12 julho 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 28. Em Sintra, com Eça

A João tinha uma Vespa vermelha, foi nela que nos transportámos, por Cascais e arredores, durante essa semana. Era sempre ela quem guiava, eu não queria nem ouvir falar em experimentar e gostava daquela posição na ponta traseira do assento, de olhar a partir dali o que ia surgindo ou aquilo por onde íamos passando ou deixando para trás; de sentir a carícia involuntária das mechas do cabelo dela que me cocegavam a face quando, para ouvir algum comentário, me inclinava para a frente, as mãos enlaçando-lhe a cintura.
Ela não estava de férias ou convalescente de um abcesso dentário, pelo que eu passava razoáveis pedaços do dia sozinho esperando que terminasse o trabalho e voltasse de Lisboa ou que arranjasse um novo álibi para se baldar de casa. Mas também dessa espera gostava, do pequeno-almoço nalgum café da baixa de Cascais, do deambular por entre os escaparates no passeio da livraria Galileu, a única livraria onde alguma vez vira cerâmica à venda, belos azulejos decorados com rãs tridimensionais, e terrinas em forma de peixe do Bordalo Pinheiro – se não tivesse os Açores pelo meio teria comprado algumas peças. No impasse, acabei por adquirir na livraria uma edição do Eça de Queiroz Entre os Seus, um livro de correspondência entre o escritor e a, primeiro noiva, e, mais tarde,  mulher, o todo comentado por uma filha, coisa que se dispensaria pois pouco mais fazia que acrescentar qualificações superlativas ao que interessava. Aquela compra reavivou-me a vontade de ir a Sintra, além do mais agora que estava a uma modesta vintena de quilómetros... Como todos, eu dera Eça no liceu, éramos obrigado a ler pedaços da A Cidade e as Serras, detestava aquilo e as minhas memórias do escritor faziam parte de um aglomerado baço onde se entrelaçavam com o Camões, o Frei Luís de Sousa e o Alexandre Herculano, entre outros igualmente chatos. Mas o tempo rodou e por uma tarde do ano de 1978 bati à porta do Carlos Araújo, cuja casa frequentava com regularidade, para ser informado de que não estava, mas iria chegar. Fiz menção de ir embora, voltar mais tarde, mas a Mira, mulher dele, convenceu-me a entrar. Ela própria estava cheia de pressa, ia sair, mas eu podia esperar na sala de trás, o Carlos chegaria a qualquer instante. Entrei e fiquei por um sofá dessa sala, impregnando-me, à medida que os minutos passavam, do silêncio e do tédio que reinavam na casa vazia. Já se passara uma meia-hora quando comecei a olhar em volta em desespero, à procura de algo que me entretivesse. Não havia nada naquela divisão, nem jornais, nem revistas ou álbuns de fotografias, nem sequer uma aparelhagem de música, e não me sentia à vontade para ir coscuvilhar em outras. Foi a necessidade que, num porta-revistas contíguo ao braço do sofá, me levou a mergulhar num monte de novelos de lã, agulhas e um pedaço de camisola nos seus primórdios e, sob essa bagunça, descobrir a lombada grossa de um livro.
Hotel Nunes, Sintra (actualmente demolido).
“Os Maias – Cenas da Vida Romântica”, li na capa. Já era castigo!
Quando, uma hora depois, o Carlos chegou, foi quase com irritação que o saudei e lhe suportei os comentários entusiasmados à minha presença, um dedo a servir-me de marcador ao naco razoável de páginas lidas. Já saltara para o interior da trama do romance e só pensava em continuar a segui-la.
“Emprestas-me esta merda?”, perguntei, displicente. Ele pareceu espantado:
“Leva! Está para aí há séculos, nem sei de quem é... Talvez da Mira, do liceu.”
Nos meses seguintes li tudo quanto havia a ler de romances, novelas e contos do Eça e, quando se aproximaram os dias de rumar aos Açores, já andava a chafurdar nas prosas bárbaras, nas folhas soltas, na biografia do João Gaspar Simões. Mas aquelas cartas íntimas nunca vira e, sentado na esplanada em socalco de um pequeno café de uma calçada estreita que subia do lado da baía, saboreava, carta a carta, a correspondência e um cigarro Brazão, a marca açoriana que andava agora a fumar e provocava olhares intrigados dos cascalenses. E voltou-me, em redobrado, a vontade de Sintra, que só conhecia verdadeiramente das descrições do escritor.   
A João achou boa a ideia de Sintra, a hipótese de ficarmos lá de um dia para o outro enrugou-lhe a testa. A melhor altura para a excursão, pois estaria livre do trabalho, seria o fim de semana, mas aí o controlo em casa seria mais apertado, o padrasto, estando por perto, podia ser especialmente severo em relação ao paradeiro das raparigas. Não que ela se queixasse ou dispusesse esses obstáculos sobre a mesa, mas eu conseguia aperceber nos seus “vou ver” o caminho pedregoso para a liberdade. Ainda antes de ontem, por conta desses apertos, vivêramos uma cena com um entrefecho curioso. Ficáramos de jantar juntos, num daqueles restaurantezinhos encantadores das ruas que iam dar à Lota, e eu fazia horas na albergaria para a confirmação telefónica da hora a que se me juntaria. Já tarde, contrariada, ligou a informar que não conseguiria jantar comigo, nem sequer sair depois do jantar; nessa noite não ia dar. Jantei sozinho, com uma vela e caracóis de manteiga dispostos numa mesa só para mim; dei uma volta arrastada pelas ruas, detive-me na montra de uma boutique a olhar um roupão de feltro, de um amarelo de saibro, que me andava a tentar há dias – era caro, mas possuía o atributo perverso de me surgir na lembrança e lamentar não o ter ainda comprado sempre que estava longe da vitrina. Voltei ao quarto, li quatro ou cinco cartas, apreciei aquela despedida “sempre teu do coração” que Eça, por vezes, usava e, embora nem fossem onze, apaguei a luz, pois pensei sentir o sono. Nada, falso rebate, apenas a ilusão do tédio a pesar nas pálpebras. Não tive dúvida de que ia passar por uma insónia, uma daquelas azedas e duras de roer como talo de couve. Engoli então um Somnium e entreguei-me à indulgência do bendito esquecimento. Mas o telefone tocou e, naquele sobressalto condicionado pelo hábito do estar de urgência, atendi. Mas quem poderia ser, ninguém sabia que estava aqui! Que me quereriam da recepção a uma hora daquelas? A chamada era do exterior e ouvi a voz da João, contente e triunfante, a comunicar que, afinal, ia conseguir sair, estaria à porta da albergaria dali a dez minutos, o mais tardar; de lambreta, à noite e sem trânsito, era um tirinho até mim.
Bar do Hotel Estoril Sol.
Ora acontece que, está descrito, é assim que aquele tipo de substâncias é usado  recreativamente: os hipnóticos da família química da metaqualona (como o Somnium, o Quaalude ou o Mandrax), quando são tomados e se resiste ao sono inicial, provocam peculiares efeitos: um bem-estar lânguido e, posteriormente, uma absoluta falta de memória do que se passou enquanto se esteve sob o efeito. No meu caso, nunca mais me lembrei que tinha tomado o comprimido e o assunto só me preocupou um pouco enquanto descia no elevador para um serão que, afinal, não tinha terminado ali. Estava uma noite maravilhosamente tépida e, voando abraçado à cintura da Vespa, olhava enfeitiçado o cume branco das pequenas ondas que, ronronando, subiam da praia em direcção ao paredão da marginal. Íamos ao Estoril, passar um tempo no bar do Hotel Estoril Sol, onde havia sempre música ao vivo. Recordo a chegada, a travessia sob a pala tipo Niemeyer que cobre a entrada principal, a sala panorâmica e um tipo a tocar piano para os hóspedes. Depois parece que pedi uma cuba-livre ou um gin-tonic; o resto contou-me a João, mais tarde, já em Sintra, divertida. Eu não me lembrava de absolutamente nada! Nem de me levantar do nosso cantinho para ir pedir ao pianista que tocasse um determinado standard – embora esse gesto fosse compatível com a minha maneira de ser –, e muito menos de ter passado uns bons pedaços cantando, apoiado ao piano, para quem estava presente no salão.
Bem, pior tinha acontecido ao Leonard Cohen, comparava eu, sentado à mesa da esplanada do Hotel Central, o compositor canadiano, conhecido por Capitão Mandrake nos anos 70, uma piscadela de olho ao Mandrax, de que era cliente. No Festival da Ilha de Wight, acordado às duas da manhã para cantar para 600.000 pessoas, fizera-o pouco após ter tomado uma coisa daquelas no camarim, precisava dormir e julgava só ter de se expor ao público muitas horas mais tarde.
“Eu, ao menos, só cantei para uma meia-dúzia...”, concluía olhando, do outro lado da rua, no palácio, as imensas chaminés cónicas, que se viam de todo o lado, tão desmedido era o seu tamanho. O Eça falava daquilo!

Fizéramos a viagem até Sintra num átimo. Ainda agora estávamos a sair de Cascais, a passar pelo supermercado Pão de Açúcar e a virar pela avenida acima, num cálido começo de tarde, e não muito depois já o tempo se tornava fresco como numa adega e rolávamos sob um arvoredo que cobria o asfalto, um toldo verde e tremeluzente que não mais nos largou até que pousámos a Vespa, para um merecido repouso, no largo do Hotel Central. A minha ideia era deambular por ali, sem pressa nem fito, aquilo não era assim tão grande que a qualquer momento não fossemos tropeçar na Lawrence (onde Carlos da Maia procurara a loura dona de uma cadelinha chamada Niniche) ou no Nunes, onde o Cruges encontrara o Eusebiozinho com as duas putas espanholas e se acabara por esquecer das queijadas... Será que a confeitaria onde provava uma daquelas nozes caramelizadas tão fantásticas, e onde também vendiam travesseiros e queijadas, já existiria no tempo dos ‘Maias’? Poderia ter sido ali, a uma daquelas mesas, que nascera a referência do Eça?
Hotel Lawrence, Sintra.
Após explorarmos o centro da vila começámos a subir em direcção à serra, por entre vivendas antigas e ajardinadas, que pareciam adormecidas sob aquela luz esverdeada e loura que rompia por entre a ramaria. Já acima do nível de vila, onde a densidade das casas rareava e fora substituída por muros e portões de quintas, demos com uma tabuleta que indicava Quinta dos Lobos e informava tratar-se de um “bed and breakfast”. Por entre as grades do portão apreciámos a moradia, enquadrada por arbustos e flores, uma casa antiga e com as janelas bebendo a luz da tarde. O dito local pareceu-nos a perfeita âncora para o sem rumo que prosseguíamos nesses dias. Era gerido por um casal de estrangeiros, tinha apenas três ou quatro quartos e o que acabou por ser o nosso continha mobília antiga e prateleiras com livros, como se ali habitasse alguém que nos cedera o quarto para a noite. Quanto ao pequeno-almoço, explicou-nos a senhora ao mostrar-nos a cozinha, podia ser tomado ali a qualquer hora, a torradeira estava em cima de uma cómoda e no frigorífico havia fiambre, compotas e sumos enlatados. Aliás, podíamos servir-nos do que quiséssemos a qualquer hora. Eles deixavam de estar por ali a partir das oito da noite e nós ficaríamos na posse das chaves do portão e da casa. Queríamos nós perguntar mais alguma coisa?  
Voltámos à Quinta dos Lobos uma e outra vez ao longo daquele ano e de cada vez que consegui vir da Graciosa até ao Continente lá íamos como que em romagem, uma romagem que abrangia Sintra, a Várzea, Colares, o caminho arborizado para Cascais e as viagens na lambreta. 



© Fotografia ao lado: Hotel Central, fotógrafa: João Berhan, Sintra, Junho 1979.    


14 junho 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 27. Cesário Verde, 117

O jantar foi chucrute ou, descodificando, salsichas frescas estufadas com couve branca, receita de confecção rápida e apta a satisfazer a fome fácil dos convivas que enxameavam em torno da mesa, procurando atestar o prato antes de se distribuir, pela grande sala, de prato nos joelhos, por cadeiras e pontas de sofá.
Para além da Nita e da dona da casa, pessoa muito amistosa e parecendo feliz por nos ter ali, havia também uma velha senhora de cabelo branco e pose reservada que não participava na refeição, como se já tivesse comido ou esperasse para o fazer quando a chusma desaparecesse, e um rapaz alto, sério e com um traçado de testa e queixo que lembravam os do Marlon Brando, mas que, apesar disso, partilhava linhas de parecença com a irmã. Pela conversa e pelas observações polidas da Gabi e da Raquel, fui concluindo que o tal António era o dono da casa e se encontrava, de momento, na Suíça, onde ia amiúde por razões de trabalho. Mas o assunto logo se desviou para como tinham, no Porto, ficado os pais das irmãs Pais (Raquel e Cristina) e a Tita, a mãe da Gabriela. Entretanto, alheio àqueles jogos florais, eu fora espreitar a longa varanda de tijoleira que se estendia ao longo da fachada da casa e para onde abriam as janelas de sacada das salas de jantar e de estar, unificando também exteriormente aquele espaço comum. Estava uma noite morna, o Gonçalo fumava um cigarro debruçado na balaustrada que deitava sobre o quintal e, sentado numa cadeira de plástico, o Heitor comia as suas couves com ruminante aplicação. Voltei para dentro pela porta de sacada que dava directamente para a metade que funcionava como sala de estar e sentei-me ali, num sofá, a folhear uma Casa & Decoração, pousada sobre uma pequena arca de madeira que servia como mesa de apoio. Devíamos começar a pensar em nos pôr a andar, afligia-me, olhando o relógio e constatando que já eram oito e meia; de outro modo íamos arranjar uns lugares de merda. Bem que podia ter ficado a comer na vila, na tasquinha da estação... Por um ruído, a minha atenção desviou-se da revista: uma porta abrira-se à direita e entrou na sala uma rapariga que olhou em volta, desconfiada, como se ver aquela maralha não fosse o que mais lhe apetecesse. As suas linhas de feição permitiam perceber que era aparentada com os outros dois filhos da casa, embora fosse menos tisnada do que a Nita, os olhos fossem mais claros e os cabelos castanhos se ondulassem discretamente para dentro na base do pescoço e se empertigassem numa onda sobre uma metade da testa.
“João, anda jantar, filha. Tens aí pratos no rechaud...”
Ela rosnou qualquer coisa e, à medida que ia saudando de beijinho, foi-nos sendo apresentada por palavras da mãe, que a ia louvavelmente desculpando pelo atraso, mas estava a estagiar no IPO como parte do seu curso de enfermagem. A visada ia-se servindo, calada, sem dar, sequer, troco aos incentivos carinhosos da avó, que vigiava a quantidade de comida que ela pusera no prato e só agora parecia aliviada do receio de que toda aquela gente esgotasse a comida antes da neta chegar!
A mãe ia pondo a recém-chegada a par das mais recentes novidades, pois, ao fim de uma breve hora, encontrara já teias de parentesco ou proximidade na maior parte de nós, inclusive a feliz descoberta de ter sido companheira de carteira da minha tia Teresa no Colégio Luso-Francês, no Porto.
Sentando-se ao lado da avó, a aparecida nada reagiu às felizes coincidências, mantendo a expressão fechada e parecendo entre o preocupada e o ansioso por se pôr a andar, em flagrante contraste com a hospitalidade explícita e sorridente do resto da família. Confesso que, ao fundo, sentado no meu sofá, achei graça àquela antipatia pouco convincente, à falta de à vontade que quase a tornava uma estranha na própria casa, e, à saída, despedi-me dela com especial sublinhado, calculando que isso a irritaria e que não iria ter a responsabilidade de a voltar a ver tão cedo.
Enganei-me, pois num dos intervalos dessa noite no Festival de Jazz, ao ir com o Gonçalo ao recesso por baixo de uma das bancadas onde funcionava o bar, demos com as duas irmãs por trás do balcão, afanadas e sorridentes a aviar cervejas e sanduiches embrulhadas em película plástica transparente.   
Regressámos ao Porto, acabrunhados na viagem por aquele silêncio que sempre sobrenada a espuma dos dias cheios, e na semana seguinte perguntei, distante quanto soube, à Cristina Pais se, por um acaso, não teria, que me pudesse dar, a morada daquela senhora encantadora que nos recebera em Cascais. Ela demorou um pouquinho, tinha ido procurar, à gaveta por baixo da mesinha do telefone, o livro de endereços da mãe.
“Tens aí onde se escreva? Aponta: rua Cesário Verde, 117...”
E para Cascais enderecei um agradecimento que invocava Pessoa – discípulo confesso de Cesário Verde – e o modo gentil e generoso como a dona da casa abrira a porta a totais desconhecidos.
Nem um mês se passara sobre o agradecimento e eis-me, de novo, a pedir uma ajuda informativa à mais velha das irmãs Pais.
“Cristina, por acaso não tens aí o telefone da João no Porto? Queria telefonar-lhe, a convidá-la para jantar um dia destes...”
Ela tinha e deu-mo, simpática mas relutante nas bordas. Muitos anos volvidos, soube que, no mesmo dia, telefonara à visada a dar conta do que fizera e avisando-a para ter cuidado, pois que eu não era assim tão recomendável ou flor que se cheirasse. Pobre e bem intencionada Cristina, que ficou com esse embaraço atravessado, sobretudo quando dali resultou, em pouco mais de um ano, um casamento. Se nos conhecesse bem a ambos, melhor do que nós nos conhecíamos a nós próprios – ou se já tivesse a experiência de filhos adolescentes – teria sabido que é justamente isso – contrariar o contacto – o que não se deve fazer quando se quer evitar que dois jovens seres se aproximem.
A João e uma amiga chamada Rita – uma loura de voz rouca que desencadeou estragos profundos na turba masculina que eu frequentava na época – estavam na cidade por umas curtas duas semanas, para um estágio geminado no IPO do Porto. Estavam luxuosamente acampadas num apartamento que o padrasto da João possuía na Foz, outrora alugado, mas, nesses dias do final de 1978, desocupado e os aquecedores a óleo há tanto tempo por usar que libertavam no ar um atraente odor a pó evaporado. Fiz o tal telefonema e, para desespero da minha mãe que nunca sabia por onde eu podia andar ou se viria dormir a casa, mudei-me praticamente para a Foz.

Foi por essa época que se iniciaram as celebrações da minha despedida, pois ia servir um ano nos Açores, na Graciosa, uma ilha que, a não ser algum tio-avô fanático da geografia, ninguém sabia que existia, quanto mais onde era. E a lista de convidados para esses jantares viu-se inesperadamente engrossada por uma nova presença, uma novidade com cadeira perto do homenageado, o qual, em pé e em pleno brinde, era visitado pelo pensamento sombrio de que não era a melhor hora para se pôr a andar dali para fora, uns dois mil quilómetros a oeste. Era quase um absurdo, mas a que não havia volta a dar.  



© Fotografia ao lado: pedro serrano, Cascais, Dezembro 2012.  

11 junho 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 26. Adivinha onde vais jantar

Em Portugal, no dealbar dos anos 70, não se passava nada; tudo isto era um atraso de vida. Por exemplo (ilustro musicalmente, pois, de todas as musas, foi a que mais me influenciou e acabou por condicionar existência): entre 1970 e 1972, na segunda cidade do país, houve um concerto do Modern Jazz Quartet no cinema Trindade, e um concerto dos If no Coliseu – uma banda rock, britânica, de segunda linha, que lotou a sala. Para além disso, no Porto, perpetravam-se no Rivoli uns serões musicais periódicos onde, por sobre as emanações de cânfora dos casacos de peles de velhas senhoras, desafinavam, afinados na plangência, os violinos de uma orquestra clássica.
Então, eis que, já perto do final de 1971, se ouve falar de um festival de jazz lá para o sul. Jazz? Festival?! Muita gente junta no mesmo lugar, sem ser em Fátima ou num estádio de futebol?! Seria possível?
“Onde, quando? Em Lisboa?”
Não, era em Cascais, o que para nós ia dar ao mesmo; e teria lugar já na semana seguinte. E os bilhetes, Santo Deus, como se arranjavam? Estariam à venda no Porto, em algum lado? Ninguém sabia, achava-se que não; o melhor seria ir perguntar numa discoteca, alguém teve a ideia de se passar pelas lojas de instrumentos musicais, podia ser que...
Por esses dias tinha eu uns recentes dezanove anos e sair de casa por três dias (a duração do festival estendia-se por duas noites) era manobra que implicava satisfações e negociações e nisso – mais o tempo a correr, mais os bilhetes que ninguém conseguia e a própria incerteza sobre os dias do evento – nisto, o festival passou e perdemos o Miles Davis, o Thelonious Monk, o Ornette Coleman, o Dizzy Gilespie, o Art Blakey e o Sony Stitt. Uma catástrofe que, uma vez que as parcas notícias saídas nos jornais a seguir ao festival anunciavam uma segunda edição, tentei remediar logo, cedo, no ano seguinte. Ok, a coisa tenderia a repetir-se no mês de Novembro, mas em que dias? E os bilhetes? Vender-se-iam, desta vez, também no Porto? Até tarde, pelo Outono dentro, nada se soube, mas, ah, nós imploráramos atalaia aos nossos conhecimentos na capital e, a custo, conseguimos os preciosos bilhetes para as noites de 11 e 12 de Novembro.
No dia 11, de manhã, com o automóvel atestado de gasolina, cobertores,  almofadas e toalhas de praia – eu, o meu primo Manel e o nosso amigo Juca – rumámos a sul como se fossemos para outro país. A viagem para Lisboa demorava umas seis horas e Cascais nem sabíamos onde era, devia haver placas a indicar em Lisboa. Quanto a dormida, iríamos fazê-lo no carro, pois o meu maravilhoso Fiat 128 vinha artilhado de fábrica com uma funcionalidade espectacular: os assentos da frente rebatiam sobre o banco de trás, metamorfoseando um autêntico sofá-cama. Para três pessoas, era um bocado apertado e o gajo que se deitasse no meio iria ter de lidar com o espaço vazio onde, inamovíveis, se eriçavam a manete de velocidades e o travão de mão. Mas isso eram detalhes de que só daríamos conta  quando a noite nos reconduzisse ao dormitório.
Perímetro interior do Mercado de Cascais.
Chegámos a Cascais umas sete horas mais tarde, a tarde sombreava-se, embora a temperatura do ar fosse espantosamente amena quando comparada com a do Porto chuviscoso ainda dessa mesma manhã. Depois de umas voltas exploratórias, acabámos por deixar o carro estacionado no interior do perímetro do mercado municipal, local protegido ao trânsito das ruas exteriores por um muro e envolventes árvores de grande porte, proporcionando ao estacionamento uma intimidade não inferior à de um quarto de hotel. Entardecia, o céu dissolvia-se em tons rosados, mas era ainda um tanto cedo para jantar – o concerto era só às nove e meia. Deambulámos pela vila como que embriagados, aquilo não se assemelhava com o Portugal que a gente conhecia: era tudo muito ordenado, arrumado e limpo; as lojas pareciam mais modernas do que as de Cedofeita ou Santa Catarina, as pessoas tinham um ar bem tratado e demoravam-se por cafés e esplanadas como se todos estivessem de férias; as tabacarias penduravam no exterior mostradores com  jornais estrangeiros e expositores giratórios com postais; os  restaurantes ostentavam nomes inspirados e as fachadas pareciam preparadas para cenário de um filme. Fascinados, em silêncio, muito juntos, um tanto ou quanto inibidos, andámos para trás e para a frente sobre aqueles passeios ordeiros, aquelas calçada lisa a preto e branco, com efeitos; apercebendo-nos de que a localidade não era muito grande, já tínhamos passado por aquela farmácia do lado de lá da rua, onde se começava uma rua que ia desembocar num terminal de comboios. Por aí, perto da estação, descobrimos uma tasquinha de bom aspecto, com pratos apetitosos anunciados a giz num quadro, e preços compatíveis. Ao café, perguntámos como ir dar ao Pavilhão de Desportos; era fácil, disse-nos o homem por trás do balcão: descíamos a rua, iríamos dar à baía e depois era só cortar à direita, a direito, para dentro, voltar a subir até chegar a um jardim e, dali, já veríamos o pavilhão.
“É longe?”, queria eu saber com o coração a palpitar e zonzo de tantas indicações.
Pavilhão de Desportos do Dramático de Cascais.
“Não!”, disse o homem, “põe-se lá em dez minutos; vá lá, um quarto de hora”.
Demorámos mais, mas talvez a culpa fosse nossa, fomos abrandando o ritmo da passada à medida que sentíamos estar mais próximos, contidos por um certo receio de chegar e a certeza que íamos no caminho certo, pois começávamos a integrar-nos agora numa corrente de gente que parecia mover-se por um qualquer tropismo, que ia engrossando à medida que outras pessoas surgiam de ruas e ruelas que confluíam no nosso trajecto.
“Achas que o Brubeck vai tocar o ‘Take Five’?”, perguntava o Manel a meu lado.
“Sei lá, não faço a mínima...”
“Era fixe...”, insistia ele.
Chegávamos. Era noite cerrada, azul-negro, e umas barreiras de metal protegiam a zona da entrada da turba que se pressionava. Lá dentro, era um banal recinto desportivo fechado, com um ringue ao meio, bancadas de cimento de um lado e outro e janelas envidraçadas lá no alto. O palco era um estrado nu encostado a uma das bancadas, pelo que haveria gente que iria assistir às costas do que se passasse em cena! Essa bancada estava ainda assustadoramente despovoada e a outra, em frente, perigosamente já cheia.
“Ainda há lugares lá em cima...”, apontou o Juca, começando a trepar pelo espaço livre à frente dos joelhos de quem já se instalara nos degraus de cimento duro.
Cascais, 1972. Da esquerda para direita: Gerry Mulligan (saxofone barítono),
Dave Brubeck (piano), Paul Desmond (saxofone alto).
O Fiat esperava por nós, fiel e já com uma película de orvalho a abrilhantar a chapa azul. Por cortinas, entalámos as toalhas de praia no rebordo superior do vidro das janelas; rebatemos os bancos e ajudámos o Manel – a quem, por ser o mais novo e o mais curto, tinha cabido ficar no meio – a encher os espaços vazios com almofadas, para que não corresse a emoção de se lhe espetar o travão de mão pelo cu acima. Passando o gargalo de um cantil de bagaço entre nós, comentámos a noite, rimo-nos até às tantas e adormecemos felizes por no dia seguinte haver mais.
De 1972 a 1978 falhei apenas o Festival de Jazz de Cascais de 1976, pois nesses dias de Novembro deambulava por Katmandou, no Nepal, aguardando que o tipo que fizera a viagem comigo acabasse os tratamentos da febre tifoide e tivesse alta do hospital. Cascais tornara-se um clássico nas nossas vidas. Entretanto houvera uma revolução no país; acabara o curso de Medicina, e as estadias em Cascais tinham-se sofisticado: enrolávamos charros antes e durante os concertos, e já não dormíamos no Fiat. Numa dessas idas a jantar à tasquinha perto da estação, onde se continuava a comer bem e o pessoal se lembrava de nós de uns anos para os outros, déramos de caras com uma Residencial – eles, à moda antiga, chamavam-lhe albergaria – onde, às vezes, dormíamos quatro ou cinco num quarto para dois; um ano cheguei a experimentar dormir dentro da banheira, uma péssima ideia. O grupo de pessoas que migrava do Porto alargara-se e diversificara-se à medida das novas amizades, das novas namoradas e, em 1978, ano da 8.ª edição do Festival, a comitiva que saiu da cidade, numa caravana de três automóveis, incluía uma dúzia de peregrinos, quatro dos quais eram raparigas e, enquanto nós ficaríamos, como de habitual, na Albergaria Valbom, elas beneficiariam de alojamento em casa de uma amiga das mães, ao que parecia natural do Porto, mas a viver em Cascais há muitos anos.
Assim, mal pousámos os carros, uma delas entrou numa cabina telefónica para  anunciar a chegada e combinar a estadia em casa da tal senhora. O resto de nós manteve-se nas imediações, a desentorpecer as pernas das horas enfiados nos automóveis. A páginas tantas, a porta da cabine abriu-se e a Gabriela (que andava entremeada com o meu primo Manel), ainda de telefone na mão, chamou-nos e quis saber a opinião dos rapazes:
“A Zé manda perguntar se vocês querem ir jantar lá casa...”
“Quem é a Zé? Ir jantar quem?”, tentou precisar um de nós.
“É a dona da casa. Todos...”, disse a Gabi com um sorriso.
Ali, no meio da rua e da tarde que já se afundara, senti-me estupefacto: eram quase sete da tarde, éramos uma dúzia deles; como podia alguém convidar assim, de repente, para um jantar, uma multidão destas?!
Alguém ainda levantou a questão de se teríamos tempo de ir jantar não sei onde e estar a horas no pavilhão. A Gabi, que ia trocando informações com o bocal do telefone, garantia que sim, que o recinto era perto da tal casa; que assim as malas delas já lá poderiam ficar, só vantagens.
Fui arrastado para o sim mais ou menos geral, mas, um resto de mim, agarrava-se à ideia de ser muito mais simples jantar por ali, ao meu ritmo, e não estar a comparecer a um jantar estranho, a fazer cerimónia, a procurar frases polidas; a ter de investir esforços por uma transitória hora de convívio com desconhecidos. Era o género de empreendimento que me dava um certo galo, mas todas elas – os únicos de nós que conheciam quem nos convidara – garantiam que íamos gostar, que era uma gente muito simpática e hospitaleira e, ainda por cima, comentou uma delas, “o António não estava lá”; fosse quem fosse o tal António.
“Tá combinado”, anunciou a Gabi descendo da cabina telefónica, “a Nita vai ter connosco à porta da Albergaria daqui a vinte minutos; assim ainda há tempo de irem lá pousar as vossas tralhas...”
Quando desci do quarto, a tal Nita já chegara e conversava no círculozinho frenético formado pelas raparigas na soleira da porta da albergaria. Era uma morena bonita, tostada por praia recente, num conjunto de olhos escuros e cabelo negro e liso que lhe davam um certo sabor indiano; e a sua missão imediata era meter-se num dos carros e servir-nos de guia até casa da mãe. No final do jantar, apanharia boleia connosco e guiar-nos-ia até ao Dramático – como ela dizia – onde tinha um part-time a  dar uma mão no bar durante os concertos.

“Acabo por assistir a tudo, de graça!”, confidenciava, radiante com a pechincha.