16 Setembro 2014

A PARÁBOLA DA GOVERNAÇÃO

1. Com uma sobranceria a raiar a cretinice, Paula Teixeira da Cruz, a actual ministra da Justiça, afirmou na SIC, a uma Clara de Sousa minuto a minuto mais irritada com o que era obrigada a ouvir, que a reforma da Justiça que se iria pôr em marcha no dia seguinte seria a coisa mais fantástica dos últimos 200 anos, que nem o Marquês de Pombal... Confrontada com a hipótese de se anteciparem problemas com a plataforma informática (Citius), instrumento vital para o sucesso de toda esta revolução, a ministra reagiu com condescendente assertividade, garantindo que tudo estava a postos e testado e que essas reservas partiam da boca de gente mal intencionada e que pouco ou nada percebia do assunto (Ordem dos Advogados, Sindicatos, magistrados e oficiais de Justiça).
“Sabe, Clara de Sousa”, dizia a mulher afastando a oxigenada marrafa da testa com os dedos roliços, “tudo isto foi profundamente estudado”, como quem diz que ‘isto não é coisa para ser entendida ou alcançada por simples mortais como tu e os dos sindicatos’.
Depois foi o que se viu: há mais de quinze dias que o Citius não funciona, que a confusão se instalou nos tribunais e que não se consegue acesso a três milhões e meio de processos. Procedimentos que demoravam dois minutos a resolver levam agora mais de meia hora. Quanto à ministra, essa desapareceu do mapa, e manda agora alguns dos seus ajudantes enfrentar a comunicação social. O que terá acontecido? Será que tomou consciência da desgraça que gerou? Hum, tendo em conta o perfil da dama, o mais provável é que a voz do dono lhe tenha soprado: “Tá calada por um bocado, Paulita, que andas a dizer disparates a mais...”
Hoje mesmo, em entrevista exclusiva a um jornal, a ministra vem dizer que (apesar de ninguém saber onde para nada nos tribunais) não é verdade que o caos esteja instalado... Estão a ver o que eu digo? A mulher não aprende.
2. Entretanto na Educação o panorama de início do novo ano lectivo não é menos animador em termos de caos e de protestos contra a inépcia e o pasmo do Ministério respectivo. Entre outras salgalhadas, Nuno Crato, um matemático de formação, deixou que a vida dos professores fosse decidida por fórmulas em que números absolutos fazem média com proporções, uma asneira tão grossa que, mesmo na área médica, já se excluiram candidatos a especialistas por causa disso mesmo! É que é pior do que somar alhos com bugalhos; é um raciocínio que infecta tudo quanto se segue e torna tecnicamente insustentáveis as nossas decisões. Confrontado com todo este novelo, o ministro, com aquele inalterado ar de ruminante que lhe está na massa do sangue, acha que o ano escolar arrancou com toda a normalidade...
3. Simultaneamente, e mantendo os comentários na nobre área da Educação e Ciência, chega-nos a notícia que uma anterior ministra da área (esta de Governo PS), a inefavelmente pirosa Maria de Lurdes Rodrigues, foi condenada a 3,5 anos de prisão por favorecimento de amigos em matéria de interesse do Estado. A mulher ficou pior que uma barata com a pena que, embora suspensa, a obriga a pagar 30.000 euros de multa e isso é que dói mesmo, pois nem sequer é dedutível no IRS. E logo perdigotou para os jornais e telejornais que as palmadas que lhe aplicaram põem em causa os mais básicos princípios da democracia.
Ó Educação, Ó Justica, quando chegará o periclitante dia em que este país possa passar a ser governado por gente normal?


15 Setembro 2014

LUGAR COMUM

No Domingo, 31 de Agosto, passou aqui por minha casa, a visitar-me, a minha sogra. As quatro da tarde aproximar-se-iam da sua metade quando ela chegou, pelo que lhe perguntei se queria um chá, se queria lanchar.
- Só um chá...
Preparei um chá de cidreira, apimentado com gengibre e limão, e fui dispondo na mesa, a que ela já se sentara para ficar próxima das minhas manobras domésticas e podermos ir conversando, queijo, tostas, compotas de ginja e ameixa, doce de abóbora, uns bolinhos pequeninos com erva-doce e pinhões.
- Por mim não quero nada, Pedro, só o chá.
Servi-lhe o chá, sentei-me em frente, comecei a barrar uma tosta com doce de abóbora.
- Prove ao menos um desses bolinhos - disse - são excelentes...
- Vou provar um... – respondeu.
- Tem a certeza que não quer uma tosta? – perguntei enquanto ia cortando uma fatia de queijo dos Açores.
- Não, obrigada, estou bem assim.
Talhei uma ponta na minha fatia de queijo e estendi-o na direcção dela, transportado na lâmina da faca:
- Prove só um nico deste queijo, é excelente.
Ela provou, disse:
- Tens razão, é excelente. Ora corta-me aí uma fatia; mas pequenina!
Cortei uma fatia, estendi-lha.
- Dizes que este doce de abóbora é bom? - perguntou.
Confirmei que todos os doces e compotas em cima da mesa valiam a pena da experiência.
- Então, acho que vou barrar um bocadinho em cima deste queijo...
- Não quer antes uma tosta, para pôr tudo isso em cima?
- Não, estou muito bem assim...
Confortados, passámos à sala para ver as fotografias do casamento da Carolina, minha sobrinha e neta mais velha dela, ocorrido, à justa, há dois meses. Não eram as fotografias oficiais da cerimónia ou da festa, mas sim as que eu tirara com a minha própria máquina.
Passasse-se a coisa há uns anos atrás e estaríamos a desfolhar um álbum ou a manusear fotos soltas como se fossem cartas de um baralho, mas hoje fui buscar o computador, pousei-o no colo, enviesado na direcção dela, e abri o arquivo.
Mesmo assim, entre mim e o Zé João, tiráramos mais de cem fotografias e o vê-las permitiu-nos apreciar toda aquela gente que fôramos ambos conhecendo e gostando ao longo de trinta e cinco anos, comentando-as não apenas pelo prisma mais imediato de se estavam bem ou mal na fotografia, mas também pelo do seu estado actual na existência e do trajecto que tinham percorrido até aqui. As nossas opiniões não divergiam em grande amplitude, apenas por vezes ela ficava surpreendida com algum comentário meu e eu surpreendido ao constatar a inteligência avaliativa da sua contemplação, a riqueza acrescentada do seu cofre de recordações.
E foi por aí que, encadeadas e sucessivas, surgiram as fotografias da minha cunhada M., a mãe da noiva, e eu disse:
- Já viu como a M. envelheceu bem? Está mais bonita agora do que era quando era nova! 
- É engraçado - respondeu a minha sogra - estava a pensar nisso mesmo; está com uma expressão mais doce, está mais bonita.
E após um silêncio, a última fotografia de M. ainda nos olhava do ecrã, referindo-se aos pais de M., avós maternos da noiva e um casal desaparecido da vida em recentes anos, a minha sogra deixou cair um lugar comum na tarde que caía:
- Já viste como eles haviam de gostar de ter estado lá...?
- Sim - respondi, imaginando exactamente as cores e a exactidão do que ela acabara de dizer.
  



 © Fotografias: (1) José João Serrano; (2) e (3) Pedro Serrano, Julho 2014.

10 Agosto 2014

SALADA PIREU

Minhas boas amigas,
Agora que o Verão chegou (embora, sejamos sinceras, ele este ano não se recomende por aí além) apetece trocar as sopas por saladas, que nos trazem outra frescura às refeições. Assim, aqui fica a receita de uma salada que resolvi intitular de Salada Pireu, por ser uma adaptação minha de uma deliciosa salada que comi recentemente nessa muito simpática e ensolarada cidade Grega.
INGREDIENTES (para duas pessoas)
1 abacate
2 tomates médios bem maduros
1 cebola
1 mão cheia de pistáquios
½ pepino
1 ovo cozido
Azeite, vinagre balsâmico, sal q.b.
Nota: tome em consideração que os pistacchios são, por si, naturalmente salgados; desse modo reduza em conformidade o sal do tempero.

CONFECÇÃO
1. O maior segredo está na preparação da cebola crocante, pelo que começaremos por aí: descasque a cebola, corte em rodelas extremamente finas. Introduza as rodelas num tacho com água a ferver e deixe em infusão durante 15/20 segundos. Retire e introduza a cebola, assim amaciada pelo calor, em água gelada (água a que previamente juntou uma meia cuvete de cubos de gelo). Deixe repousar durante alguns minutos e reserve. Verá como a cebola fica maravilhosamente crocante e isenta daquele sabor tão intenso e desagradável que, tantas vezes, caracteriza este bolbo e nos obriga a um consumo excessivo de pasta dentrífica ou de sprays para o hálito.
2. Num bonito prato raso de dimensão generosa (para que os ingrediente não fiquem acavalados) disponha os tomates cortados em finas rodelas.
3. Descasque o abacate, que deve estar bem maduro, corte-o em finas fatias e justaponha no prato ao lado do tomate.
4. Faça o mesmo com o pepino e com a cebola.
5. O ovo cozido é ideia minha, pois na salada original não constava este elemento; mas pensei ser nutritivo e colorido acrescentar este toque de proteína animal.
6. Tome os pistacchios, previamente descascados, e semeie-os sobre o todo multicolor já disposto no prato.
7. Uma salada com esta disposição e delicadeza não pode, como é óbvio, ser temperada e depois mexida e remexida, pois destruiria a sua estética em camadas! Deste modo deverá preparar, numa pequena taça, uma mistura de azeite, vinagre balsâmico (de boa qualidade, é crucial evitar gostos ásperos) e sal. Bata a mistura com um garfo e regue a salada com o cuidado de quem estivesse a regar um bonsai.
A sua salada está deliciosamente pronta. Bom apetite!  
© Fotografia de Pedro Serrano, Agosto 2014.


06 Agosto 2014

22 Julho 2014

COLOUR MY WORLD


Esplanada sobre o mar. Uma mãe e dois filhos esperam pelo almoço, a mãe está absorta na leitura de um grosso volume. O rapaz deve ter os seus quinze anos e a miúda andar pelos dez, embora já use as unhas pintadas de azul turquesa. Ambos usam óculos escuros espelhados. A miúda interpela a mãe:
- Mãe...?”
A mãe continua a ler como se nada fosse, mas percebe-se pelo incremento do franzido das sobrancelhas que sentiu a interrupção.
- Mãe...??
- Que é, Eleonora?” a mãe suspende a leitura levantando brevemente os olhos do livro.
- Hoje à tarde vais mesmo tomar banho no mar ou vais só molhar a cabeça com as mãos?
- Vocês os dois, com esses óculos, não veem nada de certeza! Ora diz-me lá de que cor são os óculos do teu irmão – responde a mãe.
- Azuis e verdes – diz a miúda.
A mãe retoma a leitura.
© Fotografia de Pedro Serrano, Julho 2014.

14 Julho 2014

05 Julho 2014

ALMA & CORAÇÃO

Há um filme de David Lynch (Fire Walk With Me, 1992) cujos primeiros minutos de imagens a encher o ecrã consistem numa superfície azulada e refulgente, com miríades de cintilações, que tomamos por mar batido pela luz. Depois, a câmara vai recuando e aquilo que nos parecia água a brilhar à luz do sol é, afinal, a chuva errática do pontilhado que enche um ecrã de TV após a emissão ter terminado.
As fotografias que aqui se expõem são o inverso do que acabei de descrever: ambas representam o mar, mas a primeira toma-se, de alma e coração, por uma delicada folha de ouro, marchetada pelas mãos cuidadosas de um artífice, e a segunda pela plúmbea viscosidade de uma massa de chumbo derretido.


O mais curioso de tudo é que ambas as fotografias foram tiradas à mesma hora (o pôr do sol), em dias consecutivos, no mesmo local e usando, exactamente o mesmo enquadramento fotográfico e as mesmas características de exposição e abertura da máquina. Só Deus sabe o que explica a diferença ou, talvez um físico conseguisse fazê-lo com o exasperante à vontade técnico que nos faria desejar atirá-lo de imediato para um fondue de chumbo e ficarmos, aliviados, apenas na posse da ilusão dourada.
© Fotografias de Pedro Serrano, Thyra (Grécia), Junho 2014.