03 setembro 2015

NÃO VENHAS TARDE: 22. NA ARCA, COM NOÉ

O tempo tornou-se uma montanha russa, ora parece passar muito rapidamente e ainda agora era noite e já amanheceu ou, pelo contrário, os quilómetros não rendem. Não consigo dormir sentado, mas não tive outro remédio senão habituar-me, pois dois dias e duas noites fechado numa camionete é uma eternidade. Assim, o sono vem-me nos momentos mais inesperados e dou conta que dormi por me apanhar a cabecear contra o assento da frente. Há quem se tenha estendido na coxia, mas não me calha esse tipo de abandono.
A camionete só faz paragens se é preciso meter combustível e o motorista raramente cede aos pedidos de encostar por algum dos passageiros se encontrar pressionado por alguma necessidade fisiológica. Há quem tenha apanhado diarreias, há quem pense que vomitar o aliviará do grande enjoo das curvas incessantes da estrada. Quando isso acontece todos corremos lá fora a desentorpecer as pernas e a aspirar o ar fresco.
Fui perdendo a vontade de falar e depois a de escrever. Os pensamentos passam por mim como a paisagem, altos como as montanhas que perseguem as janelas com insistência, às vezes pairam lá no cimo, como as águias sempre a rodar no céu distante. Recordações de infância, após tantos anos enterradas no esquecimento, irrompem à tona, sem nenhuma espécie de associação que lhes possa ter assobiado. De repente parece que a minha vida ganhou longitude, que o que se passou vem ter comigo aqui no meio do nada. Ei, o que é aquela montanha imensa ali à direita com o cume nevado? Pelas exclamações circundantes de quem viaja com mapa, de quem saca da máquina fotográfica, percebo que é o monte Ararat onde, há uns milénios, terá encalhado a arca do Noé quando Deus puxou a tampa ao lavatório, as águas começaram a descer e o jardim zoológico estabilizou. É possível, pois temos passado
por abundantes oliveiras no percurso e assim a pomba teve onde ir bicar o seu raminho de “terra à vista”. Em termos mais prosaicos, significa também que estamos a chegar à fronteira do Irão. Ontem vimos um pôr-do-sol que o Rui catalogou de “a preto e branco” e, depois, as noites são lindas, claras, mantendo uma qualquer qualidade de primeira manhã, com as estrelas muito nítidas e enredadas na Via Láctea como lantejoulas ao fumeiro. Hoje, por outro lado, o nascer do sol foi em Kodachrome e dou por mim a cantarolar para dentro:
              When I think back
On all the crap I learned in high school
It's a wonder
I can think at all...[1]
As francesas continuam sentadas ao nosso lado, temos trocado alguma comida entre nós e parece-nos haver muita curiosidade da parte delas, manifestada pelo modo como se inclinam para a frente e torcem a cabeça de ladecos de cada vez que um de nós lhes dirige uma patacoada, o que não é muito frequente. Léa é do género loura generosa e Brigitte uma loura mignonne, de ossada vaporosa. O casalzinho de belgas, aqui à nossa frente, segue muito calado; não oferecem comida, não se viram para trás, parecem bastar-se a si próprios. Ele é arruivado, uns tufos de caracóis cor de cenoura escapam-se-lhe do boné à capitão de embarcação que mantém sempre enfiado na cabeça. Ela é uma loura baixinha, lustrosa como uma foca e com intensos olhos azuis. Não dão confiança a ninguém. 
São agora nove da noite e as luzes que se aproximam no meio da noite são as da fronteira. Depois de a atravessarmos ainda nos vão restar cerca de dezasseis horas de viagem até à capital da Pérsia/Irão.
Preparem-se berrou um dos malaios, a sorridente cabeça inclinada para o corredor da camioneta – quem tiver erva ou hash atire-a pela janela fora enquanto é tempo!


[1] “Kodachrome”, canção de Paul Simon no álbum There Goes Rhymin’Simon, 1973; Warner Brothers.

01 setembro 2015

RIA DE AVEIRO (que pena darem cabo dela)

1. Parecia uma manhã de sonho...
2. Eis senão quando uma descarga...
3. Quem por lá vive ficou aflito...
4. Veio à tona tentar perceber...
© Fotografias de Pedro Serrano, Torreira, Agosto 2015.

16 agosto 2015

O MELHOR A SER FEITO

Antigamente poderá ter sido um forno de cozer pão e o terreno onde se encontrava terá sido expropriado à casa, por trás do muro, para ali passar a rua que leva à praia.
Nessa manhã de Agosto estavam sentadas à sua borda duas miúdas dos seus treze, catorze anos, com o ar de profundo tédio que caracteriza os adolescentes.
Quando passava, uma delas, numa pronúncia nitidamente nortenha, berrou para uma senhora de cabelo branco que, no lado de lá do passeio, se atarefava, na companhia de uma outra mulher, a fechar um automóvel acabado de estacionar.
“Como é, avó? Despachem-se, estão para aí há uma eternidade...”
A interpelada olhou a neta, talvez surpreendida com tal urgência em dia de férias e passeio; questionou:
“Já vamos... E onde é que vocês querem ir agora?”
“Sei lá!”, exclamou a neta, profundamente indignada com a pergunta.
A velha senhora riu-se; foi o melhor que podia ter feito.

© Fotografia de Pedro Serrano, Praia da Areia Branca, Agosto 2015.

05 agosto 2015

NÃO VENHAS TARDE: 21. A VIDA QUE LEVO É MUITO SOSSEGADA

Istambul, 1 de Outubro
Agora, que aqui estamos há mais de uma semana, consigo ter uma impressão geral da cidade. E tal como Atenas, na sua branquidão e luz crua, se me parecia com Faro, Istambul faz-me lembrar Lisboa: no ar decadente de cidade mal cuidada, nas cores dos edifícios. Aqui, tal como em Lisboa, abunda o ocre descascado, o amarelo desbotado, o vermelho arroxeado de vinho-tinto vomitado.
Continuamos à espera de transporte para sair da cidade, talvez seja amanhã; hoje, na visita quotidiana à agência, o chefe mandou-nos ter as malas prontas, podemos vazar a qualquer momento, alguém irá avisar-nos ao hotel. Enquanto isso vamos levando uma vida muito sossegada, tenho-me lembrado amiúde do poema do Ferlinghetti:
A vida que levo é muito sossegada.
Passo os dias no café do Mike
a admirar os campeões
do grupo Dante de Bilhar
e os viciados dos matraquilhos [1]. 
A única diferença é que no nosso café se joga dominó, damas e cartas. De resto é uma mesa pacata e silenciosa, com o Rui a ler as peregrinações do Siddhartha e do Govinda, o Larry a escrever as suas notas e eu entretido com o Overland to India and Australia, que continua a ser o meu livro de cabeceira. Já vou no Paquistão e tenho aprendido imenso, que aquilo é mesmo bem-feito, um precursor dos Lonely Planet e dos Rough Guide de hoje em dia. O guia, feito a pensar nos viajantes pé-descalço como nós, fala de tudo: vistos e vacinas necessários para entrar num país; divisas e de como as comprar no mercado negro; locais onde ficar, preços, comodidades das instalações e, até se são seguros ou não; onde se come e por quanto e, sistematicamente, informações sobre as drogas recreativas que se podem encontrar em cada país: preços, onde as arranjar e perigos relacionados com a sua aquisição; posse e possibilidade de consumo em público. Inclusive, chega ao detalhe de listar o nome das pessoas que cumprem penas de prisão em cada um desses países e pede que os visitemos e lhes levemos bens básicos e companhia, que as prisões por aqui são um pesadelo de estadia e maus-tratos. A Turquia, por exemplo, é um dos países de grande dureza neste campo e um dos nomes que consta do Overland como estando actualmente encarcerado em Istambul é o de um americano que foi apanhado, na figureta de um bombista suicida, com uma grande quantidade de  barras de hashish enroladas no corpo e cuja história daria origem, dois anos mais tarde, ao filme O Expresso da Meia Noite [2].
Falando em americanos: o Doug já não nos faz companhia, infelizmente. Foi-se hoje em direcção a Israel e o Rui acompanhou-o ao outro lado do Bósforo, onde ia apanhar o seu transporte. Mesmo o Larry se prepara para abrir dentro de três ou quatros dias e nós, os que já devíamos ter partido há séculos, ainda por aqui criamos musgo. Gosto disso  e de ter percebido que estes atrasos nos trazem benefícios inesperados: foi assim que conhecemos de mais perto o Doug e o Larry, foi assim que dei conta que se ouvem as sirenes dos barcos do porto à noite, quando estou deitado na cama do hotel; que me habituei a esperar o canto dos muezins a horas certas. É curioso a gente pensar como  exclusivo muçulmano este convite cantado à oração, mas já em Atenas se ouvia cristãmente este mesmo tipo de chamamento pela tardinha.
À noite fomos jantar ao Lâle Pudding Shop e, por falar em Atenas, quem havíamos de encontrar a espiolhar o placard onde estão afixados os recados que os viajantes ali deixam? As duas irmãs austríacas que conhecemos em casa do David, no dia em que fomos expulsos do Hare Krishna Temple! Adivinhem para onde vão? Como o mundo é pequeno: aguardam a partida da mesma camioneta que nós!
Estivemos pelo Lâle até à meia-noite, saltando de celebração em celebração numa  orgia de cervejas, com os clientes a cantarem o “Frère Jacques  em coro, e quando regressámos ao hotel, já para o tarde e o entornado, o japonês informou-nos sem nenhum sinal exterior de comoção que o autocarro para Teerão parte amanhã às quatro da tarde. No seu leito, o alemão ressona na paz dos querubins assírios.
Encontrámo-nos com o Larry ao fim da manhã do dia seguinte, para um adeus, pois desta vez é que é mesmo. Estamos todos um pouco emocionados e ele não olhou para trás quando desatou a andar pela rua fora em direcção ao Güngör, o nosso hotel primevo em Istambul.
Aqui está a camioneta, aqui estamos todos a enfiar as mochilas no espaço por cima dos assentos; ninguém confia muito nos porta-bagagens. Ao nosso lado, do lado de lá da coxia, vão sentadas a Léa e a Brigitte, as  francesas louras, e à nossa frente sentou-se um casal de belgas que fez algum alarido ao chegar, pois achavam que estávamos sentados nos lugares que lhe competiam. Como assim, se a merda dos bilhetes não têm lugares marcados?!

Imagem: Cena do filme Midnight Express, 1978. 





[1] Lawrence Ferlinghetti, poema ‘Autobiografia’ da antologia Como Eu Costumava Dizer, Cadernos de Poesia, D. Quixote, 1972, tradução de José Palla e Carmo.
[2] Midnight Express, de Alan Parker, 1978.

02 agosto 2015

JANELA INDISCRETA


Nota: Janela Indiscreta (Rear Window) é um filme de 1954 de Alfred Hitchcock em que toda a história é contada/mostrada da perspectiva de um personagem que, aprisionado a uma cadeira de rodas por ter as pernas partidas, assiste ao que se passa nas janelas dos apartamentos fronteiros. Com James Stewart e Grace Kelly, entre outros.
© Fotografias de Pedro Serrano, Lisboa, Julho 2015.

24 julho 2015

ENTRETANTO EM CABO VERDE: OPERAÇÃO TORTILHA

Sentei-me na esplanada do Morabeza era já perto da hora do almoço, embora  estivesse ali a matar saudades usando como pretexto um pequeno-almoço tardio. Numa mesa à minha esquerda estava encaixado um tipo enorme, de óculos escuros à mosca, envergando uma t-shirt de padrão camuflado. Nervoso, batia sem cessar com uma garrafa de água de plástico vazia na borda da mesa, perturbando um pouco a morabeza envolvente.
Chegou o meu sumo de ananás com hortelã e chegou um colega do artista da garrafa tamborilante: este era igualmente enorme, musculado como um vigilante das noites do Porto; vestindo roupa caqui, óculos escuros na testa, ar desconfiado e tenso. E mais preocupado ficou quando a moça que servia às mesas – uma brincalhona de boininha verde-pistáquio e polo cor-de-rosa flamingo, lhe ralhou brejeiramente: “Então isto hoje são horas de chegar! Daqui a pouco já não te dava almoço...” E ele a levar o responso a sério, justificando-se muito, pousando os dossiers que sobraçava numa cadeira vaga.
Formadores portugueses de pessoal militar, concluí numa mirada preguiçosa, pois há um quartel ali por perto, com uma magnífica vista sobre o mar – eu e o Paulo andámos por lá numa tarde sonolenta a coscuvilhar o interior com a pachorrenta cumplicidade dos responsáveis de serviço – devem vir aqui almoçar todos os dias. Com aquele ar de rambos e aquela rotina alimenatar não era preciso pensar muito para chegar a essa conclusão, aliás estava demasiado calor para pensar.
Ao mesmo tempo que o segundo Rambo fez a sua entrada, chegou uma dupla constituída por uma mãe e sua encantadora filha, uma donzela de suprema graça e de fazer torcer pescoços na sua t-shirt negra cabeada, na saia comprida de piedpul em xadrezinho cinzento e preto. Sentaram-se mesmo em frente a mim e tirei a máquina fotográfica do estojo para  obter uma foto discreta. Tento sempre que as  fotografias sejam tiradas de modo não ostensivo, imperceptível se possível, embora, em certas ocasiões, os visados se apercebam da minha curiosidade. Às vezes isso fica a notar-se na imagem final pelo olhar directo para a objectiva com que são imortalizados. Quase sempre não se importam, as mulheres fazem até amiúde um sorriso contente ou malandro dirigido ao vácuo. Saem geralmente muito boas essas fotos em que é captado o visado a fazer luzir um olhar de entendimento e de cooperação, involuntária e instantânea, com o fotógrafo.
Desliguei a máquina; já tinha obtido as minhas fotos, e a tosta mista chegara. Estava a trincá-la em sossego quando o segundo Rambo, que até aí estivera entretido, de garfo empunhado na vertical, a despedaçar umas coxas de frango, se levantou, chegou à minha beira e, sem preâmbulo, prólogo ou introdução, declarou:
“Não quero que o senhor me tire fotografias...”
“Escusa de se afligir, você é um bocado feio para o meu gosto...”
Ficou desconcertado com a reposta, suponho que estaria mais à espera de uma réplica salpicada de “deu entrada já cadáver”, “o alegado indivíduo”, “quando os nossos homens chegaram ao local” e outras das pérolas que integram o léxico de polícias e bombeiros. Mas continuou numa arenga amuada de que vira a máquina assestada à mesa dele, a objectiva ora aberta ora fechada...
“Ouça,” tentei chamá-lo à realidade, “não estava a focar a sua mesa, não há nada na sua mesa que me interesse; estava a tentar fotografar um pouco mais à direita...”, respondi, a ver se o tipo olhava em volta e percebia que havia coisas mais interessantes na paisagem do que tipos a fazer de agentes secretos.
Nada, não valeu a pena, Rambo2 continuou naquela de “só quero que não me tire fotografias, ok?” e, como um guarda-fatos ambulante, lá regressou à mesa de onde continuou a desferir olhares de atenta desconfiança até ao momento em que chamei Miss Pistáquio, paguei a conta e me fui, desejando “bom proveito” ao passar pela mesa deles a caminho do Pão Quente, onde o café é melhor e não havia objectivos militares à vista.

© Fotografias de Pedro Serrano, Praia, Cabo Verde, Julho 2015. 

21 julho 2015

KRYFO LIMANI (Porto Secreto)

Estou sentado na mesa ao fundo do corredor de entrada, sob uma parreira de uvas dedos-de-dama que ainda não pintaram. Daqui vejo perfeitamente quem se aventura pelo passadiço aberto e espreita a zona de refeições, toda ela esplanada descoberta, metade sob um limoeiro, o resto sob latadas de videiras. E tenho pena de quem recua, de quem, por qualquer motivo, pensa que o melhor é ir procurar outro sítio para jantar; apetece-me dizer-lhes: “Ei, não façam isso, estão no melhor local para se comer em Hydra.”
Suponho que parte dos que desistem o fazem por andarem à procura de pizzas ou hambúrgueres, talvez comida gourmet ou sushi com queijo Philadelphia... E isso, definitivamente, não encontram aqui, Deus Seja Louvado. Talvez que o outro resto dos que fogem se assustem com o kitsch do local, com as carapaças de lagosta que parecem trepar os muros, com as metades de cavalo que saem pelas paredes, as cabaças pintadas de cores berrantes enforcadas na estrutura de ferro que suporta as videiras...

Mas a placa que se encontra pendurada à porta não engana ninguém, o restaurante classifica-se a si próprio de TAVERNA, a palavra grega é, aliás, literalmente clara para um português ou para um espanhol. O Kryfo Limani não pretende ser outra coisa, em Portugal seria descrito como “aquela tasquinha onde se come tão bem”. Tudo quanto se possa pedir da ementa – e nas minhas várias idas a Hydra comi lá vezes suficientes para a ter experimentado – vem excelente, por exótico que possa parecer ao chegar à mesa. Tudo! Sabem, aquele tipo de pratos muito simples, mas em que o produto base é excelente e a confecção é minimalista? Nada de riscos de chocolate fundido ou de groselha a enfeitar o fundo do prato ou de crostas de broa a ensanduichar um bacalhau reduzido a 62.º graus centígrados em azeite tão virgem como a mãe do chef.
Ao correr da água na boca deixo por aqui algumas sugestões: peça-se, como entrada, tzatziki, um iogurte natural, branco e grosso, batido com raspas de pepino e alho, que vem fresco e é o que aquele pão posto na mesa está a pedir para ser barrado com..., enquanto aguarda que chegue a fava, um puré de lentilhas coroado com gomos de cebola crua – cebola nas antípodas do raivoso, quase doce – e acompanhado por limão, o qual espera apenas ser espremido sobre todo aquele conjunto. Oh! delícia das delícias, que, no seu amarelo quente, empurra o nosso anémico puré de batata para o esquecimento. O nome Gigantes deu-lhe no goto pela similitude com a palavra portuguesa e mandou vir, mesmo sem saber o que é? Pois fez bem: será presenteado com um estufado de tenros feijões de tamanho gigantesco, aquilo que por cá chamamos feijocas. Eu, olhe, resolvi antes pedir salada de polvo como entrada, aquele molho calha bem com o pão da minha cesta, onde também chegam acomodados os talheres e o guardanapo de papel. Ontem, como prato principal, comi as almôndegas de borrego em molho de tomate,
acompanhadas de batatas fritas caseiras, a estourar de douradas; hoje resolvi experimentar o ragout do mesmo bicho, acompanhado com courgettes e cenouras estufadas, tudo afogado em molho de limão e ovo. A travessa tem um ar duvidoso, mas que sabor e como aquele borrego se deixa desfiar sob o garfo... Já não consigo meter um dedo na boca e peço a conta, mas sou um cliente tão fiel que insistem em me brindar com um creme queimado cuja base é um doce de limão com raspas da casca incorporadas. Como posso negar quando é on the house?
Jiboio, serpenteio o olhar pelos comensais das outras mesas e toda a gente me parece possuída por um sentimento em torno da comida que lhe coube e que muitos deles – estrangeiros como eu – não sabiam muito bem em que consistiria. Vejo, então, surgir ao fundo do corredor um casal jovem. Ela fica-se à entrada, ele penetra por ali dentro, detém-se nas águas territoriais da minha mesa, o sítio ideal para uma perspectiva global do território. Percebo que não apreciou o aspecto geral e eis que, antes de recuar, se vira para trás e diz num português bem claro e num volume só usado por quem tem a certeza que ninguém irá compreender o idioma:
“Vamos procurar outro sítio...”   
“Não faça isso!”, dou por mim a dizer no mesmo volume, “está prestes a poder comer no melhor restaurante de Hydra...”
E eis que, refeita a surpresa, celebrada a satisfação do encontro, resolvem seguir o meu conselho e não só ficam a jantar como registam algumas das minhas dicas gastronómicas.
“Hum, puré de lentilhas...”, diz ela, olhos brilhantes, num sotaque lisboeta, “adoro lentilhas...”
E lá se vão ao repasto para uma ilha sob o limoeiro.
Paguei a minha despesa, despedi-me dos empregados, e antes de me ir à vida passei pela mesa dos meus compatriotas a ver que tal. No momento, atacavam com furor o pão e uma colorida salada mista de tomate, pepino e cebola; num vai e vem imparável passeiam um já viciado garfo pelo puré de lentilhas.
“Então, que tal?”, pergunto.
Tem a boca cheia, coitados, pouco mais podem fazer do que abanar com as cabeças, deixar escapar uns “humms”.
“Agora estamos à espera das almôndegas, da salada de polvo e da moussaka...” 
Despeço-me com simpatia, votos de boa continuação e um feliz regresso à pátria. Acho que pediram comida a mais, mas isso caberá a eles descobrir quando tiverem de trepar os degraus de volta ao hostel onde estão alojados. 
  
© Fotografias de Pedro Serrano, Hydra, Grécia, Julho 2015.

17 julho 2015

PETER'S COLLECTION

1. Peter's collection.

2. Peter's collection - the come back.
3. O pensador.
4. Polícia marítima (dizem que uma delas chegou à ilha transportada numa concha).
5. Big Belly.
© Fotografias de Pedro Serrano, Hydra (Grécia), 2015.

15 julho 2015

VOU-TE CONTAR: 70. APRENDENDO O ABC

Meio século depois ainda me interrogo por que raio chamaríamos nós caramileiro ao homem? Seria por causa da bata branca que sempre usava? Nesses anos 60 de que falo havia à porta das escolas e dos liceus uns carrinhos de madeira que vendiam chupa-chupas e outras guloseimas cujo denominador comum eram as cores fortes (vermelho strawberry-fields-forever; verde-papagaio; amarelo goodbye-yellow-brick-road) e a uniformidade minimalista da composição: açúcar e corantes. Minto, alguns deles, uns em forma de guarda-chuva gordinho, eram revestidos de hóstia, a primeira coisa a derreter-se quando, pensativamente, os rodávamos dentro da boca. Divago: frequentemente os vendedores desses carrinhos usavam uma bata para se distinguir, às vezes azul outras vezes branca. Seria por isso que chamávamos caramileiro ao homem? É claro que esta alcunha, embora do domínio universal, não podia ser pronunciada em voz alta, sob grande risco de reguadas, que o caramileiro tinha um feitio algo emotivo. Quando nos lhe dirigíamos era pelo seu verdadeiro nome, isto é: Sr. Araújo, que todos nós, em afinada imitação, pronunciávamos como Seraújo.
Tudo isto se passou numa zona do Porto conhecida como Amial e, nesses dias, eu morava na Rua Nova do Tronco, uma rua que me parecia a uns 200 km do Bairro da Azenha, onde ficava a escola. Essa distância mítica (a real percorre-se, a pé, em dez minutos) resulta possivelmente de este trajecto casa-escola ter representado o meu primeiro contacto com o mundo exterior, longe das saias da minha mãe e dos muros da minha casa na Rua dos Padres Capuchinhos, como era popularmente conhecida.
Rapidamente me viciei naquela liberdade, nas infinitas possibilidades do trajecto: não é que a gente podia chegar à escola virando na Rua do Amial e subindo a rua da Azenha, mas regressar dela descendo a Rua da Ribeira Grande até à Rua do Amial?! (Demorei também quase meio século a dar-me conta da pressuposta abundância em água do ambiente em que morava: azenha, amial, ribeira grande, arca de água...).
Ao cimo da rua da Azenha, escassos metros antes de se virar para a rua que nos fazia desaguar na escola, havia uma mercearia onde, usando a  semanada ou as moedas surripiadas de sobre as cómodas, comprava todas as caixas de chicletes Adams que conseguia; caixas das pequenas, quero eu dizer, daquelas que traziam apenas dois encantadores quadradinhos cor de neve, polidos e reluzentes como os dentes da frente da Adelina, a minha primeira paixão antes dos onze anos. É que havia duas modalidades de caixas à venda: uma delas – tipo familiar, suponho – continha uma dúzia de chicletes, um empreendimento que não estava ao alcance de qualquer bolsa! Mas as pequeninas desempenhavam bem o seu papel de me fazer sentir rico pela quantidade chocalhante com que me enfunava os bolsos, riqueza que usava quer para uso próprio quer como suborno para vários tipos de favores, como o de conseguir que alguém me mostrasse as cartas com mulheres nuas nas costas das espadas e das damas do baralho, ou me fizesse os deveres do dia seguinte, que eu, andando a escavar um subterrâneo no quintal de casa, tinha mais o que fazer.
Ah, mas o caramileiro, para além de ter olhos nas costas, parece que detinha poderes extrassensoriais! Ficou rubro de raiva quando descobriu que fora o Alvarinho a alinhavar os números da minha tabuada e ainda mais vermelho-apoplexia quando descobriu o meu ritual de trabalho à base de chicletes. Avisou logo que o meu pai ia ser convocado à escola para ser posto a par da bela peça que era o filho, mas, antes, para eu ir reflectindo no assunto, chamou-me lá à frente, perto da sua secretária, e mandou-me estender a mão. Apresentei a direita, pois sou canhoto, e não desconhecia, de experiências anteriores, como ia ficar a palma da mão: vermelha, quente, anestesiada e imprópria durante uma boa meia-hora. Mesmo sem se dar ao incómodo de se levantar, o Seraújo aplicou-me então uma boa dezena de reguadas, que o crime era grande, emitindo durante o processo uns pequenos silvos de esforço e satisfação (não inferiores aos que emite, nos dias de hoje, a tenista Maria Sharapova), para gáudio de todos os outros rapazes da sala, felizes pelo entretenimento e por não ser esta a vez deles.
Calculo que alguns dos que me leem, formatados já por estes tempos de
metodologias de educação pacifistas, estejam horrorizados com a violência infantil que descrevo. Nada disso, caros leitores, tudo aquilo era justo e merecido e nenhum de nós o sentia de outro modo: nunca o caramileiro me deu mais do que eu necessitava e nunca o fez por motivos outros que não fossem os da minha irrepreensível educação. Tal como todos os outros que passaram pelas suas mãos junto-me ao reconhecimento público de que era um bom professor e nos deixou bem preparados para o que vinha a seguir.
Na continuação do canto à letra A – a que este texto parece estar condenado: Adams, Amial, Azenha – deixem-me, antes de regressar ao presente, que diga algumas palavras sobre nomes que invoquei em linhas anteriores: Álvaro e Adelina.
O Álvaro era meu vizinho de carteira e todos o tratávamos por Alvarinho ou Varinho. A esta última variação não achava ele grande graça, pois vinha geralmente associada a uma cantilena de rima perfeita com que, em grupo e nas nossas vozes de anjo, o assediávamos. Rezava assim:
          Varinho coqueiro, Varinho totó
          Arrebita o cu e faz cocó.

Quanto à Adelina, que poderei dizer que faça justiça à luz com que iluminou os meus dias na quarta-classe? Como que caída do Céu, apareceu de repente na metade da escola onde andavam as meninas e, mal a vi pela cerca à hora do recreio, fiquei fascinado pelo seu cabelo liso e castanho, pelos grandes olhos a condizer, pelos faiscantes dentes da frente. Tinha chegado há pouco tempo ao Amial e morava numa casa moderna e sem telhado que é agora uma escola de condução. No caminho até lá, descendo a Rua da Azenha o mais devagar que conseguiam os meus pés, gastei resmas de caixinhas Adams para conseguir que, por uma brevíssima eternidade e antes de dobrarmos a esquina, me concedesse a felicidade de lhe dar a mão.    

© Fotografias, de cima para baixo: (1) Alf Sousa; (2) publicidade Adams; (3) Eduardo Serrano.