19 abril 2015

NÃO VENHAS TARDE: 10. A TUA PORTA É A MINHA JANELA

21 de Setembro
O padre acordou-nos às sete da manhã. Já o sentia cirandar por ali, mas mantive-me imóvel e de olhos fechados,  a ver se escapava, agora que, depois de uma noite às voltas em busca de uma posição impossível naquele chão duro, o meu corpo tinha atingido uma certa anestesia adaptativa e se sentia embalado o suficiente para dormir até ao meio-dia.
Uma meia-hora mais tarde saímos para a rua na sequência da recusa delicada em tomar parte na oração matinal e em integrar o grupo que vai, por essa cidade fora, evangelizar os atenienses a distribuir prospectos. Mas será que toda a gente não tem mais que fazer do que se entreter a brincar às igrejas?! Em Portugal, um ano antes, eu e o Rui, por tédio e por curiosidade, deixáramo-nos, uma noite, arrastar do Piolho até à moradia de uns colegas (todos médicos ou em vias de o ser em breve) ali para a Avenida da Boavista. O serão consistia em juntar montinhos de papel, reproduzidos em stencil, e agrafar os comunicados resultantes para um grupo maoísta e, como música de fundo, o gira-discos entoava cânticos da Revolução Mexicana (qual delas já não recordo). Como tudo estava a sair ainda mais chato do que a modorra no Piolho e tendo eu apercebido o L.A.Woman[1] na pilha de discos, resolvi pôr a rodar o “Love Her Madly”, que é a animada segunda canção do lado A do vinil. O que eu fui fazer! O agrafador-chefe interrompeu o seu ritmo de agrafagem – cadência, pelos vistos, inspirada no esgravatar das enxadas do campesinato mexicano – calou os Doors sem piedade e fez-nos logo ali uma prédica sobre os efeitos alienantes da música americana que não fosse a do Pete Seeger ou, vá lá, a do Bob Dylan pré-1965, antes de este perpetrar o pecado de electrificação das guitarras. Depois, ainda ao leme do dirigente, o sujeito quis organizar as brigadas de distribuição dos panfletos para o dia seguinte. Educados, como éramos, ainda nos oferecemos para levar alguns para a Faculdade e deixá-los por lá sobre os balcões do vestiário, pois tínhamos aulas a que tencionávamos assistir na manhã seguinte... Pior a emenda do que o soneto: o revolucionário-mor, dono da casa e do gira-discos, ficou assanhado, invectivou-nos a ir distribuir a papelada para as ruas da baixa do Porto! Quando lhe respondemos “vai tu” convidou-nos a deixar as instalações.
Ora bem, penso que o padre teve uma reacção semelhante, não que nos pusesse a andar dali para fora, mas proibiu-nos de deixar as mochilas na casa durante o dia, como se elas atrapalhassem grande coisa um apartamento vazio! Assim, aqui estamos outra vez de mochilas às costas, eu ainda a mancar das bolhas, pois as botas com tacão, isoladas da atmosfera por um fecho-éclair até ao joelho, não favorecem uma cicatrização rápida. 
Voltámos à agência de viagens e conseguimos comprar bilhetes para Istambul por 600 dracmas, cada! Em seguida passámos pela embaixada de Portugal a despachar parte dos nossos haveres para casa, pois urge que nos tornemos mais leves. Obtivemos  grande melhoria livrando-nos de todos os livros (com excepção de um dos I Ching) e aproveitámos a estadia em território nacional para fazer umas abluções mais profundas no magnífico quarto-de-banho para funcionários que eles tinham.  
A meio da tarde, despedimo-nos dos bancos do National Gardens e decidimos ir reconhecer o local de onde partem as camionetas para a Turquia, sentando-nos a descansar as mochilas num banco público em frente. Ao nosso lado acabou por se sentar um tipo louro com o qual metemos conversa, pois há nele um ar de viajante. É americano, mas detestava de tal maneira viver por lá que não só deixou o país como também o nome com que os pais o registaram: agora chama-se Rijath Rubio, sendo o Rubio uma referencia à cor do cabelo, e há quatro anos que deambula entre a Turquia, a Espanha e a Grécia. Andou cinco meses pela Índia, diz que é excelente altura para ir até lá pois as monções estão na fase descendente, e deu-nos a morada em Nova Deli de uns amigos dele que podemos ir procurar.
Ao fim da tarde atingimos o patamar do Hare Krishna Temple derreados de tanto calcorrear a cidade e, quando soube que comprámos bilhetes para o milhar de quilómetros seguinte, o padre tentou dissuadir-nos de partirmos já para a Índia. Convidou-nos a ficar a viver no templo, onde teríamos tudo grátis e, simultaneamente, faríamos a nossa aprendizagem de noviços. Em Fevereiro, partiríamos então todos para a Índia onde integraríamos o ashram[2] a que pertence. Recusámos, polidamente. Não nos apetece estar tanto tempo à espera de seguir em frente e, mais do que isso, não nos agrada a ideia de ficarmos às ordens de alguém que, como mestre, nos parece deixar muito a desejar.
Outra vez grande variedade de gente ao jantar, excelente como ontem. Quase no final da refeição, na presença de todos, o padre repreendeu Jenny (a rapariga que conhecemos no parque e que, embora grega, se apresenta como canadiana, pois anda fugida à polícia local) por ela, afirma o nosso anfitrião repetidamente, se estar a tornar o centro das atenções. Ao fim de dois ou três apertos na falha narcísica Jenny saiu da sala e, logo de seguida, ouvimo-la chorar convulsivamente no quarto ao lado. Criou-se um silêncio constrangido e um dos convivas tentou levantar-se com o fito de ir consolar a lacrimosa fugitiva. Porém, o padre não o permite e discorre sobre o sentimentalismo como sendo a fuga habitual de gente que não sabe nem o que quer nem o que faz. Não deixa de ter razão, mas a dureza da prédica criou um ambiente de cortar à faca e acabou por gerar uma discussão com o padre, pois houve mais quem se sentisse tocado pela argumentação. As pessoas vão saindo, e agora o padre está para ali sentado a um canto, com ar ensimesmado. Quando ficámos praticamente só nós pergunto-lhe se podemos ficar a dormir no templo mais esta noite. Diz que não, a não ser que fiquemos para sempre.
– Não, obrigado; amanhã nunca se sabe[3] – respondi, interiormente realizado por poder usar, inteiriço, o título de uma música para dar a resposta; ainda por cima de uma canção de travo místico-existencial.
Preparámos a saída para a noite escura, mas, na despedida, vendo o ar amargurado que transparece na expressão do nosso ex-senhorio, ainda acrescentámos que compreendemos a decisão dele e não lha levamos a mal. O homem suspirou, confessou que se sentia muito cansado e que lamentava ter sido tão duro com a Jenny, que estava apenas no dealbar do seu caminho espiritual.
Começávamos a descer as escadas quando uma das portas que existem no varandim do templo se abriu e eis David, um dos tipo que costuma ir jantar ao Hare Krishna Temple, a convidar-nos para ficarmos em casa dele. A nossa alegria é imensa: uma porta que se fecha e, sem transição, outra que se nos abre!
E assim ficámos a dormir paredes-meias com o Hare Krishna Temple, no qual, especulo, o grosso do movimento de fiéis poderá resultar de ali se jantar bem e grátis, e onde esta noite houve uma rotura provocada por alguém que tenta arrastar o mundo atrás de si, mas sem grande estofo ou carisma para o vir a conseguir. Pobre padre, é um homem só e temo pelo seu futuro neste ramo de actividade.

[1] L.A.Woman, Doors, 1971, Elektra/Asylum Records.
[2] Comunidade formada com o intuito de promover a evolução espiritual dos seus membros e frequentemente orientada por um místico ou líder religioso.
[3] “Tomorrow Never Knows” (Lennon-McCartney), álbum Revolver, 1966, EMI Records.

Imagens, de cima para baixo: (1) © Fotografia de Pedro Serrano, Kyoto (Japão), 2006; (2) Cartaz de propaganda maoísta; (3) © Fotografia de Pedro Serrano, Paul, Santo Antão (Cabo Verde), 2013.

14 abril 2015

VOU-TE CONTAR: 69. FILOSOFIA DE ALCOFA

Agora funciona lá a Universidade, mas, no primeiro ano da década de 70, era o liceu quem ocupava aquelas paredes, que beneficiava do claustro e da fonte ornamental. Fiz lá as provas finais de três disciplinas – Desenho, Filosofia, Físico-Químicas – na segunda época, isto é Setembro, do então exame de sétimo ano.
Nesses dias havia um exame final à saída do liceu e, imediatamente depois, outro para ingresso na Universidade. Os exames de sétimo ano faziam-se às cinco disciplinas principais e eu chumbei a três delas na primeira época. Inimaginável que pudesse ultrapassar o falhanço ainda esse ano e a tempo de entrar em Medicina, ainda por cima quando só se podiam repetir simultaneamente duas disciplinas; para a terceira era preciso requerer uma autorização especial a uma qualquer Direcção-geral do Ministério da Educação, seria também necessário que um liceu nos aceitasse em candidatura autónoma... E repetir a coisa no meu liceu de sempre (o D. Manuel II, hoje em dia regressado à designação original de Rodrigues de Freitas) era impensável, entre outros senãos menos administrativos porque me pegara com a professora de Filosofia durante a prova. A examinadora era uma solteirona rosnante, de mentalidade disciplinar, e não conseguira ainda sobrevoar dos enquadramentos da lógica socrática, encarando toda a filosofia do século dezoito em diante – a que mais me atraía – com mal-disfarçado desdém. Assim, quando, em plena prova, me ordenou:
“Olha pela janela e diz-me o que vês...”; eu respondi:
“Vejo o céu azul e uma árvore...”; e ela contrapôs:
“E como tens a certeza que é uma árvore?”
“Porque a estou a ver...”
E por aí fora, até ao caldo estar completamente entornado; ela numa de silogismos e eu numa existencial. A coisa acabou mal com ela a chumbar-me e a anunciar que, se dependesse dela eu nunca terminaria Filosofia naquele liceu ou em liceu do Porto e arredores. Acresce que naquele liceu, naquele ano, havia duas professoras de Filosofia escaladas para exames: a outra era irmã dela, uma solteirona tirada a papiro químico...
De algum modo, a que desconheço detalhes, o meu pai conseguiu-me o deferimento da tal autorização para fazer três cadeiras em Setembro e o liceu de Évora aceitou-me como aluno externo para repetir os exames em falta. Assim, num dia de calor abrasador do princípio de Setembro, eu, ele e a minha mãe rumámos a sul. O meu pai voltou para cima logo no final do fim-de-semana, mas a minha mãe ficou comigo, a fazer-me companhia e a vigiar os meus progressos nos estudos, que eu não era de total confiança, como já se tinha visto.
Ficámos instalados na Pensão Residencial Policarpo, em pleno centro, não muito longe da Praça do Giraldo, não muito longe do liceu; cada um no seu quarto e em regime de pensão completa.
Por energias interiores a que ignoro a génese todo aquele enquadramento quase monástico me estimulou e passei as três semanas que vivemos em Évora a estudar como um cão, ainda no outro dia encontrei num armário atacado pelo bolor e pela melancolia os velhos livros desses tempos: um tratado de Filosofia desirmanado pelo manuseio; um compêndio de Química sublinhado com esferográficas de cores diferentes, como se fossem camadas geológicas de repetidas leituras, as margens repletas de anotações alusivas às leis da termodinâmica e à Tabela Periódica de Mendeleev.
Fazíamos as nossas refeições na pensão, mas depois do almoço concediamo-nos um passeio até ao centro, ao Café Arcada, um estabelecimento enorme e sombrio onde a minha mãe e eu tomávamos café sob o olhar severo dos outros clientes, pois a minha mãe – então com 43 anos – era a única mulher no local. As senhoras, na capital do Alentejo, não frequentavam estabelecimentos públicos nesses dias, estavam condenadas a espreitar das janelas como se já estivéssemos em Marrocos.
Bem, aquelas tardes e noites de estudo, sentado na minha secretariazinha estreita da pensão, cismando – como pausa entre capítulos – as tílias e os ciprestes que avistava da janela, deram o seu resultado e fiz as três disciplinas sem grande alarde e magníficas notas, tendo alcançado um 18 a Filosofia, única classificação de que me lembro por ter sido assim uma espécie de estandarte vitorioso espetado no cadáver simbólico da solteirona silogística do Porto. 

© Fotografias, de cima para baixo: (1) Fotógrafo desconhecido, Évora 1970; (2) foto publicitária da Residencial Policarpo [net]; (3) Pedro Serrano, Évora 2015.


09 abril 2015

NÃO VENHAS TARDE: 9. A VISITA DE KRISHNA

Espicaçados por não ter onde ficar e, pesado argumento, pelos quase vinte quilos das mochilas, batemos várias agências de viagens em busca de transporte para Istambul. Descobrimos que a maneira mais vantajosa de o fazer (700 dracmas, pouco mais de 3 euros, para aproximadamente 1.100 Km) é de autocarro. Na quinta-feira, às sete da manhã, parte o próximo. Mas acontece que quinta-feira é daqui a três dias e não conseguimos arranjar nada antes disso. Ficámos de pensar e voltar.
Relativamente mal comidos (as nossas refeições esgotam-se em gyros, uma sandes de pão pita enrolado em cone e recheado com fatias de carne grelhada, tomate e cebola), transpirados pelo calor abrasador de uma tarde enevoada e abafada, murchos pela perspectiva de ter de ficar parados em Atenas, buscámos abrigo no Jardim Nacional, onde já estivemos. Uma vez que não se pode abusar da relva sentámo-nos numa alameda que ali há, em bancos de madeira e ferro forjado plantados entre as colunas listradas de tijolos que suportam um grande e verdejante caramanchão. Para ali estávamos a cismar na nossa baça sorte e o Rui preparava-se para se aconselhar com uma consulta ao I Ching quando vi aproximar-se um par vestido com túnicas cor-de-laranja, tentando vender prospectos Hare Krishna a quem passava. Embora fossem ocidentais, como estavam vestidos daquele modo pensei que nos pudessem dar algumas informações úteis sobre a Índia, ou sobre o caminho para lá, e fiz um sinal à gaja. A expressão de algum frete mudou completamente quando viu o I Ching e o Zen pousados em cima das traves do assento do banco e soube que o nosso destino era a Índia. Deu-nos uma direcção onde podíamos aparecer à noite e, até, dormir, se precisássemos.
Como por arranjo divino, poucos minutos após eles terem desaparecido, esvoaçantes como açafrão, o céu revolveu-se e por entre trovões despejou sobre a terra uma chuva que logo se enrijeceu em granizo. Foi lindo ver a dança do granizo sobre a relva, sobretudo agora que tínhamos onde nos abrigar, pois, vista de outro ângulo, aquela súbita tempestade do último dia do Verão queimara as nossas possibilidades de dormir ao ar livre. Mas Krishna viera até nós momentos antes! 
Embora vindo até nós, Krishna não nos facilitou a tarefa: o resto da tarde consumiu-se numa chuva miudinha e as mochilas molhadas pesavam nas nossas costas como o rochedo de Sísifo. E, depois, ninguém conhecia Nikiforou Foka, a rua a cujo número 38 deveríamos ir bater, e nós, abandonados aos dizeres indecifráveis do alfabeto grego, não íamos lá só por olhar as placas toponímicas. Até que, na meta do desânimo, um indiano nos respondeu, num esganiçado excitado:      O templo Hare Krishna? Eu moro lá!

Seguindo-o por pátios crivados de poças de água e escadarias de madeira apodrecidas fomos dar às traseiras de uma casa decrépita, onde escalámos do logradouro para o primeiro andar agarrando-nos ao corrimão oscilante de uns degraus de madeira que pareciam ter sido construídos para servir umas obras e ali ter sido esquecidos. Ao cimo havia um varandim com balaústres para onde davam duas ou três portas e várias janelas antiquadas, de guilhotina.
O par de hoje à tarde, agora à civil, recebeu-nos com um sorriso que nos fez sentir desejados e introduziu-nos em duas salas contíguas de paredes mal pintadas e chão de tábuas, nu e escarolado. Na primeira das salas estava, sentada pelo chão, uma dúzia de pessoas e a nossa chegada interceptara uma qualquer cerimónia religiosa.
Um tipo, em posição de lótus, estava sentado defronte do grupo e lia excertos de textos sagrados hindus em inglês; ao que a assembleia correspondia com a entoação de um hino. Sentado na última fila sobre uma esteira vou observando o que se passa e olhando as imagens coladas na parede, quase todas representando o deus azul, de ar amistoso, ora tocando a inseparável flauta, ora em companhia da sua vaca ora, guloso e criança, rapando manteiga de um pote. Há na assistência alguns indianos, mas a maioria das pessoas são ocidentais, incluindo o padre (vou passar a chamar-lhe assim, pois era como se lhe referiam os presentes quando não o designavam pelo nome de baptismo).
No final das preces mudámo-nos para a outra sala, onde foi servido o jantar. Dispunhamo-nos sentados em círculo e, como prato, foi colocada à nossa frente uma folha de estanho; como talheres, um garfo e um copo. A comida, vegetariana, é estranha e, do que reconheço, há ali uvas e queijo misturado. Soube-me pela vida, com a fome que trazia e após o regime intensivo à base de gyros. Outra coisa que, surpreendentemente, me soube bem foi comer à mão. Comecei com garfo, mas como toda a gente metia a comida à boca usando as mãos acabei, por imitação dos pormenores, fazer o mesmo:  moldada em bico, a mão desce sobre os alimentos como se fosse uma grua e pinça um pedaço, que mete à boca; o que vai ficando no prato é rearrumado e aproximado de modo a facilitar a próxima garfada (neste caso: dedada). Todos estes gestos são praticados com gentileza, usando unicamente a mão direita, e no final, ao contrário do que seria levado a concluir, a mão está em estado razoavelmente limpo, para que venha a ficar impecável com uma última lambidela da extremidade dos dedos e uma secagem com o pedaço de papel higiénico que nos serve de guardanapo.
Depois do jantar alguns dos convivas foram-se despedindo, saindo. Ficámos a perceber que três ou quatro deles moram neste edifício, no mesmo varandim e na porta ao lado. Como seria de esperar, o padre, que nos estivera a observar atentamente desde que chegámos, aproveitou a acalmia para conversar connosco. É americano, deve ter os seus trinta e tal anos e não aparentou problema algum em nos resumir a sua vida: antes de se converter tinha sido hippie e fumado ópio nas rotas da Índia; esteve preso na Jugoslávia e andou perdido em Nova York até se encontrar graças a Krishna.

A hospitalidade continuou-se com um convite para passarmos ao sono, pois ele deve levantar-se às seis da manhã. Ficámos todos a dormir na sala de orações, nós dentro dos sacos-cama, ele e um outro dos convidados sobre panos, finos como uma folha de papel. A última coisa de que me lembro, antes de me apagar e após me conseguir adaptar o melhor que soube à inflexibilidade das pranchas de madeira do soalho, é da ladainha monótona da voz dele rezando aos deuses.
© Fotografias, de cima para baixo: (1) Pireus (Grécia); (2) Atenas (Grécia), 2014.

01 abril 2015

NÃO VENHAS TARDE: 8. ENCANTOS DA VIDA AO AR LIVRE

20 de Setembro
Afinal ontem acabámos a dormir num jardim público (não me perguntem qual),  explico o porquê da mudança de planos. Arranjámos um sítio porreiro para ficar, na encosta mais arborizada da Acrópole, sob um vetusto pinheiro que, generoso, acumulara sob o toucado da copa uma fofa cama de caruma em nossa intenção. Dispusemos os sacos, abrimos a lata rectangular de Three Nuns, tabaco de cachimbo de que comprámos em Londres várias embalagens, e estava eu a encher o fornilho com a sensação de à vontade de quem se começa a habituar à vida ao ar livre quando passou um tipo ao nosso lado. A coisa não foi mais do que isto – enfim, ele desviou a rota para passar perto de nós – nem houve nenhuma palavra trocada, nada. Mas pareceu-nos haver algo de ‘volta de reconhecimento’ no modo como ele nos ignorou e as hipóteses que ventilámos foram suficientes para acharmos o local demasiado isolado e escuro em caso de sermos surpreendidos na inocência do pleno sono.
Então recolhemos as nossas coisitas, enrolámos os sacos-cama e descemos por ali abaixo até ao tal jardim público. O jardim é circundado por uma sebe de buxo aparado em forma de paralelepípedo e é no espaço deixado entre a face inferior da sebe e o chão que nos arrumámos, pois ali ninguém nos vê e ouve-se, como uma canção de embalar, o tranquilizante vai e vem dos automóveis que passam a escassos metros. Mas dormimos pessimamente: o colchão de terra era pétreo, o ruído do trânsito constante, e cheirava a merda que tresandava, um cheiro nauseabundo, próximo, que parecia intensificar-se sem explicação. À luz da manhã tudo se esclareceu: o local é poiso de gatos e cães como atestavam os vestígios arqueológicos agarrados ao saco-cama.
Fugimos dali cedíssimo e, numa disposição de cão, fomos para o flea market de Monastiriki esperar pelos Joαηηoμ, sentados no chão encostados à porta ondulada que ainda se encontra corrida. A nossa presença, quando chegaram, já não desperta sorrisos e não mais somos merecedores de refrescos ou cadeiras, o favor da batedeira está pago e chegou a hora de ir embora.
Como tivemos de ir a casa deles buscar as mochilas, lá armazenadas desde a madrugada da nossa chegada à Grécia, aproveitámos para nos vingarmos com moderação, trancados na casa de banho onde, à vez, tomámos copiosos banhos de imersão que nos limparam do corpo e da memória o cheiro a merda que nos perseguia. Enquanto, enfiado em água espumosa até ao pescoço, o Rui enuncia que está cheio da Atenas e que devemos prosseguir de imediato eu, acenando cautelosamente por entre o embaciado do espelho sobre o lavatório, rapo a barba de quatro dias, aproveitando para delinear os contornos da inovação de um bigode e mosca. Sempre ambicionei usar bigode e mosca, como a do Frank Zappa, mas em Portugal não tinha lata para enfrentar os comentários. Do lado de fora da porta, silencioso e paciente, o Nikolas espera que a gente lhe deixe a casa em paz.
© Fotografias de Pedro Serrano, Grécia 2014.


26 março 2015

NÃO VENHAS TARDE: 7. MORNING AS BROKEN

19 de Setembro, manhã
Atenas, agora que a consigo ver em perspectiva aqui do alto, faz lembrar Faro, se a cidade chã que é Faro fosse derramada pelas colinas de Lisboa. A cidade é branca e a perder de vista, trepando as elevações de terreno que a limitam por, no seu crescimento, não lhe sobrar outro remédio. O mar espreita de todos os horizontes. É imensa (a área metropolitana tem dois milhões e meio de habitantes, um quarto da população do país), pontuada aqui e ali por maciços de verde, aquele verde contido e poeirento da vegetação dos climas quentes e secos. Quase se ouve estalar o tempo. Sim, se fosse aqui despejado de olhos vendados e logo que a minha vista se habituasse à luz intensa, reconheceria, apenas pela vibração intuitiva da minha bússola interna, estar na Europa, no sul da Europa e nas franjas do Oriente, pois exala-se aqui um indefinido que... É como a música que ontem à noite subia, encosta acima, da parte baixa da cidade: uma música de toada familiar, com algo das tarantelas do sul de Itália mas já temperada pelas sinuosidades deslizantes da música árabe.
Enquanto escrevo no meu novo caderno de capa idêntica ao azul-ferrete do céu, o Rui, aqui ao meu lado esquerdo, preguiça enfiado no saco-cama. Olho em volta: pinheiros, oliveiras, cedros, maciços de arbustos de folha agreste, e o fusiforme elegante dos ciprestes que aponta para o céu como o fumo de uma queimada. Uma pomba, esculpida em baixo-relevo, parece debicar a casca de um pinheiro que invade o mármore onde pousa.
Fomos acordados por dois polícias que, de apito na boca e vociferando em grego, eram, no entanto, suficientemente explícitos para percebermos o que pretendiam. A Acrópole está já pejada de excursões e de máquinas fotográficas, pelo que é preciso manter a dignidade do local – sem desguedelhados estacionados sob os pinheiros como num acampamento cigano! Nada a contestar, eles foram suficientemente simpáticos ontem à noite quando decidiram deixar-nos ficar aqui e, sendo assim, desfraldados e enrolados os sacos-camas, deixámos o nosso ninho de caruma. O dia começa a aquecer.
Um par de metros mais à frente, reclinada sobre uma rocha sob a qual deveríamos passar, uma aparição loura sorri-nos e diz: “Good morning!”. O nosso aspecto desbragado e estremunhado foi o suficiente para a fazer sorrir ou não foi suficiente para a fazer recear-nos?
Voltámos a encontrá-la uns minutos depois, desta vez ao nível terreno e, armado com um tubo de pastilhas de fruta na mão estendida, dirijo-me-lhe:
– Obrigado pelo seu bom dia...
E estive uns poucos minutos por ali, a dissolver tempo com ela e sem vontade de seguir caminho. Além de linda, tinha uma cativante maneira, pausada e doce, de falar. Contei-lhe (todos os viajantes desta rota acabam por contar antecedentes e intenções) da nossa viagem à Índia e de como tudo começou. Chama-se Viktoria, veio de Frankfurt, via Roménia, passou duas semanas numa das ilhas gregas onde ver o mar e o pôr-do-sol, diz-me, é uma boa maneira de chegar à concentração. Trocámos moradas e prometi que lhe escreveria da Índia, é uma promessa que me apetece cumprir e que cumpriria desde já se tivesse os selos hindus necessários.
Anda um homem a apanhar papéis por entre os pinheiros e diz-me: “Good morning!”
Retornámos às imediações do templo de Hefesto e, após saltar uma vedação, lavámos a cara na duvidosa água histórica de uma bacia de pedra milenar. Gastámos o resto do dia numa viagem inútil à estação central de caminhos de ferro, em busca de horários e bilhetes para a próxima etapa: Istambul. Nada feito, para nos fazer desconto o gajo da bilheteira queria os nossos cartões universitários, coisa que não temos, e, sem isso, a tarifa é demasiado alta para a nossa bolsa. 
É noite e estamos outra vez no cafezinho de ontem, onde só há mais uma mesa ocupada. Comprámos aerogramas, aquelas cartas autossuficientes que, já vindo seladas, se dobram sobre si próprias formando um envelope pronto a enviar, e eram muito usados pelos soldados durante a guerra colonial. Um empregado varre o café sem pressa de terminar. Combinámos ir dormir outra vez na Acrópole, mas em poiso mais distante das grades e da vigilância dos guardas. Acabei de ajustar os vincos do meu aerograma e dou por mim a pensar na alemã que encontrámos de manhãzinha, pousada na rocha como se tivesse descido dos céus com os raios da aurora.   

Nota: Morning As Broken é nome de uma canção tradicional interpretada por Cat Stevens em 1971.

© Fotografias de Pedro Serrano, Atenas, 2014.