09 novembro 2018

ICH WEISS NICHT WAS SIE SAGEN (Não sei do que estão a falar)

Embora afirme ter mais de trina anos de “vida pública”*  José Silvano (secretário-geral do PSD) parece desconhecer algumas regras que norteiam essa mesma função, pelo menos para os vulgares mortais que nela trabalham. Aqui, na função pública, o que acontece a quem faz o que fez, é ser sujeito à instauração de processo disciplinar por – alegadamente, não posso esquecer – ter falsificado um registo de assiduidade e por ter lesado o chamado erário público ao receber dinheiro que não lhe era devido. As consequências podem ir da falta injustificada à suspensão ou expulsão da função, depende.
Mas o senhor parece não só ignorar o enquadramento do que, repetidamente, praticou mas, numa “relação dinâmica entre eleito e eleitores”, para parafrasear Fernando Negrão, líder parlamentar do PSD, ainda tenta convencer os parvos de que é alheio a quem marcou presença por ele, como se vulgar fosse contar com um anjo da guarda que vela e se apressa a pôr a cruzinha no registo, mesmo sem que lhe seja pedido. Ó mundo maravilhoso: ele nem queria, mas alguém que conhecia a sua palavra-de-passagem o fez... “Não, não faças isso, podes-te prejudicar, podes-me prejudicar...”, admite-se até que possa ter pensado, infelizmente tarde demais. É lindo, assistir a esta partilha, esta solidariedade nos apertos da chatice de ter de estar no emprego para receber um subsídio de presença.
E aquilo que é, para o rebanho, motivo de sanção, torna-se, para as rarefeitas personagens que nos gerem e representam, uma “mera questiúncula”, um  pormenor que diz somente respeito aos serviços administrativos da Assembleia da República. Ele, José Silvano, o próprio, magnânimo, já mandou, inclusive, pedir que lhe marquem as faltas, vai devolver o dinheiro recebido..., que “é também isto a democracia”, como logo inferiu Negrão.
Alegremente, Rui Rio, vai assinando por baixo, desvalorizando, mantendo confianças, dando tiros nos sapatos e conduzindo mais fundo o PSD na insignificância em que se encontra.     
* Alguns cargos exercidos por José Silvano segundo o site da Assembleia da República:
Comissão Eventual para o Reforço da Transparência no Exercício de Funções Públicas [Coordenador GP na Assembleia da República] / Presidente da Câmara Municipal de Mirandela / Presidente da Assembleia Municipal de Mirandela / Provedor da Santa Casa de Misericórdia de Mirandela / Presidente da Assembleia Geral das Águas de Trás-os-Montes / Deputado da Assembleia da República / Presidente do Conselho de Administração do Hospital Terra Quenta, S.A. / Presidente do Conselho de Administração do Complexo Agro Industrial do Cachão / Presidente da Associação de Municípios da Terra Quente Transmontana / Presidente do Conselho de Administração da Empresa Resíduos do Nordeste / Diretor Executivo da Agência do Desenvolvimento Regional do Vale do Tua / Presidente do Conselho de Administração dos Serviços Municipalizados de Mirandela / Presidente do Conselho Local da Ação Social / Presidente do Conselho Local de Educação / Presidente do Conselho de Administração da Escola Profissional de Arte de Mirandela / Presidente do Conselho Fiscal do Sport Clube de Mirandela / Membro do Conselho de Administração do GAT.


06 novembro 2018

Leonard Cohen: A chama e o fogo (a propósito de um livro póstumo)

              Sure it failed my little fire
              But it’s bright the dying spark.

Dois anos redondos após a sua morte (7 de novembro 2016) foi posto à venda um novo livro de Leonard Cohen. Na impossibilidade de o pai o ter feito em tempo útil, The Flame teve o título escolhido pelo seu filho Adam, que justifica a escolha invocando algumas das palavras mais usadas pelo pai ao longo da sua vida de cantor, poeta e escritor: fire, flame, naked, broken. Não restam dúvidas de que foi bem achado, basta recordar o modo como Cohen se referia à vida e ao seu carácter de derrota invencível (invencible defeat), convicção reencontrada, com um aperto na garganta por quem lê o refrão de ‘What Happens to the Heart’, poema que abre The Flame e  datado de 24 de Junho de 2016, a uns escassos quatro meses da morte do autor: Sure it failed my little fire/But it’s bright the dying spark.
The Flame segue uma estrutura semelhante à de outros livros de Leonard Cohen, como Stranger Music (1993) e The Book of Longing (2006), e contém poemas, letras de canções, autorretratos e desenhos, encerrando-se, por desejo do autor, com o belo texto do discurso de aceitação que fez, em Outubro de 2011, ao receber o prémio Príncipe das Astúrias.
Os poemas, em número de 64, ocupam a primeira parte, sendo a segunda preenchida pelas letras das canções dos últimos três álbuns de estúdio gravados (Old Ideas, 2012; Popular Problems, 2014; You Want it Darker, 2016), bem ainda como pelas letras da dezena de canções que escreveu para o CD Blue Alert (2006), de Anjani Thomas, a última companheira da sua vida e voz recorrente nos coros de vários dos seus discos desde 1984.
Quanto aos desenhos e autorretratos, foram sabiamente entremeados ao longo do livro e alguns deles remontam às suas estadias no modesto hotel Kemps Corner, em Mumbai, onde Leonard Cohen ocupava regularmente o quarto 215 durante as suas sessões de aconselhamento espiritual na Índia.
A última parte do livro é ocupada maioritariamente por entradas e registos dos numerosos cadernos de notas mantidos por Mr. Cohen, a que se somou também alguma troca de correio electrónico, mormente o último mail que, na véspera da morte, escreveu agradecendo a recepção de fotos dos filhos da sua ex-mulher, a actriz Rebecca de Mornay.
Anjani Thomas na cozinha de Leonard Cohen (foto Lorca Cohen)
Aliás, ao longo das páginas de The Flame, em versos de poemas ou notas dos cadernos, vão sendo citadas pessoas que foram importantes na vida de Leonard Cohen, como se – e isso é consistente com a tendência para explicitar agradecimentos dos seus últimos anos – quisesse deixar o rasto dessas menções em herança: nelas constam os nomes de Annie (Georgianna Anne Sherman, o seu primeiro amor adulto), Nico (um amor frustrado da época da Factory de Warhol e do Chelsea Hotel), Marianne Ihlen (a norueguesa da canção homónima), Anjani, Bob Dylan (de quem Cohen era admirador confesso) e Roshi (o seu mestre zen  japonês). Mas nem só pessoas parece Mr. Cohen querer relembrar ou despedir-se de: um dos poemas louva, com humor, a ajuda de um novo antidepressivo e duas das entradas das notas em cadernos sublinham a gratidão à Grécia, onde viveu sete anos, uma delas para afirmar que “não podia escapulir-me sem vos dizer que morri na Grécia, fui enterrado naquele lugar onde o burro é amarrado à oliveira, sempre estarei lá”.
Apesar de póstuma e de parte do conteúdo não ser inédito, a totalidade da obra, desde os poemas aos desenhos e às notas dos cadernos, foi escolhida e acompanhada por Leonard Cohen e constituiu o seu último trabalho em vida ao longo do penoso Verão de 2016, como se fica a saber pelos prefácios e posfácios que acompanham o livro, assinados por pessoas que lidaram intimamente com o autor nos últimos dias.

The Flame foi editado em Outubro de 2018, simultaneamente no Canadá, pela Penguin Random House, nos Estados Unidos, por Farrar, Strauss and Giroux, e em Inglaterra, pela Canongate.



Ao lado: fotografia da contracapa de The Flame, da autoria de Joel Saget.

25 outubro 2018

VICEVERSAMENTE

Classicamente, a minha casa tem um jardim à frente e um quintal atrás. Nas traseiras, o pequeno terreno está separado do quintal da vizinha por um muro de tijolo perfurado, o que permite ver o que se passa de um lado ao outro, viceversamente.
Do lado de lá, o terreno é relvado e há um galinheiro ao fundo, mas, como sucedeu com os asilos psiquiátricos, as portas mantêm-se abertas e os detidos passeiam em liberdade. Um deles é uma perua branca, elegante, que enche o ar de vocalizações que mais parecem alguém tomado e afligido por soluços, um piar entupido. Esta perua é curiosa e tem predileção pela proximidade do muro perfurado por onde, com um olho de perfil, espreita o que se passa no meu território, o que inclui as ruidosas deambulações sobre folhas secas do cágado Megabyte, a gata Nikita e, o que mais a interessa, a Carlota, que a presenteia com cascas de frutos, pedaços de pão seco e outras iguarias.
Quando lhe tomba algum destes presentes do céu do muro, a perua solta um curto entrecho de vocalizações que se destinam a avisar uma ou duas galinhas mais distraídas de que a comida está servida. Ei-las que se aproximam oscilando sobre as patas, esbaforidas e tomadas pela gula, mas, embora generosa, a perua branca aproveitou o tempo que demora a chegada para comer tanto quanto pôde, o que não foi tudo mas foi o suficiente.
Alheado, do lado sul do muro, o Megabyte continua a sua ronda pelo rodapé do muro: já comeu e o que o interessa agora é encontrar a poça de sol mais esfuziante.

© Fotografia de pedro serrano, julho 2017.

06 outubro 2018

DACHAU

Piemonte, Alpes italianos.
1.
Em Janeiro de 2016 fui levar o meu filho à Alemanha, país onde mora há meia dúzia de anos. Entrámos pelo sul, vindos da Itália, e o nosso destino era Berlim, mas fizemos uma paragem em Munique. No dia seguinte percorremos os poucos quilómetros que nos separavam de Dachau, onde está o que sobra do Campo de Concentração (CC), inaugurado, com direito a notícia num jornal, em 1933, e pensado inicialmente para opositores ao regime de Hitler. Dachau foi o primeiro CC estruturado e, sendo, à época, Himmler – o grande ideólogo dos CC e das estratégias de extermínio – director da polícia política de Munique, sob vários aspectos Dachau foi concebido como um campo modelo, o que, de facto, aconteceu, tendo os seus regulamentos servido de inspiração aos campos que entretanto foram criados dentro e fora da Alemanha. Sendo um Campo modelo, fazia parte da sua vocação ser mostrado ao exterior e duas das suas enfermarias, por exemplo, estavam dotadas do equipamento técnico necessário a produzir boa imagem nos visitantes: dois blocos operatórios modernos, aparelho de RX, electrocardiógrafo, médicos, enfermeiros. A propaganda foi sempre uma preocupação dos nazis ao longo de todo o seu reinado. Em Dachau todos esses aspectos relacionados com a imagem foram sendo aperfeiçoados ao pormenor nos primeiros cinco anos de funcionamento e até os detidos que os visitantes viam deambular pela parada eram cuidadosamente escolhidos no aspecto e treinados no que dizer caso fossem interpelados.
Em 1939 a Alemanha desencadeou a guerra, uma guerra longamente preparada e desejada, e Dachau (mais uma dezena de pequenos campos satélite das redondezas) tornou-se um entreposto de tortura, assassínio e experimentação médica, embora ali nunca tenham sido atingidos os níveis industriais de extermínio de campos como Auschwitz ou Treblinka, sabiamente empurrados para fora das fronteiras alemãs do III Reich.   
2.
Médicos descansam no regresso de Dachau, 1941.
Dachau dista 40 Km de Munique, é inverosímil que a capital da Baviera não soubesse o que ali se passava (seria semelhante a ter um CC em Vila Franca de Xira, e Lisboa ignorar que ali se desenvolviam actividades estranhas). Ah, sim, se o vento soprava de norte havia um fedor nauseabundo, um fumo espesso em permanência no céu. Ah sim, é certo que havia na grande cidade quem beneficiasse do trabalho doméstico, grátis, dos prisioneiros, quem os pedisse emprestados para a construção de casas a figuras do regime, devolvendo-os no final. Ah sim, os médicos que vinham doutros pontos da Alemanha ajudar à selecção dos aptos para trabalho ou para extermínio ficavam hospedados em hotéis de Munique, onde eram diariamente recolhidos por motoristas ao serviço do CC para aí serem, de novo, reconduzidos ao fim de uma árdua jornada de trabalho.
“Hoje seleccionei 1.200 detidos”, informava, por carta, um deles a mulher, deixando transparecer uma sensação de realização e dever cumprido.  
3.
Numa óptica médica, as relações entre o CC e a grande cidade eram intensas e o reitor da Universidade de Munique acumulava funções com as de responsável científico pelas experiências que, usando prisioneiros como cobaias, incidiam na investigação em malária, hepatite, cancro, medicina aeronáutica e novos medicamentos; ensaios conduzidos por médicos diplomados, especialistas,  universitários, e documentados com detalhe, fotografados ou filmados e dados a conhecer a um Himmler entusiasmado, que apoiou, louvou e condecorou os autores, nunca se inibindo, como era sua índole, de dar opiniões sobre qualquer assunto, fosse científico, jurídico ou logístico. Ao nível nacional, as relações médicas do CC estendiam-se ao prestigiado Instituto Robert Koch (de Berlim), que forneceu apoio em pessoal, ovos, sangue e mosquitos infectados, e, como é natural, à fogosa indústria farmacêutica alemã, a qual pôs ao dispor dos Campos drogas teoricamente promissoras. Preparando a colonização dos territórios conquistados, o III Reich precavia-se do paludismo, endémico em muitos deles, quer pelo desenvolvimento de novas terapêuticas quer pela procura de uma vacina. Igualmente, as autoridades nacionais viam como crucial o aprofundamento do conhecimento sobre a infecção de traumatismos e feridas de guerra, pelo que nada melhor do que recriar condições análogas em detidos, criando feridas e traumatismos artificiais pelo método de esmagar ossos à martelada, impedir cirurgicamente a vascularização muscular ou injectar pus nas veias dos detidos.
A indústria de guerra seguia, também, com atenção as experiências levadas a cabo em Dachau e outros CC, pois os ensinamentos colhidos reverteriam directamente a favor do esforço de guerra alemão. Por exemplo: à medida que o conflito evoluía, aumentava o número dos pilotos cujas aeronaves eram atingidas pelo inimigo e forçados a ejectar-se e a permanecer no mar por longos períodos, exposto ao frio, à fome e à sede. Assim, as experiências sobre ingestão de água do mar, levadas a cabo em detidos saudáveis, distribuídos cientificamente por grupos experimentais e grupos de controlo, eram classificadas como de alto interesse nacional.
Dos estudos levados a cabo em Dachau, alguns pré rotulados como “experiências terminais”, resultaram muitas centenas de mortos, pois nem todos aguentaram a submissão a condições extremas (simuladas em laboratório) de baixa temperatura e alta altitude; a ingestão de litros de água salgada como único alimento; a inoculação de produtos biológicos infectados ou o tratamento com quantidades tóxicas de drogas.
Apesar de tudo, estas mortes em nome da ciência e do triunfo militar, infligidas a pessoas categorizadas como sub-humanos, foram uma gota de água no universo dos milhares que em Dachau sucumbiram à subnutrição, às doenças endémicas (50 % dos detidos contraíam tuberculose), às epidemias (tifo e sarna, por exemplo); ou que foram flagelados até à morte, executados a tiro, gaseados e reduzidos a cinzas entre 1933 e 1945, ano em que o CC foi libertado pelos americanos a 29 Abril, um Domingo.
Dachau: Entrada do memorial do campo de concentração.
4.
Não é fácil dar com o local... Na pequenina cidade de Dachau, a uns três km do CC, as placas nada indicam. Há bombas de gasolina, hipermercados, cafés, casas bem conservadas; o esmero de uma terra germânica, cuidada e ordenada. Mas placas que indiquem como ir ter ao Campo... A páginas tantas, num letreiro que indica outros lugares, lá se descobre um KZ – o que pode ser abreviatura para Campo de Concentração, embora a mais comum seja KL (Konzentration Lager) – seguido da palavra “Memorial”, tudo apenas em alemão. Tão pouco evidente, que recorremos a GPS para chegar e, subitamente, mais rápido e próximo do que esperaríamos, deparámos com um placard e um local de estacionamento no que poderia bem ser o ambiente de um parque para picnics.
O coração aperta-se um pouco ao deixar a protecção do automóvel, ao pousarmos os pés na lama gelada: nevou, choveu, a manhã está desiludida, fria e cinzenta como convém a sítio destes. Mas, para além da placa que anuncia o Campo, continua sem se ver nada, somente árvores, arbustos, a água que brilha por entre o lamaçal, os pedaços branco-sujo de neve acumulada. Sob uma pequena ponte corre um riacho pouco profundo, de leito disciplinado e trajecto rectilíneo; constataremos que circunda o CC e que não é inocente esta esquadria: além dos muros e da vedação reforçada de arame farpado, uma das quais electrificada, era mais uma barreira a dificultar a fuga; sobrava-lhe ainda a vantagem de naquelas águas se poderem despejar cinzas comprometedoras.
Dachau: Reminiscência do ramal da linha de comboio.
De súbito, no chão, duas linhas paralelas orientam o olhar para um enorme portão de ferro; são os restos, quase estilizados, do ramal da linha de caminho de ferro que trazia os prisioneiros até à sua nova, e frequentemente última, morada.
5.
No interior do recinto – uma enormidade de mais de 500 metros de comprimento por 260 de largura – o que, absurdamente, mais me impressionou não foi o encontro com a câmara de gás ou os 5 fornos crematórios, foi, antes, os livros numa vitrina – sobras da pequena biblioteca que os prisioneiros (exceptuando os judeus) podiam requisitar –, livros que poderiam pertencer a estantes das nossas casas. De algum modo, estamos à espera que tudo no CC se refira a um tempo longínquo, que os livros tivessem capa de carneira e folhas pergaminhadas impressas com caracteres antigos, que o mal se passasse à luz de tochas... Mas não, aqueles livros poderiam estar na montra dum alfarrabista do nosso bairro e a iluminação dos pavilhões era feita com lâmpadas; pelo mundo havia telefones, aviões, submarinos, bomba atómica, jornais, Chanel, Burberry, Mercedes, BMW; o século XX ia na metade...
Deambula-se de pavilhão em pavilhão, imaginam-se três detidos por beliche, os uniformes miseráveis e grosseiros, a gamela, a caneca e a colher de alumínio da subnutrição premeditada; os magotes de retretes sem divisória ou privacidade; as mesas de tortura em madeira tosca, as portas blindadas e o pé-direito da câmara de gás (cientificamente baixo para que se gaste menos gás e a morte seja expedita); os fornos que lembram os de cozer pão; e o que mais fere e lateja no nosso entendimento é essa simplicidade e familiaridade de meios usados para rebentar os frágeis limites humanos. O segredo estava todo na imaginação de quem tinha o poder de vigiar os presos e muitos dos guardas eram escolhidos, numa lógica perversa de economia, entre criminosos comuns capturados e que eram deixados à solta na sua crueldade e sadismo. O Campo bastava-se a si próprio e, cada remessa que chegava, era recebida com um discurso esclarecedor, variando com o responsável, mas genericamente similar na esperança a estas palavras de boas-vindas que citamos: “Vocês não têm direitos, nem honra, nem defesa. São um monte de merda e serão tratados como tal.”
6.
Dachau: Alameda para a câmara de gás e fornos crematórios.
Dachau: Barrack X - Casa da câmara de gás e dos fornos crematórios.
Cá fora, ao encher o peito de alívio, numa curva do caminho, descobrimos que, longe dos barracões para não excitar o rebanho, a morada do gás e das chamas fica ao fim de uma alameda risonha e vicejante, e que a casa onde tudo tem lugar podia ser a da avó do Capuchinho Vermelho. Há até uns bucólicos bancos de jardim à sombra das paredes, como se nos pudéssemos sentar por ali em paz e tranquilidade. Tudo foi pensado ao pormenor e se, no resto do CC, o lema era despersonalizar, humilhar, reduzir a chama humana a um sopro, aqui o que se procura alcançar é precisamente o oposto: embalar e não alarmar as manadas que caminham para a morte ao ritmo possível de 150 convivas por sessão de câmara de gás, pois o pânico das multidões é árduo de controlar e produz desnecessários contratempos. Sim, estão sujos e irão tomar um banho – a água é calmante – e, para isso, precisam de despir a velha e encardida roupa, no final será distribuída roupa nova. Numa porta de metal está escrito Chuveiros e, lá dentro, parece um salão de banhos, com saídas de chuveiro no tecto baixo e o chão levemente inclinado para que a água conflua até ao centro e aos ralos que a escoam. E para que servirão aqueles janelos gradeados, quase ao nível do chão? Ah, isso já não vai interessar aos banhistas, que começam a estranhar o modo como estão a ser compactados naquele espaço de 40 metros quadrados... Dali a uns quinze minutos alguém vai espreitar por um desses janelos e ver se ainda há alguém em pé no interior ou se, como deve ser, resta apenas uma pira amontoada de corpos no chão. Do outro lado da câmara, mesmo em frente à porta de entrada, havia uma porta igual, estanque, de sólido metal, mas essa estava fechada quando entraram, empurrados pelo nu que entrava a seguir. Essa porta será aberta mal os vapores de ácido cianídrico do Zyklon B forem completamente aspirados pelos potentes exaustores disfarçados no tecto: do lado de lá da segunda porta aguardam quatro fornos crematórios, a carburar a todo o ímpeto. Funcionam a carvão, mas a gordura dos corpos ajuda também a que a combustão seja mais rápida. O calor é insuportável por ali e a actividade frenética. Queimar cento e cinquenta corpos e logo, meia hora depois, ter de lidar com mais cento e cinquenta tem que se lhe diga; um corpo humano dá uma trabalheira a eliminar e, ao contrário da alma, um simples fantasma, deixa rastos comprometedores...
Dachau: Porta da câmara de gás, identificada como "Chuveiros".
Dachau: Interior da câmara de gás (40 m2, capacidade 150 pessoas).
Dachau: 2 dos 5 fornos crematórios.
Mesmo por cima dos fornos crematórios, nas traves de madeira que sustentam o telhado,  ainda se notam uns ganchos de metal cravados na madeira. Ah! aquilo servia para enforcar alguns dos mais problemáticos e quando era intenção que percebessem onde iriam parar logo a seguir, mal o corpo deixasse de dançar na ponta da corda. É claro que os cadáveres se borravam todos, quem não se borraria só de olhar para aquilo, mas nada de grave: tudo seria submetido rapidamente à limpeza do fogo que bafejava por baixo.   
Dachau: Travejamento por cima dos fornos crematórios com ganchos para enforcamento.
7.
Amparado a uma parede, fixando os beliches sobrepostos até ao tecto de telha vã onde se amontoavam os detidos, um jovem de parka amarela chora convulsivamente. Quem chorará? Algum antepassado concreto ou será um choro abstracto, por todos os mortos, pelo mal à solta que lhe vai sendo demonstrado a cada metro que percorre?
Dachau: Dormitórios dos detidos.
Dachau: prato, colher e caneca em alumínio dos detidos.
Ao perceber que ainda não dei por acabada a minha volta, o meu filho diz que vai andando e me espera no carro. Andamos por ali há quase duas horas e quase não trocámos palavra. Por vezes, vemos o mesmo expositor juntos, outras vezes eu continuo e ele fica, ou vice versa, chego a olhá-lo através do vidro do um expositor onde me detive, ou vejo-o caminhar à minha frente por uma das áleas e, primitivamente, penso que não é bom sítio para se andar sozinho.
“Vou já lá ter, ainda queria dar uma espreitadela na loja...”
Perto da saída, como acontece em todos os museus, há uma lojinha, pequena, modesta. Dentro, há sobretudo publicações sobre o CC, alguns documentários; embora, quem preferir, possa comprar um magneto para recordar Dachau de cada vez que abre o frigorífico. Paguei o livro, a senhora atrás do balcão meteu-o num saco plástico. Perguntou:
“Ainda está a chover lá fora?”
“Pouco, mas ainda chove...”
“Então vou pôr outro saco, para proteger o seu livro.”
Dachau: porta de entrada da zona dos detidos.
Agradeci o cuidado, saí e passei o portão entreaberto onde, em avantajadas maiúsculas de ferro, se avisa: O TRABALHO LIBERTA. Ninguém tentou impedir-me.
Dachau: Cerca electificada.




Nota: A quem estiver interessado em aprofundar o assunto, recomendo o livro de Stanislav Zámecník That Was Dachau, editado pelo Comité International de Dachau (Brussels; 2003) e/ou o site www.comiteinternationaldachau.com



© Todas as fotografias (com a excepção da foto histórica dos médicos de Dachau, pertença do Bundesarchiv, B162, fotografia -00680) são da autoria de pedro serrano, Dachau, Alemanha, 2016.

25 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 44. Epílogo

Nunca mais voltei aos Açores, nem ideia de lá voltar tão cedo enriquecia as minhas intenções. Mas o tempo rodou e, na segunda metade dos anos 80, quis o acaso que integrasse uma Comissão, dependente de serviços centrais do Ministério da Saúde, com atribuições na formação e especialização de médicos. E decidiu o presidente desse grupo que, anualmente, uma das reuniões de trabalho da Comissão tivesse ordinariamente lugar nas regiões autónomas; seria um modo de acompanhar in loco o que ali se passava.
Nos Açores reuníamos alternadamente em S. Miguel, na Terceira ou no Faial, este último o destino secretamente preferido da maioria, pois aquele conjunto de três ilhas à vista umas das outras – Faial, Pico, S. Jorge – animava o mar e diluía a sensação de isolamento; o aglomerado era, por si só, um mini-arquipélago de brinquedo.
O esquema da visita de trabalho obedecia, sem rigidez, a um modelo prático: íamos chegando ao destino na quinta à tarde, na sexta era o dia da prolongada reunião e, no Sábado, vestíamos a pele do turista e dávamos uma volta pela ilha antes de regressar ao Continente no dia seguinte, de manhã ou à tarde conforme os voos. Nessas excursões de Sábado era-nos geralmente posta à disposição uma carrinha e um colega local acompanhava-nos no passeio, durante o qual ia identificando e explicando os locais onde passávamos. Por vezes, ganhando certa cor de cronicidade com o decorrer dos anos, de um dos bancos da camioneta surgia uma pergunta que se me destinava:
“Não foste tu que estiveste aqui na Periferia?”
“Sim”, respondia, monocórdico, “mas não foi aqui, foi na Graciosa...”
Já mais recentemente, numa dessas viagens insulares da Comissão ao Faial (Comissão que evoluíra e se chamava agora Conselho), demos, no Sábado, uma volta pela ilha e, porque já fôramos incontáveis vezes visitar o vulcão dos Capelinhos e o museu adjacente, levaram-nos a esmiuçar as vistas da costa norte da ilha. Era um dia de Verão – talvez Junho ou Julho –, uma fina poalha, feita de evaporação, pairava no ar e eu seguia amodorrado no meu assento, olhando a paisagem sem a ver, sonolento e a pensar como seria bom parar para um café.
Às tantas, senti a carrinha abrandar à berma da estrada e, estremunhado, inquiri ao outro lado da coxia:
“O que é, porque paramos?”
O meu interlocutor encolheu os ombros, acrescentou: “Algum miradouro, alguma ermida com azulejos ou talha dourada...”
Maquinalmente, fomos deixando o veículo e, quando desci os degraus, havia já gente de mão em pala na testa ou a assestar a máquina fotográfica. Encabeçando um amontoado de três ou quatro almas, a colega do Faial avançara até à ponta da arriba e, esticando o braço, informava:
“Conseguem ver, ali ao fundo? É a Graciosa... Hoje estamos com sorte, pois nem sempre se vê.”

Olhei, franzi os olhos, quase desafiei o horizonte, mas o máximo que consegui individualizar, quase imaginar, lá longe, no limite do azul, foi uma linha brilhante   que tanto podia ser terra como um reflexo de luz boiando à tona do oceano.
  FIM

© Fotografias, cima para baixo: 1. Praia da Vitória, Terceira, 1995, fotografia de José Marques Neves; (2) Graciosa, fotografia de Líbia Correia da Silva.

23 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 43. O barco está ancorado ao largo

Ilha Graciosa.
O barco está ancorado ao largo, os baús seguem já mar fora no escaler, empinados para que o resto da carga a embarcar caiba; faço ideia como as coisas que arrumei, tão pressurosa e logicamente, devem ir lá dentro! Graças a Deus decidi levar o Aiwa na bagagem de mão, pois assustaram-me as informações sobre o futuro levantamento dos baús em Leixões. Quando chegarem, sabe-se lá quando, terão de ser desalfandegadas como se estivessem a chegar da Venezuela ou de Beirute e o Aiwa, japonês e comprado no Porto, iria, certamente, ser tomado como contrabando americano! Vamos ter de contratar um despachante, pagar não sei quantas taxas, como se estivéssemos a importar um bem do estrangeiro e os Açores não fossem território nacional. Por tudo o que vi este ano de ambos os lados do oceano, quase duvido que o seja.
Lá longe, um guincho puxa uma rede de carga até ao convés, os baús não são mais do que caixas de fósforos suspensas no vácuo. O escaler regressa à enseada para nos buscar. A Luísa e a Marília vieram despedir-se. Comecei a enfiar coisas na arca há uma semana, como modo de selar e tornar sem retorno a última discussão que tivemos com o Porão da Nau. Janeiro a desaparecer do calendário e ele a insinuar que poderíamos ter de ficar mais algum tempo, entrar por Fevereiro dentro, tornar indefinido o regresso.
“No dia 1 de Fevereiro, o mais tardar, saímos daqui. Se não tiver ninguém para nos substituir, pior, o problema é do senhor...”
A isso acrescentámos a lembrança das urgências ainda não pagas, ameaçámos que iríamos passar por lá a buscar o dinheiro, que não sairíamos dos Açores sem ele, e mais outras exaltações de que nos lembrámos no momento. Como paga, nada de helicóptero para o regresso: se queríamos ir embora, então que enjoássemos o mar de Inverno, que amarinhássemos por escadas de corda bamba.
Ilha Graciosa.
À força de “Ei!” chamam-nos do escaler, urgem-nos a que nos apressemos, o mar está bravio, a tarde avança. A Marília e a Luísa abraçam-nos, estão comovidas por ver os companheiros de exílio partir, o coração pequeno por ficarem. Pela metade do trajecto até ao barco ainda acenam do porto, depois tornam-se ciscos quase indistintos, iguais aos outros que deambulam em terra.

Do convés fico por um tempo a ver a ilha afastar-se, primeiro parece aumentar de tamanho à medida que se alarga o seu contorno, em seguida vai recuando, recuando, até se tornar um rochedo como outro qualquer, nem parece haver  sinais de vida por ali. Sinto o frio e vou para dentro.