16 agosto 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 33. Um telefonema inesperado

Cascais (final anos 70).
Em Lisboa apanhei um táxi para Cascais e desta vez resolvi registar-me no hotel Nau, igualmente central e a dois passos da estação, mas com um nome e um perfil branco de vapor que me agradou, agora que o meu mundo regular era predominantemente marítimo. Do outro lado da rua havia um cafezinho atraente, com mesas de bancos altos e uma diminuta esplanada que vendia umas sanduiches de ovo e alface deliciosas, talhadas em triângulo e acondicionadas em papel celofane transparente. Nunca tal vira.
Fiquei-me uns dias por ali. Íamos na Vespa vermelha até ao Guincho e se a praia estava demasiado ventosa vegetávamos num dos tabiques com vista para o mar do bar-restaurante-hotel Muchaxo, uma construção encarrapitada nos rochedos fronteiros à praia, num rústico pseudo-mexicano como orientação arquitectónica e pormenores algo surreais como um pátio interior onde havia aves marinhas de asas cortadas, para que não escapassem ao cenário. Um dia, à noite, já tarde, a João levou-me à casa da rua Cesário Verde, onde estivemos na sala a conversar em voz baixa para não incomodar nem chamar a atenção de quem já dormia no andar de cima. Pareceu-me outra, talvez mais meditativa, aquela sala onde, uns oito meses antes, entrara pela primeira vez para uma ruidosa sessão de chucrute.
Depois voltámos a Sintra, a revisitar o mesmo quarto com mobiliário antigo e livros pelas paredes, aos passeios desencontrados pela serra e pela vila, sempre na esperança de encontrar o Alencar numa vereda de luz flutuante. Na Quinta dos Lobos não havia um serviço de recepção permanente e eram os próprios hóspedes que abriam quer o frigorífico quer o portão exterior, ou a porta que dava acesso à moradia. Uma noite, em que regressámos particularmente tarde, franqueámos o portão com todas as precauções e, para não correr o risco de incomodar alguém, percorremos calados e em passo leve o caminho até à entrada. Estávamos a poucos metros da porta quando sentimos, mais do que ouvimos, um movimento ao nosso redor e nos vimos cercados pelos dois elegantes e assustadores dobermanes que, nas palavras calmantes dos donos, estavam sempre acorrentados no canil durante a noite e jamais na situação de se aproximar dos hóspedes sem supervisão. Bem, nessa noite não estavam e, por um minuto, estivemos ali, transidos e congelados, até que a voz do dono se deu conta e nos veio salvar dos terríficos vigilantes que, na perfeição, cumpriam o seu papel.
A pouco e pouco, sobretudo no idílio de Sintra, o meu coração foi sossegando e a ilha foi recuando na minha mente, aliviando os meus dias, mas como tudo tem um reverso, incubando a ideia penosa de que, mais semana menos semana, mal as férias terminassem, teria de voltar. Mas entretanto...
Muchaxo, interior.
De Sintra, regressámos a Cascais e daí apanhei um táxi directo ao Porto, para ir a casa – ou antes, à casa dos meus pais – onde não punha os pés desde Janeiro. Eu já não sabia bem como designar aquela casa – reflectia, pesaroso, no assento de trás do táxi enquanto o ar da tarde quentíssima invadia o interior – e oscilava entre “a casa dos meus pais”, quando a referia a terceiros, ou “a minha casa”, sempre que a pensava para mim mesmo ou para os muito próximos e que sempre me tinham visto por lá. Mas o certo é que já não morava ali há dois anos e depois dela morara em duas casas em Guimarães e numa terceira em Fafe. (E por falar em Fafe tinha de ver se sacava uma tarde para  revisitar a D. Maria e o Sr. Marques, o casal em casa de quem acampara durante os oito meses em que por lá estivera com o Rui e o Zé Pedro Moreira da Silva, meus colegas de estágio durante o Internato de Policlínica). Agora não tinha automóvel (vendera o Fiat 128 antes de abalar para os Açores), mas podia cravar alguém para ir comigo, ou apanhar um táxi. E em Guimarães havia sempre quem me desse dormida, começando pela D. Antonina e o Sr. Ribeiro, donos do restaurante As Trinas, casal que nos adoptara ao fim de tanto termos almoçado e jantado no seu restaurante, uma adopção tão completa que o Rui guardava lá pijama em permanência e, os dois, dispúnhamos de quartos de dormir à disposição, bem como grátis e incontáveis petiscos regados a Pasmados tinto e whisky Dimple, todos estes mimos a pouco mais de cem metros do hospital.
E regressava, precisamente, desta peregrinação, as ilhas cada vez mais esfumadas no horizonte da consciência, quando, um dia, o Rui telefonou. Estava em casa dos meus pais, a ver passar os dias antes de regressar ao sul, e vem a minha mãe, em toda a naturalidade, e diz que ele está ao telefone. Ora se para ela era trivial, para mim era-o bastante menos; nós não costumávamos telefonar-nos em circunstâncias destas, havia uma espécie de pacto não explícito de descansarmos um do outro, de não chatearmos o outro enquanto ele desopilava e vogava por outras paragens e, desta vez, esse era o meu caso.   
A voz soou-me estranhamente próxima, limpa do eco e ruídos de fio telegráfico das ligações entre o Continente e as ilhas, e rapidamente fiquei a saber que o Rui estava em Lisboa, de facto chegara na véspera. Um ponto de interrogação estrebuchava na minha mente: mas como era possível? Eu viera de férias e, por quase vinte dias, ele ficaria como único médico da Graciosa... Como era possível que me estivesse a falar da casa da Paula e do António, uns amigos que moravam nos arredores de Lisboa?
A casa dos meus pais no Porto (final anos 70).
A razão era a mais bizarra. Uns dias antes, Gui B. Louro, o próprio, recorrera a consulta médica e, coerente com o seu jeito de quinteiro, entrara pelo consultório do Rui dentro sem mais aquelas, ultrapassando tudo e todos e impondo a presença na consulta que decorria. Queria uma consulta, já, e ele mesmo estabelecia o nível de urgência. Bem, o Rui pode ser um gajo com um feitio péssimo e, sem mais, pô-lo dali para fora, enviando-o a marcar vez e esperar, como os outros que lotavam os bancos de espera. Foi nesse contexto, perante toda a gente, em pleno corredor, que o homem, possesso, o ameaçou fisicamente e fez as promessas de que ele ir ver o que lhe iria acontecer em breve. O Rui não esteve com mais aquelas: pôs-se a andar da Graciosa, passou pela Terceira a relatar o sucedido, fazendo notar que não regressaria à ilha enquanto não tivesse garantida a sua integridade física e, finalmente, apanhou um avião para Lisboa. Como seria de esperar a notícia caiu como uma bomba, o Porão da Nau entrou em opistótono, a Secretaria Regional do Assuntos Sociais informara Lisboa do incidente e agora alguém no Ministério da Saúde, ligado à tutela do Serviço Médico à Periferia, queria falar com o Rui. Será que eu poderia ir com ele? Sempre ajudaria a explicar os antecedentes.
“Claro. Quando é que tens de ir lá?”
“Fiquei de telefonar a um gajo da Direcção-Geral de Saúde, a marcar...”
“Isso é onde?”
“Em Lisboa, numa porra duma alameda qualquer...”
“Então marca e diz; vou aí ter.”

Tomei um táxi para a capital e, pela viagem abaixo, fui sentindo, como um sopro no coração, que ainda agora não existia e agora já lá mora, que talvez as minhas férias estivessem por um fio.

09 agosto 2018

NESTA DATA FELIZ!

Ficámos ontem a saber que o incêndio de Monchique, Silves, e o mais que pode vir, não é como a vela num bolo de aniversário que qualquer de nós pode apagar com um sopro. Acho que ficámos todos tão boquiabertos com o esclarecimento que nos esquecemos de ajudar António Costa a bufar... Após quase uma semana a assistir, em directo, a populações espavoridas que tentam escapar, como rebanho tresmalhado, ao fogo e à GNR; a corporações inteiras de bombeiros, estacionadas à fresca ribeira de arborizadas estradas; a um combate ao fogo e apoio às vítimas onde todos pareciam ser bem-intencionados e confusos voluntários; à Protecção Civil nas mãos da Altice ou a enviar oportunas mensagens de alerta que reencaminhavam a população para uma firma de para-brisas (muito adequado, tendo em conta a ventania que atiça estes incêndios), após todo este desastre, em permanência a trazer-nos à memória as desgraças, humanas e institucionais, dos fogos de 2017, o que diz quem nos governa mal abre a boca? Pois um trabalho notável, uma organização notável, uma estratégia notável, profissionais notáveis, repete à exaustão o Cabrita Sapador – versão tipo desidratada da chorona que tivemos de ouvir no ano passado – enquanto vai mudando, à pressa, a direcção do combate ao fogo do Algarve. E mais disparates e pés pelas mãos se foram escutando até que, após um silêncio que pretendia não interferir com a fase de combate em que se estava, mas também de avisada reflexão, vem o primeiro-ministro apresentar o seu Superior balanço. 

E que diz? Sucesso, isto é um sucesso, Monchique é a excepção que confirma a regra. Nunca as coisas correram tão bem; eles, o Governo, estão – como é costume – todos de parabéns, o país só tem de agradecer e ajudar a soprar as velas. E, perante um país que se afunda no sofá desgostoso com o que ouve, quase envergonhado com o que está a ouvir, continua, pedagógico, a explicar que aqueles bombeiros que se veem, parados, não estão sem saber o que fazer, aguardam, isso sim, sinal para actuar, para avançar, quando os outros já estiverem derretidos... por falta de água ou de fôlego para soprar velas. Estratégia, sim, não acaso, estratégia de uma finura que não está ao alcance de todos compreender... Sim, e também o inestimável valor da vida humana, pois, este ano, nenhum português (ou estrangeiro, que disseram-lhe haver muitos a correr, como tolos, pela serra algarvia) há-de morrer no incêndio, nem que tenha de ser impedido à força, que isto não vai ser como no ano passado 

08 agosto 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 32. Entrevista com o vampiro

Paços do Concelho de Santa Cruz da Graciosa, Açores.
Pouco tempo passou até eu ir, finalmente, de férias, mas uns dias antes da partida recebemos um curioso convite, sobretudo vindo de quem, pelo visto, sentia ânsia de nos abater. O Sr. Gui B. Louro, solicitava, por escrito, a nossa comparência nos paços do concelho no dia tantos de tal, em virtude da visita à ilha de Sua Excelência o Dr. João Bosco Mota Amaral, presidente do Governo Regional dos Açores. Lá está: o Rui era o delegado de saúde, eu o director do hospital e não havia assim tantas individualidades na Graciosa que pudessem ser arrebanhadas para comporem um ramalhete decente, dois já faziam mossa. Vestimos as nossas roupinhas de cantar no coro e, expectantes, subimos as escadas da câmara até um salão um nada sombrio apesar das muitas janelas, duas das quais eram de sacada e se encontravam abertas para a varanda e para os paus de bandeira que apontavam obliquamente a praça.
Foi daí, da luz do sol onde procurara abrigo para escapar ao ambiente escuro e bolorento do salão que vi a visita chegar, seguido de um presidente em modo de desvelo para com a insigne presença. Mota Amaral, deputado da Nação em Lisboa, regressado aos Açores em 1975, membro conhecido da Opus Dei e eminência parda da Frente de Libertação dos Açores, de quem se dizia ser o autor do programa ideológico... Actualmente em lume brando, a FLA, como era conhecida, sonhara, durante os tempos que se seguiram ao Verão Quente de 75, libertar o arquipélago do jugo do Continente, num processo de independência que poderia incluir iniciativas musculadas, se fosse o caso. Os Açores, nesse futuro radioso, viveriam, como um senhorio a quem saiu a sorte grande, da renda do aluguer da base das Lajes e da exploração das potencialidade geotérmicas e sulfurosas da região, isto é: o senhorio tornava-se também mefistofélico. O problema foi que os americanos, mesmo assanhados como estavam com a hipótese de uma deriva comunista em Portugal, acharam o projecto demasiado inverosímil e não deram luz verde ou apoio ao devaneio.
Ao vivo, o homem era igualmente sinistro e senti o fantasma de Murnau pairar na sala, pois a aparência do político tinha algo de irreal, parecendo, em simultâneo, uma amálgama do menino que cresceu demasiado depressa com um eclesiástico romano à Fellini e um vampiro do celuloide, parecença a que as orelhas, alongadas e despegadas do crânio, e a cabeça de feitio triangular conferiam maior verosimilhança. Ao perto, o contacto interpessoal não desfazia a infelicidade da aparência: falava num sussurro, expelido por uma boca cujos lábios se exteriorizavam como uma galinha prestes a pôr um ovo, e, ao apertar-lhe a ponta dos dedos, fiquei-me na guarda de o ver arreganhar os beiços e mostrar os caninos. Depois falou uns minutos à escassa plateia, um discurso gelado, incidente na tónica da necessidade de se manter os Açores em paz e onde se entrelinhavam apartes ao desregramento que ainda não acalmara o suficiente no resto do país... E Gui B. Louro, o nosso autarca com nome de papagaio, torcia-se de prazer ante a finura das alfinetadas, acenava gravemente a sua concordância perante a estratégia de manter, o mais possível, o arquipélago fechado aos embates do exterior. 

Esteve pouco tempo, sua eminência, e num gesto de mão pálido e bem educado recusou o beberete que esperava, tinha pressa, e foi com enfado mal disfarçado que se dignou ouvir a minha preocupação sobre a quantidade de tuberculose que grassava na ilha e que, na visão de um médico de passagem, muito beneficiaria de um interesse político que gerasse um movimento sanitário mais amplo e consistente (1). Resolveu o assunto de uma penada, garantindo-me com um esgar que lhe animou a expressão, que quando o problema fosse ainda mais expressivo mais fácil se tornaria pensar numa solução global para ele. E logo deslizou dali para fora, deixando o salão tão morto de vida como estava antes de ele chegar e enquanto lá esteve. 


(1) Em 1982, os casos novos de tuberculose diagnosticados foram de 71,5 por cem mil habitantes no Continente e de 202,1 nos Açores, isto é, quase um triplo de casos foram detectados na região autónoma (dados do Instituto Nacional de Estatística). Compare-se, por exemplo, este panorama com os valores da mesma taxa, em 1980, nos Estados Unidos da América: 12,3 casos de tuberculose por cem mil habitantes, ou seja, um número 6 vezes inferior ao do Continente e 18 vezes inferior ao dos Açores.
 

Nota: O títuo do texto baseia-se no do livro de Anne Rice Entrevista com o Vampiro, 1976.


05 agosto 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 31. Expiação

A namorada do Rui chamava-se Clarinha e devia andar pelos dezoito anos. Eu e ele tínhamos-lhe posto a primeira vista em cima na mesma manhã, na gloriosa vila de Fafe, onde ambos fôramos colocados a fazer o estágio de Saúde Pública de um treino básico após a licenciatura, com a duração de dois anos, designado Internato de Policlínica, treino que, como o nome indica, consistia em aprender a fazer um pouco de tudo, uma vez ser genericamente aceite que não se aprendia nada de prático na Faculdade e que um médico recém-licenciado era tão capaz de lidar com um doente que lhe aparecesse como um revisor de contas ou um pedreiro. Passados quarenta anos é reconfortante constatar que nada parece ter mudado na capacidade operacional com que os actuais médicos deixam a universidade.
Esse estágio de Saúde Pública, de que falava, prolongava-se por oito meses e, antecedendo o seu começo, nós os dois tínhamos optado pelo Hospital de Guimarães como local para os tais dois longos anos de aprendizagem do Internato de Policlínica. A escolha de Guimarães não fôra arbitrária, mas, pelo contrário, baseada em critérios sólidos. No ano anterior, 1976, deambulando pelo Agosto da Póvoa de Varzim, tropeçáramos num delicioso cardume de raparigas de Guimarães que por ali veraneavam com as famílias, pois a Póvoa fazia as vezes de estância balnear de algumas cidades do interior adjacentes, como Braga ou Guimarães. Esse tropeço levara-nos a decidir-nos por Guimarães mas, distraídos, não nos tínhamos apercebido de que, no decurso desses dois anos, era forçoso fazer um estágio parcelar, desenvolvido num Centro de Saúde, fora do hospital, o tal estágio de Saúde Pública, e quando acordámos para a realidade já todos os centros de saúde das cercanias da cidade estavam escolhidos e reservados, restando o de Fafe, o mais longínquo e com pior fama deles, e a cerca de 20 km de Guimarães, uma brutalidade segundo os ditames e as estradas da época. Fafe?! Fafe era já nos contrafortes de Trás-os-Montes, um fim de mundo!
Culpa nossa, mas, após o impacto inicial – era um gelado mês de Janeiro quando nos mudámos para lá – a nossa estadia em Fafe revelou-se um dos períodos ditosos da nossa vida e a existência por lá pautou-se por suaves obrigações que incluíam longas pausas no D. Fafe, um café com dois pisos do centro da vila, o de cima concebido como uma espécie de mezanino onde se costumavam acoitar as alunas do liceu a emborcar cafés e a fumar a coberto de quem passava pelas vitrinas. E um fim de manhã, numa dessas mesas recuadas, sentava-se a Clarinha e umas amigas, segredando e dando risadinhas que nós, dois dos três médicos recém-chegados, resolvemos perturbar arremessando para a mesa delas, tal se fossem serpentinas ou confettis, algumas das caixinhas de amostras de medicamentos com que os delegados de propaganda médica costumavam inundar os clínicos nesses dias. Essa singela interferência cobrou o seu preço que, no caso do meu amigo, se traduziu em vinte e tal anos de casamento e um Vasquinho em homenagem à memória do avô paterno. Mas isso foi bastante depois, que, nesses dias de Verão na Graciosa, quem apareceu, na companhia da João, foi uma Clarinha ainda teen e solteira, uma loura de olhos castanhos, bonita e fazendo lembrar a Jessica Lange do King Kong (1).
O facto de terem surgido juntas surpreendeu-nos, pois uma residia em Fafe e outra em Cascais, e não havia registo de que se conhecessem previamente, tendo-se associado exclusivamente para a viagem.
Era o pino do Verão e a Santa Cruz da Graciosa parecia outra, não tão outra como nos tinha acenado o entusiasmo patriótico dos naturais, mas, mesmo assim, um pouco mais animada do que o marasmo costumeiro. Ensimesmado, quase amuado, olhava com desdém a transformação, onde a mudança mais vincada se processara nos habitantes que, todas as manhãs, saíam agora à rua afivelados na  máscara de quem se crê olhado e tem a sua oportunidade cénica. Abotoado na bata curta, o Gasparinho, muito famoso e considerado entre os emigrantes canadenses e americanos, esvoaçava pela vila fazendo-se imprescindível, entregando embalagens aqui e ali, aconselhando quanto às diarreias estivais e às picadas de peixe-aranha. No Rossio, assertoado no seu orgulho de correligionário e bufando o fumo pela ponta acesa do charuto, o Oriolando apresentava-me, solene, o Jaime Gama, vice-presidente do grupo parlamentar do Partido Socialista, que eu não sabia açoriano nem supunha tão baixo. Enquanto ouvia, impaciente, os seus apartes sobre o Estado da Saúde na região, ia catrapiscando o Rui que, uns metros ao largo, apanhado à saída do Açucareiro, conversava com o Dr. Gregório e senhoras, um pequeno magote que cumpria o passeio higiénico após o jantar, enquanto a João e a Clarinha, divertidas, observavam tudo de um banco de jardim e eram observadas por uma romaria de moças que passavam alinhadas e onde, entre outras, deslizava a Isabelinha, a Sãozinha e a Leninha.
O Dr. Gregório era filho do Dr. Gregório, um senhor velhote que fora, durante décadas, o único médico da ilha e junto de quem, nas primeiras semanas, procurámos socorro para situações médicas mais complicadas. O velho Dr. Gregório, que nos recebera cortesmente na sua casinha térrea em Santa Cruz, aconselhou-nos com simpatia mas deixando transparecer a distância de quem quer agora ser deixado em paz, não parecendo interessado em manter um olhar clínico activo sobre as nossas aflições ou o que se passava na ilha. Quase no final da visita, em meia dúzia de frases secas e destiladas na experiência, resumiu-nos o retrato mórbido local, aquilo de que nós mesmos nos íamos apercebendo: havia fartura de hipertensão, alcoolismo, distúrbios da saúde mental; tuberculose..., esta última ligada ou agravada pelo próprio alcoolismo e pela miséria social. Quanto ao Dr. Gregório filho, seguira os passos do pai na profissão, mas pusera-se a andar dali para fora e era agora uma personalidade importante no meio médico da Terceira, só regressando à casa paterna no tempo quente, para uns dias de férias e umas consultas programadas da sua especialidade nas instalações do hospital. Antes de o encontrarmos em carne e osso nos passeios nocturnos já o conhecíamos telefonicamente dos desesperados apelos que dirigíamos aos colegas de Angra do Heroísmo e, dessa perspectiva, era um dos colegas mais acessíveis, pacientes e entendedor das nossas dificuldades. Talvez por ser daqui e conhecer o panorama, talvez por se lembrar da vida anterior do pai, talvez por temperamento; quem sabe?
Mas também as nossas companhias tiveram o seu quinhão de sucesso nesses dias de férias em Santa Cruz da Graciosa: duas jovens mulheres bonitas – uma loura serena e uma morena decidida – habitavam a casa dos Magistrados, atravessando a vila com um desprendimento que suscitava espanto nas locais, trajando roupa e padrões que causavam inveja às locais, dispondo do Açucareiro e das sombras do Rossio sem pagar tributo, encarrapitando-se no bordo dos pauis como se ninguém tivesse tido a ideia anteriormente... Eram então aquelas as figuras que povoavam a vida que os nossos médicos levavam do lado de lá do mar? Tudo isso parecia um pouco desconcertante, um nada humilhante e, simultaneamente, obscenamente cativante para quem ali vivia e era, mais ou menos, da idade das duas estrangeiras. Até as freiras se sentiram encantadas ao, finalmente, serem-lhes apresentadas e ao saber que aquela morena com reflexos verdes no olhar atento – rapidamente promovida a minha noiva para que pudesse ser mais legitimante apreciada – era enfermeira como elas, e tinham, finalmente, o ensejo de apreciar em carne e osso a pessoa de quem eu lhes falara e se prestara a orientar em Lisboa alguns Graciosenses doentes enviados a tratamento.  

Quem também chegara na remessa fora o Paulo Amorim, especialista na companhia social de senhoras, atributo que já o víramos praticar com à vontade e sucesso nos corredores da Faculdade. Na sua viagem até nós, e sabe-se lá porquê, a João e a Clarinha tinham ido parar a S. Miguel, em vez da Terceira, e a Ponta Delgada, em vez de Angra do Heroísmo! Tornava-se necessário fazer a troca de ilha, pois era da Terceira que se tinha acesso à Graciosa! E o Paulo foi buscá-las a S. Miguel, tornou-se cicerone delas na Terceira, veio garantir que chegavam incólumes ao destino final. Com mérito e sem fazer uma única consulta enquanto por lá esteve, insinuações de trabalho a que fugia como o diabo da cruz, engrandeceu o rancho de passeantes pelas alamedas e vielas da vila, engrossou os excursionistas ao Carapacho e à escadaria em caracol da Furna do Enxofre, era o conviva mais esfusiante à mesa da D. Irene, que andava transtornada com toda aquela agitação de gente, horários e menus e que, secretamente, se deve ter sentido muito aliviada quando todos se foram umas duas semanas mais tarde.
Tal como eu, secretamente também. Aqueles dias foram-me penosos e senti-me como um bicho empurrado para fora da concha e que se deixa expor à violência do sol sem correr a abrigar-se. Sem me dar conta, a vida na ilha, aqueles meses de exílio, transformara-me e, de algum modo, incapacitara em mim a funcionalidade de me relacionar com terceiros. Chegar a casa e encontrar gente, ver combinadas iniciativas da qual era naturalmente suposto fazer parte e em que não me apetecia participar, não ter privacidade alguma a não ser quando fechava a porta do quarto de banho... Não saber o que dizer e o meu discurso parecer-me sistematicamente pesado e artificial... O que era aquilo tudo e o que era feito de mim? Não me reconhecia, desintegrava-me, todo eu era um montão de desgosto e desagrado comigo próprio.
Uma manhã, elas foram-se e eu, como o resto da vila, fui dizer adeus ao helicóptero, acenar e voltar para casa, pensando que recuperara de volta o meu quarto, que a casa, de novo sem ninguém, me traria de volta a antiga pele. Não foi o que aconteceu. Nada resultou.

(1) Nova versão, realizada em 1976 por John Guillermin, do filme original realizado em 1933 por Merian Cooperand e Ernest Schoedsack.