14 junho 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 27. Cesário Verde, 117

O jantar foi chucrute ou, descodificando, salsichas frescas estufadas com couve branca, receita de confecção rápida e apta a satisfazer a fome fácil dos convivas que enxameavam em torno da mesa, procurando atestar o prato antes de se distribuir, pela grande sala, de prato nos joelhos, por cadeiras e pontas de sofá.
Para além da Nita e da dona da casa, pessoa muito amistosa e parecendo feliz por nos ter ali, havia também uma velha senhora de cabelo branco e pose reservada que não participava na refeição, como se já tivesse comido ou esperasse para o fazer quando a chusma desaparecesse, e um rapaz alto, sério e com um traçado de testa e queixo que lembravam os do Marlon Brando, mas que, apesar disso, partilhava linhas de parecença com a irmã. Pela conversa e pelas observações polidas da Gabi e da Raquel, fui concluindo que o tal António era o dono da casa e se encontrava, de momento, na Suíça, onde ia amiúde por razões de trabalho. Mas o assunto logo se desviou para como tinham, no Porto, ficado os pais das irmãs Pais (Raquel e Cristina) e a Tita, a mãe da Gabriela. Entretanto, alheio àqueles jogos florais, eu fora espreitar a longa varanda de tijoleira que se estendia ao longo da fachada da casa e para onde abriam as janelas de sacada das salas de jantar e de estar, unificando também exteriormente aquele espaço comum. Estava uma noite morna, o Gonçalo fumava um cigarro debruçado na balaustrada que deitava sobre o quintal e, sentado numa cadeira de plástico, o Heitor comia as suas couves com ruminante aplicação. Voltei para dentro pela porta de sacada que dava directamente para a metade que funcionava como sala de estar e sentei-me ali, num sofá, a folhear uma Casa & Decoração, pousada sobre uma pequena arca de madeira que servia como mesa de apoio. Devíamos começar a pensar em nos pôr a andar, afligia-me, olhando o relógio e constatando que já eram oito e meia; de outro modo íamos arranjar uns lugares de merda. Bem que podia ter ficado a comer na vila, na tasquinha da estação... Por um ruído, a minha atenção desviou-se da revista: uma porta abrira-se à direita e entrou na sala uma rapariga que olhou em volta, desconfiada, como se ver aquela maralha não fosse o que mais lhe apetecesse. As suas linhas de feição permitiam perceber que era aparentada com os outros dois filhos da casa, embora fosse menos tisnada do que a Nita, os olhos fossem mais claros e os cabelos castanhos se ondulassem discretamente para dentro na base do pescoço e se empertigassem numa onda sobre uma metade da testa.
“João, anda jantar, filha. Tens aí pratos no rechaud...”
Ela rosnou qualquer coisa e, à medida que ia saudando de beijinho, foi-nos sendo apresentada por palavras da mãe, que a ia louvavelmente desculpando pelo atraso, mas estava a estagiar no IPO como parte do seu curso de enfermagem. A visada ia-se servindo, calada, sem dar, sequer, troco aos incentivos carinhosos da avó, que vigiava a quantidade de comida que ela pusera no prato e só agora parecia aliviada do receio de que toda aquela gente esgotasse a comida antes da neta chegar!
A mãe ia pondo a recém-chegada a par das mais recentes novidades, pois, ao fim de uma breve hora, encontrara já teias de parentesco ou proximidade na maior parte de nós, inclusive a feliz descoberta de ter sido companheira de carteira da minha tia Teresa no Colégio Luso-Francês, no Porto.
Sentando-se ao lado da avó, a aparecida nada reagiu às felizes coincidências, mantendo a expressão fechada e parecendo entre o preocupada e o ansioso por se pôr a andar, em flagrante contraste com a hospitalidade explícita e sorridente do resto da família. Confesso que, ao fundo, sentado no meu sofá, achei graça àquela antipatia pouco convincente, à falta de à vontade que quase a tornava uma estranha na própria casa, e, à saída, despedi-me dela com especial sublinhado, calculando que isso a irritaria e que não iria ter a responsabilidade de a voltar a ver tão cedo.
Enganei-me, pois num dos intervalos dessa noite no Festival de Jazz, ao ir com o Gonçalo ao recesso por baixo de uma das bancadas onde funcionava o bar, demos com as duas irmãs por trás do balcão, afanadas e sorridentes a aviar cervejas e sanduiches embrulhadas em película plástica transparente.   
Regressámos ao Porto, acabrunhados na viagem por aquele silêncio que sempre sobrenada a espuma dos dias cheios, e na semana seguinte perguntei, distante quanto soube, à Cristina Pais se, por um acaso, não teria, que me pudesse dar, a morada daquela senhora encantadora que nos recebera em Cascais. Ela demorou um pouquinho, tinha ido procurar, à gaveta por baixo da mesinha do telefone, o livro de endereços da mãe.
“Tens aí onde se escreva? Aponta: rua Cesário Verde, 117...”
E para Cascais enderecei um agradecimento que invocava Pessoa – discípulo confesso de Cesário Verde – e o modo gentil e generoso como a dona da casa abrira a porta a totais desconhecidos.
Nem um mês se passara sobre o agradecimento e eis-me, de novo, a pedir uma ajuda informativa à mais velha das irmãs Pais.
“Cristina, por acaso não tens aí o telefone da João no Porto? Queria telefonar-lhe, a convidá-la para jantar um dia destes...”
Ela tinha e deu-mo, simpática mas relutante nas bordas. Muitos anos volvidos, soube que, no mesmo dia, telefonara à visada a dar conta do que fizera e avisando-a para ter cuidado, pois que eu não era assim tão recomendável ou flor que se cheirasse. Pobre e bem intencionada Cristina, que ficou com esse embaraço atravessado, sobretudo quando dali resultou, em pouco mais de um ano, um casamento. Se nos conhecesse bem a ambos, melhor do que nós nos conhecíamos a nós próprios – ou se já tivesse a experiência de filhos adolescentes – teria sabido que é justamente isso – contrariar o contacto – o que não se deve fazer quando se quer evitar que dois jovens seres se aproximem.
A João e uma amiga chamada Rita – uma loura de voz rouca que desencadeou estragos profundos na turba masculina que eu frequentava na época – estavam na cidade por umas curtas duas semanas, para um estágio geminado no IPO do Porto. Estavam luxuosamente acampadas num apartamento que o padrasto da João possuía na Foz, outrora alugado, mas, nesses dias do final de 1978, desocupado e os aquecedores a óleo há tanto tempo por usar que libertavam no ar um atraente odor a pó evaporado. Fiz o tal telefonema e, para desespero da minha mãe que nunca sabia por onde eu podia andar ou se viria dormir a casa, mudei-me praticamente para a Foz.

Foi por essa época que se iniciaram as celebrações da minha despedida, pois ia servir um ano nos Açores, na Graciosa, uma ilha que, a não ser algum tio-avô fanático da geografia, ninguém sabia que existia, quanto mais onde era. E a lista de convidados para esses jantares viu-se inesperadamente engrossada por uma nova presença, uma novidade com cadeira perto do homenageado, o qual, em pé e em pleno brinde, era visitado pelo pensamento sombrio de que não era a melhor hora para se pôr a andar dali para fora, uns dois mil quilómetros a oeste. Era quase um absurdo, mas a que não havia volta a dar.  



© Fotografia ao lado: pedro serrano, Cascais, Dezembro 2012.  

11 junho 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 26. Adivinha onde vais jantar

Em Portugal, no dealbar dos anos 70, não se passava nada; tudo isto era um atraso de vida. Por exemplo (ilustro musicalmente, pois, de todas as musas, foi a que mais me influenciou e acabou por condicionar existência): entre 1970 e 1972, na segunda cidade do país, houve um concerto do Modern Jazz Quartet no cinema Trindade, e um concerto dos If no Coliseu – uma banda rock, britânica, de segunda linha, que lotou a sala. Para além disso, no Porto, perpetravam-se no Rivoli uns serões musicais periódicos onde, por sobre as emanações de cânfora dos casacos de peles de velhas senhoras, desafinavam, afinados na plangência, os violinos de uma orquestra clássica.
Então, eis que, já perto do final de 1971, se ouve falar de um festival de jazz lá para o sul. Jazz? Festival?! Muita gente junta no mesmo lugar, sem ser em Fátima ou num estádio de futebol?! Seria possível?
“Onde, quando? Em Lisboa?”
Não, era em Cascais, o que para nós ia dar ao mesmo; e teria lugar já na semana seguinte. E os bilhetes, Santo Deus, como se arranjavam? Estariam à venda no Porto, em algum lado? Ninguém sabia, achava-se que não; o melhor seria ir perguntar numa discoteca, alguém teve a ideia de se passar pelas lojas de instrumentos musicais, podia ser que...
Por esses dias tinha eu uns recentes dezanove anos e sair de casa por três dias (a duração do festival estendia-se por duas noites) era manobra que implicava satisfações e negociações e nisso – mais o tempo a correr, mais os bilhetes que ninguém conseguia e a própria incerteza sobre os dias do evento – nisto, o festival passou e perdemos o Miles Davis, o Thelonious Monk, o Ornette Coleman, o Dizzy Gilespie, o Art Blakey e o Sony Stitt. Uma catástrofe que, uma vez que as parcas notícias saídas nos jornais a seguir ao festival anunciavam uma segunda edição, tentei remediar logo, cedo, no ano seguinte. Ok, a coisa tenderia a repetir-se no mês de Novembro, mas em que dias? E os bilhetes? Vender-se-iam, desta vez, também no Porto? Até tarde, pelo Outono dentro, nada se soube, mas, ah, nós imploráramos atalaia aos nossos conhecimentos na capital e, a custo, conseguimos os preciosos bilhetes para as noites de 11 e 12 de Novembro.
No dia 11, de manhã, com o automóvel atestado de gasolina, cobertores,  almofadas e toalhas de praia – eu, o meu primo Manel e o nosso amigo Juca – rumámos a sul como se fossemos para outro país. A viagem para Lisboa demorava umas seis horas e Cascais nem sabíamos onde era, devia haver placas a indicar em Lisboa. Quanto a dormida, iríamos fazê-lo no carro, pois o meu maravilhoso Fiat 128 vinha artilhado de fábrica com uma funcionalidade espectacular: os assentos da frente rebatiam sobre o banco de trás, metamorfoseando um autêntico sofá-cama. Para três pessoas, era um bocado apertado e o gajo que se deitasse no meio iria ter de lidar com o espaço vazio onde, inamovíveis, se eriçavam a manete de velocidades e o travão de mão. Mas isso eram detalhes de que só daríamos conta  quando a noite nos reconduzisse ao dormitório.
Perímetro interior do Mercado de Cascais.
Chegámos a Cascais umas sete horas mais tarde, a tarde sombreava-se, embora a temperatura do ar fosse espantosamente amena quando comparada com a do Porto chuviscoso ainda dessa mesma manhã. Depois de umas voltas exploratórias, acabámos por deixar o carro estacionado no interior do perímetro do mercado municipal, local protegido ao trânsito das ruas exteriores por um muro e envolventes árvores de grande porte, proporcionando ao estacionamento uma intimidade não inferior à de um quarto de hotel. Entardecia, o céu dissolvia-se em tons rosados, mas era ainda um tanto cedo para jantar – o concerto era só às nove e meia. Deambulámos pela vila como que embriagados, aquilo não se assemelhava com o Portugal que a gente conhecia: era tudo muito ordenado, arrumado e limpo; as lojas pareciam mais modernas do que as de Cedofeita ou Santa Catarina, as pessoas tinham um ar bem tratado e demoravam-se por cafés e esplanadas como se todos estivessem de férias; as tabacarias penduravam no exterior mostradores com  jornais estrangeiros e expositores giratórios com postais; os  restaurantes ostentavam nomes inspirados e as fachadas pareciam preparadas para cenário de um filme. Fascinados, em silêncio, muito juntos, um tanto ou quanto inibidos, andámos para trás e para a frente sobre aqueles passeios ordeiros, aquelas calçada lisa a preto e branco, com efeitos; apercebendo-nos de que a localidade não era muito grande, já tínhamos passado por aquela farmácia do lado de lá da rua, onde se começava uma rua que ia desembocar num terminal de comboios. Por aí, perto da estação, descobrimos uma tasquinha de bom aspecto, com pratos apetitosos anunciados a giz num quadro, e preços compatíveis. Ao café, perguntámos como ir dar ao Pavilhão de Desportos; era fácil, disse-nos o homem por trás do balcão: descíamos a rua, iríamos dar à baía e depois era só cortar à direita, a direito, para dentro, voltar a subir até chegar a um jardim e, dali, já veríamos o pavilhão.
“É longe?”, queria eu saber com o coração a palpitar e zonzo de tantas indicações.
Pavilhão de Desportos do Dramático de Cascais.
“Não!”, disse o homem, “põe-se lá em dez minutos; vá lá, um quarto de hora”.
Demorámos mais, mas talvez a culpa fosse nossa, fomos abrandando o ritmo da passada à medida que sentíamos estar mais próximos, contidos por um certo receio de chegar e a certeza que íamos no caminho certo, pois começávamos a integrar-nos agora numa corrente de gente que parecia mover-se por um qualquer tropismo, que ia engrossando à medida que outras pessoas surgiam de ruas e ruelas que confluíam no nosso trajecto.
“Achas que o Brubeck vai tocar o ‘Take Five’?”, perguntava o Manel a meu lado.
“Sei lá, não faço a mínima...”
“Era fixe...”, insistia ele.
Chegávamos. Era noite cerrada, azul-negro, e umas barreiras de metal protegiam a zona da entrada da turba que se pressionava. Lá dentro, era um banal recinto desportivo fechado, com um ringue ao meio, bancadas de cimento de um lado e outro e janelas envidraçadas lá no alto. O palco era um estrado nu encostado a uma das bancadas, pelo que haveria gente que iria assistir às costas do que se passasse em cena! Essa bancada estava ainda assustadoramente despovoada e a outra, em frente, perigosamente já cheia.
“Ainda há lugares lá em cima...”, apontou o Juca, começando a trepar pelo espaço livre à frente dos joelhos de quem já se instalara nos degraus de cimento duro.
Cascais, 1972. Da esquerda para direita: Gerry Mulligan (saxofone barítono),
Dave Brubeck (piano), Paul Desmond (saxofone alto).
O Fiat esperava por nós, fiel e já com uma película de orvalho a abrilhantar a chapa azul. Por cortinas, entalámos as toalhas de praia no rebordo superior do vidro das janelas; rebatemos os bancos e ajudámos o Manel – a quem, por ser o mais novo e o mais curto, tinha cabido ficar no meio – a encher os espaços vazios com almofadas, para que não corresse a emoção de se lhe espetar o travão de mão pelo cu acima. Passando o gargalo de um cantil de bagaço entre nós, comentámos a noite, rimo-nos até às tantas e adormecemos felizes por no dia seguinte haver mais.
De 1972 a 1978 falhei apenas o Festival de Jazz de Cascais de 1976, pois nesses dias de Novembro deambulava por Katmandou, no Nepal, aguardando que o tipo que fizera a viagem comigo acabasse os tratamentos da febre tifoide e tivesse alta do hospital. Cascais tornara-se um clássico nas nossas vidas. Entretanto houvera uma revolução no país; acabara o curso de Medicina, e as estadias em Cascais tinham-se sofisticado: enrolávamos charros antes e durante os concertos, e já não dormíamos no Fiat. Numa dessas idas a jantar à tasquinha perto da estação, onde se continuava a comer bem e o pessoal se lembrava de nós de uns anos para os outros, déramos de caras com uma Residencial – eles, à moda antiga, chamavam-lhe albergaria – onde, às vezes, dormíamos quatro ou cinco num quarto para dois; um ano cheguei a experimentar dormir dentro da banheira, uma péssima ideia. O grupo de pessoas que migrava do Porto alargara-se e diversificara-se à medida das novas amizades, das novas namoradas e, em 1978, ano da 8.ª edição do Festival, a comitiva que saiu da cidade, numa caravana de três automóveis, incluía uma dúzia de peregrinos, quatro dos quais eram raparigas e, enquanto nós ficaríamos, como de habitual, na Albergaria Valbom, elas beneficiariam de alojamento em casa de uma amiga das mães, ao que parecia natural do Porto, mas a viver em Cascais há muitos anos.
Assim, mal pousámos os carros, uma delas entrou numa cabina telefónica para  anunciar a chegada e combinar a estadia em casa da tal senhora. O resto de nós manteve-se nas imediações, a desentorpecer as pernas das horas enfiados nos automóveis. A páginas tantas, a porta da cabine abriu-se e a Gabriela (que andava entremeada com o meu primo Manel), ainda de telefone na mão, chamou-nos e quis saber a opinião dos rapazes:
“A Zé manda perguntar se vocês querem ir jantar lá casa...”
“Quem é a Zé? Ir jantar quem?”, tentou precisar um de nós.
“É a dona da casa. Todos...”, disse a Gabi com um sorriso.
Ali, no meio da rua e da tarde que já se afundara, senti-me estupefacto: eram quase sete da tarde, éramos uma dúzia deles; como podia alguém convidar assim, de repente, para um jantar, uma multidão destas?!
Alguém ainda levantou a questão de se teríamos tempo de ir jantar não sei onde e estar a horas no pavilhão. A Gabi, que ia trocando informações com o bocal do telefone, garantia que sim, que o recinto era perto da tal casa; que assim as malas delas já lá poderiam ficar, só vantagens.
Fui arrastado para o sim mais ou menos geral, mas, um resto de mim, agarrava-se à ideia de ser muito mais simples jantar por ali, ao meu ritmo, e não estar a comparecer a um jantar estranho, a fazer cerimónia, a procurar frases polidas; a ter de investir esforços por uma transitória hora de convívio com desconhecidos. Era o género de empreendimento que me dava um certo galo, mas todas elas – os únicos de nós que conheciam quem nos convidara – garantiam que íamos gostar, que era uma gente muito simpática e hospitaleira e, ainda por cima, comentou uma delas, “o António não estava lá”; fosse quem fosse o tal António.
“Tá combinado”, anunciou a Gabi descendo da cabina telefónica, “a Nita vai ter connosco à porta da Albergaria daqui a vinte minutos; assim ainda há tempo de irem lá pousar as vossas tralhas...”
Quando desci do quarto, a tal Nita já chegara e conversava no círculozinho frenético formado pelas raparigas na soleira da porta da albergaria. Era uma morena bonita, tostada por praia recente, num conjunto de olhos escuros e cabelo negro e liso que lhe davam um certo sabor indiano; e a sua missão imediata era meter-se num dos carros e servir-nos de guia até casa da mãe. No final do jantar, apanharia boleia connosco e guiar-nos-ia até ao Dramático – como ela dizia – onde tinha um part-time a  dar uma mão no bar durante os concertos.

“Acabo por assistir a tudo, de graça!”, confidenciava, radiante com a pechincha.

07 junho 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 25. Nas nuvens

Sob a camada lisa de nuvens que atapeta o céu até ao horizonte ainda deve ser noite, mas aqui esboça-se uma claridade cinzenta e lá longe, no máximo onde a vista alcança, surgiu uma linha vermelha de contorno esborratado que, se a terra fosse plana como antigamente, parece querer trepar do vazio. Persistente, aumenta a espessura e o esplendor, e vai nutrindo o espaço em volta com amarelos, dourados e, agora, uma indicação de azul. O avião, muito ajuizado, mantém uma distância uniforme em relação ao leito de nuvens a seus pés e finge não se aperceber do que se passa lá longe, como se isso não lhe interessasse, ao contrário dos meus olhos, que se humedecem.
No assento da coxia, a senhora que me deixou sentar à janela, dorme. É a mesma que, nas cadeiras duras das Lajes, me perguntava se eu tinha conseguido dormir e que, já dentro do avião, fez grande festa ao descobrir que íamos viajar lado a lado, oferecendo-me aquele que era, por direito de bilhete, o seu lugar, pois, dizia ela para me convencer, até preferia a coxia, uma vez que podia levantar-se e ir aos lavabos sem ter de incomodar ninguém.
À saída do aeroporto apanhei um táxi para Cascais e um condutor que me ia mirando pelo espelho, talvez desconfiado com um cliente tão novo a encomendar-lhe um frete tão caro. Peço-lhe para descer a Avenida e fazermos o trajecto pela marginal a partir do Cais do Sodré. Fica ainda mais desconfiado pela escolha do percurso mais longo, rosna um “o senhor é que sabe”. Está uma manhã serena e, pelo caminho, tudo se desenrola em azul: o céu, o rio, depois o mar que o continua. Em Cascais, mandei parar no largo da estação, não sei o nome da rua onde fica a Albergaria Valbom. Óbvio, concluo ao iniciar a descida do passeio e ao passar pela placa, é na Avenida Valbom, uma rua com um só sentido para automóveis e curta em demasia para merecer chamar-se avenida. A albergaria fica a meio, à esquerda quem desce, próxima dos escaparates de rua da livraria Galileu. Venho ainda na minha redoma de encanto e silêncio, não me apetece deixar que a conversa do recepcionista lhe abra rachas: o tipo lamenta, mas só me pode atribuir um quarto a partir das treze horas. São 9 e 35.
“Mas o senhor tem quartos livres?”, ouço a minha voz  produzir-se com algum esforço. Ele, com certeza que tem quartos livres, “mas a diária inicia-se a partir...”
“Então, vamos fazer o seguinte: considere que cheguei ainda ontem, e inclui essa noite na minha conta. Quer que lhe pague alguma coisa adiantado?”
Ele percebeu de imediato onde eu queria chegar, fez um telefonema interno em voz amortecida e vinte minutos depois estavam a – toc, toc – entregar-me uma bandeja com o pequeno-almoço no quarto. Tomo o meu TAO, o dente não me dói e passo por cima a toma do Sosegon, preciso de dormir e já sei que com aquilo fico a levitar entre cá e lá, não é um verdadeiro descanso. O espelho do quarto de banho cobre quase metade da parede por cima do lavatório e é poderosamente iluminado por uma lâmpada comprida de néon, enfiada numa caixa rectangular de plástico, com picos prismáticos a imitar vidro translúcido. Sim, agora já se nota nitidamente o inchaço, não toma a bochecha mas há ali um papinho ao nível da mandíbula. A janela do quarto é de sacada, dá para uma modesta varanda que tem por vista desordenada as traseiras de outros prédios. Gosto assim, prefiro ver roupa a secar e uma mulher a fumar um cigarro debruçada sobre um saguão do que uma vista de mar. Esvazio o saco e arrumo tudo nas gavetas e prateleiras; estou a fazer horas para ligar à João, não queria fazê-lo antes das onze, pode estar ainda a dormir ou entretida com actividades da manhã. Daqui a casa dela devem ser uns dois quilómetros, só lá estive uma única vez mas é um pouco fora, sobe-se uma avenida a partir do centro da vila até que aparecem ruas sossegadas com moradias entre pinheiros mansos. Ela sabe que eu vinha, se conseguisse; liguei-lhe do Hotel Angra mal tive a ideia. Só não tinha mesmo a certeza se eu arranjara passagem, ou não, pois já era demasiado tarde quando mo confirmaram e o pai dela (padrasto) é um chato; se há episódio que o vire do avesso são telefonemas fora de horas, já tive uma cena dessas com ele.  
Vista das traseiras da Albergaria Valbom, Cascais (2017).
Quando liguei foi ela que atendeu e, mesmo antes de começar a falar comigo como deve ser, ouvi-a gritar:
“Mãe, podes desligar, é para mim...”
Digo-lhe que já cheguei, que estou em Cascais. Pergunta onde, por entre o espanto e o riso da surpresa.
“Na Albergaria Valbom...”
“Sim, claro, que estupidez! E, agora, que vai fazer? Dormir, calculo, deve estar estourado...”
A meio da tarde, umas convenientes seis horas mais tarde, ligam da recepção; anunciam que está lá em baixo uma senhora, a perguntar por mim.
“Sim, obrigado. Pode mandar subir, por favor”; respondo na entoação do hóspede familiarizado com as regras da casa. 
É que eu já tinha estado ali.

© Foto de cima: céus sobre o arquipélago de Cabo Verde, 2015, pedro serrano.

04 junho 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 24. Corrente de consciência

“Você tem aqui um abcesso e peras”, revelou o dentista após me ter feito dar mais do que um estremeção na cadeira para confirmar qual dos dois dentes suspeitos estava infectado. “Hoje não vou poder fazer nada nisto; vai ter de tomar um antibiótico e voltar cá, de hoje a oito, para arrancarmos isto como deve ser.”
“Hoje a oito?”, perguntei eu, que já só raciocinava em termos de disponibilidades e horários de helicópteros. “Será que não podia antecipar para segunda à tarde? É que, de outro modo, vou ter de ficar em Angra duas semanas por causa de um dente...”
O gajo ficou a olhar para mim e tive de lhe explicar um pouco o meu contexto na Graciosa: que só havia transporte uma vez por semana, que a viagem era às terças de manhã, geralmente antes das nove.
“Então”, disse ele passando as mãos brevemente por água e sentando-se a uma mesa atulhada de modelos de dentaduras, “venha por cá na segunda à tarde, por volta desta hora. Por essa altura isso já deve estar controlado e, mesmo que continue a tomar o antibiótico por mais um dia ou dois, além da extração, até nem é mau... Você deixou chegar isto a um ponto...”
“Sabe que só me começou a doer agora – há dois dias, mais precisamente – e como não vi nada inchado, nem cara nem gengiva, não fiquei a pensar que fosse infecção...”, justifiquei-me.
“O inchaço só aparece quando a infecção já se está espalhando, e aí começa a doer menos, a parte nervosa fica menos comprimida. Este dente nunca lhe doeu antes? É que tem aí uma cárie enorme...”
Ele estava a desvendar, certeiro, a minha epopeia de desgraças dentais; achei bem pôr de lado as manhas do doente e ser sincero. Além do mais, sentia-me grato que me tivesse recebido sem marcação, por me ter aliviado com um diagnóstico e uma proposta de solução.
“Sim, já doeu, mais do que uma vez. Mas fui engolindo uns Optalidon e acabou por passar.”
“Pois... A dor acaba por desaparecer, mas à custa da morte do nervo e, então, só resta arrancar – que é o caso. Vou receitar-lhe TAO, é o melhor para isto. Precisa que lhe passe algum analgésico? Acho que tenho para aí umas amostras de Saridon que lhe posso ceder...”
Declinei a oferta, agradeci muito e saí para a liberdade.
TAO! Os dentistas têm uma fé nele não inferior à crença das mães no Halibut como remédio-santo para os rabos assados dos bebés. TAO é a abreviatura comercial da Tri-Acetil-Olandeomicina, um mata-ratos aconselhado no tratamento de doenças como a sífilis, as infecções pulmonares graves por micoplasma, e nas febres provocadas pela picadela de carraças. Mas, baseados na historieta de que o antibiótico tem uma boa eliminação pela saliva e, desse modo, alagaria os dentes de produto, tudo quanto é dentista passou a receitá-lo como se fosse um extintor para infecções dentárias. Para lhe fazer a vontade e comprovar a longevidade da minha gratidão, entrei numa farmácia, comprei uma caixa e apressei-me, sentado numa esplanada, a tomar uma cápsula, a que juntei um dos comprimidinhos brancos de Sosegon da placa que trazia no bolso. O dente recomeçara a latejar e o facto do dentista ter andado a escarafunchar e a dar-lhe pancadinhas despertara a dor que rondava lá trás, no esquecimento temporário provocado pelo analgésico. Sabia que iria ficar nauseado como uma grávida no primeiro trimestre, mas era um modesto preço a pagar pela abençoada acalmia.
Uns vinte minutos mais tarde recostei-me na cadeira de ferro da esplanada como se esta tivesse ficado acolchoada. A dor fora-se, a tarde ia bonita e brilhante, estava longe de Santa Cruz e a minha sensação geral era a de que o mundo se recompusera e eu usufruía um longo feriado. Suspirei e pedi uma torrada com os cantos aparados, talvez ajudasse a dissipar o leve enjoo e as ondinhas de excitação que me pregueavam o estômago. O cabrão do empregado não entendeu aquele requinte dos ‘cantos aparados’ – cujo simples objectivo era evitar que as côdeas do pão me estremecessem a cremalheira – e, apesar de lhe ter explicado em que consistia a confecção, trouxe uma torrada completamente clássica e de bordos  intactos. Estava a descascá-la com o auxílio da colher do chá quando, perfeita como uma onda do Hokusai, se elevou perante mim a ideia. Deixei-a espraiar-se no palato, estendi uma mão por sobre o apoio lateral da cadeira e, disfarçadamente, contei os dias dobrando sucessivamente os dedos sobre a palma da mão. Logo a seguir, senti a urgência e chamei o empregado, fazendo sinal de que pretendia a conta; irritei-me com o tempo que demorou a trazer-ma. Na agência de viagens, como da outra vez em que lhes fora perguntar dos barcos para a Graciosa, não sabiam de nada ou melhor, não desconheciam que havia avião nessa noite, por volta das duas da manhã, mas não sabiam se haveria lugares e, em qualquer caso, nunca me poderiam vender bilhete.
“E então?”, perguntei com vontade de estrangular a pandorca sentada atrás da mesa.
“Então, o melhor é o senhor ir ao aeroporto e tratar disso lá, ao balcão. Pode ser que eles saibam e lhe vendam bilhete, se houver lugares...”
Tentei que fosse ela a tratar-me disso, uma vez que trabalhava no ramo e as Lages distavam vinte quilómetros dali. Que não, dizia a gaja muito pausada, que não valia a pena; era informação que só se sabia um nadinha antes do avião pousar para escala, vindo de Boston, e só nessa altura é que se podiam emitir passagens.
“E com que antecedência acha que devo estar lá?”
Ela encolheu os ombros, questionou para o lado, a um tipo que arquivava papéis, uma opinião. Esse também não sabia, ficou um bocado a olhar-me, como se do meu aspecto geral resultasse o teor da resposta, e acabou por concluir que quanto mais cedo melhor, era frequente haver lista de espera para esses lugares.
“O melhor é o senhor ir para lá quando puder...”, voltou ela.
Olhei o relógio, eram seis da tarde; resolvi experimentar a ironia suave.
“Acha que, ao menos, posso ir ali ao Hotel Angra buscar a mala e comer uma omeleta antes de abalar?”
“Ah, sem dúvida”, assegurou ela com conhecimento de causa, “o voo é só às duas e meia da manhã; falta muito tempo”.
Abalei para o hotel, tomado de urgência, tomado de uma grande esperança, e disposto a estraçalhar quem se me atravessasse nela.
Jantei com o Paulo às sete e meia, mal o restaurante abriu, expliquei-lhe a mudança de planos: em vez de ficar por ali a vegetar uma semana, tinha-me surgido, como um flash, a ideia de pedir boleia a um avião.
“Ponho-me em Lisboa em três horas, e sempre são cinco dias limpos que posso passar lá. Volto na segunda (há avião de manhã), à tarde vou à consulta e na terça arranco para a Graciosa como se nunca tivesse saído de lá...”
O Paulo, a que raramente as variações do mundo exterior sobressaltavam, sorvendo o consomé de cogumelos, olhava-me, espantado com o meu entusiasmo transbordante.
“Sim, vai, já que te apetece tanto... Mas, olha, é preferível não ter pores a falar muito disso quando os outros chegarem. Podes crer que o nosso amigo delegado de turma vai logo enfiar a novidade no cu dos chefes.”
“Tens razão”, reconheci, “depois ajudas-me a sair daqui sem dar nas vistas?”
E o Paulo ajudou quanto pôde. Alardeando enfado, informou os colegas, entretanto chegados à mesa, que iríamos tomar o café fora, e saímos do hotel desencontrados, transportando ele o meu saco de viagem sob a gabardine de detective, em que se enrolara para enfrentar a suave noite de fim de primavera.
“E se eu fosse contigo, levar-te ao aeroporto? Como assim, o táxi fica pago e, mais cedo ou mais tarde, tem de regressar ali à praça...”
“Anda, o prazer é todo meu. Podemos tomar por lá qualquer coisa.”
Como assim, o chauffeur do táxi teve de esperar mais de uma hora, enquanto, no bar do aeroporto, o Paulo esvaziava copinhos de brandy-mel e eu, evitando o que era doce, empurrava golinhos de whisky sobre a gengiva doente.
“Bem, parece que não me querem deixar em paz, e tenho de ir...”, suspirou ele ao ver, pela terceira vez, o assarapantado motorista aparecer à porta do bar.
Passava das dez e meia quando se foi, tinha diante de mim quatro horas de espera até ao embarque. Conseguira lugar, primeiro em fila de espera e depois chamaram-me para pagar, pois a minha reserva tornara-se efectiva. Gastei o dinheiro com dupla alegria, uma pela alegria da liberdade em me pôr a andar dali para fora e a outra por, finalmente, conseguir gastar algum dinheiro do muito que agora me aquecia os bolsos. O ordenado que ganhava nos Açores era – para os meus padrões – principesco; com as alcavalas da insularidade e outras porras relacionadas recebia quatro vezes mais do que o equivalente num posto no Continente. A isso, viria ainda juntar-se o dinheiro que o Porão da Nau e a sua Secretaria nos estavam a dever por estarmos de urgência dia-sim-dia-não, dado que a bitola prevista para um policlínico como eu era de apenas uma urgência de doze horas por semana e, para além da barbaridade de horas a mais, tudo teria de, segundo a lei, ser considerado trabalho extraordinário, com horas pagas a dobrar ou a triplicar, conforme fosse noite ou fim-de-semana. Sentia-me retinir como a caixa registadora do Dark Side of the Moon(1)! Mas – dá Deus nozes a quem vai ficar sem um dente – oportunidade para o gastar era coisa que não surgia nem na Graciosa nem na Terceira, onde tudo estava incluído no hotel. Como esbanjar algum dinheiro se na minha ilha não havia um restaurante onde ir jantar, um cinema onde pedir um bilhete, uma livraria, uma discoteca, fosse o que fosse? Até no Açucareiro, a resposta mais comum quanto tentava liquidar a despesa era um “já está pago”, seguida de um apontar de cabeça do empregado em direcção ao obsequiador e a nossa correspondente vénia de obsequiados. Só gastava em tabaco e mesmo esse era estupidamente barato. 

Com todos estes pensamentos me entretinha, esparramado, e depois encolhido e depois esquinado, na cadeira que escolhera para ninho a um canto do hangar. À uma e meia da manhã a dor recomeçou a fazer negaças na minha consciência, ameaçando tomar conta do palco. Premi com o polegar a pele do maxilar, mesmo por cima do queixal dorido, um gesto que se me tornara habitual nos últimos três dias, pois a pressão parecia, embora timidamente, tornar a dor menos acutilante durante breves instantes. No entanto, esquadrinhando-me ao espelho da casa de banho do aeroporto, achava notar uma certa assimetria na face, talvez a bochecha direita estivesse mais inchada do que a outra, o que, segundo o dentista, era sinal de progresso. Será que o TAO já alcançara a sua missão de abrir brechas na fortificação bacteriana? Não, era ainda demasiado cedo... De qualquer modo, eram horas de tomar a segunda cápsula; iria juntar-lhe outro Sosegon, para atravessar a estratosfera em sossego.
Tudo começara na quase madrugada de Sábado para Domingo. Dormia finalmente, além da dificuldade em adormecer que caracteriza os meus sonos por aqui, quando, de adentro do território dos sonhos, como que surgiu uma massa negra, um horizonte carregado, que avançou no escuro, ainda sem formato, e se pôs a empurrar até que acordei sem saber porquê. Depois, de entre tudo quanto no meu corpo podia sentir, começou a individualizar-se o maxilar inferior, no seu lado direito, e aí levei o polegar na escuridão. Momentos mais tarde já o queixo me doía como se tivesse sido perfurado e, quando me levantei para ir ao espelho do quarto de banho tentar espreitar o mal, uma saliva brotava sobre a língua como se fosse um choro horizontal. Era uma dor de dentes, horrível, de um dos dentes de baixo, a meio da mandíbula, mas de qual deles? O meu indicador e o polegar, como se fossem uma pinça, tacteavam todo o percurso gengival, mas nada encontrava por ali que indicasse um ponto nevrálgico, o que tornava tudo pior: o não saber de onde vem o mal parece interpor-se à possibilidade de o confinar e combater. Espiolhei a gaveta da mesinha de cabeceira: havia ali um pouco de tudo, desde Somnium, para dormir; Buscopan, para dores de barriga; Imodium, para uma potencial caganeira; Fenistil, para as comichões de uma alergia; Guronsan, para a ressaca; Bradoral, para dores de garganta e, ah, – era algo do género que procurava – Aspirina. Tomei uma, com um grande copo de água e grande esperança, mas, meia-hora passada, estava na mesma, aquela dor não era menina que se deixasse embalar com aspirina!, já o sabia de episódios anteriores, mas, nos últimos tempos, os meus dentes até andavam calmos, fizera uma revisão antes de vir para os Açores, pois calculava não ir ter um dentista por perto com a facilidade e a confiança com que os frequentava no Porto. E por lá, em casa dos meus pais, havia sempre Optalidon ou Saridon, embora as amostras de Saridon, prodigalizadas pela propaganda médica, evidenciassem uma acentuada tendência para migrar até à casa ao lado, onde morava a minha tia Teresa, que padecia de dores crónicas de ouvidos e era uma devota do Saridon, entidade com quem mantinha uma ligação não menos íntima do que a que celebrara com o meu tio. O Saridon, com o seu sugestivo e piedoso nome, acorria a tudo, só não servia para limpar pratas e, mesmo aí, será que alguém já se tinha lembrado de experimentar? Em minha casa era diferente, o santo mais popular, a nossa senhora das dores mais celebrada, era o Optalidon. E, para dores de dentes, restava ainda a velha infusão de cabeças de papoila, de que havia sempre uma lata com algumas no armário da despensa, vizinha das batatas e da gaveta do arroz. Uma espécie de chá que não se engolia, mas se deixava marinar na boca e depois se cuspia e que contribuía para o entorpecimento dos queixos. O segredo farmacopeico da mezinha, aprendi ao estudar essas coisas na universidade, residia nos vestígios de ópio que sobravam nessas secas carcaças daquele tipo de papoila, que não era a pequena papoila que se via a pontuar de vermelho os campos no mês de Maio, mas as grandes, as orientais, que se vendiam, a peso, na drogaria mais do que nas farmácias. Quanto ao Optalidon, um produto da farmacêutica suíça Sandoz, aprendi também nos livros de Farmacologia e Terapêutica, o seu segredo de bálsamo provinha, para além do analgésico e anti-inflamatório da praxe, do butalbital, um barbitúrico, ou seja, a mesmíssima substância que fazia a D. Hirondina dormir regalada ou gemer de ausência quando os comprimidos se acabavam! Por outro lado, o aparentemente inocente Saridon, levado, dentro da sua caixinha metálica achatada, até à palma da mão da minha tia pela reputada farmacêutica Roche, era ainda um produto mais requintado e continha um sedativo (com algum poder hipnótico), cafeína, e um composto intermédio formado durante o processo químico de síntese da heroína! Está claro que, hoje em dia, embora alguns destes medicamentos ainda existam com a antiga designação comercial – aproveitando o remanescente prestígio do nome e a sua popularidade –, todos os seus ingredientes tóxicos, perigosos ou viciantes foram retirados à composição que, monótona e uniformemente, se limita actualmente ao paracetamol e à cafeína, ou seja, tomá-los equivale a tomar um Ben-U-Ron com um café forte. Mas, há menos de quarenta anos atrás, a lógica destes medicamentos, de venda livre, era bastante menos apurada, pouco dirigida, e a sua génese um tanto baseada num pozinho disto, mais uma pitada daquilo; numa mistela que atingia globalmente quem os tomava, mais do que especificamente o órgão, o sistema ou o mal que o necessitava. É curioso como, já perto do final do século XX, esta terapêutica às apalpadelas parece directamente em continuidade com a prática embruxada das mezinhas complexas da Idade Média: uma pitada de asa de morcego desidratada, uma colher de chá de raiz de mandrágora, um dedal de gosma de sapo; envolver a mistura com uma onça de cinza de corno de caracol, apanhado em noite de lua-cheia.
Com tudo isto me entretinha eu, de olhos fechados, podendo bem passar por um viajante adormecido. Mas na minha mente, feericamente iluminada e activa como um parque de diversões, as associações processavam-se ininterruptamente, deambulando de stand em stand... No Domingo, quando a dor e a desilusão com a segunda aspirina tomada, me forçaram a levantar e a aparecer no hospital antes das oito, dei de caras com um desgrenhado e surpreso Viegas, que não esperava ver-me por ali, pois não havia nenhum doente na urgência, as enfermarias estavam em paz, e, julgava ele pelo que constava na escala, era o Rui que estava à chamada.
“Tudo isso é verdade, Viegas, hoje o doente sou eu: estou com uma dor de dentes filha da puta! Acordou-me, veja você a potência!”
Dos dentes nunca ele padecera, mas já ouvira dizer que, pior, só dores de ouvidos. Já tivera, isso sim, uma cólica renal e, isso, não desejava ao pior inimigo. A única coisa que o aliviara fora Sosegon, em perfusão lenta.
“Estive vinte e quatro horas a soro, naquele quarto ao lado da enfermaria dos homens.”
Interessei-me pelo assunto.
“E temos aí disso? Não em ampolas, mas comprimidos?”
Ele achava que sim. Fomos passar revista à farmácia geral, onde, na prateleira dos analgésicos e junto aos outros medicamentos com acção no sistema nervoso, muito arrumadinhos e ordenados segundo os tópicos do Simposium Terapêutico  pela madre superiora, encontrámos as embalagens de pentazocina (o nome químico do Sosegon) contíguas às ampolas da morfina, vizinhas do Largactil, do Triptizol, do Valium, do Rohipnol.
“Vou levar uma placa, Viegas; depois passo uma receita e devolvo.”
“Leve uma caixa”, sugeriu ele, generoso, “escusa de sair de casa outra vez, a meio da noite, a um Domingo...”, e por aí apercebi-me que arrancara o desgraçado a um bom sono.
O Sosegon era, na realidade, um espanto: actuava rápido e sem cerimónias, empurrando a dor para um canto escuro, onde ficou a rosnar, mas impotente, o que quase me permitiu esquecer o assunto. Deitei-me para tentar dormir o resto da manhã, mas não consegui dissipar uma euforia que me dispersava os pensamentos, e acabei por me levantar, fazer a cama e arrumar o quarto; fui inaugurar o Açucareiro, sozinho, por volta das onze da manhã. A meio da tarde a dor regressou, vingativa e agreste, e percebi que não passaria por si, iria ter de fazer alguma coisa por isso, como ir a um dentista, por exemplo. O próximo helicóptero era na terça e, até lá, teria de me aguentar com analgésicos, o que, para já, parecia estar a funcionar. Por me ter levantado tão cedo, e da combustão que a própria dor provoca em nós, senti-me arrasado logo após o jantar, nem café fui tomar com o Rui e a Marília. Deitei-me, mas, embora sonolento, o sono não ganhava espessura e não conseguia dormir, vagueando por um estado em que a fronteira entre o sono, o sonho e a vigília parecia meia incerta... Fechara a porta do quarto, mas a frincha de luz no fundo da porta parecia arrastar para dentro os ruídos da casa, amortecidos mas presentes, e ouvia as vozes das conversas como se as pessoas estivessem a falar mais baixo por minha causa; mas não entendia o que diziam. Aquilo era uma gargalhado do Rui, depois foi como se um prato fosse pousado numa mesa, e o Pombo casquinou alguma coisa que não percebi e me pareceu ficar sem resposta. Que estava eu ali a fazer, sem sono e muito quieto? E se me levantasse e fosse ter com eles? Aparecia, explicava que não conseguia dormir. Mas continuei deitado, dei as costas à frincha de luz sob a porta. E se lesse? O tempo pareceu passar, pois a frincha de luz desapareceu e deixaram de se ouvir vozes; apenas um som me chegava por vezes, isolado, e que parecia ser no andar inferior. Depois, dei comigo enredado em pensamentos e arremedos de problemas que pareciam entupir-me de especulações e logo a seguir, num patamar de frieza racional, tomei breve juízo de que tudo aquilo que pensava nem sequer existia como tal, como facto! Tinha estado entretido com o vento!
Na segunda telefonei para a capitania, a marcar vez no helicóptero. A autoridade marítima resmungou para dentro por lhe estar a roubar um lugar, mas não podia fazer nada quanto a motivos médicos. À noite fiz uma mala pouco consistente, não sabia bem o que lhe meter, que quantidade, como estaria o tempo; que livro levar. Comprara aquele saco na base das Lajes, uma tarde em que o Rui e eu, nos dias em que chegáramos à Terceira e antes de ir para a Graciosa, fôramos espreitar a maravilha das maravilhas. Afinal, A Base, a parte onde os americanos nos deixavam entrar, não passava de um barracão grande, com um balcão comprido onde se podiam pedir bebidas, pacotes de batatas fritas e tiras de milho frito e, ao lado, a famosa loja onde se exibia o whisky e outras mercadorias. Foi aí que comprei o saco de viagem, uma peça de lona brilhante e encerada, cor de mostarda, indestrutível, com um fecho-éclair que lhe cria uma bocarra onde cabe tudo o que quisermos, a trouxe-mouxe, sem divisões internas. Com o saco vem um saquinho, pequeno mas do mesmo material, ideal para arrumar as coisas de quarto de banho. Agora atiro-lhe para dentro a jaqueta com carapuço que o Paulo me emprestou da outra vez e – que engraçado – comprámos uma tarde no armazém americano da Trofa, onde se vendem restos que os americanos bem intencionados juntaram para oferecer aos pobrezinhos dos portugueses, como ajuda por se terem liberto de vez de quarenta anos de ditadura e escuridão. Comprei lá maravilhosos bens em segunda mão, a preço de amigo; corríamos para a Trofa mal nos sopravam: “chegou um carregamento ao armazém americano”. Que livro? Influenciado pelo tamanho e leveza, decido-me por uma versão de bolso do Monte dos Vendavais, que comprei em Janeiro, justamente antes de vir para os Açores.

Entretido a navegar em tudo isto, apercebo movimento nas cadeiras em frente e ao lado da minha. As pessoas estão a levantar-se, o altifalante anuncia que chegou e partirá já de seguida o voo proveniente de Boston e com destino a Lisboa. Esfrego os olhos, recolho o saco de viagem cor de mostarda que jaz entre as minhas pernas dormentes. A mulher, que estava na cadeira em frente e se dirige para a fila que entretanto se formou, sorri-me e diz:
“Ainda conseguiu dormir qualquer coisinha, não é verdade?”
Digo que sim, que “passei pelas brasas”. Se ela fica feliz por eu me dar por faquir...    

(1) Álbum dos Pink Floyd (canção “Money”), 1973.