06 outubro 2018

DACHAU

Piemonte, Alpes italianos.
1.
Em Janeiro de 2016 fui levar o meu filho à Alemanha, país onde mora há meia dúzia de anos. Entrámos pelo sul, vindos da Itália, e o nosso destino era Berlim, mas fizemos uma paragem em Munique. No dia seguinte percorremos os poucos quilómetros que nos separavam de Dachau, onde está o que sobra do Campo de Concentração (CC), inaugurado, com direito a notícia num jornal, em 1933, e pensado inicialmente para opositores ao regime de Hitler. Dachau foi o primeiro CC estruturado e, sendo, à época, Himmler – o grande ideólogo dos CC e das estratégias de extermínio – director da polícia política de Munique, sob vários aspectos Dachau foi concebido como um campo modelo, o que, de facto, aconteceu, tendo os seus regulamentos servido de inspiração aos campos que entretanto foram criados dentro e fora da Alemanha. Sendo um Campo modelo, fazia parte da sua vocação ser mostrado ao exterior e duas das suas enfermarias, por exemplo, estavam dotadas do equipamento técnico necessário a produzir boa imagem nos visitantes: dois blocos operatórios modernos, aparelho de RX, electrocardiógrafo, médicos, enfermeiros. A propaganda foi sempre uma preocupação dos nazis ao longo de todo o seu reinado. Em Dachau todos esses aspectos relacionados com a imagem foram sendo aperfeiçoados ao pormenor nos primeiros cinco anos de funcionamento e até os detidos que os visitantes viam deambular pela parada eram cuidadosamente escolhidos no aspecto e treinados no que dizer caso fossem interpelados.
Em 1939 a Alemanha desencadeou a guerra, uma guerra longamente preparada e desejada, e Dachau (mais uma dezena de pequenos campos satélite das redondezas) tornou-se um entreposto de tortura, assassínio e experimentação médica, embora ali nunca tenham sido atingidos os níveis industriais de extermínio de campos como Auschwitz ou Treblinka, sabiamente empurrados para fora das fronteiras alemãs do III Reich.   
2.
Médicos descansam no regresso de Dachau, 1941.
Dachau dista 40 Km de Munique, é inverosímil que a capital da Baviera não soubesse o que ali se passava (seria semelhante a ter um CC em Vila Franca de Xira, e Lisboa ignorar que ali se desenvolviam actividades estranhas). Ah, sim, se o vento soprava de norte havia um fedor nauseabundo, um fumo espesso em permanência no céu. Ah sim, é certo que havia na grande cidade quem beneficiasse do trabalho doméstico, grátis, dos prisioneiros, quem os pedisse emprestados para a construção de casas a figuras do regime, devolvendo-os no final. Ah sim, os médicos que vinham doutros pontos da Alemanha ajudar à selecção dos aptos para trabalho ou para extermínio ficavam hospedados em hotéis de Munique, onde eram diariamente recolhidos por motoristas ao serviço do CC para aí serem, de novo, reconduzidos ao fim de uma árdua jornada de trabalho.
“Hoje seleccionei 1.200 detidos”, informava, por carta, um deles a mulher, deixando transparecer uma sensação de realização e dever cumprido.  
3.
Numa óptica médica, as relações entre o CC e a grande cidade eram intensas e o reitor da Universidade de Munique acumulava funções com as de responsável científico pelas experiências que, usando prisioneiros como cobaias, incidiam na investigação em malária, hepatite, cancro, medicina aeronáutica e novos medicamentos; ensaios conduzidos por médicos diplomados, especialistas,  universitários, e documentados com detalhe, fotografados ou filmados e dados a conhecer a um Himmler entusiasmado, que apoiou, louvou e condecorou os autores, nunca se inibindo, como era sua índole, de dar opiniões sobre qualquer assunto, fosse científico, jurídico ou logístico. Ao nível nacional, as relações médicas do CC estendiam-se ao prestigiado Instituto Robert Koch (de Berlim), que forneceu apoio em pessoal, ovos, sangue e mosquitos infectados, e, como é natural, à fogosa indústria farmacêutica alemã, a qual pôs ao dispor dos Campos drogas teoricamente promissoras. Preparando a colonização dos territórios conquistados, o III Reich precavia-se do paludismo, endémico em muitos deles, quer pelo desenvolvimento de novas terapêuticas quer pela procura de uma vacina. Igualmente, as autoridades nacionais viam como crucial o aprofundamento do conhecimento sobre a infecção de traumatismos e feridas de guerra, pelo que nada melhor do que recriar condições análogas em detidos, criando feridas e traumatismos artificiais pelo método de esmagar ossos à martelada, impedir cirurgicamente a vascularização muscular ou injectar pus nas veias dos detidos.
A indústria de guerra seguia, também, com atenção as experiências levadas a cabo em Dachau e outros CC, pois os ensinamentos colhidos reverteriam directamente a favor do esforço de guerra alemão. Por exemplo: à medida que o conflito evoluía, aumentava o número dos pilotos cujas aeronaves eram atingidas pelo inimigo e forçados a ejectar-se e a permanecer no mar por longos períodos, exposto ao frio, à fome e à sede. Assim, as experiências sobre ingestão de água do mar, levadas a cabo em detidos saudáveis, distribuídos cientificamente por grupos experimentais e grupos de controlo, eram classificadas como de alto interesse nacional.
Dos estudos levados a cabo em Dachau, alguns pré rotulados como “experiências terminais”, resultaram muitas centenas de mortos, pois nem todos aguentaram a submissão a condições extremas (simuladas em laboratório) de baixa temperatura e alta altitude; a ingestão de litros de água salgada como único alimento; a inoculação de produtos biológicos infectados ou o tratamento com quantidades tóxicas de drogas.
Apesar de tudo, estas mortes em nome da ciência e do triunfo militar, infligidas a pessoas categorizadas como sub-humanos, foram uma gota de água no universo dos milhares que em Dachau sucumbiram à subnutrição, às doenças endémicas (50 % dos detidos contraíam tuberculose), às epidemias (tifo e sarna, por exemplo); ou que foram flagelados até à morte, executados a tiro, gaseados e reduzidos a cinzas entre 1933 e 1945, ano em que o CC foi libertado pelos americanos a 29 Abril, um Domingo.
Dachau: Entrada do memorial do campo de concentração.
4.
Não é fácil dar com o local... Na pequenina cidade de Dachau, a uns três km do CC, as placas nada indicam. Há bombas de gasolina, hipermercados, cafés, casas bem conservadas; o esmero de uma terra germânica, cuidada e ordenada. Mas placas que indiquem como ir ter ao Campo... A páginas tantas, num letreiro que indica outros lugares, lá se descobre um KZ – o que pode ser abreviatura para Campo de Concentração, embora a mais comum seja KL (Konzentration Lager) – seguido da palavra “Memorial”, tudo apenas em alemão. Tão pouco evidente, que recorremos a GPS para chegar e, subitamente, mais rápido e próximo do que esperaríamos, deparámos com um placard e um local de estacionamento no que poderia bem ser o ambiente de um parque para picnics.
O coração aperta-se um pouco ao deixar a protecção do automóvel, ao pousarmos os pés na lama gelada: nevou, choveu, a manhã está desiludida, fria e cinzenta como convém a sítio destes. Mas, para além da placa que anuncia o Campo, continua sem se ver nada, somente árvores, arbustos, a água que brilha por entre o lamaçal, os pedaços branco-sujo de neve acumulada. Sob uma pequena ponte corre um riacho pouco profundo, de leito disciplinado e trajecto rectilíneo; constataremos que circunda o CC e que não é inocente esta esquadria: além dos muros e da vedação reforçada de arame farpado, uma das quais electrificada, era mais uma barreira a dificultar a fuga; sobrava-lhe ainda a vantagem de naquelas águas se poderem despejar cinzas comprometedoras.
Dachau: Reminiscência do ramal da linha de comboio.
De súbito, no chão, duas linhas paralelas orientam o olhar para um enorme portão de ferro; são os restos, quase estilizados, do ramal da linha de caminho de ferro que trazia os prisioneiros até à sua nova, e frequentemente última, morada.
5.
No interior do recinto – uma enormidade de mais de 500 metros de comprimento por 260 de largura – o que, absurdamente, mais me impressionou não foi o encontro com a câmara de gás ou os 5 fornos crematórios, foi, antes, os livros numa vitrina – sobras da pequena biblioteca que os prisioneiros (exceptuando os judeus) podiam requisitar –, livros que poderiam pertencer a estantes das nossas casas. De algum modo, estamos à espera que tudo no CC se refira a um tempo longínquo, que os livros tivessem capa de carneira e folhas pergaminhadas impressas com caracteres antigos, que o mal se passasse à luz de tochas... Mas não, aqueles livros poderiam estar na montra dum alfarrabista do nosso bairro e a iluminação dos pavilhões era feita com lâmpadas; pelo mundo havia telefones, aviões, submarinos, bomba atómica, jornais, Chanel, Burberry, Mercedes, BMW; o século XX ia na metade...
Deambula-se de pavilhão em pavilhão, imaginam-se três detidos por beliche, os uniformes miseráveis e grosseiros, a gamela, a caneca e a colher de alumínio da subnutrição premeditada; os magotes de retretes sem divisória ou privacidade; as mesas de tortura em madeira tosca, as portas blindadas e o pé-direito da câmara de gás (cientificamente baixo para que se gaste menos gás e a morte seja expedita); os fornos que lembram os de cozer pão; e o que mais fere e lateja no nosso entendimento é essa simplicidade e familiaridade de meios usados para rebentar os frágeis limites humanos. O segredo estava todo na imaginação de quem tinha o poder de vigiar os presos e muitos dos guardas eram escolhidos, numa lógica perversa de economia, entre criminosos comuns capturados e que eram deixados à solta na sua crueldade e sadismo. O Campo bastava-se a si próprio e, cada remessa que chegava, era recebida com um discurso esclarecedor, variando com o responsável, mas genericamente similar na esperança a estas palavras de boas-vindas que citamos: “Vocês não têm direitos, nem honra, nem defesa. São um monte de merda e serão tratados como tal.”
6.
Dachau: Alameda para a câmara de gás e fornos crematórios.
Dachau: Barrack X - Casa da câmara de gás e dos fornos crematórios.
Cá fora, ao encher o peito de alívio, numa curva do caminho, descobrimos que, longe dos barracões para não excitar o rebanho, a morada do gás e das chamas fica ao fim de uma alameda risonha e vicejante, e que a casa onde tudo tem lugar podia ser a da avó do Capuchinho Vermelho. Há até uns bucólicos bancos de jardim à sombra das paredes, como se nos pudéssemos sentar por ali em paz e tranquilidade. Tudo foi pensado ao pormenor e se, no resto do CC, o lema era despersonalizar, humilhar, reduzir a chama humana a um sopro, aqui o que se procura alcançar é precisamente o oposto: embalar e não alarmar as manadas que caminham para a morte ao ritmo possível de 150 convivas por sessão de câmara de gás, pois o pânico das multidões é árduo de controlar e produz desnecessários contratempos. Sim, estão sujos e irão tomar um banho – a água é calmante – e, para isso, precisam de despir a velha e encardida roupa, no final será distribuída roupa nova. Numa porta de metal está escrito Chuveiros e, lá dentro, parece um salão de banhos, com saídas de chuveiro no tecto baixo e o chão levemente inclinado para que a água conflua até ao centro e aos ralos que a escoam. E para que servirão aqueles janelos gradeados, quase ao nível do chão? Ah, isso já não vai interessar aos banhistas, que começam a estranhar o modo como estão a ser compactados naquele espaço de 40 metros quadrados... Dali a uns quinze minutos alguém vai espreitar por um desses janelos e ver se ainda há alguém em pé no interior ou se, como deve ser, resta apenas uma pira amontoada de corpos no chão. Do outro lado da câmara, mesmo em frente à porta de entrada, havia uma porta igual, estanque, de sólido metal, mas essa estava fechada quando entraram, empurrados pelo nu que entrava a seguir. Essa porta será aberta mal os vapores de ácido cianídrico do Zyklon B forem completamente aspirados pelos potentes exaustores disfarçados no tecto: do lado de lá da segunda porta aguardam quatro fornos crematórios, a carburar a todo o ímpeto. Funcionam a carvão, mas a gordura dos corpos ajuda também a que a combustão seja mais rápida. O calor é insuportável por ali e a actividade frenética. Queimar cento e cinquenta corpos e logo, meia hora depois, ter de lidar com mais cento e cinquenta tem que se lhe diga; um corpo humano dá uma trabalheira a eliminar e, ao contrário da alma, um simples fantasma, deixa rastos comprometedores...
Dachau: Porta da câmara de gás, identificada como "Chuveiros".
Dachau: Interior da câmara de gás (40 m2, capacidade 150 pessoas).
Dachau: 2 dos 5 fornos crematórios.
Mesmo por cima dos fornos crematórios, nas traves de madeira que sustentam o telhado,  ainda se notam uns ganchos de metal cravados na madeira. Ah! aquilo servia para enforcar alguns dos mais problemáticos e quando era intenção que percebessem onde iriam parar logo a seguir, mal o corpo deixasse de dançar na ponta da corda. É claro que os cadáveres se borravam todos, quem não se borraria só de olhar para aquilo, mas nada de grave: tudo seria submetido rapidamente à limpeza do fogo que bafejava por baixo.   
Dachau: Travejamento por cima dos fornos crematórios com ganchos para enforcamento.
7.
Amparado a uma parede, fixando os beliches sobrepostos até ao tecto de telha vã onde se amontoavam os detidos, um jovem de parka amarela chora convulsivamente. Quem chorará? Algum antepassado concreto ou será um choro abstracto, por todos os mortos, pelo mal à solta que lhe vai sendo demonstrado a cada metro que percorre?
Dachau: Dormitórios dos detidos.
Dachau: prato, colher e caneca em alumínio dos detidos.
Ao perceber que ainda não dei por acabada a minha volta, o meu filho diz que vai andando e me espera no carro. Andamos por ali há quase duas horas e quase não trocámos palavra. Por vezes, vemos o mesmo expositor juntos, outras vezes eu continuo e ele fica, ou vice versa, chego a olhá-lo através do vidro do um expositor onde me detive, ou vejo-o caminhar à minha frente por uma das áleas e, primitivamente, penso que não é bom sítio para se andar sozinho.
“Vou já lá ter, ainda queria dar uma espreitadela na loja...”
Perto da saída, como acontece em todos os museus, há uma lojinha, pequena, modesta. Dentro, há sobretudo publicações sobre o CC, alguns documentários; embora, quem preferir, possa comprar um magneto para recordar Dachau de cada vez que abre o frigorífico. Paguei o livro, a senhora atrás do balcão meteu-o num saco plástico. Perguntou:
“Ainda está a chover lá fora?”
“Pouco, mas ainda chove...”
“Então vou pôr outro saco, para proteger o seu livro.”
Dachau: porta de entrada da zona dos detidos.
Agradeci o cuidado, saí e passei o portão entreaberto onde, em avantajadas maiúsculas de ferro, se avisa: O TRABALHO LIBERTA. Ninguém tentou impedir-me.
Dachau: Cerca electificada.




Nota: A quem estiver interessado em aprofundar o assunto, recomendo o livro de Stanislav Zámecník That Was Dachau, editado pelo Comité International de Dachau (Brussels; 2003) e/ou o site www.comiteinternationaldachau.com



© Todas as fotografias (com a excepção da foto histórica dos médicos de Dachau, pertença do Bundesarchiv, B162, fotografia -00680) são da autoria de pedro serrano, Dachau, Alemanha, 2016.

25 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 44. Epílogo

Nunca mais voltei aos Açores, nem ideia de lá voltar tão cedo enriquecia as minhas intenções. Mas o tempo rodou e, na segunda metade dos anos 80, quis o acaso que integrasse uma Comissão, dependente de serviços centrais do Ministério da Saúde, com atribuições na formação e especialização de médicos. E decidiu o presidente desse grupo que, anualmente, uma das reuniões de trabalho da Comissão tivesse ordinariamente lugar nas regiões autónomas; seria um modo de acompanhar in loco o que ali se passava.
Nos Açores reuníamos alternadamente em S. Miguel, na Terceira ou no Faial, este último o destino secretamente preferido da maioria, pois aquele conjunto de três ilhas à vista umas das outras – Faial, Pico, S. Jorge – animava o mar e diluía a sensação de isolamento; o aglomerado era, por si só, um mini-arquipélago de brinquedo.
O esquema da visita de trabalho obedecia, sem rigidez, a um modelo prático: íamos chegando ao destino na quinta à tarde, na sexta era o dia da prolongada reunião e, no Sábado, vestíamos a pele do turista e dávamos uma volta pela ilha antes de regressar ao Continente no dia seguinte, de manhã ou à tarde conforme os voos. Nessas excursões de Sábado era-nos geralmente posta à disposição uma carrinha e um colega local acompanhava-nos no passeio, durante o qual ia identificando e explicando os locais onde passávamos. Por vezes, ganhando certa cor de cronicidade com o decorrer dos anos, de um dos bancos da camioneta surgia uma pergunta que se me destinava:
“Não foste tu que estiveste aqui na Periferia?”
“Sim”, respondia, monocórdico, “mas não foi aqui, foi na Graciosa...”
Já mais recentemente, numa dessas viagens insulares da Comissão ao Faial (Comissão que evoluíra e se chamava agora Conselho), demos, no Sábado, uma volta pela ilha e, porque já fôramos incontáveis vezes visitar o vulcão dos Capelinhos e o museu adjacente, levaram-nos a esmiuçar as vistas da costa norte da ilha. Era um dia de Verão – talvez Junho ou Julho –, uma fina poalha, feita de evaporação, pairava no ar e eu seguia amodorrado no meu assento, olhando a paisagem sem a ver, sonolento e a pensar como seria bom parar para um café.
Às tantas, senti a carrinha abrandar à berma da estrada e, estremunhado, inquiri ao outro lado da coxia:
“O que é, porque paramos?”
O meu interlocutor encolheu os ombros, acrescentou: “Algum miradouro, alguma ermida com azulejos ou talha dourada...”
Maquinalmente, fomos deixando o veículo e, quando desci os degraus, havia já gente de mão em pala na testa ou a assestar a máquina fotográfica. Encabeçando um amontoado de três ou quatro almas, a colega do Faial avançara até à ponta da arriba e, esticando o braço, informava:
“Conseguem ver, ali ao fundo? É a Graciosa... Hoje estamos com sorte, pois nem sempre se vê.”

Olhei, franzi os olhos, quase desafiei o horizonte, mas o máximo que consegui individualizar, quase imaginar, lá longe, no limite do azul, foi uma linha brilhante   que tanto podia ser terra como um reflexo de luz boiando à tona do oceano.
  FIM

© Fotografias, cima para baixo: 1. Praia da Vitória, Terceira, 1995, fotografia de José Marques Neves; (2) Graciosa, fotografia de Líbia Correia da Silva.

23 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 43. O barco está ancorado ao largo

Ilha Graciosa.
O barco está ancorado ao largo, os baús seguem já mar fora no escaler, empinados para que o resto da carga a embarcar caiba; faço ideia como as coisas que arrumei, tão pressurosa e logicamente, devem ir lá dentro! Graças a Deus decidi levar o Aiwa na bagagem de mão, pois assustaram-me as informações sobre o futuro levantamento dos baús em Leixões. Quando chegarem, sabe-se lá quando, terão de ser desalfandegadas como se estivessem a chegar da Venezuela ou de Beirute e o Aiwa, japonês e comprado no Porto, iria, certamente, ser tomado como contrabando americano! Vamos ter de contratar um despachante, pagar não sei quantas taxas, como se estivéssemos a importar um bem do estrangeiro e os Açores não fossem território nacional. Por tudo o que vi este ano de ambos os lados do oceano, quase duvido que o seja.
Lá longe, um guincho puxa uma rede de carga até ao convés, os baús não são mais do que caixas de fósforos suspensas no vácuo. O escaler regressa à enseada para nos buscar. A Luísa e a Marília vieram despedir-se. Comecei a enfiar coisas na arca há uma semana, como modo de selar e tornar sem retorno a última discussão que tivemos com o Porão da Nau. Janeiro a desaparecer do calendário e ele a insinuar que poderíamos ter de ficar mais algum tempo, entrar por Fevereiro dentro, tornar indefinido o regresso.
“No dia 1 de Fevereiro, o mais tardar, saímos daqui. Se não tiver ninguém para nos substituir, pior, o problema é do senhor...”
A isso acrescentámos a lembrança das urgências ainda não pagas, ameaçámos que iríamos passar por lá a buscar o dinheiro, que não sairíamos dos Açores sem ele, e mais outras exaltações de que nos lembrámos no momento. Como paga, nada de helicóptero para o regresso: se queríamos ir embora, então que enjoássemos o mar de Inverno, que amarinhássemos por escadas de corda bamba.
Ilha Graciosa.
À força de “Ei!” chamam-nos do escaler, urgem-nos a que nos apressemos, o mar está bravio, a tarde avança. A Marília e a Luísa abraçam-nos, estão comovidas por ver os companheiros de exílio partir, o coração pequeno por ficarem. Pela metade do trajecto até ao barco ainda acenam do porto, depois tornam-se ciscos quase indistintos, iguais aos outros que deambulam em terra.

Do convés fico por um tempo a ver a ilha afastar-se, primeiro parece aumentar de tamanho à medida que se alarga o seu contorno, em seguida vai recuando, recuando, até se tornar um rochedo como outro qualquer, nem parece haver  sinais de vida por ali. Sinto o frio e vou para dentro.

19 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 42. O passeio do almirante

Ilha Terceira, Janeiro de 1980.
Apesar do caos anunciado nos noticiários, havia táxis no aeroporto. O nosso motorista era um tipo do género calado e fez a viagem entre as Lajes e Angra em silêncio. Ou talvez não fosse esse o seu género e o que acontecera o tivesse emudecido. Alinhei pelo diapasão enquanto ia olhando, incrédulo, as ruas e ruas de casas destruídas, sem telhados, de paredes esboroadas, traves-mestras caídas ou penduradas como se fossem palitos. Tudo deserto. Onde estavam as pessoas? Tinha passado ali um exército e, alertadas, as gentes anteciparam-se e fugiram, ocorreu-me ao cruzarmo-nos com dois jipes americanos... O ar, outrora tão límpido e marítimo, estava espesso, amarelado, devia ainda haver muita poeira suspensa no ar, que ainda não tinha tido tempo de assentar e conspurcar o verde vivo dos campos com as cores do deserto.
A meu lado, o Paulo reagia desajustadamente aos estímulos visuais e, cutucando com frequência o meu cotovelo, apontava uma ruína especialmente vistosa, como um poste eléctrico meio tombado com os fios ainda pendurados, e dizia:
“Já viste aquilo?”, após o que se torcia de riso, um riso contido, de mão na boca, mas suficientemente estridente e disparatado para o chauffeur começar a espiar-nos pelo retrovisor. E assim fomos até ao Hotel Angra, entre risadas e silêncios, e era tudo tão absurdo que me senti supérfluo quando, ao pagar, confessei ao homem:
“Desculpe o meu colega. Quando fica nervoso, dá-lhe para rir...”
Na Direcção Regional, tropeçámos num Porão da Nau enlouquecido de iniciativa; foi inútil ficarmos à espera nas cadeiras em frente à sua secretária, como nos tinha mandado com um “sentem-se, venho já...”
Não vinha. Entrava, sentava-se, puxava uns meios-óculos para o nariz e logo se levantava com um papel, saía; ouvíamo-lo atender um telefone na sala ao lado, gritar com uma secretária. Numa das passagens pelo gabinete, como se tivesse acabado de fabricar a notícia, informou:
“Serrano, está tudo combinado. Amanhã, o almirante Silva Horta vai fazer um reconhecimento às ilhas do grupo central, deixa-o na Graciosa. Vá ter às Lajes, de manhã, cedo...”
“A que horas, mais ou menos?”, quis saber, estranhando, ao mesmo tempo, que um almirante se fizesse ao mar por uma base aérea.
Ele encolheu os ombros. Tinha mais o que fazer.
Ao contrário do que podia supor, a boleia foi em helicóptero e não numa fragata ou num contratorpedeiro e o almirante não apareceu vestido em brancos e dourados, como o homem dos gelados. O almirante Silva Horta[1] era um afável senhor de fato e gravata, dos seus cinquenta e muitos e ar britânico. Desempenhava o cargo de Ministro da República para os Açores – uma espécie de governador civil de luxo – e o seu maior interesse naquele giro por sobre as ilhas era verificar o que se passara em S. Jorge onde, constava, uma ponta da ilha teria rachado e caído ao mar, populações inteiras isoladas que urgia evacuar. Em caminho pousariam na Graciosa para me despejar.
Almirante Silva Horta.
Assim se passou e sobrevoámos primeiro S. Jorge, onde, de facto, uma das extremidades da ilha abatera e caíra à água. Com o tempo, o que não ficasse sepultado no mar transformar-se-ia numa nova fajã: tornar-se-ia verde e fértil, construir-se-ia naquele novo território que passara de vertical a horizontal. Ainda se notavam as monstruosas fissuras e a rocha parecia viva, como se ainda estivesse a sangrar pela zona da brecha. No interior do helicóptero comentava-se que pedaços inteiros de floresta tinham mergulhado no mar, a pique, e que uma lâmina de água se elevara até quase atingir o topo duma arriba. Seis pessoas morreram e três estavam desaparecidas, mas ninguém contava revê-las, pois, à hora do abalo, andavam muito perto da zona da fractura.
Na Graciosa, pelo contrário, não morrera ninguém, havia algumas casas  destruídas  e o aumento de urgências no hospital ficara a dever-se ao pânico e à descompensação de situações psiquiátricas. Nas enfermarias, preventivamente, as camas tinham sido afastadas das paredes alguns palmos, o que conferia um estranho ar ao local, como se os leitos fossem jangadas a vogar num soalho encerado.
Até deixarmos a ilha, quase um mês mais tarde, a terra tremeu diariamente. A maior parte das vezes não nos dávamos sequer conta, outras estávamos a jantar e o lustre da D. Irene fazia tilintar sobre as nossas cabeças o vidro dos penduricalhos prismáticos. Outras ocasiões, era o boneco de porcelana sobre a TV dos Barcelos que tremia, suspendíamos a atenção à telenovela e olhávamos uns para os outros por uns segundos, não muitos.
No dia seguinte, remexendo o seu café cheio no Açucareiro, o Sr. Medina perguntava-me pela réplica, se sentira a da véspera.
“Qual delas, Sr. Medina?”, inquiria-o, irónico.
Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, Janeiro 1980.
“A das 20:35”, dizia ele muito sério, fazendo-me pensar ser bem possível que mantivesse uma anotação sistematizada dos abalos no papel pautado do Tribunal e que seria, por isso, algo arriscado retorquir-lhe com um:
“Essa, confesso que não, só a que passou às 21 e 22...”







(1) Henrique Afonso Silva Horta (1920/2012), almirante da Marinha. Governador de Cabo Verde na fase de transição para a independência, e Ministro da República para a Região Autónoma dos Açores, 1978-1981.


17 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 41. Primatas agitados

Porão da Nau.
Nos primeiros dias de Dezembro, ao, finalmente, encaixar a amplitude da pulsação dos médicos da Periferia que ainda restavam nos Açores, o Porão da Nau sentiu-se nervoso, viu-se compelido a aliviar os cordões à bolsa onde escondia os segredos do ofício.
Um pouco por todas as ilhas, a malta começara a soprar o pó às malas de porão, recalculavam-se e recombinavam-se os dias de férias restantes, para que os mais afortunados pudessem ir passar o Natal a casa e já não regressassem. Oficialmente, o Serviço Médico à Periferia iniciava-se a 1 de Janeiro e terminava a 31 de Dezembro, no dia 2 de Janeiro do ano seguinte todos devíamos estar a apresentar-nos no hospital de origem. No caso dos Açores, é certo, a nossa fornada fora enviada para o arquipélago apenas em Fevereiro, mas a responsabilidade pelo atraso era da organização, pois o rebanho estava pronto a partir desde o Ano Novo de 1979.
Claro que foi com esse pretexto legal que eles nos vieram – o de só completarmos os doze meses de missão a 31 de Janeiro de 1980 – mas, de facto, tivemos de aguentar mais um mês porque nada estava preparado no Continente para envio de uma nova remessa de médicos para os Açores e Madeira. Negligência deles, sacrifício nosso. O costume!
A raiva colectiva soergueu-se como uma onda e, como antídoto, o Porão da Nau atirou-lhe para cima com o argumento normativo de só se poder deixar um posto em caso de substituição efectiva; com o juramento de Hipócrates e mais todas as porras de que se foi lembrando. Valeu-lhe a nossa dispersão geográfica, a falta de coesão profissional, a inexperiência; o nosso representante, que defendia mais os patrões do que os representados.
Abandonados à nossa sorte, dei comigo a combinar com o Rui como iríamos fazer e ele, como passara dois meses seguidos fora da ilha e não estando demasiado interessado em ir a casa nas Festas, não se importou de ficar a alombar, sozinho, o Natal e a passagem de Ano: eu regressaria a 5 de Janeiro. Eram, precisamente, os dias de férias que me sobravam e o melhor seria queimá-los, pois ninguém me garantia que, mais tarde, no Continente, os fossem considerar válidos. Fazê-lo, seria como mudar para outro país e invocar direito alienígenas.
Parti de Santa Cruz a 22 e deambulei por uma consoada que, embora tenha posto na mesa bacalhau e peru, não foi carne nem peixe; estive por ali em jeito de corpo presente. Não posso dizer que tivesse saudades da Graciosa ou preferisse lá estar, mas acabei a telefonar para saber como ia tudo, a operadora da Terceira contente com a variação de estar a falar comigo a partir do Porto e a desejar-me boas festas, extensíveis à “mãezinha e ao paizinho”. Em Santa Cruz ia tudo rolando, os Barcelos tinham-no convidado para jantar nos dois dias de Natal; o doente da motosserra continuava internado mas “já faz jus à espécie”, como dizia o Rui para informar que já mexia o polegar contra o dedo mínimo. Fiquei muito animado com a notícia, mal entrei na sala contei ao meu pai, que ia remexendo as achas da lareira com a tenaz enquanto ouvia novidades sobre um caso que já conhecia.
Umas duas semanas antes, aparecera-nos um desgraçado na urgência, aos uivos e com o lençol que o cobria na maca alagado em sangue vivo. Aos arrancos, contou que andava a desbastar uma árvore e a motosserra resvalara sobre a mão que segurava o ramo até quase lhe decepar o polegar da mão esquerda. A zona de esfacelo era uma cagada de sangue empastado e sangue a babar; o ferimento expusera a articulação entre a primeira e a segunda falange e o nacarado dos tendões. Uma merda! Uma merda acima das nossas capacidades técnicas formais, aquilo era assunto para cirurgiões diplomados e não para estagiários como nós. Mas o tempo não desdenhava Dezembro, as brumas cobriam tudo e um vento danado, em vez de as levar, parecia arrastar mais e compor uma estola branca em torno da ilha, tornando o mar lívido e traiçoeiro. “Helicóptero, fodias-te!”, como costumávamos resumir situações similares. E, então, relembrando os ensinamentos do meu pai e do Dr. Raul Figueiredo, nossos mestres em tudo quanto sabíamos praticar na precisa arte dos barbeiros, resolvemos agir: é que os tendões quando seccionados, e à medida que as horas passam, tendem a retrair e depois não se conseguem justapor e costurar, e, sem tendões, uma mão fica como uma marioneta sem fios, isto é: parada, sem préstimo para todo o sempre. Por outro lado, se aguardássemos passivamente o bom tempo e o transporte aéreo, a mão poderia gangrenar e, quando o doente chegasse ao hospital da Terceira, só restaria amputá-la... Pesado tudo isto, para grande alegria das irmãs, o bloco operatório foi arrancado à sua tristeza fria de abandono. As luzes sobre a mesa operatória acenderam-se, os ferros cirúrgicos tilintaram nos tabuleiros e a irmã Noémia arrastou para dentro da sala um aquecedor a óleo, para quebrar a atmosfera de barco naufragado que ali reinava. Por ali estivemos – o Rui, eu e o enxame das freiras – umas boas duas horas, a laquear vasos que teimavam em sangrar, a limpar esquírolas de osso e farrapos lacerados de pele, a reconstituir, com o credo na boca, os topos avessos dos tendões. O doente gemia, lamentava-se, tentava espreitar o que lhe fazíamos; um de nós injectava um pouco mais da anestesia local, que íamos infiltrando por planos à medida que avançávamos carne dentro; brincávamos com a sua ansiedade e com a nossa:
“Não fale, amigo, senão a anestesia sai-lhe pela boca...”
Analgésicos, antibiótico, um soro reforçado para ajudar a recompor o sangue perdido. Quando chegámos a casa estávamos exaustos, tresandávamos ao fedor a preservativo das luvas de borracha; eu parecia um Quasímodo, as costas num feixe de estar tanto tempo dobrado. Pensámos telefonar aos colegas de Angra, a contar o sucedido, a pedir instruções e sugestões para o pós-operatório, mas acabei por ligar antes ao meu pai, que, ao contrário do que iria suceder com Angra, quis conhecer todos os pormenores do incidente e ouviu religiosamente a descrição dos procedimentos cirúrgicos. No seu ver experiente, tínhamos feito tudo quanto podia ser feito e, se as coisas corressem mal no futuro próximo, o pior que poderia acontecer era o homem perder o dedo, mas isso sucederia em qualquer lado, na Graciosa ou em Angra do Heroísmo. Por isso, as notícias do Rui sobre o doente da motosserra me causaram tanta satisfação e as levei, tão entusiasmado, à beira da lareira.
“Esse teu amigo é um ponto...”, ria-se o meu pai do modo darwiniano como o Rui referira o retomar da capacidade de oposição polegar-mindinho, “mas é isso mesmo. A mão pode não ficar muito bonita – acho que não vai ficar – mas, aqui, o importante é que funcione!”
A noite de passagem de ano foi uma merda, é sempre, abusei mais do que a conta e no dia seguinte, estava com uma tremenda ressaca. Por volta das quatro e meia da tarde, levantara-me há pouco, a rádio deu a notícia: terramoto nos Açores, violentíssimo, 7,2 na escala de Richter; diziam que Angra do Heroísmo ficara praticamente destruída, os mortos eram mais de cinquenta e os desalojados aos milhares... São Jorge e a Graciosa também tinham sido afectados; o epicentro fora no fundo do mar, numa linha submarina algures entre a Terceira e a Graciosa.
Açores, sismo de Janeiro 1980: localização da linha de rotura.

Tentei ligar para Santa Cruz: ninguém atendeu. Não consegui, sequer, falar com alguém na Terceira, fosse no hotel ou nos números da Direcção Regional de Saúde. Telefonei ao Paulo Amorim, que estava no Continente como eu: não sabia de nada, nem sequer do terramoto! Ficámos de nos contactar, o primeiro que tivesse notícias. À noite, já tarde, ele ligou de volta: alguém lhe telefonara, estavam a arrebanhar tudo quanto podiam no Continente, a organizar equipas e transportes. Decidimos ir por conta própria e pelos nossos meios. A minha mãe gemeu de aflição por eu partir e aquilo, lá, a abanar como um dente de leite. No dia seguinte o Paulo e eu partimos para Lisboa e a 3 de Janeiro, uma quinta-feira, muito cedo pela manhã, o avião da TAP sobrevoou a Terceira. Ia no lugar à janela e o mais parecido que vira com aquilo eram as fotografias de Londres, ou de Berlim, após os bombardeamentos, amigos ou inimigos, da II Guerra Mundial.