01 julho 2020

ÀS VEZES, À NOITE: 6. O pastor de frangos

Chegou entusiasmado, seguro de que fizera boa escolha, que podia estar, mesmo, no limiar de uma viragem na vida. Sentiu pressa, passou a visitar com maior empenho o gabinete escuro e malcheiroso do Dr. Coutinho da Costa.
“Apercebi-me de muita coisa enquanto estive na Noruega, Dr. - acho que aprendi mais nestes dois meses do que nos seis anos do curso da Faculdade. Gostava de ser um participante mais activo no processo, quero estar mais envolvido, mudar-me lá para cima quanto antes.”
Eram os primeiros dias de Outubro e a inauguração do Centro estava agendada para o final do mês, só faltava fixar o dia; havia dois ministros que ainda não tinham confirmado a disponibilidade das respectivas agendas. Coutinho da Costa olhou-o atentamente.
“Acho excelente o princípio, mas temos de assegurar uma série de etapas prévias: que o Joaquim Urbano já autorizou a sua saída; que possamos começar a pagar-lhe com verbas do Projecto; verificar se já tem uma casa pronta a recebê-lo... Você já foi lá cima espreitar?”
Raul Barbosa encolheu-se dentro do casaco de couro como se pretendesse tornar-se mais pequeno, um empreendimento difícil. 
“Confesso que não... Mas ir à Noruega deu-me uma visão diferente de tudo isto: está toda a gente tão envolvida, tudo tão bem pensado. Aqueles tipos sabem mais sobre Penaformosa do que eu! Parece que só eu é que estou de fora...”.
“Tem tempo, não se aflija, tem muito tempo. Se me permite o conselho, comece por ir lá, ver que tal... Uma coisa são estágios e boas intenções, a outra a realidade: vá tomar contacto com ela.”
Na manhã da primeira incursão fez um desvio por Cabeceiras de Basto. Lembrara-se, a horas, que um antigo colega de Faculdade era daquelas bandas e numa conversa de café em que se começa a infiltrar a nostalgia e se pergunta que é feito de fulano e sicrano, alguém reavivara:
“O Matos? Voltou para as berças, calcula! É delegado de saúde na terrinha e parece que cria frangos nas horas vagas.”
Raul Barbosa saiu de Cabeceiras enriquecido, uma das fortunas foi a surpresa: aquele tipo baixote, brincalhão, com quem se entediara pelos anfiteatros, tornara-se um homem grave, cauteloso na expressão, parecendo esconder a capacidade de penetração por trás da pose provinciana e, por muito que Raul o tentasse sacudir com os “velhos tempos”, não conseguira provocar fissura no novo enfarpelamento.
“E agora crias frangos, cabrão? Dantes sonhavas em esfolar frangas...”.
“Ó pá, sabes como é... Tinha aí um terrenito do meu pai, demasiado pedregoso fosse para o que fosse. Fiz como os outros e mandei construir lá um barracão, enchi-o de pintos.... Olha que aquilo dá-me tanto como o que nos pagam no Estado.” E, pelo tom prudente do outro, cheio de meandros minhotos e acautelando já eventuais pedidos de empréstimo de um potencial vizinho, Raul ficou a supor que aquilo lhe dava mais do que o salário de funcionário público.
Mas a parte mais suculenta de ensinamentos da visita surgira ao almoço, num restaurante em que o Manel Matos que empurrava tabuleiros na bicha da cantina da Faculdade era tratado com cerimoniosa reverência.
“Carago, Matos, és um senhor por aqui...”
“Podes ver com os teus olhos! Terras pequenas, vais ver como é, não são só desvantagens. E, além do mais, não estão a dormir em pé: sabem que tenho uma palavra a dizer na passagem do Boletim Sanitário; que, em última análise, sou o tipo que lhes pode fechar a tasca...”
Mas não foi caso disso, pelo menos nesse dia: a vitela assada estava excelente e as batatas assadas, com o toque avermelhado do colorau, desfaziam-se na boca. Matos, sob a influência do Pasmados, tornara-se um pouco menos prudente e a sua manha acabara por transbordar do espartilho do cargo, transformando-se numa torrente de informações, carregadas de pestilência local.
“Eu dependo de Braga, graças a Deus, mas tu vais ficar sob a pata de Vila Real, camarada. Põe-te a pau, que, pelo que me chega aos ouvidos, aquilo é malta da corda!”
“Malta da corda?! O que queres dizer com isso? Achas que fiz mal em assinar contrato? Estou em crer que não, olha que vi tudo muito bem pensado... E, de qualquer modo, estou integrado num projecto-piloto, sempre me deve dar alguma protecção, não? E ter os noruegueses a vigiar o que se passa...”
“Os noruegueses!”, o outro gargalhava, vermelho de prazer, aspirando os fiapos de vitela de entre os dentes em inspiradas sorvedelas, “os noruegueses, ... fia-te! Esses estão a milhares de quilómetros, virão cá, duas vezes ao ano, cortar fitas, gabar o presunto e o vinho. No dia-a-dia, vais é ter de contar com as doninhas do aido...”
“Porra, não me assustes, que não foi para isso que vim ver-te ao fim destes anos todos... Explica-me, mas é, um pouco isso de ser um delegado de saúde, que não faço ideia...”
“Isso vais aprendendo, não tem pressa; vais ver que é muito diferente do que se passa num hospital citadino. Aqui não podes empurrar com a barriga, não te podes esconder atrás dos outros da enfermaria, das requisições de Rx e dos pedidos de análises para empatar: as pessoas batem-te directamente à porta, esperam por ti à saída, abordam-te na mesa do café. Olha, deves ter lá em cima um agente sanitário – há sempre um, mesmo onde não há mais ninguém – vai procurá-lo e, ao menos no começo, aconselha-te com o que ele disser. Tudo aquilo de que não percebes nada – águas, esgotos, vistorias a restaurantes, pareceres sobre projectos de habitações – ele estará mais do que rodado. Não sei quem é o teu, mas deve haver por lá um...”
“Casas, restaurantes, esgotos!”, Raul sentia-se aturdido com aquela caterva de assuntos que nada lhe pareciam ter a ver com medicina.
“Sim, sim”, confirmava o outro, “e mortos; espera pelos mortos...”  
“Mortos?! Mortos, como?”
“Mortos, foda-se, cadáveres; julguei que terias visto algum no hospital... Eles não te morrem por lá, na Infecto? Aqui morrem que se fartam: suicidam-se; são mortos à sacholada pelo vizinho, por causa de partilhas de água; ficam por baixo do tractor, que se virou num lameiro...”
“E eu com isso?”
O Matos vigiava o jacto de brandy que o empregado despejava no café, com um aceno da calva luzidia instava-o a continuar o sacudir da garrafa; esperou que o rapaz se afastasse.
“Tu com isso?! Vais ser o primeiro a olhar para eles, amigo: a GNR e nós somos sempre as primeiras vítimas – confirmar o óbito e as circunstâncias; somos sempre nós - mesmo que estejam tão visivelmente mortos que até um calhau daria conta, ninguém lhes mexe sem nós mandarmos. E se a morte for indeterminada e te calhar um delegado do Procurador marca Roskof, vais ter de lhes fazer a autopsiazita da praxe...”
“Autópsia?! Mas eu sei lá fazer uma dessas! Baldei-me às aulas de Medicina Legal o que pude, como toda a gente. Julgava que era a gente do Instituto, no Porto, que tratava disso tudo.”
“Pois não é, pelo menos aqui, atrás do sol-posto...”
“Matos”, implorou Raul, “tu dás-me uma ajuda quando eu precisar, não? Ao menos no início? Posso fazer umas telefonadas, vir visitar-te?”
“Claro, sempre que quiseres..., mas, entretanto, vai-te ambientando com o agente sanitário, vai soprando o pó à sebenta das perícias médico-legais. Ainda a tens por lá, não?”
“Sei lá, às tantas deitei fora”, gemeu Raul pensando na saída apressada da casa comum. 
“Fizeste mal”, terminou o outro, puxando a conta para si com um gesto peremptório. “Como é, ainda vais hoje lá cima?”, perguntou ao despedir-se junto da 4L.
“Estava a pensar, já não é longe.”
“Tu é que sabes...”, disse o Matos olhando o relógio de través: “Mas olha que passa das três e meia, mais três quarto de hora de caminho... A esta hora não encontras ninguém em lado nenhum, está bem, está!”
“Se calhar volto para o Porto, vou lá noutra ocasião...”, raciocinou Raul, parecendo aliviado por ter um pretexto para não se expor a mais novidades contundentes nesse dia; “também não é morte de homem...”.

“Não, podes crer que não”, assegurou o antigo colega despedindo-o com uma pancadinha no friso da janela do automóvel.  

(continua)

25 junho 2020

ÀS VEZES, À NOITE: 5. A Norte, tudo de novo

Oslo Concert Hall. 
No aeroporto estava a esperá-lo um tipo dos seus quarenta e muitos que lhe fez lembrar James Stewart, o actor americano. Tinha a mesma poupinha de cabelo sobre a fronte, os mesmos olhos azuis (embora não tão cândidos), o mesmo ar de gentleman. Nas mãos, uma garrafa de vinho português como estandarte de boas-vindas. 
Sentiu-se impressionado, bem impressionado: onde é que em Portugal um gabiru com a importância deste iria receber um estagiário ao aeroporto, ficar à espera do avião que fazia a ligação entre Londres e Oslo (e chegara atrasado), queimar uma tarde de Sábado?!
Mas Anker não parecia incomodado e conduzira-o ao hotel no seu Volvo de faróis sempre acesos – apesar de ser um dia de Verão -, guiando-o como um chauffeur, esmagando cigarros no cinzeiro; explicando-lhe que teria o fim de semana por sua conta e que na segunda-feira regressaria ao aeroporto para viajar até Stavanger: daí apanharia um barco para Sand onde se desenrolaria a primeira metade do tirocínio. 
“Em Setembro voltaremos a ver-nos e, dessa vez, com maior frequência”, informara-o interpondo um francês fluente ao inglês impecável à medida que se apercebia quão esbracejante era o recém-chegado longe das consoantes da língua materna.
No hotel entrara com ele para ajudar nas formalidades, deixara-lhe uma capa com os documentos de viagem de que iria necessitar no futuro próximo, um cartão com os seus contactos; insistira em que deixasse cair o "doctor" e o tratasse somente por Herman e, já de saída, como quem relembra algo quase esquecido:
“Não sei se é apreciador de música, mas, em sendo, tem, amanhã, uma matiné interessante no Oslo Concert Hall: a integral dos Concertos Brandeburgueses. Se estiver interessado, eles explicam-lhe aqui como ir lá dar, nem sequer é longe.”
Agradeceu muito, assim de repente não teve vocabulário para confessar que a música que, presentemente, lhe dizia mais era, sobretudo, o jazz e a brasileira. Mas no dia seguinte a luz era tão bonita, havia tantas ilhas de verde na cidade que o coração se lhe tornou como que leve e deu consigo no Oslo Concert Hall, um edifício moderno onde ainda conseguiu arranjar bilhete, mas não localizar Anker no público que, ordeiramente, ia enchendo o auditório. À noite, apetecendo-lhe falar, telefonou às miúdas, que pouco se interessaram pelo local onde estava o pai e Rosarinho somente quis saber se havia pinguins e se vira algum. 
Sand ficava a pouco mais de trinta quilómetros de Stavanger, mas a viagem de barco demorou, abençoadamente, bem mais do que o equivalente por estrada. Então era aquilo o rasto que deixava um glaciar no seu caminho para o mar! Que dádiva majestosa e que minúsculos pareciam os seres humanos que logo se apressavam a tirar proveito da cicatriz.
Tinha quarto reservado no Suldall Hotell – o único da cidade – um edifício em forma de barracão que contrastava com as esguias habitações em madeira e cujos telhados, de águas muito inclinadas, lembravam desenhos de criança. Na recepção explicaram-lhe que a estadia incluía dormida, pequeno-almoço e jantar, mas que podia usar o buffet do pequeno-almoço para fazer as sanduíches do almoço! Achou o conselho intrigante, logo o esqueceu ao rodar a chave do quarto que iria ser o seu poiso durante quatro semanas - vista para o fiorde, muita madeira clara, e um pombo patrulhava o peitoril exterior da ampla janela de vidros duplos. 
No dia seguinte comprou um despertador no único armazém que encontrou na vila: desorientara-se levemente no percurso e chegara ao Centro de Saúde local às oito e cinco, para ser recebido, em português, com um simpático bom-dia e a advertência “Já pensávamos que não vinha...”. Sim, ali tudo parecia ser levado muito a sério, e o  estágio fora bem amadurecido em detalhes por Oslo: o director do Centro de Saúde, apesar do apelido, era português, um Andresen que se apaixonara por uma antiga hospedeira norueguesa da SAS (1) e por ali encalhara há uma dúzia de anos. O português dele era impecável, mas já se adivinhava o exílio no sotaque e no modo como articulava as palavras, encaixando-as no discurso como se fossem as fatias de um cubo Rubik.
Se alguma vez lhe dissessem... Habituou-se a comer carapau e arenque em cebolada às sete da manhã, a preparar as próprias sandes a partir de um queijo cor de laranja cujas fatias acamava num leito de alface ou pepino e que eram o seu sustento pelo meio-dia, quando os trabalhos se interrompiam e o pessoal se reunia para mastigar, beber café e conversar na biblioteca do Centro. Voltou ao armazém e comprou uma pequena caixa de plástico, para que os guardanapos rotos em que embrulhava as sandes e o ovo cozido não mais o envergonhassem à hora do almoço, equipamento a que juntou uma garrafa-termo e um caderno de capa dura. Resolvera fazer uma espécie de diário técnico, onde registaria o que acontecia em cada dia e os procedimentos que ia aprendendo e lhe podiam ser úteis no futuro. À tarde, ao chegar ao hotel, sentava-se a escrever no peitoril da janela, olhando o fiorde e espiando o pombo que, tornado familiar, cabeceava migalhas de pão escuro do lado de dentro da janela. Amiúde, sentia-se solitário, tinha demasiado tempo para si, e ligava às catraias, mas ultimamente a chamada deixara de ser atendida: Agosto ia a meio e elas deveriam estar com a mãe no apartamento que alugavam em Armação de Pêra e onde não havia telefone.
Centro de Saúde de Sand.
De Sand pouco levou além da garrafa-termo e de uma pedra apanhada na margem do rio, uma tarde em que fora vistoriar o local onde era captada a água que abastecia a vila. Era ali próximo que os salmões saltavam a corrente e, enquanto esperava avistar algum, o olhar fora-lhe puxado por um seixo que jazia, entre milhares semelhantes, no leito do rio. Não ocupava um quarto da palma da mão e era de um verde profundo, sarapintado por pontos negros, lembrando, na textura e no padrão, na macieza escorregadia e fria, a pele lisa de um peixe sem escamas.
Em Oslo, pelo contrário, comprou o suficiente para evaporar as coroas da bolsa de estudo e, no regresso, ter de pagar uma pesada multa por excesso de bagagem. Mas ia montar casa nova dali a um mês, num local onde os invernos eram frios, e deixara-se seduzir por aquele modo de dormir norueguês sem lençóis ou cobertores, apenas enrolado num saco repleto de penugem de ganso: o edredão era leve, não foi por aí que veio a enormidade da taxa no aeroporto, mas o espaço que ocupava na mala! Se alguém, ao chegar a Lisboa, lhe pedisse para a abrir, aquilo ia saltar como um boneco numa caixa de mola! E os discos, que nunca encontraria em Portugal, como pesavam quando juntos; os livros médicos em inglês; comprara até um faqueiro de seis peças, encantado pelo serrilhado discreto das facas, pelo material branco do cabo a fazer lembrar osso.
Com tudo exposto, o quarto em Oslo, nas instalações da Røde Kors Klinikken, ganhou um certo ar de lar, muito diferente do perfil espartano do quarto em Sand, e o retoque final viera a ser dado pelo cartaz, em cores quentes, comprado no museu Munch e pendurado na parede. Ao invés do que acontecera no Suldall Hotell, ali não pagava diária, pelo que o dinheiro da bolsa ficava todo para seu proveito se resistisse a ir jantar fora. Descobriu que, embora a vida fosse insuportavelmente cara, podia reduzir despesas se comprasse a comida num supermercado e a confeccionasse na cozinha comum do edifício, onde também as instalações sanitárias e a lavandaria eram partilhadas. Uma noite, ao fritar um suculento bife vermelho, que fora inesperadamente barato, cheirou-lhe a peixe e descobriu que cozinhava baleia! 
As velhas dependências da Clínica da Cruz Vermelha ocupavam vários edifícios de um enorme terreno arborizado, o que o fazia morar no centro da cidade parecendo usufruir dos luxos dum parque inglês. O quarto ficava sob o sótão, ao cimo das escadas do terceiro andar de um prédio do século XIX onde era praticamente o único habitante – seguramente era-o no terceiro andar: Setembro ia no começo e não havia ainda alunos a ocupar as dependências que pertenciam agora à Universidade. Sentia-se bem por ali e nem sequer excessivamente abandonado, pois montara-se uma rede – supunha ele que com a cumplicidade activa de Anker – que se materializava em convites para jantar em casa de colegas ou para ir visitar, em claros fins de manhã de Sábado, alguém ligado ao trabalho que morava nos arredores de Oslo e lhe servia uma mistura de pequeno-almoço e almoço pelas duas da tarde. Era estranho esse abrir de portas, o dar consigo noutro mundo, em casa de gente com quem se cruzara fortuitamente durante a semana e, praticamente, nem as feições retivera. 
Anker, com curta antecedência, aplicou-lhe o mesmo procedimento numa sexta-feira em que se preparava para ir ver tocar o saxofonista Dexter Gordon, temporariamente a residir na Noruega. Recebeu-o para jantar no seio da família: mulher, filhos, futuros genros e noras; um piano de meia-cauda na sala de estar – uma pauta de Mozart desdobrada na estante – e uma pequena imagem de madeira antiga que apontou com orgulho e confidenciou ter sido oferecida por um médico português do Projecto. 
Quando, indicando a pauta, lhe perguntou se era ele quem tocava, o anfitrião sorriu, confessou ser apenas um amador e preferiu nomear o S. Pedro, informando: 
“Está ali a velar pela casa, tem a chave e tudo...”.
Røde Kors Klinikken, Oslo.
Raul ficou-se, calado, a rodar o cálice de Madeira entre os dedos, e o sentimento de lhe estar a ser oferecido mais do que merecia a tolher-lhe o vocabulário. Ele só ali estava para fugir ao Porto.

***

Durante a última semana em Oslo, a sensação de irrealidade intensificara-se. Subitamente, o trabalho concreto, rotineiro, as visitas a hospitais e centros de saúde da capital, em que nada mais lhe era exigido do que ser um observador atento e passivo, foram sendo intercaladas com reuniões na sede da NORAD, sob pretexto de uma avaliação de como decorrera o estágio. Os tipos pareciam genuinamente interessados em saber o que pensava do que vira e, polidamente, queriam a opinião dele sobre se algo daquilo teria sentido ou se poderia aplicar em Portugal. Quanto ao sentido, Raul Barbosa achava que tinha todo o do mundo - nunca vira serviços a funcionar tão bem e airosamente, quanto ao resto era forçado a confessar que não conhecia a realidade de Penaformosa nem quem lá iria trabalhar e, atrás desta resposta, escondia a tremenda ignorância, só agora revelada a si próprio, sobre o panorama do que se passava em Portugal no campo da saúde e da doença - não conhecia nada para além das quatro paredes do Joaquim Urbano e, pior, até ali achara que isso lhe bastava para ser um clínico mediano.  
Mas durante os encontros, pacientemente, Anker, sempre presente enquanto os outros iam alternando nas cadeiras, deixando tombar a cinza, que esquecia ser uma entidade física sujeita à lei da gravidade, de sucessivos cigarros sobre papeis em português e gráficos legendados em inglês, ia expondo algumas das linhas que, pensavam eles, seriam as mais adequadas à missão do Centro de Saúde de Penaformosa, local que, para sua vergonha, o norueguês parecia conhecer bem melhor do que ele.
"Logo que possível, você devia tentar pôr à disposição das pessoas consultas de saúde infantil, de saúde materna e planeamento familiar e, claro, vacinas... E manter o Centro acessível 24 horas por dia - aquela gente não tem a quem recorrer, nenhum dos actuais médicos lá reside, em caso de necessidade urgente os cuidados médicos mais próximos ficam a cinquenta quilómetros."
Ele assentia, perguntava-se como, na prática, isso se faria, e a premência do assunto nem sequer lhe dizia grande coisa pois a sua vida sempre consistira em a ver os doentes que lhe chegavam, pedir análises e garatujar receitas, sobrevoar a enfermaria ao final da manhã. Anker que, por vezes, parecia adivinhar através do fumo profético dos cigarros, agora que estava defronte a outro fumador e estavam a sós na sala, experimentava abordagens.
"Calculo que, no seu hospital, lhe apareçam sarampos complicados, suponho que terá visto ventres agudos provocados por novelos de lombrigas... Mas que lhe adianta tratar isso se a causa não é resolvida a montante? Vão voltar a aparecer, entupidos, os mesmos ou outros, mais cedo ou mais tarde..." 
E falava do saneamento básico, da higiene pessoal, das grávidas e, como um disco riscado, lá voltava à importância de uma boa cobertura vacinal.
"Aliás", dizia esticando um indicador amarelecido por sobre um quadro cheio de colunas numéricas, "vocês têm um bom programa nacional, a crer pelas taxas de cobertura da população... Não creio é que seja uniforme em todo o território, pelo menos olhando para o número de doenças evitáveis pela vacinação em Vila Real e em Bragança... Que é que você acha?"
Herman Anker (1991).
Ele não achava nada ou melhor começava a desconfiar alguma coisa e as prédicas de Anker e Borchgrevink, os que mais se detinham nestas miudezas, davam como que coalescências às ideias dispersas que resultavam da sua prática automática no hospital. Apareciam montes de encefalites pós-sarampo, complicações de difterias mal medicadas, estragos provocados por febres da carraça e por bruceloses não diagnosticadas, e tudo aquilo vinha, geralmente, de Vila Real ou de Bragança - já se sabia - ou de um ou outro dos concelhos mais interiores do Minho.
Uma ocasião, após se ficar a olhá-lo como se procurasse inspiração ou um ponto de apoio, Anker perguntara-lhe:
"Alguma vez cuidou de um caso de tétano no seu hospital do Porto?"
"Vários...", respondera, orgulhoso como se isso fosse uma riqueza.
"E então?", Anker passando, ao de leve, a ponta de três dedos da mão esquerda pela ondulação de cabelo que lhe espreitava na testa, fitava-o arredondando os olhos numa interrogação.
"Então?! Então não é uma coisa bonita de se ver. Nunca vi nada tão parecido com uma tábua como um doente com tétano -pode pegar-se-lhe pelos pés, que o resto do corpo se mantém teso no ar! E o pior é que, apesar da total paralisia muscular, os doentes mantêm-se conscientes, presos dentro do corpo, percebe-se-lhe isso no olhar aflito... 
Durante esta descrição, Anker acendera um Gauloise e fixava-o com o espanto de quem nunca tivesse visto um tétano ao vivo ou fosse escandaloso vê-lo, e de tal modo isso pareceu evidente a Raul que, a coberto da certeza que o outro, como médico vivido e mais velho, já deveria ter, também, visto algum, lhe perguntou por isso.
"Em Oslo, nunca vi, mas vi suficientes durante a guerra da Coreia - estive lá como voluntário - é exactamente como descreveu e é coisa que não esquece... E, consigo, como acabaram os casos que recebeu?"
"Geralmente mal", respondeu o outro, "mesmo ligados ao ventilador durante a paralisia respiratória, às vezes semanas, a maior parte morria-nos... Só me lembro de um, talvez dois, terem escapado... Pareciam mortos-vivos quando deixaram finalmente o hospital!"
"Pois... E o mais absurdo é que tudo isso — a morte, o sofrimento, as camas ocupadas, o desperdício de vida activa, o dinheiro que a sociedade gasta -, tudo isso se pode evitar com uma picadela; sabe que a vacina é 100 % eficaz e, na prática, sem contraindicações ou efeitos adversos."
"Quando me chegam já não há vacina que lhes valha."
Anker ergueu ambos os antebraços dos papéis, olhou o interlocutor, entusiasmado.
"É isso, acabou de dizer tudo — as coisas têm de ser feitas antes, enquanto ainda vale totalmente a pena!"
Raul, agora a sentir-se mais à vontade no inglês, começava a tirar partido e conforto destas conversas, sobretudo quando estava a sós com Anker, pois se tinha vários tipos a disparar frases atrapalhava-se, engrolava-se, enunciava mal os tempos verbais e entupia de vergonha. De qualquer modo, safava-se muito melhor do que no começo, quando só conseguia comunicar por monossílabos. Com a pequena excepção de alguns momentos, em Sand, em que falara com o João Andresen em português, passara os últimos dois meses a ter de exprimir-se constantemente em inglês, a ler livros e papelada em inglês e isso produzira efeito, dava consigo a pensar em inglês, a preparar mentalmente diálogos em inglês, uma noite até sonhara em inglês!
O último encontro, na antevéspera do regresso a Portugal, fora marcado para a tarde e reuniu todo o núcleo-duro do Projecto: estava Anker, claro, mas também Randi Tasserud - a economista - Steinar, Daag e Christian Borchgrevink, o decano, que se pronunciava pouco mas parecia inspirar todos com o seu olhar claro de entendimento e aceitação. Como era costume, Raul sentiu-se embaraçado, não sabia o porquê mas tomava todo aquele investimento como se fora dirigido apenas a si e às suas insuficiências. O escudo de desconfiança, couraçado pelas insinuações portuguesas que, antes da partida, lhe tinham enxameado os ouvidos, em torno de qual seria o interesse oculto dos noruegueses em investir em Trás-os-Montes, o "eles devem ter alguma na manga", o "não há almoços grátis", tombara com estrondo - ao fim de dois meses poderia jurá-lo por um olhar tão claro como o de Borchgrevink. Eles não queriam nada, não havia nada que Portugal pudesses dar em troca, que podia Portugal dar-lhes em troca agora que já nem o ouro das colónias mandava cantar um cego? Galos de Barcelos? Rolhas de cortiça? Descontos nas esplanadas do Algarve? Não, eles não queriam nada em troca, nem sequer esperavam ardentemente que o projecto corresse bem, que fosse uma vitória, ficavam-se apenas pela possibilidade de tal poder suceder. Percebia agora melhor o espanto de Coutinho da Costa e a admiração que espreitava da sua prédica sobre o empenho profissional e a "classe" dos noruegueses, a ironia comparativa, partilhada à socapa com Raul, sobre um outro projecto de ajuda na área da saúde simultaneamente em curso em Portugal.
"É lá para o Alentejo e a iniciativa é dos Estados Unidos, graças a Deus que não tenho nada a ver com aquilo, nem ninguém me pergunta nada... O gestor, pela parte deles, o equivalente ao Anker é um coronel do exército americano... Mas, tanto quanto sei, limitam-se a construir os edifícios, a conferir as contas, e vão-se embora." 
Raul sabia o que o outro queria contrapor. O projecto norueguês era uma ideia com cabeça tronco e membros, uma iniciativa integrada: não só iam ser construídos centros de saúde e extensões destes onde eram mais necessários, como os dois serviços do hospital da capital do distrito responsáveis pela assistência às fatias mais vulneráveis da população (a pediatria e a obstetrícia) iriam ser reconstruídos, reapetrechados. Simultaneamente, ia ser edificada de raiz uma escola de enfermagem em Vila Real - quase não havia enfermeiros na zona - e enquanto isso não acontecia seriam concedidas bolsas para alunos de enfermagem que se comprometessem a estudar no Porto e, terminado o curso, irem trabalhar nos centros do Projecto. Também estava previsto algo para os médicos, e os nórdicos, com longa experiência no assunto, iam fomentar a criação dum Instituto de Clínica Geral que, esperavam, funcionasse como embrião de uma futura especialidade em Portugal, onde esta não existia como tal e a actividade de medicina geral era exercida por qualquer um que o quisesse mandar gravar na placa do consultório, embora exercesse como cirurgião ou neurologista credenciado da parte da manhã. Anker desenhara-lhe toda a ideia num papel, traçara quadrados e círculos que ia interligando com setas e formavam uma espécie de planta arquitetónica do que tinham concebido. Depois, cada um dos outros, contava o caminho percorrido pela Noruega nesse âmbito, exemplificavam, resumiam resultados, sucessos, dificuldades e coisas que tinham corrido mal. 
E, o que mais o afligia e lhe vergava os ombros, era pensar que contavam consigo para ajudar a dar conta daquele recado! Ele, que, de momento, só queria fugir do Porto e que o deixassem em paz, a apodrecer num canto, longe dos holofotes. 
Pensar no regresso e em toda a luta perdida que provavelmente o esperava, deprimia-o e, de súbito, defrontou a sua cara angustiada, espelhada nos vidros das janelas. Ali a noite caía cedo - pouco passava das cinco da tarde e o Verão finara-se somente há três dias! À porta do edifício da NORAD, após as despedidas e os "vemo-nos em Portugal", sentiu-se tremendamente só, veio-lhe o desejo de chorar. Lá se ia embora outra vez, começar tudo outra vez. No caminho para a Røde Kors Klinikken passou por um cinema, consultou o relógio: a próxima sessão era às seis, parecia de propósito, e o filme era o último do Kubrik: Shining. Meses atrás tinha lido num jornal sobre a rodagem e agora ali estava ele, já em estreia; sabia-se lá quando chegaria a Portugal, onde tudo chegava atrasado e requentado. Entrou e saiu esmagado duas horas depois. Não sabia que era um filme de terror - Kubrik não fazia filmes de terror - mas não se podia chamar outra coisa àquilo; um filme de horror com crianças e hotéis desertos! Não sentiu coragem para, no imediato, fazer ouvir os passos na madeira gasta das dezenas de degraus das escadas do prédio vazio da Cruz Vermelha. Parou num restaurante e pagou uma fortuna por uma batata recheada com
carne picada e uma meia-garrafa de Rioja. As paredes do restaurante eram forradas a alcatifa negra, os guardanapos, de pano, eram roxos e, suspensos sobre cada mesa, os candeeiros eram tercetos desnivelados de bolas de néon destilando uma cor fria. Concentrou-se na imensa batata que lhe chegou a fumegar, protegida por uma pele de papel de prata, abstraiu-se no vermelho escuro do Rioja. Apeteceu-lhe, por um momento, fugir para a Noruega e abrir uma loja que vendesse vinhos portugueses, a fortuna que, com aqueles preços nórdicos, poderia fazer a demonstrar como era excelente um Pasmados, um Caves da Montanha, ou testemunhar o sucesso das caixas de madeira com as garrafas de Porto produzidas em Alvarelhos por Lourenço, o ex-sogro; imaginou como o homem ficaria contente quando, num futuro esfumado mas próximo, o informasse das vendas astronómicas, do ícone em que se tinham transformado os caixotinhos com tampa de correr e o CHAVES – Vinho do Porto – Regoa tatuado a fogo na madeira... Quando chegasse, haveria de telefonar-lhe, encomendaria uma caixa para Anker, outra para Christian, os tipos pelavam-se por vinho português, sobretudo o do Douro que, nem sonhando que tal lugar existisse, acabavam de conhecer pelas voltas do destino. 

(continua)

[1] SAS - Scandinavian Airlines System, companhia aérea comum à Dinamarca, Noruega e Suécia.

© Fotografias, de cima para baixo: fotografia 2, pedro serrano, Noruega 1980; e 5, pedro serrano, 2020.