22 maio 2019

CAMONES & CAMÕES - Chico Buarque

Olha que boa notícia, que justa notícia. Chico Buarque ganhou o Prémio Camões 2019, uma espécie de prémio Nobel da literatura da Lusofonia. 
Quando, em 2016, o comité do prémio sueco fez uma pirueta aos critérios do costume e resolveu premiar escritores de música popular não pude impedir-me de pensar em dois nomes que poderiam ter estado no lugar de Bob Dylan: um deles, Leonard Cohen, morreria dias depois, contente com a distinção ao colega; o outro foi Chico Buarque de Hollanda. Mas Buarque tem a desvantagem de se exprimir em português, um dialecto sem a universalidade do inglês em que o americano e o canadiano escreveram e cantaram o que tinham a dizer. Seria difícil, mesmo em tradução caprichada, fazer emergir as nuances entoadas pelo paulista-carioca e a sofisticação com que tratava a língua em que nasceu. No entanto, usando apenas a métrica da qualidade do produzido e o significado do que escreveu, os mundos que pintou e o modo como nos devolveu emoções que qualquer descendente de Adão&Eva já vestiu (ou pode ainda fazê-lo), então Chico está lá, no ponto. Acresce  que a roupagem sonora que Chico Buarque inventou - e não parou de aperfeiçoar ao longo de 50 anos - para embrulhar a poesia (no seu caso, até mais do que em Dylan, é disso que se trata) é igualmente sublime, mas isso, por agora, são outros 500, pois parece que este tal de Prémio Camões é apenas de literatura.  

05 maio 2019

DIZ À MÃE

Mãe, na quinta em Gavião (Famalicão), anos 40.
"Diz à mãe que, independentemente do comportamento dos cães e dos samovares, depois do verão haverá o inverno, depois da juventude, a velhice, depois da felicidade, a desgraça e vice-versa; o homem não pode ser saudável e contente durante toda a vida, terá sempre perdas pela frente, não pode evitar a morte, nem que seja Alexandre Magno, e temos de estar prontos para tudo e encarar tudo como uma necessidade eminente, por mais triste que seja. É necessário apenas cumprir o nosso dever na medida do possível, e mais nada."

Carta de Anton Tchékhov à irmã Macha, Ialta, 13 de Novembro de 1898. Tchékhov era médico e morreria de tuberculose menos de seis anos depois, tendo a  mãe sobrevivido ao filho.

Nota: o tipo de ruído produzido pelos samovares (aparelhos para ferver água para chá) era considerado por algumas pessoas como um presságio. 

23 março 2019

CONVERSA DE CAFÉ (RICHARD JENKINS EM MUMBAI)

Café Leopold (© fotografia de pedro serrano, Mumbai 2017).
Assim, de repente, vem-me à mente quatro no género: Piolho, no Porto, o já desaparecido Don´t Pass Me Byem Katmandu (Nepal), Lale Pudding Shopem Istambul, e o Leopold Cafeem Mumbai. Todos foram ou são cafés de passagem e encontro, locais incontornáveis, especialmente úteis quando se está longe de casa e se procura alguém ou se tem de marcar encontro quando ainda não há um endereço a fornecer. 
Em Mumbai (a antiga Bombaim), na Índia, o Leopold Cafedesempenha essa função há mais de cento e cinquenta anos e as suas mesas estão repletas de gente de todo o mundo. De tal modo é famoso e reconhecido como ícone de uma cultura internacional que, em 26 de Novembro de 2008, foi um dos três alvos escolhidos (junto com os hotéis Taj Mahal PalaceOberoi) por uma brigada terrorista paquistanesa que semeou o terror e provocou 166 vítimas mortais em Bombaim. No Leopold, antes de seguiram para o Taj, três minutos a pé de distância, os assaltantes deixaram dez mortos e o interior incendiado. Dez anos passados ainda se notam algumas sequelas funcionais no local: à porta do café estaciona em permanência um segurança que examina os sacos e as carteiras de quem quer entrar, medida mais simbólica do que efectiva pois o café tem janelas deitando para outras ruas, sempre abertas e através das quais um terrorista pode comodamente fazer tiro ao alvo sobre os clientes.
Leopold vacila entre o café e o restaurante e às suas mesas de toalhas axadrezadas, sob a vigilância de cartazes que glorificam a saga do Padrinho, Bob Marley ou os Beatles, pode beber-se cerveja ou um sumo de melancia, mandar vir uma refeição completa do extenso menu ou, simplesmente, ceder a uma das sobremesas que, já desde a rua, tentam os transeuntes numa vitrina envidraçada. São justamente famosos os seus browniese deliciosamente enjoativa a grossa fatia de marzipan carrot cake.
Mural no interior do Leopold (© fotografia de pedro serrano, Mumbai, 2017).
Pois a uma meia tarde de Novembro de 2018, refrescando de uma excursão pelo esturricante inverno indiano, estava eu sentado a uma das mesas do Leopold, tilintando gelo, recebendo o bálsamo de uma das ventoinhas aparafusadas no tecto e deixando vaguear o olhar pela sala, quando um vulto, vindo dos lados da cozinha, me prendeu a atenção. Convém explicar, a quem nunca por lá esteve, que para se ir à casa de banho do café se tem de passar ao lado da cozinha – da qual, na passagem, se poderá espreitar o ar fervilhantemente caótico – e só para além desta se encontra o cubículo onde mal cabe um ser humano e em tudo semelhante a uma cabine de sauna, pois, uma vez fechada a porta, não há ar – natural ou ventilado – que ali chegue! No regresso à sala é forçoso praticar uma gincana entre a mais de uma dúzia de empregados que, equilibrando bandejas, corrupiam entre a cozinha, o balcão e as mesas e era a uma dessas gincanas que eu, tilintando o meu copo de sumo, assistia, divertido. O homem que regressava das casas de banho era enorme, particularmente pelos padrões hindus e trajava um polo amarelo às risquinhas que realçava a cruzada por entre as camisas brancas dos criados, e quando chegou à sua mesa – a pouco mais de três metros da nossa – reparei que usava calções e sandálias, um autêntico turista americano, portanto. Ao vê-lo sentar-se voltou a assaltar-me a sensação de familiaridade que me tocara quando o vira ao longe e isso fez redobrar a minha atenção sobre ele, pormenor que deverá ter captado pois vi-o deter, por breve instante, o olhar em mim, um olhar habitado pela cautela e pela neutralidade composta de quem está habituado a ser reconhecido publicamente. 
Richard Jenkins como Nathaniel Fisher em Sete Palmos de Terra.
E, caída do nada, fez-se-me luz: tinha frente a mim, bebendo cerveja, Richard Jenkins, o actor americano que, por cinco anos a fio, me fizera companhia ao longo das várias temporadas da excelente série Sete Palmos de Terra(Six Feet Under) ou que vira, sempre com prazer e admiração, numa caterva de filmes. Jenkins é um excelente actor, da craveira e na linha de um Robert Duval, actores geralmente servidos na tela em papel secundário, mas, na sua discrição e contenção de representação, compondo personagens essenciais à história e de que nos ficamos a lembrar por muito tempo. Em Sete Palmos de Terra, por exemplo, Richard Jenkins (no papel de Nathaniel Fisher, pai da família Fisher e dono da agência funerária onde se desenvolve toda a série) morre nos primeiros minutos do primeiro episódio da primeira temporada, sendo o seu aparecimento desencadeado pelas memórias ou pelo desejo dos filhos, da viúva e daqueles que lidaram com ele e lhe sentem a falta. E, apesar de ser apenas um fantasma, Jenkins é um dos personagens principais da série e uma presença sempre ansiada por quem vê. 
Uma noite destas, ao rever Ana e as Suas Irmãs(Woody Allen, 1986), apercebi-me, surpreendido, da presença na história de Richard Jenkins que, durante os dez segundos de um telefonema, encarna o papel de um dos numerosos médicos que a neurótica personagem desempenhada por Allen consulta. Ana e as Suas Irmãsdeverá ter sido, há 33 anos, um dos primeiros filmes em que participou como quase figurante e até, em 2008, lhe ser dado o papel principal em O Visitante. Mas como é do conhecimento geral, Allen é especialista em descobrir novos talentos e gente como Meryl Streep ou Sigourney Weaverpassaram igualmente pelo crivo de meros segundos na tela de Woody Allen, pelo que Richard Jenkins fica em muito boa companhia.
Quanto à sua presença em Mumbai naquela tarde de Novembro, compreendi, mais tarde, que Jenkins é um visitante frequente da Índia, país com quem mantém uma relação especial e onde, aliás, participou como actor no desgraçadamente mau Comer, Orar e Amar(2010), filmado no país e adornado pelos constantes esgares e flexões labiais de Julia Roberts. 
Richard Jenkins em Mumbai (© fotografia de pedro serrano, Mumbai 2018).
Após beber a sua cerveja, Mr. Richard Jenkins, na companhia dos três indianos que estavam sentados com ele, saiu, enfiou na cabeça um boné de basebol e tentou passar despercebido na Shahid Bhagat Singh Road, a avenida onde fica o Leopold, tarefa difícil para quem, mesmo que o talento não sobressaia, tem mais de um metro e oitenta e cinco de altura.  
   

20 março 2019

VOU-TE CONTAR: 73. A Freira Vermelha

Em casa dos meus avós maternos a sala de visitas era um local interdito a crianças não acompanhadas e isso era-nos tão insistentemente repetido que mal detectávamos uma aberta na vigilância dos adultos eramos atraídos para a sua porta como insectos para a luz. Esta porta irradiava já algo de premonitório do mistério e do tempero mágico do interior, pois possuía painéis de vidro martelado que permitiam aperceber uma claridade vinda do interior e, muito facilmente, adivinhar movimento do lado de dentro, como se algum ser com propriedades de mosca ou de réptil andasse a passear-se por lá num deambular que abarcava o chão e a própria altura das paredes. Mas quem poderia andar por ali se a sala não era aberta senão em dias especiais, de festa, ou quando sucedia chegar uma visita de cerimónia que era forçoso manter afastada do coração íntimo da casa?
Assim, com estas dúvidas a crepitar na mente, era com extremada prudência que um de nós rodava o puxador – não tinha lugar na nossa coragem ir lá sozinhos – e empurrava a porta ao ralenti para verificar que as sombras movediças que pressentíramos através do vidro martelado não tinham tradução em algo palpável ou do domínio do visível. A sala estava vazia e revelava-se-nos, mais uma vez, constante e fria. Mas essa confirmação nunca era suficiente nem definitiva e tornava-se necessário retornar.
Logo à entrada havia uma mesinha baixa, um tampo de vidro embutido em metal dourado, e em torno dela agrupavam-se um sofá e dois maples, tornados unos não só pela cor verde seco do seu estofado, mas também no modo como encurralavam a mesinha num cheque mate. Neles era proibido sentarmo-nos e apenas o faríamos durante alguns segundos para confirmar a fundura dos assentos e a dificuldade em estender os braços sobre os apoios laterais com o relaxe com que víamos os adultos fazê-lo após terem pousado a chávena do chá. Do sofá, olhando em frente, encostado à outra parede estava um piano vertical e a sua coluna preta – que sabíamos conter as cordas e os martelinhos almofadados – parecia uma chaminé por onde subiriam notas se as pudéssemos tocar. Mas era infinitamente interdito mexer no piano, abrir sequer a tampa que ocultava o teclado e nos cairia sobre os dedos, directa como a justiça divina. Proibição maior, naquela sala, só mesmo a de ousar premir as teclas nacaradas que manobravam o radio-gira-discos, um móvel de madeira severamente envernizado cuja base era preenchida por sucessivos escaninhos secretos onde se arrumavam os discos. Ao fundo da sala, lá longe, havia uma janela virada a sul, mas não a víamos senão de portadas cerradas, porque era virada a sul e a luz do sol, a penetrar livremente, comeria a cor dos tapetes, desvaneceria o forro dos estofos, desbotaria os cortinados. Entre a janela e a parede, uma consola alta em madeira dourada e tampo de mármore recobria a tubagem do aquecimento a água, e sobre esta um relógio com feitio de escultura representava o tempo, como este se deveria contar em Versalhes ou numa qualquer outra capital civilizada. E presidindo acima, nessa parede mais distante da sala, estava pendurado o quadro que fazia fruste a minha estadia no local, tal era o terror que despertava em mim a sua presença. Dentro de uma moldura dourada, de perfil, uma freira torcia-se para olhar quem entrara duns olhos pardos, parados mas vigilantes, sem uma expressão que conseguíssemos interpretar ou da qual se pudesse alcançar aprovação. Era uma freira atípica e embora usasse aquelas toucas rígidas que as freiras usam, na dela só a parte que lhe assentava no topo da cabeça era negra, pois as abas laterais eram de um escarlate sanguinolento, como se o sangue fosse a divisa da sua Ordem. E a estranheza da religiosa não se ficava por ali: os lábios, tinha-os pintados do mesmo vermelho das abas da touca e por entre eles brilhava uma fiada de dentes desdenhosos que – apesar do repousado falsário da expressão – eu achava estarem prontos a morder a qualquer momento. Aquela mulher era, para mim, a terrível guardiã da sala de visitas dos meus avós e, nas tardes em que me era dado olhá-la, seria prolongadamente castigado pela fosforescência maligna da sua lembrança à hora do adormecer, uma vez que era impossível obter alívio do assunto com quem acudia ao quarto a tranquilizar a minha insónia. Como poderia queixar-me da freira vermelha se, antes de tudo o mais, eu não deveria, sequer, ter podido vê-la?
A Micas do Couto na primeira metade dos anos 80.
O tempo correu, passaram anos e décadas sobre a sala de visitas e a casa dos meus avós foi fechada, o recheio distribuído pelos herdeiros e quis a sorte que, entre outros móveis, louças e pinturas, o quadro da freira viesse parar a casa dos meus pais, onde eu, agora adolescente maduro, ainda morava. Um dia, ao descer as escadas do piso de cima, dou com a freira vermelha suspensa numa parede do hall, longe do seu santuário de sempre e exposta num local banhado de luz, cruzado constantemente por gente. E, desassombrado, percebi então que a freira não era freira nenhuma: não passava duma rapariga do povo com um chapéu preto, de copa redonda e aba curta, em que as supostas asas laterais da touca resultavam de um lenço vermelho que usava sob o chapéu, como tanto sucede com as ceifeiras. Mas, apesar da revelação, o meu alívio não foi completo e a qualidade sinistra do retrato manteve-se-me agarrada – não olhava nunca com prazer ou neutralidade naquela direcção, como acontecia se o fazia com outras pinturas que se penduravam por ali. 
Rodou de novo o tempo, ou a consciência que fui tendo dele, e caiu a casa dos meus pais, como acaba por suceder sempre que as pessoas as deixam e se perdem pela morte e pelo mundo. Por uma questão de segurança, os valores principais da casa foram sendo guardados em arcas e gavetas, mas, tendo em consideração as dimensões, dois quadros foram envolvidos em panos e escondidos na cave atrás da porta da garrafeira, um compartimento esconso, sem janelas ou ventilação: um deles (apeado de degrau em degrau desde os seus dias áureos) era o quadro da ex-freira vermelha. Ali estiveram, os dois quadros, dez longos anos esquecidos, longe da luz e das vistas.
Um dia coube-me ir resgatá-los e ao desembrulhá-los com cautela do seu sudário ouvi o ruído de algo a tombar. Acontece que o rebordo interior da moldura dourada do quadro da freira vermelha, que eu supunha da mais nobre madeira, era de gesso pintado e, com o tempo e a humidade, esboroara-se. Solta de amarras, uma tábua humilde caiu nas minhas mãos: afinal, o retrato da freira-ceifeira fora pintado sobre madeira, como tanto acontecia às pinturas da Idade Média e da Renascença! Peguei no retábulo e levei-o até à janela mais próxima, examinei-o de perto. Sim, era uma pobre tábua, pinho barato e nem sequer muito espesso. No verso, uma anotação manuscrita indicava a data da pintura (1930) e o seu título. Afinal a freira vermelha, o horror altivo da minha infância, não era mais do que A Micas do Couto, porventura a filha de algum lavrador dentre Douro e Minho por quem, fingindo-se naturalista, se encantara o pintor.

06 março 2019

ANDOR VIOLETA!

Se cada um dos mais de 31.000 subscritores que, em pouco mais de 3 dias, assinaram a petição pela destituição do Juiz Desembargador Neto de Moura (doravante designado JUDE NEMO) contribuísse, numa espécie de crowdfunding benemérito, com 1 cêntimo seria possível pagar ao homem um bilhete (de apenas ida) até à Arábia Saudita.
Aí, num caldo cultural mais ao seu jeito, Jude Nemo poderia ganhar honestamente a vida acocorado numa barraquinha dos arrabaldes de Ryad a vender inutilidades a quem passasse: pedras para lapidação, miniaturas em plástico dourado do tribunal da relação do Porto, ferraduras para camelos, magnetos com versículos dos livros sagrados sobre a mulher adulterada... E quando lhe desse ganas de proclamar as desconsiderações que lhe correm nas profundezas, poderia sempre pregar no deserto, por felicidade ali ao lado.
E assim, por cá, todos reencontraríamos a paz e a serenidade, ainda ontem perturbada pelas mais recentes choraminguices e alarvidades com que Jude Nemo inundou a comunicação social através de um intermediário, e que aqui resumo aos mais distraídos: Nemo diz que as intensas reacções públicas à sua pessoa o tem feito sentir “triste, usado, indignado e abatido” expressões que, como uma luva, poderiam ter sido proferidas por uma das vítimas de violência doméstica, daquelas que ainda consegue falar. Que tal, senhor juiz desembargador, ser obrigado a descer a escadaria do seu tribunal até à rua, e vestir, nem que seja por um minuto e apenas ao nível das emoções, a pele de quem é forçado a uma realidade tão feia?  
Pela voz do ventríloquo, Jude Nemo anuncia também que está a ser “usado no relançamento do tema da violência doméstica” em Portugal, o que sugere um ego de boneca insuflável e uma tendência para a generalização um tanto abusiva. Mais à frente, noutra fiada de pérolas, Nemo manda dizer que as vítimas de violência doméstica que se sentirem ofendidas com as suas decisões podem sempre recorrer aos tribunais, exactamente como ele se propõe fazer com quem ofendeu a sua dignidade pessoal e profissional. É preciso lata para invocar esta equidade, esta igualdade de direitos e de meios feita por um cidadão que não gastará um tusto em custas judiciais nas sua cruzada justiceira, que é do meio, e se considera tão irresponsável pelos seus actos que se dá ao luxo de processar as autoridades que, justificadamente, o sancionarem quando foi apanhado a conduzir na via pública um automóvel sem matrícula!
Deixo para o fim essa coisa da ‘honra’ ofendida de que Jude Nemo fala gemebundamente. Para ter acesso à honra – informe-se sobre o sucedido nos sistemas concentracionários da Alemanha dos anos 30/40 e da antiga União Soviética – é necessário, antes do mais, estar-se vivo e ter uma certa liberdade de movimentos para dela usufruir e, deste ponto de vista, a ‘honra’ é um luxo a quem nem todas as vítimas de violência doméstica tiveram tempo de chegar.
Dito isto, fica um conselho à laia de conclusão: “ponha-se na alheta”, “desampare a loja”, desembargue a Relação ou, como se diz na cidade que o senhor desfeia: andor violeta!    


04 março 2019

DIGA LÁ 503!

503 é o número de mulheres que foram assassinadas em Portugal entre 2004 e 2018 em ambiente doméstico ou seja, o ambiente que se suporia protector de quem lá vive. Perante a desgraça, quem deveria lidar com ela – o Estado e a Justiça, nos seus diversos departamentos de acompanhamento de casos e punição dos perpetradores – têm-se comportado, salvo honrosas excepções, de forma negligente, incompetente e, sobretudo, fora de horas. As queixas são feitas, os casos são sinalizados, os perigos são reconhecidos, mas a actuação sobre eles é sistematicamente frouxa ou inexistente.
E, como se fosse ainda pouco, há nichos onde estas coisas correm ainda pior do que a média e os funcionários que por lá se sentam concorrem para desfazer o pouco que se fez, insistindo em dar uma mãozinha e soprando a frágil chama da vela que parecia ter sido acesa em nome da justiça e da protecção dos cidadãos. Exemplo flagrante é o Tribunal da Relação do Porto que mais se assemelha a um antro pré-histórico, uma caverna sebosa e sinistra na proximidade da qual dá vontade de atravessar a rua. Dessa caverna, ao público só chegam ecos de más notícias, daquelas em que quase não se acredita quando se ouvem: há meia-dúzia de anos, por exemplo, dois doutos juízes absolveram um médico que, no exercício das funções, violou uma doente, uma senhora em fim de gravidez e em estado de grande fragilidade psicológica. Esse médico tinha sido condenado pelos tribunais comuns, em boa hora fora expulso pela Ordem dos Médicos, mas esse tribunal ‘tira-teimas’ achou que não, que não tinha havido propriamente violência e vá de absolver o monstro e anular a indemnização que este devia à vítima pelos tratos de polé a que a submeteu. Mas estes juízes (o respectivo acórdão pode ser consultado na íntegra em http://www.dgsi.pt/jtrp.nsf/0/1c550c3ad22da86d80257886004fd6b4?OpenDocument) parecem dois principiantes quando comparados com o juiz Neto de Moura, medalha de ouro dos tropeços na luta contra a violência doméstica (na modalidade: dirigida a mulheres) e um herói para todos os matarruanos que a praticam. Com Neto de Moura não há que hesitar em dar porrada nelas, carago, em meter-lhe dentro os tímpanos ou outras membranas, nem que elas façam queixa por escrito e assinem por baixo, pois há ali, na Cordoaria, um amigo que passa a borracha nessa merda toda: reduz sentenças, manda abrir pulseiras electrónicas, defende o pessoal dessas cabras que mereciam ser lapidadas como um diamante, à bruta! Força, Moura amigo, que o pessoal da porrada está contigo! Força, amigo Neto, enche as prisões até ao tecto e processa toda essa cambada que te denigre, mete em tribunal Portugal inteiro, que, estando onde estás e com a prática que tens, não podias estar melhor apetrechado!    

02 janeiro 2019

CADA TERRA COM SEU USO

A propósito da controvérsia portuguesa em torno da divulgação, nas redes sociais (e posteriormente jornais), de uma foto de captura de três bandidozecos violentos do Porto, aqui se dá conhecimento, em segunda-mão, de um hábito costumeiro nos jornais da Índia (neste caso um diário de Goa): a notícia da prisão de dois traficantes de droga com os respectivos captores, posando para a posteridade. Para os mais curiosos, um lakh são 100.000 rupias e um crore vale dez milhões de rupias.

03 dezembro 2018

PORTO INTERPELADO


Porto, Oporto
Quem te apostrofasse
Em prosa ou em rima
Siza Vieira e Viana de Lima.

Porto, Oporto
Quem te exclamasse
No júbilo ou na mágoa
Campolindo e Arca d’Água.

Porto, Oporto
Quem te afiançasse
Os muros, as redes
Furadouro, Entreparedes.

Porto, Oporto
Com apenas duas avenidas para mostrar
Oh, mas ambas levam, a descer, até ao mar
Olha a pérgula, olha a rede, olh’ó castelo
Olha as praias [que lindo], as ondas a chafurdar
E revoadas d’areia para a gente se espojar
Olhos semicerrados, papo a torrar
Sol na tanga e no sutiã
Língua da sogra, bola de Berlim, curassã.

Porto, Oporto
Dos toldos vermelhos das churrascarias
Descaídos como pálpebras capotadas
Ou intenções mal amparadas
Batata frita oleada, febras, entremeada
Chiam os frangos a rodar, a virar, a rodar.

Porto, Oporto
[Alguém cisma num eléctrico para S. Mamede]
Das casas embrulhadas em azulejo
Da tanta janela para tão pouca parede
Da luz que foge, se aperta e refulge nalgum brejo
Calçada em Santa Catarina, descalça na Cordoaria
Espreguiçada, ouro e mica, na baixela da foz do rio.

Porto, Oporto
Por onde pairas agora?
Quando o silêncio goteja
E o nevoeiro - algodão doce enregelado
Se demora nalgum degrau de igreja
Atravessado, encolhido, enfastiado
Como um pombo num beirado

Porto, Oporto
Dos mânfios de sapato afiado por engraxador
Cuspinhando o chão enquanto trepam a rua
Apressados, gabardines a pairar os ombros
Como a fumaça das castanhas em Novembro.

 Porto, Oporto
Dos arrumadores a mancar, a limpar, a esbracejar
Pensos rápidos e lenços de assoar
Das putas da Alegria, dos chulos na Bolsa
Dos condutores de braço em riste
Extravasando a janela, indignados,
Vociferantes “que foi, nunca viste?”
E outros que bem gostariam
De se pronunciar
Mas fugiu-lhes a lábia entredentes
Lá em Paranhos, em Agramonte
Na Lapa, a Pradorepousar
Os mais alternativos a fumegar...
Olha a lápide, olha a vela, olha a jarrinha
Endireita-me esse molho de cravinas
Adeus, mãezinha, Deus seja contigo
Pró ano trago uma renda nova pró jazigo.
E cá por fora, ainda fora, ainda à tona
Tanta perna, tanta nádega, tanta cona
A passejar, a rebarbatar, no arejo
A relembrar que um dia cá por cima
É um bom dia, um bom dia – Salvo seja!

Porto, Oporra
E se te fosses foder?
Mai’lo teu regionalismo tacanho
Sempre na comparação do teu tamanho
Resmungando remoques contra a capital
Que guarda para si todos os favores
Um concentrado de régulos e regedores
Olha quem fala, olha quem cala.

Porto, Oporto
Não cheira a rosas na Areosa, mas
Olha a Rotunda, como está agora
Um diamante deitado
Cravejado no asfalto
À entrada da avenida...
Tal e qual como lá fora.
Marafona rebrandada e lúbrica
A nossa casa da Música
É que nem o centro cultural, mas ainda mais
Mundial, toda em vidro, metal, cimento
Que presença, engenheiro, que argumento!
Sim, pode recuar – mais, mais – tá no ponto
Não se rale do tiquê, estou aqui até às oito.

 Porto, Oporto
Alho porro, manje-rico
Bacalhau empunhetado
Abrilhantado, enfarruscado
Equinócio, soles-tício
Vespertino, matutino
Desnorteado, orientado
Invictório, mictório, romaria
Bem criado, malcriado
Resposta pronta à vossa espera
Hoje é sempre a véspera do dia
Em que ali regressarei.

© Porto Unnamed, Fotografia de Maria João Pinto Basto.

18 novembro 2018

09 novembro 2018

ICH WEISS NICHT WAS SIE SAGEN (Não sei do que estão a falar)

Embora afirme ter mais de trina anos de “vida pública”*  José Silvano (secretário-geral do PSD) parece desconhecer algumas regras que norteiam essa mesma função, pelo menos para os vulgares mortais que nela trabalham. Aqui, na função pública, o que acontece a quem faz o que fez, é ser sujeito à instauração de processo disciplinar por – alegadamente, não posso esquecer – ter falsificado um registo de assiduidade e por ter lesado o chamado erário público ao receber dinheiro que não lhe era devido. As consequências podem ir da falta injustificada à suspensão ou expulsão da função, depende.
Mas o senhor parece não só ignorar o enquadramento do que, repetidamente, praticou mas, numa “relação dinâmica entre eleito e eleitores”, para parafrasear Fernando Negrão, líder parlamentar do PSD, ainda tenta convencer os parvos de que é alheio a quem marcou presença por ele, como se vulgar fosse contar com um anjo da guarda que vela e se apressa a pôr a cruzinha no registo, mesmo sem que lhe seja pedido. Ó mundo maravilhoso: ele nem queria, mas alguém que conhecia a sua palavra-de-passagem o fez... “Não, não faças isso, podes-te prejudicar, podes-me prejudicar...”, admite-se até que possa ter pensado, infelizmente tarde demais. É lindo, assistir a esta partilha, esta solidariedade nos apertos da chatice de ter de estar no emprego para receber um subsídio de presença.
E aquilo que é, para o rebanho, motivo de sanção, torna-se, para as rarefeitas personagens que nos gerem e representam, uma “mera questiúncula”, um  pormenor que diz somente respeito aos serviços administrativos da Assembleia da República. Ele, José Silvano, o próprio, magnânimo, já mandou, inclusive, pedir que lhe marquem as faltas, vai devolver o dinheiro recebido..., que “é também isto a democracia”, como logo inferiu Negrão.
Alegremente, Rui Rio, vai assinando por baixo, desvalorizando, mantendo confianças, dando tiros nos sapatos e conduzindo mais fundo o PSD na insignificância em que se encontra.     
* Alguns cargos exercidos por José Silvano segundo o site da Assembleia da República:
Comissão Eventual para o Reforço da Transparência no Exercício de Funções Públicas [Coordenador GP na Assembleia da República] / Presidente da Câmara Municipal de Mirandela / Presidente da Assembleia Municipal de Mirandela / Provedor da Santa Casa de Misericórdia de Mirandela / Presidente da Assembleia Geral das Águas de Trás-os-Montes / Deputado da Assembleia da República / Presidente do Conselho de Administração do Hospital Terra Quenta, S.A. / Presidente do Conselho de Administração do Complexo Agro Industrial do Cachão / Presidente da Associação de Municípios da Terra Quente Transmontana / Presidente do Conselho de Administração da Empresa Resíduos do Nordeste / Diretor Executivo da Agência do Desenvolvimento Regional do Vale do Tua / Presidente do Conselho de Administração dos Serviços Municipalizados de Mirandela / Presidente do Conselho Local da Ação Social / Presidente do Conselho Local de Educação / Presidente do Conselho de Administração da Escola Profissional de Arte de Mirandela / Presidente do Conselho Fiscal do Sport Clube de Mirandela / Membro do Conselho de Administração do GAT.