14 dezembro 2017

NUM DOCE BALANÇO, CAMINHO DO MAR

Da esquerda para a direita: Manuel Delgado e Paula Costa.
Parece que o ex-secretário de estado da Saúde Manuel Delgado, depois da tristíssima figura que fez na entrevista à TVI, intenta ainda processar aquela estação televisiva por "devassa da vida privada". Seria bom que o Sr. Dr.  pensasse bem antes de somar mais disparates aos que já produziu e, amigavelmente, aconselha-lo-ia a estar calado e quieto, evitando aparecer mais nos órgãos de comunicação social e até na rua. 
É que se arrisca a que lhe digam que a tal devassa da vida privada de que fala foi produto marginal de uma investigação a malabarismos feitos à custa de dinheiros públicos, em funções de Estado.
E, como se não bastasse, tentou enganar-nos a todos sobre o assunto, metendo, ao vivo e nas cores rosadas da falta de vergonha, os pés pelas mãos de um modo quase doloroso de assistir.
Da esquerda para a direita: Paula Costa e Manuel Delgado.



Nota: Pelas imagens um agradecimento à TVI, e pelo título deste texto um agradecimento à inspiração de Vinícius de Moraes e António Carlos Jobim na canção "Garota de Ipanema".

12 dezembro 2017

SENHORA DA APARECIDA

Talvez não fosse exactamente igual a esta, mas era muito semelhante. Talvez a nuvem onde ela pousa os pés tivesse também umas pombas anichadas, já não recordo exactamente. Sei que a comprei numa loja do aeroporto de Lisboa, devia ter um pouco mais de um palmo de altura e a coroa viajou separada da cabeça da Senhora no embrulho, para que não se amolgasse. Já em Mumbai voltei a coroá-la convenientemente com o auxílio de um pingo de cola.
Quando a recebeu, e após murmurar “Ah, Lady Fatima”, o Sr. Mendes executou um curioso ritual: primeiro, tomando-a entre mãos, ergueu-a alto, encostando a coroa da Virgem à testa; em seguida fez rodar a estátua em torno da cabeça, pausando aqui e ali como se se detivesse nos quatro pontos cardiais; nada que católicos das nossas bandas se lembrem de fazer quando apanham uma imagem da Imaculada nas mãos. Depois pousou a Virgem com cuidado no balcão e pareceu voltar a nós e à sua loja de panos, rendas e bordados situada ao fundo da Shahid Bagat Singh Road, no coração da baixa de Mumbai, uma movimentadíssima rua comercial onde fica o famoso Café Leopold, visitado por tudo quanto é viajante desde 1871 e, por isso, vítima dos atentados terroristas que assolaram a antiga Bombaim em 2008.
Mas há três ou quatro anos, quando, por quase acaso, demos com ela ao fim da rua, além da horda das bancas de vendedores que intoxicam os passeios, já nesses dias era uma loja decrépita com algo de retrosaria de província portuguesa em crise de trespasse. A montra, decorada como se não obedecesse a outro critério que a dos salvados numa loja de velharias, tinha expostas toalhas e guardanapos com curiosos bordados, alguns ingénuos, outros toscos, e uns poucos muito bonitos. Mas a esses, aos que valiam a despesa, o Sr. Mendes não os vendia... Estavam ali desde o tempo da mãe – Mrs. J. Mendes, a proprietária original da loja e senhora já falecida. Mrs. J. Mendes era natural de Goa, mas o filho, apesar do apelido, já não recordava o português; há muitos anos que tinham subido do Sul para Mumbai, da família restava apenas ele e um irmão que vivia em Londres.
Era Dezembro e, nessa primeira vez, saímos da loja com aquilo que o Sr. Mendes nos resolveu ceder, uma toalha de mesa e um conjunto de guardanapos, debruados com motivos natalícios em vermelho e verde, picotados no linho pelas órfãs do colégio de Goa que davam substância às encomendas de Mrs. Mendes.

No ano seguinte voltámos a Mumbai, a loja ainda lá estava e o Sr. Mendes continuava a não vender a parte mais interessante do recheio de um estabelecimento cada vez mais desfasado e desfalcado; achámos o próprio dono algo mais lento na compreensão, mais distanciado do interesse em comerciar fosse o que fosse. Aquilo que o animava mesmo era reconhecer que éramos portugueses, salvo-conduto para falar da mãe, de Goa, da fé católica, de como tinha visitado Fátima e Lurdes há muitos anos... E, para o ilustrar, sacava de uma carteira albardada de papéis, na qual, com dedos imprecisos, pescava um anúncio desbotado de um itinerário por cidades europeias em que as contas do rosário eram as atracções religiosas: Santiago de Compostela, o Vaticano... Fátima... E com uma unha amarelada e devota apontava-nos a pintura da Virgem pendurada por sobre a porta de entrada, iluminada por uma lâmpada eléctrica em forma de chama de vela apesar da luz violenta da tarde indiana.
Este ano de 2017 regressámos à loja ao fundo da Shahid Bagat Singh Road. Será que ainda estaria aberta? Será que o Sr. Mendes ainda era... Ainda, embora mais trémulo do que anteriormente, esboroando-se no esquecimento como a própria loja, à qual ruíra uma parede e escoras sustinham o tecto. O Sr. Mendes, entrincheirado ali dentro, parecia perdido na nova geografia e quase não havia mercadoria à vista, encontrava-se toda sob os plásticos que protegiam os rendados da caliça e os bordados da poeira dos escombros. Será que ainda se recordava de nós? Afinal éramos visitas que ali pousavam escassos minutos, uma vez por ano... “Ah, Lady Fatima”, murmurou quando retirei o presente do saco e lho passei para as mãos. Depois executou um curioso e silencioso ritual com a estátua e, quando terminou, pôs-se a pesquisar sob os plásticos que cobriam a mercadoria, acabando por nos oferecer um guardanapo de chá, bordado com pouca mestria por alguém de Goa que em tempos trabalhara para a sua mãe. A referência a Goa pareceu despertá-lo para uma qualquer ideia e deu em procurar nas páginas de uma velha agenda com entradas por ordem alfabética e onde nomes e números estavam registados em ordenada letra. Desligando o som à televisão e chamando-me para perto dele, pôs-se a discar números no telefone; minutos mais tarde dei comigo a falar com Goa, com pessoas cujo único cordão umbilical comigo era o falarmos português. Sim, eu era mesmo português... Se morava em Lisboa? Não exactamente, mas a umas dezenas de km... Ah, sabia muito bem onde eram os Olivais (local onde a senhora desconhecida que falava comigo tinha uma prima). Pois, muito gosto também. Até um dia... O Sr. Mendes tentou ainda outros números em Panjim, em Margão, mas ou as pessoas não atendiam ou a chamada ia abaixo. Como o vi contrariado, encravado numa qualquer decisão que não alcançava, deixei-lhe os meus contactos escritos para o que desse e viesse: nome, telemóvel português, o hotel onde ia ficar em Goa nos dias seguintes; tudo em letra de imprensa, cuidadosamente desenhada, pois os caracteres do alfabeto Marata não são, sequer, semelhantes aos nossos nos contornos que a mão deve traçar.

Umas manhãs gloriosas mais tarde, em Benaulim, dei com um envelope encaixado na maçaneta da porta da nossa villa. O serviço de hóspedes informava que um tal Mr. Mendes, “from Colaba, Mumbai”, tinha ligado insistentemente, pedindo que o contactasse no 9821271670. “Deve ser o Sr. Mendes, a comunicar mais uns contactos em Goa”, pensei enquanto aguardava que a recepção me completasse a chamada. Mas quem me atendeu do lado de lá não foi o inglês hesitante nem a voz sumida do Sr. Mendes da loja antiga de Colaba. Este era o outro Sr. Mendes – literalmente Mr. Mendes – irmão do Sr. Mendes, o que vive em Londres e vem à Índia de três em três meses. Num inglês fluente e rápido, o irmão mais novo – embora já tivesse chegado aos setenta, como me confessou – agradeceu profusamente a prenda e o cuidado que eu dispensara ao irmão, com quem andava preocupado. Numa dessas vindas de Inglaterra dera-se conta da degradação da loja e do estado delicado da saúde e da autonomia do irmão. A pouco e pouco, estava a tentar convencê-lo a vender a ruína em que se tinha transformado o estabelecimento e a empregar o dinheiro resultante no amaciar dos sobrantes dias dos quase oitenta anos do irmão mais velho.

Mr. Mendes parecia a par de tudo o que nos dizia respeito, desde as visitas ao irmão até à data em que íamos deixar a Índia de regresso a Portugal, lamentando essa data, sobretudo por ser coincidente com o dia em que, no expresso ferroviário de Mumbai, chegaria a Goa e por essa sobreposição temporal impedir que nos conhecêssemos e nos pudesse convidar para almoçar convenientemente. “Fica para outra vez”, prometi-lhe e a mim próprio, havemos de voltar. E, dando o tempo por bem empregue, dediquei-me a soletrar o meu endereço electrónico ao terceiro dos Mendes.
© Fotografias de pedro serrano, Mumbai (Índia), 2017.

05 dezembro 2017

A CAIXA MÁGICA

No sul anoitece rápido. É dia, durante uns minutos a luz amacia-se e, de súbito, deixamos de ver onde pomos os pés, sentimos o desejo do regresso a casa, mesmo que essa seja o quarto temporário de um hotel.
Iniciara-se esse introito ao crepúsculo e eu atravessava um parque de estacionamento, improvisado numa praceta, mirando os enormes morcegos que deixavam o poiso diurno nas árvores e inauguravam o anoitecer, quando senti uma voz tímida chegando-me do flanco: “shoeshine, sir?”
Olhei, embora soubesse o que acontece na Índia quando nos interpelam e a gente olha: alguém, até ao nosso desespero, não nos largará mais na proposta de um negocio ou serviço. Olhei e deparei com um rapaz que, numa mão, segurava uma escova e, na outra, uma latita circular de graxa. Mas onde estava a caixa de engraxar, como se proporia ele tratar-me dos sapatos? “Shoeshine?”, voltou a perguntar em voz quase envergonhada, “only ten rupees, sir...” Dez rupias são dez cêntimos e, mesmo na Índia, ninguém pede tão pouco por um serviço, sobretudo no primeiro embate da negociação de um preço. Aquilo, pensei para mim, era a tentativa realista de alguém que sabe que lhe restam escassos minutos para poder ver o que está a fazer, a última possibilidade de negócio do dia, como quando os supermercados baixam os preços dos frescos perto da hora do fecho. “Only ten rupees, sir, I’m hungry...”, insistia ele explicando-se e alargando ligeiramente os braços onde a escova e a lata continuavam penduradas, à espera.
“Ok”, anuí, procurando em volta e esperando ver aparecer, detrás de um dos carros estacionados, uma caixa de engraxador onde pudesse apoiar o meu sapato empoeirado. Já acocorado aos meus pés, o rapaz bateu na fímbria das minhas calças, fazendo sinal para que me descalçasse, e fazendo aparecer do nada um pedaço listrado de saco de plástico, onde eu pousasse a minha meia e não a conspurcasse com a sujidade de Mumbai.
Via-o agora de cima, enquanto ele ia enrolando nos dedos generosas porções de graxa com que ia lambuzando o meu sapato esquerdo. Era um tipo muito novo, teria os seus dezoito anos, magro, tímido, e tudo quanto ia dizendo enquanto produzia o seu trabalho era feito em voz delicada, de quem desabafa mais do que se lamenta ou tem como intenção crua derreter os cordões à bolsa de quem ouve. Entre um sapato e outro dei por mim a fazer perguntas também.
Era de Jaipur, uma cidade do Rajastão, no norte interior da Índia, viera com duas irmãs e a mãe para Mumbai, a grande capital do sul, onde vivem cerca de vinte milhões de pessoas, à procura de uma melhor sorte – era isso que os quatro imaginavam – mas estava a ser difícil. Não conseguia arranjar trabalho, os polícias confundiam-no com um pedinte quando o viam de escova solta na mão, expulsavam-no dos passeios e impediam-no de abordar quem passava. Se ainda ao menos tivesse uma caixa de engraxar, poderia estabelecer-se num canto qualquer da rua sem que o corressem dali, poderia chegar a fazer 200 rupias por dia (2,5 euros), era quanto lhe bastaria para se suster a si e à família...
Neste ponto da conversação já eu me deixara de perguntar se o que me chegava, subindo dos meus pés, correspondia a uma realidade ou a uma ilusão; já estava para além desse patamar da crença, de tal modo o seu lamento se casava com o encontro de alguém que encontrou um ouvinte e conta a surpresa dura da grande capital, o modo impiedoso e sem escapatória, sem esperança, de como foi acolhido por ela. E o seu Jaipur natal, que lhe parecera um dia tão impiedoso!
Dentro dos bolsos, os meus dedos rebuscavam e tinham substituído a nota de 10 rupias do preço ajustado por uma de 100 (1,3 euros). Ele polia agora o segundo sapato, continuava a descrever como uma caixa de engraxar podia mudar tudo aquilo, sobretudo o modo como passaria a ser visto pela polícia, como se a caixa trouxesse também com ela uma garantia de estatuto, uma cédula profissional.
“E quanto custa uma caixa dessas, com gaveta para as escovas e as latas, um molde para o pé do cliente?”, demonstrava eu o meu conhecimento de caixas de engraxador.
“Mil e quinhentas rupias, senhor”, respondeu prontamente; via-se que era assunto que já estudara.

Não há notas de mil e quinhentas rupias, a que lhe estendi, desdobrando perante os seus olhos uma ilusão duzentas vezes superior ao preço do serviço acordado, era uma de 2.000, o equivalente a duzentos pares de sapatos engraxados, por milagre, num único gesto. Ele ficou chocado ao perceber o que eu acabara de lhe passar para as mãos, tentou até que eu lhe desse a morada, para que pudesse pagar-me um dia a caixa de engraxar, o empréstimo. Mas onde íamos nós, no meio daquele nada, com a noite já instalada, arranjar papel, caneta e um apoio para escrever?

© Fotografias de pedro serrano. De cima para baixo: (1) e (2) Goa (índia), 2017; (3) Jaipur (Índia), 2013.

03 dezembro 2017

22 novembro 2017

CENAS DA VIDA MUÇULMANA EM MUMBAI



Mesquita de Haji Ali Darghi 





© Fotografias de pedro serrano, Mumbai (Índia), novembro 2017.

25 outubro 2017

REGRESSO

Bô dixam bai spiá nha terra
Bô dixam bai salvá nha Mãe...
Francisco Xavier da Cruz, "Mar Azul".
Vamos quase em novembro e, por todo este ano, ainda não caiu uma pinga de água no Maio. Enquanto sonha o verde tenro, o solo mantém-se seco, árido, malgrado a vegetação plantada para fixar terras e contrariar a erosão. A poeira é omnipresente.
O Maio é uma das nove ilhas habitadas do arquipélago de Cabo Verde e uma das mais periféricas na lembrança, pois não é capital, como Santiago, não possui o carisma de S. Vicente, os estonteantes contrastes de Santo Antão ou os resorts all inclusive da Boavista e do Sal.
No Maio, o mais notório é a plana monotonia da paisagem que restou de um vulcão depois de extinto e aplanado por duzentos milhões de anos de ventos soprados até ali desde o norte desértico de África.
Nessa manhã de Domingo, pelas dez horas, uma das duas carrinhas Toyota passou pela casa Amarela para nos buscar. A outra, tal como a nossa, andava a levantar pó pela vila de Porto Inglês e a pegar os restantes, pois, ao todo, seríamos uns vinte e cinco viajantes, os mesmos, em versão folgada, dos que tomavam parte no encontro médico que o liceu Horace Silver albergava durante uns dias. O programa desse dia consistia numa excursão à ilha, a qual incluiria uma visita ao centro de saúde e se concluiria com um almoço num alpendre com vista para o mar na residência onde estava hospedada a Maria da Luz, nossa anfitriã e de quem partira a ideia de reunir todos os delegados de saúde de Cabo Verde. Três horas bastariam para percorrer tudo quanto merecia ser visitado, ao que parecia, pois a ilha é pequena: 25 km de comprimento por 15 de largura.
Catados um a um, entre risos e conversas, arrancámos sob um sol abrasador, o astro esquecido de que despontara há apenas quatro horas.
Barreiro, Figueira Seca, Pilão Cão, eu ia reparando no nome de localidades que atravessávamos sem parar e de que a memória apenas retinha uma rua paralisada pelo calor. Entre duas localidades, nenhuma gente, somente aridez e pó e, aqui e ali, uns pés de milho desanimados, que mal ousavam a espiga; algumas verduras domésticas envergonhadas e os perfis magros de vacas e cabras que vagueavam na aspereza de encontrar sustento. Longe a longe, sem aviso, a explosão verde de um arbusto, numa cor excessiva para o leito arenoso e ocre de onde se erguia, fazia insuflar-me o peito com uma inspiração esperançada, como se tivesse acabado de engolir um gole de água fresca.
Há demorados minutos que deixáramos de ver o mar, e até as conversas tinham fenecido sob o calor, quando os meus olhos repararam numa tabuleta anunciando CASCABULHO e logo senti as carrinhas a travar num lugarejo que parecia ser constituído por uma única rua, em cujos becos espreitava a aridez do campo ou o verde empoeirado de uma acácia. “É para sair?” perguntámo-nos. Parecia que sim, e enquanto aguardava a vez de chegar à porta do veículo, chamou-me a atenção uma imensa panela que, no meio da rua, fumegava sobre brasas. Que seria aquilo?
A aldeia consistia numa rua de chão calcetado à mão-cheia, ladeada por casas de piso térreo, sem intervalo entre elas, e a casa em frente à qual, sob um loureiro-rosa em flor, fervia o panelão, pintava-se de azul intenso, amenizado por frontões brancos sobre as janelas. Dei por mim atraído pelo movimento que se encaminhava para a porta da pequena moradia, a ser saudado por um “seja muito bem-vindo” e um convite para entrar. Entrei, os meus olhos notaram a luz violenta que se infiltrava pela telha vã dos compartimentos; fui acenando em volta enquanto progredia pelas divisões apertadas, sentindo que atrapalhava as mulheres e raparigas que se afadigavam com travessas, pratos, talheres e esticavam entre as mãos oleados para cobrir as mesas postas no exterior, sob a sombra, curta mas generosa, do loureiro-rosa. Do interior de uma das janelas da casa um rapazito dispunha sobre o peitoril duas pequenas colunas de som, ligadas a um smartphone cuja música, em volume máximo, contaminava o ambiente e acenava à gente das redondezas. Que seria aquilo, quem seria o insensato que se dispusera a receber, para uma paragem apressada em nenhures, aquela quantidade de gente?!
Ia perguntá-lo a um colega que, como eu, se abrigava do calor sob o beiral estreito da casa quando uma brigada de rapazes nos empurrou para dispor nessa sombra dois ou três bancos corridos que tinham tomado, em empréstimo urgente, à capela local. E estava a festa pronta e a decorrer, e ainda as toalhas de oleado com frutas alegres estampadas ondeavam sobre as mesas, e já uma alma atenta me enfiava nas mãos um caldo fumegante, retirado à panela que rescendia no meio da rua. Era uma canja, amarela como as canjas, saborosa como as do Eça de Queiroz, mas de cabrito e não de galinha, que as cabras safam-se melhor nos terrenos onde parece nada restar para alimentar os seres. Mas ainda eu sorvia a sopa e chupava os meus pedacinhos de carne e já grossas fatias de bolo de aspecto fofo iam sendo trocadas pelos pratos de sopa recolhidos e alguém desarrolhava uma garrafa nova de whisky.
E como tudo se desenrolava e explicava harmoniosamente por si só, bastou-me ver no mesmo enquadramento a dona da casa e a minha colega Hermita para perceber, na similitude dos traços físicos, que assistia ao regresso de uma filha a casa dos seus pais, um regresso partilhado e testemunhado por colegas de todas as ilhas de Cabo Verde,  onde ainda sobrara convite para dois portugueses e um representante da Organização Mundial de Saúde.
Hermita, que conhecera dois dias antes e estava alojada com alguns de nós na casa Amarela, deixara a sua aldeia de sol eterno ainda muito nova para estudar fora. O curso de Medicina fê-lo lá longe, na Rússia, seis anos a milhares de léguas de tudo, de casa, de Cabo Verde; forçada a trocar o clima macio e a morabeza natal pelo frios perenes do leste europeu, pela estranheza da língua e do modo de ser dos eslavos. De temperamento contido, a tudo resistiu sem queixa e voltava agora a casa, a mostrar, sem o declarar, aos seus que triunfara na demanda e honrara os seus. Isso tudo se compreendia, sem necessidade de palavras, no olhar, simultaneamente orgulhoso e feliz, com que a mãe mirava a filha naquele Domingo em que a festa se mudara, levando consigo os bancos, da igreja para a pequena casa azul de Cascabulho.
Nem uma meia-hora teria passado sobre a nossa chegada quando começaram a chamar para as carrinhas, apontando os relógios, anunciando que se fazia tarde. Antes de regressar ao meu assento, contagiado pela correnteza humana, atravessei ainda a rua para ir espreitar, na casa em frente, a avó de Hermita, que tinha feito cem anos por esses dias. “Acha boa ideia?”, perguntava-me o Paulo, hesitante, “não acha que toda esta gente pode significar uma invasão da privacidade da senhora?” Encolhi os ombros, não sabia o que pensar ou o que dizer. Éramos conduzidos por alguém da família e na sala que antecedia o quarto, parentes e vizinhos sentavam-se ao longo das paredes e, não fosse os semblantes sorridentes, poder-se-ia pensar que velavam um ente querido recentemente partido. Quanto ao visitante, este penetrava no pequeno quarto durante uns instantes para cumprimentar a senhora acamada e logo se retirar e, ao apertar a mão seca dela na minha, ao encarar os seus olhos vagos e atentos, riscados por cataratas, achei que visitar a velha senhora encerrava algo do propósito da visita a uma pessoa santificada, abençoada pelos anos e pelo rasto de gente com que presenteara o mundo na parcela de eternidade que lhe fora concedida.  
© Fotografias de pedro serrano, Cascabulho, ilha do Maio, Cabo Verde, Outubro 2017.