25 outubro 2017

REGRESSO

Bô dixam bai spiá nha terra
Bô dixam bai salvá nha Mãe...
Francisco Xavier da Cruz, "Mar Azul".
Vamos quase em novembro e, por todo este ano, ainda não caiu uma pinga de água no Maio. Enquanto sonha o verde tenro, o solo mantém-se seco, árido, malgrado a vegetação plantada para fixar terras e contrariar a erosão. A poeira é omnipresente.
O Maio é uma das nove ilhas habitadas do arquipélago de Cabo Verde e uma das mais periféricas na lembrança, pois não é capital, como Santiago, não possui o carisma de S. Vicente, os estonteantes contrastes de Santo Antão ou os resorts all inclusive da Boavista e do Sal.
No Maio, o mais notório é a plana monotonia da paisagem que restou de um vulcão depois de extinto e aplanado por duzentos milhões de anos de ventos soprados até ali desde o norte desértico de África.
Nessa manhã de Domingo, pelas dez horas, uma das duas carrinhas Toyota passou pela casa Amarela para nos buscar. A outra, tal como a nossa, andava a levantar pó pela vila de Porto Inglês e a pegar os restantes, pois, ao todo, seríamos uns vinte e cinco viajantes, os mesmos, em versão folgada, dos que tomavam parte no encontro médico que o liceu Horace Silver albergava durante uns dias. O programa desse dia consistia numa excursão à ilha, a qual incluiria uma visita ao centro de saúde e se concluiria com um almoço num alpendre com vista para o mar na residência onde estava hospedada a Maria da Luz, nossa anfitriã e de quem partira a ideia de reunir todos os delegados de saúde de Cabo Verde. Três horas bastariam para percorrer tudo quanto merecia ser visitado, ao que parecia, pois a ilha é pequena: 25 km de comprimento por 15 de largura.
Catados um a um, entre risos e conversas, arrancámos sob um sol abrasador, o astro esquecido de que despontara há apenas quatro horas.
Barreiro, Figueira Seca, Pilão Cão, eu ia reparando no nome de localidades que atravessávamos sem parar e de que a memória apenas retinha uma rua paralisada pelo calor. Entre duas localidades, nenhuma gente, somente aridez e pó e, aqui e ali, uns pés de milho desanimados, que mal ousavam a espiga; algumas verduras domésticas envergonhadas e os perfis magros de vacas e cabras que vagueavam na aspereza de encontrar sustento. Longe a longe, sem aviso, a explosão verde de um arbusto, numa cor excessiva para o leito arenoso e ocre de onde se erguia, fazia insuflar-me o peito com uma inspiração esperançada, como se tivesse acabado de engolir um gole de água fresca.
Há demorados minutos que deixáramos de ver o mar, e até as conversas tinham fenecido sob o calor, quando os meus olhos repararam numa tabuleta anunciando CASCABULHO e logo senti as carrinhas a travar num lugarejo que parecia ser constituído por uma única rua, em cujos becos espreitava a aridez do campo ou o verde empoeirado de uma acácia. “É para sair?” perguntámo-nos. Parecia que sim, e enquanto aguardava a vez de chegar à porta do veículo, chamou-me a atenção uma imensa panela que, no meio da rua, fumegava sobre brasas. Que seria aquilo?
A aldeia consistia numa rua de chão calcetado à mão-cheia, ladeada por casas de piso térreo, sem intervalo entre elas, e a casa em frente à qual, sob um loureiro-rosa em flor, fervia o panelão, pintava-se de azul intenso, amenizado por frontões brancos sobre as janelas. Dei por mim atraído pelo movimento que se encaminhava para a porta da pequena moradia, a ser saudado por um “seja muito bem-vindo” e um convite para entrar. Entrei, os meus olhos notaram a luz violenta que se infiltrava pela telha vã dos compartimentos; fui acenando em volta enquanto progredia pelas divisões apertadas, sentindo que atrapalhava as mulheres e raparigas que se afadigavam com travessas, pratos, talheres e esticavam entre as mãos oleados para cobrir as mesas postas no exterior, sob a sombra, curta mas generosa, do loureiro-rosa. Do interior de uma das janelas da casa um rapazito dispunha sobre o peitoril duas pequenas colunas de som, ligadas a um smartphone cuja música, em volume máximo, contaminava o ambiente e acenava à gente das redondezas. Que seria aquilo, quem seria o insensato que se dispusera a receber, para uma paragem apressada em nenhures, aquela quantidade de gente?!
Ia perguntá-lo a um colega que, como eu, se abrigava do calor sob o beiral estreito da casa quando uma brigada de rapazes nos empurrou para dispor nessa sombra dois ou três bancos corridos que tinham tomado, em empréstimo urgente, à capela local. E estava a festa pronta e a decorrer, e ainda as toalhas de oleado com frutas alegres estampadas ondeavam sobre as mesas, e já uma alma atenta me enfiava nas mãos um caldo fumegante, retirado à panela que rescendia no meio da rua. Era uma canja, amarela como as canjas, saborosa como as do Eça de Queiroz, mas de cabrito e não de galinha, que as cabras safam-se melhor nos terrenos onde parece nada restar para alimentar os seres. Mas ainda eu sorvia a sopa e chupava os meus pedacinhos de carne e já grossas fatias de bolo de aspecto fofo iam sendo trocadas pelos pratos de sopa recolhidos e alguém desarrolhava uma garrafa nova de whisky.
E como tudo se desenrolava e explicava harmoniosamente por si só, bastou-me ver no mesmo enquadramento a dona da casa e a minha colega Hermita para perceber, na similitude dos traços físicos, que assistia ao regresso de uma filha a casa dos seus pais, um regresso partilhado e testemunhado por colegas de todas as ilhas de Cabo Verde,  onde ainda sobrara convite para dois portugueses e um representante da Organização Mundial de Saúde.
Hermita, que conhecera dois dias antes e estava alojada com alguns de nós na casa Amarela, deixara a sua aldeia de sol eterno ainda muito nova para estudar fora. O curso de Medicina fê-lo lá longe, na Rússia, seis anos a milhares de léguas de tudo, de casa, de Cabo Verde; forçada a trocar o clima macio e a morabeza natal pelo frios perenes do leste europeu, pela estranheza da língua e do modo de ser dos eslavos. De temperamento contido, a tudo resistiu sem queixa e voltava agora a casa, a mostrar, sem o declarar, aos seus que triunfara na demanda e honrara os seus. Isso tudo se compreendia, sem necessidade de palavras, no olhar, simultaneamente orgulhoso e feliz, com que a mãe mirava a filha naquele Domingo em que a festa se mudara, levando consigo os bancos, da igreja para a pequena casa azul de Cascabulho.
Nem uma meia-hora teria passado sobre a nossa chegada quando começaram a chamar para as carrinhas, apontando os relógios, anunciando que se fazia tarde. Antes de regressar ao meu assento, contagiado pela correnteza humana, atravessei ainda a rua para ir espreitar, na casa em frente, a avó de Hermita, que tinha feito cem anos por esses dias. “Acha boa ideia?”, perguntava-me o Paulo, hesitante, “não acha que toda esta gente pode significar uma invasão da privacidade da senhora?” Encolhi os ombros, não sabia o que pensar ou o que dizer. Éramos conduzidos por alguém da família e na sala que antecedia o quarto, parentes e vizinhos sentavam-se ao longo das paredes e, não fosse os semblantes sorridentes, poder-se-ia pensar que velavam um ente querido recentemente partido. Quanto ao visitante, este penetrava no pequeno quarto durante uns instantes para cumprimentar a senhora acamada e logo se retirar e, ao apertar a mão seca dela na minha, ao encarar os seus olhos vagos e atentos, riscados por cataratas, achei que visitar a velha senhora encerrava algo do propósito da visita a uma pessoa santificada, abençoada pelos anos e pelo rasto de gente com que presenteara o mundo na parcela de eternidade que lhe fora concedida.  
© Fotografias de pedro serrano, Cascabulho, ilha do Maio, Cabo Verde, Outubro 2017.

        

17 outubro 2017

METESSES FÉRIAS, ESTÚPIDO!

Resiliência é outra palavra para resistência, um modo mais tufado de dizer o mesmo, variação aprimorada no vagar dos gabinetes por quem tem horas a preencher ou quis içar-se a um nicho no mercado dos conceitos universitários.
A ministra da administração interna, que antes de o ser andava pela Universidade Autónoma de Lisboa e por Bruxelas, veio anunciar que as populações deviam encarar as catástrofes com maior resiliência, pelo que  sendo ela professora supomos que terá algo concreto a dizer sobre as diversas maneiras de resistir ao fogo. Penso quase interpretar o desejo comum ao sugerir que Constança U.S. nos deveria proporcionar uma aula sobre como enfrentar o famigerado downburst das chamas, uma sessão prática, ao vivo e de preferência com cobertura televisiva, para que o povo, pusilânime e ingrato, pudesse sublinhar o compasso dos ensinamentos ao ritmo de palmas tribais.
Outro dirigente que, alegadamente, parece apreciar os novos conceitos politicamente correctos é um dos ajudantes da ministra, o secretário de estado da Protecção Civil Jorge Gomes, o qual é de opinião que, perante ignições, o bom do povo deve assumir atitude mais proactiva, isto é tratar de combater o fogo com as próprias mãos nuas, pois o Estado tem mais que fazer. Bem, alguns dos mortos de Pedrogão Grande, e agora alguns outros de Viseu, poderiam informá-lo – se o direito de resposta fosse conferido aos mortos – que tinha sido isso que tinham feito e que nisso mesmo perderam a vida. Querendo usar de compaixão no julgamento, atribuirei as sugestões à profunda ignorância do senhor sobre o país profundo e especificamente à circunstância de uma grande fatia da população dos distritos mártires ser constituída por velhos, aqueles que, por apego e limitação da idade, mais resistem ao abandonar da sua zona de conforto. Alguns deles, como todos sabemos, morreram no seu posto a combater o fogo.

Como, no rol da desgraça, não há duas sem três, sobra uma referência à personalidade que, pedagogicamente irritado, gosta de iniciar a resposta a quem o interpela por um “vamos lá ver...”. Visivelmente maçado pelo inoportuno dos acontecimentos, que o arrancaram ao devaneio do resultado autárquico, o primeiro-ministro assinou por baixo todas as enormidades dos ajudantes e ainda achou por bem acrescentar distraidamente que coisas como esta se vão repetir.
Para quem, como o país, assistia ao que acontecia de lágrimas, terror ou espanto nos olhos – como que estremunhado perante um pesadelo de repetição – esta saraivada de ralhetes por parte dos mais altos responsáveis ganhou os contornos do insuportável, insuportável onde a cereja no bolo (ou a cuspidela no defunto) foi a assunção do desejo oculto de ir “ter as férias que não tive”, dito que expressa bem a indigência mental de quem o proferiu sem sequer dar por isso.
Fotografias de cima para baixo: capa do Público de 17 outubro 2017; foto de arquivo dos jornais.

      

16 outubro 2017

UMA MULHER ARDENTE

Ainda o dia de hoje (16 de outubro) não se pôs e já pesa no currículo da Ministra da Administração Interna a responsabilidade política por um maior número de mortos (uma centena) do que a politicamente atribuível, em 2016, aos ministros da Justiça de todos os países do mundo onde existe pena de morte, excepção feita à Arábia Saudita e ao Irão.
Constança U. Sousa pulveriza assim a contabilidade mortífera de países como o Iraque, o Egipto, o Paquistão ou mesmo os Estados Unidos da América. Apesar da triste contabilidade, a ministra já se apressou – por uma segunda vez em menos de quatro meses – a vir a público garantir que se encontra disponível e apta a abraçar todas as madonas, bombeiros e presidentes de câmara que sobrevivam às chamas nos próximos anos. Vade retro, Kalimero! Uma vez que a senhora parece não conseguir enxergar-se para além dos afectos instantâneos, seria bom que alguém a sacudisse rapidamente do torpor, pois a responsabilidade política é como as inundações – tende a subir de nível se ninguém as estancar.

12 outubro 2017

TUDO O QUE ASCENDE DEVE CONVERGIR

© Sandra & Milena. Fotografia de pedro serrano, ilha do Maio (Cabo Verde), outubro 2017.
Nota: o título  deste post é inspirado no  do livro de contos de Flannery O' Connor Tudo o Que Sobe Deve Convergir.

ENTRETANTO NA ILHA DO MAIO...

 

© Fotografia de pedro serrano, ilha do Maio (Cabo Verde), outrubro 2017.

27 setembro 2017

VOU-TE CONTAR: 72. Notícias de outro país

Quando éramos mesmo pequenos, a minha irmã e eu costumávamos ficar em casa dos meus avós maternos sempre que os nossos pais iam de férias a qualquer lado estrangeiro. Significava mudar de país para todos nós: por eles, que iam até Itália ou França ou ilhas, e por nós, filhos, que atravessávamos a rua e entrávamos o portão em frente para dormir em camas estranhas, sentir portas que rangiam de modo diverso das da nossa casa e ouvir vozes que, embora familiares, não eram as que no habitual se iam despedir antes do adormecer. De manhã, na sala onde a minha avó e a minha tia passavam as horas e onde a Dina vinha saber o que ia ser o almoço, podia ir até à janela e espreitar a casa em frente: dali via a janela do meu quarto, o quintal onde costumava brincar, mas não era a mesma coisa como se estivesse lá. Estava separado de tudo aquilo pela ausência dos meus pais, a própria imagem da casa escapara-se aos contornos de um lar... Habituava-me, agora que estava noutra possessão, procurava uma continuação qualquer para os meus dias e se, porventura, os meus pais, ao fim do dia, conseguiam uma chamada lá do país onde estavam, não me mexia para ir engrossar a gente que cacarejava em torno da mesinha do telefone e continuava, dobrado no tapete do andar de cima, a desenhar castelos e aviões e barcos, sem responder ao esganiço do “Pedro anda ao telefone”, como se nada fosse comigo, pois nada comigo era.
Disso mesmo se queixava a minha mãe no postal que me foi endereçado de Palma de Maiorca na primavera de 1959, tinha eu cinco anos. Alguém mo terá lido, uma vez que ainda não sabia juntar palavras e mesmo que o soubesse não haveria de decifrar a letra da minha mãe ou a do meu pai na metade de baixo do postal. Conseguia sim perceber que eram diferentes e enquanto a da minha mãe se desenrolava em curvas como as flâmulas na torre de menagem dos meus castelos de papel costaneira, a caligrafia acerada do meu pai ia deixando marca na paliçada que ornava as margens do fosso do castelo e protegia o acesso à ponte levadiça. A minha mãe perguntava também – para além de estar desconsolada por não ter podido falar comigo – se me andava a portar bem, e dizia que a Emilinha mandava saudades como se isso me interessasse alguma coisa. O meu pai tinha um amigo chamado Dr. Gonzaga, médico como ele, um homem parecido com o Groucho Marx e com uma engraçada voz, simultaneamente rouca e cana rachada, e às vezes ele e a mulher dele iam passar férias com os meus pais a um sítio. Levavam sempre com eles a filha, Emilinha, uma menina, um pouco mais idosa do que a minha irmã de oito anos, que tocava acordeão e vestiam de espanhola à hora do jantar. Os meus pais, ao regressar e contar os acepipes – digo, as peripécias – das viagens referiam sempre que a Emilinha tinha sido posta a tocar acordeão para toda a gente que estava no hotel ou que ia no barco do cruzeiro e parecia-me que contavam isso como se fosse um assunto que teria sido mais sensato não ter acontecido. Acho que a minha irmã Clarinha ficava mais impressionada com a Emilinha, a sua travessa de espanhola espetada no cabelo e o seu acordeão do que eu.  
A metade de baixo do postal começava com o meu pai a dizer “nada de coscuvilhices”, a perguntar como iam os meus castelos e a dizer que tinham vistos muitos “por aqui” onde quer que isso tivesse sido. Talvez me trouxesse alguns, dizia ele, e era tudo antes dos “beijos” já atravancados pela falta de espaço e a invadir a divisória do postal onde se lia impresso: ESPAÑA – Modelo patenteado n.º 55.464. 
Mas o que me tinha impressionado mais naquilo tudo fora a parte da frente do postal e todas as noites – antes de me apagarem a luz – olhava com terror os dedos retorcidos e enganchados da mulher de chapéu que se podia transformar a qualquer momento num monstro ou assim. O postal, ao contrário dos postais que conhecia, não era uma fotografia e conseguia-se mesmo mexer e passar o dedo pela roupa que ela usava para baixo do pescoço tisnado e para cima dos tornozelos. As saias eram de pano verdadeiro e o corpete um género de tricot rematado com laços brancos, de onde saiam os braços – esses sim desenhados no cartão do postal – que se retorciam para trás. O que quereria ela dizer com aquilo? Parecia poder estar a tocar um acordeão invisível que tivesse atrás das costas... Com cuidado, e quando ninguém estava a ver, tentava levantar-lhe a orla da saia, mas por baixo não havia corpo nem nada, só cola a prender uma ponta de renda branca, ali pendurada como as de papel recortado que punham na ponta das prateleiras da despensa.

23 setembro 2017

DEUS & O DIABO

Em 1989 fui a Barcelona em Setembro, às festas de La Mercè, festividades que acontecem por volta do dia 24 e em que se celebra a Mare de Déu, padroeira da cidade. São as festas mais importantes de Barcelona e durante uma semana as ruas da cidade transtornam-se de gente e agitação e, apesar do cunho cristão, os diabos e o fogo tomam de tal modo conta do ambiente que parece estarmos imersos num excesso medieval qualquer, um desmadre colectivo provocado pela aproximação impiedosa de uma praga apocalíptica.  
Numa loja de antiguidades da parte velha da cidade topei com o conjunto (em madeira) que a fotografia ilustra e que me encantou de imediato. Igualmente de imediato entrei pela loja dentro para  perceber que o preço da peça estava fora do meu alcance. Fiquei tão desanimado com o impedimento que, fraco consolo, pedi ao proprietário para fotografar a estátua, o que ele permitiu desde que o fizesse através do vidro da montra. E assim aqui fica para a posteridade, orlada de sombras, a imagem fotográfica de uma peça que a esta hora jazerá no salão de algum felizardo deste mundo. Reparem na pose indiferente de S. Jorge, que levanta a espada como se fosse forçado a isso pela fotografia e no ar infeliz - de 'que fiz eu para merecer isto?' - do dragão, o qual, com uma mão demasiado humana, se agarra à perna do santo como quem não quer ir embora e, apesar da humilhação, prefere a companhia à solidão dos infernos.

© Fotografia de pedro serrano, Barcelona 1989.


20 setembro 2017

SETEMBRO

Um dia desta semana cheguei à cozinha e encontrei este prato de fruta, arranjado como se vê: uvas, brancas e pretas, maçãs de cores que já não se usam. Foi a Carlota, que trabalha aqui em casa há mais de duas décadas, que trouxe, costuma fazer partidas destas. Sim já faltam alguns bagos nas uvas brancas - é que é difícil resistir por mais que uns segundos.
© Fotografia de Pedro Serrano, Setembro 2017.

30 agosto 2017

UMA QUESTÃO DE COR (reflexões sobre marmelada)

A minha amiga Maria João Pinto Basto escreveu-me a propósito do texto "Marmelada Leiga", adicionando um valioso contributo ao esclarecimento do mistério da cor da marmelada (anémica versus bronzeada). Diz ela que os marmelos devem ser descascados e que o produto resultante da sua cozedura não pode ser reduzido a papa com varinha mágica mas sim usando apenas o passevite. Ah o passevite, essa maravilhosa geringonça com que se fazia puré nos anos 60 e me faz lembrar cinema francês da nouvelle vague e penteados com bicos e muita laca, muita laca. Como achávamos que éramos modernos e que ingénuo e enganador parece tudo isso visto de hoje... Bem, voltemos à marmelada: os fundamentos das considerações da João têm origem numa receita de uma velha empregada da tia do marido, aliás uma ex-empregada pois a tia morreu e a empregada não foi incluída na herança, só a receita.

© Fotografia gentilmente cedida por maria joão pinto basto, porto, 2016





24 agosto 2017

MARMELADA LEIGA (ou de como fazer marmelada sem sofrimento)

Este ano – 2017, o ano de Pedrogão Grande – o Verão vai esquisito, temporão, como se o Outono pretendesse antecipar-se. No Porto, num dos jardins da sede da Ordem dos Médicos, a meio do mês de Agosto o chão está pejado de folhas, tal se Outubro já aqui morasse. Cá em casa, no quintal, os marmeleiros começaram a amarelecer os frutos no início de Julho, nos primeiros dias de Agosto estavam maduros, tive que me decidir a fazer marmelada quando vi um ou dois desistentes, caídos no chão já com as manchas castanho-escuro que prenunciam a podridão.
E no entanto, fazer a marmelada era uma marca que anunciava o Outono, uma rotina dos finais de Setembro, recordo bem a azáfama que envolvia o processo em casa dos meus pais e nós, as crianças, arredados da proximidade, pois o fogão ganhara propriedades de erupção vulcânica e a cozinha transformara-se numa potencial Pompeia. Em volta das panelas, afogueadas, a Tomásia, a Maria, a Belmira ou a Sr.ª Berta, conforme as temporadas, envolviam os braços nus em panos, uma vez que as explosões da massa, que era preciso revolver em contínuo com colheres de pau de grande tamanho, tinha propriedades verticais de arremesso e chegavam a deixar o tecto manchado! Agora imagine-se o que um produto destes, pastoso, pegajoso e fervente não faria à pele dos braços e que tragédia causaria se atingia a cara ingénua e curiosa de um dos miúdos...
Sim, fazer marmelada era um processo perigoso desde o começo, o partir e descascar dos marmelos, um fruto que podia simultaneamente ser duro e escorregadio como rochas cobertas de limo, e em cuja textura rija os gumes das facas gemiam ou escorregavam sem aviso ou demarcação de território. E no final, quando a maravilhosa massa, ainda tenra, já repousava nas tijelas alinhadas sobre o murete ao sul do quintal, devolvendo a luz do sol em tonalidades tijolo e laranja, o perigo transmutava-se nas abelhas e vespas, incrédulas com o tesouro que se lhes oferecia, sedentas, sendo capazes das mais sinceras ferroadas para se manter naquela súbita riqueza. É que, possivelmente, elas pressentiam o sol de pouca dura, pois mal a superfície das tijelas coagulava lá vinha o algodão embebido em aguardente desinfectar a superfície e o retalho de papel vegetal amortalhar a doce tentação. E a cozinha, meu Deus, que campo de batalha, permaneciam despojos durante um dia ou dois! Tachos com rebordos sujos por um asfalto alaranjado, colheres que quase era preciso deitar fora pois resistiam a livrar-se de resíduos e a sua cor de madeira clara ficava arruinada; panos de cozinha directos para o lixo, azulejos a limpar da miríade de salpicos; quanto ao tecto o dano podia ser permanente e a solução teria de ficar para outra ocasião, era um assunto de pintores, quase estucadores, discutido à mesa por uma mãe desolada.
Pois, minhas amigas, o tempo rodou e fazer marmelada tornou-se uma actividade simplificada, sem grandes perigos envolvidos, uma missão que se pode despachar numa tarde de Verão. É, à luz da nova realidade, a receita que vos deixo aqui hoje, pois que uma marmelada feita em casa continua a não ser comparável aos desenxabidos produtos que há por aí à venda nas prateleiras de supermercados ou mesmo das mercearias gourmet.
INGREDIENTES
Marmelos (a palavra vem do latim melimellu, maçã doce como o mel)  – se não os têm no seu quintal procure comprá-los sem manchas na casca.
Acúcar – branco ou amarelo, como preferir, sabendo que o amarelo confere cor mais escura à marmelada. A regra de mistura clássica dos ingredientes é a de 1Kg de açúcar por Kg de marmelo já livre do seu cascabulho (a parte central onde estão as pevides a partir das quais se faz a geleia de marmelo), mas afianço-vos que com uma relação de 1kg de marmelo por 700 a 750 gramas de açúcar se produz uma marmelada igualmente saborosa, na qual o sabor do fruto surge mais sublinhado e que será menos prejudicial à saúde do que a mais açucarada.   
Água – q.b. e numa relação de 0,5 litro de água por Kg de marmelo.
Vai precisar ainda de uma panela de pressão e de facas bem afiadas. Recomendo-lhe que utilize uma faca grande, pois é necessária alguma força/pressão para seccionar os frutos e extrair a zona das pevides.

CONFECÇÃO
a) A casca dos marmelos é revestida por uma penugem que lembra a face da puberdade e de que é preciso livrarmo-nos: faça-o lavando os marmelos em água fria ou escovando-os. Corte os marmelos em quartos, mas mantenha a casca, retirando as manchas que esta possa ter. Recorte a zona central, onde estão as pevides e se acumula a pectina, essencial para a confecção da geleia (se pretende fazer geleia reserve e mantenha esta parte dos marmelos no frigorífico, tapado, ou congele se pensa que vai demorar até recobrar coragem para regressar a este assunto dos doces confeccionados a partir deste fruto).
b) Pese os marmelos e estabeleça a correspondente quantidade de açúcar e água.
c) Deite os marmelos e o açúcar numa panela de pressão, cubra com a água que mediu e mexa o conjunto com uma colher de pau (ou de plástico, não use nunca metal) até o açúcar se encontrar bem derretido e misturado. Feche a panela e mantenha-a em lume brando até que a válvula apite ou silve (20 a 30 minutos). Depois deste aviso sonoro mantenha a panela ao lume por mais 20 minutos, sempre em lume brando. Desligue o lume e deixe que, naturalmente, a panela perca a pressão até se poder abrir. Com a varinha mágica passe o conteúdo da panela até se transformar num líquido viscoso, homogéneo. Mantenha a panela ao lume e, sempre com o calor no mínimo, vá mexendo a massa até que esta atinja uma consistência em que a colher de pau, ao atravessá-la de norte para sul, deixe um momentâneo sulco que recordará aos mais imaginativos a separação das águas do Mar Vermelho quando Moisés o atravessou com a restante trupe. Desligue o lume.
d) Com uma concha de sopa deite a massa de marmelo em tigelas ou tacinhas previamente lavadas e bem secas (modo de evitar humidades ou contaminações que se transformarão em bolores). Deixe arrefecer e, durante uns dias, permita que a marmelada tome uns banhos de sol sem protector, o que a ajudará a secar. 
e) Finalmente, e se quer que se mantenha por bastante tempo, pincele a superfície com aguardente ou whisky ou qualquer outra bebida branca com um teor de álcool acima dos 40º, procedimento que não deixará transmitirá nenhum sabor da bebida à marmelada. Depois cubra-a com um retalho de papel vegetal cortado à medida.
Está pronta a ser comida, embora haja quem a inaugure ainda na fase líquida ou pastosa, lambendo a colher de pau, passando um dedo no rebordo das tigelas ou rapando a panela em nome da luta contra o desperdício.
Nota: Não foi aqui ventilado ou tratado a transcendente questão de como obter marmelada clara ou escura e de como se chega à supremacia branca ou pele-vermelha. Há quem advogue que submergir os quartos de marmelo cortados em água temperada com sumo de limão evita a oxidação do fruto, mas eu, seguindo o método, não consegui evitar que tal enegrecimento sucedesse. Depois, neste mesmo âmbito, há quem diga que os objectos de metal favorecem a oxidação e o escurecimento dos marmelos mas, sendo franco, confesso que não consegui cortar os marmelos usando colher de pau.   


© Fotografias de pedro serrano, 2017.