13 abril 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 14. Domingo à tarde

A sala é grande e bebe a jorros a luz forte que lhe entra pelas janelas de sacada. A mesa é comprida e está ricamente posta. Eu sou um dos convidados de honra, de favor, pelo que me é impossível escapar à sopa nojenta com que me encheram o prato até às bordas. De pequeno que detesto todas as variações gastronómicas que incluam pão demolhado! Açordas, torradas encharcadas no molho do polvo à Bordalesa; só tolero mesmo as rabanadas a boiar no seu caldo doce, enriquecido com canela e casca de limão. Detesto, também, hortelã na comida: na canja, nos assados, seja onde for... Abomino, igualmente, todas as vísceras de animal que não tenham a consistência firme da moela ou do coração, e sangue, como ingrediente ou tempero – de que o exemplo mais flagrante é a cabidela, nem pensar! Pois, imaginem agora: a puta da mistela que, no meio de encomiásticos gorjeios, me deitaram, à revelia dos meus olhos indefesos, no prato fundo tem, em abundância, de tudo isto: pão encharcado, fígado, hortelã, o conjunto a boiar num sangue nojento, de um vermelho cediço, abrilhantado por vacúolos de gordura. Chamam a isto Sopa do Espírito Santo e é uma das preciosidades locais do almoço do domingo de Páscoa e, em extensão, dos domingos que se lhe seguem.
Invoco até mim as manhas que usava em criança quando era forçado a comer uma coisa de que não gostava: aferrar o nariz – como se me preparasse para  mergulhar nas ondas de um mar sem fundo – suster o reflexo do vómito e pensar noutra coisa. E aqui vai uma colherada, cheia, para acalentar o pensamento positivo de quanto mais cheias as colheres mais depressa esvazio o prato e me livro disto... O esófago retorce-se-me à passagem do caldo viscoso e de um farrapo de miolo de pão... Foda-se, para além de a sangue e a hortelã, isto sabe a canela, o choque plástico e gustativo é similar a ter engolido uma rabanada tombada em fluido menstrual! À minha volta, os olhares das senhoras fixam-me atentamente, ansiosas pelo veredicto, pois, a título cautelar, cometera a estupidez de confessar que seria a primeira vez a comer uma sopa destas... Repelindo um naco de fígado, vertiginosamente atraído para a concha do talher, encho uma segunda colher. Tento pensar noutra coisa...
As janelas, de sacada e com varandas curtas de mero enfeite, dão para os pauis da praça. Para a mesma praça para onde abriam as janelas da nossa casa, quando morávamos por cima da farmácia. Mas as nossas janelas da frente eram estreitas e a perspectiva sobre os pauis prejudicada pelos troncos e ramos mais baixos das araucárias, era uma paisagem tristonha, mesmo nos dias ensolarados. Daqui a vista é desimpedida, veem-se os dois lagos, vê-se o largo arborizado do Rossio, o coreto, as cadeiras da minúscula esplanada do Açucareiro. Agrupados em diminutas esquadras, andam patos a vogar nas águas, tranquilos, uma gaivota passou lá no alto, invejosa, deslizando o reflexo na superfície... Quando cheguei à Graciosa julgava que estas piscinas eram ornamentais, embora houvesse algo de peculiar nas suas paredes grossas e abauladas. Depois vim a saber que eram cisternas, primordialmente construídas para aproveitamento da chuva, o tom decorativo, que acabara por se impor, era secundário. A Graciosa não tem água doce, não há nascentes, ribeiros ou riachos,  a ilha é chata como uma bolacha e as nuvens que passam no céu não tem onde se enredar, preferem vogar mais a sul e enamorar-se da agulha do Pico, onde ficam emaranhadas e cismam grandes névoas, despejam chuvadas ou choramingam borriços. Aqui, o clima é louco, num mesmo dia pode chover, ventar, ficar nublado ou raiar um sol aberto: a ilha está totalmente à mercê do tempo que passa a caminho de outro sítio qualquer. Ao menos nunca é muito frio, penso, reparando que a sopa foi amornando, torna-se ainda mais nauseante emborcá-la. Já ingeri grande parte do líquido, mastiguei os pedaços de alcatra, mas, acusativos farrapos de pão jazem entre os troncos de hortelã como alforrecas presas no sargaço... Vejo a dona da casa olhar na nossa direcção, expectante, uma criada, inclinada sobre a mesa, segreda-lhe algo... É um recado do hospital, telefonou a madre superiora, parece que chegou um doente muito urgente, requer-se o médico de serviço. Ora, o Rui esteve de serviço ontem, o médico de serviço sou eu e levanto-me de supetão, antes que o gajo, que, a meu lado, se vai refugiando em copos de verdelho, aproveite a oportunidade e se escape ao repasto!
O doente está ainda deitado na maca em que foi transportado, pousada no chão da urgência, não quiseram mexer-lhe antes que o médico chegasse. É um homem dos seus sessenta e um fio de vómito escorre-lhe da boca, cola-se-lhe à bochecha flácida, escorreu para o lençol que o cobre até aos ombros. É comida, ainda por digerir, se aquilo não é sopa do Espírito Santo anda lá perto... “Sentiu-se muito mal logo no fim do almoço, de repente, quando se levantou da mesa...”, informa alguém que o acompanhou. “120/175”, segreda-me a madre superiora. Percebeu o que aquilo era mal lhe pôs a vista em cima e deparou com o ar ausente, confuso, do doente, um canto da boca descaído.
“Este senhor andava a tomar comprimidos para a tensão?”, pergunto enquanto lhe tomo o pulso. Andava, de dois tipos diferentes: uns brancos e uns amarelos, envernizados... Mas não com a regularidade receitada, percebo nas hesitações ao inquérito; sentia-se zonzo quando os tomava todos os dias... Às vezes tomava só metade do branco, partia-o pela ranhura.
Quando regressei ao almoço já as cores e a tremeluzência das sobremesas alegravam a toalha e os pratos dos convivas. A dona da casa, pressurosa, quer-me mandar aquecer qualquer coisa; garanto-lhe que “não, muito obrigado”, estará para mim perfeito fazer um curto-circuito directo à sobremesa.
“Nem um poucochinho de alcatra assada, com uma batatinha?”  
Durante a tarde fomos chamados mais duas vezes ao hospital, terminámos o dia com três AVC! Todos com tensões altíssimas, descontroladas, os três aparentemente desencadeados pela grande farra gastronómica do almoço de Domingo de Páscoa. Ficaram internados, dois na enfermaria dos homens, a mulher no lado da parede que lhe compete. É a mais nova, tem apenas 56 anos e, se não recuperar, vai ficar bastante estropiada e dependente. Não há grande coisa a fazer com os AVC e nem pensar em evacuá-los, não fomos bem sucedidos numa experiência prévia. O helicóptero demorou por causa do nevoeiro e os colegas, mais velhos e experientes, do Hospital de Angra telefonaram a descompor-nos: para que tínhamos mandado aquilo, que podiam eles fazer por lá que nós não pudéssemos por aqui, e quais as vantagens em desinquietar um doente confuso, que precisava era de sossego e não de ser balançado sobre as águas como um recém-nascido no bico da cegonha?! De facto, talvez eles tivessem razão, mas nós, por aqui, não temos capacidade de fazer sequer uma análise rápida ao sangue e os livros médicos são de pouca utilidade prática... E ficamos muito atrapalhados quando sentimos a gravidade de uma situação clínica a pairar sobre nós... Bem, mas isto de estar vivo e de se aguentar nas borrascas da doença também tem muito de sorte, a qual pode ser de distribuição instantânea ou ter de se esperar para ver. Os nossos três doentinhos – como lhes chamam as freiras – ficaram todos a soro, bem entalados na roupa, quietinhos nas suas camas e atentamente vigiados pelos familiares que durante a tarde vem de táxi visitá-los das freguesias e se sentam nas cadeiras dispostas em torno das suas camas, a pasmar para as gotas do sistema de soro. Eu, se não fosse um mero director interino, sem poderes reais de despesa e inovação, mandava até servir-lhes chá, não às cinco horas – para não interferir com o horário das visitas, que é das duas às quatro – mas lá pelas três e um quarto.   



09 abril 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 13. Febre de Sábado à noite

Interior da Igreja Matriz, Santa Cruz da Graciosa.
Para além de nós, estreava-se uma alcatifa vermelha, oferecida por um graciosense, emigrante em New Jersey, destinada a cobrir o estrado baixo que antecede o altar-mor, e que estabeleceria um belo contraste com a talha dourada das imediações.
Já no ensaio imediatamente anterior à missa de Aleluia a carpete ali estava, uma vez que a tarefa de a estender, alisar e afeiçoar aos rebordos do estrado que vai revestir revelou-se tarefa complexa e obrigou mesmo ao recurso dos serviços do estofador da vila. Nesse último ensaio, embora a noite estivesse chuviscosa, o padre Jorge esperava por nós à porta da igreja com o mal disfarçado fito de nos recomendar que raspássemos bem as solas dos sapatos no tapete de cânhamo do vestíbulo e que, lá dentro, tivéssemos todo o cuidado com o local onde pousávamos os guarda-chuvas, não fossem as ponteiras gotejantes manchar a alcatifa nova.
Espreito por cima do ombro, a nave está apinhada como um ovo de Páscoa. Não temos termo de comparação com o que se terá passado em noites homólogas de páscoas anteriores, mas habita-nos a vaidosa suspeita de que a afluência terá a ver connosco, o chamado síndrome new kid in town. Seja como for, o padre Jorge está sobre brasas e comporta-se como se esta fosse a noite do seu Juízo Final. Eu e o Rui chegámos uma meia-hora antes das portas se abrirem ao fieis e fomos dar com ele na sacristia a explicar ao Sr. Irineu, o principal acólito, em que momentos do culto deveria apagar as luzes da igreja e deixá-la às escuras, como no breu anterior ao Verbo, e qual seria a senha para que isso fosse desencadeado, relacionando-a com determinadas partes e palavras da pregação. O acólito, que anda nisto há mais tempo do que o padre, não parece impressionado com o planeamento da coreografia da escuridão e continua a atulhar o turíbulo de incenso, visto que, para ele, esse será o ponto máximo da cerimónia, pois já o evangelista anunciava: “E veio outro anjo e colocou-se junto do altar, segurando um turíbulo dourado e foram-lhe dados muitos incensos...”(1).
Ao ver-nos chegar, de casaco, calça de flanela e gravata, chocarreiros pelos vários cálices de Porto atestados para garante de uma boa afinação, o padre Jorge trasladou sobre nós as suas ansiedades. Oxalá o coro não se engane, oxalá tudo corra sem percalços; na assembleia – já foi espreitar lá de cima, da galeria, por entre a tubagem do órgão antigo – está o presidente da Câmara, está o emigrante que ofereceu a alcatifa; está o veterinário; está o dono da farmácia; está até o Oriolando, um ateu de referência; em suma, está a ilha em peso ou, pelo menos, quem conta.
Órgão da Igreja Matriz, Santa Cruz da Graciosa.
O Rui palmatoa-lhe com bonomia o ombro da sotaina: ele que não se preocupe, tudo correrá bem, e acrescenta um “segundo os desejos do Senhor” que, quem não o conhecer, tomará por genuína solidariedade, confundido pelos modos extremamente circunspectos e cerimoniosos que é capaz de assumir quando pretende tanguear terceiros. O nosso pequeno grupo de intervenientes vai-se acumulando na sacristia e, entretanto, chegou a D. Nizalda Barcelos, que tira o casaco e o pendura, com à vontade de iniciada, num cabide, ao lado de umas opas e de umas estolas eclesiásticas. Estamos prontos, são horas, e de cabeça flectida penetramos na igreja a caminho do local do coro, que fica, quem vem da sacristia, do outro lado do altar-mor. Ao contrário das freiras e das beatas, e até da D. Nizalda, nós não sabemos, não temos à vontade para aquele esboço de genuflexão, acompanhado de um rápido sinal da cruz, que é devido ao passar-se, no corredor central da nave, sob a zona de influência do sacrário, pelo que a tentativa de vénia do Rui fez periclitar, por um pé não recolhido a tempo, um jarrão com verdes. Mas não mais do que isso e eis-nos alinhados, quase dando as costas aos fieis, de feição a podermos observar a cada momento as indicações da D. Nizalda, sentada à organeta e abarcando-nos a nós e ao padre Jorge, que surge agora em direcção do altar, seguido do Irineu e de mais dois putos que, com as suas opas rendilhadas parecem bases de bolos. Com espanto, dou-me conta que toda as estátuas e estatuetas dos nichos da igreja estão cobertas com uma espécie de carapuço roxo que, como a cobertura de uma gaiola de pássaros, os esconde completamente. Atenção, vai começar!
Tudo quanto podia correr mal naquela missa correu pior. O coro desafinou e enganou-se a entrar, trocando uma música por outra, o que provocou, na nossa mentora organista, um encolher de ombros de quem foi apanhado numa maldade infantil e está supinamente divertido. Depois, apesar de industriado pelo padre Jorge e pelo Irineu, o jovem acólito de serviço aos interruptores confundiu-se várias vezes e as luzes mantiveram-se, resplandecentes, mesmo após o padre anunciar “e as trevas abateram-se sobre a Terra”, arruinando o efeito cénico de ficarmos apenas à luz bruxuleante e mística dos círios. Mas a gota de água, ou melhor dizendo, a gota de fel, chegou pela mão do Irineu que, porventura por o ter atafulhado em excesso, ao pendular o turíbulo com o intuito de potenciar o “subir do fumo dos incensos”(2) fez derramar algumas brasas sobre a alcatifa nova. Aí, o padre Jorge não resistiu e deixou apressadamente o altar para vir atacar a matéria ardente com desesperadas sapatadas extintoras, o que provocou a estranha miragem de estarmos a assistir a uma dança de sapateado e desencadeou uma risada alargada que não passou despercebida ao humilhado sacerdote. Dominado o incidente, o padre Jorge regressou ao seu posto atrás do missal e não se conteve a dar largas à sua frustração, desatando a ralhar com a assistência, censurando-a pelo não cumprimento das responsabilidades de cristãos, assumidas no baptismo, pelo seu afastamento da vida do templo, em suma, pela sua falta de fé.
Procissão do Senhor dos Passos (Quaresma), Santa Cruz da Graciosa.
Mais tarde, já em casa, na companhia do Pombo, a quem convidámos a vir passar uma temporada aqui, enquanto atravessa a fase mais crítica do tratamento com tuberculostáticos, rimos até às lágrimas ao relembrar os saborosos detalhes da noite, pois o Pombo assistira a tudo de um banco das primeiras filas da nave, com uma boa perspectiva sobre “o palco”, como ele dizia. O Rui, afagando o copo de rum, achava que “contado, ninguém acreditaria em tal cascata de incidentes” e eu, deixando a cama para ir mudar a cassete que chegara ao fim, achava que fazia lembrar as comédias italianas dos anos sessenta. O quarto de hóspedes é pegado ao meu e daqui vejo o Pombo, de pijama às riscas, deitado na cama, fazendo-nos chegar os comentários numa voz roufenha e esforçadamente esganiçada. O Rui, que está de serviço hoje à noite, conserva-se vestido e de gravata, e passeia-se entre o quarto dele e o meu, onde acaba por se sentar ao fundo da minha cama, de copo na mão.
“Deita aqui mais um coche”, peço estendendo-lhe o meu cálice, pois ele está também de serviço à garrafa de Bacardi Gold.
 

(1) Livro do Apocalipse 8:3.
(2) Livro do Apocalipse 8:4.

04 abril 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 12. Afasta de mim esse cálice

Igreja Matriz de Santa Cruz da Graciosa.
Este ano a Páscoa é alta – 15 de Abril – o que nos dá alguma margem para não fazermos assim tão fraca figura. É que, na noite da véspera, vamos estrelar na missa do Sábado de Aleluia, cantando no coro da Igreja Matriz. Imagine-se só: os médicos vão trinar na, talvez, missa mais carismática do ano, quando as trevas da Paixão descerem sobre a Terra e sobre os nicos de rocha rodeados de água por todos os lados. Anda tudo excitadíssimo com a novidade, desde as Irmãs ao padre Jorge, nós incluídos.
Quem teve a ideia inicial de nos empurrar para o coro foi uma das freiras, talvez a irmã Noémia, já não sei. Penso que a coisa surgiu por eu ter falado de música e de como gostava de música e uma delas ter querido saber se tocava algum instrumento e eu dizer que sim, que em tempos arranhara a guitarra, integrara até o embrião de uma banda que ensaiava na Senhora da Hora... E, então, alguém fez escorregar a hipótese para o prado verdejante das possibilidades... O coro da Igreja Matriz, que estava tão depauperado, só mulheres a cantar, sem uma única voz masculina para além da do padre Jorge e esse, pobre alma, Deus lhe perdoasse, era tão pouco dotado do ponto de vista canoro...
E nós, sem sexo, sem cinema, sem restaurantes, sem cafés; a capacidade para nos encantarmos com passatempos passivos – como a leitura – tão diminuída pelo spleen insular, deixámo-nos cair na tentação, para grande alegria da irmã Noémia e da madre Superiora, já que a irmã Celeste não canta nem deixa os seus aposentos no hospital nas horas vagas.
“O próximo ensaio é já depois de amanhã”, anuncia a irmã Noémia, levitando de antecipação... Se os Srs. Drs. quiserem vir aqui ter ao hospital, podemos ir juntos, apresentamo-los ao Sr. Padre Jorge.” E, agora que seríamos correligionários, confessou com um risinho: “Antes do ensaio tomámos uma gotinha de vinho do Porto, é muito bom para aclarar a voz; se acaso desejarem fazer-nos companhia...”
“Ai é?”, perguntou um de nós, preocupado por não termos um tal ambientador em casa. “A irmã acha que rum ou whisky serviriam?”
A madre Superiora abanou a touca numa negativa: “Estou em crer que não, deve ser um licor: doce e não muito áspero para as cordas vocais. Dizem que o melhor é o vinho da vossa terra...”
O padre Jorge é um tipo novo, fiquei surpreendido, não estava à espera; não terá deixado o seminário há muito. Deve ser mais um daqueles que veio aqui parar sem ideia de onde ia ancorar. É um homem nervoso, inseguro, e embora tenha ficado muito contente com a nova aquisição não sabe muito bem como lidar connosco. Nós não ajudamos grande coisa, pois desconhecemos os rituais envolvidos, quer em agrupamentos corais quer no comportamento a observar no seio de uma igreja. Quem acabou por salvar a situação foi a D. Nizalda que, surpreendidos, vimos chegar, atarefada e um nada em atraso, e dirigir-se para o banquinho do pequeno órgão eléctrico, atravessado na vizinhança do estrado que antecede o altar-mor.
“A senhora é a mulher dos sete ofícios...” cumprimentámos ao consciencializar que, para além de organista e de orientar a cantoria, é quem fornece o vinho do Porto que também ali existe como remedeio para algum corista que o não tenha tomado em casa.
D. Nizalda Barcelos.
Para além das freiras, do padre Jorge, de nós e da D. Nizalda, integram o coro  mais uma meia-dúzia de senhoras, a maioria da categoria beata empedernida. Mas, sorridente, a nossa pianista vai informando ser plausível que, em próximos ensaios, apareçam mais candidatos, pois a notícia da nossa adesão despertou curiosidade e interesse “entre a juventude”. O padre Jorge fica aflito com a notícia, exalta-se um pouco, levanta e aproxima as mãos de unhas roídas ao nível do rosto e diz que não é a melhor altura para se estar a acrescentar o coro, que é, sim, o momento de o estabilizar para que tudo venha a sair como se espera na noite do Sábado Santo.
“Vá lá, padre Jorge”, admoesta-o maternalmente a D. Nizalda, “não seja tão pessimista!”
Mas ele é, pessimista e ansioso, uma combinação explosiva. Dali a umas semanas, num momento em que, após um ensaio, ficamos os dois a sós na sacristia, enquanto abre e fecha os gavetões da cómoda onde se guardam os paramentos, ir-me-á confessar que tem medo de ter perdido a fé, de ter deixado de acreditar naquilo que faz, nem sequer está totalmente seguro quanto à existência de um céu para além das nuvens! Fico bloqueado pela notícia e sem saber o que lhe dizer, antes de mais por se estar a abrir comigo daquele modo, o que significa que deve estar desesperado e se apoia em mim por ser médico, por haver também em mim a obrigação em ouvir e manter segredo sobre os males do corpo e da psique que me são confiados. E se o pusesse a uma dieta de Lorenin, pelo menos até ao Domingo de Páscoa, não vá ele armar cagada? Simultaneamente sinto-me  preocupado com o seu futuro profissional – um padre sem fé, prestes a desatinar, a entrar em pânico; o desfecho clássico do que acontece a muitos que vêm parar às ilhas.
Ainda nem três meses passaram desde a chegada do nosso contingente de médicos ao arquipélago e os relatos de “esgotamento nervoso”, que nos conta o Paulo Amorim – entre risadas abafadas no bocal do telefone –, acumulam-se.
“Estás a ver o Saraiva, aquele que veio connosco do Porto e foi parar a S. Jorge?”
Sei muito bem quem é o Saraiva, um inofensivo e calado personagem do nosso curso, mas não faço ideia dos detalhes da estadia dele em S. Jorge. O Paulo acha inadmissível a minha ignorância,  afinal ele está aqui ao lado, em S. Jorge, um nosso vizinho; como se o pudéssemos ver daqui cada vez que fossemos ao terraço das traseiras!
“Pois, olha, o divertimento preferido dele era meter-se no carro do hospital – uma Dyane, penso eu – e fazer a ilha de uma ponta à outra, para a frente e para trás, horas seguidas; sempre a acelerar, embora aquilo não acelere nunca grande coisa, é uma cagadeira ambulante. Pois, olha: espetou-se contra um muro ou contra uma vaca, ou capotou ou lá o que foi... O certo é que estava tão pirado que teve de ser evacuado, já não está cá! Vi-o quando passou aqui pelo hotel, a caminho do aeroporto, apanhadinho de todo; aquele já não vai a lado nenhum! Ou melhor: se calhar foi mais esperto do que nós e já está em casa, não tem de aturar mais isto nem comer ananás a todas as sobremesas!”
E o Paulo ri convulsivamente do lado de lá da linha, provocando-me também um ataque de riso e, por contágio diferido, um outro ao Rui que, chegado ao meu quarto, quer saber o que se passa e porque me estou a rir tanto, e eu não consigo pô-lo ao corrente pois sou acometido de paroxismos alvares durante as tentativas de explicação.
“Paulo, sua bichona incorrigível”, berra o Rui para o bocal, depois de me arrancar o telefone das mãos. “Explica lá isso desde o começo, quero saber do que me estou a rir!”
Mas o Paulo não consegue repegar o fio à meada, hilaremente fixado ao fragmento das rodelas de ananás a todas as sobremesas.
“Quem nos dera – ananás todos os dias”, grita-lhe o Rui, o máximo que tens aqui é queijo da ilha com compota!”
E a história do Saraiva fica por explicar, dissolve-se na risota da comparação das sobremesas na Terceira e na Graciosa.
Os ensaios prosseguem a bom ritmo, nós não falhamos um e, não tendo vinho do Porto em casa, recorremos ao do Açucareiro – que fica em caminho da igreja matriz – onde entramos a tomar um ou dois como preparação. Depois, já na igreja, raramente recusamos o cálice que nos é oferecido à chegada, de modo que o clima dos trabalhos – com a excepção, sempre crispada, do Padre Jorge – não podia ser mais amistoso e divertido. Foi-nos distribuído um agrafado de folhas com as letras das músicas que vão ser cantadas e é com surpresa que reconheço numa delas a melodia do “Blowin’ in the Wind”, do Bob Dylan e até os versos em português se baseiam na resposta que sopra no vento da canção original, só que aqui a resposta vem dos Céus e a boa nova é a palavra do Senhor, etc. e tal. Aquilo dá-me ideias, sou arrastado pela tentação de introduzir alguns melhoramentos ao repertório e proponho ao padre Jorge que usemos uma canção recente do Chico Buarque, chamada “Cálice”. O padre fica desconfiado, refugia-se na opinião da D. Nizalda, que não conhece a música. Canto o refrão, omitindo o resto da letra:

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Mas eles não se sentem confortáveis com a novidade: o padre torce o nariz ao “vinho tinto de sangue” e, segundo se lembra, nenhum dos quatro evangelhos fala nisso de Cristo ter exigido ao Pai que o livrasse de beber o que tinha a beber para  salvar a Humanidade. A D. Nizalda é mais prática e tem receio que seja demasiado complicado para o coro acertar com a inserção na canção das diferentes entoações de “Pai” e de “cálice” que ela, esperta, acha que vai soar aos ouvidos de todos como “cale-se”. Desisto e voltamos à aguada versão litúrgica do “Blowin’ in the Wind”. 


Nota: “Cálice”, de Gilberto Gil e Chico Buarque, 1978.

01 abril 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 11. Alô, alô, é da central?

Sem poder sair daqui, a não ser a nado, com o correio a chegar – com sorte – uma vez por semana, o nosso único meio de contacto com o exterior, o mundial, é o telefónico. Mas mesmo o singelo gesto de pegar no auscultador, discar um número e ter na linha quem nos interessa, não funciona aqui!
A menos que queira contactar um número local no interior da ilha, para ligar para qualquer outro lugar do universo devo fazê-lo através de uma operadora em Angra do Heroísmo, a capital da ilha Terceira. Do outro lado do fio, na central, surge uma senhora que já sabe quem sou e me conhece a voz antes de eu ter tempo de o dizer e que, ao soletrar-lhe o número que pretendo, é mesmo capaz de clarificar: “ah, é para casa dos paizinhos”. Acho isto chocante em termos de privacidade ou de liberdades e garantias – como se diz agora – mas é o que temos e ninguém consegue escapar ao processo.
A minha mãe, por outro lado, acha tudo isto pitorescamente divertido e este atraso de vida recorda-lhe os ambientes sertanejos das terriolas descritas por Jorge Amado nos romances que têm inspirado tantas telenovelas de sinhás e coronéis e que ela segue com paixão e encanto. Lá, no continente, é uma hora mais tarde do que aqui, pelo que sucede ela poder ligar pensando que terá comigo uma troca de impressões pós-prandial, durante a qual poderá até perguntar o que jantei hoje; mas, sendo aqui uma hora mais cedo, enquanto a ela, na sua poltrona da sala de estar, em frente à lareira, chegam os sons longínquos e reconfortantes do arrumar da cozinha, por aqui acabei eu de bater a porta da casa dos magistrados para, melancolicamente, ir enfrentar o peixe frito da D. Irene. E foi isso mesmo que lhe disse a meninas dos telefones da ilha Terceira quando ela ligou e pediu para falar com a casa dos médicos da Graciosa:
“Ó minha senhora, eu ligo, se quiser, mas olhe que eles – a esta hora – não estão, foram jantar...”
A minha mãe acha isto extraordinário, a mim deprime-me! Em nossa casa o telefone está lá em baixo, na zona do escritório, mas tendo em vista a nossa especificidade laboral e o cada um de nós estar de urgência dia sim dia não, exigimos que o conectassem a um fio tão longo que possa serpentear pelas escadas acima e esgueirar-se por baixo da porta do meu quarto, ou do quarto do Rui, dependendo de quem está à chamada nessa noite. Hoje é o meu dia sim e aqui está ele ao meu lado, na mesinha de cabeceira de hospital, que faz pendant com a minha cama, mas eu olho-o de cernelha, desconfiado; evitando usá-lo para conversas de índole privada, pois é como bichanar para um confessionário aberto para o refeitório do convento! Mas a noite é longa e o tédio imenso. O que estarão todos a fazer por lá, pelo Porto, por Cascais?
Lá fora o vento geme e entrechoca as ripas de plástico dos estores. Pego num livro, mas farto-me ao fim de poucos minutos; ando com dificuldade em concentrar-me no que leio e a trama escapa-se-me de significado, pois outras ideias se interpõe, catapultadas ou não pelo que estou a ler. Dou uma golada no gargalo da pequena garrafa espalmada, de bolso, que já teve whisky mas para onde transvasei rum velho, com uma atraente cor de caramelo e um travo a noz residual. Pouso o livro, vou mudar a cassete no Aiwa e acabo por levantar o auscultador e pedir uma ligação para Cascais, para casa da João, nome e parentesco que, desconfio, a operadora já terá interiorizado, uma vez que não acrescenta  comentário algum ao pedido de marcação de chamada. Desligo e bebo mais um gole, uma ligação com o continente demora sempre alguns minutos. Mas esqueci-me do cabrão do fuso horário, que os minutos escorrem e que por lá é uma hora mais tarde, e quem atende é uma voz masculina, à beira da indignação, que me obriga a dizer quem sou e com quem quero falar antes de responder que isto não são horas de se ligar para casa de ninguém. Olho o relógio e são dez nos Açores, não me parece que seja assim uma hora tão desgraçadamente escandalosa!
“Ó chefe, não é consigo que eu quero falar”, deixo escapar, “passe-me lá a João”.
Ele não passa, claro, e desliga, mas o meu fugaz desabafo foi arquivado na mente do meu futuro sogro e será a primeira coisa que usará como ilustração de já nos conhecermos, no dia em que, um ano mais tarde, lhe for apresentado. A minha desculpa circunstancial para o meu deslize insular irá basear-se na diferença horária, pois o homem é engenheiro electrotécnico e fez toda a sua formação na Suíça, é, por isso,  respeitador da ciência relojoeira.

Angra do Heroísmo: Praça Velha e, ao fundo, Hotel Angra.
O telefone serve-nos também para trocar informações com os companheiros de degredo, particularmente os que estão sedeados em Angra e, como Angra é o centro do nosso mundo, obter através deles notícias do resto dos Açores. Na Terceira ficou colocada mais de uma dezena de colegas, que asseguram a assistência médica em tudo quanto são postos de saúde e casas do povo da ilha e reforçam semanalmente as escalas dos serviços de urgência do Hospital Distrital, que tem míngua de médicos. A maior parte deles reside no Hotel Angra, um dos dois hotéis da cidade e quartel-general dos clínicos do SMP. A Secretaria Regional dos Assuntos Sociais tem ali vários quartos tomados em permanência para estes colegas, os quais fazem todas as refeições no hotel e o usam como se fosse uma república. Como há sempre alguém a circular – por férias, ausência para tratar de algum assunto, etc. – é fácil poder usar, à borla e por um par de dias, um dos quartos quando alguém de uma das outras ilhas do grupo Central ou Ocidental se desloca à Terceira, ou passa pela Terceira a caminho do exterior. A gerência do hotel fecha os olhos a isto tudo, a este borboletear de gente que entra e sai sem reserva, sem se registar, e sem pagar conta, e vai fornecendo serviços de quarto e refeições sem se queixar – alguém lhes há-de pagar isto mais cedo ou mais tarde. Por esta altura, desde o regresso massivo de colonos das antigas províncias ultramarinas, os hotéis estão habituados a servir de poiso a este tipo de refugiados; por isso nós seremos encarados como mais uns do género: gente que tem de ser tolerada, com a vantagem de sermos médicos, o que agrada à população. A pouco e pouco vamos sendo conhecidos e a tolerância instala-se, tornou-se mais lasso e menos explícito o desagrado com que fomos recebidos inicialmente. Em Angra, cidade pequena e muito provinciana, não mais ninguém se atreverá a tratar-nos como aconteceu na tarde do primeiro dia em que aqui chegámos: o Rui, eu e o Paulo Amorim – pousadas as malas no hotel – atravessámos a Praça Velha e entrámos num café para tentar tomar um. Sentados a uma mesa, olhando tranquilamente em volta, pedimos três cafés quando o tipo que saiu detrás do balcão nos veio atender.
“Não há café”, respondeu ele, pronto e em registo cortante.
Olhámo-lo, surpreendidos, e confirmámos aquilo que era evidente: em volta havia pessoas a tomar café, a levar chávenas à boca, a remexer com a colher a xícara acabada de pousar na mesa.
“Mas ainda agora serviu café...”, disse um de nós, apontando a evidência mais recente.
“A máquina avariou-se!”, respondeu o homem dando de ombros.

E aí sentimos na pele aquilo que já sentíramos ao chegar a S. Miguel, de que já nos tinham avisado: os continentais não eram desejados nos Açores, eram globalmente encarados como comunistas ou semelhante, representantes do reviralho que dera dado cabo do país e impusera a desordem como bitola nacional. Os Açores temiam o contágio e tencionavam resistir a isso, havia mesmo um recrudescimento do movimento independentista que julgava poder safar o arquipélago à custa da posição geoestratégica, da América e do aluguer das Lages. Saímos e fomos tomar café ao hotel, ao menos aí sabiam quem nós éramos e tinham de nos aturar.