20 novembro 2020

UM SONHO DE VACINA

Em Janeiro (se Vénus ajudar) teremos entre nós uma vacina anti-covid e, "lá para o Verão", (havendo alinhamento entre Andrómeda e Cassiopeia) uma parte "muito significativa" da população estará vacinada. Tudo isto foi garantido ontem (19 novembro), aos portugueses lá em casa, por Maga Temydo e pelo Professor Infar Medu, pois como a realidade é, actualmente, assaz sombria e ambos detestam assumi-lo, viram-se forçados a migrar para os domínios sonhadores da futurologia.

O Presidente da República, presente na feira de levante onde tudo se passou, ainda tentou que o alto responsável concretizasse um pouco, mas o homem não saía do registo de "segundo as melhores informações", "se tudo correr como o esperado", "se a agência europeia do medicamento...", um jardim de 'ses'. E uma grande alegria, convenhamos, uma enorme vontade, em ambos, de comunicar e gerar momentos de rara cumplicidade com os portugueses lá em casa, esgazeados de cor-de-rosa nos sofás.

Mas como iria a vacinação ser feita, insistia o Presidente, que, agarrando-se ao exemplo da vacina da gripe, elencava possíveis dificuldades, atrasos. Mas oh que porra de exemplo fora o mais alto magistrado da Nação desenterrar! A gripe?! Então o Ministério tinha andado a convencer toda a gente a vacinar-se, mas, depois, houve aquele atraso na encomenda de vacinas [revejam-se notícias de Junho de 2020] e elas não chegaram, nem nada que se parecesse, para a procura... Uma maçada, um fiasco, e o Presidente ia logo escolher aquele caso isolado infeliz? Bem, mas aquele, não podia o Professor Medu contrariar e, sintonizado num inabalável sorriso, lá foi largando a sua cortina de fumo: pois, ainda não se sabia muito bem, era uma matéria que a Comissão (recém-formada) iria estudar, baseada nas melhores informações; talvez a vacinação fosse em massa ou, então, em campanha... Será que o Professor quereria significar Campanhã (pois, a Norte, as coisas estão mais assanhadas do que em Santa Apolónia) e, em vez disso, pronunciou campanha? Nunca o saberemos, com as profecias há sempre incerteza.

O que sabemos, de fonte segura, é que nenhuma das cinco potenciais vacinas mais adiantadas foram ainda aprovadas e todo o assunto se transformou numa guerra comercial de quem chega primeiro aos escaparates. E mesmo se não vier a chegar primeiro, as acções da Pfizer já subiram por aí acima. Se bem se recordam, há ainda escassos dias a farmacêutica americana fixava a eficácia da sua vacina nos 90 %. Mas logo apareceu a Moderna a publicitar que o seu produto ia aos 94,5 % e a Pfizer  apressou-se a comunicar que, afinal, a eficácia do seu produto era de 95 % e, mais, que não tinha efeitos secundários, algo que, com honestidade, não se poderá afirmar a não ser quando a vacina já estiver em distribuição, um número significativo de pessoas estiver vacinada, passar o tempo suficiente (meses ou anos) e forem reportados esses efeitos! Resumindo: já está tudo a postos para vender um produto sobre o qual não há resultados definitivos publicados e que não passou pela etapa fundamental de ver esses resultados (e método para lá chegar) avaliados e sancionados pela comunidade científica internacional. Todo o processo ronda a publicidade enganosa ("esta é boa para velhinhos", gritam outros) e a falta de ética profissional, que a ciência costumava praticar. Entretanto, mais atrasados estão a Astra Zeneca-Oxford (que aparentam ser mais sérios na condução do processo), os russos, que olham para a vacina como para um foguete, e os chineses, atarefados a conseguir duas variantes à vacina: uma com sabor a molho de ostra e outra, especial para vegetarianos, com pedaços de bambu.

Voltando ao nosso fumeiro: nem Maga Temydo nem o Professor Infar Medu nos explicaram algumas coisas fundamentais e que, para quem anunciou a vacina para daqui a mês e meio, já deviam saber ou, pelo menos, ter equacionado com clareza e detalhe:


a) Que vacinas irá Portugal receber neste princípio de Janeiro, segundo Themydo, e "eventualmente em Janeiro", segundo Medu? A da Pfizer ou a da Moderna (uma vez que as outras ainda estão no limbo). Se for a da Pfizer, como tenciona o Ministério da Saúde resolver o gigantesco problema levantado pela necessidade de conservação a 70 graus negativos, requisito que irá implicar a aquisição e montagem de uma complexa rede de frio? Irá ser necessário, sempre assegurando aquela temperatura, levar do aeroporto até algum armazém central as embalagens contendo as vacinas. Daí, terão de ser transportadas (em camiões que cumpram as condições térmicas extremas) até aos, digamos, armazéns das 5 regiões de saúde (Porto, Coimbra, Lisboa, Évora, Faro), armazéns que deverão, igualmente, garantir os tais menos 70 graus e, daí, terão de seguir ainda para cada centro de saúde, unidade de saúde familiar ou farmácia, locais onde as vacinas são habitualmente administradas. Tudo isto sempre a menos 70 graus, para garantir a estabilidade e a eficácia da vacina, sabendo nós que em países como o Japão, por exemplo, não existe actualmente um único equipamento que garanta tal requisito térmico. Ou tenciona Portugal levar a Lisboa todos os portugueses ao aeroporto para que sejam vacinados nas escadas do avião de carga? Ou desenrascar a coisa caseiramente com recurso a sacos térmicos do Continente, malas de esferovite do Pingo Doce, ou sacos de gelo das bombas de gasolina? Ah, senhores do Ministério, não esqueçam que, em tudo isto, terão ainda de pensar num arquipélago com 9 ilhas (Açores) e num outro com 2 (Madeira).

b) Outro aspecto sobre o qual me interrogo e, penso, como eu dez outros milhões de chatos. Quantas vacinas nos vão chegar em Janeiro? E de quem partiu a iniciativa da encomenda? Escolhemos e pagamos nós o que consideramos mais efectivo, ou é uma daquelas benesses da UE, em que nos arriscamos a ficar para o fim e com o que sobrar? 

Em relação à vacina da Pfizer, pelo menos essa, a quantidade que nos chegar terá sempre de ser dividida por 2, pois a vacinação completa de cada pessoa exige duas doses, intervaladas cerca de três semanas (outra dor de cabeça logística, como tão bem sabem os serviços locais de saúde pública e as enfermeiras da vacinação). Seja-me permitido um pequeno exercício prático: se as primeiras pessoas a vacinar forem os profissionais de saúde (como deveria acontecer, pois é fundamental garantir, desde logo, que continuam em bom estado de saúde para poder tratar o resto do país), isso exigirá cerca de 300.000 doses de vacina. Ou seja: tranches inferiores a cinco ou seis centenas de milhares para pouco irão servir ou, na melhor das hipóteses, atrasarão o processo e darão cabo do prazo que nos garantiu o professor Medu (será que o homem se referia ao Verão de 2022?).

Várias destas dúvidas, e problemas a resolver, deveriam ter sido postos sobre a mesa da tal sessão de que tenho vindo a ocupar-me. Mas que nada: o que mais lhes interessa é manter as constelações alinhadas e as estrelas a brilhar. Foi constituída, já está nomeada, uma Comissão dedicada exclusivamente à vacinação Covid, revelou o Professor Medu com um brilhozinho de zelo nos olhos. Fui ver... Sim, lá está, uma série de gente da mais diversa proveniência, onde estranhei não ver a presença de um único médico especialista em Saúde Pública, daqueles que, em todo o mundo, são responsáveis nesta área desde que existem vacinas e programas de imunização. Em Portugal são mesmo os serviços de Saúde Pública que, por lei, são responsáveis a nível local (nível em que as vacinas são inoculadas nas pessoas) por todo o processo de planeamento, vigilância e avaliação desta actividade. Mas, no mundo das aparências, o pormenor não sobressai: espera-se desses médicos e enfermeiros que, e como foi dito por um alto especialista na tal feira de levante, "depois colaborem". Entretanto, enquanto não são convocados a colaborar, são mantidos entretidos com inquéritos epidemiológicos e rastreios de contactos (esses, sim, em massa) que já não servem para quase nada, dado que numa fase de disseminação comunitária, como aquela em que estamos, qualquer um pode ser suspeito de poder infectar outro e os surtos já não se conseguem individualizar, já pouco interessa saber quem infectou quem enquanto não voltarmos a um número de casos razoável.

Mas não desesperemos. Ouve-se que aqueles que zelam por nós não dormem! Maga Temydo foi vista no aeroporto, sobraçando uma tripeça, e fontes, que pediram para não ser identificadas, garantem ter ido até à Furna do Enxofre, nos Açores vulcânicos, para aí instalar o seu banquinho e, inspirada nas emanações sulfúricas, produzir cruciais profecias sobre a pandemia. Quanto ao Professor Medu, esse também não cochila em serviço, e ter-se-á sujeitado a um boost intensivo da totalidade dos episódios da série Sim, Senhor Ministro. Por tudo isto, caros leitores, tenhamos fé e Viva Portugal!

 

Nota: a primeira imagem é fragmento da capa do álbum One Size Fits All, de Frank Zappa, 1975

 

 

 

17 novembro 2020

UMA LOURA EM APUROS

O gráfico da DGS mostra o número de mortes, por todas as causas e por mil habitantes, referido a Portugal e actualizado a 17 novembro. A mancha mais espessa (castanha) representa, para os meses do ano de Janeiro a Dezembro de 2020, essa tendência nos últimos dez anos (2009-2019), e a linha azul as mortes que o país sofreu desde Janeiro até agora. Uma montanha russa em ascensão ou, antes, uma montanha ibérica, pois se formos comparar, por exemplo, com as mesmíssimas curvas dos países nórdicos, nada disto sucede, sofrem de uma curva tranquila, sem cumes ou aflições especiais. O que nos estará a acontecer, a nós, que entramos no final do outono e nem sequer a gripe ou o frio a sério ainda começaram? Será o Covid? Será quem fica por diagnosticar, por outras doenças e tratar, por causa do Covid? Neve não é certamente e a chuva não bate assim...

Claro que, por cá, a DGS diz que esta mortalidade está "dentro do esperado" (é o que diz sistematicamente) e a nossa loura da Saúde, e os seus anões, evitam comentar ou extrair ilações práticas que resultem em medidas concretas ou alimentem o planeamento do futuro, sempre com medo que apontem o dedo ao ministério, preferindo entreter-se a intoxicar os portugueses com granel: que o refeitório de um determinado hospital vai ser transformado em pavilhão de cuidados intensivos (em fundo a imagem de um senhor num escadote, a martelar um prego pachorrentamente); que quatro doentes foram transferidos do Norte para Lisboa, como se nos resumisse um movimento de jogo num campeonato de damas (em imagem de fundo, o secretário de estado jura que o SNS é flexível como uma trapezista e tem virtualidades insuspeitas, como um canivete Suíço). Mas será que um ministro não tem mais para comunicar do que o rol da lavandaria?,

Ontem, perante a realidade que tudo varre à frente, a senhora, por entre dentes, lá teve de confessar [telejornal SIC] que o tal sistema flexível, que acomodaria tudo quanto aparecesse, afinal "por muito que façamos não há sistemas totalmente inlásticos", e apertou tanto os dentes e torceu tanto a língua que justapôs a  elásticos um prefixo que não era o para ali chamado; de facto o que estava a ser obrigada a admitir é que a flexibilidade já era, mas isso, como admitir as vantagens do uso de máscaras, custa, custa! Custa-lhe, pois depois as TV vão buscar imagens de declarações anteriores, vem aquele Polígrafo, que devia ser proibido! 

Neste era-e-não-era, passou-se algo de semelhante no episódio do recurso aos serviços de saúde privados para ajudar na pandemia. Ainda há quinze dias ela dizia (e se insinuava através do inefável, inalterável e inamovível presidente do conselho de administração da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, agora refém dos militares), dizia, zangada e cheia de razões, que privados nem pensar, pois andavam a tentar parasitar o SNS, etc. Pois, talvez, mas a realidade é a realidade, e é missão de um Ministro antevê-la, navegar por ela e pelos seus escolhos, pois o vírus nem pestaneja com os amuos, ideológicos ou outros. Resultado: lá teve de ir negociar com os privados, inferiorizada pela atitude anterior, aceitando condições que, duas semanas atrás, poderiam ter sido mais macias para o orçamento do erário público. É o que sucede quando se anda a reboque, que é como parece mover-se o Ministério, a reboque do que já aconteceu, do que se diz, a cheirar a cauda a comentários, aflito com as cólicas de pressões avulsas - sem nada para mostrar que corresponda, minimamente, a um planeamento estratégico. 

(Vai formosa e não segura).

Teremos, dizem a cada telejornal, mais não sei quantas camas de cuidados intensivos até ao fim do ano: foi para Diário da República, estão a ser feitas obras, mas acontece que o desastre é agora, não é no fim do ano. E se, no meio do caos, alguém pensou e tentou prever, antecipar medidas fora-da-caixa (como é o caso de alguns hospitais ou de algumas autarquias) lá vai chicotada, lembretes de hierarquias, bloqueios na comunicação e nas finanças, remexidos na bancada. Se é com isto que pretendem enfrentar um vírus que, enquanto esbracejávamos, se aperfeiçoou na capacidade de ataque, estamos fritos. 

 

Nota: Quanto às vacinas, não vamos longe com esta - a da Pfizer - que necessita de frigoríficos a 70 graus negativos para a conservar (o congelador de um frigorífico caseiro anda pelos 4 a 5 graus negativos e as arcas congeladoras pelos 18 a 30 negativos). Com arcas a menos 70, em Portugal, apenas dois ou três serviços centrais (se tanto), muito especializados e longínquos da vocação da prestação de cuidados de saúde. A assim ser, a vacina anunciada será pouco mais do que um feito teórico, pois a rede de frio que implica até chegar às pessoas, as que têm de ser vacinadas, é tremenda, praticamente impossível de obter tecnicamente ou a preço incomportável para uma aplicação maciça. É a diferença entre eficácia (pelos vistos a vacina é 90 % eficaz, o que é muito bom) e exequibilidade (é muito boa, mas se não se consegue chegar lá, como as uvas da fábula da raposa).  

 

09 novembro 2020

A FUGA DO PAI NATAL

Coitado do Gerónimo de Sousa. Será que ninguém, lá em casa, lhe poderia dizer que, enfim, não existe Pai Natal, e, portanto, arredá-lo um pouco da boca de cena e das luzes? Suponho que não, afinal, por ali, vive-se naquele ambiente de quimera, do vermelho e das renas voadoras, é um pouco como se fosse um gueto no Polo Norte. Mas, insisto, alguém lhe deveria dizer que, enfim, todas estas medidas anti-Covid19 ultrapassam as miríficas liberdades, que ele gosta de supor e menos de praticar, que são mesmo necessárias, e não se compadecem com organizações e princípios organizativos, nomeadamente com um Congresso que ele vai ter daqui a uns dias. 

Houve uma falha na Natureza e, por ela, entrou alguma coisa que, embora invisível, é, portanto, mais forte do que tudo o resto, varre tudo o resto, e que, enfim, em boa verdade, ninguém lhe quer fechar os brinquedos no armário ou chamar de volta o papão antigo. Ninguém está interessado nisso, ninguém tem tempo para isso.  Explicar-lhe, também, que, enfim, não é somente com reforços no Serviço Nacional de Saúde que se resolve isto, de algum modo isto não tem a resolução clara e simples com que ele sonha, se ele mandasse, e, coitado, o seu querido Serviço Nacional (o alfinete de peito que restou das conquistas de Abril) está escavacado de todo - como se tem assistido nestes últimos anos e particularmente por estes dias - e que para isso ajudaram bastante alguns daqueles que, ar grave e digno, se aprestam agora a assinar cartas-abertas, a pagar pelo destinatário, e a propor cuidados-intensivos que o ressuscitem, mas que, enfim, praticaram absolutamente o inverso quando estavam por lá sentados e, conscienciosamente, fizeram do SNS uma coisa para adultos, baseada no sólido princípio "se quer receber pague, se não puder pagar fique a assistir", pode ser que chegue a sua vez, uma vez que os impostos só pagam a máquina das senhas.


Pobre Gerónimo, apertou-se-me o coração de o ver ali, visceralmente incapaz de recorrer à manha e à banha de um Ventura, perseguido por câmaras e microfones, aflito, sem perceber, portanto, o mundo em que se move e o que lhe está a acontecer, balbuciando em torno de teorias de conspiração e almejando bravatas que já não consegue inspirar. No fundo, no fundo, enfim, isto do vírus, ele sempre desconfiou que poderia haver ali outra coisa mais sinistra. Entre as máscaras, o gel e, portanto, a democracia, o seu coração balança, sempre balançou. E o pobre homem ali fica, na boca de cena, confuso, pasmando para uma hipotética democracia interrompida, fazendo lembrar o velho palhaço-pobre, que, sob um candeeiro de iluminação pública, no chão pisoteado da tenda já levantada, não se apercebeu que as roulottes e as autocaravanas já seguem estrada fora e ele ficou ali, sozinho, portanto esquecido, recortado na noite que arrefeceu.  

05 novembro 2020

O CAOS EM DESORDEM

Quando for rico vou querer contratar o secretário de estado da saúde Sales para vir tratar-me das nódoas difíceis, como aquelas que resultam de nos esquecermos do avental e do azeite de fritar a entremeada nos saltar para a caxemira. Não me digam que o perderam ontem (vale a pena) nas famosas conferências de imprensa enlatadas, a jurar que afinal os 7.500 casos de Covid19 do dia não eram, afinal, tantos, pois alguém, malvado, se esqueceu de comunicar os casos de outros dias e eles em Lisboa sem saber de nada, que nunca ninguém lhe diz nada, coitados. Assim, para o sossego de todos, aquela barbaridade de casos deverá ser distribuída em suaves prestações. Encostei-me logo para trás no sofá, a mão no balde de pipocas e os olhos no LCD, morto por mais ansiolítico. E ele diz logo que o índice de contágio está a diminuir a olhos vistos no país, até no Norte, esse pequeno Huan português. Olhei de lado, mirei a Francelina com orgulho, como quem diz: "Assim vale a pena ser governado, com esta limpeza, sem necessidade de recolher obrigatório, sem assentos vagos nos aviões, sem restringir liberdades..." 

Em seguida o nosso homem desaparece do ecrã, o telejornal continua e a desgraça abate-se aos nossos olhos, mas isso (até desabafei com a Francelina) deve ser pelos mesmos motivos que o Trump se queixa tanto dos órgãos noticiosos, é tudo shaike news para nos desestabilizar a digestão ou, dando desconto, serão fenómenos episódicos, esporádicos, residuais, que o país recomenda-se, apesar de os Lares parecerem Peta-Zetas, de os hospitais rebentarem pelas costuras, de os casos de internamento por Covid aumentarem, de os doentes em cuidados intensivos aumentarem, de o número de consultas por Covid estar a aumentar em grande nos Cuidados de Saúde Primários, do número de pneumonias a crescer, do número de morte em geral sobe-sobe-balão-sobe.

E depois - tudo num mesmo telejornal - trazem o bolo com a granada em cima: os militares invadiram a Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo, fardados e tudo, e vão passar a ser eles a tratar de distribuir os internamentos por Covid na dezena e meia de hospitais da região (4 milhões de habitantes), pois, pelos vistos, o Ministério da Saúde não consegue fazer isto. 

"Roger. Código Cravinho: Doente de Beatriz Ângelo para Médio Tejo. Afirmativo."

"Roger, contrassenha Noz Moscada. Negativo: Médio Tejo kapute. Alternativa Hospital Mealhada. Roger."

"Roger. Noz Moscada no canal. Negativo: Mealhada Área 2, fora área: Zona Centro não aceita doentes Área 1. Roger.

"Roger, Cravinho. Vamos levar assunto a reunião bipartida Defesa-Saúde. Doente que aguarde. Roger.

Os meus olhos não queriam acreditar no certificado de incapacidade a que estava a assistir. Não que não veja as Forças Armadas a participar numa pandemia, sei que são importantes, mas em fases tão específicas, e algumas delas tão assustadoras, que nem quero estar aqui a falar delas (procurem nos manuais de controlo de epidemias). Mas para planear o uso de camas hospitalares?! Tornarem-se os militares indispensáveis para dizer aos órgãos responsáveis por planear e decidir sobre isso mesmo (está na Missão estatutária das ARS, aprovada por lei) quantas vagas existem nos hospitais sob sua responsabilidade e virem explicar como se resolve o problema de um internamento quando não existe vaga num sítio mas pode existir no outro ao lado?! Meu Deus, é pior ainda do que eu imaginava. Há muitos anos que não é novidade para quem andou por lá que o Ministério da Saúde não tem nenhum órgão sério de Planeamento em Saúde e que tem resistido a todas as tentativas para o criar e desenvolver, embora tenha boa prata da casa para tratar disso. 

Mas isto? É o caos em desordem e iremos pagá-lo caro.  

 

31 outubro 2020

MORTOS, FINADOS & MAL PAGOS

Se aplicarmos uma regra de 3 simples aos nossos actuais, e modestos, 4.000 casos por dia de Covid19 (para a semana serão 7.000, depois talvez mais), 3 % destes irão morrer diariamente da doença (120 a 200/dia) e 1 % (40 a 60, dia) irão parar a Cuidados Intensivos em cada dia que passa. Mas estes resultados não se mostrarão equitativos, como gosta a política correcta: os mortos apagam-se num instante, não pesarão, morrem e está feito; já os dos cuidados intensivos não podem ser descontados com a mesma facilidade, pois irão permanecer por lá durante 3 ou 4 semanas, vão entupir aquilo, rebentar com aquilo, obrigar a que outros Serviços contribuam e venham reforçar esse papel, descurando as outras doenças que continuam a existir e a matar. 

No entanto, os mortos que nos mostram parecem poucos se comparados com os que era suposto esperar, e detenho-me um minuto de silêncio a pensar sobre uma particularidade que está a suceder com as mortes em geral: tradicionalmente, os portugueses são, na hora de decidir, avessos a morrer em casa, vão morrer, triste e abandonadamente, aos hospitais. Mas o que parece acontecer recentemente é que o número dos que morrem em casa está a aumentar. O que quererá isto dizer? A razão talvez seja simples: as pessoas acabam por morrer em casa por receio de ir bater à porta dos hospitais (encarados actualmente como locais perigosos), por o acesso se ter tornado mais complicado, e ainda por estas instituições terem sido obrigadas, pela pandemia, a encolher os Serviços que recebem outras doenças graves (como AVC ou enfartes), alguns deles reconvertidos para se dedicar ao Covid19. Do lado dos hospitais, não há outra solução, não os podemos criticar por isso, adaptam-se ao tsunami que lhes bateu à porta e, avisadamente, não esperam por orientação de Lisboa, sobretudo se na outra ponta da balança o poder se entretém em negaças e cócegas à realidade e às soluções que esta exige, já. No que, por exemplo, diz respeito aos mortos acontecidos o que faz quem tem a varinha mágica? Decreta que todos os mortos serão louvados na data apropriada: 2 de Novembro, dia de luto nacional. Bom e barato.

Agora, que a segunda vaga (ou onda, ou chicotada) se abate sobre o país como granizo - e irá piorar até longe em Novembro, até que o vírus se canse e hiberne um pouco -, o que se ouve, com estupefação, através da TV? O Governo irá tomar medidas robustas em Dezembro, para precaver o Natal e os seus perigos. Isto é, pré-anuncia que irá tomar medidas daqui a um mês! Um mês? E, entretanto, até lá? A gente sabe lá como vai chegar a Dezembro, de que modo este Novembro irá condicionar Dezembro! Basta olhar em volta, já, para ver como gemem os nossos vizinhos europeus, todos a apressar e a pôr em prática medidas fortes, lógicas. E nós? Bem, para já vão-se experimentando corridas de automóveis para 27.000, a ver o que daí advém; interdita-se a ida aos cemitérios nos Finados; torna-se a máscara obrigatória, mas com generosas excepções, para não melindrar ninguém. Depois, em Dezembro proíbe-se o Natal e o Ano Novo, a não ser que venha a ser demonstrado que é inconstitucional, ou desproporcional, ou a evidência demonstre que o champagne protege do vírus. É com isso que, para já, andam entretidos em Lisboa, enquanto os lares (de idosos) continuam a estourar como castanhas e as escolas fervilham de casos e surtos e as famílias e os professores andam loucos com o que fazer aos casos, aos contactos, aos contactos dos contactos. Mas os ministros continuam serenos, dizem que não há evidência, que são situações pontuais, que tudo vai andando em direcção ao sucesso; e, atrás deles, os secretários de estado vêm e dizem que até já estivemos pior em Abril. 

Não há contraste mais flagrante do que o ver e ouvir falar os médicos (ou outros profissionais, sobretudo hospitalares) que trabalham no olho do furacão e comparar a sua aflição amarga com a ruminação política e o refluxo dos outros que, embora técnicos de saúde, cumprem o papel de esteticistas do poder. 

Nenhum dos primeiros pestaneja ou se encolhe a descrever o que se passa, o que lhes bate à porta, ou a avisar o que vai acontecer e o que ainda pode ser feito, enquanto os douradores à chamada continuam, com vagar, a pintar a pílula, a anunciar que irão reunir para a semana, a garantir que há ainda virtualidades e flexibilidades no Sistema, que os serviços de saúde privados, conforme os dias e a latitude, talvez ajudem ou talvez não. 

É supremo mistério o motivo pelo qual estes Eleitos (embora, internamente, não desconheçam o que se passa ou avizinha) não desistem, para o exterior, de negar a realidade, de a tentar mascarar ou esconder a todo o custo, e, se ela extravasa pelas costuras (tão visivelmente que qualquer jornalista se aperceberá), continuarão a tentar esbatê-la pela comparação pacóvia com os que ainda estão piores que nós, a meter os pés pelas mãos. Bastar-lhes-ia, supõe-se, um nadinha de coragem para comunicar o que as coisas são, com o que se pode contar, ninguém iria levar a mal e todos agradeceriam. Mas um dogma, por definição, não se explica: está fora de causa falar claro e coerentemente, e ai do primeiro que se atreva. Entretanto, no quadro mundial de casos confirmados de Covid19, Portugal, uma migalha de dez milhões de almas, saltou rapidamente do 50.º lugar, onde se mantinha há meses, para o 37.º Que importa? Não sejamos tão pessimistas: estamos ao lado dos grandes e, mesmo assim, quase tão bem como a Coreia do Norte. 

Actualização: Publicado há apenas 3 dias, os números que invocava já foram ultrapassados pela crua realidade. Hoje (4 de novembro) os casos confirmados serão cerca de 7.500, os mortos 60 (um com menos de 45 anos) e brevemente rondarão os 200/dia. É de esperar que os cuidados intensivos venham a atingir mais de 600 internados em breve. Alguns hospitais assemelham-se já ao que vimos acontecer em Itália, com doentes a morrer pelos corredores. E qual continua a ser a atitude geral de quem comanda? Lixiviar a coisa, branquear, mandar calar quem tiver notícias desagradáveis a mostrar. Em nome de "não instalar o pânico", dizem eles, mas, de facto, para manter os fundilhos colados ao poder pelo seguimento cego da voz do dono. Vem-me à mente a letra da velha canção: "Quanto custa aquele cãozinho ali na montra, aquele com a cauda a abanar?"       

© Fotografia de cima: Carolina Berhan, Manteigas 2020.

20 outubro 2020

ÀS VEZES, À NOITE: 11. Na Xai-Xai

 “Diz à avó que mando um beijo e lhe desejo Boas Festas”, recomendou a Rosarinho ao deixá-las à porta da mãe. Chovia e ajudara a transportar os pertences das catraias para a entrada coberta do edifício, pois tinham tendência a ficar paralisadas na hora de mudar de turno. Rosarinho já tocara à campainha e ouviu-se a voz metalizada de Zita a avisar pelo intercomunicador que ia descer. Acocorou-se, abraçou Micéu e reforçou o pedido, pois a filha mais velha era algo despistada a dar conta de recados. 
“Dá um beijo meu à vovó, querida, diz que o papá deseja Feliz Natal. Não te esqueças.” 
E correu para o carro, onde ficou à espera de ver a ex-mulher surgir e considerar as miúdas entregues. Depois meteu um braço pela janela, acenou vigorosamente ao arrancar. Adeus, feliz Natal, até à próxima; puta que pariu! Durante minutos guiou sem rumo, sem pensar, só para se afastar dali, e um velho automatismo levou-o a Santos Pousada onde acabou, como dantes, a uma mesa da Xai-Xai. Do sítio onde estava sentado conseguia ver a 4L estacionada no larguinho do lado de lá da rua, ao lado do prédio onde morara, cobrindo-se de perlas de chuva como se nunca tivesse saído dali. Talvez levasse três ou quatro bolos-reis para cima, para oferecer, que aqueles de Vila Real eram uma merda. Cinco, ficaria com um em casa, a competir com as cores do presépio que as miúdas tinham improvisado a um canto da sala com bonecos de S. João comprados no Sousa. 
“A ovelha está a fazer de vaca, papá”, avisara Micéu quando o fora resgatar ao quarto, onde estivera confinado até elas darem a surpresa como pronta.  
Fora a uma daquelas mesitas que, muitos anos atrás, tivera uma longa conversa com a sogra, chamada de urgência pelas colegas de apartamento de Zita, que não sabiam o que fazer ao ser transtornado que aparecera em casa na madrugada de Domingo para segunda-feira. O resto do Domingo, após ter chegado de Ponte de Lima, passara-o ele deitado no colchão sem estrado do quarto em Santos Pousada. A casa estava deserta, nenhum dos outros habitantes chegara ainda da ida à terra no fim-de-semana, e no apartamento errava o odor triste do lixo por despejar, das camas por fazer. Engoliu um brandy com uma cápsula de Medipax e apagou-se; sentiu alguém chegar e chamar, notou que estava escuro; depois viu gotas de chuva a cintilar, penduradas dos interstícios dos estores, mas não se conseguiu levantar para fechar a janela; o rumor do trânsito perturbou-o toda a noite mas não conseguiu levantar-se para fechar a janela, ia e vinha num sono artificial. Alguém meteu a cabeça pela frincha da porta e disse baixinho: 
“Barbosa, estás aí?”.
No dia seguinte, ao fim da tarde, como era o costume, apareceu em Faria Guimarães, quem atendeu o intercomunicador foi Aurora que, estranhamente, não abriu o trinco e avisou:
“Espera aí em baixo, por favor, vai descer alguém...”
Nessas circunstâncias sombrias conhecera Maria do Céu, chegada de Alvarelhos nesse mesmo dia. A mãe de Zita era pequenina e muito cerimoniosa, mal o vira encetara desculpas por aparecer sem aviso, por se intrometer na vida dele – “na vossa vida”, corrigira – mas, acrescentou, sentia que lhe devia uma explicação, uma vez que a filha não estava em condições de o fazer.
“Mas não devíamos ficar aqui, à chuva, não lhe parece?... Eu, do Porto, mal conheço..., o Dr. Raul não poderia sugerir um local onde pudéssemos conversar um pouco?”
E Raul, atrapalhado com o Dr., apreensivo com os augúrios, incomodado por se sentir empurrado a ir falar de coisa íntima com uma estranha, uma potencial inimiga, pensou no habitáculo do Peugeot 404, pensou no apartamento em Santos Pousada, espaços que logo afastou como hipóteses pouco acertadas. Depois lembrou-se da Xai-Xai, pouco iluminada e pouco movimentada àquela hora.
Não estava ninguém na confeitaria, o empregado, sentado ele mesmo a uma das mesas, pasmava para um Comércio do Porto, acenou quando o reconheceu, trouxe o chá e o café e deixou-os em paz no confessionário improvisado à parede do fundo. A senhora remexia o chá e Raul olhava o Peugeot estacionado no lado de lá da rua, enchendo-se de perlas de chuva, abençoado Neca que, extravagante na generosidade, lhe propusera que conservasse o carro emprestado.
“A sério, fica com ele mais uns dias, não vou precisar; tenho sempre algum dos da garagem para as minhas voltas.”
“Nem sei por que ponta...”, começou ela de repente como se tivesse decidido arregaçar os braços e mergulhar. “Queria que soubesse que estou a par do que aconteceu este fim de semana, que o passou com a Zita lá no Norte...” E, talvez temendo que esse preliminar pudesse soar como censura, exibiu o antídoto: “Sei também que a terá pedido em casamento, ela mesmo o disse...”
“Como está ela...?” 
Maria do Céu não respondeu logo, olhou-o de uns olhos muito escuros e algo protuberantes, como se o quisesse beber antes de se arriscar ao que vinha dizer. Não havia parecença entre ela e Zita, eram como a água e o vinho. A aflição que lhe tomava o olhar e os gestos também eram pouco concordantes com a imagem de mulher distante que a filha descrevia.
“Não muito bem... As raparigas telefonaram quase de madrugada, vi logo que alguma coisa grave se teria passado. A Zita tinha chegado a meio da noite, desatou a tocar à campainha, embora tivesse chave.... Viemos por aí abaixo numa correria. Soube que a terá deixado em Ponte de Lima a meio da tarde de Domingo...”
Sentiu-se acuado, na voz de terceiros aquilo assemelhava-se à descrição de uma deserção; explicou-se:
“Quando já regressávamos ao Porto, ela quis ir a Ponte de Lima, não explicou porquê. Mal chegámos, saiu do carro dizendo que não regressava comigo. Depois de o estacionar fui à procura dela, mas tinha desaparecido; estive por ali mais de duas horas, não consegui voltar a encontrá-la.”
“Entrou numa pensão e tomou um quarto... Conta que saiu dali só quando era noite, para jantar...”
“Mas como veio para o Porto, assim, a meio da noite!?”
Maria do Céu desviou a face para a janela, a ganhar tempo, mas ele via-lhe os olhos, reflectidos no vidro, rolando aflitos. Como é que a filha saíra tão branca e quase loura, de olhos tão claros?
“Acho que agora não vale a pena fingir que não sabemos: todas aquelas raparigas que moram com ela já conhecem a história, pela boca dela...”, disse como se lamentasse a indiscrição da filha. “A Zita – nem é nada dela – bebeu ao jantar, foi para um café e meteu conversa com um homem que a trouxe depois ao Porto, no automóvel dele. Deixou a pensão sem pagar, o meu marido está para lá a tentar liquidar a dívida antes que resolvam comunicar o assunto às autoridades  ainda nem voltou. Apareceu em casa com o tal cavalheiro a reboque, também ele bebido, tiveram de o expulsar dali, as raparigas chegaram a ter medo.”
Raul deixara de participar na conversa, deixara de fazer perguntas, esmagado pelas revelações, e Maria do Céu penetrava mansamente pelas brechas.
“Perdoe a dureza de tudo isto”, disse com olhos dissolvidos, “mas acho que lhe devemos esta franqueza, sobretudo após a proposta de futuro que fez à minha filha... Nem pode imaginar como fiquei comovida quando soube...”
“Foi ela que lhe contou?”, perguntou ele com voz embargada, como se essa possibilidade pudesse ser um lenitivo. 
“Não, ela nunca nos tinha falado de si. Não que eu não sonhasse da sua existência, pois uma mãe vai juntando peças. Tinha-o contado às amigas, no meio de lágrimas e risos, como louca! Aurora diz que dizia: ‘vejam só o material de que sou feita, como dou cabo de tudo e transformo as rosas em... em caca!’ – ela empregou um termo mais forte”. 
“Parece estar arrependida...”, retorquiu ele, surpreendido por dar consigo a defendê-la.
“Parece...”, Lívia olhou-o fixamente. Em seguida baixou os olhos para a mesa, considerou a chávena vazia.
“Quer mais chá, talvez comer alguma coisa?”
Ela abanou a cabeça. Devia ter tido um belo cabelo preto, forte, mas agora havia inumeráveis borbotos brancos a riscá-lo, a torná-lo crespo. 
“Acho que não conseguiria comer, sinto o estômago dorido, como se tivesse levado sopapos! Talvez um pouco mais de chá...”, acabou por pedir como quem sugere que a conversa ainda não está acabada.
Raul virou-se para chamar o criado, mas este continuava absorto no jornal. Levantou-se e os momentos que esteve em torno do balcão pareceram-lhe leves como os de uma liberdade condicional. Por trás do mostrador viu croissants com um brilho tentador, mas, embora sentisse uma fome danada, não teve lata de se imaginar a comer um em frente dela.
Voltou à mesa e ficaram em silêncio até que o empregado pousou o novo bule, o novo café, levantou o cinzeiro e trouxe outro. O curto passeio, o ter visto, de cima, o aspecto encolhido e abatido da sua companheira, tinham-lhe reanimado esperanças e projectos.
“De qualquer modo, queria que soubesse que nada do que sucedeu muda as intenções que tenho em relação ao noivado...”, disse sentindo a voz soar-lhe alheia à medida que deixava cair as palavras.
Maria do Céu erguera os olhos da chávena, estavam a transbordar de lágrimas, uma mão avançara sobre a mesa e pousou na sua, muito ao de leve. Raul achou – isso sim – que o toque fora gémeo do da mão que, há dois dias, a filha estendera sobre a toalha da mesa do hotel em Santa Luzia, quando lhe propusera que casassem. Tudo aquilo era absurdo e sentia-se como se tivesse saído do corpo e passeasse por ali, vendo tudo como se nada fosse com ele.
“A Zita é nova e acho que se assustou um pouco com a sua proposta, talvez não se achasse preparada para a escutar. Mas tenho fé... Ela é uma rapariga frágil, muito nervosa, um pouco especial. Aos quinze anos – quando estava interna no colégio – teve um esgotamento nervoso muito grande, o médico aconselhou a que interrompesse os estudos e descansasse. Esteve connosco, na quinta, três meses, depois tudo passou como um sonho mau, o seu colega ficou espantado com a recuperação, embora tenha dito que as crises podiam voltar, sobretudo se fosse submetida a grandes tensões. Talvez tenha sido o que aconteceu, uma novidade destas..., uma coisa para a vida.”
“Talvez...”, Raul tentou tornar simples aquele silêncio que se estabeleceu e onde se enredavam alguns pormenores de acontecimentos pregressos e que brilhavam agora, sinistros como peixes a boiar à tona de água. Mas manteve-se calado, eram do domínio privado, que adiantaria a uma mãe – ou mesmo a um psiquiatra – saber que a filha amarrava ligaduras em volta do torso para amarfanhar e negar a existência de umas mamas tão vistosas e cobiçadas? Ou que, uma única vez, por brincadeira, na cama, a meio do sexo, lhe envolvera o pescoço numa echarpe e quase o ia asfixiando, os olhos duros fixando-o além da compaixão? Ele próprio desvalorizara aquilo ou, ainda mais, considerara-o como segredos um pouco perturbantes, mas com o seu quê de picante, algo que poderia um dia vir a ser comentado, com um sorriso, na intimidade de um leito desfeito. Nunca lhe passara pela cabeça que pudessem vir a ser estrelas numa constelação tormentosa. 
“De qualquer modo”, repetiu-se, “é como diz: ela é ainda nova, somos ambos novos, temos tempo...”
“Raul, vou pedir-lhe um favor, mais um: tente não pressionar já a Zita em relação ao futuro, a um casamento para breve. Se bem a conheço, vai reagir ao contrário do que se espera dela, ainda para mais culpada como se sente em relação a si... Amanhã vamos com ela a um especialista, um neurologista.... Veríamos o que aconselha, voltaríamos a conversar se ainda lhe restar paciência para mim.”
“Certo”, anuiu, intrigado com aquela mania das pessoas se referiram aos psiquiatras como neurologistas, como se tudo quanto estava doente numa alma se resumisse a fios que podiam puxar-se com esticões ou martelar com poções mágicas. 
Quando saíram da confeitaria parara de chover e as nuvens tinham-se afastado, deixando ver algum céu estrelado. Maria do Céu suspirou, comentou:
“Fiquei há pouco, quando vínhamos, com a sensação de não estarmos muito longe do apartamento em Faria Guimarães... Será que poderíamos ir a pé? Passei todo o meu dia enclausurada, sentada, saber-me-ia tão bem esticar as pernas...”
Raul recordava aquele passeio nocturno pela concentração em comedir a passada para não se adiantar à companhia, pela preocupação em lhe dizer “cuidado” de cada vez que um automóvel passava e chapiscava água da valeta sobre eles. Na altura não sentiu mais do que isso, mas, nos meses seguintes, deu por si a pensar naquela mulher com simpatia. Os anos confirmaram o sentimento, deram-lhe um estatuto de carinho. Já após o divórcio lhe vinha muitas vezes à memória aquela primeira conversa, sempre que atravessava aquele cruzamento se recordava mais da Xai-Xai do que do apartamento onde morara em Santos Pousada. O Neca dizia que era uma aberração, um homem sentir tal coisa por uma sogra, ele refutava:
“Que queres, foi assim comigo. Visto de agora acho que sempre me entendi melhor com ela do que com a minha ex-mulher!” 
O divórcio, no entanto, provocou um afastamento dos sogros, tinha de ser, ele compreendia que os pais eram forçados a encostar à causa dos filhos. O nascimento de Micéu – baptizada com o nome da avó por sugestão sua e aceite com relutância por Zita – poderia ter propiciado uma aproximação, não fora Zita estar vigilante dos contactos entre ambos como um guarda da Revolução Cultural chinesa. 
Raul encolhia os ombros, mas sentia mágoa por essa secura que trazia a vida.
 

 (continua)

 

18 setembro 2020

MADEIRA EXÓTICA & CONTRAPLACADO

JAMILA MADEIRA... Assim, à primeira, parece o nome de uma serração de madeiras, em que um desvanecido proprietário aglomerou sílabas do nome dos filhos (JA, de Jacinto; e MILA, de Filomena) para obter um atraente nome para o negócio. Mas não, o pai desta Jamila é um crónico do Partido Socialista e a própria da Jamila, para além de sua filha, uma gema que ainda andava no liceu quando ingressou na Juventude Socialista (JS), esse aviário de talentos. 
Pois, aí, na JS, Jamila fermentou, fermentou e saltou para o poder autárquico algarvio - como sabemos uma escola de excelência que transformou a região numa espécie de arrabalde de uma grande cidade que nunca se chega a encontrar -, saltou logo que pôde para a Assembleia da República e um dia, com grande surpresa de todos, eis que a vemos madrugar como Secretária de Estado da Saúde. E não uma Secretária de Estado qualquer, mas sim Adjunta da Ministra o que (havendo dois secretários), representa o cargo mais importante, poderoso e mais próximo da Ministra. Mas que atributos especiais teria a senhora para estar ali, para além da política e de uma luminosa passagem pela EDP e pela REN? Nada, que se soubesse. Encolhi os ombros e fiquei à espera: não é raro que os partidos no poder coloquem alguém do aparelho como secretário de estado, sobretudo de ministros ambíguos, uma espécie de pulseira electrónica para vigiar intenções e actividades de algum ministro mais independente ou recente no Partido.
Mas a senhora tomou posse, o tempo passou e, cá fora, nada se lobrigava: nem iniciativas, nem área de interesse; é que nem a própria senhora aparecia! Interessado no mistério ia perguntando aqui e ali, a gente atenta e que conhece o meio: "Ouve lá, afinal o que anda a Jamila a fazer?". Ninguém sabia, ninguém lhe conhecia pensamento, palavra ou obra. Um mistério total, opaco, impenetrável.
E eis que surge o abençoado Covid, esse anjo vingador, esse bisturi, esse sangrador; esse revelador que tanta evidência parda tem empurrado até à luz do sol; o terror dos 'rolhas' ou seja, daqueles que sonham em singrar na passadeira vermelha sem dar nas vistas ou correr o risco de ser removidos do cargo, e flutuam à tona mesmo quando os governos mudam.
E a Dr.ª ou Mestra Jamila (alguma destas coisas será) lá foi empurrada a aparecer, a partilhar responsabilidades, e eis que surge aos holofotes das Conferências de Imprensa do Ministério da Saúde com a pose azamboada de quem a tinham ido chamar à cama. Que se visse, durante essas prestações, encaixava a melena, balbuciava uns números, que lia de um papel; tropeçando no assunto e não fazendo nada que a senhora da linguagem gestual, por trás dela, ou a menina da recepção do Ministério, não pudessem fazer com igual brilho. 
Uma bela manhã de Setembro, numa renovação-relâmpago de 5 Secretários de Estado 5, eis que o país toma conhecimento que Jamila foi de vela! Pelos vistos, Temido ter-se-á fartado, exigiu a saída e, simultaneamente, que o actual secretário de Estado menos importante (António Sales) passasse a desempenhar o papel dela. Ter alguém que ajude, que os tempos não vão doces! Percebe-se, digo eu. António Sales é da área (é médico), informado, sóbrio, e, nas tais conferências de imprensa, limita-se a dizer o que é necessário, não se perdendo em considerações sobre as suas netinhas ou sobre o modo de organizar um baile ou conduzir uma sardinhada em tempos de pandemia. Marta Temido, que não é parva, ter-se-á dado conta de como eram desiguais os pratos da balança... 
E Jamila lá foi, mas não sem antes, ao invés dos seus quatro colegas que saíram em tranquilo silêncio, ter endereçado ferroadas a Marta Temido que - foi amplamente divulgado (presente envenenado) - terá sido quem exigiu a saída. E, de saída, enquanto ainda tinha microfones, lá cuspinhou ter sido apanhada de surpresa; que se lhe tivessem perguntado teria querido continuar, e, finalmente, que o trabalho dela deixava o SNS (designadamente as suas contas) muito melhor. Ainda bem que alguém se deu conta!
Mas, estimada Jamila, não se preocupe com o futuro. Com a experiência de quase um ano na Saúde, de certeza que, mal a poeira assente, lhe arranjarão aí qualquer coisa como presidente de uma ARS, administradora de uma ULS ou de qualquer outra entidade terminada em S.  


PS: Já dois dias depois deste texto publicado leio na comunicação social que há quem gema pelas coxias do aparelho do PS com a desfaçatez de Marta Temido em ter ousado pensar em demitir Jamila! Imagine-se, demitir uma tão vetusta personagem, que anda pelos corredores do partido praticamente desde que sabe ler. Que diabo, tal antiguidade é já um posto e dá-lhe direito a um voucher para vários cargos importantes que possam surgir na gestão do país! Como foi possível Costa ter alinhado em tal coisa? O aparelho do PS está chocado: é que se isto passa a ser permitido, ninguém jamais se pode considerar de pedra e cal em nenhum posto! E vindo de uma novata como Temido, uma quase independente?! A chatice está em que Temido não é assim tão descartável: obteve muitos votos para Costa em Coimbra nas últimas legislativas; o problema está em que Marta Temido (por bons e maus momentos) se foi tornando popular entre os portugueses nestes tempos difíceis do Covid19. Ao passo que a outra..., que se saiba tem apenas mau acordar, mau feitio e péssimo perder. Tudo isto fortalece a ideia, já aqui ventilada, que Jamila não era muito mais do que uma controleira de Temido, a tal pulseira electrónica para vigiar ministros problemáticos ou possivelmente não totalmente respeitadores da hierarquia e precedência partidária.

Nota: ARS - Administração Regional de Saúde; ULS - Unidade Local de Saúde.

07 setembro 2020

ÀS VEZES, À NOITE: 10. O Amor em Fuga

Meses passados, por inevitabilidade, Zita mudou-se das mesas da Rua de Cedofeita para o Piolho, cognome de um café que não se chamava assim, mesmo ao lado da Faculdade de Letras e ponto de encontro árduo de evitar: parecia não haver encontro ou pré-encontro que não fosse ajustado para ali. Ela já conhecia o sítio de estadias acidentais, mas jamais lhe passara pela cabeça estudar àquelas mesas! Seria forçada, incontornavelmente, a levantar a cabeça das sebentas minuto a minuto, tal era o vendaval de entradas e saídas. Depois descobriu que, ao fundo do café, havia uma escada em caracol por onde via gente desaparecer e conduzia a uma tranquila sala no andar superior. Lá, onde as janelas deitavam para a fachada lateral da Faculdade de Ciências, havia uma espécie de contiguidade universitária e sossego, e tudo quanto chegava e partia tinha de o fazer pela escada, o que trazia uma confortável sensação de segurança e controlo sobre os acontecimentos, pois conseguia identificar quem se aproximava mesmo antes da pessoa desaguar na sala: a cabeça antecipava o corpo no remoinho dos degraus!
Fora deste modo que, um fim de manhã, vira emergir a cabeçorra despenteada de Raul no patamar das escadas, o que lhe dera tempo para esconder a cara entre os cabelos e concentrar o olhar sobre os apontamentos que ia sublinhando com o auxílio de uma régua. Esteve assim uns minutos, até que o baque pesado de algo a bater no tampo de uma mesa a fez – a ela e às outras mesas – levantar a cabeça numa surpresa justificada. O tipo sentara-se defronte e olhava-a com um sorriso descarado: ficou sem a certeza se o barulho provocado pelo calhamaço não fora propositado para a expulsar do seu refúgio capilar.
“Hoje estou certo que não vou embarrar na tua mesa”, disse ele levantando umas manápulas afastadas que pareciam quantificar a distância entre eles. Ela esboçou um sorriso, fugaz e gelado, e baixou a cabeça, focando-se na tarefa de clicar mais meio centímetro de mina para fora do bico da lapiseira. 
O que mais a incomodara naquele começo de namoro tinham sido os dias em que ainda não havia intimidade, em que não saíam sozinhos, pois ele mostrava prazer em agitar o espaço em volta, não parecendo ralar-se que toda a gente ficasse a olhar e que as colegas dela se achassem no direito de fazer perguntas, de se referir a eles como se, antes de o serem, fossem já um par.
Raul, por seu lado, sentia que empurrara o namoro sozinho, que fizera toda a despesa da transacção, havia até um detalhe, impossível de partilhar, mas que funcionara como rastilho da aproximação urgente a Zita, nesses dias em que se começara a cruzar com ela nas mesas de estudo dos cafés do Porto. Próximo à rua em que morava havia um apartamento onde se entupiam outros universitários, desterrados na cidade como ele, e cujas traseiras deitavam para as janelas de um lar 'para meninas', que viviam ali, entaladas entre freiras e horas de recolher obrigatório. À noite, algumas delas, com a luz acesa, persianas por correr e cortinas entreabertas, despiam-se demoradamente enquanto se preparavam para dormir ou aguardavam vez para as abluções no quarto de banho comum. Entretanto deambulavam nuas, parcialmente nuas ou intervaladamente nuas, num à vontade que, pela naturalidade doméstica, incendiava a imaginação no prédio em frente. A notícia das sessões privadas, embora avaramente contida pelos  descobridores, chegou por boca a boca aos locatários do apartamento de Raul que, dada a vizinhança com o mítico local, passaram a visitar regularmente os colegas e a apinhar-se no quarto às escuras onde as camas tinham sido arredadas das janelas e estacionava já um par de rudimentares binóculos, pois um dos espreitas, precisamente aquele cujo nome constava no contrato de arrendamento, era ferozmente míope e os seus queixumes de não estar a ver o suficiente ameaçavam a continuidade da fruição dos restantes voyeurs. Uma noite quente, por breves instantes, esses binóculos estiveram nas mãos de Raul que, com a incredulidade do sitiado durante um assalto inesperado, viu surgir nas lentes um par de mãos a percorrer demoradamente umas virilhas (precisamente ao longo do trajecto onde se terminava o bordo de umas cuecas) e, na segunda onda de choque, observou uma dessas mãos a afastar o diminuto rectângulo de tecido branco que cobria o mons pubis para passear duas pontas de dedo da mão livre por uma superfície pilosa que lhe pareceu luxuriantemente macia. Trémulo, ao levantar um pouco o ângulo de observação dos binóculos, teve ainda tempo para aperceber uns cabelos pendentes, uma fatia de face atenta olhando para baixo, e um dedo ascendendo que se encostava a umas narinas.
“É, pá, topaste-me a gaja a cheirar a própria rata?”, comentou um espectador de modo pouco preciso.
“Não! Qual delas? A loura?... É, Barbosa, passa cá isso! Já estás aí há séculos”, protestou alguém no escuro, ansioso por, ao menos, vislumbrar uma ampliação dos despojos. Mas ele fizera orelhas moucas e pousara os binóculos em cima da mesa de cabeceira mais afastada das janelas, como se o que acabasse de ver fosse demasiado íntimo, uma revelação, um encontro, indigerível ainda, ocorrido entre ele e a rapariga do lado de lá da escuridão, a qual, de facto se limitava a inspeccionar as virilhas massacradas pela funda de um ensaio onde estivera duas horas, pendurada no palco pela cintura, a fazer de enforcada. 
Raul só ser dera bem conta de tudo isso, da simplicidade esquálida do episódio, do encadeamento de momentos e do tricotar insidioso do destino, em Penaformosa, quando a ligação ao Porto se fora esbatendo e a solidão insuportável do apartamento do Fundo de Fomento lhe permitiram tirar os toscos bonecos de dentro de si e, gradualmente, ir expondo-os pelo espaço vazio: na sala, pelo corredor, no quartito de arrumos, no seu quarto, no espelho do quarto de banho. Podiam ficar por ali, à mostra, sem ter de ser recolhidos, sem perigo: ninguém ia aparecer; o telefone não ia tocar a não ser por incumbências de trabalho, ninguém ia bater à porta com o semblante satisfeito de quem faz uma surpresa a um amigo ou a alguém que nos é querido. 
Sim, empurrara tudo aquilo sozinho, por alguma razão distante decidira que era aquela a sua linha de costa, fundeara a âncora e correra pela areia sem se certificar de quem espreitava entre as árvores. Ignorara todos os indícios e iludira a falta deles, construíra a sua imagem dela, aquilo servia-lhe e ela só podia ser assim; havia de vir a ser assim, o tempo se encarregaria de esbater as arestas dela, asperezas que ia adoçando com a miragem de uma maneira de ser onde até a possibilidade de descobrir uma sexualidade misteriosa trazia um inebriamento especial. E o tempo foi passando.
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Na véspera dera-se o desastre. Raul era já médico estagiário da especialidade de Infecciologia, Zita finalizava a licenciatura. Misteriosamente, querendo parecer natural, mas repetindo-se tanto que ela ficara de sobreaviso, convidara-a para um fim de semana fora da cidade. “Onde?”, quis ela saber, pois detestava improvisos, não poder alinhar as expectativas por entre quadriculados de orientação.
“Ah, isso...”, respondera querendo parecer misterioso, mas com uma capa a que estava sempre a levantar as dobras. E mesmo antes de se meter no carro, que conseguira emprestado de um amigo, já ela tinha inferido pelas pontas soltas que iam para Norte e que ele teria algo importante a dizer-lhe.
Mas com o que não contava – e que a levaria a recusar o convite ou a preparar uma mala diferente – era com o local onde iam ficar hospedados: o Hotel de Santa Luzia, em Viana do Castelo; um sítio chic, poiso de gente endinheirada ou da alta burguesia! Também ele não contava que ela estivesse nos dias rubros do período menstrual, pelo que a ambientação lua-de-mel em que tencionava envolver as duas noites no quarto com vista para o mar acabou por andar sempre a esbarrar nesse constrangimento, pelo menos na barreira física, pois à outra ambos fingiam ignorá-la. E a manhã de Domingo terminara com um desanimado Raul a deixar um recado no luxuoso papel de carta do hotel, pedindo desculpa às camareiras pelo estado lastimoso em que deixavam os lençóis, bilhete acompanhado de uma gorjeta que Zita achou excessiva e ofensiva, quer para a sua condição de mulher quer para as trabalhadoras. Mas acontece que ele sabia quem eram as tais trabalhadoras, tinha-as visto, no Domingo, quando deixaram o quarto, já em cima da uma da tarde, e elas esperavam que ficasse vago para o limpar, e fora a intensidade visual desse conhecimento que o empurrara a dar alguma explicação.
Na noite da chegada, durante o jantar, propusera o casamento, o motivo central de todos aqueles preparativos. Não era assunto virgem entre eles: às vezes falavam nisso, mas ela enrolava a decisão, empurrando-a, sem dizer sim ou não, para o final da licenciatura. Desta vez, sentindo-se encurralada nas circunstâncias, antes de responder e pressentindo que toda a sala de jantar do hotel os olhava por estarem tão desconformemente trajados, levantara-se e fora aos lavabos, uma vez que o premeditado da proposta provocara-lhe uma violenta dor de estômago. Enquanto se estorcegava na retrete, aparando o par de lágrimas com o pedaço de papel higiénico que já tinha entre mãos para limpar o rabo, Raul ficara-se à mesa, beberricando vinho. O “sim” só fora dito no quarto, mas mantivera uma mão medianamente entrelaçada na dele durante o resto da refeição, particularmente para o manter sereno, pois um homem daquele tamanho dava nas vistas quando irrequieto.
Apesar de todos os cuidados, sentira o tal “sim” tão pouco consistente que teve receio que ele – o seu querido desajeitado – se desse conta da falta de entusiasmo e essa foi a principal razão pela qual se abandonara aos ímpetos comemorativos e tinham deixado os lençóis num estado a que ele, com anatómica imprecisão, se referia como “uma cagada”. Aparentemente consolado, Raul dormira o resto da noite como um bebé, mas ela ficara acordada no escuro, a pensar se não teria sido inaugurado naquele quarto de tecto alto e motivos florais nas sancas o maior disparate da sua vida. A quem estava a enganar? 
Ao amanhecer, Raul acordou com sede e viu uma silhueta nua especada à janela de sacada, a aurora lambendo de dourado o corpo lívido e esguio da noiva.
“Que estás aí a fazer, madrugadora?”
Ela voltou-se como se tivesse apanhado um choque eléctrico de alta voltagem, ele ficou algo surpreso mas tomou a reacção como resultado do excesso de emoções acumulado naqueles dois dias.
“Anda, volta para a cama; ficas gelada!”
Nem tu sabes quanto, pensou, respondendo em vez: “Vou tomar um banho rápido, sinto-me suja.”
E passou a correr para o quarto-de-banho, para não lhe dar hipótese de a colher na travessia. Raul encarou a possibilidade de se levantar e ir ter com ela à banheira, pois, na contraluz da aurora, o volume dos seios contra o corpo magro, oscilando na corrida, tinham-no exaltado. Mas algo o reteve, algo nascido no branco lacado da porta cerrada, na sensação geral que lhe deixara a noite e o sexo inerte que ela consentira. Foi então, ao virar-se na cama e ao puxar a coberta sobre si, que notou as manchas avermelhadas que enodoavam o lençol de baixo, que repassaram o lençol de cima, que tinham, inclusive, atingido o canto da fronha de uma das almofadas. Aquilo era tão totalmente indisfarçável que lhe surgira a ideia de deixar um bilhete às empregadas - elas iriam compreender, tinha até pena de não poder descer ao detalhe de anunciar que o incidente era o começo de uma outra vida para ambos; de implorar a bênção delas.
Desceram o monte já passava do meio-dia. Raul quis levar Zita a conhecer a Praça da República, a comer uma empada ao Natário, a escolher uma caixa de almendrados para a viagem de regresso ao Porto, o que sobrasse ela levaria para o apartamento em Faria Guimarães, onde agora morava com duas colegas. Zita manteve-se calada o tempo todo, pensativa, e ele viu a alegria de estar ali com ela, do que lhe ia mostrando naquela cidade que conhecia desde sempre, esvair-se aos poucos. Não teria sido assim tão diferente se tivesse ido comemorar o noivado sozinho, matutava, quando Zita, ao reparar na placa que indicava Ponte de Lima, exclamou:
“Leva-me lá...”
“Onde? A Ponte de Lima? Queres ir lá? Temos tempo de sobra...”
Fez pisca e virou na estrada mesmo a tempo, ainda surpreendido pela sugestão, mas sem dizer fosse o que fosse, pois farejava um clima peculiar dentro do carro. Teria sido a porra do bilhete? A gratificação excessiva?
Ao chegar a Ponte de Lima viajaram ao sabor das ruas e ao desembocarem perto da ponte dos arcos ela pediu que parasse o carro, ficando ali, absorta, a olhar o rio. Depois comunicou:
“Fico aqui. Podes ir embora, escusas de esperar por mim; não volto contigo.”
E saiu do automóvel, deixando-o tão atónito que quando recuperou, estacionou o carro e se pôs à procura dela, já não a conseguira encontrar. Ponte de Lima não era assim tão grande, insistiu na busca por mais de uma hora e só parou quando começou a repetir ruas. Exausto, com as plantas dos pés a latejar, sentou-se na esplanada de um café e trincou qualquer coisa, podia ser que ela passasse, entretanto, já distraída de se esconder, já farta de estar sem companhia. Nada disso aconteceu e regressou ao Porto sozinho.

(continua)

© Fotografias, de cima para baixo: 1) pedro serrano, Porto, 2014; 2) Manuel Campos Monteiro, Viana do Castelo 2020. Pintura:Felice Casorati, Notturno.