24 fevereiro 2018

DEUS LHE PAGUE

                                 Por nós falariam os cemitérios
                                 Se os cemitérios falassem
                                 Sobre nós crocitaram velhos comparsas
                                 Até que os respectivos táxis chegassem

© Pintura "Donde vimos, quem somos, para onde vamos" de Fernando Varanda, Lisboa 2016.

20 fevereiro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 4. Olhai as vacas dos campos

Ilha Graciosa, Açores.
É sempre um risco generalizar a partir de uma única observação. Entretido a dar nomes de cores às ilhas dos Açores (ao Faial chamou ‘ilha azul’ por causa das hortênsias), o escritor Raul Brandão resolveu cognominar a Graciosa de ‘ilha branca’. Ilha branca!? Quase escuto o brado de protesto de uma série de ilhas gregas a evolar-se em coro do azul-ferrete do Mediterrâneo.
Acontece que o homem passou por aqui no final do Verão, quando o verde da paisagem se encontra crestado pela falta de água e as casas caiadas sobressaem na relativa aridez. Foi um erro de julgamento sazonal, tivesse o tipo andado hoje connosco e chamaria a isto a ‘ilha verde’.
É Domingo, eu e o Rui metemo-nos na Dyane para a tal volta de reconhecimento à ilha, preparados para gastar a tarde inteira na excursão... Qual quê!; passado pouco mais de uma hora estávamos de novo a estacionar o carro à porta do hospital para ir dar uma espreita aos doentes internados. A ilha tem 10 km de comprimento por 4 de largura, se não formos geógrafos ou botânicos percorre-se isto em meia-hora. E mesmo assim parámos no Carapacho por nos terem dito que havia lá um restaurante. Não há! Há um senhor a quem se pode encomendar uma caldeirada ou um cavaco estufado, mas tem de se marcar com antecedência para que ele arranje o peixe, mande capturar essa espécie de lagosta jurássica, e abra e areje a sala onde iremos comer.
Rai’s parta, lá vamos nós ter de continuar a comer na D. Irene ou se queremos comer melhor, aprender a cozinhar, uma solução demasiado radical para já. Rai’s parta também o romanticismo do Raul Brandão, que deve ter gasto por aqui uma meia-hora deslumbrada.

De facto, em fins de Fevereiro, a ilha é verde como um drop mentolado para onde se quer que olhe. Para onde quer que se olhe vê-se o mar e mais nada, perto e longe, e entre ele e nós – especados ao lado da Dyane, de mãos enfiadas nos bolsos a arrostar com a ventania destes descampados – só se veem vacas; vacas e mais vacas que nos olham com olhos meigos ou indiferentes, algumas delas quase encantadas por algo como nós lhes aligeirar o tédio dominical, outras escorrendo baba pelos cantos da boca como um alienado entre as tomas do anticonvulsivante. Sobram ainda as que não levantam sequer a cabeçorra do solo, concentradas a retouçar o pedaço de verde ao seu alcance, confiantes no dia de amanhã e na eternidade do sustento. Até onde a vista descaída lhes alcança, a erva dos prados agita os caules verdes numa saudação amiga.    

Nota: As vacas da segunda imagem são tomadas de empréstimo à contracapa do álbum Atom Heart Mother dos Pink Floyd, 1970.


16 fevereiro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 3. Pulgas no Açucareiro

Esplanada do Açucareiro.
Encontrámos o Sr. Medina no Açucareiro e, a princípio, o encontro pareceu-me uma aparatosa coincidência, quase reagi com a face do espanto. Depois descobri que o café do Açucareiro é o único da vila, da ilha!, e a surpresa feneceu.
Do lado de lá de um dos dois lagos que lambem a porta de nossa casa fica o largo principal da vila, o Rossio. No centro há um coreto – conhecido por açucareiro – e sob o chão deste, no miolo da estrutura que o suporta, numa sala rebaixada, instala-se o café da ilha. De modo que ali converge diariamente, de manhã, à tarde e à noite, a gente de Santa Cruz da Graciosa: os da farmácia, os do hospital, os da câmara, os do correio, os dos serviços veterinários, os da firma que anda a construir o porto, o Sr. Medina, este último representando com circunspecção os serviços judiciais e fazendo discreto sinal de que nos deseja apalavrinhar por uns instantes.
Ora acontece que os Serviços Sociais do Ministério da Justiça pretendem contratar a atenção médica a que, por estatuto, têm direito, mas dada a nossa condição de médicos policlínicos torna-se impossível firmar um contrato e, então, depois de ouvir os seus superiores em Angra do Heroísmo...
Distraio-me do que diz o homem: a familiaridade de ter sido o nosso fiel escriturário durante a autópsia reenvia-me, por uma associação de pensamento lateral, para uma aula prática de medicina legal ocorrida num soturno fim de tarde na Morgue do Porto, ali ao lado do jardim do Carregal. As filas e os assentos da pequena sala estão dispostos em anfiteatro, uma mão toca-me o ombro e a voz do Zé Lino, que se distrai na fila atrás da minha, segreda:
“Estás a começar a ficar careca, pá, já se nota uma clareirazinha no alto do cocuruto...”
Tento encaixar o choque sem alarde. Careca!? Tenho vinte e dois anos e por observação atenta do espelho não tenho notado nada de tal... O certo é que  controlo sobretudo as entradas da testa... Mas dali, do seu posto de observação privilegiado das traseiras, o Zé Lino – colega com quem costumo estudar em casa de meus pais e para onde, sempre que pode e eles não estão, ele orienta as namoradas de ocasião – detectou a falha, a erosão insidiosa. Humilhado, destroçado, tento resistir a não levar, em público, a mão à zona desmascarada.  
Enfim, tudo se passou em local apropriado para uma constatação sobre mortalidade e os efeitos da passagem do tempo, generalizo, de novo à ponta do balcão do café por baixo do coreto e regressando à conversa do Sr. Medina, que nos pede, então, o obséquio de, entre nós e logo que possível, decidirmos qual dos dois será o médico dos serviços judiciais da comarca da ilha Graciosa. Derivado de não pode haver contrato, não poderá haver lugar a pagamento, somenos que ele espera a gente compreenda.
A gente, isto é eu e o Rui, não compreende grande coisa, mas também pouco nos interessa. Os funcionários e respectiva família do pessoal do tribunal serão dois ou três gatos pingados e, quando necessitarem, marcarão vez e irão à consulta como os outros.
“É isso, não é?”, perguntámos mais tarde nesse dia ao Nascimento, o chefe dos serviços administrativos do hospital que, embora estivesse também ao balcão do Açucareiro, lançando olhares de acesa curiosidade na nossa direcção, fingiu não saber ao que nos referíamos. Resumimos-lhe o encontro e a conversa.
O Nascimento, sem se querer comprometer com assuntos de outras entidades oficiais, acha que será mais ou menos isso, que eles estarão, sobretudo, interessados em manter o esquema de comparticipação de medicamentos e outros serviços que, por vezes, são diferentes do regime geral...
“Vejam os doutores, por exemplo os bancários: têm um sistema de protecção na doença muito mais...”
Já desligamos outra vez, queremos é pôr-nos a andar, ver se conseguimos acabar de encafuar os nossos pertences nos armários e dar uma volta de reconhecimento pela ilha na Dyane, veículo que requisitámos para nosso uso. O Nascimento vai abanando a cabeça e dizendo que “já que se está com a mão na massa” lhe devemos indicar com brevidade qual de nós irá ser o responsável formal por alguns cargos que é necessário distribuir: director clínico do hospital, delegado de saúde, director da consulta do dispensário do SLAT, director da consulta Materno-Infantil, membro da Comissão Administrativa do Hospital... Tudo isto, e dada a nossa condição de médicos policlínicos, será assegurado a nível interino e gracioso.
“Mais nada?”, inquirimos, já irritados, e perguntando se no meio disso tudo nos iria sobrar tempo para ver e tratar doentes.
O Nascimento teve um riso nervoso, o confronto directo parece não ser o seu terreno favorito. Refugiou-se nas directrizes do Sr. Vasco Weber, chefe da Comissão Administrativa do Hospital Concelhio. Queremos saber quem é esse senhor e onde está, mas, pelo visto, faz outras coisas na vida e só passa por ali de vez em quando.
Estamos de saída, mas o Nascimento agitou ainda um pedacito de papel diante dos nossos olhos.
“Ah, já me ia passando, telefonou para aí o Araújo, dos Correios... Parece que quer falar com os senhores – suponho que será para que indiquem qual vai ser o médico deles – e convida-os para um copo, palavras suas, uma noite destas em casa dele.”  
Director (interino) à porta do hospital, vendo-se, 
à direita, a janela do seu gabinete.
“Ao menos um que é simpático a manobrar...”, comentei com o Rui já no caminho para casa, um trajecto de cinco minutos a pé que deu para discorrermos sobre a multidão de gajos e serviços que se preparavam para girar em torno de nós dois.
“Pois. Já viste a quantidade de gente a quem o nosso trabalho vai justificar a existência? Que seria deles se este ano não tivessem vindo médicos para a ilha? Uma matilha de pulgas para um só cão!”
“Dois, se não te importas”, corrigi, “exijo ser chupado por metade dessas pulgas. E a ti, o que te agrada mais: director do hospital ou delegado de saúde?”
“Sei lá, talvez delegado de saúde. Não faço ideia, mas é capaz de dar menos trabalho...”
E animamo-nos um pouco ao lusco-fusco a combinar entre nós quem ficava com o quê.

© Fotografias: Santa Cruz da Graciosa, Graciosa (Açores), 1979, fotógrafo desconhecido.





10 fevereiro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 2. Autópsia

A Lição de Anatomia, Rembrandt, 1632.
A autópsia correu bem, graças a Deus que nas mortes violentas a causa se revela na generalidade bastante evidente, mesmo antes que se descomponha o defunto.
O cadáver esperava-nos pontualmente no acanhado anexo por trás do hospital que fazia de morgue. Pontual também foi o Sr. Medina que já lá se encontrava com uma expressão de formalidade contrita semelhante àquela com que nos fora aguardar ao helicóptero. Como ele próprio nos explicou é grande a dificuldade do Ministério da Justiça em conseguir recrutar magistrados que venham viver ou até cumprir uma missão de dois ou três anos à Graciosa. É isso que explica não existir na ilha nem juiz nem delegado do ministério público. Mas o Sr. Medina tem fé e rumores de que, talvez brevemente, seja colocado alguém na ilha e que as carências mais gritantes sejam supridas e que os processos deixem de se continuar a acumular na sua mesa... Enquanto aguarda, fechado no seu mistério de confidencialidade, Sr. Medina vai desempenhando todos os papéis que a função exige: a de chefe da secretaria, a de quase autoridade judicial; a de escrivão; a de zelador das moradias geminadas que aguardam os magistrados, estando  destinada uma ao juiz e outra ao delegado do ministério público.
Vamos concordando e olhando o morto, enquanto o vemos retirar, com método, os ferros de autópsia, propriedade do Tribunal, de uma maleta que trouxe com ele e onde está igualmente acondicionado o papel pautado e timbrado onde irá registar o que nos “aprouver ir ditando durante a necropsia”.
No longínquo começo da manhã uma Citroen Dyane transportara-nos, mais às nossas malas, desde o heliporto improvisado até ao local onde vamos morar durante um ano. A casa dos médicos fica por cima da única farmácia da ilha e é suficiente desviarmo-nos por vinte centímetros na porta de entrada para nos encontrarmos no meio de estantes de vidro e caixas de medicamentos, frascos de xarope, embalagens de supositórios e ampolas bebíveis. Ao atravessarmos o umbral há quem tenha vindo espreitar à porta da farmácia: doentes pasmados, de receita em punho, e um tipo de bata branca que nos sorri com uma cumplicidade embevecida. Pousámos as malas e damos uma volta de reconhecimento pela casa, embora haja pouco a ver: dois quartos de estuque enxovalhado, uma sala acanhada com um sofá arrombado e uma janela que dá para o largo fronteiro à farmácia e donde se avista um lago em forma de rim, bordejado por uma cáfila de uma espécie de grandes pinheiros de ramos horizontais e com algo de artificial pois parecem ter sido espetados ao tronco com um martelo. São araucárias, como nos irá informar o Sr. Medina um dia destes, num futuro que ainda não bateu à porta. Para já faltava-nos ainda ver uma pequena cozinha, com ar de ter sido pouco usada. Escancarámos os armários e encontrámos, na face interior da porta de fórmica de um deles uma inscrição de boas-vindas gravada a marcador preto: “BEM VINDOS À ILHA DA LOUCURA”. O recado deve ter sido deixado, para nos desmoralizar, pelos três gajos com que nos cruzámos à porta do helicóptero ou será que eles, à sua própria chegada, já encontraram aquilo desabafado pelos colegas que os  antecederam?
Santa Cruz, paul e araucárias.
Estávamos, cada um no quarto que escolhemos sem entusiasmo, a atirar alguns dos nossos pertences para dentro das cómodas quando ouvimos a porta ranger ao fundo das escadas e uma voz gritar para cima. Espreitei: um tipo arruivado, de bata branca e muito curta que lhe dava aspecto de bibe, subia as escadas com desembaraço, como se estivesse habituado a fazê-lo; ia-se apresentando:
“Gaspar, auxiliar de farmácia. Tudo quanto precisem...”
E o Gasparinho, como logo informou preferir ser tratado, demorou-se por ali e na sua fala um pouco pevidosa foi-nos pondo a par de que se tinha dado lindamente com os médicos anteriores; que tocava trompete no conjunto da terra e que na sexta-feira – como em todas as sextas e sábados – haveria baile na colectividade; e que já ouvira zunzuns de que tínhamos uma autópsia às duas da tarde... Depois, como se fosse o proprietário, lamentou a nossa casa e ela não ser tão boa como quanto mereceria a dignidade de médicos da ilha, mas que estava a ser ajustado entre a Secretaria Regional e o Tribunal a cedência de uma das duas casas dos magistrados, pois estavam vazias há anos e tinham outra decência e não aquela estreiteza do andar por cima da farmácia. O Sr. Medina não nos teria já falado nisto?
Não, o Sr. Medina – após ter solicitado a nossa licença – despira o casaco e usou as costas da cadeira como cabide. Retirava agora uma resma de papel de uma maleta e, depois de o alisar batendo com ele no tampo da escrivaninha que havia na morgue, informou-nos que irá registando o quanto lhe formos ditando durante a necropsia.
Olhei o Rui e trocámos entendimento sem pestanejar sequer. Ambos tínhamos já compreendido que a encenação era veste importante no destino a que acabáramos de chegar, mas ele foi mais rápido do que eu: estendendo-me o bisturi e assumindo o tom de um Dr. Watson, em diálogo com Sherlock Homes, comunicou, muito profissional:
“Queira proceder, colega...”
“Cabrão”, mal tive tempo de pensar enquanto revia mentalmente o pouco que retinha das aulas práticas de Medicina Legal. Para efeitos de autópsia, um ser humano cortava-se como um pacote de cartão e, no final, costurava-se como um saco. Abria-se como um vulgar caixote de papelão, cujas badanas superiores tivessem sido aproximadas e justapostas com fita-gomada: metia-se o bisturi por baixo do osso do queixo e ia-se por ali abaixo até bater com a navalha no osso púbico, onde se terminava o golpe. A variação era que, ao contrário do caixote em que o percurso da navalha era rectilíneo, no caso dos seres humanos fazia-se o contorno do umbigo com o bisturi, tal qual como um condutor respeita ajuizadamente a circularidade a uma rotunda.
Sentado à sua secretária, o senhor Medina vigiava atentamente os nossos movimentos em torno da mesa de autópsia e esperava, de esferográfica em riste, o nosso recitativo.
“No que se refere ao hábito externo, trata-se de indivíduo do sexo masculino, de raça caucasiana e aparentando uma idade de aproximadamente...”, continuei por ali fora, dirigindo-me ao Rui cerimoniosamente e como se todos os quatro estivéssemos contidos na moldura de um óleo do Rembrandt.