07 dezembro 2016

THEY REMEMBER YOU WELL: LEONARD COHEN IN INDIA

 O Kemps Corner é uma zona intensamente urbanizada do sul de Mumbai (a antiga Bombaim) e, não fora a extensa área arborizada que se lhe encosta a sul, não veríamos mais do que prédios altos como horizonte e grandes aves a planar no céu pálido. O mar, o mar que anda sempre por perto em Mumbai, não se vê dali, é necessário ainda percorrer umas boas centenas de metros pela Desai Avenue abaixo até lhe chegarmos.
Nos semáforos da parte alta da avenida há homens vestidos como mulheres a pedir esmola e quando o sinal é favorável aos automóveis vão reunir-se ao pequeno grupo de outros homens vestidos de mulher que, sentados, desenham um círculo no passeio adjacente. São prostitutas, são pedintes, fazem parte de uma casta? Um pouco de tudo, estamos na Índia.
Quanto ao terreno arborizado referido, que à primeira vista se poderia confundir com um esquecido jardim público onde as árvores e a vegetação cresceram à mão de um jardineiro distraído, é ali a Torre do Silêncio (Tower of Silence), o local onde os Parsi – uma pouco numerosa mas poderosa etnia de origem persa – dão destino aos seus mortos. Os Parsi acreditam não ser boa prática contaminar a terra, a água ou mesmo o ar, com os restos mortais dos seus entes queridos e, como alternativa para um embalamento até à eternidade, expõe os cadáveres à bondade dos abutres e outras aves de rapina, até que apenas ossos restem na torre circular e sem cobertura onde são deitados.
Foi esta zona da cidade que Leonard Cohen escolheu para habitar durante as suas estadias na Índia, país que visitou, assídua e demoradamente, durante a segunda metade da década de 90 e a primeira da década de 2000. Uma qualquer teoria apressada, baseada em associação fantasiosa, seria tentada a explicar a escolha do local pela omnipresença da Torre do Silêncio, justificando a tese pelo fascínio de Cohen com os assuntos da morte e invocando como argumento as torres assombradas das suas canções... Mas acontece que não foi nada disso e o homem escolheu o local pela proximidade da residência de um mestre indiano em cujos ensinamentos andava interessado. Mr L. Cohen tinha lido obras dele e decidiu que o melhor era ir procurá-lo em carne e osso, hospedando-se num hotel das redondezas que lhe permitisse percorrer a distância dos encontros a pé. Na área havia dois hotéis, quase vizinhos, mas Cohen não escolheu o razoavelmente mais sofisticado Shalimar Hotel, optando pelo Kemps Corner Hotel.
O Kemps é um hotel de duas estrelas, mas pela bitola hoteleira seria mais apropriado chamar-lhe pensão, aquilo é mesmo uma coisa modesta, o oposto do que se estaria à espera numa figura pública de cinco estrelas.
Na recepção, pedi à menina de serviço se podia ver um quarto, perguntei-lhe há quanto tempo trabalhava ali. Que sim, que esperássemos um pouco na salinha ao lado, que trabalhava no hotel há três anos. “Não serves”, pensei enquanto observava o cubículo onde mal cabia o sofá de  outros tempos. Depois chegou um rapaz que nos convidou a subir num elevador onde dificilmente entraria mais alguém. O quarto que nos queria mostrar ainda estava a ser arrumado, havia dois empregados lá dentro que, apressadamente, passaram os lençóis usados e as braçadas de toalhas para o quarto em frente, pois eu perguntara se podia tirar uma fotografia. Uma cama de madeira, estreita, encostada a uma parede, uma pequena secretária de madeira amparada a outra, lá ao fundo a janela por onde tentava entrar uma claridade esverdeada, esbracejando na cortina de tela que tapava a metade superior da janela e o aparelho de ar condicionado encastrado na metade que sobrava. Paredes meias, em frente à porta de entrada, a casa de banho: funda e estreita como o quarto; uma retrete, um lavatório e um bocal de chuveiro a meio de uma parede, com um balde de plástico ao lado, no chão. Era tudo e o rapaz deve ter farejado o meu modo incompleto, pois ofereceu-se para nos ir mostrar um outro quarto, maior, com cama de casal.

O novo quarto ficava, pelos vistos, noutro edifício, pois saímos para a rua, onde voltei a cumprimentar o velho porteiro que saudava quem chegava à sombra do toldo, enfunado em verde e branco, que emprestava um ar levemente festivo à entrada. O novo edifício ficava nas traseiras do anterior, um outro toldo listrado em verde e branco prolongava a continuidade, atenuava a fachada conspurcada. Foi por aí que perguntei ao nosso guia há quanto tempo trabalhava no Kemps Hotel.
“26 anos”, disse.
“26 anos! Como é possível?”, respondi enquanto fazia contas rápidas de cabeça: 2016-26=1990. “Quanto anos tem o senhor?”
“44”, disse ele.
Comentei que parecia ter trinta e, tendo em consideração os anos há que ali trabalhava, sugeri que, se calhar, teria conhecido o – hesitei no termo – escritor e cantor Leonard Cohen.
“A very nice gentleman”, respondeu de imediato, “morreu há duas semanas...” E acrescentou, como que iluminado pelo assunto e levantando um indicador em direcção ao céu, “ficava sempre neste edifício, sempre num mesmo quarto lá de cima, do último andar...”
Quis saber se o poderíamos visitar. Que não, que estava ocupado de momento, mas que era igual ao que já tínhamos visitado no outro edifício.
“Tão pequeno?”, perguntei.
Sim, tão pequeno, era uma pessoa muito simples, passava grande parte do dia no quarto, a ler e a escrever; saía para passear um pouco e ir nadar numa piscina no fim da Warden, o velho, e ainda usado, nome do tempo dos ingleses da Desai Avenue.
"A very nice gentleman”, voltou a dizer e foi à sua vida, pois percebra que o nosso verdadeiro interesse não era imobiliário.
Cá fora, à luz forte do fim da manhã, sob o toldo raiado, o velho porteiro foi mais crédulo e não nos deixou partir sem nos entregar uma página, tipografada nalguma impressora de cartuchos estafados, com as tarifas  praticadas pelo hotel. Apertámos as mãos; “take care”, disse ele na despedida. No final da álea, antes de me dissolver na avenida, virei-me, a olhar uma última vez o toldo azul e branco e dei com ele a seguir-nos os movimentos, a levantar a mão num adeus, quem sabe se um até breve caso tomássemos em consideração o preçário convidativo do Kemps Hotel.
 © Todas as fotografias: ©Pedro Serrano, Mumbai (India), Novembro 2016.

02 dezembro 2016

A TORRE DO SILÊNCIO (Tower of Silence)

Now I bid you farewell, I don't know when I'll be back
There moving us tomorrow to that tower down the track

Leonard Cohen (Tower of Song)

Fica no meio da cidade, a grande mancha arborizada está actualmente situada no coração de um abraço de prédios altos, talvez noutra época tenha sido diferente. À entrada do parque, um tipo sentado ao lado de uma cancela que impede a passagem destemperada de automóveis esboça, por gestos, que o acesso nos é interdito. Como ele não falasse inglês, nem nós hindi, acrescentou: “dead people”. Respondi “I know” e isso pareceu quebrar o impasse e ele, como quem encolhe os ombros, facultou-nos a entrada.
Uma álea asfaltada desaparece entre as árvores, pontuada por bancos de jardim, uma bifurcação surge mais além e desdobra um novo caminho à direita, por ele desce lentamente uma ambulância antiquada. Param um pouco à nossa frente e enquanto me apercebo, pelas letras pintadas na carroçaria, que é um carro funerário, um homem sai do veículo e escreve com giz numa placa afixada à borda da estrada. Depois vão-se embora, rolam em direcção à saída do parque.
Compreendo que vieram deixar um corpo e, pelos outros registos a giz na placa, que já estão mais dois na torre. É aqui que os Parsis – uma etnia de origem persa também conhecida como Zoroastros – expõe os seus entes queridos ao modo de enterramento que consideram o mais perfeito: os seus mortos serão despedaçados e comidos pelos abutres, pois deste modo não poluirão a terra com os seus cadáveres nem o firmamento com o fumo da sua cremação.
O problema é que quase já não há abutres em Mumbai, o crescimento urbano e o uso excessivo de antinflamatórios potentes (como o Voltaren) entre os humanos envenenaram e dizimaram as enormes aves. No céu, lá em cima, volteando no azul, veem-se águias mas não abutres. A comunidade Parsi, essa, está deveras preocupada com o assunto: já são poucos membros e nem os que partem conseguem facilmente fazê-lo do modo tradicional; encaram isso como um mau augúrio quanto à sobrevivência do grupo.

Conseguimos subir até ao cimo da álea mas não mais do que isso, pois mandam-nos retroceder. A torre fica ali ao lado, entre árvores, não se avista, tudo se passa discretamente e só as enormes aves no céu parecem algo excitadas e se vão concentrando por cima de nós, planando sobre os prédios da cidade.


© Fotografias de Pedro Serrano, Mumbai (Índia), Novembro 2016.

26 novembro 2016

24 agosto 2016

OS QUERUBINS ASSÍRIOS

Já deu para perceber que os filhos do embaixador do Iraque em Portugal gostam de se despir em público. Um deles tê-lo-á feito por duas vezes numa discoteca de Ponte de Sôr e fê-lo perante os olhos nacionais na muito pré-arquitectada entrevista concedida à SIC. Foi um gosto ver rapazinhos de dezassete anos (um deles ainda ostentava nos nós dos dedos as marcas deixadas pelos murros que deve ter pregado) a papaguear a lição, tão certeiros nas respostas, tão maduros na análise crítica dos acontecimentos, tão politicamente correctos, mas deixando escapulir no entredito que consideram Portugal um lugar de perdição, onde o álcool é demasiado acessível aos adolescentes, onde menores de 17 anos podem conduzir automóveis diplomáticos, onde raparigas frequentam discotecas em cidades de província... No Iraque natal nada daquilo seria permitido!
Sim, rapazes, estamos de acordo, Portugal é demasiada tentação para o vosso limiar de sensibilidade e uma vez que as diversas ramificações da imunidade diplomática nada deixarão que vos suceda, o melhor é porem-se a andar para lá de Bagdad e levarem o papá junto na mala diplomática. O meu país agradece.
Quanto ao Ministério dos Negócios Estrangeiros português, o costume: pamonhas, é o termo popular mais simpático para categorizar o comportamento, sobretudo no começo dos acontecimentos, antes de o ministro se dar conta que o país estava ao rubro com a ofensa e que o chão onde pousava os pés lhe vacilava. Uma paralisia sempre justificada pelo “não é nós que compete”, o “não podemos fazer nada enquanto... etc.” A reboque da agenda do embaixador do Iraque que, entretanto, publicava comunicados a defender os herdeiros na página da internet da embaixada, apresentava queixa contra desconhecidos, pedia audiências e deslocava-se por iniciativa própria ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. Bela imagem dá a diplomacia portuguesa, a Portugal e ao mundo, onde a notícia já corre em tons de indignação. 

E em nome, supõe-se, da ‘equidistância’ ou do ‘alto interesse nacional’, o senhor ministro não pôde, sequer, telefonar a desejar melhoras à família do agredido. Interrogado sobre o assunto na TV, tentou primeiro iludir a pergunta, respondendo ao lado. Mas parvo é coisa que Rodrigo Guedes de Carvalho não é e logo encostou o suspeito às boxes, insistindo na pergunta. E o importante governante lá teve de confessar que nada tinha feito, mas que se inteira do estado do doente a todo o momento, queremos até crer que o terá em permanência no pensamento, tal como a embaixada do Iraque, onde se reza pelo Ruben diariamente. 
Mas, afinal, o que tem assim o Iraque de tão especial para o superior e enevoado interesse nacional? Petróleo? Ora, pelo amor de Allah, fornecedores não faltam, e vocês já viram o preço a que desceu o barril 

08 julho 2016

COMO QUE A DESPEDIR-SE

Veio cá parar, como a maior parte deles, pela mão do Zé João que, regressado da escola, topava num gato abandonado, pequenino, trémulo e de olhos ramelentos. Depois enfiava-o num caixote de papelão, cruzava o portão com ele e pronto. Nunca nenhum de nós – eu ou a mãe – lhe disse que não, que não dava, que a altura não era boa, a adopção era imediata e sem formalidades.
A Mia veio tapar o buraco da morte da Tangerina, o que me faz supor que, tendo morrido a outra no Natal de 2001, possa ter aparecido aqui em casa em 2002, deveria andar agora pelos treze, catorze anos, uma senhora idade para um gato.
Era uma vadia predominantemente cinzenta, de olhos verdes, uma mancha branca de uma pureza de glaciar entre as patas dianteiras, contrastando em combinação perfeita com o cinza-frio do resto do corpo.
Ontem à noite, perto da uma da manhã, já estava deitado, ouvi miar, como que um chamamento; discreto, nada de especialmente insistente ou desesperado. Levantei-me, desci, ela jazia deitada na pedra do jardim onde na última semana passava os fins de tarde, para depois desaparecer até à manhã seguinte em sítio incerto. Desde que ficou gravemente doente (complot de idade e cancros da mama, que iam sendo operados mas voltavam uns tempos depois na mama seguinte) deixou de querer estar no interior da casa, nunca percebemos a razão. Andava em torno da casa, ia mudando de local à medida que o sol rodava no céu, um dos locais preferidos era a terra sob os marmeleiros, aquecida pelas duas da tarde mas ensombrada pelo túnel do entrelaçado das plantas. Primeiro deixou de comer, mas bebia; depois deixou praticamente de beber, nos últimos dois dias não aceitava sequer a água que lhe estendia numa tijela, para exaspero do dono. Ontem, ao longo do dia, ao vê-la deitada no chão, a cabeça encostada à pedra quente, já sem reagir muito a estímulos exteriores não duvidei que iria durar pouco: um dia, dois dias? Era impossível continuar assim por muito mais, com aquela respiração aflita, aquele olhar triste ausentando-se...
Diz a Carlota que de manhã, ao fazer-lhe uma festa, que levantou a cabeça e terá olhado para ela como que a despedir-se, muito amiga.
Então, ontem à noite, ao ouvir o miado, desci e encontrei-a deitada na pedra do chão perto da porta da entrada. Quando me sentiu perto, balbuciou um pouco, acariciei-a e acalmou. “Mia...” Fez-me impressão vê-la ali, estava a cair aquela bruma nocturna que é tão useira nas praias, à noite. Fui procurar a manta onde ela se costumava deitar na cadeira ao lado da lareira e embrulhei-a nela, sentindo-me indignado com o peso-pluma a que a gata tinha chegado. Embrulhei-a bem, apenas a cabeça de fora, deixou-se ficar sem protesto naquela figura de criança abandonada numa trouxa. Fiz-lhe uma festa, entrei, fechei a porta como quem vira as costas a um comboio que sai da estação.
Hoje, ao amanhecer, estava no mesmo local de ontem à noite, exactamente, embrulhada na sua manta-xadrez, quase parecia que nada tinha mudado e que dormia, não fora as patas traseiras esticadas e a sobrar da manta, o carreiro de formigas que se apressava em direcção a ela como mulheres para saldos.
Enterrei-a num canteiro, sob roseiras.  


 © Fotografias de Pedro Serrano, de cima para baixo: (1) e (2) 2010; (3) 2006.

25 junho 2016

S. JOÃO, MANJERIQUEIRO



S. João, Manjeriqueiro
Fugiu este ano de casa
Foi molhar os pés à praia
Encalhou na maré vasa







© Foto: Pedro Serrano, Hydra (Grécia), Junho 2016.

17 junho 2016

E O DANÚBIO ALI TÃO PERTO...

© Soalho da ponte pênsil em Budapeste, fotografia de Pedro Serrano, Junho 2016.

14 junho 2016

07 junho 2016

13 abril 2016

ESPÍRITO SANTO DE ORELHA

Nota: Será daqui que vem a expressão? Este é S. Bernardino de Siena (1380-1444) numa pintura da época, um Santo famoso pelas intervenções inspiradas que fazia na praça principal de Siena. © Fotografia de Pedro Serrano, Pinacoteca de Siena, Abril 2016.

31 março 2016

VOU-TE CONTAR: 71. NOS IDOS DE MARÇO

A fotografia foi tirada em Leiria a 17 de Março de 1970, tinha 16 anos. Andava no sétimo ano do liceu e, nesse mesmo ano, em Outubro, entraria para a Faculdade de Medicina.
Já nesses dias era usual, por altura da Páscoa, os liceus organizarem aquilo que se chamava viagem de finalistas, o que, então, representava, no máximo, quatro ou cinco dias passados não mais longe do que o Algarve. Mas o liceu em que eu andava (D. Manuel II, que voltou ao seu antigo nome de Rodrigues de Freitas) ou não organizou nada nesse ano ou, se o fez, foi uma saída de tal modo desinteressante (talvez ida a Alcobaça ver os túmulos de Pedro e Inês) ou tão açaimada de regras (estávamos no tempo em que tudo era interdito) que alguns dos alunos do 7ºD, a minha turma, resolveram tomar a cargo a organização privada de uma viagem de finalistas.
Iríamos a Lisboa, essa capital distante e depravada, dois ou três dias, e o planeamento prévio que fizemos resumiu-se a calcular o dinheiro que íamos gastar no aluguer de uma camioneta que nos levasse e trouxesse. Algum de nós, que não recordo qual mas que já deveria ter feito os 18 anos legais, tratou do aluguer do transporte e todos os outros (não mais do que uma dúzia) foram para casa apetrechados com a cantilena comum de que a excursão era organizada pelo liceu e que é claro que iriam professores connosco.
De manhã cedo, num largo não demasiado próximo do liceu para não dar nas vistas, lá apareceu o nosso veículo: uma pequena camioneta que já vira melhores km, o escape vomitando fumo negro e a estertorosa parte dianteira, onde morava o motor, prolongando-se por um nariz a fazer lembrar um jacaré. Partimos, cheios de emoção e vontade de aventura, sem sonharmos onde ficaríamos alojados em Lisboa ou como iríamos entreter as nossas horas. Logo se veria!
Lisboa, nesses tempos, era longíssimo do Porto, a viagem demorava quase meio-dia, a autoestrada desaparecia entre os dedos logo ao sul de Gaia para apenas se voltar a reencontrar já após Vila Franca de Xira; o resto do tempo vogava-se por um país de maravilhas, cheio de meandros bucólicos e contracurvas.
Nova pausa em Leiria para arrefecer o motor, desentorpecer e bater umas fotos em que demos azo cénico ao cunho libertário que nos incendiava; na foto de grupo pode ver-se em primeiro plano, na pose aparentemente mais controversa, o João Fonseca (também conhecido como “o Mexicano”), um tipo muito escuro e feio como um filhote de coruja, mas atraentemente expedito, o suficiente para ter granjeado a admiração comum. Ao lado, enquadrando o meu perfil escuro na sua dança, baila com ele o “Batata” (também conhecido por “Batatinha”), um gordito de quem não recordo o nome usado pelos professores durante a chamada nas aulas. Dos outros todos, só consigo apontar o nome ao Jorge Polónia, hoje professor catedrático na Universidade para onde iríamos entrar seis meses mais tarde.
À saída de Leiria, quando retomávamos a estrada estreita que, como um fio de colar preguiçoso, ia enfiando as terrinhas até à capital, quis a sorte que aparecesse à nossa frente uma camioneta, um veículo de dimensões avultadas e atulhado exclusivamente por elementos do sexo feminino, como muito rapidamente nos demos conta. Deus fosse louvado! Era uma excursão de finalistas, das verdadeiras, com professoras e tudo! Escassos Km foram percorridos até que no grande painel envidraçado das traseiras da camionete desconhecida se juntasse um cacho de raparigas que nos dizia adeus e mandava recados mudos e que, na nossa, para desespero vão do motorista, se amontoasse no para-brisas, em granel, a totalidade dos passageiros, trocando atrevidas saudações que incluíam beijos soprados da palma da mão até além dos vidros e declarações de afecto ousadas a coberto da distância. E um de nós, já não recordo quem, teve a luminosa lembrança de ordenar ao motorista, desgraçadamente à nossa inteira disposição:
“Chauffeur, siga aquela camioneta...”
Em Lisboa, as nossas novas amigas foram despejadas num lar de freiras que havia no exacto local onde a Avenida António Augusto de Aguiar desemboca na Fontes Pereira de Melo, um sítio onde hoje, ocupando o velho edifício a que apenas foi mantida a fachada, se espeta um banco com centro comercial.
Pois muito retornámos àquele cruzamento (logo acima do Marquês) durante a nossa estadia em Lisboa. Em frente, do outro lado da rua, havia um café com esplanada e nós por ali nos demorávamos tentando entrever as nossas beldades. Mas, ai de nós, o contacto era praticamente nulo, pois elas estavam severamente guardadas e o máximo que nos aproximámos foi numa visita de estudo que fizeram à Lisnave, do lado de lá do rio, destino que nos tinha sido soprado clandestinamente por uma delas e nos levou a correr ao Campo das Cebolas, onde o nosso motorista estacionava a camioneta durante aqueles dias e local de encontro oficial para o que desse e viesse.
Da permanência em Lisboa nesses dias pré-primaveris pouco recordo, para além da ida ao estaleiro e das vigílias no café fronteiro ao Lar. Lembro que dormimos numa pensão, barata e terrível, da baixa de Lisboa, um edifício degradado e escuro cujos quartos cheiravam a cediço e a percevejo esmagado. Só depois de os termos alugado (dormimos aos quatro ou cinco por quarto) me apercebi da conotação que então se associava ao Intendente, a zona de Lisboa onde tínhamos ido parar por ser financeiramente acessível, perto do Rossio e do tal Campo das Cebolas onde ruminava o nosso jacaré sobre rodas.
Das fugidias trocas de palavras trocadas com as raparigas da excursão fiquei com o conhecimento de que eram alunas do liceu de Oliveira de Azeméis (ou seria S. João da Madeira?) e guardei o papelinho onde assentara o nome e o telefone de uma com quem chegara mais à fala: era morena, chamava-se Miriam e morava em Cucujães, uma combinação de nome e endereço que tinham para mim um travo exótico, como se ela, com aquele nome pouco comum à época, pudesse ser Americana e residente num qualquer canto da América do Sul, que aquele Cu-cu-jães era onomatopaicamente mais aparentado com um longínquo Cu-cu-ru-cu-cu Paloma do que com uma localidade pacata dos arredores de Oliveira de Azeméis.
Nos meses seguintes visitei amiúde S. João da Madeira e Oliveira de Azeméis, fui também a Cucujães. É engraçado constatar – e só agora o faço – que, tendo arrastado amigos comigo até esse novo polo de interesses, nenhum foi um dos colegas da excursão a Lisboa. Dá a sensação que o entusiasmo deles pelo aprofundar dos conhecimentos que tínhamos feito na capital com as jovens das margens do Vouga, morrera ali, no meio da estrada.
E, no entanto, nesse sul tão próximo havia festas de anos, bailes, aos fins-de-semana, mas ao contrário da clandestinidade improvisada dos bailes de garagem do Porto, aquelas festas eram ricas e espraiavam-se por toda a casa, dava comigo, de prato na mão, numa sala de jantar preparada para o efeito, a conhecer os familiares da festejada, a puxar dos meus modos mais educados.
Depois, sem aviso, ao de leve, os contactos com Miriam e Cucujães esfumaram-se e cada um se perdeu no desenho ao vivo do seu próprio percurso. Sim, lembro-me de manter alguma correspondência com ela, mas dessas cartas não guardo nenhuma nem sei onde se perderam; recordo vagamente que ia passar férias ao Algarve como todos nós fazíamos, a Olhão se a memória... Penso que cheguei a ir lá visitá-la um Verão qualquer...
E, neste mês de Março, mais ou menos pela data em que a conheci, por uma inesperada simpatia do acaso, eis que chega um truz-truz ao Facebook, alguém que se me dirige porque encontrou o meu rasto na net.
“Miriam etc. e tal?”, interroguei-me ao ver o nome completo, pois não me fazia soar nenhuma campainha. “Miriam”, voltei a olhar, isolando o nome dos apelidos de família... E, então, tudo o que aqui conto veio à tona na sua clareza de um dia sem nuvens.    

© Fotografas: Leiria, fotógrafo desconhecido, Março 1970.