02 agosto 2015

JANELA INDISCRETA


Nota: Janela Indiscreta (Rear Window) é um filme de 1954 de Alfred Hitchcock em que toda a história é contada/mostrada da perspectiva de um personagem que, aprisionado a uma cadeira de rodas por ter as pernas partidas, assiste ao que se passa nas janelas dos apartamentos fronteiros. Com James Stewart e Grace Kelly, entre outros.
© Fotografias de Pedro Serrano, Lisboa, Julho 2015.

24 julho 2015

ENTRETANTO EM CABO VERDE: OPERAÇÃO TORTILHA

Sentei-me na esplanada do Morabeza era já perto da hora do almoço, embora  estivesse ali a matar saudades usando como pretexto um pequeno-almoço tardio. Numa mesa à minha esquerda estava encaixado um tipo enorme, de óculos escuros à mosca, envergando uma t-shirt de padrão camuflado. Nervoso, batia sem cessar com uma garrafa de água de plástico vazia na borda da mesa, perturbando um pouco a morabeza envolvente.
Chegou o meu sumo de ananás com hortelã e chegou um colega do artista da garrafa tamborilante: este era igualmente enorme, musculado como um vigilante das noites do Porto; vestindo roupa caqui, óculos escuros na testa, ar desconfiado e tenso. E mais preocupado ficou quando a moça que servia às mesas – uma brincalhona de boininha verde-pistáquio e polo cor-de-rosa flamingo, lhe ralhou brejeiramente: “Então isto hoje são horas de chegar! Daqui a pouco já não te dava almoço...” E ele a levar o responso a sério, justificando-se muito, pousando os dossiers que sobraçava numa cadeira vaga.
Formadores portugueses de pessoal militar, concluí numa mirada preguiçosa, pois há um quartel ali por perto, com uma magnífica vista sobre o mar – eu e o Paulo andámos por lá numa tarde sonolenta a coscuvilhar o interior com a pachorrenta cumplicidade dos responsáveis de serviço – devem vir aqui almoçar todos os dias. Com aquele ar de rambos e aquela rotina alimenatar não era preciso pensar muito para chegar a essa conclusão, aliás estava demasiado calor para pensar.
Ao mesmo tempo que o segundo Rambo fez a sua entrada, chegou uma dupla constituída por uma mãe e sua encantadora filha, uma donzela de suprema graça e de fazer torcer pescoços na sua t-shirt negra cabeada, na saia comprida de piedpul em xadrezinho cinzento e preto. Sentaram-se mesmo em frente a mim e tirei a máquina fotográfica do estojo para  obter uma foto discreta. Tento sempre que as  fotografias sejam tiradas de modo não ostensivo, imperceptível se possível, embora, em certas ocasiões, os visados se apercebam da minha curiosidade. Às vezes isso fica a notar-se na imagem final pelo olhar directo para a objectiva com que são imortalizados. Quase sempre não se importam, as mulheres fazem até amiúde um sorriso contente ou malandro dirigido ao vácuo. Saem geralmente muito boas essas fotos em que é captado o visado a fazer luzir um olhar de entendimento e de cooperação, involuntária e instantânea, com o fotógrafo.
Desliguei a máquina; já tinha obtido as minhas fotos, e a tosta mista chegara. Estava a trincá-la em sossego quando o segundo Rambo, que até aí estivera entretido, de garfo empunhado na vertical, a despedaçar umas coxas de frango, se levantou, chegou à minha beira e, sem preâmbulo, prólogo ou introdução, declarou:
“Não quero que o senhor me tire fotografias...”
“Escusa de se afligir, você é um bocado feio para o meu gosto...”
Ficou desconcertado com a reposta, suponho que estaria mais à espera de uma réplica salpicada de “deu entrada já cadáver”, “o alegado indivíduo”, “quando os nossos homens chegaram ao local” e outras das pérolas que integram o léxico de polícias e bombeiros. Mas continuou numa arenga amuada de que vira a máquina assestada à mesa dele, a objectiva ora aberta ora fechada...
“Ouça,” tentei chamá-lo à realidade, “não estava a focar a sua mesa, não há nada na sua mesa que me interesse; estava a tentar fotografar um pouco mais à direita...”, respondi, a ver se o tipo olhava em volta e percebia que havia coisas mais interessantes na paisagem do que tipos a fazer de agentes secretos.
Nada, não valeu a pena, Rambo2 continuou naquela de “só quero que não me tire fotografias, ok?” e, como um guarda-fatos ambulante, lá regressou à mesa de onde continuou a desferir olhares de atenta desconfiança até ao momento em que chamei Miss Pistáquio, paguei a conta e me fui, desejando “bom proveito” ao passar pela mesa deles a caminho do Pão Quente, onde o café é melhor e não havia objectivos militares à vista.

© Fotografias de Pedro Serrano, Praia, Cabo Verde, Julho 2015. 

21 julho 2015

KRYFO LIMANI (Porto Secreto)

Estou sentado na mesa ao fundo do corredor de entrada, sob uma parreira de uvas dedos-de-dama que ainda não pintaram. Daqui vejo perfeitamente quem se aventura pelo passadiço aberto e espreita a zona de refeições, toda ela esplanada descoberta, metade sob um limoeiro, o resto sob latadas de videiras. E tenho pena de quem recua, de quem, por qualquer motivo, pensa que o melhor é ir procurar outro sítio para jantar; apetece-me dizer-lhes: “Ei, não façam isso, estão no melhor local para se comer em Hydra.”
Suponho que parte dos que desistem o fazem por andarem à procura de pizzas ou hambúrgueres, talvez comida gourmet ou sushi com queijo Philadelphia... E isso, definitivamente, não encontram aqui, Deus Seja Louvado. Talvez que o outro resto dos que fogem se assustem com o kitsch do local, com as carapaças de lagosta que parecem trepar os muros, com as metades de cavalo que saem pelas paredes, as cabaças pintadas de cores berrantes enforcadas na estrutura de ferro que suporta as videiras...

Mas a placa que se encontra pendurada à porta não engana ninguém, o restaurante classifica-se a si próprio de TAVERNA, a palavra grega é, aliás, literalmente clara para um português ou para um espanhol. O Kryfo Limani não pretende ser outra coisa, em Portugal seria descrito como “aquela tasquinha onde se come tão bem”. Tudo quanto se possa pedir da ementa – e nas minhas várias idas a Hydra comi lá vezes suficientes para a ter experimentado – vem excelente, por exótico que possa parecer ao chegar à mesa. Tudo! Sabem, aquele tipo de pratos muito simples, mas em que o produto base é excelente e a confecção é minimalista? Nada de riscos de chocolate fundido ou de groselha a enfeitar o fundo do prato ou de crostas de broa a ensanduichar um bacalhau reduzido a 62.º graus centígrados em azeite tão virgem como a mãe do chef.
Ao correr da água na boca deixo por aqui algumas sugestões: peça-se, como entrada, tzatziki, um iogurte natural, branco e grosso, batido com raspas de pepino e alho, que vem fresco e é o que aquele pão posto na mesa está a pedir para ser barrado com..., enquanto aguarda que chegue a fava, um puré de lentilhas coroado com gomos de cebola crua – cebola nas antípodas do raivoso, quase doce – e acompanhado por limão, o qual espera apenas ser espremido sobre todo aquele conjunto. Oh! delícia das delícias, que, no seu amarelo quente, empurra o nosso anémico puré de batata para o esquecimento. O nome Gigantes deu-lhe no goto pela similitude com a palavra portuguesa e mandou vir, mesmo sem saber o que é? Pois fez bem: será presenteado com um estufado de tenros feijões de tamanho gigantesco, aquilo que por cá chamamos feijocas. Eu, olhe, resolvi antes pedir salada de polvo como entrada, aquele molho calha bem com o pão da minha cesta, onde também chegam acomodados os talheres e o guardanapo de papel. Ontem, como prato principal, comi as almôndegas de borrego em molho de tomate,
acompanhadas de batatas fritas caseiras, a estourar de douradas; hoje resolvi experimentar o ragout do mesmo bicho, acompanhado com courgettes e cenouras estufadas, tudo afogado em molho de limão e ovo. A travessa tem um ar duvidoso, mas que sabor e como aquele borrego se deixa desfiar sob o garfo... Já não consigo meter um dedo na boca e peço a conta, mas sou um cliente tão fiel que insistem em me brindar com um creme queimado cuja base é um doce de limão com raspas da casca incorporadas. Como posso negar quando é on the house?
Jiboio, serpenteio o olhar pelos comensais das outras mesas e toda a gente me parece possuída por um sentimento em torno da comida que lhe coube e que muitos deles – estrangeiros como eu – não sabiam muito bem em que consistiria. Vejo, então, surgir ao fundo do corredor um casal jovem. Ela fica-se à entrada, ele penetra por ali dentro, detém-se nas águas territoriais da minha mesa, o sítio ideal para uma perspectiva global do território. Percebo que não apreciou o aspecto geral e eis que, antes de recuar, se vira para trás e diz num português bem claro e num volume só usado por quem tem a certeza que ninguém irá compreender o idioma:
“Vamos procurar outro sítio...”   
“Não faça isso!”, dou por mim a dizer no mesmo volume, “está prestes a poder comer no melhor restaurante de Hydra...”
E eis que, refeita a surpresa, celebrada a satisfação do encontro, resolvem seguir o meu conselho e não só ficam a jantar como registam algumas das minhas dicas gastronómicas.
“Hum, puré de lentilhas...”, diz ela, olhos brilhantes, num sotaque lisboeta, “adoro lentilhas...”
E lá se vão ao repasto para uma ilha sob o limoeiro.
Paguei a minha despesa, despedi-me dos empregados, e antes de me ir à vida passei pela mesa dos meus compatriotas a ver que tal. No momento, atacavam com furor o pão e uma colorida salada mista de tomate, pepino e cebola; num vai e vem imparável passeiam um já viciado garfo pelo puré de lentilhas.
“Então, que tal?”, pergunto.
Tem a boca cheia, coitados, pouco mais podem fazer do que abanar com as cabeças, deixar escapar uns “humms”.
“Agora estamos à espera das almôndegas, da salada de polvo e da moussaka...” 
Despeço-me com simpatia, votos de boa continuação e um feliz regresso à pátria. Acho que pediram comida a mais, mas isso caberá a eles descobrir quando tiverem de trepar os degraus de volta ao hostel onde estão alojados. 
  
© Fotografias de Pedro Serrano, Hydra, Grécia, Julho 2015.

17 julho 2015

PETER'S COLLECTION

1. Peter's collection.

2. Peter's collection - the come back.
3. O pensador.
4. Polícia marítima (dizem que uma delas chegou à ilha transportada numa concha).
5. Big Belly.
© Fotografias de Pedro Serrano, Hydra (Grécia), 2015.

15 julho 2015

VOU-TE CONTAR: 70. APRENDENDO O ABC

Meio século depois ainda me interrogo por que raio chamaríamos nós caramileiro ao homem? Seria por causa da bata branca que sempre usava? Nesses anos 60 de que falo havia à porta das escolas e dos liceus uns carrinhos de madeira que vendiam chupa-chupas e outras guloseimas cujo denominador comum eram as cores fortes (vermelho strawberry-fields-forever; verde-papagaio; amarelo goodbye-yellow-brick-road) e a uniformidade minimalista da composição: açúcar e corantes. Minto, alguns deles, uns em forma de guarda-chuva gordinho, eram revestidos de hóstia, a primeira coisa a derreter-se quando, pensativamente, os rodávamos dentro da boca. Divago: frequentemente os vendedores desses carrinhos usavam uma bata para se distinguir, às vezes azul outras vezes branca. Seria por isso que chamávamos caramileiro ao homem? É claro que esta alcunha, embora do domínio universal, não podia ser pronunciada em voz alta, sob grande risco de reguadas, que o caramileiro tinha um feitio algo emotivo. Quando nos lhe dirigíamos era pelo seu verdadeiro nome, isto é: Sr. Araújo, que todos nós, em afinada imitação, pronunciávamos como Seraújo.
Tudo isto se passou numa zona do Porto conhecida como Amial e, nesses dias, eu morava na Rua Nova do Tronco, uma rua que me parecia a uns 200 km do Bairro da Azenha, onde ficava a escola. Essa distância mítica (a real percorre-se, a pé, em dez minutos) resulta possivelmente de este trajecto casa-escola ter representado o meu primeiro contacto com o mundo exterior, longe das saias da minha mãe e dos muros da minha casa na Rua dos Padres Capuchinhos, como era popularmente conhecida.
Rapidamente me viciei naquela liberdade, nas infinitas possibilidades do trajecto: não é que a gente podia chegar à escola virando na Rua do Amial e subindo a rua da Azenha, mas regressar dela descendo a Rua da Ribeira Grande até à Rua do Amial?! (Demorei também quase meio século a dar-me conta da pressuposta abundância em água do ambiente em que morava: azenha, amial, ribeira grande, arca de água...).
Ao cimo da rua da Azenha, escassos metros antes de se virar para a rua que nos fazia desaguar na escola, havia uma mercearia onde, usando a  semanada ou as moedas surripiadas de sobre as cómodas, comprava todas as caixas de chicletes Adams que conseguia; caixas das pequenas, quero eu dizer, daquelas que traziam apenas dois encantadores quadradinhos cor de neve, polidos e reluzentes como os dentes da frente da Adelina, a minha primeira paixão antes dos onze anos. É que havia duas modalidades de caixas à venda: uma delas – tipo familiar, suponho – continha uma dúzia de chicletes, um empreendimento que não estava ao alcance de qualquer bolsa! Mas as pequeninas desempenhavam bem o seu papel de me fazer sentir rico pela quantidade chocalhante com que me enfunava os bolsos, riqueza que usava quer para uso próprio quer como suborno para vários tipos de favores, como o de conseguir que alguém me mostrasse as cartas com mulheres nuas nas costas das espadas e das damas do baralho, ou me fizesse os deveres do dia seguinte, que eu, andando a escavar um subterrâneo no quintal de casa, tinha mais o que fazer.
Ah, mas o caramileiro, para além de ter olhos nas costas, parece que detinha poderes extrassensoriais! Ficou rubro de raiva quando descobriu que fora o Alvarinho a alinhavar os números da minha tabuada e ainda mais vermelho-apoplexia quando descobriu o meu ritual de trabalho à base de chicletes. Avisou logo que o meu pai ia ser convocado à escola para ser posto a par da bela peça que era o filho, mas, antes, para eu ir reflectindo no assunto, chamou-me lá à frente, perto da sua secretária, e mandou-me estender a mão. Apresentei a direita, pois sou canhoto, e não desconhecia, de experiências anteriores, como ia ficar a palma da mão: vermelha, quente, anestesiada e imprópria durante uma boa meia-hora. Mesmo sem se dar ao incómodo de se levantar, o Seraújo aplicou-me então uma boa dezena de reguadas, que o crime era grande, emitindo durante o processo uns pequenos silvos de esforço e satisfação (não inferiores aos que emite, nos dias de hoje, a tenista Maria Sharapova), para gáudio de todos os outros rapazes da sala, felizes pelo entretenimento e por não ser esta a vez deles.
Calculo que alguns dos que me leem, formatados já por estes tempos de
metodologias de educação pacifistas, estejam horrorizados com a violência infantil que descrevo. Nada disso, caros leitores, tudo aquilo era justo e merecido e nenhum de nós o sentia de outro modo: nunca o caramileiro me deu mais do que eu necessitava e nunca o fez por motivos outros que não fossem os da minha irrepreensível educação. Tal como todos os outros que passaram pelas suas mãos junto-me ao reconhecimento público de que era um bom professor e nos deixou bem preparados para o que vinha a seguir.
Na continuação do canto à letra A – a que este texto parece estar condenado: Adams, Amial, Azenha – deixem-me, antes de regressar ao presente, que diga algumas palavras sobre nomes que invoquei em linhas anteriores: Álvaro e Adelina.
O Álvaro era meu vizinho de carteira e todos o tratávamos por Alvarinho ou Varinho. A esta última variação não achava ele grande graça, pois vinha geralmente associada a uma cantilena de rima perfeita com que, em grupo e nas nossas vozes de anjo, o assediávamos. Rezava assim:
          Varinho coqueiro, Varinho totó
          Arrebita o cu e faz cocó.

Quanto à Adelina, que poderei dizer que faça justiça à luz com que iluminou os meus dias na quarta-classe? Como que caída do Céu, apareceu de repente na metade da escola onde andavam as meninas e, mal a vi pela cerca à hora do recreio, fiquei fascinado pelo seu cabelo liso e castanho, pelos grandes olhos a condizer, pelos faiscantes dentes da frente. Tinha chegado há pouco tempo ao Amial e morava numa casa moderna e sem telhado que é agora uma escola de condução. No caminho até lá, descendo a Rua da Azenha o mais devagar que conseguiam os meus pés, gastei resmas de caixinhas Adams para conseguir que, por uma brevíssima eternidade e antes de dobrarmos a esquina, me concedesse a felicidade de lhe dar a mão.    

© Fotografias, de cima para baixo: (1) Alf Sousa; (2) publicidade Adams; (3) Eduardo Serrano.

12 julho 2015

ENTRETANTO EM ATENAS... ENTRE O CÉU E A TERRA


É bom ter alguém à nossa espera na porta de saída de um aeroporto e Marilyn Marlene estava lá com o seu táxi amarelo. Coitada, chegou religiosamente a horas mas teve de esperar um bom bocado, pois a Iberia perdeu-me a mala em Madrid, talvez ma entreguem amanhã ou depois de amanhã em Hydra. Sábado à tarde as lojas estão fechadas em Atenas, tive sorte e topei com uma farmácia de serviço onde pude comprar pasta dos dentes e a respectiva escova. Como se estivesse à minha espera, o tubo de pasta tinha instruções em duas línguas: grego e português. Oh, quanto à lâmina de barbear foi só fazer o gesto de passar uma vassoura pela face num quiosque perto do To Theatron.
No To Theatron a salada de abacate, tomate e pistáquios está no seu esplendor: os tomates doces e sumarentos, o abacate macio e no ponto – desfaz-se na boca e não sob o garfo –, a cebola crocante, o mozzarella acabado de parir. É impossível tentar fazer algo igual em Portugal, por muito que se tenha coscuvilhado os ingredientes: falta o solo, o sol e o azul locais. O Theatron tem uma esplanada do outro lado do passeio, um espaço apenas coberto por um breve telhado, as paredes abertas dos dois lados para deixar deslizar o fresco. As potentes ventoinhas rodam sem parar e tem acoplado um sistema que sopra vapor de água gelado sobre os clientes, um melhoramento em busca do bem-estar absoluto; sento-me por perto.
Na mesa ao lado, um casal de alemães que passaram o jantar sem trocar uma palavra entre si, confere minuciosamente a conta, um total que (tendo em conta o que comeram e os preços praticados) não deve ultrapassar os 22 euros para os dois. Depois, com modos severos, chamam a empregada – uma morena despistada, gentil e com um ar de quem pede colo ao mundo – e exigem factura com NIF, que eles, apesar de em férias, não vão perder a oportunidade cívica de ensinar aos gregos como se trilha o caminho correcto para a resolução da dívida e o evitar do 4.º resgate. Depois levantam-se e, já no limiar da saída, param e, ocultos um pelo outro, conversam em voz secreta. Foram acometidos por um ataque de má-consciência e agora ele – tapado por ela – vasculha nos bolsos e regressa à mesa que tinham ocupado a deixar uma gorjeta excessiva.
É quase meia-noite e está uma noite maravilhosa, azul-veludo, de tshirt. Regresso ao hotel perdendo-me um pouco pelas ruas silenciosas e sossegadas do Pireu (uma espécie de Leça da Palmeira de Atenas), mas nunca é grave pois mais volta menos volta dou sempre com a porta.
Contou-me a Marilyn que o Varoufakis saiu ontem por aqui – pelo porto do Pireu – para Egina, uma ilha a 27 km de Atenas, para férias. Agora que os gregos correram com o seu ministro das finanças sobre duas rodas, os alemães deviam seguir-lhe o exemplo e replicar a receita: correr com o seu autoritário ministro das finanças sobre duas rodas, o senhor Schaube, que não conseguirá nunca aprender que lá porque o país dele é muito rico isso não lhe dá todo o direito a sentir-se tão cheio entufado de razão. mais coisas entre o céu e a terra Horácio... Se ele tivesse outros pensamentos para além da máquina de calcular deveria ter-se dado conta que, apesar de apenas por um momento, os gregos fizeram-no (a ele e a toda a restante Europa) lamber o pó em que todos um dia havemos de nos transformar.
© Fotografias de Pedro Serrano, Pireus (Grécia).

30 junho 2015

O CRIADO-MUDO

A última vez que estive a menos de um metro de Cavaco Silva foi há trinta e cinco anos, era ele Ministro das Finanças e eu um jovem médico, acabado de designar director do novíssimo centro de saúde de um dos concelhos mais atrasados do país.
A colisão deu-se no dia da inauguração e eu e o meu pessoal estávamos arrasados de, nos dias anteriores, termos andado a desempacotar os caixotes que juncavam os corredores do centro de saúde. Uma correria, pois quem mandava tinha decidido que o centro seria inaugurado mesmo sem movimento, sem consultas, sem doentes,  apenas com as paredes e o tal material, desencaixotado.
Mal me viram ao saltar das viaturas EP que precediam a comitiva ministerial e demonstrando grande perspicácia simbólica, os meus chefes regionais mandaram que vestisse uma bata, a demonstrar que havia ali uma autoridade médica, alguma organização. Neguei-me a tal, pois parecia-me absurdo uma solitária figura de branco a pairar entre figurões de fato completo num estabelecimento de saúde ainda fechado ao público. Amuaram muito.
Não contando com as figuras de proa da comitiva norueguesa, a maior parte das quais eu já conhecia, do lado português havia cinco ministros presentes, a abrilhantar numericamente o apreço que Portugal atribuía aos quase catorze milhões de euros que os noruegueses estavam a despejar no distrito de Vila Real, metade deles a fundo perdido! Que viessem muitos daqueles!
Como sempre acontece nestas coisas, num dos deambulares pelos corredores a mostrar a obra achei-me lado a lado com o ministro das Finanças, um ser que – ao vivo tal como na TV – me impressionava pelo ar empertigado, seco, rígido, o qual trazia à lembrança um criado-mudo, uma daquelas estruturas em madeira com ombros e sem cabeça onde se pendura, para que não perca a forma, a roupa ao fim do dia. Só que este criado-mudo tinha uma desvantagem: falava! E tendo-lhe sido apresentado, minutos atrás, como o futuro director daquela instituição, o homem desata a fustigar-me com o seu desagrado pela despesa nacional com o transporte em ambulância e a inquirir o que tencionava eu fazer para mitigar o assunto a nível local. Ora acontece que eu estava por ali há meia-dúzia de dias, com as mãos cheias de calos dos caixotes, que – até à data – tinham sido os únicos bens da área da saúde a ser transportados e, como brevemente me iria aperceber, sem autonomia sequer para mandar comprar uma lâmpada se as que tinham sido pagas pelos noruegueses fundissem. Tendo tudo isso em perspectiva, respondi à admoestação do senhor com ironia, o que o deixou ainda mais irritado do que no seu natural. Quem acabou por me salvar do aperto foi outra eminência presente, um homem dando pelo nome de Morais Leitão e Ministro dos Assuntos Sociais, um tipo simpático e de piada pronta que se apercebera da situação.
Duas horas depois tinham todos ido embora, deixando-me entregue aos bichos e às paredes vazias. O Centro de Saúde abriria quinze dias depois, mas aí já só os noruegueses – regressados às suas temperaturas abaixo de zero, mas sempre atentos – se congratularam com o feito e com os progressos posteriores.
Pois esta cascata de lembranças desencadeou-se a propósito do pouco que mudou Cavaco Silva nestes trinta e cinco anos e também do pouco que evoluiu o meu apreço pelo personagem que faz agora o criado-mudo em Belém. E o homem conserva o seu acrescento antigo: fala! E fala agora em nome do país, não só em nome das ambulâncias, para mal dos nossos pecados. Já esta semana, a propósito da possível saída da Grécia da Comunidade Europeia, achatou o problema à evidência de que ficaremos 18 em vez de 19, com a oculta satisfação – a bailar-lhe nos olhos e na entoação – de até poder vir a sobrar mais qualquer coisita para nós num grupo em que, perante o mesmo bolo, os clientes vão ser em menor número... Toda esta sabedoria de lápis atrás da orelha, vertida naquela superioridade nauseada de quem está absolutamente seguro do que diz.  
O homem acha mesmo que não precisa de aprender mais nada e, se tudo vier a correr mal para nós, como é possível, não se perturbará e virá comunicar ao país a imprevisibilidade dos mercados e do contexto internacional...
Até lá, bem que poderia, antes de abrir a boca e envergonhar-nos a todos,  ilustrar-se um pouco sobre esse contexto de que fala. Bastava ler-lhe um livro ou dois sobre a história da Europa e dos países que orlam o Mediterrâneo, pois a coisa repete-se. Se demasiado maçado, não precisava sequer ir tão longe, era só pedir a um dos assessores que lhe requisitasse um desses livros sobre a II Guerra Mundial que abundam agora pelas livrarias. Numas centenas de páginas em português ficaria a perceber como – nuns dias em que já por aí andava, de calções, a esgravatar a terra no meio das alfarrobeiras – alguns dos políticos que mereceram esse nome se preocupavam com um pequeno e periférico país chamado Grécia e com o papel-chave que ocupa no equilíbrio do Mundo.
Mas há certas pessoas de quem não se deve esperar esforço para além de um “aqui não há fiado” ou de um “aqui não há feriado”.


    

29 junho 2015

NÃO VENHAS TARDE: 20. SURGEM AS LOURAS

Wednesday, 29th September 1976
Rui and Pedro
I would like to wish you both Bon Voyage. I hope your journey is fulfilling.
Although our meeting was brief, I hope a friendship can develop in the future. I truly hope that we will meet again in Portugal or in New York.
Sincerely,
Larry Tarzy
Thursday, 30th September
At last, you’re off! These past few days have truly been a test of patience. I know you have passed the test.
Once again bonne chance.
Larry
1 de Outubro, Istambul
Apesar do bonito postal que o Larry nos ofertou, cuidadosamente enfiado em envelope e este em celofane transparente, apesar das sucessivas celebrações de despedida, numa das quais o Doug Greenberg nos cedeu para sempre a sua versão de bolso do Siddhartha [1], ainda aqui estamos ancorados e, pior, estou cheio de saudades desta cidade mesmo sem ter partido.  
Embora o tipo nos tenha vigarizado um pouco, mantivemo-nos com a mesma agência de viagens na nossa procura de transporte daqui para fora. Para quê mudar e começar tudo do zero? Acabaríamos por ir parar a um malandro parecido… Agora que tudo está esclarecido, desde a merda do Mercedes à aceitação da perda da entrada para os bilhetes, o gajo parece ter ganho algum respeito por nós e apressa-se a arranjar-nos cadeiras, a mandar vir copos de água com gelo, e chá, mal entramos a porta da agência. Mais, como, com grande alarido, assumiu mea culpa nos novos atrasos na partida, colocou-nos, a nós e a mais uma dezena de viajantes como nós, por sua conta, no Hotel Ayasofia, uma espelunca de nível superior ao Güngör, no miolo antigo de Sultanhamet. O nosso quarto, enorme, parece uma coisa saída do século XIX, com uma enorme cama de madeira maciça no centro e um colchão mole de serralho, mobília rangente a condizer, e uma varanda, grande como um alpendre, com uma cobertura feita à custa de uma ramada frondosa e por onde, entre balaústres de ferro roído, se enrosca, vinda da viela lá em baixo, uma trepadeira cheirosa. Como nem tudo é perfeito neste mundo e no nosso quarto, em camas desdobráveis convenientemente acrescentadas, ficaram a fazer-nos companhia um japonês sorridente e pouco falador e um alemão baixinho, gordo e bem disposto e, como todos os pícnicos, uma grafonola. Tem toda a pinta de quem logo à noite, depois de umas cervejolas largas, vai ressonar como um reco.
A agência de viagens, que diariamente visitamos em busca de informações, tornou-se uma espécie de sala de visitas do contingente que segue de Istambul para Teerão, alguns dos quais estão no Ayasofia, mas que não cessa de aumentar em conviventes. Será que o patrão está a adiar a partida até ter a lotação esgotada? O Des acharia que sim.
Todos os dias o tipo nos dá uma novidade para nos manter animados e a de hoje é a de que o autocarro que nos levará já está contratado, tem ar condicionado e o maior conforto. A sala de espera da agência está cheia e uma das presentes diz que tudo isso é muito bonito mas que o quer mesmo saber é a data da partida.
O nosso anfitrião, um turco alto, moreno, de bigode farto, faz que se ofende:
  Man, se eu tivesse essa informação já a tinha dado, afinal é para isso que aqui estou! É uma coisa que me ultrapassa, mas, enquanto tudo não se resolve, estou a fazer o que posso por vocês. Acham que vou ganhar algum dinheiro com esta viagem, com o que estou a gastar com hotel e tudo isso? Estou já a ter prejuízo, mas é uma questão de honrar compromissos, de amizade...
Com esta o tipo fez sorrir todos aqueles que lhe topam o estilo e calou a cliente inquisitiva, uma americana de cabelo curto, óculos redondos fumados, toda vestida de negro e que nos faz constantes demonstrações de como alcandorar nas costas, com um único movimento, uma monstruosa mochila. Muito o tipo self-made-for-the-road, sempre a barrar enormes fatias de pão com manteiga de amendoim que vai distribuindo por todos os presentes.   
Como da adrenalina para a água, ao lado deste frenesi está sentada uma outra americana, esta muito tímida, olhos azul-porcelana resguardados por uns óculos sem armação. Mantém-se muito quieta na ponta do sofá, numa pose receosa e não aceitando nada do que vai sendo oferecido para comer ou beber. Para entreter a timidez vai fazendo festas a um gato de Istambul que se lhe aninha no colo, mal acreditando que alguém lhe coça os lombos... Bem que a avisei daquilo a que se estava a candidatar, mas ela limitou-se a abanar as farripas do cabelo liso como quem não se importa.
No género contido, mas este do sexo oposto, empoleira-se num maple como se estivesse já no isolamento da sombra de uma figueira-sagrada um inglês dos seus quarenta anos, magro como um cão e de cabelo apanhado num rabo-de-cavalo. Mantém os olhos permanentemente cerrados, só os abrindo para esclarecer, quando inquirido, a clássica questão:
– E você, para onde vai?
– India… I’m goin’ there to get lost…
Finalmente, dois tipos da Malásia, nossos vizinhos de quarto no Ayasofia, de tez bem brunida, cabelos negros pelos ombros, ambos muito do subgénero vigarista-simpático.
O turco da agência circula incessantemente entre os presentes com a preocupação de manter o ambiente ao rubro e as pessoas satisfeitas. Sempre que passa por nós mete-se com o Rui para dizer que o bigode dele é mais pujante do que o do meu companheiro de viagem. Numa dessas deambulações, imagine-se só, convidou, o mais discretamente que conseguiu, a americana tímida para ir hoje jantar com ele.
Saímos da agência acompanhados de três novos hóspedes para o Hotel Ayasofia: um afegão, uma presença muito disputada na agência, pois toda a gente quer saber novidades e informações sobre o misterioso país. O tipo, enquanto distribuía sementes de melão e cigarros pelos presentes, lá ia dizendo que era um país lindo e muito barato, mas estava mais interessado em saber o preço de tudo e em comprar tudo em que a vista lhe pousa. Nessa noite, quando o levámos ao nosso café, quis comprar os copos por ondes bebíamos chá. Para o calarem, acabou por levar um copo de presente, mas não conseguiu comprar a meia-dúzia que pretendia pois havia um desafio de futebol na TV, o café estava cheio e os copos faziam falta.
Os outros dois novos hóspedes do Ayasofia por conta da agência e que seguem connosco no autocarro para Teerão, na improvável data em que este partirá, são duas francesas dos arredores de Paris. Louras, cabelos longos, olhos azuis, do subgénero altamente comestível não fosse a regra de ouro n.º 2. Dizem ir para a Índia durante três meses e uma delas trouxe até uma viola com ela, objecto que me ofereci para carregar durante o trajecto para o hotel:
– Pardon, madame, peux je transporter votre guitare?
– Oh, merci, monsieur…
Na confusão da chegada e das mochilas acabei por levar a guitarra para o meu quarto e, através da varanda, emprestei-a a um dos malaios do quarto pegado ao nosso. Passados uns minutos ele bateu-nos à porta para nos convidar a ir ouvir música ao quarto deles. Quando lá chegámos, um deles perguntou mal nos sentámos:
– Nenhum de vocês tem erva?
Abanámos a cabeça com simplicidade, achando que não valia o investimento estar a explicar-lhe a génese da regra de ouro n.º 3. Impermeável a tudo isto, o japonês mantém-se sentado sobre a sua cama desdobrável, de pernas cruzadas, a coser o saco-cama com gestos lentos e amplos de linha e agulha.
[1] Siddhartha – Livro de Hermann Hess, publicado em 1922, é uma poética versão da vida de um jovem indiano, contemporâneo de Buda, em busca da plenitude interior. Juntamente com O Fio da Navalha, de Somerset Maugham (veja Nota n.º 5), era um dos clássicos inspiradores dos viajantes para Oriente. Em português, entre outros editores, Siddhartha foi editado pela Minerva em 1974.