20 setembro 2017

SETEMBRO

Um dia desta semana cheguei à cozinha e encontrei este prato de fruta, arranjado como se vê: uvas, brancas e pretas, maçãs de cores que já não se usam. Foi a Carlota, que trabalha aqui em casa há mais de duas décadas, que trouxe, costuma fazer partidas destas. Sim já faltam alguns bagos nas uvas brancas - é que é difícil resistir por mais que uns segundos.
© Fotografia de Pedro Serrano, Setembro 2017.

30 agosto 2017

UMA QUESTÃO DE COR (reflexões sobre marmelada)

A minha amiga Maria João Pinto Basto escreveu-me a propósito do texto "Marmelada Leiga", adicionando um valioso contributo ao esclarecimento do mistério da cor da marmelada (anémica versus bronzeada). Diz ela que os marmelos devem ser descascados e que o produto resultante da sua cozedura não pode ser reduzido a papa com varinha mágica mas sim usando apenas o passevite. Ah o passevite, essa maravilhosa geringonça com que se fazia puré nos anos 60 e me faz lembrar cinema francês da nouvelle vague e penteados com bicos e muita laca, muita laca. Como achávamos que éramos modernos e que ingénuo e enganador parece tudo isso visto de hoje... Bem, voltemos à marmelada: os fundamentos das considerações da João têm origem numa receita de uma velha empregada da tia do marido, aliás uma ex-empregada pois a tia morreu e a empregada não foi incluída na herança, só a receita.

© Fotografia gentilmente cedida por maria joão pinto basto, porto, 2016





24 agosto 2017

MARMELADA LEIGA (ou de como fazer marmelada sem sofrimento)

Este ano – 2017, o ano de Pedrogão Grande – o Verão vai esquisito, temporão, como se o Outono pretendesse antecipar-se. No Porto, num dos jardins da sede da Ordem dos Médicos, a meio do mês de Agosto o chão está pejado de folhas, tal se Outubro já aqui morasse. Cá em casa, no quintal, os marmeleiros começaram a amarelecer os frutos no início de Julho, nos primeiros dias de Agosto estavam maduros, tive que me decidir a fazer marmelada quando vi um ou dois desistentes, caídos no chão já com as manchas castanho-escuro que prenunciam a podridão.
E no entanto, fazer a marmelada era uma marca que anunciava o Outono, uma rotina dos finais de Setembro, recordo bem a azáfama que envolvia o processo em casa dos meus pais e nós, as crianças, arredados da proximidade, pois o fogão ganhara propriedades de erupção vulcânica e a cozinha transformara-se numa potencial Pompeia. Em volta das panelas, afogueadas, a Tomásia, a Maria, a Belmira ou a Sr.ª Berta, conforme as temporadas, envolviam os braços nus em panos, uma vez que as explosões da massa, que era preciso revolver em contínuo com colheres de pau de grande tamanho, tinha propriedades verticais de arremesso e chegavam a deixar o tecto manchado! Agora imagine-se o que um produto destes, pastoso, pegajoso e fervente não faria à pele dos braços e que tragédia causaria se atingia a cara ingénua e curiosa de um dos miúdos...
Sim, fazer marmelada era um processo perigoso desde o começo, o partir e descascar dos marmelos, um fruto que podia simultaneamente ser duro e escorregadio como rochas cobertas de limo, e em cuja textura rija os gumes das facas gemiam ou escorregavam sem aviso ou demarcação de território. E no final, quando a maravilhosa massa, ainda tenra, já repousava nas tijelas alinhadas sobre o murete ao sul do quintal, devolvendo a luz do sol em tonalidades tijolo e laranja, o perigo transmutava-se nas abelhas e vespas, incrédulas com o tesouro que se lhes oferecia, sedentas, sendo capazes das mais sinceras ferroadas para se manter naquela súbita riqueza. É que, possivelmente, elas pressentiam o sol de pouca dura, pois mal a superfície das tijelas coagulava lá vinha o algodão embebido em aguardente desinfectar a superfície e o retalho de papel vegetal amortalhar a doce tentação. E a cozinha, meu Deus, que campo de batalha, permaneciam despojos durante um dia ou dois! Tachos com rebordos sujos por um asfalto alaranjado, colheres que quase era preciso deitar fora pois resistiam a livrar-se de resíduos e a sua cor de madeira clara ficava arruinada; panos de cozinha directos para o lixo, azulejos a limpar da miríade de salpicos; quanto ao tecto o dano podia ser permanente e a solução teria de ficar para outra ocasião, era um assunto de pintores, quase estucadores, discutido à mesa por uma mãe desolada.
Pois, minhas amigas, o tempo rodou e fazer marmelada tornou-se uma actividade simplificada, sem grandes perigos envolvidos, uma missão que se pode despachar numa tarde de Verão. É, à luz da nova realidade, a receita que vos deixo aqui hoje, pois que uma marmelada feita em casa continua a não ser comparável aos desenxabidos produtos que há por aí à venda nas prateleiras de supermercados ou mesmo das mercearias gourmet.
INGREDIENTES
Marmelos (a palavra vem do latim melimellu, maçã doce como o mel)  – se não os têm no seu quintal procure comprá-los sem manchas na casca.
Acúcar – branco ou amarelo, como preferir, sabendo que o amarelo confere cor mais escura à marmelada. A regra de mistura clássica dos ingredientes é a de 1Kg de açúcar por Kg de marmelo já livre do seu cascabulho (a parte central onde estão as pevides a partir das quais se faz a geleia de marmelo), mas afianço-vos que com uma relação de 1kg de marmelo por 700 a 750 gramas de açúcar se produz uma marmelada igualmente saborosa, na qual o sabor do fruto surge mais sublinhado e que será menos prejudicial à saúde do que a mais açucarada.   
Água – q.b. e numa relação de 0,5 litro de água por Kg de marmelo.
Vai precisar ainda de uma panela de pressão e de facas bem afiadas. Recomendo-lhe que utilize uma faca grande, pois é necessária alguma força/pressão para seccionar os frutos e extrair a zona das pevides.

CONFECÇÃO
a) A casca dos marmelos é revestida por uma penugem que lembra a face da puberdade e de que é preciso livrarmo-nos: faça-o lavando os marmelos em água fria ou escovando-os. Corte os marmelos em quartos, mas mantenha a casca, retirando as manchas que esta possa ter. Recorte a zona central, onde estão as pevides e se acumula a pectina, essencial para a confecção da geleia (se pretende fazer geleia reserve e mantenha esta parte dos marmelos no frigorífico, tapado, ou congele se pensa que vai demorar até recobrar coragem para regressar a este assunto dos doces confeccionados a partir deste fruto).
b) Pese os marmelos e estabeleça a correspondente quantidade de açúcar e água.
c) Deite os marmelos e o açúcar numa panela de pressão, cubra com a água que mediu e mexa o conjunto com uma colher de pau (ou de plástico, não use nunca metal) até o açúcar se encontrar bem derretido e misturado. Feche a panela e mantenha-a em lume brando até que a válvula apite ou silve (20 a 30 minutos). Depois deste aviso sonoro mantenha a panela ao lume por mais 20 minutos, sempre em lume brando. Desligue o lume e deixe que, naturalmente, a panela perca a pressão até se poder abrir. Com a varinha mágica passe o conteúdo da panela até se transformar num líquido viscoso, homogéneo. Mantenha a panela ao lume e, sempre com o calor no mínimo, vá mexendo a massa até que esta atinja uma consistência em que a colher de pau, ao atravessá-la de norte para sul, deixe um momentâneo sulco que recordará aos mais imaginativos a separação das águas do Mar Vermelho quando Moisés o atravessou com a restante trupe. Desligue o lume.
d) Com uma concha de sopa deite a massa de marmelo em tigelas ou tacinhas previamente lavadas e bem secas (modo de evitar humidades ou contaminações que se transformarão em bolores). Deixe arrefecer e, durante uns dias, permita que a marmelada tome uns banhos de sol sem protector, o que a ajudará a secar. 
e) Finalmente, e se quer que se mantenha por bastante tempo, pincele a superfície com aguardente ou whisky ou qualquer outra bebida branca com um teor de álcool acima dos 40º, procedimento que não deixará transmitirá nenhum sabor da bebida à marmelada. Depois cubra-a com um retalho de papel vegetal cortado à medida.
Está pronta a ser comida, embora haja quem a inaugure ainda na fase líquida ou pastosa, lambendo a colher de pau, passando um dedo no rebordo das tigelas ou rapando a panela em nome da luta contra o desperdício.
Nota: Não foi aqui ventilado ou tratado a transcendente questão de como obter marmelada clara ou escura e de como se chega à supremacia branca ou pele-vermelha. Há quem advogue que submergir os quartos de marmelo cortados em água temperada com sumo de limão evita a oxidação do fruto, mas eu, seguindo o método, não consegui evitar que tal enegrecimento sucedesse. Depois, neste mesmo âmbito, há quem diga que os objectos de metal favorecem a oxidação e o escurecimento dos marmelos mas, sendo franco, confesso que não consegui cortar os marmelos usando colher de pau.   


© Fotografias de pedro serrano, 2017.

07 julho 2017

PAUSA



Infiltrado entre o livro e o meu colo
O gato esvaziou seu ronronar
Entortou-se a leitura a tiracolo 
O silêncio paira outra vez no ar





© Mia, fotografia de pedro serrano, julho 2013.

05 julho 2017

VISITATION


Now the dead we have plenty of
Have been rinsed off any flaws
And dressed in the clean
Clothing of memory
Now the dead that we still own
Can peek smiling
At the windows of our story







Traduzido do português (Visitação) com uma mãozinha de Angelina Barbosa. 
© Fotografia de pedro serrano, Évora, 2013.


25 junho 2017

BALADA DA DOIS-TRÊS-SEIS


O presidente decretou medalhar a peixeira
Mesmo que ela não queira
Mesmo que ela não queira

Os mortos na estrada
Sonham a enxurrada
Sonham a enxurrada

A ministra abraçará a bombeira
Mesmo que ela não queira
Mesmo que ela não queira

Os mortos além da curva
Sonham com chuva
Sonham com chuva

Veio gente de fora com incenso e mirra
Nenhuma é precisa
Nenhuma é precisa

Os mortos, além da mágoa
Sonham com água
Sonham com água










19 junho 2017

DE TÃO LONGE, PELA BELEZA (Leonard Cohen & Hydra)

[Este post foi publicado, a 4 Julho 2017, no BLITZ/EXPRESSO,  e pode ser acedido no seguinte endereço: http://blitz.sapo.pt/principal/update/2017-07-04-Uma-visita-ao-santuario-de-Leonard-Cohen-na-ilha-de-Hydra]

Cinema ao ar livre de Hydra, Grécia.
Por sobre o muro, a copa da árvore espreitava delicadamente a parte superior do écran do cinema ao ar livre, pertença do cineclube de Hydra. Dentro de momentos ia ter lugar o visionamento do último concerto que Leonard Cohen dera em vida, a primeira das duas sessões preparadas para as 218 pessoas que tinham vindo à Grécia para o 8.º Meetup em torno de Cohen e o primeiro após a sua morte. Por vezes, Marianne Ihlen, a sua musa mais conhecida, participou nestes encontros.
Esplanada do restaurante Dusko.
Como jantei no Dusko, ali ao lado do cinema, na esplanada que Mister Cohen e Marianne frequentaram ao longo dos anos que moraram na ilha, cheguei muito cedo e pude escolher qualquer uma das 140 cadeiras de assento e espaldar em lona que se alinhavam no espaço vazio. Sisters of Mercy, difundida cautelosamente por uma coluna, garantia-me ter entrado no acontecimento certo, pois na fachada do cinema nada havia que indicasse o que se ia passar no interior; à bilheteira ninguém vendia bilhetes e apenas um homem rabiscava apressadamente SESSÃO PRIVADA num papel fitacolado à porta. Os gregos de serviço apenas sorriram quando perguntei se podia entrar, e não conferiram o meu nome em nenhuma lista nem me obrigarem sequer a pronunciar o santo nome em devoção naquele serão. Noite perfeita, havia até uma lua cheia de Junho no céu.
Marianne Ihlen, Axel ao colo, Leonard Cohen e amigo. Hydra, início anos 60 (© Foto propriedade do Cafe Roloi).
Depois os convidados foram chegando e quem ainda não se conhecia do Café Roloi ia metendo conversa, perguntando-se de onde vinha: atrás de mim, por exemplo, estavam dois argelinos, à minha esquerda sentou-se uma dinamarquesa que devia ter sido uma gata sensual umas décadas antes; à cadeira da fila da frente chegou uma alemã em quem já tropeçara no Krifo Limani, uma das tascas do porto de Hydra e que, pela pose discreta, julguei uma vulgar turista e não um daqueles hippies retardados que se revelavam pelas T-shirts estampadas com títulos de canções, nomes de álbuns ou fragmentos de canções. Num ápice contabilizei um dance me to the end of love, um ain´t no cure for love, dois songs of love and hate). Militavam também na horda de fãs que salpicavam os caminhos e as escadas de Hydra um punhado de concentracionários ostentando na pele a Order of the United Heart, uma tatuagem dos dois corações entrelaçados que mimetizam uma estrela de David e fazem parte da iconografia desenhada pelo próprio Cohen.
Fachada do cinema de Hydra.
O ecrã soluçou com as primeiras imagens e nas mais de três horas seguintes assisti, primeiro surpreso e depois nem por isso, ao que era usual num concerto ao vivo de Leonard Cohen, quando o próprio era vivo. As pessoas batiam muitas palmas, as pessoas eram inundadas pela emoção com que ele lhes chegava ao íntimo, choravam. Mas em algo que está a acontecer em segunda mão?! Sim, sim, no começo foi tudo muito tímido, talvez ainda houvesse no ar uma réstia de cerimónia racional, mas logo, tal ectoplasmas dos espectadores verdadeiros do concerto projectados no pano de lençol, demos por nós a bater palmas ao fim de cada canção; aplaudimos de cada vez que Mr. Cohen tirava o chapéu, cobria com ele o coração e nomeava os músicos e o canto do globo de onde provinham.
O último concerto que Leonard Cohen deu em vida (Dublin, Irlanda) abriu com Dance Me to the End of Love, uma canção que parece falar de amor risonho e eterno quando, de facto, invoca as esfarrapadas orquestras de prisioneiros que eram obrigadas a tocar no trajecto dos condenados para as câmaras de gás e relembra as crianças que ficavam por nascer nas barrigas das mães torradas nos fornos crematórios. Afinal Mr. Cohen era judeu, nasceu quando Hitler subia ao poder, tivera apenas a sorte de o seu Canadá nativo ficar demasiado longe... À minha frente a discreta alemã afundou o queixo na palma da mão, as pontas dos dedos tocando as pálpebras. Era evidente que chorava em silêncio, que lhe sucedia aquilo que L. Cohen provocava em todos nós: o que cantava passava a ser connosco, nosso, ou funcionava como um consolo, uma palmadinha leve no nosso ombro, um “vá, chora que eu estou aqui”. Apeteceu-me bater discretamente ao ombro da alemã, desejei que o argelino não fizesse o mesmo no meu.
Leonard Cohen durante o último concerto (Dublin, Irlanda, 2013).
Ao fim de hora e meia chegou o primeiro intervalo. Despertei e enfiei o casaco que, felizmente, levara comigo: é que subitamente a noite fez-se mais fria. Como outros, vim até à rua espairecer e desentorpecer as pernas; a alemã fumava solitariamente sentada num banco, como se esperasse um autocarro tardio.  
Na breve alocução que nos fizera no início da sessão, Jarkko Arjatsalo – o finlandês responsável pelo site oficial de Leonard Cohen na internet e impulsionador dos encontros em Hydra – informou-nos do programa das festas para o dia seguinte: à 7 da tarde ia ter lugar a inauguração do banco de jardim em honra e memória de Leonard Cohen e à noite, pelas 9, promovido pela Câmara Municipal de Hydra, um concerto com músicos gregos em que seriam interpretadas canções do autor favorito. “Por favor, apareçam”, pediu Jarkko com as vogais sibilando de ‘v’. Mas não era necessário pedir, afinal estávamos todos ali por causa de Mr. Cohen e apesar de sermos demasiados para caber à mesma mesa nas tavernas locais – nome usado na Grécia para referir o que  chamamos restaurantes – não deixávamos nunca de comparecer onde era devido. 
Fachada da casa de Mr. Leonard Cohen em Hydra.
Ainda de manhã... Ainda nessa manhã de Sábado, ao dobrar uma esquina dos atalhos que me levariam a Kamini dera com uma devota sentada num degrau, a coberto da sombra projectada pela casa de Leonard, a ler de um livrinho em voz audível. Passei muito devagar, observando o fúcsia esfusiante da buganvília que trepa da soleira da porta, de modo a não perturbar e a conseguir apreender que a senhora lia poemas de L. Cohen. Não pensava deter-me, mas ao final da estreita rua – onde se passa um burro à arreata em sentido oposto temos de nos coser com a parede – intrigou-me uma mancha rectangular, do mesmo azul profundo do Mediterrâneo, na cal da parede fronteira ao muro do quintal de Mr. Cohen. Ah!, era a placa de que tinha ouvido falar: a Câmara decidira nomear a vereda com o nome famoso de quem ali morara. Ouvia-se, nas tertúlias que mantinham o Roloi aceso de cânticos e conversa até às seis da manhã, que Adam Cohen, filho e herdeiro de Leonard, se opusera a tal ideia. Na esplanada do Roloi havia quem fosse apaixonadamente a favor ou contra a placa toponímica.
“O que quer dizer isto?” perguntei expondo o visor da máquina fotográfica ao rapazito que me servia à mesa sob a latada de agulhas verdes do Pinheirinho, o restaurante de Kamini onde por entre ramagens verdes se avista o azul do mar: OΔΟΣ.
Rua Leonard Cohen (nomeada a 10 Junho 2017).
“Street. Leonard Cohen Street”, respondeu, “em grego, a palavra ‘Rua’ surge antes do nome da rua.”
“Em português também”, contrainformei.
Baixada da casa de Mr. Leonard Cohen (inspiração de Bird on the Wire).
Em Hydra sigo quase sempre este trajecto, convém-me: vou ter ao minúsculo porto de Kamini pelas ruelas e quelhas que partem da parte alta da vila, pois gosto de deitar um olho à casa branca e cinzenta – as cores das casas de Hydra – de Mister L. Cohen, de mirar a baixada enferrujada onde ainda se veem os cálices de porcelana onde outrora corriam os fios telefónicos que inspiraram o primeiro verso de Bird on the Wire; de constatar que caiu no lajedo puído da rua um figo que pertence a Mr. Cohen, que os limões do quintal brilham como lanternas chinesas que alguém esqueceu de soprar e que, pelo contrário, nas laranjeiras não se distingue o verde dos frutos do da folhagem. E, confesso, às vezes sento-me no mesmo degrau onde estava a leitora, a pensar em nada e a descansar das centenas de degraus que já trepei.

Estrada Kamini-Porto de Hydra.
Pode-se chegar a Kamini (ele ia aqui à praia; aconteceu-lhe aqui mais do que um poema, assinou-os como tal) descendo os meus socalcos e regressar ao porto de Hydra pela estradinha marginal, sempre com a segurança de não irmos encontrar carros ou motorizadas ou, sequer, maníacos das bicicletas. Na ilha de Hydra só há burros e mulas por transporte, por isso se ouvem tanto e tão bem os sinos, o canto dos galos ao raiar da aurora, o esfoliar das cigarras, o bramir angustiado dos barcos de carreira que se preparam para deixar o cais. Seguir por aquela estradinha é como viajar numa Yellow Brick Road ou assim, ao fundo da paisagem a linha reconfortante do Peloponeso recorda que um homem não é uma ilha e, entrelinhas, as ilhas que salpicam de pedra o azul profundo, numa delas ergue-se uma diminuta capela à tona da água. A quem servirá? Numa curva da estrada topo com uma construção recente, parece um resto arqueológico em estado novo; um murito de pedra em U onde, ao fundo, espetaram uma travessa de madeira clara. É o banco oferecido por quotização do Fórum de Fãs de Cohen – abrigado por Jarkko no seu site –, consigo inferi-lo da pequena placa comemorativa aparafusada numa das faces exteriores.
O local foi bem acertado, quem ali descansar tem vista para o infinito, poderia estar ali sentado há três mil anos. Vai ser inaugurado logo à tarde, há uma fitinha de plástico raiado em cor de laranja e branco que o ameaça. O presidente da Câmara fará antes um breve discurso, gracejará sobre a burocracia grega que impediu que fosse inaugurado ainda em vida do homenageado; a propósito pedirá um
minuto de silêncio; alguém cantará uma canção de Leonard Cohen e uma outra a propósito dele, romantizando demasiado o filme... A meu lado, apertada pelo magote de gente, a senhora que lia poemas à porta da casa de Mr. Cohen mete conversa comigo, vou-lhe perguntando na língua do bardo o que lia de manhã. “Afinal de onde és?” pergunta.
“Around Lisbon”, respondo.
“Ah, tinha de ser... E olha para nós, os únicos aqui a falar em português! Eu sou de Viana do Castelo...”
É a primeira vez que vem a Hydra e sabe tudo sobre o seu ídolo, tem frequentado o Roloi como uma igreja; deve ter trinta e muitos anos, é desbocada, transborda, e quando lhe revelo que uma das coisas que Cohen escreveu em Hydra foi o poema de Alexandra Leaving, surpreende-me com um:
“Ah, não me fales noutras gajas. Para mim tudo se resume à Marianne, não quero saber mais...”
Sinto o cheiro do perigo no entardecer quente: são quase oito da noite e devem estar uns 35 graus. Demasiado próxima dos meus olhos as costas da T-shirt de um fã – onde se lê like a drunk in a midnight choir – alastram de suor.
“Bem, vou andando”, aviso, “não quero chegar tarde ao concerto e ainda quero passar no hotel antes de jantar...”
“Espera, não vás já, suplica ela, quero apresentar-te o Henning. É alemão e tem umas histórias fantásticas sobre o Leonard...”

E enquanto se move entre os presentes, procurando o tal Henning, vou-me afastando em passo de passeio, sem olhar para trás como aconselha Bob Dylan.
Escolheram para o concerto o largo espontâneo balizado pela fachada do museu e o molhe do porto, mesmo junto ao local onde, de hora em hora, os transbordadores chegam de Atenas e das outras ilhas do Golfo Saraónico. Hoje na viagem para Atenas gasta-se pouco mais de uma hora, mas quando Mr. Cohen aqui veio dar havia barco duas vezes por semana e a ligação demorava cinco horas.
Banco com vista na estrada Kamini-Hydra (© foto de Panagiotis Macromanolis, Junho 2017).
Todos os postes eléctricos de madeira tem um cartaz agrafado, a forma usual de anunciar acontecimentos na ilha. A Câmara mandou vir do continente uma banda de baixo, guitarra, bateria e voz; a cantora interpela a audiência chamando-nos “you guys”, define o grupo como sendo de jazz, anuncia que vão apresentar temas do seu novo álbum e que farão as suas próprias versões de alguns temas do homenageado. Temo o pior. No entanto, o público aguarda pacientemente, tem fé: o recinto está repleto, não há uma cadeira por ocupar, há mesmo gente sentada sobre os velhos canhões que defendiam a ilha dos piratas e dos turcos. Somos centenas e agora há muitos gregos misturados, coisa que não sucedeu nas etapas precedentes dos festejos. A música faz-se ouvir e projectores potentes encandeiam intermitentemente o público com um jacto de cor lilás. 

O tal futuro CD da banda em palco é desinteressante, as composições pouco inspiradas e a voz da cantora formata as canções num padrão que as torna indistinguíveis. Ao final da segunda já tinha visto tudo o que tinha a ver e levantei-me, pois não valia a pena esperar por um milagre quando chegasse a vez às canções de Mr. Leonard Cohen. Na esplanada do Roloi contornei por largo a minha conterrânea, que já ali está sentada – também ela desistiu do espectáculo municipal.  
Concerto municipal em homenagem a Leonard Cohen, Porto de Hydra.
A noite vai prendada e continua de lua cheia. Enquanto subo os 149 degraus que me levam do porto até ao hotel, os mesmos que o homenageado descia diariamente para vir de casa até ao centro da vila, não deixo de ouvir música claramente, como se ainda estivesse no concerto. A vila de Hydra erige-se em anfiteatro, em cascata S. Joanina, entalada entre o mar e as colinas e essa configuração dá-lhe uma acústica maravilhosa. Identifico agora, finalmente, uma canção de Mr. Cohen. É Hallelujah e os jovens músicos não abdicaram de a torcer ao seu gosto pessoal, dão cabo dela na reinterpretação. De qualquer modo... Cheguei à rua do meu hotel, paro para recobrar o fôlego, a música continua a chegar-me com nitidez: First We Take Manhattan. A casa grega de Mr. L. Cohen fica a escassa centena de metros do local onde estou e tal como sucedia em 1967, quando escutava da janela os sons que se tocavam no Dusko, poderia ouvir hoje as canções que escreveu ascendendo no ar como o canto de um bêbado à meia-noite.
Porto de Hydra, Hydra, Grécia, Junho 2017.

 © Texto e fotografias de pedro serrano, excepto quando indicado de outro modo, Hydra (Grécia).