uma nota de rodapé no ecrã, informando que a lei portuguesa não permite o isolamento ou o internamento compulsivo de pessoas. Fraco consolo, anémica justificação perante uma doença para a qual a população mundial não parece ter imunidade alguma. 
Convirá dizer, em primeiro lugar, que as tais leis que os nossos altos responsáveis gostam de citar afirmam, simultaneamente, ser um dever e uma competência do Estado o garantir a saúde da população, e a esta Saúde, vista como um requisito e um bem colectivo, chama-se Saúde Pública. Esta obrigação deve nortear e presidir as decisões de quem foi nomeado para cargos de chefia nacionais na área, particularmente tratando-se de licenciados em Medicina, pois, neste caso, à finalidade última da defesa da Saúde adicionam-se as linhas de conduta do chamado Juramento de Hipócrates, que cada médico deve cumprir e o aconselha (seguindo circunvoluções técnicas e não políticas) a pensar pela sua cabeça. Todos os outros aspectos deverão ser então remetidos para plano secundário - o primado, o foco, é o da defesa da saúde das pessoas, prevenindo a doença e tratando e cuidando dos que adoecem.
Posto isto - que será sempre a bússola interior do profissional com responsabilidade na defesa da Saúde Pública - e descendo ao concreto, vários modos de enquadrar o manejo do regresso dos portugueses retidos em Wuhan poderiam e deveriam ter sido postos em marcha para obviar à situação ridícula a que se chegou: a de não se poder isolar temporariamente alguém, que pode constituir um risco para a saúde de terceiros, por isso poder recordar os tempos e os métodos da PIDE!
1. Partindo do princípio que os membros do Governo terão acesso aos telemóveis uns dos outros, poderia facilmente ter sido fundamentado e articulado com o Ministério dos Negócios Estrangeiros um recado a fazer chegar aos portugueses de Hwan que manifestaram o desejo de regressar: "caros compatriotas, o país está na disposição de vos livrar do aperto em que estão e de vos fazer regressar à pátria, para o que irá desenvolver consideráveis esforços — incluindo financeiros - para o concretizar. Como contrapartida, cada um de vocês comprometer-se-á formalmente a aceitar um período de isolamento de duas semanas, como modo de proteger a saúde dos vossos e do resto do país, já para não falar da dos países que nos rodeiam." É óbvio que, no isolamento e angústia em que já viviam, todo e qualquer um dos nossos compatriotas aceitaria uma condição tão justa e leve como essa e, certamente, não passaria pela cabeça a nenhum deles - logo que se apanhasse a salvo no país - meter o Estado em tribunal por o ter isolado quinze dias numas termas da Beira Alta ou numa herdade Alentejana. Estou certo de que mesmo algum dos mais radicais, daquele subgénero em que a actividade preferida é ler o Diário da República, à noite, na cama, a meias com a companheira/o, dificilmente o faria. 
2. Outro aspecto que vale a pena esmiuçar é o modo precipitado e promíscuo como o nosso Ministério da Saúde se apressou a vestir a toga dos obstáculos que a Constituição e a Lei atravessam à hipótese de um isolamento preventivo. Será que alguém, nessas torres de marfim de Lisboa, se deu ao incómodo de pedir um parecer sobre o assunto ao Tribunal Constitucional a algum constitucionalista? Em caso afirmativo, gostaria muito de conhecer hoje mesmo o seu teor e a resposta recebida. Será que alguém, desses organismos a quem compete decidir sobre a saúde colectiva, apresentou o assunto segundo uma orientação e uma linha condutora que permitisse salvaguardar as melhores decisões TÉCNICAS para a defesa da saúde de terceiros e para a minimização do risco? Existiu esse tipo de taskforce ou de thinktank ou de comité de sábios? Em caso afirmativo, gostaria muito de poder consultar as actas dessas reuniões. Ou será que estarão em segredo, de justiça, de regulador ou de outra qualquer coisa afim? 
As presentes leis portuguesas (pelos vistos firmes como estalactites jurássicas) interditam o "internamento compulsivo para prestação de cuidados" e a excepção actual é a saúde mental, vulgo o tolinho que disparata e provoca desacatos na praça pública, contenção compulsiva que é levada a cabo através dos esforços conjugados das autoridades de saúde, dos tribunais e dos serviços psiquiátrico. Esta excepção à liberdade total prometida pela Constituição é, já de si, esquisita - tendo em conta o referido receio de se poder estar a privar pessoas da liberdade com base em motivos espúrios e politicamente contaminados -, pois que melhor forma haverá de afastar um indesejável do que invocar que está "fora de si" e mandá-lo arrefecer com algum cocktail químico? Isto, sim, pode ser perigoso, dado que a alma não se vê à transparência! Convém dizer, a este ponto e em seu abono, que alguns magistrados portugueses (assisti a um ou dois casos), impressionados por situações concretas que lhe foram pormenorizadamente expostas por médicos e autoridades de saúde desesperadas, mandaram conduzir à prestação de cuidados de saúde compulsivos doentes com tuberculose multirresistente (doença transmissível que, como o nome sugere, não cede, ou fá-lo muito dificilmente, às drogas conhecidas) que recusavam tratamento e passeavam pelas ruas das nossas vilas e cidades a contaminar terceiros. É um precedente importante, não?
3. No caso dos portugueses que regressam da China, não se trata sequer de um internamento compulsivo clássico, pois vários dos critérios para a definição deste tipo de situação não estão presente à partida: nenhum deles estará doente; nenhum deles irá ser obrigado a tomar medicamentos; não necessitam ser internados sequer em nenhuma instituição de saúde: poderiam (como vários países fizeram) ser simplesmente hospedados em estabelecimentos hoteleiros ou similares. Seria, desde que alguém responsável tomasse a iniciativa, bastante simples reservar durante duas semanas um estabelecimento termal ou hoteleiro num local tranquilo do país e, numa gentil articulação com as forças de segurança (continuo a supor que os ministros têm acesso ao telefone uns dos outros), manter o todo sob discreta vigilância: travando a saída de quem, eventualmente, desejasse sair e garantindo a entrada somente a pessoal credenciado.
Este seria, face às tais leis que não permitem que a gente se defenda, a primeira camada do esqueleto do chapéu de chuva que ajudaria a enquadrar a realidade que a pandemia do coronavírus nos atirou para os braços e far-se-ia o que sempre se faz quando se deseja atingir um objectivo: apresentar o assunto à luz que interessa e convêm, neste caso em nome do interesse público.
4. Para além do chapéu de chuva (impermeável a raids de tribunais e legalistas radicais) sugerido no ponto anterior, resta-nos ainda a vasta panóplia dos enquadramentos e normas internacionais a que a inércia dos responsáveis nacionais parece não ter tido folego para soprar o pó: a própria Lei de Bases da Saúde em vigor, na sua base 35, ao falar sobre Vigilância Sanitária das Fronteiras, diz que "cabe, em especial, aos organismos competentes... as medidas necessárias para prevenir a importação ou exportação das doenças..., enfrentar a ameaça de expansão das doenças transmissíveis e promover todas as operações sanitárias exigidas pela defesa da saúde da comunidade internacional". Algumas varetas suplementares poderiam ser acrescentadas a este já robusto guarda-chuva, nomeadamente as orientações constantes no Regulamento Sanitário Internacional (a que Portugal está obrigado), e não seria assim tão difícil obter da Organização Mundial de Saúde — entidade que já deu claros sinais de estar  apoquentada e embaraçada com a mais recente pandemia - um emplastro escrito que resguardasse as costas aos hesitantes responsáveis portugueses da área da Saúde. Mas, mesmo sem ter de navegar além-fronteiras, conseguir-se-ia uma confortável e caseira fundamentação em algumas das páginas do documento que, corria o ano de 2007, a Direcção-Geral da Saúde produziu e intitulou Pandemia de Gripe: plano de contingência nacional do sector da saúde, subscrito por alguns dos altos responsáveis actuais do sector e onde são apresentadas, para situações excepcionais como a que se vive actualmente, medidas que incluem o isolamento e a quarentena (página 156 e 160) e, a páginas 165, se antecipa, doze anos atrás, uma "revisão e adequação da legislação que suporta a intervenção da autoridade de saúde", apresentando como responsável pela implementação desta medida a própria Direcção-Geral da Saúde.
A finalizar, tal o botão que, com um bonito plof, abre automaticamente o guarda-chuva protector das investidas dos puristas, os nossos responsáveis pela Saúde poderiam ainda lançar mão do documento, tornado público em 2018 pela OMS (A checklist for pandemic influenza risk and impact management), o qual recomenda que os países devem identificar bases legais, éticas e práticas para quarentena e também os locais onde pode ser feita.
Está tudo previsto, tudo salvaguardado, parece faltar apenas uma cadeia de comando efectiva e bem oleada que, para além do que aqui se ventilou, faça o possível por evitar situações como a ocorrida no país (a do cidadão italiano em Felgueiras, com uma estadia recente na China e contacto com um caso naquele país) durante o qual um suspeito de infecção com o coronavírus: a) foi transportando a um serviço de urgência lotado de gente; b) foi examinado por um médico do trabalho na sua clínica privada, e que o referenciou a um hospital central; c) esteve mais de 4 horas à espera dentro de uma ambulância não adequada para o efeito, antes de ser conduzido ao serviço de saúde adequado, pois a entidade que deveria validar e desencadear os procedimentos (DGS) terá demorado duas horas a fazê-lo e o serviço do Ministério da Saúde (INEM) que o deveria transportar terá demorado outras duas a concretizá-lo. 
Nesta situação de Felgueiras (primeiro teste à capacidade instalada para conduzir um caso suspeito de relevo ao local apropriado) e na do repatriamento da China, os únicos que parecem ter actuado com senso e correcção foram os leigos na matéria (o industrial de sapatos de Felgueiras; o português que exige ser isolado à chegada ao seu país), numa clara inversão de papéis. Parece o mundo ao contrário.
   

31 janeiro 2020

ISOLAMENTO À LA CARTE

Se assim o entenderem, se chegarem com receio de poder transmitir o coronavírus à família e aos vizinhos, os 17 portugueses retidos na cidade de Wuhan poderão optar por ficar em isolamento, pois, muito gentilmente, o Ministério da Saúde fornecerá instalações "com conforto e tranquilidade", afirmou a Directora-Geral da Saúde aos meios de comunicação social. Só ficou mesmo por informar que o wi-fi é gratuito durante a estadia e que a palavra-passe é COrona_2020, seguida do número do quarto.
Se, se..., pois por vontade dos responsáveis da Saúde os repatriados de Wuhan serão preferencialmente despachados para casa, onde disfrutarão de um apetecível isolamento no seio dos entes queridos e poderão, todas as manhãs, descer ao café no rés-do-chão do prédio e contar das suas desventuras na China, sendo-lhes ainda permitido, em total liberdade, levar ao infantário os filhos que não viam há tanto tempo, e acompanhar a velha mãe ao centro de dia ou à igreja.
"Ó, Jorge, já que vai sair, podias passar no Continente e trazer meia-dúzia de ovos e um pacote de mistura orientalpara saltear no wok - está em desconto no cartão."
"Mistura oriental?!", grita o cônjuge do poço do elevador, "tu nem me fales em comida chinesa nos próximos 14 dias, enquanto a minha quarentena voluntária durar."
E na circunstância ("ínfima", como garantem os responsáveis pronunciando-se sobre pessoas que estão a 12.000 km) de poder estar infectado, o Jorge poderá deambular por aí a contaminar dezenas de pessoas que, por sua vez, contactarão outras tantas dezenas ou centenas e por aí fora. 
No caso de as coisas não se passarem como sonham os responsáveis portugueses e um dos regressados - que até sentiu sintomas no dia do embarque mas resolveu camuflá-los no inquérito que lhe fizeram à chegada, pois a perspectiva de poder ter de voltar para trás aterrava-o - desenvolver a doença após a chegada, equacione-se o que será tentar encontrar no futuro toda essa gente sobre a qual o Jorge tossiu ou espirrou. Será um pesadelo, será deixar escapar a possibilidade de, à partida, conter a doença: é leviandade o que Portugal se prepara para fazer em nome da brandura dos costumes, do pensamento burocraticamente correcto e de hipotéticas normas que não permitem o 'internamento compulsivo' no território nacional, termo aliás exagerado para caracterizar o que se deveria fazer. Estamos a falar do interesse colectivo, do interesse de todos (10 milhões) versus o interesse individual.  É simplesmente uma questão de prudência e de defesa da saúde pública tentar usar todos os meios ao nosso alcance para tentar reduzir a zero as hipóteses de algo nos escapar e poder correr mal, enquanto isso se pode fazer. Remediar será mais árduo, será um pesadelo para a tranquilidade da população e para o trabalho já esforçado dos profissionais de saúde.
E o que fazem outros países que, como nós, estão a trazer nacionais da China infectada? Sujeitam-nos a isolamento mandatório (quarentena) durante o período estimado como necessário, até que o risco de transmissão possa ser posto de lado, claro. Mas nós não somos como os outros, nós gostamos de resolver os problemas com doçura e afirmando que cumprimos protocolos que vão mudando todas as semanas e, nessa linha de pensamento coronário, mandamos os nossos para casa. Ide em paz! Mas resta ainda resolver aqueles chatos que tiveram o bom-senso de explicitar o desejo de preferir ser isolados à chegada (bem saberão a dimensão do que viram por lá) e são encarados com mal disfarçado tédio pelo Ministério da Saúde: são os tais chegados "com esse receio", de que fala a Directora-Geral, e a quem - se insistirem - será providenciado isolamento à la carte e, tudo leva a crer, isentados de taxa turística durante a estadia.

15 dezembro 2019

ESSA GENTE (romance de Chico Buarque)

Muito bom, é o que merece dizer-se de Essa Gente, o último romance de Chico Buarque, aparecido nas bancas portuguesas já no começo deste Dezembro de 2019. Essa Gente lê-se dum sopro, seja porque a extensão do volume é breve, seja porque o enredo cativa o leitor com celeridade e se, nas primeiras páginas, nos sentimos intrigados com quem é quem, rapidamente somos enrolados na trama do que está a ser contado e do que irá acontecer. 
Dizia Nabokov que cada escritor tem uma constância e um fôlego próprio em termos do número de páginas dos seus livros: uns andam na casa das 300, outros ficam-se nas 250, e por aí fora. Chico Buarque tem sido, nos seis romances que nos deu até hoje*, um autor de tipo breve, despacha o que tem a dizer, em média, em 150 páginas.
Essa Gente é, para mim, o mais bem-humorado dos romances de Chico Buarque, lê-se como um divertimento, apesar de nem tudo serem rosas por ali. Não quer dizer que o humor não esteja sempre presente nos seus livros (o sentido de humor é uma das características mais aparentes da sua personalidade), mas nalguns deles ele era mais ácido ou mais abafado por outros humores sombrios, não se tornando a corda que sussurra ao longo da história. Neste último livro, o bom-humor vibra em permanência e fica-se com a sensação de que se terá divertido 'um monte' durante o processo.
Essa Gente trata o clássico tema do artista em crise de inspiração, assunto glosado por muita gente, da escrita ao cinema. Há um Duarte que quer escrever e não consegue e o universo das pessoas que giram em torno dele, umas antigas e outras novas, e que o livro, sob a forma de entradas de diário, cartas, telefonemas e, até, notícias de jornal, vai sugando para dentro do enredo. Há mulheres, muitas mulheres, Chico sempre se fascinou muito com elas e sempre as cantou e interpretou nos seus livros e canções.
E há, como de habitual nos seus livros, o personagem principal meio confuso, meio perdido, meio flutuante, e a obsessão com o processo criativo da escrita, e um cuidado amoroso em regar palavras da língua que mal são já usadas, mas de que não desiste nem nos livros nem nos poemas das canções: lépida, verazes, veros... O que não impede que Essa Gente, talvez mais do que em livros anteriores, esteja juncado de termos do calão brasileiro, semeado de americanices, e do aportuguesamento instantâneo de palavras canibalizadas a outras línguas.    
Chico aproveita o livro para dizer muita coisa, para mandar recados e clarificar o que pensa em relação a vários assuntos que, ao contrário de outros artistas, não se apressou a vir afirmar na comunicação ou nas redes sociais: é claríssimo o que pensa do estado actual do Brasil e do tipo de gente que o governa, e lá estão as armas a mais, a violência policial a mais; a supremacia tribal e desprezível, o isolamento esquizoide dos poderosos; as queimadas na Amazónia e as fortunas feitas à falta de sombra disso; a corrupção da Justiça; o abismo económico e social entre quem mora nas favelas e nos condomínios fechados, gap que o personagem principal se entretém a saltar. Há também, dispersos pelo livro, recados às feministas radicais que - em modo de leitura e interpretação bastante estúpido - o sinalizaram como machista em canções do seu último disco (Caravanas, 2017). E não apenas recados: Chico Buarque diverte-se a confundi-las, a elas e aos outros que vivem obcecados por detectar incorrecções nos posicionamentos sobre sexo, género ou a falta dele.  
Finalmente, apesar de mais poder ser dito em louvor, Essa Gente é o livro de Chico Buarque em que a presença, a familiaridade com Portugal é mais vincada: estão lá os poetas (Pessoa e Camões), estão lá os apontamentos geográficos (o Castelo de S. Jorge, o lisboeta Bairro Azul) e, mais do que isso e apontando à triste deriva do Brasil actual, o novo êxodo de lá para cá em nome da segurança e da liberdade de respirar à vontade.
Essa Gente foi editada pela Companhia das Letras e custa uns 15,9 bem empregues euros.

Estorvo (1991), Benjamim (1995), Budapeste (2003), Leite Derramado (2009), O Irmão Alemão (2014) e Essa Gente(2019). 

06 dezembro 2019

THE IRISHMAN - Velhos amigos

Esquerda para a direita: Joe Pesci, Al Pacino, Martin Scorsese,
Harvey Keitel e Robert de Niro, 2019. 
Quando se pensava que, na sequência da trilogia O Padrinho (The Godfather I, II, III, 1972/1974/1990), do filme Tudo Bom Rapazes (Goodfellas, 1990) ou da série Os Sopranos (The Sopranos, 1999/2007) - cada um excelente à sua maneira e na época respectiva - quando se achava que tudo estava dito sobre a Mafia e os mafiosos, eis que Martin Scorsese, aos 77 anos de idade, nos presenteia com uma obra-prima que volta a glosar o tema.
Não só estritamente a Mafia, pois o filme aborda e explora ainda as ligações entre famílias de diferentes proveniências (italianos, judeus, irlandeses), entre estas e os sindicatos (Jimmy Hoffa) e entre todos e a alta esfera da política, assumindo sem rebuços ter sido a Máfia (italiana) quem esteve por trás do assassinato de JF Kennedy, presidente dos Estados Unidos, e do seu irmão Robert, procurador-geral dos Estados Unidos e encarado como grande ameaça por mafiosos e sindicalistas.
Como se não fosse já bastante, para nos contar a história o filme fá-lo a partir do ponto de vista de dois velhos mafiosos (Robert de Niro e Joe Pesci), em viagem com as respectivas esposas, e vai-a desenrolando sabiamente através da irrupção das memórias visuais de Robert de Niro sobre o seu trajecto na vida. É, igualmente, uma narrativa sobre o envelhecimento e a inutilidade do poder e da violência, pois uma das vagas que há-de vir a seguir afogar-nos-á e tudo termina na solidão e na impotência do costume: os temidos e poderosos de outrora acabam num lar de terceira idade, sem visitas, como qualquer beneficiário da pensão mínima. A inevitável invencible defeat, como se lhe referia Leonard Cohen.
Com a duração longa das três horas e meia (invocando a respiração pausada das anteriores sagas do The Godfather), o filme contou com um orçamento superior a 100 milhões de euros e foi produzido em exclusivo para a Netflix, o que significa que, pelo menos para já, só pode ser visto na TV e para quem tem acesso a este canal.
O argumento é excelente, a fotografia é excelente, o ritmo da história narrada é perfeito. Os actores são magníficos, com especial menção para Joe Pesci, maravilhoso num papel tão contido e distante da sua persona cinematográfica mais habitual que demorámos a reconhecê-lo. Magnífico, também, o grande Robert de Niro, bloqueado no interior da sua personagem, um ser que aceita o que lhe é imposto sem o questionar e onde só os olhos, aqui e ali, traduzem a sua aflição e impotência perante o mundo esmagador para o qual o irlandês do título resvalou quase por acaso. Al Pacino, no papel de Jimmy Hoffa, é uma estrela pálida em relação aos dois anteriores e mantém-se colado ao modo histriónico e algo rígido a que nos habituou ao longo dos anos. No ecrã aparece ainda, entre outros óptimos actores, o excelente, e também aqui dificilmente reconhecível, Harvey Keitel, e também Steven Van Zandt - Silvio Dante nos Sopranos, que, na série, imitava Al Pacino no Padrinho para gáudio dos mafiosos do Bada Bing - contribui, num curto papel, para o elenco e para uma piscadela de olho ao portento e novidade que foi a série de David Chase em termos de narrativa cinematográfica usando a TV.
Bob Dylan e Robbie Robertson.
Uma última palavra para a banda sonora, excelentemente conseguida como em todos os filmes de Scorsese, um amante de música, que volta aqui à mesma receita da maioria dos seus outros filmes, preferindo - em detrimento de música composta para o filme - usar uma sequência caprichada de música popular da época retratada. Em The Irishman, o realizador decidiu entregar a responsabilidade da escolha e do tratamento musical a Robbie Robertson, o mítico guitarrista dos The Band, a banda que acompanhou Bob Dylan ao longo de vários anos (1965-1969) e de que, aliás, Scorsese imortaliza o último concerto em The Last Waltz, o filme de 1978. 
Velhos amigos! The Irishman é um filme que reflecte também a passagem do tempo, o amadurecimento e a amizade de quem espreita por trás das câmaras. 


PS: Entretanto, os três críticos de cinema em serviço no jornal O Público classificaram o filme com uma nota (média) de 3,3 em 5 estrelas possíveis, isto é: aproximadamente um 'Suficiente'. Gostava de ver o caixote do lixo deles! Os mesmos avaliadores que, em afectivo derretimento nacionalista, classificam amiúde com 4 estrelas um daqueles filmes portugueses impossíveis de tragar, ora porque o argumento é acabrunhante  e frouxo, a fala dos actores deveria ser legendada pois parece que os respectivos realizadores ainda não descobriam as regras da captação de som ou os mistérios da pós-sincronização; a iluminação deixa barbas de sombra pelas paredes e pelos cantos; a representação dos actores é tão débil e sem orientação que estes vegetam pelos cenários como zombies, declamando as falas como se fossem rãs estimuladas com choques elécticos.  

29 novembro 2019

BUENOS AIRES

Nverdade, foi só à medida que caminhava em direcção ao portão que me fui apercebendo de vários subentendidos, sendo o principal deles a enorme quantidade de tempo decorrido desde a última vez que ali estivera. Esse tempo como que se ia desdobrando ao ritmo das minhas passadas pelo passeio juncado das folhas amarelas do Outono.
Aquela não era uma área da cidade que costumasse frequentar e, ao chegar ao local onde tinha a minha reunião marcada, fui informado, por entre mil pedidos de desculpas, que esta teria de ser adiada por cerca de noventa minutos, uma vez que o meu interlocutor estivera retido num aparatoso desastre na autoestrada e encontrava-se ainda em trânsito.
Hesitei por uns momentos quanto ao que fazer. O dia estava de chuva, miudinha, todavia suficientemente persistente para obrigar a guarda-chuva, mas, por outro lado, não me apetecia ficar - como fora simpaticamente proposto - e aguardar numa sala de espera folheando revistas ocas de páginas lustrosas. Saí, tomei um café lento e quando voltei a olhar o relógio tinha ainda uma hora de espera à minha frente. 
No exterior, a chuva parecia ter parado, mas era apenas uma ilusão e em menos de nada as lentes dos meus óculos ficaram granuladas por gotículas. Foi após as limpar e ao olhar através delas para lhes testar a transparência que a minha vista embateu na placa toponímica identificando a rua que nascia naquela esquina. É uma alameda curta, estreita, ladeada por árvores antigas, com pouco trânsito, e é curioso como ao desviarmos por aí, saídos de uma rotunda de trânsito desenfreado, nos envolve a sensação de entrar numa dimensão mais pausada do tempo. Talvez o facto de se apelidar Rua da Meditação influencie essa impressão, ou talvez ela provenha de o topo da rua nos aparecer obliterado pelo muro do cemitério; não sei. O certo é que, ao caminhar em direcção ao gradeamento do portão, o tempo como que se foi desenrolando e refazendo ao ritmo do andar e, ao longo do passeio, como em expositores de rua, pareciam ter sido expostos, a preço convidativo, acontecimentos da minha vida pregressa. 
O meu pai morrera - tive de fazer cálculos para a quantia exacta - há catorze anos e era esse o tempo ao qual eu não voltava ao cemitério. Não muito após a sua morte, a minha vida profissional sofrera um abanão e fui empurrado a mudar de cidade, algumas centenas de quilómetros passaram a interpor-se entre mim, a sua campa, e a vontade de lá regressar para uma visita. Cinco anos volvidos foi a vez da minha mãe, que - para surpresa minha e da minha irmã - deixara escrito o desejo de ser cremada e dos seus restos mortais serem depositados num cemitério diferente daquele onde repousava o nosso pai.
"Ela já me tinha falado nisso, assim por alto, mas não dei continuação - são conversas sempre desagradáveis. Até lhe disse: 'mas a mãezinha não prefere ficar ao pé do papá?'."
Mas a nossa mãe, a crer na explicação da minha irmã, encorrilhara os ombros e argumentara que havia que se ser prático nesses assuntos: o cemitério que ela apontava estava apetrechado com crematório e oferecia uma modalidade de dispor das cinzas que lhe agradava, a qual consistia na plantação duma roseira sobre a covinha onde estas eram enterradas.
"Já lá estive e é muito agradável, é como se fosse um jardim, todo relvado e com vista para o rio..."
"Vista para o rio! Imagina.... Encolhe os ombros perante a hipótese de ficar ao pé do paizinho - como se fosse uma fantasia tola - e depois escolhe um sítio em que se vai transformar em rosas e tem vista para o rio!"
A minha irmã sempre tivera aquele feitio, um tanto para o bruto na afirmação das suas opiniões. Não que, no fundo, eu pensasse muito diferente dela, mas ouvi-lo, no dia da cremação dela, à medida que percorríamos as alas do cemitério e nos afastávamos do tal jardim com vista para o rio, chocou o meu desalento. Na ocasião nenhum de nós o sabia, mas essa tarde foi praticamente uma das últimas em que nos vimos: pouco depois o meu cunhado foi transferido para a sede, em Buenos Aires, da firma de adubos orgânicos em que trabalhava como engenheiro químico e por lá foram fazendo vida e depenando os anos, ela enredada na sua neurose de badejo, o marido com os derivados do guano, e os filhos crescendo, criando raízes e não querendo equacionar, sequer, a hipótese de um dia regressarem à origem.
A campa do nosso pai fica numa secção privada do cemitério, o que a tornava mais fácil de reencontrar. Durante quarenta anos ele fora arquivista na secretaria de um hospital, propriedade de uma irmandade religiosa, e essa fidelidade à casa abrira-lhe a possibilidade de vir a contar com um talhão de terra naquele cemitério. Já velho, recordo ouvi-lo falar sobre isso como uma apreciável vantagem, uma taluda que conseguira e quase não merecera! "Perpétuo!", dizia referindo a eternidade da possessão daqueles dois metros quadrados, onde, na qualidade de cônjuge, haveria também lugar para a minha mãe, pois durante vinte anos ele descontara mensalmente para essa benesse complementar.
O pedaço que lhe fora destinado situa-se numa espécie de praceta, delimitada pelas traseiras de um quarteirão de jazigos, e identifiquei a campa pela aproximação ao melancólico anjo de bronze que espreita do espaço livre entre duas paredes de granito. A sepultura dele, assim o quisera, era do mais simples: apenas uma pedra de granito cinzento onde figura o nome e o ano do nascimento e da morte. Mas, embora a campa estivesse muito limpa e a terra circundante livre de ervas daninhas, o estado em que se encontrava a lápide como que sublinhou a vermelho o tempo que passara sem ninguém ali voltar: as letras do sobrenome estavam quase apagadas; a data de nascimento, deslavada pelas intempéries e pela erosão, não se conseguia mesmo ler.
Olhei o relógio e tomei uma decisão rápida; os meus passos, arrastados à chegada, ganharam velocidade e determinação. Reparara que, vizinha da florista onde comprara o pequeno arranjo em verdes e amarelos para enfeitar a sepultura, convenientemente fronteiro à entrada principal do cemitério, existia um estabelecimento especializado em jazigos, mausoléus, estátuas e outras utilidades funéreas. Aí me dirigi. 
O meu problema foi facilmente identificado pelo homem que ocupava o pequeno escritório que, sob um telheiro, antecedia o terreno a céu aberto em que se atarefavam alguns homens e donde chegava um zumbir monótono de serras.
"Catorze anos é tempo...", disse ele como se falasse de um prazo de validade vencido há muito.
"É algum..." respondi pensando na eternidade que o meu pai julgara comprada.
Ajustámos o negócio, o preço da reparação, o modo como seria concretizada, o tempo que demoraria
"É fácil", continuava a garantir o proprietário, "vai lá um dos empregados e trata de reavivar os dizeres, voltam-se a pintar as letras como estavam. Agora só preciso que me diga onde fica a sepultura."
Eu não sabia nem a secção nem o número que a identificavam, mas até isso, segundo ele, era fácil de ultrapassar. Um dos empregados foi chamado a acompanhar-me, de novo, ao cemitério, para que lhe indicasse o local.
"Você conhece bem isto?", perguntei, já entre muros, para fazer conversa.
Ele olhou-me como se não conhecesse outra coisa e a pergunta fosse absurda. 
"Não devem passar dois dias que aqui não entre..."
Era um tipo ainda novo, baixote, magricela e, na cabeça, tinha enfiado um chapéu mole, de feltro verde e bicudo na ponta, como os que usam os duendes. Na face, coberta por uma poalha lívida de pó de mármore, os olhos, um nada estrábicos, brilhavam de segurança quanto ao terreno em que se movia.
"Fica no terreno da Irmandade?", foi adivinhando à medida que nos íamos aprochegando.
Ao longo do trajecto, tão indiferentes à chuvinha que caía como o meu companheiro, cruzámo-nos com duas gaivotas gordas e fomos vistos por três gatos, igualmente anafados, que espreitavam da cobertura de jazigos ou se empoleiravam em peanhas de gesso. Comentei o facto, perguntei-me onde arranjariam eles, ali dentro, a comida. 
"São as pessoas, quando vêm ver os mortos... Trazem para os gatos, mas as gaivotas antecipam-se."
"Mas hoje não se vê por aqui muita gente", contrapus, pois, desde que chegara, só avistara três ou quatro pessoas.
"É da chuva... É sempre mau para o negócio. Se você for ali, às floristas, vê que estão às moscas, como nós. Hoje, você foi o primeiro cliente que tivemos."
Chegáramos ao pórtico que assinalava a fronteira entre o terreno comum do cemitério e a secção privada pertencente à Irmandade, um desvão encimado por uma ampulheta em granito dotada de asas. Sustive um pouco a marcha para que o meu guarda-chuva não embarrasse o de uma senhora, já de idade, que saía. Ao cruzarmo-nos, ela baixou a cabeça num agradecimento discreto pela precedência e a sua cara pareceu-me vagamente familiar.  Entretanto, o rapaz adiantara-se e já deitava uma mirada rápida à lápide da campa do meu pai e distribuía olhares em volta, estabelecendo as coordenadas exactas do cliente. E, por não precisar mais de mim, desapareceu de regresso à sua oficina, deixando-me à minha sorte. 
Com todos estes imprevistos, acabei por chegar atrasado dez confortáveis minutos à minha reunião, o que possibilitou ao interlocutor receber-me limpo de remorsos pelo seu percalço rodoviário.

Umas três semanas mais tarde atendi uma chamada telefónica de um número desconhecido.
"O senhor desculpe só ligar hoje, mas aquilo atrasou-se - com o tempo que tem feito tivemos de ficar à espera, não é compatível estar a pintar letras à chuva. Mas está pronto, pode ir lá ver quando quiser."
Aquele "pode ir lá ver quando quiser", uma simples afirmação de serviço concluído, calou em mim e comecei a sentir algo parecido com o estar em falta perante uma obrigação. Não era minha intenção voltar à minha cidade natal no imediato nem, de modo algum, duvidei das palavras do outro quanto à reparação. Mas, nem quinze dias passavam, a um meio de manhã de Sábado, estacionei o automóvel nas cercanias do cemitério. Estava um dia de inverno frio e nítido e na Rua da Meditação as copas das árvores, agora nuas de folhagem, erguiam no céu delicadas circunvoluções rendadas que o sol escrutinava e, ao portão do cemitério, o carro de um vendedor de castanhas deixava escapar no ar uma elegante voluta de fumo branco.
Como se o tivessem andado a lavar durante a noite, uma fina capa de humidade cobria ainda o recinto e o mármore das estátuas rebrilhava à luz, assim como o chão das alamedas, pavimentado por pedaços quebrados de lápides e restos de sepulturas antigas, já distantes de alguém que lhes pudesse atribuir significado. Havia pouca gente, mas, desconfiadas, as gaivotas patrulhavam por ali, sisudas como polícias de mãos atrás das costas e reduzidos pelo reflexo de um espelho convexo. Gaivotas e parquímetros, fora essa a maior diferença que notara na cidade desde que a abandonara. Elas vigiavam as ruas montando guarda do cimo dos edifícios, enquanto cá em baixo, nas margens dos passeios, os parquímetros abocanhavam o restante espaço livre. 
Quanto ao cemitério - a luz clara da manhã expunha-o com crueza - o abandono percebia-se por todo o lado: pedaços de pedra tinham tombado dos beirais dos jazigos, a meio de uma álea uma enorme taça de pedra podia ter esmagado alguém que passava, e a passagem do tempo decepara a cabeça a uma estátua de mulher em tamanho natural. Neste contexto de ruína eminente, atravessei o desvão para a secção da Irmandade mirando com desconfiança a ampulheta alada que velava no frontão do arco: bastava uma gaivota pousar ali para poder desencadear uma desgraça, pensei, abalado na fé de encarar os cemitérios como lugares de paz e harmonia.
Ao aproximar-me do recinto onde ficava a sepultura do meu pai, observei um vulto sentado na lápide de uma das campas - era uma senhora já de certa idade e estava a cuidar dum pequeno arranjo floral ao topo... Com surpresa crescente fui apercebendo que, na pedra onde estava sentada, cintilavam, refeitas, as letras douradas do nome do meu pai e que a dama, entretida a catar pétalas murchas às flores, parecia ser a mesma que se cruzara comigo no dia em que lá estivera com o duende da serração de mármores.  Sim - sem dúvida - era a mesma pessoa, concluía agora que estava mais perto: o mesmo casaco cinzento de gola levantada, o mesmo cabelo branco apanhado num pequeno puxo sobre a nuca, a mesma carteira castanha onde ela, nesse preciso momento, guardava as pétalas velhas amontoadas na placa de granito. 
"Estou aqui a varrer a campa do teu pai... O arranjo que trouxeste era bonito e durou bastante, mas vai-se desfazendo com a passagem dos dias, já se sabe."
A minha mãe levantou a cabeça do que fazia e olhou-me com um sorriso que apenas os olhos pareciam não acompanhar.
"Viste que bem ficaram as letras?"
"Vi, já vi; estava a reparar nisso..."
"Foi aquele rapaz que veio aqui contigo... Olha que esteve umas duas horas à volta com isto: raspou as letras e os números um a um, avivou os entalhes e, a seguir, pintou... Ter-lhe-ia dado uma moeda, se a tivesse..."
"Não se rale, mãe, depois eu passo por lá a deixar."
"Ao tempo que isto se começou a degradar, as letras a descascar, cada dia um nadinha mais... Uma vez esteve aí a tua irmã, tentei dizer-lhe, mas ela não me ouvia, entretida a choramingar e a assoar-se! Há muito que não a vejo - talvez que venha nos Finados, mas evito vir nesse dia, a confusão e o cheiro de tanta vela põem-me zonza..."
"Ela agora não mora cá, mãe, há quase sete anos que foi para Buenos Aires; o Anselmo trabalha lá agora — que eu saiba não voltou ao país."
"Buenos Aires!", a minha mãe suspirou e, dando como terminada a tarefa de limpar os desmanchos do arranjo floral, pôs-se a arrancar as pequeninas ervas que, timidamente, levantavam hastes entre a campa e o terreno circundante.
"E a Doroteia? Não veio contigo?"
"Já não somos casados... Ela seguiu a sua vida e eu a minha..., já faz tempo."
"Tempo", disse ela em tom desdenhoso, "é coisa que não tem medida certa: tanto parece demasiado como muito pouco".
Ficou imersa em pensamentos por uns minutos, as mãos finas - que recordava tão bem de quando as passava pela minha cabeça chorosa e me acalmava dos males - acariciando ao de leve as tenras hastes verdes que brotavam do solo.
"Sabes, durante vários anos tive remorsos por pensar que podia ter matado o teu pai...; mas, agora, já me passou."
"Aquela história das castanhas assadas?"
"Sim", respondeu num fio de voz.
O meu pai falecera num entardecer gelado de Novembro e na véspera, dia de S. Martinho, atulhara-se com as castanhas que a minha mãe assara, sabendo que se pelava por elas. No final do jantar, ele passara umas mãos arrependidas pelo contorno da barriga e desabafara à cozinheira:
"Mataste-me com tanta castanha!" 
"Foi uma força de expressão; o paizinho não morreu disso, como sabe: o médico garantiu que foi um enfarte fulminante. Ele já tinha a dor..."
"Eu sei, eu sei... Mas demorou até que me convencesse; acho que foi porque, finalmente, descobri que quase nada depende de nós, sabes, que pouco podemos fazer ou interferir no rumo que as coisas já trazem em si..."
A garganta apertou-se-me no peito. Ainda a meio da frase, ela voltara a levantar a face da tarefa de alisar as ervinhas e olhara-me com uma expressão de resignação que os olhos, um tanto inexpressivos, pareciam não acompanhar.
"Vou andando, mãezinha, agora moro longe daqui..."
Ela levantou-se, esfregou as mãos uma na outra a sacudir os grãos de terra.
"Vou contigo até à porta."
Em silêncio, lado a lado, percorremos o caminho de volta até à saída do cemitério, silêncio interrompido uma só vez para ela assinalar um gato que se nos atravessara à frente.
"Já viste a quantidade que há por aqui? Antigamente não havia tantos gatos nos cemitérios, enxotavam-se, achava-se que eram animais que arrastavam azar. Coitados dos bichos. Outro dia vi aqui um igualzinho ao Dingdong... Lembras-te do Dingdong?"
"Então não lembro? Não fui até eu que o baptizei?"
"Foste, foste, por causa da campainhazinha na coleira..."
Chegáramos ao portão principal do cemitério e, olhando para além das grades, a minha mãe comentou:
"Rua da Meditação... Gosto tanto do nome desta rua. Nunca deviam dar às ruas nomes de pessoas - com o tempo passa a não significar nada."
"Adeus, mãezinha. Fica aqui?", perguntei ao vê-la estacar na soleira do portão.
"Fico. Se calhar ainda volto lá dentro. Vai em paz, guia com cuidado..."
Estendeu uma mão na direcção da minha cabeça, como se fosse sua intenção fazer-me uma carícia. Tirei o chapéu, mas os seus dedos hesitaram antes de me alcançar e suspendeu o gesto.
Atravessei a rua, entrei na oficina dos mármores a deixar a gorjeta e quando saí o meu olhar procurou o portão do cemitério. Ela desparecera de vista. Subi a rua em direcção à rotunda e ao carro, que estacionara ali perto. A meio da rua, um impulso fez-me olhar para trás: ela estava parada do lado exterior do gradeamento, aninhada a um dos grossos pilares de pedra onde estão encastrados os gonzos do portão, e levantou o braço num aceno muito leve, a carteira castanha a balouçar no braço que se movia.
© Fotografias, pedro serrano, Porto 2010, 2019.

28 novembro 2019

A CULTURA DO DESCANSO (no sentido intelectual do termo)

Rafael Esteves Martins, o insinuante pagem de Joacine Katar Moreira, declarou a um orgão de comunicação social que [sic] "parece-me ocioso explicar que não há propriamente uma normatividade daquilo que se faz. Há culturas de trabalho, e a cultura de trabalho da senhora deputada é uma cultura de descanso no sentido intelectual do termo, ou seja, sem interrupções".
Quem fala assim, não é gago, reconheça-se: é, antes, pretensiosamente parvo.
Já quanto à senhora deputada, após ter deixado passar o prazo para entregar na Assembleia um trabalho importante para o Livre (ao que supomos à sombra da influência da tal cultura de descanso), explicou aos jornalistas que [sic]: "Eu acho que é preciso nós iniciarmos a respeitarmo-nos uns aos outros. E se vos for avisado e antecipado que eu não ia dar entrevista absolutamente nenhuma, o que se espera é que haja um respeito".
Mas, cara Joacine, e se, para a minha cultura de um intervalo no descanso, não for para mim avisado seguir a sua sugestão, como hei-de então iniciar nós? 
É que aqui é que reside o búzio, digo, o busilis!