15 dezembro 2019

ESSA GENTE (romance de Chico Buarque)

Muito bom, é o que merece dizer-se de Essa Gente, o último romance de Chico Buarque, aparecido nas bancas portuguesas já no começo deste Dezembro de 2019. Essa Gente lê-se dum sopro, seja porque a extensão do volume é breve, seja porque o enredo cativa o leitor com celeridade e se, nas primeiras páginas, nos sentimos intrigados com quem é quem, rapidamente somos enrolados na trama do que está a ser contado e do que irá acontecer. 
Dizia Nabokov que cada escritor tem uma constância e um fôlego próprio em termos do número de páginas dos seus livros: uns andam na casa das 300, outros ficam-se nas 250, e por aí fora. Chico Buarque tem sido, nos seis romances que nos deu até hoje*, um autor de tipo breve, despacha o que tem a dizer, em média, em 150 páginas.
Essa Gente é, para mim, o mais bem-humorado dos romances de Chico Buarque, lê-se como um divertimento, apesar de nem tudo serem rosas por ali. Não quer dizer que o humor não esteja sempre presente nos seus livros (o sentido de humor é uma das características mais aparentes da sua personalidade), mas nalguns deles ele era mais ácido ou mais abafado por outros humores sombrios, não se tornando a corda que sussurra ao longo da história. Neste último livro, o bom-humor vibra em permanência e fica-se com a sensação de que se terá divertido 'um monte' durante o processo.
Essa Gente trata o clássico tema do artista em crise de inspiração, assunto glosado por muita gente, da escrita ao cinema. Há um Duarte que quer escrever e não consegue e o universo das pessoas que giram em torno dele, umas antigas e outras novas, e que o livro, sob a forma de entradas de diário, cartas, telefonemas e, até, notícias de jornal, vai sugando para dentro do enredo. Há mulheres, muitas mulheres, Chico sempre se fascinou muito com elas e sempre as cantou e interpretou nos seus livros e canções.
E há, como de habitual nos seus livros, o personagem principal meio confuso, meio perdido, meio flutuante, e a obsessão com o processo criativo da escrita, e um cuidado amoroso em regar palavras da língua que mal são já usadas, mas de que não desiste nem nos livros nem nos poemas das canções: lépida, verazes, veros... O que não impede que Essa Gente, talvez mais do que em livros anteriores, esteja juncado de termos do calão brasileiro, semeado de americanices, e do aportuguesamento instantâneo de palavras canibalizadas a outras línguas.    
Chico aproveita o livro para dizer muita coisa, para mandar recados e clarificar o que pensa em relação a vários assuntos que, ao contrário de outros artistas, não se apressou a vir afirmar na comunicação ou nas redes sociais: é claríssimo o que pensa do estado actual do Brasil e do tipo de gente que o governa, e lá estão as armas a mais, a violência policial a mais; a supremacia tribal e desprezível, o isolamento esquizoide dos poderosos; as queimadas na Amazónia e as fortunas feitas à falta de sombra disso; a corrupção da Justiça; o abismo económico e social entre quem mora nas favelas e nos condomínios fechados, gap que o personagem principal se entretém a saltar. Há também, dispersos pelo livro, recados às feministas radicais que - em modo de leitura e interpretação bastante estúpido - o sinalizaram como machista em canções do seu último disco (Caravanas, 2017). E não apenas recados: Chico Buarque diverte-se a confundi-las, a elas e aos outros que vivem obcecados por detectar incorrecções nos posicionamentos sobre sexo, género ou a falta dele.  
Finalmente, apesar de mais poder ser dito em louvor, Essa Gente é o livro de Chico Buarque em que a presença, a familiaridade com Portugal é mais vincada: estão lá os poetas (Pessoa e Camões), estão lá os apontamentos geográficos (o Castelo de S. Jorge, o lisboeta Bairro Azul) e, mais do que isso e apontando à triste deriva do Brasil actual, o novo êxodo de lá para cá em nome da segurança e da liberdade de respirar à vontade.
Essa Gente foi editada pela Companhia das Letras e custa uns 15,9 bem empregues euros.

Estorvo (1991), Benjamim (1995), Budapeste (2003), Leite Derramado (2009), O Irmão Alemão (2014) e Essa Gente(2019). 

06 dezembro 2019

THE IRISHMAN - Velhos amigos

Esquerda para a direita: Joe Pesci, Al Pacino, Martin Scorsese,
Harvey Keitel e Robert de Niro, 2019. 
Quando se pensava que, na sequência da trilogia O Padrinho (The Godfather I, II, III, 1972/1974/1990), do filme Tudo Bom Rapazes (Goodfellas, 1990) ou da série Os Sopranos (The Sopranos, 1999/2007) - cada um excelente à sua maneira e na época respectiva - quando se achava que tudo estava dito sobre a Mafia e os mafiosos, eis que Martin Scorsese, aos 77 anos de idade, nos presenteia com uma obra-prima que volta a glosar o tema.
Não só estritamente a Mafia, pois o filme aborda e explora ainda as ligações entre famílias de diferentes proveniências (italianos, judeus, irlandeses), entre estas e os sindicatos (Jimmy Hoffa) e entre todos e a alta esfera da política, assumindo sem rebuços ter sido a Máfia (italiana) quem esteve por trás do assassinato de JF Kennedy, presidente dos Estados Unidos, e do seu irmão Robert, procurador-geral dos Estados Unidos e encarado como grande ameaça por mafiosos e sindicalistas.
Como se não fosse já bastante, para nos contar a história o filme fá-lo a partir do ponto de vista de dois velhos mafiosos (Robert de Niro e Joe Pesci), em viagem com as respectivas esposas, e vai-a desenrolando sabiamente através da irrupção das memórias visuais de Robert de Niro sobre o seu trajecto na vida. É, igualmente, uma narrativa sobre o envelhecimento e a inutilidade do poder e da violência, pois uma das vagas que há-de vir a seguir afogar-nos-á e tudo termina na solidão e na impotência do costume: os temidos e poderosos de outrora acabam num lar de terceira idade, sem visitas, como qualquer beneficiário da pensão mínima. A inevitável invencible defeat, como se lhe referia Leonard Cohen.
Com a duração longa das três horas e meia (invocando a respiração pausada das anteriores sagas do The Godfather), o filme contou com um orçamento superior a 100 milhões de euros e foi produzido em exclusivo para a Netflix, o que significa que, pelo menos para já, só pode ser visto na TV e para quem tem acesso a este canal.
O argumento é excelente, a fotografia é excelente, o ritmo da história narrada é perfeito. Os actores são magníficos, com especial menção para Joe Pesci, maravilhoso num papel tão contido e distante da sua persona cinematográfica mais habitual que demorámos a reconhecê-lo. Magnífico, também, o grande Robert de Niro, bloqueado no interior da sua personagem, um ser que aceita o que lhe é imposto sem o questionar e onde só os olhos, aqui e ali, traduzem a sua aflição e impotência perante o mundo esmagador para o qual o irlandês do título resvalou quase por acaso. Al Pacino, no papel de Jimmy Hoffa, é uma estrela pálida em relação aos dois anteriores e mantém-se colado ao modo histriónico e algo rígido a que nos habituou ao longo dos anos. No ecrã aparece ainda, entre outros óptimos actores, o excelente, e também aqui dificilmente reconhecível, Harvey Keitel, e também Steven Van Zandt - Silvio Dante nos Sopranos, que, na série, imitava Al Pacino no Padrinho para gáudio dos mafiosos do Bada Bing - contribui, num curto papel, para o elenco e para uma piscadela de olho ao portento e novidade que foi a série de David Chase em termos de narrativa cinematográfica usando a TV.
Bob Dylan e Robbie Robertson.
Uma última palavra para a banda sonora, excelentemente conseguida como em todos os filmes de Scorsese, um amante de música, que volta aqui à mesma receita da maioria dos seus outros filmes, preferindo - em detrimento de música composta para o filme - usar uma sequência caprichada de música popular da época retratada. Em The Irishman, o realizador decidiu entregar a responsabilidade da escolha e do tratamento musical a Robbie Robertson, o mítico guitarrista dos The Band, a banda que acompanhou Bob Dylan ao longo de vários anos (1965-1969) e de que, aliás, Scorsese imortaliza o último concerto em The Last Waltz, o filme de 1978. 
Velhos amigos! The Irishman é um filme que reflecte também a passagem do tempo, o amadurecimento e a amizade de quem espreita por trás das câmaras. 


PS: Entretanto, os três críticos de cinema em serviço no jornal O Público classificaram o filme com uma nota (média) de 3,3 em 5 estrelas possíveis, isto é: aproximadamente um 'Suficiente'. Gostava de ver o caixote do lixo deles! Os mesmos avaliadores que, em afectivo derretimento nacionalista, classificam amiúde com 4 estrelas um daqueles filmes portugueses impossíveis de tragar, ora porque o argumento é acabrunhante  e frouxo, a fala dos actores deveria ser legendada pois parece que os respectivos realizadores ainda não descobriam as regras da captação de som ou os mistérios da pós-sincronização; a iluminação deixa barbas de sombra pelas paredes e pelos cantos; a representação dos actores é tão débil e sem orientação que estes vegetam pelos cenários como zombies, declamando as falas como se fossem rãs estimuladas com choques elécticos.  

29 novembro 2019

BUENOS AIRES

Na verdade, foi só à medida que caminhava em direcção ao portão que me fui apercebendo de vários subentendidos, sendo o principal deles a enorme quantidade de tempo decorrido desde a última vez que ali estivera. Esse tempo como que se ia desdobrando ao ritmo das minhas passadas pelo passeio juncado das folhas amarelas do Outono.
Aquela não era uma área da cidade que costumasse frequentar e, ao chegar ao local onde tinha a minha reunião marcada, fui informado, por entre mil pedidos de desculpas, que esta teria de ser adiada por cerca de noventa minutos, uma vez que o meu interlocutor estivera retido num aparatoso desastre na autoestrada e encontrava-se ainda em trânsito.
Hesitei por uns momentos quanto ao que fazer. O dia estava de chuva, miudinha, todavia suficientemente persistente para obrigar a guarda-chuva, mas, por outro lado, não me apetecia ficar - como fora simpaticamente proposto - e aguardar numa sala de espera, folheando revistas ocas de páginas lustrosas. Saí, tomei um café lento e quando voltei a olhar o relógio tinha ainda uma hora de espera à minha frente. 
No exterior, a chuva parecia ter parado, mas era apenas uma ilusão e em menos de nada as lentes dos meus óculos ficaram granuladas por gotículas. Foi após as limpar e ao olhar através delas para lhes testar a transparência que a minha vista embateu na placa toponímica identificando a rua que nascia naquela esquina. É uma alameda curta, estreita, ladeada por árvores antigas, com pouco trânsito, e é curioso como ao desviarmos por aí, saídos de uma rotunda de trânsito desenfreado, nos envolve a sensação de entrar numa dimensão mais pausada do tempo. Talvez o facto de se apelidar Rua da Meditação influencie essa impressão, ou talvez ela provenha de o topo da rua nos aparecer obliterado pelo muro do cemitério; não sei. O certo é que, ao caminhar em direcção ao gradeamento do portão, o tempo como que se foi desenrolando e refazendo ao ritmo do andar e, ao longo do passeio, como em expositores de rua, pareciam ter sido expostos, a preço convidativo, acontecimentos da minha vida pregressa. 
O meu pai morrera - tive de fazer cálculos para a quantia exacta - há catorze anos e era esse o tempo ao qual eu não voltava ao cemitério. Não muito após a sua morte, a minha vida profissional sofrera um abanão e fui empurrado a mudar de cidade, algumas centenas de quilómetros passaram a interpor-se entre mim a sua campa e a vontade de lá regressar para uma visita. Cinco anos volvidos foi a vez da minha mãe, que - para surpresa minha e da minha irmã - deixara escrito o desejo de ser cremada e dos seus restos mortais serem depositados num cemitério diferente daquele onde repousava o nosso pai.
"Ela já me tinha falado nisso, assim por alto, mas não dei continuação - são conversas sempre desagradáveis. Até lhe disse: 'mas a mãezinha não prefere ficar ao pé do papá?'."
Mas a nossa mãe, a crer na explicação da minha irmã, encorrilhara os ombros e argumentara que havia que se ser prático nesses assuntos: o cemitério que ela apontava estava apetrechado com crematório e oferecia uma modalidade de dispor das cinzas que lhe agradava, a qual consistia na plantação duma roseira sobre a covinha onde estas eram enterradas.
"Já lá estive e é muito agradável, é como se fosse um jardim, todo relvado e com vista para o rio..."
"Vista para o rio! Imagina.... Encolhe os ombros perante a hipótese de ficar ao pé do paizinho - como se fosse uma fantasia tola - e depois escolhe um sítio em que se vai transformar em rosas e tem vista para o rio!"
A minha irmã sempre tivera aquele feitio, um tanto para o bruto na afirmação das suas opiniões. Não que, no fundo, eu pensasse muito diferente dela, mas ouvi-lo, no dia da cremação, à medida que percorríamos as alas do cemitério e nos afastávamos do tal jardim com vista para o rio, chocou o meu desalento. Na ocasião nenhum de nós o sabia, mas essa tarde foi praticamente uma das últimas em que nos vimos: pouco depois o meu cunhado foi transferido para a sede, em Buenos Aires, da firma de adubos orgânicos em que trabalhava como engenheiro químico e por lá foram fazendo vida e depenando os anos, ela enredada na sua neurose de badejo, o marido com os derivados do guano, e os filhos crescendo, criando raízes e não querendo equacionar, sequer, a hipótese de um dia regressarem à origem.

A campa do nosso pai fica numa secção privada do cemitério, o que a tornava mais fácil de reencontrar. Durante quarenta anos ele fora arquivista na secretaria de um hospital, propriedade de uma irmandade religiosa, e essa fidelidade à casa abrira-lhe a possibilidade de vir a contar com um talhão de terra naquele cemitério. Já velho, recordo ouvi-lo falar sobre isso como uma apreciável vantagem, uma taluda que conseguira e quase não merecera! "Perpétuo!", dizia referindo a eternidade da possessão daqueles dois metros quadrados, onde, na qualidade de cônjuge, haveria também lugar para a minha mãe, pois durante vinte anos ele descontara mensalmente para essa benesse complementar.
O pedaço que lhe fora destinado situa-se numa espécie de praceta, delimitada pelas traseiras de um quarteirão de jazigos, e identifiquei a campa pela aproximação ao melancólico anjo de bronze que espreita do espaço livre entre duas paredes de granito. A sepultura dele, assim o quisera, era do mais simples: apenas uma pedra de granito cinzento, onde figurava o nome e o ano do nascimento e da morte. Mas, embora a campa estivesse muito limpa e a terra circundante livre de ervas daninhas, o estado em que se encontrava a lápide como que sublinhou a vermelho o tempo que passara sem ninguém ali voltar: as letras do sobrenome estavam quase apagadas; a data de nascimento, deslavada pelas intempéries e pela erosão, não se conseguia mesmo ler.
Olhei o relógio e tomei uma decisão rápida; os meus passos, arrastados à chegada, ganharam velocidade e determinação. Reparara que, vizinha da florista onde comprara o pequeno arranjo em verdes e amarelos para enfeitar a sepultura, convenientemente fronteiro à entrada principal do cemitério, existia um estabelecimento especializado em jazigos, mausoléus, estátuas e outras utilidades funéreas. Aí me dirigi. 
 O meu problema foi facilmente identificado pelo homem que ocupava o pequeno escritório que, sob um telheiro, antecedia o terreno a céu aberto em que se atarefavam alguns homens e donde chegava um zumbir monótono de serras.
"Catorze anos é tempo...", disse ele como se falasse de um prazo de validade vencido há muito.
"É algum..." respondi pensando na eternidade que o meu pai julgara comprada.
Ajustámos o negócio, o preço da reparação, o modo como seria concretizada, o tempo que demoraria
"É fácil", continuava a garantir o proprietário, "vai lá um dos empregados e trata de reavivar os dizeres, voltam-se a pintar as letras como estavam. Agora só preciso que me diga onde fica a sepultura."
Eu não sabia nem a secção nem o número que a identificavam, mas até isso, segundo ele, era fácil de ultrapassar. Um dos empregados foi chamado a acompanhar-me, de novo, ao cemitério, para que lhe indicasse o local.
"Você conhece bem isto?", perguntei, já entre muros, para fazer conversa.
Ele olhou-me como se não conhecesse outra coisa e a pergunta fosse absurda. 
"Não devem passar dois dias que aqui não entre..."
Era um tipo ainda novo, baixote, magricela e, na cabeça, tinha enfiado um chapéu mole, de feltro verde e bicudo na ponta, como os que usam os duendes. Na face, coberta por uma poalha lívida de pó de mármore, os olhos, um nada estrábicos, brilhavam de segurança quanto ao terreno em que se movia.
"Fica no terreno da Irmandade?", foi adivinhando à medida que nos íamos aprochegando.
Ao longo do trajecto, tão indiferentes à chuvinha que caía como o meu companheiro, cruzámo-nos com duas gaivotas gordas e fomos vistos por três gatos, igualmente anafados, que espreitavam da cobertura de jazigos ou se empoleiravam em peanhas de gesso. Comentei o facto, perguntei-me onde arranjariam eles, ali dentro, a comida. 
"São as pessoas, quando vêm ver os mortos... Trazem para os gatos, mas as gaivotas antecipam-se."
"Mas hoje não se vê por aqui muita gente", contrapus, pois, desde que chegara, só avistara três ou quatro pessoas.
"É da chuva... É sempre mau para o negócio. Se você for ali, às floristas, vê que estão às moscas, como nós. Hoje, você foi o primeiro cliente que tivemos."
Chegáramos ao pórtico que assinalava a fronteira entre o terreno comum do cemitério e a secção privada pertencente à Irmandade, um desvão encimado por uma ampulheta em granito dotada de asas. Sustive um pouco a marcha para que o meu guarda-chuva não embarrasse o de uma senhora, já de idade, que saía. Ao cruzarmo-nos, ela baixou a cabeça num agradecimento discreto pela precedência e a sua cara pareceu-me vagamente familiar.  Entretanto, o rapaz adiantara-se e já deitava uma mirada rápida à lápide da campa do meu pai e distribuía olhares em volta, estabelecendo as coordenadas exactas do cliente. E, por não precisar mais de mim, desapareceu de regresso à sua oficina, deixando-me à minha sorte. 
Com todos estes imprevistos, acabei por chegar atrasado dez confortáveis minutos à minha reunião, o que possibilitou ao interlocutor receber-me limpo de remorsos pelo seu percalço rodoviário.

Umas três semanas mais tarde atendi uma chamada telefónica de um número desconhecido.
"O senhor desculpe só ligar hoje, mas aquilo atrasou-se - com o tempo que tem feito tivemos de ficar à espera, não é compatível estar a pintar letras à chuva. Mas está pronto, pode ir lá ver quando quiser."
Aquele "pode ir lá ver quando quiser", uma simples afirmação de serviço concluído, calou em mim e comecei a sentir algo parecido com o estar em falta perante uma obrigação. Não era minha intenção voltar à minha cidade natal no imediato nem, de modo algum, duvidei das palavras do outro quanto à reparação. Mas, nem quinze dias passavam, a um meio de manhã de Sábado, estacionei o automóvel nas cercanias do cemitério. Estava um dia de inverno frio e nítido e na Rua da Meditação as copas das árvores, agora nuas de folhagem, erguiam no céu delicadas circunvoluções rendadas que o sol escrutinava e, ao portão do cemitério, o carro de um vendedor de castanhas deixava escapar no ar uma elegante voluta de fumo branco.
Como se o tivessem andado a lavar durante a noite, uma fina capa de humidade cobria ainda o recinto e o mármore das estátuas rebrilhava à luz, assim como o chão das alamedas, pavimentado por pedaços quebrados de lápides e restos de sepulturas antigas, já distantes de alguém que lhes pudesse atribuir significado. Havia pouca gente, mas, desconfiadas, as gaivotas patrulhavam por ali, sisudas como polícias de mãos atrás das costas e reduzidos pelo reflexo de um espelho convexo. Gaivotas e parquímetros, fora essa a maior diferença que notara na cidade desde que a abandonara. Elas vigiavam as ruas montando guarda do cimo dos edifícios, enquanto cá em baixo, nas margens dos passeios, os parquímetros abocanhavam o restante espaço livre. 
Quanto ao cemitério - a luz clara da manhã expunha-o com crueza - o abandono percebia-se por todo o lado: pedaços de pedra tinham tombado dos beirais dos jazigos, a meio de uma álea uma enorme taça de pedra podia ter esmagado alguém que passava, e a passagem do tempo decepara a cabeça a uma estátua de mulher em tamanho natural. Neste contexto de ruína eminente, atravessei o desvão para a secção da Irmandade mirando com desconfiança a ampulheta alada que velava no frontão do arco: bastava uma gaivota pousar ali para poder desencadear uma desgraça, pensei, abalado na minha fé de encarar os cemitérios como lugares de paz e harmonia.
Ao aproximar-me do recinto onde ficava a sepultura do meu pai, observei um vulto sentado na lápide de uma das campas -era uma senhora já de certa idade e estava a cuidar dum pequeno arranjo floral ao topo... Com uma surpresa crescente fui-me apercebendo que, na pedra onde estava sentada, cintilavam, refeitas, as letras douradas do nome do meu pai e que a dama, entretida a catar pétalas murchas às flores, parecia ser a mesma que se cruzara comigo no dia em que lá estivera com o duende da serração de mármores.  Sim - sem dúvida - era a mesma pessoa, concluía agora que estava mais perto: o mesmo casaco cinzento de gola levantada, o mesmo cabelo branco apanhado num pequeno puxo sobre a nuca, a mesma carteira castanha onde ela, nesse preciso momento, guardava as pétalas velhas amontoadas na placa de granito.  
"Estou aqui a varrer a campa do teu pai... O arranjo que trouxeste era bonito e durou bastante, mas vai-se desfazendo com a passagem dos dias, já se sabe."
A minha mãe levantou a cabeça do que fazia e olhou-me com um sorriso que apenas os olhos pareciam não acompanhar.
"Viste que bem ficaram as letras?"
"Vi, já vi; estava a reparar nisso..."
"Foi aquele rapaz que veio aqui contigo... Olha que esteve umas duas horas à volta com isto: raspou as letras e os números um a um, avivou os entalhes e, a seguir, pintou... Ter-lhe-ia dado uma moeda se a tivesse..."
"Não se rale, mãe, depois eu passo por lá a deixar."
"Ao tempo que isto se começou a degradar, as letras a descascar, cada dia um nadinha mais... Uma vez esteve aí a tua irmã, tentei dizer-lhe, mas ela não me ouvia, entretida a choramingar e a assoar-se! Há muito que não a vejo - talvez que venha nos Finados, mas evito vir nesse dia, a confusão e o cheiro de tanta vela põe-me zonza..."
"Ela agora não mora cá, mãe, há quase sete anos que foi para Buenos Aires; o Anselmo trabalha lá agora — que eu saiba não voltou ao país."
"Buenos Aires!", a minha mãe suspirou e, dando como terminada a tarefa de limpar os desmanchos do arranjo floral, pôs-se a arrancar as pequeninas ervas que, timidamente, levantavam hastes entre a campa e o terreno circundante.
"E a Doroteia? Não veio contigo?"
"Já não somos casados... Ela seguiu a sua vida e eu a minha..., já faz tempo."
"Tempo", disse ela em tom desdenhoso, "é coisa que não tem medida certa: tanto parece demasiado como muito pouco".
Ficou imersa em pensamentos por uns minutos, as mãos finas, que recordava tão bem de quando as passava pela minha cabeça chorosa e me acalmava dos males, acariciando ao de leve as tenras hastes verdes que brotavam do solo.
"Sabes, durante vários anos tive remorsos por pensar que podia ter matado o teu pai...; mas, agora, já me passou."
"Aquela história das castanhas assadas?"
"Sim", respondeu num fio de voz.
O meu pai falecera num entardecer gelado de Novembro e na véspera, dia de S. Martinho, atulhara-se com as castanhas que a minha mãe assara, sabendo que se pelava por elas. No final do jantar, ele passara umas mãos arrependidas pelo contorno da barriga e desabafara à cozinheira:
"Mataste-me com tanta castanha!" 
"Foi uma força de expressão; o paizinho não morreu disso, como sabe: o médico garantiu que foi um enfarte fulminante. Ele já tinha a dor..."
"Eu sei, eu sei... Mas demorou até que me convencesse; acho que foi porque, finalmente, descobri que quase nada depende de nós, sabes, que pouco podemos fazer ou interferir no rumo que as coisas já trazem em si..."
A garganta apertou-se-me no peito. Ainda a meio da frase, ela voltara a levantar a face da tarefa de alisar as ervinhas e olhara-me com uma expressão de resignação que os olhos, um tanto inexpressivos, pareciam não acompanhar.
"Vou andando, mãezinha, agora moro longe daqui..."
Ela levantou-se, esfregou as mãos uma na outra a sacudir os grãos de terra.
"Vou contigo até à porta."
Em silêncio, lado a lado, percorremos o caminho de volta até à saída do cemitério, silêncio interrompido uma só vez para ela assinalar um gato que se nos atravessara à frente.
"Já viste a quantidade que há por aqui? Antigamente não havia tantos gatos nos cemitérios, enxotavam-se, achava-se que eram animais que arrastavam azar. Coitados dos bichos. Outro dia vi aqui um igualzinho ao Dingdong... Lembras-te do Dingdong?"
"Então não lembro? Não fui até eu que o baptizei?"
"Foste, foste, por causa da campainhazinha na coleira..."
Chegáramos ao portão principal do cemitério e, olhando para além das grades, a minha mãe comentou:
"Rua da Meditação... Gosto tanto do nome desta rua. Nunca deviam dar às ruas nomes de pessoas - com o tempo passa a não significar nada."
"Adeus, mãezinha. Fica aqui?", perguntei ao vê-la estacar na soleira do portão.
"Fico. Se calhar ainda volto lá dentro. Vai em paz, guia com cuidado..."
Estendeu uma mão na direcção da minha cabeça, como se fosse sua intenção fazer-me uma carícia. Tirei o chapéu, mas os seus dedos hesitaram antes de me alcançar e suspendeu o gesto.
Atravessei a rua, entrei na oficina dos mármores a deixar a gorjeta e quando saí o meu olhar procurou o portão do cemitério. Ela desparecera de vista. Subi a rua em direcção à rotunda e ao carro, que estacionara ali perto. A meio da rua, um impulso fez-me olhar para trás: ela estava parada do lado exterior do gradeamento, aninhada a um dos grossos pilares de pedra onde estão encastrados os gonzos do portão, e levantou o braço num aceno muito leve, a carteira castanha a balouçar no braço que se movia.

© Fotografias, pedro serrano, Porto 2010, 2019.

28 novembro 2019

A CULTURA DO DESCANSO (no sentido intelectual do termo)

Rafael Esteves Martins, o insinuante pagem de Joacine Katar Moreira, declarou a um orgão de comunicação social que [sic] "parece-me ocioso explicar que não há propriamente uma normatividade daquilo que se faz. Há culturas de trabalho, e a cultura de trabalho da senhora deputada é uma cultura de descanso no sentido intelectual do termo, ou seja, sem interrupções".
Quem fala assim, não é gago, reconheça-se: é, antes, pretensiosamente parvo.
Já quanto à senhora deputada, após ter deixado passar o prazo para entregar na Assembleia um trabalho importante para o Livre (ao que supomos à sombra da influência da tal cultura de descanso), explicou aos jornalistas que [sic]: "Eu acho que é preciso nós iniciarmos a respeitarmo-nos uns aos outros. E se vos for avisado e antecipado que eu não ia dar entrevista absolutamente nenhuma, o que se espera é que haja um respeito".
Mas, cara Joacine, e se, para a minha cultura de um intervalo no descanso, não for para mim avisado seguir a sua sugestão, como hei-de então iniciar nós? 
É que aqui é que reside o búzio, digo, o busilis! 

27 novembro 2019

ESTAVA BOM DE VER

Numa espécie de declaração de conflito de interesses, começo por dizer que o Sr. Rui Tavares, de que soube a existência através dos textos que escreve no Público, tem uma personalidade que categorizo como irritante. Tento ler as crónicas que escreve e raramente consigo chegar ao fim. Para além de chato no tom, dá-me, como se costuma dizer, 'galo' o tom pedagógico e sussurrado de quem sabe o que seria melhor para a minha felicidade, para a felicidade de Portugal, da Europa e do Mundo em geral. Ah, se ao menos a gente seguisse os conselhos dele... E, de quando em quando, se pensa que aconteceu um desaire evitável no Mundo ou na freguesia, de dedinho em riste vem explicar-nos que estava bom de se ver, que ele bem tinha chamado a atenção na crónica da semana não sei quantos...
Depois apareceu o Livre e era mais do mesmo, não foram a lado nenhum, como se viu, nas primeiras tentativas. Tirando a aceitação da Europa, para aquilo já havia por cá o Bloco de Esquerda, fosse na versão mais dona de casa da Catarina ou na mais Família Adams da Mortágua.
E eis que, súbita como uma tempestade de Verão, surge, vinda directamente do nada, uma tal Joacine KM. Ah, é ela que vai ser cabeça de lista do Livre e não o Tavares? Mas porquê? Bem, televisivamente falando, Katar sempre enchia mais o olho do que o outro, que é careca e feioso. Vamos então mudar-nos de sofá e ver o que pensa esta, o que diz, magicava eu nesses dias primevos que antecederam as legislativas de Outubro de 2019.
Mas - após a edição paciente da parte edível - era claro que não dizia nada, coitada, não dava uma prá caixa, é o que se comenta na minha terra em casos semelhantes. Nenhum caminho, nenhuma ideia, a não ser a já muito estafada conversa do costume sobre racismo e ser mulher alternativa, mailas causas fracturantes e outras subvariações da actividade sísmica. 
"Mas porque não vai antes o Tavares às urnas", perguntava-me: "sempre se aguentava melhor nas curvas, já tem o estágio feito e tudo". Acontece que - tantas vezes foi agitado sob os meus olhos que fui compreendendo - o truque que podia fazer a diferença nos papelinhos estava precisamente em a candidata ser mulher, preta/negra (riscar o que não interessa), gaga, ex-colonizada, e pronta a acolher no seu abraço todas as demais agitações que quisessem vir pousar no fio da comunicação sem fios das redes...
O resto é história: a mulher lá foi eleita, mas o que rapidamente as câmaras, em directo da Assembleia da República, revelaram foi alguém completamente centrado em si próprio, esfusiante por estar ali, movendo-se na companhia idiossincrática de um secretário que se desmultiplicava para não ser ultrapassado em protagonismo, os dois largando olhares e confundindo o lugar, por onde borboleteavam checkando se estavam a ser convenientemente filmados, com a passadeira vermelha duma noite de ídolos na TVCM. Em cascata, pela rádio e pela televisão, borbulharam entrevistas onde o que mais me ficava na memória eram as palavras excitadas em louvor do andar especial das negras, a alegria e a superioridade dos rabos enormes, das conterrâneas mamas. 
Não foi, também, preciso esperar muito mais para que a senhora revelasse em público a sua ignorância política, a sua estreiteza de vistas, o fascínio total por si própria, este último consumado na birra que fez ao ser apertada e em crer que teria sido eleita sozinha. Pobre Rui Tavares, o homem estava mesmo na merda quando os olhos e os ouvidos das câmaras lhe caíram em cima! Era nítido que não esperava uma facada daquelas, uma peixeirada daquelas, nem que o Livre ficasse refém, assim tão de repente, de uma desconhecida. Vai ver-se aflito, coitado, para arrancar a senhora ao protagonismo que adquiriu e no qual já está viciada, para a sacudir da organização, pois a mulher é fogo e vai-se agarrar à causa dela como uma sanguessuga a um bife do lombo. E, antes de voltar a cair no esquecimento, por gosto e inconsciência, irá deixar o partido em péssimo estado.
Mas, como o Sr. Tavares, gosta de pregar nas suas crónicas, estava bom de ver. 

01 setembro 2019

DIZEM QUE (Carla Bruni e Leonard Cohen)

Dizem os jornais que Carla Bruni, mais recentemente famosa por inaugurar barcos em Viana do Castelo e ser casada com o pouco recomendável Sarkozy, foi forçada a cancelar um concerto por não ter conseguido chegar aos 200 lugares vendidos. Se Deus fosse vingativo e dado a escrever por linhas tortas, diria ter sido castigo por ela se ter atrevido a compar Pedro Abrunhosa a Leonard Cohen, "uma espécie de Leonard Cohen latino", comentou a infeliz senhora.    

10 agosto 2019

FANAN (o tolinho da vila)

O Fanan é o tolinho da terra. Fanan talvez seja um diminutivo de Fernando, não tenho a certeza. Toda a gente se lhe refere assim e duvido que alguém saiba o seu verdadeiro nome.
Cruzei-me com ele pela primeira vez há uns trinta e cinco anos atrás, quando me mudei para aqui. Na altura era um adolescente que se babava, sempre entre o pai e a mãe, que o mantinham muito limpo e bem-vestido e o olhavam com grande preocupação — temiam pelo seu futuro. Ele, por seu lado, não parecia temer por nada e tinha o aspecto geral do ser a quem tudo corre pelo melhor. 
A mãe morreu primeiro e o Fanan passou a surgir no centro da vila de mão dada à do pai, que o olhava com grande preocupação. Que seria do Fanan quando Nosso Senhor, por sua vez, o chamasse? Quem tomaria conta do filho e o livraria da pobreza e da desgraça?
Um dia morreu-lhe o pai e sobre isso deve ter já decorrido uma boa dúzia de anos. Fanan andará agora pelos seus cinquenta anos, talvez mais, pois o ar permanentemente satisfeito e permeável ao mundo circundante rouba-lhe peso ao tempo, fá-lo mais novo. Ao que ouço, mora num lar onde o tratam bem, continua a andar limpo e bem-vestido e tem liberdade para se mover pela vila, não está confinado a quatro paredes. Passa as tardes no café Central, onde costumava ir pela mão dos pais, e sobe e desce a rua da Misericórdia, onde ficava a casa da sua infância. Toda a gente o conhece e se lhe dirige naquele tom, entre o condescendente e o brincalhão, que se usa com os tolinhos. 
No café servem-lhe todos os dias um pingo, grátis, e se por lá estou come também um bolo, que pago à saída, dissolvido na minha conta — as empregadas já sabem. Não me lembro como isto do bolo começou, mas transformou-se numa rotina como o passar das estações. Se entra e estou sentado a uma mesa, procura a minha atenção e eu respondo com um aceno de cabeça ou ergo um polegar afirmativo. De imediato, dirige-se ao balcão e, babando-se de antecipação, exige a atenção das empregadas, espetando um dedo na vitrina onde estão os bolos - prefere sempre os de feijão, mas, não havendo, não desdenha uma areia branca. Em seguida aponta para mim, a garantir a cobertura da transacção. Sorrindo, respondonas, as funcionárias exigem:
"Como se diz?"
"Faz favor..."
"Ah! E vê se te limpas, estás todo cuspido..."
Fanan puxa um guardanapo de papel ao dispensador, devora o bolo em menos de um minuto e vai à casa de banho enxaguar a ponta dos dedos. Depois passa pela minha mesa a dar-me uma mãozada e sai para a esplanada, contente, senta-se à mesa dos outros marginais ou velhotes que por ali param a beber o seu copo de tinto de pacote ou o seu brandy Macieira.
Quase tudo isto se passa sem palavras. Fanan, como se costuma dizer, "não dá uma prá caixa", é incapaz de uma frase completa e limita-se a palavras soltas, meio balbuciadas, meio gaguejadas, mas sempre muito lubrificadas por saliva.
Ao fim da tarde regressa ao lar. Voltará no dia seguinte, parando a cada dois metros do passeio para olhar os próprios sapatos, talvez a verificar o estado de atado ou desatado dos cordões — quem sabe se, noutros dias, não seria uma recomendação persistente da mãe.
© Fotografia de pedro serrano, Cascais, 2018.

31 julho 2019

APOCALIPSE UAU! (as golas altas da Protecção Civil)

Ilimitadamente elástica, tanto como as golas em poliéster da Protecção Civil (PC), a capacidade do ministro Cabrita em branquear a realidade. Todos nós, os que ainda temos dois olhos, vimos a chama modesta de um isqueiro Bic derreter, fazer fumegar e levantar uma chama numa das tais golas mágicas do kit da PC. Que não, vem o Cabrita, bufar, agitando, frenético e esbugalhado, o relatório preliminar de uma preliminar investigação conduzida de encomenda por não sei quem com uma rapidez a que o povo das filas de espera não está habituado... Mas que não: podem fumegar, perfurar, mas arder não - no fundo as tais golas altas são similares a um Black & Decker; em linguagem de afectos seriam quase como um "fogo que arde sem se ver". Com um pouco de marketing, bem feito, todo este processo podia ser a origem de uma nova startup, empreendedoríssima! Antecipe o clip televisivo: Está calor, muito calor, em volta está tudo em chamas, você precisa de se por ao fresco - vai ao seu kit e enfia uma gola daquelas. Claro que fica cheio de calor, a suar, quem, no perfeito juízo, deseja andar de gola alta a 45º, com ignições, projecções, correntes descendentes, convexões? Não se aflija, porém: à medida que vai atravessando o incêndio (ao fundo, contra um fundo de fumo espesso, passa um helicóptero tipo Apocalipse Uau!), à medida que vai atravessando as chamas a gola vai naturalmente perfurando e você chega ao rescaldo sem nada a abafar-lhe o pescoço, outra vez de t-shirt e manga curta. Quer melhor? É praticamente uma coisa feita e concebida à medida do seu bem-estar! Aquilo não arde, garante o Cabrita e toda a restante família. A 30 cm, a 20 cm, com chamas de baixo para cima e de cima para baixo, aquilo não arde, está quase cientificamente provado, que a ciência também pode servir para branquear, como a lixívia. 
Talvez fosse de aconselhar a esta malta que nos pastoreia uma visita demorada a um serviço de queimados do país e, no final, a ter uma conversinha com os especialistas médicos sobre o efeito que uma peça de roupa em poliéster pode provocar em contacto com uma pobre pele humana quando a fibra em processo de fusão, isto é, derrete. Mesmo sem chama! 


   

28 julho 2019

A PÉRGOLA DA FOZ (anos 20 do século XX)


A pérgola da Foz (Porto) por volta de 1920, a crer pela idumentária da menina e das senhoras que se vêem na fotografia. Compare com as imagens dos anos 20 abaixo. © Fotógrafo desconhecido (fotografia adquirida por pedro serrano).

22 julho 2019

INSTANTÂNEO

Maria Fernanda, 1936.
uns quarenta anos, Mártires da Liberdade era uma rua estreita, soturna e enxovalhada, onde os transeuntes se cosiam às paredes para deixar passar os eléctricos que, oscilando como pudins, trepavam do Carmo à Praça da República. Vida própria, comércio? Para além da solitária farmácia ou da sonolenta drogaria, lojas era coisa que não abundava e ninguém fazia o esforço de ir a Mártires da Liberdade comprar fosse o que fosse que fosse especial ali.
Pois agora a rua, que continua estreita e parca de sol, está pejada de lojas de velharias, conta-se uma porta sim, porta não. Como começou o fenómeno e se deu o alastramento é um completo mistério para mim.
Atraído pela quinquilharia da montra entrei num desses estabelecimentos e, quase ao fundo, transbordando de um enorme caixote dei com uma enchente de velhas fotografias, uma maré a preto e branco com ondas de bordos serrilhados. Meti as mãos nelas e, às punhadas, fui debicando as imagens, as marcas de água do fotógrafo, as legendas e dedicatórias do verso: vinham de todo o lado, do Porto, de Coimbra, de Lisboa, e representavam baptizados, casamentos, carnavais, homenagens, cenas balneares, festas de fim de semana em família, e vários retratos individuais, em tamanhos diversos, pontuavam, como espuma, os ajuntamentos. 
Enquanto remexia o lote, como quem procura umas cuecas jeitosas num sortido em saldo, fui-me dando conta de não haver prova mais gritante da transitoriedade humana e do esquecimento que lhe vem agrafado, do que um monte avulso de fotografias à venda, distante dos dias falantes em que toda aquela gente teve significado para alguém ou para si mesma. Onde estaria o "meu querido paizinho" a quem Maria Fernanda, "a filha muito amiga" dedicava aquele retrato no dia de Santo António de 1936? No céu, no purgatório, sublimado em poeira cósmica, em lado algum? E a própria Maria Fernanda, de sorriso tão meigo e a cara lisa de esperança, onde está ela oitenta e três anos mais tarde? Prefiro não pensar nisso, eu que nem sequer sei porque resolvi comprar a fotografia e ma deixaram trazer. Uma coisa é certa, pelo preço não compraria um melhor par de cuecas e a sensação de pechincha conforta a mágoa de saber que a Fernandinha já não chamará na casa que a viu crescer, onde nem mesmo as fotografias antigas restaram nas gavetas.   
© Foto Artística, 1936, rua do Coronel Pacheco, Porto.

18 julho 2019

DOMINGOS À TARDE

Há vezes, por vezes... Não:
Às vezes, ponho-me a achar
     Que, no seu dia a dia por Lisboa
Fernando Pessoa, o poeta 
Deveria ter sido parecido
Ao meu tio Domingos, 
O meu tio-avô Domingos,
Tio por afinidade.
O meu tio Domingos, casado
Com a minha tia Fernanda,
Tia-avó Fernanda, irmã do
Meu avô ou seria da minha avó?
Por quem a minha tia chamava, sempre
A dobrar: "Ó Domingos, ó Domingos"
Às vezes... Não:
Por vezes, apetecia uma coisa doce
Ao tio Domingos e como somente sabia
Lidar com a papelada quadriculada
Da Caixa-Geral de Depósitos, em cujo quadro contabilizava,
O meu tio pedia por esse mimo à mulher, dona de casa.
E ela, que era um pouco frívola e péssima cozinheira
Aconselhava que tomasse uma colher de xarope da tosse,
Não muito, apenas uma, de chá, que não esquecesse
A obstipação e o irrigador esmaltado atrás da porta.
E ele, o meu tio-avô por afinidade, 
Tomava uma, a prescrita, e engolia outra à pressa,
A proscrita, antes que a minha tia levantasse os olhos
Do tricot que entretecia, espreitando ao canto da cortina
Quem passava, de regresso ou a caminho da Arca d'Água.
Viviam sós, os dois, numa casa silenciosa que deitava para a rua
Embora nas traseiras, do tabuado escarolado da varanda corrida 
E das telhas de xisto preto em forma de quinas que a revestiam
Descesse uma escada de pedra para um quintal murado, com 
Canteiros de parede, flores de uma só face e uma ameixoeira ao centro.
Mas ninguém apanhava os frutos: às que pendiam na árvore
Quem poderia chegar? E, às caídas no chão, seria demasiado arriscado
Tocar, ousar, sequer, pensar em consumir... Ameixas ao sol!
Dizia a minha tia-avó Fernanda, peremptória como um banqueiro
Enquanto, sentado à borda da sua poltrona como uma visita
O tio Domingos juntava em prece as mãos brancas e nodosas
E percutia levemente as polpas dos dedos uns nos outros, sem ruído
Como que a desenferrujar as impressões digitais e
Projectava os beiços além da linha de água do rosto, sonhando
Talvez com a papa encarniçada e doce de ameixas ao sol
Ou, prático como um caixa-geral, com o frasco de xarope
No armário do quarto de banho, aquele cuja porta rangia
Cada vez que se lhe mexia, sendo aconselhável tossir em uníssono ao abri-la
Para, em sendo caçado, não lhe fosse sarrazinada a colherada extra. 



12 junho 2019

ERRO TOPOGRÁFICO (Carta à Mãe)

Manuela Campos Monteiro Serrano.
Mãe, escrevo-te esta carta... 
Se soubesses a água que, entretanto, correu sob esta ponte. Se o soubesses, dirias, se tivesses a oportunidade e a paciência para me ouvir, se eu te pudesses contar tudo; se o soubesses provavelmente dirias que eu te fazia lembrar o tio X, ou o tio-avô Y, um bocadinho tu própria se pudesses ter concretizado tudo o que sonhaste se te tivessem deixado seguir a tua vontade em vez de te açaimarem ao piano, ao francês e ao futuro exclusivo de dona de casa. Talvez, aventurosamente falando, eu tivesse ido um pouco mais longe do que irias, eram os tempos...
Sabes que estive na Torre do Silêncio? Duas vezes! Um dia, naquelas tardes em que tricotavas sob o candeeiro de abat-jour semelhante a um chapéu chinês, ou vietnamita, contaste -tinhas lido não sei onde -que na Índia, esse subcontinente misterioso, longínquo e perigoso, havia, em Bombaim, um local onde eram depositados os mortos, para serem comidos pelas aves do céu, nesse caso abutres... Contavas-nos estas historietas numa voz contida, como o assunto merecia, e que coisas se passavam por esse mundo!, tão exóticas e tão longínquas da rotina civilizada dos muros da nossa rua. 
"O sítio chama-se Torre do Silêncio... e é proibido a estrangeiros..."
E eu saía disparado para o quintal, olhando de soslaio as folhas das hidranjas e as sombras das sardinheiras. Será que poderia haver tigres escondidos por ali? E alguma ave do céu me poderia picar se eu adormecesse no quintal e ela me confundisse com um morto de Bombaim? E imaginava o local de que falavas pela bruma imprecisa e autossuficiente da imaginação, uma torre babeliana, sinistra, quase perdida, cercada de selva, muito alta, em torno da qual imperava o silêncio absoluto, um silêncio solene, trágico, tão vivo que nos selaria os lábios só de nos aproximarmos; os próprios pássaros que bicavam os mortos perdiam o pio, por isso eram condenados a ser abutres, uma raça, supunha eu, a quem seria interdito o canto.
Olha, e pelos motivos que te contaria, fui parar a Bombaim, que agora já não se chama assim, mas, por gosto de quem lá vive, mudou o nome para Mumbai, depois de se ter chamado Bombay quando os ingleses mandavam. E por parêntesis e orações subordinadas abertas nos motivos que me levaram a Mumbai, dei comigo, num fim de manhã brilhante e quente, despejado por um táxi nas Torres do Silêncio! Ah, aquilo não é nada como nos fazias supor, como eu ficara a imaginar. De comum com a tua verdade só o facto de continuar vedada a estrangeiros, mesmo o ser-se indiano não é causa suficiente para se lá entrar. Só uma seita de indianos que migraram da Pérsia há séculos pode frequentar o local e entregar aí os seus mortos para que terminem a existência a coberto da contaminação da terra, da água e do fogo. O que vem com a brisa levá-los-á...
De resto, aquilo é no meio da cidade -imagina, é como se ficasse na baixa do Porto ou, sendo mais preciso, para os lados da Boavista -pelo meio de prédios altos encontras como se fosse um jardim da Arca d'Água, só que valendo cinco ou seis dele e muito mais arborizado, murado, um muro tomado pela vegetação e já se confundindo com esta. As torres (são duas) estão lá no meio e não se veem de lado algum, é escusado, é propositado. Depois, à entrada do jardim, há uma cancela e um guarda sentado à sombra que te pergunta se és parsi, se vais a alguma cerimónia parsi. É difícil dizer que sim, ser convincente de panamá, t-shirt e calças de ganga, talvez um deles -num dia generoso -te permita dar uma voltinha rápida pelo bosquete, mas só até ao largo ao cimo de uma vereda verde, onde acaba o asfalto e as ambulâncias antiquadas estacionam para, discretamente, entregar os mortos a quem, cumpridas as formalidades, os há-de colocar num dos sectores triangulares que subdividem o círculo que coroa o terraço a céu aberto das torres. No século XXI são já poucos os defuntos da etnia parsique procuram as Torres do Silêncio, assim como vão rareando os abutres que volteiam em hélice no céu azul, tornado enevoado pela poluição de uma cidade com mais de vinte milhões de pessoas. Não é que os abutres se tenham modernizado e -como as gaivotas da Arca d´Água que deixaram o mar e se contentam com o lixo dos contentores -tenham enjoado a carne humana... É mais porque que quem morre é geralmente velho e aos velhos achaca-os o reumático, as dores na juntas; os comprimidos e a pomada de Voltaren ajudam a minorar o padecimento... Mas os abutres, coitados, por brutos e eternos que pareçam, são demasiado sensíveis ao medicamento que foram ingerindo sem o ter encomendado, sem o saber, e isso foi-lhes ceifando a vida individual, custando a sobrevivência da espécie. Os próprios mortos se vingaram de quem lhes executava o destino, vê tu só como tudo isto é comezinho e diverso do que imaginavas naquelas tardes de porta aberta para o jardim de trás. O mistério, que nos parecia espesso como um óleo, tornou-se, com a passagem do tempo, ténue como uma aguarela; há dias em que quase me apetece rir da simplicidade evidente das coisas, como os ossos limpos do excesso.
E agora, olha, não me falta assim tanto em anos para ter os que tinhas quando morreste e, por vontade expressa, te transformaste em roseira. A água que, entretanto, passou! Depois de ti fui ao Ceilão, voltei ao Nepal, à Índia umas sete ou oito vezes, ainda mais vezes à África, negra e exótica, de que também me contavas assombros e de quem, em almanaques sortidos, via as gentes em intrigantes fotografias a preto e branco com legendas que diziam: "Gente da nossa terra: indígena dos Bijagós". Como podia aquele homem com o nariz atravessado por uma pena de galinha, ou aquela mulher de mamas ao léu e cheia de tatuagens que supunha marcas de varíola, serem gente da nossa terra? Se, por absurdo, topasse num deles na Arca d'Água desataria a fugir ou punha-me na fila para lhe espreitar as mamas de mais perto! Ao andar por lá vi que não eram nada parecidos com os indígenas dos almanaques e, se convivias com eles de perto, vias que alguns eram mesmo parecidos connosco, talvez a legenda tivesse um erro topográfico e quisesse antes dizer "Gente da nossa Terra".
© Fotografias, de cima para baixo: (1) Foto Beleza, Porto; (2) e (3) Pedro Serrano, Mumbai 2016; (4) Pedro Serrano, ilha de Elefanta, Índia, 2018.