26 janeiro 2015

A TIA ZIRINHA MANDOU


A tia Zirinha mandou
Recadou, logo à chegada
Saudades e cumprimentos
Um saquitel de pimentos
Tigelas de marmelada






© Fotografia de Teresa Leão.

20 janeiro 2015

E O CABRÃO QUE NÃO CHEGA...

Ao tempo, queridas amigas, com o mundo agora mais pobre desde que a pobre Filipa... Mas, adiante, que a vida são dois dias e todos eles é necessário fazer um jantar!
Saturada, minha boa amiga? Já não sabe mais o que há-de inventar, as suas impressões digitais estão destingidas de folhear os Doze Meses de Cozinha, os tratados da Modesto, o Pantagruel? E tudo isso para ficar a ver um tipo, que chega com ar já amuado, a suspirar o vosso esforço como quem bufa uma colher de sopa demasiado rodada no micro-ondas? E aquelas noites em que não consegue deixar de achar que o indivíduo se imerge num silêncio demasiado misterioso, distante, frouxo como uma alcova... Adiante, que nem tudo as nossas mães nos fizeram o favor de revelar enquanto era tempo.
Para todas vocês, as desinspiradas dos corredores do Pingo Doce, as que esperam as bênçãos da fluoxetina nas caixas do Intermarché, as que odeiam a montanha de compras da cliente da frente nas passerelles do Continente, aqui fica uma solução simples, rápida e saborosa em que o ronronar da panela de pressão vos fará companhia e descomprimirá até que o cabrão meta a chave na porta...
INGREDIENTES (para 2 pessoas, com direito a repetir no dia seguinte, pois ganha textura e sabor com a passagem do tempo):
1 pacote (500 gr) de lentilhas verdes
750/900 gr de costelas de porco (peça para as cortarem individualmente)
2 alhos franceses, cortados às rodelas
2 cenouras, cortadas às rodelas
1 rodela grossa de chouriço
(azeite, sal e pimenta q.b.)
CONFECÇÃO:
Na véspera esfregue as costelas com sal grosso e deixe-as em repouso.
Ponha as lentilhas a demolhar durante 1 hora em água fria.
Coloque todos os ingredientes na panela de pressão, as lentilhas no fundo, e cubra com água (só até tapar). Tempere com pimenta e um fio de azeite. Meia-hora ao lume na panela de pressão e está pronto a servir.

 (E se ele não gostar, mostre-lhe o caminho da porta...)
© Fotografia de Pedro Serrano, Janeiro 2015.

04 janeiro 2015

AI QUE BOM

Ai Que Bom é um restaurante angolano e aqui fica o menu para quem estiver a pensar em visitar Angola ou para aqueles que, estando por lá, sintam saudades de mergulhar num bacalhau bem português. Os preços, entre 7 e 10 euros, são muito em conta considerando o habitual em Angola. Bom proveito!

01 janeiro 2015

A DÉCIMA SEGUNDA UVA PASSA

Numa das extremidades do quarteirão onde está implantado, no Porto, o Hospital de S. João, foi, há uma dezena de anos, construído um hotel e um pequeno centro comercial. Este tem dois andares, sendo o superior preenchido por áreas de restauração. É no rés-do-chão que se encontra a quase totalidade das lojas, dispostas ao redor de um espaçoso átrio. O átrio é com frequência animado por espectáculos de música, exposições e pequenas feiras do livro.
Terá sido em 2006 ou 2007 que, vindo do estacionamento subterrâneo, entrei no centro comercial e tropecei numa exposição. As pinturas afixadas eram da autoria de doentes internados na pediatria oncológica do hospital e o produto da venda destinava-se a melhoramentos no serviço. Abrandei a ver os quadros e acabei por comprar um deles pelo preço marcado: 20 euros. Segundo a etiqueta, a autora chamava-se Marta L., tinha sete anos e assinava o quadro com um “Marta 007” que nunca consegui apurar se assinalava o ano em que a tela fora pintada ou a idade da artista.
Quanto à pintura, cativou-me de imediato a atenção, pois continha em si aquilo que Picasso referia como a “genialidade da infância”, um dom inato que se vai perdendo com a idade e que ele, quando já maduro e famoso, dizia perseguir. Primeiro havia o azul que ocupava a tela por inteiro, um azul nocturno mas claro como o dia, onde estavam semeadas umas dezenas de estrelas, tão fantásticas na reverberação como as que Van Gogh exagerou nas suas noites. Umas eram douradas e cintilantes, outras brancas e furavam o firmamento. Umas eram pequenas e situadas lá longe, no alto do quadro; outras enormes: uma destas encimava a árvore de Natal sem vaso que ocupava toda a altura do quadro e outra, explicitamente cadente no rasto de guache branco que riscava a noite em movimento descendente, viera, como uma estrela-guia, iluminar a terra e as figuras que ocupavam o rodapé da tela.
Azul, verde, dourado, amarelo, branco, vermelho, preto, prata, púrpura...
Ao nível terreno – ainda assim assombrado pela portentosa noite e pelo pinheiro de natal erguido até ao céu, as bolas vermelhas dos enfeites competindo com as estrelas siderais – estacionava um trenó apoiado em pneus e umas cabeças de rena sorriam, em pose de retrato, para o espectador. Ao lado dos malandros animais, atarefava-se um minúsculo pai Natal que, a um diminuto saco, extraía grandes presentes que se iam acumulando, num luxo de papel colorido e laçarotes inspirados, na base da árvore.   
Aqui em casa o quadro não tem tido poiso fixo, mas este ano foi parar à parede por cima do presépio: fica ali bem, pois assemelha-se a fotografia que tivesse sido pendurada na sala de estar de uma sagrada família de desenhos animados.
Hoje, na passagem de 2014 para 2015, dei por mim a confirmar a extraordinária luz que emite a tela e a descobrir, como sempre acontece quando a olho, novos pormenores na pintura da Marta. Que será feito dela? Sete anos em 2007? Sete e sete são catorze... Quer dizer que hoje em dia já teria telemóvel e amigos no Facebook... Aquilo foi pintado na época em que foi doente da pediatria e um quadro daqueles, com aqueles detalhes, aquelas cores todas, deve ter demorado o seu tempo. Sim, mas os internamentos nas doenças oncológicas infantis podem ser prolongados... Sete anos de idade? Às tantas tinha leucemia, é uma das doenças malignas mais comuns naquela fase da vida... Deve ter passado pela sua dose de cabeça sem cabelo, de sistemas de soros (maiores do que ela) enfiados nuns bracitos magros... Que será feito dela, será que ainda... O quadro não responde, continua a brilhar à minha frente numa alegria eterna e milagrosa como só os natais da infância.
  

(à Dona Luísa e Patrícia)

© Fotografias de Pedro Serrano, Janeiro 2015.

16 dezembro 2014

BELÉM REVISITADA

O menino resolveu fazer uma birra
Mesmo quando era ofertada a mirra.
Jesus, não podes! Olha que chamo o Herodes!
Acudiu a virgem desaustinada
Desenhando o gesto de uma sapatada.
Não quero os Reis Magros, não gosto do Gaspar!
Vociferou o Deus menino a espernear
Levantando nuvens de palhinhas pelo ar.

Adormece a humanidade ao redor
Eis que se ergue uma voz no escuro:
Ó Zé, que fizeste ao ouro do Melchior?
Sossega, pu-lo sob a palha do burro
Informou, sonolento, o carpinteiro.
Agora que temos algum dinheiro
Podíamos passar pelo sapateiro
Estou a precisar de calçado novo
E vi na loja do judeu um camafeu...
Mas o patriarca já se desvaneceu
E no breu, a Virgem, bem desperta
Vai cismando em como está entradote
O seu carpinteiro que, de boca aberta,
Desfia escalas como um serrote.

Vai alta a curva da noite
Quase roseia a madrugada
A estrela-guia pisca, desmaiada.
Esfriado na bruta manjedoura
Deitado em palha aguçada por lençol
E tendo tábuas duras como colchão
O Menino desperta, resmungão
A mãe faz como quem se levanta
Deixa-te estar, que vou lá eu...
Diz S. José enrolando-se na manta.
Serenada, Maria vai adormecendo
Sarrabiscando intenções vindouras
Umas urgentes, outras duradouras
De manhã, desenriçar os nós ao cabelo
Provar as sandálias de pele de camelo...
A fuga do Egipto, a trindade cheia de pó
O burrito, pela arreata de uma guita
E uma voz, longínqua, que debita:
Vá lá, Jesus, tens de fazer ó-ó!
Era uma vez, a filha de um Faraó...

©Fotografia de Ana Rodrigues, 2014.




02 dezembro 2014

AO SUL DAS COISAS


Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Pra que fui visitar a Índia que há
Se não há Índia senão a alma em mim?
                Álvaro de Campos in Opiário

Estendeu o braço por sobre a cabeça, a mão procurou a pera de baquelite que, pendurada da cabeceira da cama, permitia acender a luz do quarto. Não a encontrou, e a memória na ponta dos dedos igualmente não reconheceu o toque envernizado à madeira em que se amparavam as almofadas. Depois, o mundo como que se focou, a linha do tempo e a do atemporal combinaram-se e o sonho deslizou para plano mais longínquo, onde logo se começou a decompor como um mar nevado sob a quilha de um quebra-gelos.
Pela fresta nos reposteiros da janela insinuava-se uma claridade acinzentada, tímida, que mal ousava afrontar a noite ao redor. Sim, lembrava um candeeiro de mesinha de cabeceira, uma tulipa de vidro baço envolvendo a lâmpada, um interruptor... até empurrara pelo tampo de mármore o copo de água para mais longe, precavendo poder virá-lo no despertar estremunhado, comum a uma cama estranha. Chegara ontem. Acendeu-o, levantou-se, foi espreitar à janela.
A praça ainda se encontrava imersa em sombra, mas o seu recorte triunfal já se deixava intuir na escuridão... Deixou-se ficar, quase a espiar de trás dos reposteiros, a surpreender o nascer do sol que, naquelas paragens, tal como o cair da noite, acontecia com brusquidão. E, quando o local em que surgiria o astro apenas enrubescia ligeiramente o horizonte, o mar, antes dos prateados reais, foi ganhando a tonalidade azul-acinzentada de um forro puído pelo excessivo uso dos amanheceres, dos anoiteceres, das palavras que os referem.
We are offering you a room with a view to the bay, sir, so you can see the sunrise over the sea...
Sendo naval, o engenheiro estranhou a observação. Bombaim situava-se na costa ocidental da Índia, no mesmo mar que, umas centenas de milhas a sul, banhava Goa e onde (tão bem o soubera) o sol se punha, com o feérico estendal de uma gema estrelada sobre talhadas de melancia, nas águas, e debutava, a levante, por entre coqueiros estáticos, na espinha quebrada das montanhas. Fê-lo notar ao tipo de casaco branco que o acompanhara ao quarto e que, maugrado o esganiçado do acento, se exprimia em impecável inglês. Este, não se atrapalhou na explicação: tudo tinha a ver com o formato da baía e com o ponto onde estava edificado o hotel.
Um pequeno bote, deslizando rápido, desviou-lhe o pensamento para o perfil dos três homens que, em andrajos demasiado leves para a hora matutina, se amontoavam no barco, um aos remos, os outros fitando a imensidão.
Apesar da ausência do disco solar, a manhã volvera-se nítida como um quadro e na praça fronteira ao Taj Mahal Palace Hotel, nascidas de todas as empenas, beirais e cornijas da cidade baixa, pousara uma multidão de pombas por entre as quais, com o gesto largo de quem semeia, lavrava um homem que as fornecia de migalhas. Sem motivo aparente, as aves, todas à vez e de vez em quando, levantavam voo descrevendo uma parábola colectiva sobre as águas, antes de acalmarem de novo sobre as lajes em que debicavam há instantes. Alheios às sensações que lhe intumesciam a alma como um balão quente, no passeio sob a janela ladeado pelo murete que o separava das águas, alguns vultos iam dispondo o colorido das vestes e das vendas ambulantes para o futuro bulício da manhã. Agora o sol ascendia sobre o mar e o excesso de luz esborratara os contornos delicados da paisagem, amalgamando o silêncio e as sensações numa pasta desinteressante. Voltou para a cama, puxou o lençol até ao queixo e deixou-se ficar, quieto, procurando aquecer os pés e – usando os gatos da memória – tentando agrafar os cacos dispersos do sonho que o despertara.

   Ontem, no itálico prefácio da noite,
   Quando fraquejava a luz ao mar e de
   Seu forro puído, o azul-acinzentado
   Boiando afogueado, enfim se revelava,
   Pousaste leve na minha tua mão esguia...

Em Goa, nem uma semana antes, o hotel, se assim se lhe poderia chamar, fora, por igual, construído à vista de água, mas a sua qualidade de barco era bem mais intensa do que a do luxuoso congénere em Bombaim. Chegara de noite, estafado por uma viagem de comboio que se arrastara o triplo do necessário e, só o percebeu na manhã seguinte ao escancarar as portadas de ripas da janela de sacada, achou-se numa varanda, generosa como um tombadilho, que parecia projectar-se até às águas cintilantes do rio que lambia o outro lado da avenida.
Contagiado pela vista larga, pela luz intensa, pelo fervilhar dos ecos que trepavam da rua, apressara-se no arranjo, desleixara o relógio e o monóculo sobre a cómoda, e descera em busca do almoço da manhã. O restaurante ficava no primeiro andar, uma sala sombria de tecto trabalhado em rococós de estuque pintado em azuis de cauda de pavão, e a luz das janelas chegava amortecida por espessos caixilhos de madeira talhada em arabescos. A sala estava deserta e sentiu-se constrangido pela abundância de criados, mas já se aproximava um chefe de mesa de bigodes escovados que, num português de rotações lentas, lhe propôs estendendo a mão nessa direcção:
– Talvez Vossa Excelência queira tomar a refeição na varanda exterior...
Era mais um terraço do que uma varanda e, pelo chão de tijoleira, havia grandes vasos imitando sapos, profusamente atafulhados de verdes. As mesas, no entanto, contrariando a vastidão do espaço, acanhavam-se ao longo da parede interior. Numa delas, sendo no momento a única ocupada, achava-se sentada uma senhora vestida em claro, e que, por se achar concentrada a bater com o convexo de uma colher na casca de um ovo, não deu pelo leve aceno de cabeça do engenheiro.
Dividido entre o incómodo da proximidade com a desconhecida e o recusar a gentileza do empregado que lhe fazia espaço a uma mesa puxando a cadeira, optou por se sentar à mesa mais distante. Mas a estrangeira parecia ter-se dado conta do incidente e levantara a cabeça, o olhar resguardado pela aba abaulada do chapéu de palhinha.

***
Chegar ao conhecimento com Cecily, pensou muito nisso depois, tornou-se uma inevitabilidade, como um caminho que não poderia levar a outro destino.
Na segunda noite, ao entrar na sala de jantar, deu com um pequeno motim de empregados no centro do qual girava uma cabeça loura que, de menu na mão, se tentava fazer explicar.
– Posso ajudar? – Perguntou ao passar, e a voz provocou silêncio no linguajar que se tecia em torno da hóspede; um dos empregados fazia-lhe já lugar à mesa da desconhecida afastando uma cadeira para trás.
– Queira desculpar – pediu, um tanto embaraçado – estes tipos são um tanto dados à confusão e à precipitação...
Divertida e prática, ela estendeu uma palma de mão bem torneada para o lugar em frente:
– Por favor, sente-se, acho que acaba de me salvar o jantar ou, no mínimo, por me devolver o oxigénio... O inglês desta gente não parece suficiente para me entenderem e, confesso, o meu português – para não mencionar o meu konkani – deixa muito a desejar. E cada nova dúvida que levantava por causa de um simples cesto de pão, tinha como única consequência acrescentar mais um deles ao cerco...
Sentou-se, apresentou-se, ela beberricou o gin and tonic, perguntou se ele não queria pedir uma bebida para que brindassem, para que pudesse retribuir-lhe a gentileza.
  Excelente, este pão... – confessou minutos mais tarde – lamento tanto que tenha sido precisamente o pomo da discórdia... Sabe, eu perguntava por bread e eles diziam “no bread”, e, todavia, eu cheia de ver pão a passar em todas as direcções...
– É que o usam mais como talher do como amuse-bouche e, além disso, chamam-no por outros nomes... Este, por exemplo, tem de o pedir por naan... Plain, se o quiser assim, pois há uma variedade com manteiga e alho que não sei se iria apreciar...
– Tal como nem todos os portugueses parecem exprimir-se tão fluentemente em inglês como o senhor, nem todos os ingleses são avessos aos sabores alheios, dê-me, ao menos esse pequeno benefício de dúvida – respondeu com um sorriso dos olhos imensamente azuis que pareciam, em permanência, dois encantadores pontos de interrogação de perímetro variável.
Touché – respondeu ele – para usar, de novo, um idioma neutro ao conflito... E quanto ao meu inglês: sou quase um expatriado no meu país, sabe? Aconteceu nascer por lá, é tudo. Como vê, reúno num só as qualidades do anglo-saxão e os sabores do Sul! Diria que me está na massa do sangue...
– Poderia atestá-lo em tribunal – disse ela abanando o leque e provocando forte ondulação na madeixa loura que lhe escorregava da testa – este caril de gambas que recomendou incendiou-me os lábios...
– Olhe que não creio que o melhor modo de acalmar um incêndio seja agitar o ar à sua volta... – ouviu-se dizer como se quem tal dissesse não fosse ele, mas alguém com maior pujança no atrevimento.
Não foi pelo que ela propôs de seguida que Álvaro de Campos ficou certo de que a conversa resvalara para terreno de turvo flirt, mas mais pelo gesto com que, usando dois esguios dedos em pinça, desencravou os cabelos soltos do penteado encalhados numa das sobrancelhas.
– Não quer ir tomar o café lá fora, na esplanada? Pobres ventoinhas... Fartam-se de espadanar, mas aqui, positivamente, abafa-se... Uma vez que é quem tem feito todos os pedidos, devo avisá-lo que, para mim, tomar o café é força de expressão, sou atreita a insónias e não consigo pregar olho com tal bebida após as quatro da tarde... Mas um chá de jasmim e um cigarro, isso parecer-me-ia o céu...
O engenheiro desenhou no ar o hieróglifo correspondente a um pedido de nota de despesa e levantou-se a tempo de lhe conseguir desimpedir a cadeira, para que ela pudesse mostrar a silhueta alta e o vestido pérola de cintura descaída. Toda aquela abundância e, de sobremaneira, o pormenor do desejo de fumar a coberto da noite, excitavam-no de forma imprecisa.
Mas a mudança para o exterior, como um afastamento físico, provocou um esmorecimento na conversa, agravado pela iluminação débil e por ele pouco mais entrever dela do que a brasa do cigarro e, intermitente, o lampejo dos fios de ouro bordados no shawl de caxemira que pousara sobre os ombros. Tornou-se banal como um correspondente estrangeiro de uma casa comercial:
– E o que a traz por estas paragens? Sendo inglesa, seria mais fácil imaginá-la em territórios do seu domínio... Deli, Calcutá, Jaipur, digamos, até, Bombaim...
Do escuro, ela emitiu uma pequena gargalhada, respondeu com outra pergunta:
– Porquê? Acha, talvez, que invado o seu Império?
– Não, não, por quem é... Diria que é uma felicidade para o meu Império contar com tal intrusão...
– Deixe, antes de lhe responder e perante o risco de vir a tornar o resto da conversa maçadora, que lhe faça uma pergunta: é religioso?
Ele encolheu-se um pouco, passou as mãos sobre os vincos das calças:
– Diria, para simplificar, que sou agnosticamente gnóstico.
No decorrer da explicação não conseguiu reprimir uma exclamação quando ela revelou que estudava, mais do que ensinava, religião comparada na universidade de Manchester:
– Manchester!? Então fomos quase vizinhos!
E contou-lhe a passagem por Glasgow, onde se licenciara em engenharia naval.
– Tem graça – reparou ela – se não o dissesse nunca o imaginaria engenheiro... Via-o mais a perder o seu tempo como professor de uma área nebulosa como a minha... Quando muito, arqueólogo...
Ele casquinou uma risadinha que lhe encurtou o lábio superior, pigarreou um pouco:
– Mas ainda não me disse o que a trouxe a Goa? Ou prefere deixar as razões na sombra?
– De modo algum; a razão é o contraste, o imenso contraste de uma população maioritariamente católica encravada numa imensidade hindu! Isso fascina-me... Como foi possível em tão poucos anos – quatrocentos anos é um breve momento num país como a Índia – vocês conseguirem uma conversão tão maciça...
Modestamente, ele encolheu os ombros, desencaixou o monóculo do olho e lustrou-o no lenço que retirara ao bolso de cima do casaco.
– Não faço ideia; acho que teria de perguntar aos nossos jesuítas... Dentro da minha humilde capacidade na matéria, o máximo que posso fazer é servir-lhe de guia numa peregrinação pelas igrejas daqui... São muitas, sabe? Os portugueses construíram uma igreja quase em cada esquina das terras onde aportaram... Em Goa, quase tantas como os templos que destruíram ou que, para subsistir, tiveram de se mudar, pedra por pedra, para o interior da Província...
– A política tabula rasa… perdi algumas horas com isso nas bibliotecas de Londres...
No dia seguinte ele deambulou ao longo do rio e penetrou no interior da cidade até se confundir em encantadoras pequenas ruas, muito limpas, que pareciam um bairro português perdido. À noite não a encontrou na sala e, sem ter de o perguntar, o chefe de mesa informou-o com naturalidade que Miss Westin não jantava.
No quarto, abriu as portadas de par em par, empurrou a poltrona para o lancil e pescou a caixinha de prata na roupa interior da gaveta da cómoda, pousando-a, ao lado do maço de cigarros e dos fósforos, no tamborete que rolara para a vizinhança do cadeirão. Montava o seu cenário... É que, sabia-o de incómodos anteriores, ao ópio, a posição mais favorável é a horizontal e, depois de inalado o primeiro travo, todas as intenções se esvaem numa rêverie.

Em frente, a noite vibrava de sons ocultos e o ininterrupto crocitar diurno das gralhas fora substituído pela estridência do canto das cigarras. Do Mandovi invisível, onde invisíveis crocodilos se acomodavam no lodo para a hibernação nocturna, subia uma bênção de névoa que tornava o calor um pouco mais suportável. Após a primeira fumaça apercebeu-se ainda do vulto branco de uma coruja a atravessar o ar em direcção a uma das enormes árvores que marginavam o rio...

   Ontem, no itálico prefácio da noite, dizia,
   Uma coruja branca voou por sobre a estrada
   Calada, macia e, talvez, estremunhada
   Pelos laivos púrpura e ciscos de gaivota
   Irradiantes num transitoriamente belo 
   Arranha-céus de nuvens-em-castelo.
***

Cecily vinha recomendada a um casal de ingleses residentes em Dona Paula - localidade costeira a uma meia-dúzia de quilómetros de Panjim - gente que visitara na véspera e suficientemente bem acomodada para lhe porem à disposição, por todo um dia, um veículo automóvel e respectivo chauffeur. Foi isso que lhe comunicou na manhã seguinte, à hora do ovo escalfado sobre o Mandovi e umas torradas com mel que mastigava com indisfarçável apetite. 
Assim, se a oferta de companhia na peregrinação pelas igrejas de Goa ainda for válida, contaria consigo amanhã, pelas oito, que é quando chega o transporte dos Mottram...
– Parece perfeito... – respondera ele com teórico arrojo, tendo passado o resto do dia disperso em frenéticas actividades, como a de se informar sobre as igrejas a merecer visita ou a de combinar com o Sr. Pinto, o chefe de mesa do restaurante, o recheio da cesta de picnic que levariam na jornada, sugestão sensata de Cecily e que o Sr. Pinto abraçara com entusiasmo, pois era óbvio que os encantos da iniciativa, bem como os da dourada hóspede, lhe alvoroçavam a rotina.
Not safe refeição por aí, beira de estradas... – ia comentando o goês no patuá misto em que se entendiam – Comida not safe; meter no cesto também algumas botelhas de água gelata, botelhas de água gelata....
Finalmente, já a meio da tarde, conseguiu, a troco de discreto suborno, que a recepção lhe emprestasse o único mapa da Província existente no hotel, sob compromisso solene de o devolver no dia seguinte, no regresso da expedição. Durante estas horas de azáfama, Cecily desaparecera para o quarto, possivelmente, imaginou ele, a garatujar notas de religião comparada no caderno preto com elástico que sempre lhe fazia companhia à mesa.
Estenderam a toalha para almoço na Estenderam a toalhapois era  Goa convertida..."meiras, onde se espetavam na longura, asno caderno preto com el pois era sombra sólida de um contraforte da igreja de Nossa Senhora do Monte, fechada àquela hora, edifício construído no topo de uma colina coberta por acácias e com panorama soberbo sobre um vale verde, inteiramente atapetado pelas copas de uma infinitude de coqueiros e palmeiras, e onde se espetavam na longura, tais fios de fumo tornados pedra, as alvas torres e campanários de alguns dos templos católicos que tinham visitado em Velha Goa.
– Veja só a beleza paroquial do meu Império – anunciou num gesto largo de proprietário e um toque de ironia na entoação.
– De facto... – respondera ela com um suspiro de vencida – acho que corro o risco de sair daqui convertida, quanto mais não seja a um gnosticismo agnóstico...
Manhãzinha, não batiam as oito e, ao contrário do que pudera pensar, deu com ela mal desceu do quarto, rodeada por dois criados, uma cesta de verga de duas tampas e um saltitante Sr. Pinto, acorrentado ao suplementar fascínio de a loura inglesa do número seis ter surgido enfiada em roupas indianas.
– Que diz ao meu salwar-kameez? – Perguntou ela como cumprimento – Achei que talvez fosse apropriado para um ambiente de picnic, formigas e outros possíveis convidados rastejantes...
– Estarei pronto a adorar se me explicar ao que se refere...
– Ora, não me diga que não sabe o que é uma kameez? Não é, aliás, o termo que usam para o mesmo na sua língua? Quanto ao salwar, é o que resta: estas calças folgadas e muito confortáveis. – Respondeu, dando uma volta sobre si própria e pinçando entre o polegar e o indicador de ambas as mãos, de modo a desfraldar-lhes a amplitude, umas calças de pernas largas, subitamente justas ao nível dos tornozelos e algo translúcidas à luz violenta da manhã.
Ainda não eram exactamente nove horas quando chegaram à primeira paragem da peregrinação, mas o pátio da Igreja do Bom Jesus já fervilhava de gente e tiveram de ir engrossar uma fila compacta, onde não se viam turistas, para conseguir chegar ao interior do majestoso templo. Ultrapassada a porta central, Cecily, após cobrir a cabeça com uma echarpe azul como a túnica, estremecera-lhe o ouvido com uma informação:
– Não sei se sabe, mas expõem as relíquias de Saint Francis Xavier de vinte em vinte anos e o ano da graça de 1913 é um deles: é isso que explica a multidão de devotos e a circunstância de me encontrar em Goa este ano e não noutro qualquer...
– Não, de todo – sussurrara em resposta – tudo quanto sabia é que a múmia do santo, todos estes séculos depois, se encontra razoavelmente incorrupta.
Apesar de tudo, o razoavelmente incorrupto dos remanescentes do santo impressionava, e o contraste, como um humor esverdeadamente sinistro, entre a pele apergaminhada das mãos, esfarelada e revelando o amarelado dos ossos, e as vestes sumptuosas que ornamentavam o corpo, provocaram o silêncio na inglesa que, uma vez cá fora, quis fumar um cigarro antes de seguir para a Sé que os esperava do outro lado da estrada.
Fumava agora um outro, reclinada no tronco de uma acácia cuja ramagem delicada lhe oscilava sobre a cabeça como dezenas de obedientes leques verdes, os olhos lacrados no entrelaçado das pestanas cor de areia, o cigarro apoiado no lábio inferior, deliciosamente mais saliente do que o superior, as mãos molemente abandonadas no colo.
– Contava-me há pouco que em Macau nada disto que vimos hoje de manhã era tão vincado... – Interrompeu o silêncio sem descerrar os olhos, como se pretendesse que ele continuasse as rimas de uma qualquer canção de embalar.
– Sim... – instintivamente desviou por um momento o olhar dos tornozelos cruzados da companheira, para logo aí voltar mal se assegurou de que o tom da conversa não requeria uma pontuação de olhares – Sim... Em Macau o que sobressai, mais que tudo, é a China... Um punhado de portugueses diluído numas centenas de milhares de chineses. Enquanto que por aqui é reconfortantemente frequente, lá não encontra ninguém que fale português e os chineses seguem pela rua sem olharem para si, como se lhe recusassem a  existência... Macau é uma doce ilusão: eles ainda não deram pela nossa presença e nós não queremos que ninguém nos acorde do sonho...
– E quanto a igrejas...
– Oh, também as há, claro, mas submersas no meio de santuários e templos - nada que se note...
– Não fala desse canto do Império com muito entusiasmo... – ela desenganchara as pestanas e os pequenos pontos de interrogação nos seus olhos azuis fitavam-no sem expressão aparente.
– Não gostaria que ficasse a pensar assim! Macau marcou-me além do entendimento, sabe? Esta foi a segunda vez que lá estive... A primeira foi já há anos... Era muito novo, então, acabado de formar... Fui lá parar sem fito preciso, deixei-me descer o Suez, contornei, sem quase sair de bordo, a Índia e o Ceilão, fiquei três semanas, talvez mais, custou-me apanhar o paquete de regresso à Europa. Entre visitas, durante o sono, sonhei amiúde com a cidade, via-me por lá, identificando com detalhe ruelas por onde havia passado distraído... Não lho sei passar para palavras, mas Macau derrama em nós – em mim, pelo menos – uma saudade tão intensa que toda esta minha viagem, esta – a de agora – foi quase pretexto para lá voltar de novo... Desta vez, na subida de regresso, antes que a vista de Port Said me aperte e me devolva ao Norte, parei na Índia à procura de justificação mais consistente para a viagem... Falta ainda, por um dia destes, quando passar por Bombaim, fazer-me retratar com o Taj Mahal Palace nas costas, para ter algo que mostrar em Lisboa!
– E Macau, que trouxe de lá desta vez...? – Ela sentara-se, interessada, alinhara o seu tronco pelo tronco da acácia, os braços envolvendo os joelhos, o olhar preso ao modo como ele esfregava o monóculo com o lenço.
– Mais do mesmo: combustível para as minhas saudades vagas e... – hesitou um momento – um pouco de ópio, que, se calhar, é algo semelhante...
Ela mirava-o agora de olhos bem abertos, o indicador da mão direita acariciando o desnível entre os lábios:
– Ópio, a sério?! Tem-no aí consigo, que se possa ver? Desde sempre, às tantas vem dos livros que lia em menina, senti curiosidade por esses entorpecentes orientais... Mas nunca vi; como é? O que se sente? Trouxe também um cachimbo e uma esteira?
Ele riu, retorquiu:
– Isso é mesmo um colar de perguntas de menina! Claro que não o tenho aqui comigo, está no hotel, numa gaveta, misturado com a roupa lavada. E não, não trouxe cachimbo nem esteira, ocupam muito espaço, dão nas vistas... Para o fumar uso uma técnica abreviada que, suponho, deve fazer o horror dos connoisseurs: risco uma linha do produto num cigarro. E fuma-se...
– Não disse o que se sente...
– Não leu De Quincy, Poe, Baudelaire? É que é tão difícil explicar... É, estranho que lhe possa parecer, uma coisa muito física, uma espécie de bem-aventurança terráquea...
Fizeram a viagem de regresso em silêncio. Para o lado do mar, o sol descia e preenchia de um dourado de iluminura os espaços livres entre o verde da vegetação. À entrada de Panjim o chauffeur acendeu os faróis do automóvel e foi por altura desse gesto que ela quebrou o silêncio:
– Acho que gostaria de experimentar esse ópio... Partilharia um desses seus cigarros comigo ou será pedir demasiado à sua intimidade? Não me apetece fazê-lo sozinha, confesso que, junto com a excitação, tenho algum receio...
Ele tinha tido tempo para engolir em seco e aparentar fleuma na resposta:
– Se o quiser... E não precisa de estar apreensiva: é droga muito mansa, abençoa sempre os neófitos...
– Isso é um sim ou um adiamento na resposta...?
– É um sim, desculpe se o fiz parecer coisa diversa...
– E, visto que me deu a entender dever ser actividade discreta: no seu quarto ou no meu...?
– No seu... – respondeu, passando umas mãos nervosas pelos vincos das calças, – temo que o meu esteja demasiado desarrumado...

   Ontem, no itálico prefácio da noite,
   Pousaste com ternura e teus dedos iam
   Sobre uma de minhas mãos que conduziam.
   Por onde vamos? quis então saber
   Tanto se me dá, não sei se sei dizer...
   Liguei os faróis, comuniquei, Perfeito!
   E, sem decisão de por onde iria,
   Fui guiando pela noite que caía.
***

O quarto dela ficava no primeiro andar e ele achava-se sentado numa poltrona igual à que tinha no seu quarto, dispondo o tabaco, os fósforos e um montinho de palitos da sala de jantar num tamborete gémeo ao que lhe pertencia no andar de cima. Sentada na borda da cama, cintilante no pijama lamé e resguardada no quimono com que viera abrir a porta, Cecily inclinou-se quando o viu tirar do bolso a caixinha de prata.
– Meu Deus, tem aspecto medonho! – exclamou quando pousou os olhos na pasta viscosa e quase negra.
Senhor do momento, ele não respondeu. Enfiou um palito dentro da caixa, rolou-o bem pelo interior e besuntou as faces opostas de um cigarro até toda a massa viscosa do palito se espraiar no branco do papel. Depois estendeu-lho. Ela pegou-lhe com uns dedos esguios que tremiam um pouco; perguntou:
– Como faço? Como o fumo?
Como um cigarro, justamente! Mas inspire o fumo mais profundamente... E acendeu um fósforo sob a ponta do cigarro.
Como quem altera apressadamente uma cláusula num testamento, ela pediu, com uma voz já entrecortada de fumo:
– Por favor cuide de mim...
Esta frase curta, proferida imediatamente antes de ela lhe estender o cigarro e do cheiro adocicado e acre do ópio lhe picar as narinas, fez murchar as vantagens que se pusera a imaginar enquanto se vestia para o jantar, como se já acariciasse uma inexperiente Cecily toldada pelo ópio.
– Acho que me sinto um pouco enjoada e que preciso de me deitar para trás... Não se importa?
– É normal... No princípio vem-nos um enjoo – vai passar – e o corpo pede a posição horizontal – ouviu-se responder, de longe, com um sorriso mental de divertimento ao ver o modo como ela se desenrolara sobre a cama por abrir.
– Sinto-me como se estivesse deitada numa nuvem... – a voz dela chegava-lhe amortecida à poltrona, interrompendo-lhe o fluxo de pensamentos por onde já divagava. Pensou num comentário...
– Álvaro...? Está aí ainda...?
– Sim... – Da poltrona ele agitou no ar um braço, como que a provar ao outro náufrago à deriva, que boiavam no mesmo mar.
– Venha para mais perto; está aí a centenas de milhas daqui... Deite-se ao meu lado, na minha nuvem há espaço para dois.
Em pé, ao lado da cama, observando os pés nus dela, perdeu-se um pouco na contemplação daqueles dedos bem contornados, previamente a conseguir achar que deveria tirar os sapatos antes de se esticar na cama; mas o esforço pareceu-lhe inultrapassável e, depois, inútil. Deitou-se assim mesmo, de colete e gravata, que o casaco, esse vogava debruçado num dos braços da poltrona.
– Assim... muito melhor – ouviu-a dizer, perto de si, sem se mover, deitada de costas, os olhos cerrados.
– Sente-se melhor? O enjoo passou?
– Enjoo...? Oh, sim, muito melhor... Percebo agora aquilo da bem-aventurança terráquea de que falava...
– Álvaro... Campos... – voltou ela, falando em direcção ao tecto – o seu Álvaro tem ressonâncias árabes, será que o é...?
– Não... – respondeu também para o tecto – Álvaro tem raiz nórdica e o Campos é judeu...
– Mediterrânico, quand même...
– Sim, quanto a isso... A luz do sol, uma azeitona...
Durante uns minutos ela não disse nada e, breves ou longos, foi tempo suficiente para que ele se desinteressasse do local onde estava, ficasse tranquilamente a sós.
– Álvaro – sem que se tivesse apercebido ela rolara sobre si própria e a sua face espreitava agora a dele, os pontos de interrogação dos olhos azuis reduzidos ao tamanho do ponto sob o sinal, os cabelos louros, leves como penas, cocegando-lhe a testa.
– Álvaro – tornou ela, separando as sílabas e duplicando o “r” ternamente – cheira-me que você é um poeta na clandestinidade, seu engenheiro moreno... Conte-me toda a verdade...
Atrapalhado, aprisionado entre a almofada e a face dela, ficou a olhar em adoração aquele lábio inferior um pouco avançado, de onde as palavras brotavam como que de uma gruta macia.
– Minha caixinha de surpresas! Tem a certeza que o seu negócio gira em torno de barcos ou isso é só uma dissimulação e todos os seus barcos são de papel? Será que viaja sob outra identidade? Todos estes dias, ao vê-lo entrar (um pouco curvado, um pouco ensimesmado) na sala de jantar me pareceu muito mais um poeta mediterrânico em fuga de si mesmo... Mas, garanto-lhe, vou descobrir toda a verdade um dia destes... Dê-me tempo...
Ele continuava por baixo dela, apanhado naquela suave e cheirosa armadilha, um sorriso beatífico, de alienado, arrebitando-lhe o lábio superior.
– Prometa que me vai dar tempo... Um dia, um dia você vai ser grande e eu quero poder dizer que o conheci, quero estar por perto... Prometa...
Prometeu, ela pareceu satisfeita. A face desapareceu do poço para onde espreitava e ele ouviu a cabeça cair pesadamente sobre a almofada ao seu lado. Fez-se silêncio e, uns minutos depois, a respiração dela tornou-se leve e regular.
– Cecily...? – Chamou baixinho.
Ela não respondeu, nem nas vezes seguintes em que pronunciou o seu nome, cada vez mais alto, como que a testar o seu entorpecimento; cada vez mais apaixonadamente, como quem declama a sua entrega. Adormecera.   
Ainda era noite quando desceu com as malas, o rapaz da recepção dormia no cadeirão ao fundo do balcão. Pareceu surpreendido com a antecipação da saída e, não fosse o sono, seria certo um encadeado de perguntas a tentar avaliar os motivos da insatisfação do hóspede que partia quase uma semana mais cedo.
– Em Mormugão, o barco para Bombaim só vai mais tarde... Não tem de sair daqui tão cedo... Basta ao fim da manhã...
Foi inútil explicar, o hóspede estava nervoso, fazia já tenção de empurrar as malas em direcção à porta.
Mas, após saldada a conta, como quem recorda algo esquecido e de súbito relembrado, pediu uma folha de papel e um envelope, o qual endereçou a
                 Miss Cecily Westin, Room # 6.
Ficou uns instantes com a caneta no ar, o rapaz a olhar para ele, desolado e ensonado, e depois, em letra rápida, deixou escrito:
                 Tenho de ir agora. Grato pelo sonho.
E, por baixo, assinou o nome com que ela o chamara.


 © Fotografias de Pedro Serrano, Bombaim e Goa, 2012 e 2013.