22 maio 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 21. Temporariamente suspenso

Na terça seguinte, pelas onze, uma hora após o helicóptero no qual teria regressado a Santa Cruz se tivesse optado pelo transporte regular, ter partido recebi um telefonema do Sr. Araújo.
“Recebi uma encomenda especial da Terceira; querem dar um salto até aqui?”
Desliguei e dei lume a um Goldflame, a ganhar tempo. Conforme a perigosidade, costumava sentar os doentes ou a meu lado (baixa perigosidade, exemplo: D. Crisália) ou em frente a mim, a secretária a servir-me de zona neutra. Naquele momento tinha, do lado de lá da mesa, sentada a D. Hirondina, um caso difícil, uma dama de meia-idade completamente viciada em barbitúricos, dependência de que, coitada, nem se dava conta, a não ser nas minhas tentativas de a fazer descolar daquele hábito. A Dona Hirondina padecia de insónia, insónia crónica, e a  geração de colegas que me antecedeu, segundo a verdade científica das décadas anteriores, receitaram-lhe barbitúricos, um medicamento que, como vários outros, provoca dependência e tolerância, isto é, não só agarra insidiosamente a pessoa – que passa a não passar sem ele – como o tomador necessita de ir aumentando a dose para obter um efeito parecido ao que obteve inicialmente. Ora acontece que uma dose excessiva de barbitúricos pode matar, veja-se o sucedido a Marylin Monroe ou Judy Garland, que se passaram para somewhere over the rainbow(1) graças a eles ou, falando de gente mais nova, Jimi Hendrix ou Brian Epstein, o carismático empresário dos Beatles, a quem sucedeu destino semelhante. Todas estes mortes se passaram entre 1962 e 1970, o que mostra que até o modo de morrer tem as suas modas e, no caso da D. Hirondina, fazia supor que ela tomaria aquilo há mais de dez anos. Pois eu andava a tentar fazer-lhe o desmame com novas substâncias que, embora igualmente um tanto viciantes, acarretavam um menor risco de lhe curar a insónia de vez e de que eram exemplos o Somnium ou o Rohipnol. Mas sem grande sucesso, diga-se, pois ao fim de uma semana, ou menos do que duas, ela voltava a aparecer-me na consulta expondo nas mãos trémulas caixas vazias de Somnifen ou Luminal e ganindo de abstinência como um personagem de tragédia grega.

Estava num desses confrontos de impasse quando o telefone tocou e era o Araújo.
“Dona Hirondina”, acabei por dizer, esmagando o resto do Goldflame no cinzeiro, “vou pedir-lhe que tire o seu chapéu e os seus sapatos e se deite ali na marquesa por um bocadinho. A irmã Noémia virá aqui ver como está a sua tensão e o seu pulso... Eu volto já.”
E vazei, atravessando o corredor, cheio de clientes àquela hora, para bater à porta do Rui e, em pose profissional, lhe comunicar que devíamos ir de imediato aos CTT, onde éramos solicitados por uma ocorrência. O Rui, grave, levantou-se e, sem despir a bata, enfiou o estetoscópio no bolso e seguiu-me em direcção à porta principal do hospital.
A sede da estação dos Correios é do outro lado da rua e chegar lá é equivalente a atravessar um salão grande, pelo que cedo nos achámos conduzidos pelo funcionário que atendia ao balcão ao gabinete do responsável máximo. Logo que entramos, o Araújo levantou-se do monte de papéis que consultava, dirigiu-se a uma estante metálica cheia de listas telefónicas de onde extraiu, a uma porta vertical que ocupava toda a altura do armário, um par de garrafas, uma das quais de meio-litro e com o formato de um cantil. Eram ambas Ballantine’s e a grande acondicionava 75 cl de whisky envelhecido ao longo de dezassete anos!
“Esta fica para logo à noite, em minha casa, estão ambos convocados – é demasiado preciosa para ser deixada aqui!”, anunciou o Araújo enchendo três pequenos copos do precioso líquido cor de chá gelado. E tal se fôssemos os três mosqueteiros, cruzando floretes, entrechocámos os copos, emborcámo-los duma só vez e saímos de regresso às consultas temporariamente suspensas.
Depois do jantar, abdicando do habitual café no Açucareiro, pois era plausível que esse complemento nos aguardasse em casa dos Araújos, atravessámos o Rossio e penetrámos na parte distal da vila, onde o chefe da estação dos CTT habita com a família. Connosco arrastáramos a Libinha e uma das filhas dos Barcelos, que, lançando despedidas apressadas à Dona Nizalda e ao D. Francisco, abalaram na nossa companhia mal o genérico final do Dancing Days começou a deslizar no ecrã da TV.
Considerados hóspedes de cerimónia, éramos sempre recebidos na sala de estar, uma sala fresca com varandas que deitavam para a rua e enroupada com mobiliário de verga e bambu, após o dono da casa nos vir receber pessoalmente à porta, sistematicamente acompanhado dos enormes olhos da Leninha, a filha mais nova, que nos fitavam como se tivesse ali chegado a sétima maravilha do mundo e, apesar de sermos já figuras crónicas na ilha, para quem mantínhamos incólume o estatuto de new kid in town. Esta Leninha, que eu supunha chamar-se Helena mas sem a coragem de o confirmar por pergunta, pois naquela latitude era possível que o encantador diminutivo escondesse uma “Elisandra” ou uma “Heliodora”, esta Leninha teria os seus onze ou doze anos e usava um cabelo curto que lhe realçava o tamanho dos grandes olhos escuros e um nadinha salientes, herdados do pai. Estava naquela precisa idade ou, melhor, vivia aqueles breves dias em que as expressões, movimentos e gestos se sucediam intercalados, ora revelando a infância ora deixando vislumbrar a grácil senhorinha que espreitava nela por todas as frinchas da curiosidade e da sedução. Ainda não tinha formas, coitadinha, ou sequer volumes apenas perceptíveis de perfil, mas já se experimentavam nela as feminis graças, visíveis particularmente quando, muito compenetrada e feliz por a terem deixado sair, caminhava pela álea saibrada do Rossio entre as outras raparigas da terra.
Para grande divertimento do pai, que o via claramente, a Leninha deixava-me sempre sem jeito, pois a sua preferência por mim era evidente como um terçolho e, sabendo que o principal interlocutor entre os médicos e as restantes pessoas presentes na sala, seria o pai, sentava-se-lhe nos joelhos, de modo a poder observar em primeira demão o que lhe diríamos, e como se, estando ali, pudesse desviar parte do discurso para ela.
“Sai daí, franganota”, dizia o Araújo, “olha que já pesas e, mesmo que fosses uma pena, dás-me cabo das pernas com esses ossos todos. Vê se fazes alguma coisa útil: vai buscar-me aquela embalagem que trouxe hoje...”
E a Leninha saltava-lhe do colo como um gafanhoto e atravessava a sala como um coelho, lançando-me um olhar lateral à saída e novos olhares oblíquos quando, mal chegada, depositava nas mãos do pai o Ballentine’s que era mais velho do que ela.
Apercebendo-se de que aquele líquido era o centro da nossa presença e do  entusiasmo geral (até a mãe – embora não o bebesse – lhe soltava considerações falseteadas), a Leninha queria provar uma pinga, amuava um pouco por não lho permitirem e por lhe começarem a chamar a atenção para as horas, pois, em dias normais, já deveria estar a caminho da cama. Protestava, queria saber se hoje não iríamos sair, dar uma volta pelo centro, encetar um saco de pevides de abóbora no Açucareiro.
“Já viram esta?! Doutor”, requeria o Araújo para os meus lados, “tem de receitar um xarope qualquer a esta rapariga; fica a regular um pouco mal quando os senhores nos vêm visitar, e até confunde os dias da semana...”
Exposta com esta crueza, a Leninha indignava-se, olhava na minha direcção como se eu pudesse contribuir com algo que solucionasse a questão ou a redimisse. Mas eu, confesso, não sabia como situar-me, bloqueado entre o registo com que se espera que um adulto trate uma criança e o respeito pela fragilidade delicada das metamorfoses da rapariguinha. Os meus modos acabavam por se lhe render e, num comportamento pautado por uma timidez que não me era associada, encarava em total seriedade as suas manifestações e discurso. E é óbvio que ela, como um broto de planta que adivinha cegamente de que lado vem a luz, se apercebia desse meu cuidado, o qual acabava em redobramento do fervor com que me presenteava.
Como aquelas pessoas que estragam um ambiente, e nos fazem pensar duas vezes antes de nos dirigirmos aos desagradáveis locais onde é forçoso encontrá-las, aquela ponta de espargo produzia em mim um efeito semelhante, embora de uma polaridade oposta, doce e terna. Em extremidades opostas do espectro feminino, como guardiãs das portas daquele mundo que eu pretendia longínquo ao longo dos longos doze meses na ilha, a Leninha e a irmã Noémia eram as minhas assombrações, mas, enquanto o perigo representado pela freira, agora que o nosso entusiasmo com o coro da igreja Matriz esmorecera, se limitava aos escassos metros quadrados do perímetro de um círculo com epicentro na urgência, a sílfide dos CTT esvoaçava por toda a ilha e, mal nos via aparecer, apressava-se na nossa direcção e não mais nos largava, dando voltas sobre si mesma e sobre o contexto até conseguir colocar-se ao meu lado nos passeios, para cá e para lá, que dávamos em torno do Açucareiro, do Rossio e dos pauis. As outras, com quem costumávamos caminhar, pareciam não se dar conta destes malabarismos de posicionamento ou, se o davam, não lhe atribuíam importância ou talvez considerassem que eu, o visado, não lhe concederia valor de mercado ou, porventura, não desse até fé da existência de uma tal criançola, praticamente saída da mudança de dentes.



(1) Da canção “Over the Rainbow”, de Arlen-Harburg, um dos temas musicais do filme O Feiticeiro de Oz, realizado por Victor Fleming em 1940 e cuja protagonista principal é Judy Garland.

18 maio 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 20. Blue Alert

Cidade de Angra do Heroísmo, ilha Terceira.
Dormi como uma pedra, mas acordei cedo, como sempre acontece quando me embebedo. Zunia-me a cabeça mas pela janela entrava uma luz esperançosa e, sendo ainda hora do pequeno-almoço, resolvi levantar-me, ir dar uma volta pela cidade. Mas aquela luz toda revelou-se ilusória: apesar da claridade, chovia, uma chuva fraca mas persistente, que já pingava da folhagem desmedida dos fetos arbóreos e dos guarda-chuvas de quem se aventurava no jardim.
Dei lume a um cigarro, voltei a deitar-me e tentei conciliar o sono, mas interpôs-se a especulação sobre o que seria feito do maluco do Caminho de Manuel Gaspar. Por esta hora – tinham passado mais ou menos vinte e quatro horas – já o gajo devia estar arrefecido nos ímpetos à custa da martelada química dos neurolépticos, mais um dia ou dois e podiam retirar-lhe as algemas com o alívio de quem vira um bolo recém-saído do forno sobre o prato onde vai ser fatiado e comido; deixaria de ser perigoso e devolvê-lo-iam à ilha natal com um  certificado de garantia, válido por período indeterminado. Voltei a rever o seu olhar malsão, agarrado a mim durante toda a viagem de helicóptero, iria demorar até que essa memória ganhasse tonalidade neutra e deixasse de me incomodar como agora.
Pelo almoço fui tomar o pequeno-almoço num café da baixa de Angra. Um ventinho limpara as nuvens e um sol, tímido e já quente, lambia as pedras molhadas das calçadas e devolvia o brilho aos edifícios. Angra é uma cidade muito bonita,  cheia de cor e não tão a preto-e-branco como a capital dos Açores, e a cidade acolhe e abraça o mar, ao invés de Ponta Delgada onde o mar passa rente e paralelo à cidade mas esta não lhe admite intimidade e recantos. Entrei numa livraria onde encontrei A Peste, do Camus. Já o tenho pelas estantes do Porto, mas fiquei tão agradado de o ver entre manuais escolares e almanaques que o comprei sem pensar. Depois entrei numa agência de viagens, talvez me soubessem informar os horários dos barcos mercantes entre as ilhas. Não sabiam, dedicavam-se somente a excursões e voos de avião, fiquei a perceber – embora no momento a informação não me interessasse – que havia mais aviões para Lisboa do que supunha. Para além dos voos domésticos da TAP há os grandes bichos transatlânticos que, três vezes por semana, voam dos Estados Unidos e do Canadá, fazem uma breve escala técnica nas Lajes e, umas duas horas depois, pousam em Lisboa antes de continuar Europa adentro.
No porto disseram-me que chegaria durante a tarde um navio que, vindo de S. Miguel, fará a rota do grupo ocidental até às Flores. Partiria nesse mesmo dia, à noite, pelo menos era o costume. Quanto a uma eventual boleia teria de falar com o comandante do barco, o transporte não era coisa que estivesse protocolada ou sujeita à decisão de terceiros. Voltei ao hotel e, por entre o quarto e as salas de estar, aborreci-me até à hora do jantar, e quando o Paulo bateu à porta do quarto com uma camisa e uma jaqueta curta, axadrezada e com carapuço, agradeci e disse já não precisar pois decidira regressar, hoje mesmo, à Graciosa. Ele olhou-me, interdito, após o que aconselhou:
“Ao menos leva o casaco, olha que se está a levantar uma ventania... Depois devolves-me, quando voltares cá ou eu for lá visitar-vos. Vais de barco? Quem me dera...”
“Não sei se vou, vou tentar.”
Cais de Angra do Heroísmo, ilha Terceira.
Jantámos cedo, só os dois, e o Paulo acompanhou-me ao porto, fizemos o caminho em silêncio, mãos enterradas nos bolsos e cabeças viradas ao chão para enfrentar a força do vento que, no cais, revolvia a água contra as pedras, chocalhava os pequenos botes e borrifava quem tinha de andar por ali.
Ao contrário do que esperava, o capitão não era um tipo barbudo, enfarpelado numa farda de brancos e dourados, e não usava sequer boné. Como o resto da tripulação, era um tipo novo, informal e todos pareciam andar por ali como se andassem noutro local qualquer, num ambiente geral um pouco caótico e nada planeado. O Paulo estava já a adorar tudo aquilo e, no início da entrevista, o capitão chegou a pensar que ele iria também. Em princípio não estavam a pensar fazer escala na Graciosa, mas podiam deixar-me ao largo, pela madrugada; seria uma questão de ligar para lá, pelo rádio, para que um escaler fosse tratar do meu transbordo. Senti-me um fardo.
“Não temos é onde o deitar, Dr., mas pode passar o tempo connosco na sala dos oficiais. Há para lá uns sofás...”
Pareceu-me maravilhoso, adorava a ideia de ir andar de barco uma noite inteira. Até à data, a viagem mais arrojada que fizera consistira em atravessar o Tejo de cacilheiro.
Já quase amanhecia quando vi aproximar-se ao longe a Graciosa, uma mancha escura, com aspecto desabitado, que foi ganhando nitidez de detalhes à medida que nos aproximávamos. O navio fundeou ao largo e a rampa do cais da Praia parecia-me tão longínqua como o barco onde chegaram as nossas arcas me parecia então, ancorado no meio do mar. O capitão acompanhou-me à amurada, vigiando a escada de corda com degraus de madeira que estava a ser desenrolada no portaló. Espreitei, as mãos fortemente agarradas à balaustrada. Visto dali, o casco parecia alto como um arranha-céus e a pobre escada um balancé esquecido num jardim de inverno, os últimos degraus a balançar suspensos sobre as águas que se atiravam ao ferro castanho com voraz apetite. E ia eu amarar por ali fora, com toda a gente a acompanhar a descida – uns de cima outros de baixo – e, quando chegasse ao último degrau, teria ainda de acertar no bote, a alternativa a cair ao mar ou ficar esmagado entre o escaler e o navio. Lamentei amargamente tudo quanto bebera durante essa noite, o arrependimento abrangeu até o absinto da noite anterior... Tinha passado a totalidade das horas nocturnas a beber, que era o que mais se fazia na sala dos oficiais. Primeiro vinho, pois eles jantaram tarde e fizeram-me comer outra vez, e depois whisky, um produto tão popular e abundante na zona que bem poderia ser a bebida típica dos Açores. Copinhos e mais copinhos, por entre uns quatro tipos que jogavam cartas e contavam histórias no meio de risadas, tendo-me, a certo ponto, parecido que ou já tinham esquecido a minha presença ou que me tinham absorvido de tal modo que me consideravam um dos seus. Eu próprio me transformara em tal, e já levantava com familiaridade os cotovelos da toalha branca da mesa para, aos tropeços e amparando-me às paredes metálicas e aos abundantes corrimãos, ir dar mais uma mijadela no abafado urinol onde cheirava a gasóleo e asfalto. Ah, barcos era uma cena porreira, por mim passaria a vida naquilo; como será que se faria para ser médico de bordo? A meio da viagem o mar encapelou-se e o meu entusiasmo toldou-se ao tentar olhar pelas vigias e tanto as encontrar ao nível do chão como ao nível do tecto. Estava um pouco enjoado, mas o que mais me impressionava era a volatilidade do que é caminhar sobre as águas. Os meus comparsas tinham-se dado conta do meu assarapantamento e brincavam mansamente com isso, aconselhando a que bebesse mais um copo e comesse mais qualquer coisa, pois o melhor amigo do enjoo era viajar sobre um estômago vazio. Trinquei, sem vontade, uma fatia de bolo de cenoura que me soube a iodo e a petróleo.
No convés, esperando que o escaler chegasse o suficientemente perto para poder iniciar a descida, voltei a sentir-me um pouco melhor, pois o ventinho cortante das primeiras horas da manhã reanimara o meu tolhimento geral. Mesmo assim, gostava de não ter bebido tanto, não havia agora nada a fazer.
“Pode descer quando quiser, Dr.”, despediu-se o comandante, estendendo-me a mão. “Prazer, e quando precisar de outra boleia é só aparecer...”
Essa sugestão de futuro deu-me coragem para ir, mais escorregando do que descendo, avançando por ali abaixo, aferrado às cordas da escada como se já me estivesse a afogar e entaramelando os pés nas travessas de madeira, prontamente ensopadas pela espuma das águas e pelo roçar no casco molhado. Uma breve eternidade mais tarde aterrei no escaler, onde a mão do homem de serviço ao  pequeno motor fora de água me estabilizou na posição de sentado. Agradecido, reconciliado, olhei para cima numa despedida, mas tudo quanto vi foi uma parede enferrujada a começar a afastar-se das minhas intenções.
Na rampa do cais, que consistia agora o centro das minhas atenções, apercebia dois vultos, que subiam e desciam, e uma luz azul que piscava e que, ao aproximar-me, percebi ser o farol do tejadilho de uma ambulância. O Rui fora buscar-me e no trajecto de regresso a Santa Cruz, como se não tivessem passado somente dois dias sobre a manhã em que eu deixara a ilha, confidenciou estar cheio da Dyane e a resolução de passar a usar a ambulância nova como meio principal de transporte.
“Como assim, somos nós que vamos buscar os doentes em mais de metade das situações...”
Era verdade. Quem habitualmente guiava a ambulância era o Nascimento, o Viegas ou, se estava para ali virado, o Sr. Weber, que acumulava com a presidência da comissão administrativa do hospital a de comandante dos bombeiros. Mas, a pouco e pouco, fartos de esperar na Urgência os doentes que, anunciados, não haviam meio de chegar, os médicos foram tomando a iniciativa de os ir buscar a casa, numa espécie de serviço completo em termos de cuidados à população. Essa atitude, inspirada pela luta contra o tédio, lavrara um certo sucesso junto da opinião pública, pelo que passara a ser considerado merecido e habitual o facto de aparecermos no Açucareiro a bordo de uma ambulância, com uma luz azul a rodar no tejadilho. Eram os médicos que vinham tomar o seu café.
  

Nota: O título do texto foi inspirado pela canção "Blue Alert", de Leonard Cohen e Anjani, 2006.

Fotografias, de cima para baixo: 3.ª fotografia, pedro serrano, Cabo Verde, 2013; 4.ª fotografia, fotógrafo desconhecido, Graciosa, 1979.  

16 maio 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 19. A visita da fada verde

Acordei, passava das seis, com a sensação de estar em atraso, para o quê não cheguei a saber. Deixei-me estar na cama, a olhar em volta, a ouvir o rumor de vozes que chegava pela janela, que deixara entreaberta e a que uma corrente de ar muito mansa fazia ondear a cortina como se me chamasse a espreitar.
Lá em baixo, no jardim, desenrolava-se aquela actividade desconexa e frouxa que é própria dos jardins públicos: um casal de namorados, num banco, com o ar  clandestino dos amorosos à solta; um velho que se afastava em direcção ao outro extremo do jardim; duas mulheres olhavam e comentavam os fogachos vermelhos de um metrosídero em flor.
Senti fome e desatei a abrir e fechar gavetas, a ver se encontrava alguma coisa, por lá eventualmente deixada pelo gajo que ali morava, mas sem sorte. Fui tomar um duche, sabendo que no final teria de vestir a mesma roupa, não tinha outra; talvez pudesse, depois, pedir ao.... O telefone tocou, se calhar não tinha a ver comigo mas fui atender ainda assim.
“Paulo! Estava a pensar em ti, meu, e se terias roupa que me pudesses emprestar... Como soubeste que estava aqui?”
“Ainda não deste conta que nesta terra não se passa nada que não se saiba de imediato?! Cheguei e disseram-me logo, na recepção. Olha, como é: queres jantar aqui ou preferes ir fora? Por mim, já estou um bocado cheio da comida, mas, ao menos, morfa-se de graça...”
E o Paulo ficou-se a rir convulsivamente do lado de lá do fio.
“Quem janta mais?”
Ele suspirou:
“Quem janta mais, quem havia de ser? Os tristes do costume; agora estamos aqui eu, o Senra e o Schmutzer... O coiso está para o continente, deves saber pois estás no quarto dele...”
“Sim, o coiso. Olha, será que me emprestas uma t-shirt e uma camisola? Vim da Graciosa a correr, nem tive tempo de fazer mala...”
“Evacuar um maníaco, já ouvi dizer.”
 O Paulo voltou a ter um paroxismo risonho e eu, sentado na cama, enrolado num toalhão de banho, a sorrir-me também ao imaginar a fácies e os trejeitos que corresponderiam àquele gargalhar.
O Paulo Amorim é natural de Vila do Conde, onde mora com os padrinhos numa encantadora quintarola em cima do Ave que inclui uma azenha, mas conheci-o nos corredores da Faculdade de Medicina, onde se passeava, rodeado pelas alunas mais vistosas do meu Curso, como se estivesse ali de passagem ou em revista às tropas. É um tipo muito trigueiro, com uma cabeleira negra, lanuda, que, no seu crescimento, lhe invade de tal maneira a fronte, que é periodicamente obrigado a rapar um centímetro ou dois daquela praga afim de não ficar sem testa e com as sobrancelhas, igualmente negras e abundantes, coladas ao crânio! O Paulo tem, como um ursinho de consolo, uns olhos de azeviche, sempre assombrados por uma estupefação que lhe empresta à expressão um ar estrelado, e havia quem pusesse a hipótese do revirado das suas pestanas não ser natural. Fosse como fosse, o homem não passava facilmente despercebido em lado algum, quer pelo modo como caminhava de pescoço esticado, o que lhe dava uma altivez de ganso, fosse porque podia decidir-se ir jantar e atravessar a pacata sala do restaurante envergando calças brancas, muito justas, e botas de verniz negro, de cano pelo joelho. Sim, podia dizer-se que havia um leve problema de sintonização no Paulo, de que o próprio tinha despreocupada consciência e sobre a qual contaria episódios como se estivesse a falar de um tio-avô distraído.
“Já sabes o que me aconteceu a semana passada? A recepção telefonou a despertar, como tinha pedido; vesti-me, apanhei um táxi e fui para a Praia da Vitória fazer as consultas, como é costume. Eu tenho a chave lá do posto, abri a porta e sentei-me à espera dos doentes. Estranhei não ver ninguém, nem doentes nem funcionários da secretaria, mas, às vezes, chego primeiro que todos e não me ralei. Olha, ao fim de uma hora ali a secar, vim cá fora espreitar para descobrir que era Domingo! Já viste o desperdício?!”
E perante o olhar benevolamente condescendente do Virgílio Senra e os olhinhos vigilantes do Schmutzer, o Paulo torceu-se de riso na cadeira, fazendo tilintar a mesa onde estávamos os quatros sentados em volta dos nossos bifes com molho de pimenta e atraindo a atenção das outras mesas.
À sobremesa, ainda tomado por aquela sensação de férias que me assombrava, comi ananás e prometi a mim próprio que, enquanto estivesse nos Açores e o pudesse fazer, não escolheria outra coisa... Perante a indiferença dos outros gabei o fruto: aquilo não se encontrava em mais lado algum, aquele sabor em que o doce não asfixiava – como no abacaxi – o perfume daquela rodela de um ouro desmaiado.
“Lá na Graciosa vocês não comem disto todos os dias?”, perguntou o Schmutzer na sua voz nasalada e um pouco aflautada.
“Não, nada disto. Comemos queijo de S. Jorge com compota, até à náusea; não há mais nada para sobremesa, nem sequer fruta fresca. É tudo importado do continente e as maçãs que, por vezes, chegam lá parecem refugo que sobrou para um estábulo.”
Eu conhecia o Senra de vista da Faculdade, era do meu curso mas como éramos trezentos e tal e não abancávamos na mesma turma nunca fôramos próximos nem nada nos atraíra. Quanto ao Schmutzer, sabíamos um pouco mais dele, eu e o Rui conhecíamos-lhe até uma irmã, que namoriscara um primo do Rui; estivéramos o Verão de 75 todos juntos em Lagos, no Algarve. Mas, ali, ele parecia-me mudado, como se nos tratasse com uma cortesia distanciada, e o modo como participava na conversa parecia pautado por um qualquer fito vigilante, dir-se-ia que estava a tirar notas mentais. Mais tarde na noite, quando apenas o Paulo e eu restámos por um canto do bar, a beberricar copinhos de absinto, falei-lhe na minha estranheza.
“É, o gajo está assim. Mal chegou, conseguiu ser eleito, ou escolhido, para delegado dos médicos da Periferia; passa a vida enfiado no estaminé do Director Regional... Diz que isto é um sítio de futuro – e aqui o Paulo teve uma nova sezão de riso – e que já “teve convites”; que vai tentar fazer aqui uma especialidade e ficar por cá, ser um senhor e ficar rico... mandar nesta merda toda – olha a grande coisa!”
Encolhi os ombros com tédio, mudei de assunto:
“Já alguma tinhas bebido disto?”, perguntei, levantando o cálice onde brilhava um líquido esverdeado, com uma cor que lembrava elixir dentífrico.
“Não”, confessou o Paulo, “é horrível... Parece anis escarchado, mas p’ra pior.”
Apesar disso, continuámos a beber pela noite dentro, pois a minha surpresa e curiosidade ao dar com a garrafa, inocentemente exposta nas prateleiras do bar, fora desmedida. Estava convencido que o absinto – a famosa bebida da fada verde – era proibido em Portugal, um país onde era tudo mais ou menos interdito, e afinal fora dar com uma garrafa, de produção nacional, num recatado hotel açoriano. Havia uma mística por trás da bebida, ligada ao século XIX e cantada por escritores e poetas como Poe, Rimbaud e Baudelaire, pintada pelos impressionistas... O absinto, dizia-se, era uma espécie de droga destilada em estado líquido, provocava alucinações quando consumido cronicamente, mas o máximo que eu e o Paulo estávamos a conseguir era ficar supinamente nauseados e a incubar uma dor de cabeça que, no dia seguinte, nos bateria à testa sem dó. Entretanto, o Paulo, a quem as desgraças pareciam desencadear o riso, ia-me pondo a par dos pequenos dramas triviais que tinham acometido a nossa tribo de médicos periféricos. Já mais de uma dezena tinham sido devolvidos à procedência por se terem dado mal com o clima.
“Apanhados pelo clima! Apanhadíssimos pelo clima, pelo anticiclone...”, resumia o Paulo, feliz, dando-me uma leve palmada no ombro.
“Pois... A gente, lá na Graciosa, não sabe de nada do que se passa... Soubemos do Saraiva, em S. Jorge, mas foi até por ti!”
“Todas as semanas há uma bronca qualquer, o Porão da Nau anda sempre desvairado, qualquer dia nem tem médicos que lhe acudam ou então andam todos a calmantes! Para nós até é bom, anda tão assustado que assina todas as contas que lhe chegam sem pestanejar. Quem julgas que vai pagar este absinto?”, continuava ele, rodando o copo e olhando com gosto os reflexos verdes, como se fosse imune à peste insular que descrevia.
O “Porão da Nau”, a que se referia, era o nosso patrão administrativo mais imediato e o seu apelido real era Lopes da Nave, um continental com um nome muito apropriado a um contexto tão marítimo, e a quem nós coláramos aquela alcunha, epíteto que se nos infiltrara de tal modo na pele que já acontecera a alguns de nós dirigirmo-nos-lhe, ao vivo, por Porão da Nau. Está claro que o Paulo não se lhe dirigia de outro modo e estou até convencido que já lhe esquecera o nome verdadeiro.
“Pois, agora, a grande esperança do Porão da Nau é o seu pajem Schmutzer; já o envia por aí em missões aerotransportadas, pelas ilhas, a fazer de penso-rápido nas crises...”
“Olha, eu é que precisava de um aerotransporte daqui para fora, mas parece que, pelo lado dos helicópteros, não me safo antes da próxima terça. Já ouviste falar das boleias em barcos?”
O Paulo já ouvira falar disso, mas não sabia pormenores. Nunca saíra da Terceira a não ser de avião, ou num dos grandes para o Continente ou numa das avionetas que faziam ligação a S. Miguel.
“Às vezes vou, nos fins de semana, a Ponta Delgada... Aquilo também é um atraso de vida, mas, ao menos, não morro no mesmo pasmo!”
Antes de nos separamos combinámos que, no dia seguinte, eu iria ao porto, apalpar terreno e que ele iria comigo.
“Perdão...”, desculpou-se o Paulo, educadamente, já próximo da porta do meu quarto, quando uma emanação do absinto o fez arrotar sem aviso, “não estou familiarizado com as eructações desta mixórdia!”
“Deixa, pode ser que ainda sejas visitado pela fada verde durante a noite.”
“Deus te ouça...”, disse ele seguindo pelo corredor fora um pouco em zigzag.