15 janeiro 2022

A MÃO QUE LHE DEU A MÃO

"Se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que..."
Uma das hecatombes mais deliciosas geradas pelo chumbo-do-orçamento/queda-do-governo/eleições-antecipadas, foi o modo como Joacine Katar Moreira - a deputada não-inscrita que mordeu a mão a quem a criou - desapareceu sem tempo para dizer água-vai!

Se bem se lembra o leitor, Joacine era militante do Livre, o incipiente partido de Rui Tavares, um ingénuo que, ainda na fase de acreditar em gambuzinos, se deixou inebriar pelo aroma multicultural, integrativo, inclusivo, minoritário, fracturante que parecia aureolar a rapariga e (imprevidente) a alcandorou a candidata nacional n.º 1 nas eleições legislativas de 2019... O que se passou a seguir foi rápido e ilustrativo da fibra da senhora. Eleita única deputada do partido, a tímida e nervosa Joacine logo se metamorfoseou numa pantera à solta no galinheiro do Livre. Rapidamente deixou de obedecer à linha programática do partido, decidia como bem lhe apetecia na Assembleia da República; deixou passar prazos para se pronunciar sobre matérias importantes, etc. 

Quando Rui Tavares e a restante direcção do Livre a tentaram chamar à pedra, coisa, diga-se, feita na maior das civilidades, a sonsa Joacine estrebuchou, mordiscou, deu coices e escancarou a goela, demonstrando que ninguém gritava mais alto do que ela, e  indo buscar, para arremesso, toda a baixela e quinquilharia do aparador, desde a faiança da fêmea maltratada, à porcelana da questão do género e à intensidade do bronzeado, encurralando o gentil e encavacado Tavares numa caricatura de macho latino, um quase campeão de violência doméstica e, nas horas vagas, eventual forcado amador de uma qualquer ganadaria do Ribatejo.

O resultado de tudo isto foi avassalador e patético: Rui Tavares e a papoila do Livre murcharam e (quase) desapareceram do mapa e Joacine, arregaçadas as mangas e desentupida a goela, manteve a sua cadeira almofadada na Assembleia da República, como deputada representativa de coisa nenhuma, para os próximos quatro anos, isto é: até 2023. Por lá a vimos, logo após estes incidentes, triunfante e colorida, deslizando pelos corredores, majestosa e em volúpia, ladeada por um secretário-assessor cuja particularidade mais assinalável foi a de usar saias no trabalho. Querem coisa mais fracturante e mais livre? Não ter a gente de se preocupar com a questão de para que lado apartar? 

Dias que, por culpa do comportamento da Geringonça, duraram bem pouco, entretanto, e Joacine, que já fazia da Assembleia a sua zona de conforto para os próximos quatro anos, teve de abandonar o palratório a quase dois anos do limite que imaginava... E agora, sem partido, sem claque, sem ideias, sem subsídios, o que irá ser dela? O que poderá invocar desta vez como forma de destratamento ou como nicho de mercado? Será que o PAN, agora que o Costa apelou ao voto nele, a valorizaria... sei lá, tipo pelas aptidões de mordedura sem aviso prévio demonstradas...

Resta-me desejar boa sorte a Rui Tavares que, pelos vistos, tem hipótese de ver, pelo menos, um deputado do Livre eleito. Não que me pareça que o partido dele (uma variante de um comunismo atenuado tipo IKEA) vá longe, mas, de qualquer modo, merece-o pelo esforço e (citando a saudosa Marta Temido) pela resiliência demonstrada. E, ao menos, teremos sempre a garantia de não virmos a acordar um dia e dar com Tavares, num programa da Cristina, madeixado e lacado numa permanente à Catarina Martins.  


Nota: um agradecimento a Chico Buarque pelo uso, na legenda da foto de cima, de umas linhas da sua canção 'Folhetim'. 

 

 

23 dezembro 2021

SURYA E A POEIRA AOS PÉS DE BRAMA

Surya
Oficialmente, o sistema de castas terminou em 1950, ao ser aprovada a primeira Constituição indiana após o domínio britânico. Mas estamos todos cheios de saber a diferença entre a letra da lei e a realidade, sobretudo se este sistema se alicerçou em regras e práticas com mais de três milénios de existência.

Uma casta é um grupo social hereditário, no qual a condição do indivíduo transita de pais para filhos, marcando a sua existência com tal determinismo que cada um só se pode casar e constituir família com pessoa do próprio grupo. Na Índia, os quatro grupos principais eram (ainda são, mormente em zonas rurais) os brâmanes (sacerdotes e letrados), os xátrias (militares), os vaixás (comerciantes) e os sudras (os camponeses e operários). Esta divisão apoia-se no corpo de Brama, o primeiro Deus da trindade do hinduísmo: assim, os brâmanes teriam nascido da cabeça de Brama, os xátrias dos braços, os vaixás das pernas e os sudras dos pés. Mas restava ainda a poeira por baixo dos pés do Deus e aí, tão baixo que nem um grupo constituem, estariam os dalits, os intocáveis, intocáveis pois o facto de serem tocados conspurca quem os toca... Como é natural, uma das profissões mais associadas a esta sub-gente é a de limpar a merda dos outros e a função vai também passando de pais para filhos. Se eu limpo latrinas, o meu filho há-de escarafunchar retretes, assim como o meu neto e as respectivas mulheres, e assim seja até ao final dos tempos. Um destino de merda. 

Em 1997 um senhor chamado Abraham George resolveu arregaçar mangas e fazer algo que pudesse mudar e, sobretudo, demonstrasse a falta de fundamentação de um destino previamente estabelecido e contornasse a aparente impossibilidade de quebrar este círculo de pobreza e de miséria. Apesar do nome, Abraham George é um nativo do sul da Índia que fez a sua vida e a sua fortuna em Wall Street, nos Estados Unidos. Um dia, já nos seus cinquenta e tais, George vendeu a companhia, fez as malas, regressou à Índia e aplicou a sua fortuna e experiência de organização e gestão a um projecto chamado Shanti Bavhan. 

Não é assim tão fácil definir Shanti Bavhan, pois não é um daqueles projectos beneméritos condescendentes, que deixa cair umas migalhas, faz uns cursos rápidos em inglês e vai embora, deduções nos impostos incluídas. A própria concepção de Shanti Bavhan tornou a ligação dos promotores aos beneficiários definitiva. A ver se consigo explicar.

A primeira escola de Shanti Bavhan está sediada em Tamil Nadu, no Sul da Índia, e destina-se a acolher crianças oriundas de famílias intocáveis. Recebe-as, por candidatura dos pais, aos quatro ou cinco anos de idade e só as larga quando elas conseguem o seu primeiro emprego, uns dezassete ou dezoito anos mais tarde. Um projecto de longo fôlego e compromisso, portanto. As crianças começam por viver nas instalações da organização, onde frequentam o jardim de infância, depois a escola primária e depois o liceu. Vivem lá, em regime de internato, mas, pelo menos duas vezes ao ano, nas férias, regressam a casa dos pais, para que mantenham contacto com a família e a comunidade de onde provêm. Mais tarde ingressam nas universidades que existem na Índia, e às quais se candidataram pelo método nacional do costume, continuando os estudos e a estadia nas grandes cidades a ser pagos e acompanhados por Shanti Bavhan. Quando se graduam e começam a voar pelas próprias asas, o organização espera que devolvam o capital humano e de conhecimentos acumulado à aldeia de onde são originários, ajudando a elevar o nível de vida da sua gente. 

Tomei contacto com tudo isto através de um documentário (minissérie) da Netflix chamado As Filhas do Destino. Esse documentário, muitíssimo ilustrativo e bem conseguido, acompanha a vida de umas quatro ou cinco raparigas, desde pequeninas até ao dia em que terminaram os estudos universitários e começaram a trabalhar, uma como advogada, outra como jornalista, uma outra como enfermeira. Mostra tudo quanto é importante e, por vezes, é duro assistir ao que os nossos olhos veem, pois não é uma daquelas cenas lamechas que a TV gosta de nos impingir, seja para vender rações para cães, hambúrgueres ou assinaturas de fibra óptica de última geração. Ali há esperança de um amanhã que cante, sim, mas o cantar é às vezes rouco, grasnado e triste e se a criancinha falha no aproveitamento de forma repetida é posta a andar para dar lugar a outro. Todos eles têm direito a uma oportunidade, mas é uma oportunidade única. É um percurso duro, bem duro e um dos filhos do Dr. Kennedy, já nascido na América e no bem-estar, que se prepara para tomar conta do que o pai iniciou, queixa-se da dureza das regras, tem dúvidas... Uma ou outra das raparigas, na tal série, tem igualmente dúvidas, sente que o projecto a partiu ao meio, a dividiu, já não consegue regressar à aldeia e à família de onde veio e sabe que a escola, em Shanti Bavhan, não lhe pode dar guarida para sempre: uma deles desenvolve até raiva ao Dr. George. É difícil crescer, é difícil viver, a ração é, por vezes, amarga. Mas, aos nossos olhos atentos e comovidos, ficou demonstrado o valor da iniciativa e o seu sucesso global e, de facto, no final, um intocável pode chegar tão longe como outro ser humano qualquer; é tudo uma questão de oportunidade, como afirmava o Dr. Abraham George quando decidiu comprometer-se com tudo isto. 

Conheço a Índia razoavelmente (embora me custe usar o termo, pois, na sua grandeza e diversidade, nunca se fica a conhecer a Índia, nem sequer razoavelmente) e a visão do documentário afectou-me o suficiente para, nos dias seguintes, ir espiolhar à Net as páginas da organização. Como poderia dar algum contributo a uma coisa tão bem pensada, tão séria e tão útil? O site de Shanti Bavhan dá resposta a todas as dúvidas que possamos ter, pois também ele está muito bem pensado e apresentado. O interessado pode dar dinheiro da forma que mais lhe interessar: pode contribuir para o equipamento de uma sala de aula, pode contribuir para pagar os geradores solares que aquecem a água dos edifícios, pode ajudar a comprar atoalhados para um dormitório ou, se preferir pode dedicar o seu contributo à educação e manutenção (comida, roupa, etc.) de uma criança. De igual modo aceitam voluntários para trabalho, mas vão alertando que serão implacavelmente seleccionados e que a vida é dura por lá: também eles conhecem bem a praga da solidariedade instantânea, que se esgota ao fim de dois dias ou quando é percebido que não há cabide para pendurar o casaco de peles...

Acabei por optar pela contribuição dedicada a uma criança: o preço era de cerca de 1.600 euros/ano e isso incluía tudo: a alimentação diária, os cuidados médicos, o material escolar, a roupa, o ensino de todas as disciplinas (desde o inglês à matemática, passando pelas ciências, a informática e a música). Tudo! Cerca de 140 euros por mês. Uns dias depois fui informado por mail que a minha dádiva ficara ligada a um menino chamado Surya. Mandaram-me a fotografia de um rapazinho bonito e sorridente, que me abria as palmas das mãos em jeito de boas-vindas e agradecimento. Juntamente com a foto, vinham umas linhas sobre Surya: tinha cinco anos, acabara de entrar em Shanti Bavhan, era de uma aldeia das proximidades de Bangalore, o pai cavava poços e a mãe estava em casa com a irmãzita mais nova. Quanto ao Surya, aluno do infantário, tinha algumas dificuldades com a matemática e o inglês e gostava muito de desenhar elefantes, peixes e bananas; gostava também de brincar com cachorros. Escrevi de volta, a agradecer as informações recebidas, enviando várias fotografias de elefantes, que tirara na Índia, e perguntando se poderiam ser entregues a Surya. Foi-me respondido que não, pelo menos não directamente. Por uma questão de protecção das crianças é interdita a comunicação directa entre elas e as pessoas que contribuem para a sua formação; de qualquer modo, as fotos seriam mostradas, pela professora, à classe onde Surya anda. Achei bem, o dia a dia daquelas meninas e meninos tem de ser protegido da invasão do exterior, de outro modo aquilo pode transformar-se num circo de exposição, de vaidades, etc.

Agora Surya tem já seis anos e iniciou o ensino primário. De vez em quando enviam-me um pequeno relato dos seus progressos, uma fotografia dele ou um desenho que ele fez. Já passou um ano e, recentemente, enviei contribuição para apoiar por mais um ano a estadia de Surya em Shanti Bavhan. Não que o meu dinheiro seja imprescindível para que ele lá continue e seja apoiado até que se torne adulto e alcance o seu primeiro emprego, pois, felizmente, a organização não está dependente de mim! Mas gosto de o fazer e dou por mim a torcer para que os ventos corram de feição a Surya e que um dia mais tarde, confiante, ele possa soprar das mãos a poeira que lhe restar dos pés de Brama.

 

Nota: As Filhas do Destino pode ser visto na Netflix; o site de Shanti Bavhan está no endereço: https://www.shantibhavanchildren.org

© fotografia do elefante: pedro serrano, Udaipur (Índia), 2013.

 

 

25 novembro 2021

MARTA E OS ESTADOS D'ALMA

Estragada pela revolta no galinheiro (sangria de profissionais para o privado, demissões em cascata de directores de serviços hospitalares, centenas de escusa de responsabilidade, assinadas por médicos e enfermeiros face ao estado degradado dos locais onde trabalham), piursa com tudo isto, Marta Temido fez saber, zangada e assertiva, que uma das soluções para o problema que a "sociedade" tem de encarar passa pela "contratação de profissionais de saúde mais resilientes, mais resistentes à pressão e ao desgaste".

Em primeiro lugar, muito gostaria de saber como tenciona a ministra da saúde operacionalizar este novo critério de contratação de médicos e enfermeiros. Recorrer aos serviços consultivos da Durex, empresa habituada a testar a resistência ao estiramento, ao atrito e à pressão de biliões de preservativos? Incluir na formação especializada dos médicos um estágio obrigatório na fronteira da Polónia com a Bielorússia ou, talvez, no Afeganistão em hora de ponta? Submeter, durante a entrevista de selecção, cada um dos candidatos a um looping de discursos de altos dirigentes da saúde (incluindo ela própria e os inefáveis secretários de estado) para avaliar quantas horas extraordinárias aguentam antes de fugirem porta fora? 

Em segundo lugar, numa altura em que o sNS se vê aflito para preencher as vagas que põe a concurso, e repetidamente ficam desertas, talvez não seja a melhor estratégia esta de tratar com duas pedras na mão eventuais candidatos. Será que a senhora já terá ouvido falar da história das moscas, do mel e do vinagre? É que nem só de horas extraordinárias vive o homem!

Em terceiro lugar, como diria Marques Mendes nos seus triunviratos explicativos, o que há que, genericamente, se possa apontar ao desempenho e à falta de resiliência dos profissionais de saúde nos últimos dois anos (para não ir mais além)? Meu Deus, o que alguns deles têm visto e aguentado, ao que se têm adaptado em cada semana de instruções contraditórias, ou diametralmente opostas, por parte da tutela! Para além de injusto e desadequado, o desvario de Marta expõe, sobretudo, a frustração de alguém que está a ser incapaz de liderar a casa que aceitou e jurou gerir com todo o emprenho, zelo e etc.

Entretanto, enquanto Marta desatina, o secretário de estado adjunto da senhora é todo ele mel e rosas nas aparições públicas, debicando sempre o lado positivo das notícias a transmitir, não dizendo nada, defendendo sempre o Governo e acumulando pontos no cartão para uma eventual remexida ministerial. Pelo que se pode ir ajuizando dessas performances, o nosso futuro também não irá longe com o homem... Só nos últimos quinze dias, ouvi-lhe, pelo menos, duas pérolas a merecer o bronze: sobre o atraso na vacinação dos maiores de 80 anos, a justificação nada teria a ver com logística ou deficiente actuação dos serviços de saúde; não, segundo ele a demora (sempre pontual, claro) era mais devida à avançada idade das pessoas a vacinar, que não percebiam bem o que lhe diziam, se atrasavam, coitados, tomáramos nós quando lá chegarmos, disse com o mais piedoso dos sorrisos. A última pérola, ouvi-a ontem, quase em simultâneo com os esganiçamentos de Marta: após enumerar as medidas para fazer face ao recente e violento crescendo da pandemia (lá papagueou as vacinas, os testes, as máscaras, o distanciamento, o lavar das mãos), o homem deu-se conta que o microfone ainda estava virado para ele, pelo que decidiu ser mais específico e juntou em nosso benefício: "para além de outras medidas com uma malha reticular mais fina". Sim, sou da mesma opinião, o melhor é voltar a entregar isto à indústria têxtil, como no tempo das máscaras milagrosas de Rebordões.    



Adenda:
Foi um momento de rara beleza acrílica e kitsch (fazendo lembrar o famoso quadro 'O Menino da Lágrima') aquele em que Marta Temido disse que não disse o que disse sobre resiliência e pediu (snif) desculpa aos (snif) profissionais de saúde. Mas logo, chispando, foi dizendo que estava genuinamente, profundamente, indignada de ter sido mal interpretada. Pois, ficámos cientes... 

20 novembro 2021

COMO DIRIA BAKUNINE

No mesmíssimo dia em que a Assembleia da República aprovou a lei que criminaliza o enriquecimento ilícito de políticos, Francisca Eugénia Van Dunen, ministra dessa Justiça anunciada e (a seguir a Ana Catarina Mendes) a mais fiel yes-woman de António Costa, divulgou a sua saída do Governo. Procurei o comando, congelei a imagem no ecrã e fui a correr à cozinha buscar a taça das pipocas. É que, tendo em conta a habitual cortina de fumo e as palavras com que Van Dunen nada afirma, fiquei estupefacto do modo assertivo, e por escrito, com que informou o povo.

Mas eis que, de imediato e no mesmo telejornal, mais parvo fico quando percebo que Graça Fonseca, o bacalhau-seco da Cultura, iria fazer o mesmo: vai à vida, parece que está cheia, não nos disseram de quê, mas suponho que de fazer discursos ocos a anunciar verbas de cada vez que alguém denuncia que o sector está na desgraça e os tectos desabam nos velhos conventos. 

No entanto, as revelações sobre saídas do Governo não se ficaram por ali: imagens animadas mostraram Marta Temido, responsável pelo Remendo Nacional de Saúde (ex-SNS), comunicando que também se vai logo que possa, quer voltar a ser simplesmente 'Marta', como se fosse um dos ingénuos pastorinhos da Cova da Iria e não a mulher a que os anos evidenciaram o tique de professora primária autoritária, que se exalta e dá até gritinhos quando as ideias ou a reconhecimento lhe faltam.

Para minha tristeza, que, como Bakunine, simpatizo com a ideia de ficarmos sem governo, pois é plausível que nada de pernicioso suceda ao país, para minha tristeza - como ia dizendo - o episódio Titanic terminou-se com o último dos roedores (Augusto Santos Silva, dos Estrangeiros) a revelar que também almeja a ombreira da porta de saída, uma vez que deseja voltar à vida universitária antes que a reforma e o auto-agendamento para a 3.ª dose do Covid o apanhem, mas que, se a Pátria precisar, se prontifica a aguentar mais uns tempos... A Pátria, com a excepção do citado Bakunine, agradece, comovida.

Claro que houve vários que não disseram nada, ou que ainda não disseram nada, e há mesmo um desses a quem não conviria nada estes género de apartes, pois que arregaça as mangas para tomar conta do PS logo que Costa dê de frosques e, nessa condição de candidato, não pode vir agora dizer que abandona um Governo... Não, Pedro Nuno Santos está é ansioso por tomar conta de uma qualquer próxima governação e, pelo caminho, dar cabo da aviação comercial, dos comboios e do PS, coisa de que o partido parece ainda não se ter apercebido. 

Igualmente mudo se manteve o torpedeiro-mor Eduardo Cabrita, que resistirá enquanto não o correrem, enquanto não o abanarem e lhe disserem "Dudu, olha as gotas: acabou-se, agora tens de ser tu o motorista!". E, mesmo nesse dia terminal, ele irá estremunhado, olhando em todas as direcções, por cima do ombro, atrás das costas, pois vivemos num mundo perigoso, de propósitos conspirativos, onde até a Guarda e a Polícia não obedecem a um ministro como deveria ser. O Cravinho que o diga lá com os truques que lhe pregam os fardados dele...

De repente, bastou um orçamento, um delicado momento, e é a debandada: o que estará a acontecer? Se não fosse a minha fé nas teorias de Bakunine, penso, até, que ficaria preocupado.  

 

Nota para quem possa não conhecer: Mikhail Aleksandrovitch Bakunin (1814-1876), foi um teórico político, sociólogo, filósofo e revolucionário anarquista. É considerado uma das figuras mais influentes do anarquismo e um dos principais fundadores da tradição social anarquista. 

28 setembro 2021

VOU-TE CONTAR: 76. Coincidências

Em um dia lastimosamente chuvoso do mês de Janeiro de 2021 olhei, por uma última vez, o interior da casa que acabara de esvaziar e fechei a porta sobre mim. Aos meus pés, no lado exterior da soleira, quedava o caixote de cartão onde fora enfiando aqueles pequenos objectos que, embora sem utilidade previsível, não consegui deixar no contentor de lixo mais próximo. Peguei o caixote, meti-o na mala do carro e virei costas ao local em que morara até abandonar o ninho paterno e onde, sem ter de me interrogar, entrara e saíra durante os últimos cinquenta anos.

Um dos despojos abrigados no caixote consistia em dois ou três maços, ainda cintados, de cartões de visita do meu pai, pequenos rectângulos de cartolina branca de 9 centímetros de comprimento por 5 de altura. Como deitar fora, assim, sem mais, algo tão tremendamente pessoal? E, arrastando-os comigo, olhando agora para eles entre as paredes da minha casa, como dar-lhes serventia sem vir a ser assaltado pela sensação de que o fazia indevidamente? Uma coisa é passarmos um traço de caneta sobre o nosso nome num cartão - pretendendo com esse gesto suspender ou atenuar a nossa persona - outra, muito diferente, é riscar o nome por outrem, por uma pessoa que não pertence já sequer ao mundo dos vivos, mas cuja lembrança permanece viva em nós. Seria o equivalente a negar-lhe a voz. Tendo decidido que os conservaria, resolvi então que os utilizaria como marcador de livros, para rabiscar notas pessoais ou memorandos, enfim, como algo prestável mas usado somente em circuito fechado e que só poderia ser prescindido após ter cumprido a sua função de mensageiro. Eram algumas centenas, chegar-me-iam para muitos meses, porventura alguns anos...

Passei a tê-los em profusão ao alcance dos olhos, sobre a secretária, a encontrá-los pousados em diferentes locais da casa, esquecidos em cima de uma mesinha acabado que fora o livro em que usara um deles para marcar páginas. Mas, um dia, dei comigo a olhar atentamente para um desses pequenos rectângulos, pois, por razões que ignoro, a sua individualidade descera sobre a minha consciência. Reparei então, e pela primeira vez, que no cartão constava apenas o nome nu do meu pai, sem o atributo prévio que costumava ilustrar o papel de receita ou cartões anteriores em que a sua profissão de médico era assinalada com um 'Dr.'. Observei também que na morada inscrita no rodapé constava já um código postal de sete dígitos e um número de telefone com nove algarismos, o que me permitiu concluir serem estes cartões relativamente recentes, pois datava de 1999 essa alteração na extensão dos números de telefone. Daí o pensamento saltou rapidamente para o meu pai, falecido em 2007, e para esses dias em que terá decidido mandar substituir os velhos cartões de visita por novos cartões em que toda a vida anterior, vincada sob traços de uma profissão, fora mandada apagar. Conhecendo-o, estou certo de que essa decisão terá sido longamente premeditada e o instante em que a tomou sentido como um degrau que se desce num caminho até pouco antes ascendente, pois que a existência passa depressa como um sopro. Mas o meu pai não era pessoa de se anunciar, de se queixar, de tudo isso restou apenas um vestígio e a minha interpretação.


Intrigado e impressionado pela revelação silenciosa, vasculhei os meus papeis na tentativa de encontrar um papel de receita dos seus dias activos como médico, queria comparar o que constava num e noutro desses documentos de uso tão exclusivamente pessoal e onde não havia lugar a manuseio de terceiros. Encontrei, quase perdida, uma única folha amarelada, em cujo cabeçalho está inscrito o nome, a actividade médica, e duas moradas, uma profissional e a outra pessoal. A primeira indica o seu consultório na Rua de Sá da Bandeira, no Porto, um prédio de esquina, de fachada arredondada, onde, em criança, fui levado frequentes vezes, pois no mesmo andar - o terceiro - ficava também o consultório do meu pediatra, do pediatra das minhas irmãs. Desses dias longínquos e desse local retinha imagens remotas e vagas, a necessitar que uma nova visita as refrescasse e cristalizasse com nitidez...  

Havia um elevador estreito, forrado a madeira escura, com uma porta de correr de malha de ferro que produzia, ao ser movimentada, o ruído de sabres entrechocando-se, armaduras de metal. Depois, à saída do elevador, erguia-se uma porta em cada lado do átrio, que na sua mudez expectante de ferragens e vidro martelado, quase gritava que a responsabilidade pelo mundo onde entraríamos seria totalmente de quem chegava e escolhia à esquerda ou à direita... Mas a nossa mãe sabia a campainha a que tocar e quando a porta se abrisse com um traquejo eléctrico estaríamos num vestíbulo onde, atrás de um balcão de madeira (tão escura como a do forro do elevador e a do painel da porta), se sentava uma senhora que, ruidosamente, nos saudava, envergonhando-nos perante as outras pessoas que esperavam consulta numa sala de porta aberta e, sem mais nada para fazer, se entretinham a ouvir quem chegava e qual o seu destino em termos dos quatro ou cinco médicos que ali prestavam serviço.

Mesmo se o fito da visita não fosse o nosso pai, mas, antes, consultar o médico de crianças, esta não aconteceria sem que, depois, ele fosse alertado da nossa presença, fosse pela recepcionista, fosse pelo próprio pediatra que, finda a consulta, atravessaria o espaço para ir bater à porta do nosso pai para o informar que ali estávamos e qual o resultado do nosso estado de saúde, informação que ficaria também na posse do doente sentado em frente ao meu pai e ressoaria no lençol da marquesa onde se deitavam, se enroscaria no tampo rotativo, para ajustamento da altura, do banco e, finalmente, pousaria numa das prateleiras do armário envidraçado onde eram guardados os instrumentos do ofício e as amostras dos medicamentos.

À saída, fechou-se a porta desse terceiro andar em Sá da Bandeira, bateu-se a porta do elevador, encostou-se a pesada porta de ferro forjado e vidro martelado da saída e uma dessas vezes, sem o saber, fora a última em que ali se entrara. Pela mesma última vez fechou-se depois a porta da casa onde eu morara e a tampa da bagageira após aí ter acondicionado o caixote com os cartões de visita do meu pai. 

Após a sua morte tornou-se necessário tratar de heranças e partilhas e quem melhor do que um advogado competente para desenrolar esse novelo, aliviar do algo doloroso que é olhar esses assuntos do ponto de vista legal? Saído do Porto há mais de trinta anos, eu não conhecia ninguém, mas o Vasco e a Margarida, filhos da minha irmã mais velha, sabia de um, a quem costumavam recorrer, excelente, segundo diziam de serviços que lhe tinham sido prestados. Marcou-se uma entrevista e um dos meus sobrinhos forneceu o nome e a morada aonde me dirigir. 

Era na Rua Sá da Bandeira e ao chegar ao local e confirmar o número da porta olhei com um misto de espanto, temor e expectativa o prédio arredondado, de esquina, onde ficara o consultório do meu pai, do pediatra... O andar do advogado, dizia o papel que eu guardara na carteira, ganhava agora uma luz de impossibilidade: era o terceiro, como só acontece nos filmes e nos contos.

E o elevador continuava a ter uma porta de correr, a ser forrado a madeira escura e, em cima, o átrio mantinha as mesmíssimas portas de vidro martelado e ferro forjado e até a campainha continuava a soar como um besouro sonolento. Mas tudo tinha um ar recente, classificado, cuidado: a decadência dos anos corridos não afectara nem entristecera o local, provavelmente fora tudo restaurado por alguém sabedor, atento e reverente ao que encontrou. 

A porta abriu-se com um trincolejo e, atrás de um balcão de madeira escura, uma menina sorria e, pela hora, adivinhava que eu seria fulano, à procura do Dr...

"O mundo é pequeno", disse o advogado quando, sem o conseguir evitar, lhe transmiti a incredulidade pela coincidência do local onde o encontrava.

"Tinha uma ideia que o consultório do avô ficava por aqui, mas não sabia que era neste prédio e, muito menos, neste andar", comentou a Margarida com naturalidade, rodando as páginas do seu Moleskine e preparando a esferográfica.

Muitos meses corridos sobre esta primeira consulta jurídica e na sequência dos seus frutos regressei à cidade para a escritura da venda da casa de onde levara os cartões de visita. Era inverno outra vez, chovia e rondava no ar aquela bruma espessa de que o Porto é pródigo. Ao contrário de outros tempos, em que os cartórios eram avaros e rígidos como repartições, agora eles abundam pela cidade, o advogado pôde escolher o mais conveniente e o local parecia-se mais com uma agência de viagens: tinha-nos calhado um vizinho do Mercado do Bom Sucesso, cuja existência eu ignorava de todo. No final, ao sair para o exterior, a bruma tinha-se dissipado um pouco e embora continuasse a chover era claro o pedaço de cidade perante mim. Do outro lado da rua, a escassas dezenas de metros, erguia-se um prédio onde nos andares mais baixos está instalado um centro comercial, espaço que se pode atravessar até sair por uma das portas das traseiras que deita para a Rua da Meditação, artéria curta e discreta cujo topo é constituído pelo muro do cemitério de Agra Monte. Ao contrário do que tudo faria crer, o meu pai não escolhera o jazigo de família do cemitério mais próximo da sua antiga casa, nem sequer o outro Prado do Repouso onde jaziam as cinzas da minha mãe, falecida uma dúzia de anos antes dele. Por razões que nunca revelou, optou por uma campa naquele cemitério cujos ciprestes e cimos de jazigo eu podia vislumbrar dali, à porta do cartório onde a sua casa, por mãos que ele conhecera bem, mudara para mãos que ele nunca conheceria. 

© Fotografias de pedro serrano, Porto 2018.

23 setembro 2021

NOBRE EM PONTAS

Ao assistir ao chorrilho de asneiras ditas por Fenando Nobre numa arruada negacionista e sabendo que o homem é médico, pensei: está xexé, coitado, que alguém piedoso o tire dali! Sim, como era possível que um médico e professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, dissesse disparates que só se ouvem da boca dos leigos mais ignorantes, tal como o de que o vírus do Covid não se transmite em pessoas assintomáticas, que as máscaras são um perigo e que a doença se trata muito bem com antibióticos (aos quais os vírus são insensíveis), com a ineficaz  hidrocloroquina ou com generalidades de parafarmácia como vitamina B e D?! Tão grosseiramente mau como Trump, Bolsonaro e a senhora de puxo que grita ao megafone e interrompe o bife a cavalo ao presidente da Assembleia da República! Mas o homem é médico, é professor universitário, é multi-medalhado, em tempos foi promovido, num programa sério da RTP1, ao 25.º lugar da lista de Os Grandes Portugueses!

Intrigado resolvi ir espiolhar a biografia do personagem, ao dispor de todos na Internet. E fez-se-me luz: o homem é médico, é certo, cirurgião e urologista, mas, se comparadas com outras habilitações, as ferramentas clínicas são modestas. Veja só: em 2002 apoiou Durão Barroso a primeiro-ministro, mas, logo em seguida, decepcionou-se e deixou de seguir o cherne. Em 2006 foi membro da candidatura de Mário Soares à Presidência da República e em 2010, contagiado pela aprendizagem, resolveu concorrer ele próprio ao cargo... No entretanto (2009) tinha tido tempo para ser também mandatário nacional do Bloco de Esquerda nas eleições europeias, o que não o impediu, no mesmo ano, de integrar a Comissão de Honra da candidatura de António Capucho (PSD) à Câmara de Cascais. Viva o golpe de rins e quem melhor do que um urologista para o praticar?! Após isso, estamos já em 2011, foi cabeça de lista em Lisboa para as legislativas de Passos Coelho e, logo a seguir, concorreu a Presidente da Assembleia da República, mas, vendo a candidatura rejeitada, Fernando Nobre, embora deputado, amuou, renunciou ao cargo, e foi-se à vida. Mas, um ano mais tarde (2012), lá estava ele a anunciar ao mundo ser membro da Grande Loja do Oriente Lusitano, enobrecendo com a novidade o renque dos homens do avental.

E Portugal perdeu-lhe o rasto, o homem deixou de ser notícia ou de se noticiar tanto como era costume... Até que apareceu o abençoado Covid19, essa luz dos esquecidos, esse maná de quem acha, de quem é ferve em opiniões. Já chamuscado em tanto lado, sem um único cliente, político ou social, que o levasse ainda a sério, o multi-condecorado resolveu virar-se para a esquálida legião que restava e talvez o ouvisse, lhe batesse umas palmas: o bloco negacionista.

E foi aí que, voltando ao princípio deste texto, o vimos, exaltado e roufenho, a debitar aquele chorrilho de disparates, na maior ignorância e incompetência técnica, a confessar-nos, na maior inconsistência científica, ter tratado com sucesso a mulher, a filha e a netinha, e a generalizar e propagandear esse sucesso pessoal e familiar como panaceia universal; a acumular procedimentos e declarações públicas mais do que suficientes para vir a ser justificadamente afastado da profissão a que pertenceu... Não tardará e vê-lo-emos a concorrer a alguma junta de freguesia pelo Chega...       


© Fotografias de pedro serrano, Lisboa 2010.

05 setembro 2021

AS SANDÁLIAS DE FREI HEITOR

Alguém deveria explicar a Manuel Heitor (ministro da Ciência et al) que, em Portugal, a responsabilidade pela formação de especialistas médicos compete, há mais de 40 anos, ao Ministério da Saúde. Tomando isso em consideração, deveria ser Marta Temido, a puxar as orelhas - que as tem bem abanicadas - ao seu verborreico colega.

Alguém deveria também explicar ao homem que o tempo de formação exigido a uma especialidade médica está, a nível europeu e há mais tempo do que ele leva na Ciência, definido pela Comunidade Europeia, tendo em vista, entre outros aspectos, a harmonização internacional das especialidades e o facilitar da livre circulação de médicos no espaço europeu. Neste âmbito, alguém o deveria informar que fica mal a um engenheiro mecânico regurgitar publicamente ruminações apressadas sobre o tempo que deve gastar um especialista médico a ser habilitado para a sua função, e ainda mais afirmar que é necessário menos tempo para formar um especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF) do que um especialista em Oncologia. Até porque isso já foi pensado e dito por quem sabe e é praticado há mais de uma dezena de anos em Portugal, onde são necessários 5 anos para formar um oncologista e 4 para formar um especialista em medicina geral e familiar. Menos do que isso, para este último especialista e como parece sonhar Manuel Heitor, seria violar os tempos de formação europeus e português, pois não é permitida actualmente nenhuma especialidade médica com uma formação inferior a quatro anos de duração.

Sonhar com outros modelos formativos para a especialidade de MGF é um devaneio que recorda o médico-pé-descalço dos tempos da Revolução Chinesa ou a prática de países que, como o Burkina Fasso ou a Tanzânia, não têm outro remédio senão usá-la, pois, por lá, quase não há médicos. Desde 1985 que Portugal abandonou já esse estádio de subdesenvolvimento médico e a formação na especialidade de MGF evoluiu, ao longo desse tempo, de 3 para 4 anos de formação específica, num processo que foi longamente amadurecido, experimentado, avaliado e sempre em sintonia com o que era praticado em países que são considerados desenvolvidos do ponto de vista dos cuidados médicos que prestam às respectivas populações. De modo que mais valia ao engenheiro estar calado e concentrar-se um pouco mais no que se passa no seu reino ministerial, onde, dizem, nada sucede que se recomende. O mais que até agora conseguiu foi que os Ingleses se dessem ao trabalho de vir a terreiro desmentir o que disse o ministro quando referiu a formação médica britânica! 

Finalmente, alguém devia informar Heitor que Portugal (usando os critérios de qualquer latitude do planeta) já possui o número de médicos que necessita, bem como o ritmo adequado para os formar, e que também não é a ele, nem às suas secretarias, que compete tratar das assimetrias de distribuição desses profissionais pelo território nacional. Deste modo, estar a advogar, assim, a seco, a criação de mais 3 faculdades de Medicina, é uma irresponsabilidade (ou oportunismo regionalista ganancioso) cuja única consequência futura, já após Manuel Heitor deixar de orbitar no planetário do poder, será obrigar os futuros médicos a usar sandálias e fragilizar a qualidade da medicina prestada aos portugueses, pois, a partir de um certo patamar, não é nunca pela mercearia da quantidade que se chega à qualidade.

 

 

01 setembro 2021

ENTRA MOSCA OU SAI ASNEIRA

Eduardo Cabrita (também conhecido pelo Terror-das-Autoestradas) esteve por aí numa reunião internacional sobre o Afeganistão e os refugiados que aquilo vai gerar. Era vê-lo entre os seus comparsas europeus, olhando muito em volta, com aquele tique algo paranoico, que também usa a nível caseiro, de que, a qualquer momento, pode surgir alguém ou alguma coisa que o pode vir prejudicar...

Finalmente falou aos jornalistas do alto da sua sabedoria e da sua medalha de bronze em direitos humanos (perdeu a de ouro por um triz, derivado àquela chatice do ucraniano no aeroporto e a de prata graças ao raio do cantoneiro). Falou e começou por atrapalhar um pouco a língua no arrevesado nome do país em causa, pronunciando o, o..., o Afe-ga-fanistão, mas após o plissando lá nos informou que Portugal acolherá refugiados, muitos, centenas deles; que há critérios bem gizados e ponderados para o fazer e que daremos prioridade a... "a mulheres..., activistas dos direitos humanos, e.... mulheres-juízas." Isto é, mais ou menos toda a gente, supõe-se, pois até um taliban que só dê tiros para o ar pode ser considerado um activista dos direitos humanos ao desperdiçar uma bala, sobretudo se for mulher. Mas o que mais me contentou e deliciou foi aquilo das "mulheres-juízas", pelos vistos uma categoria profissional e de género que abunda lá no Afega-fa-nistão. Porra, que até as senhoras americanas do Me Two se devem estar a lamber de inveja com tanta mulher bem colocada! Venham elas, muitas, que a Boa-Hora, a Relação, o DCIAP e Caxias têm lugar para quantas magistradas lhe couberem, que o Ivo Rosa já não dá conta de tanto caso prescrito e mal-fundamentado.

Entretanto, a GNR (que depende deste Cabrita defensor dos direitos humanos), foi enviada a casa do cantoneiro atropelado pelo automóvel do Ministro, a indagar, junto da viúva, se o homem bebia uns copos a mais e se era cauteloso no seu dia a dia. Esta intrusão, este abuso, esta má-fé, parecem não contrariar as convicções humanitárias de Cabrita. 

Já se vai dando como garantido que, por cá, reina a impunidade dos poderosos e que, para eles, toda a culpa morre solteira, mas assistir, repetidamente, a isso dentro do próprio Governo, ainda impressiona alguns. 

Mas, como um grande batráquio à vontade no seu nenúfar privado, Cabrita continua a coaxar no charco, satisfeito, pois de cada vez que abre a boca entra uma mosca apetitosa e crocante.

24 agosto 2021

CONTRAFACÇÃO

  


                         Como mencionaste as nuvens
                         De uma tarde que anoitece

                         Enviei-te o retrato exacto

                         De uma noite que amanhece

 

                         Não deste pela diferença

                         Já que nuvens por lá estão

                         Quanto ao resto, pouco importa

                         Se não passou de ilusão

 

                         Falavas da fímbria rosada

                         De um sol que, indo, se demora

                         Ora uma tal tonalidade

                         Tinge também o nascer da aurora

 

                         Não deste pela diferença

                         Nem viste a contrafacção

                         Não é pela senda da verdade

                         Que palmilha o coração


© foto: pedro serrano, bico do muranzel, julho 2021.

22 agosto 2021

DE MORTUIS NIL NISI BONUM (Não faleis senão bem dos mortos)

Encontrei-o um dia numa das esquinas a nascente da rotunda da Boavista, na cidade do Porto. Visto de hoje, o paradeiro era até bastante lógico, pois ele morava a um quarteirão dali, na rua da Quinta Amarela. Mas estávamos num fim de manhã em 1969, eu tinha quinze ou dezasseis anos, não perdia tempo com detalhes desses.

Tudo quanto vi foi o meu colega de liceu Miguel Lamares, armado de um sorriso superior na cara barbada, nos olhos míopes ampliados por lentes grossas. Se comparado comigo, um tipo finguelas, ele é enorme, avantajado, há algo que lembra um urso e lhe dá um toque assustador, embora seja um bonacheirão. O Miguel está ali parado, como um poste do correio, daqueles redondos e grossos, tal se estivesse à espera de alguém que o arrancasse à imobilidade e aconteceu que esse alguém fosse eu. 

"Se soubesses o que tenho aqui..."

"O que é, Miguel?", digo, percebendo que se refere a um quadrilátero esbranquiçado que transporta encaixado no sovaco.

Ele não diz nada, olha em frente, para o passeio do lado de lá da rua, mas remexe o sovaco, revela um pouco mais e, pelo formato percebo que é um disco, um LP.

"O que é, Miguel, deixa ver..."

"Aposto que nunca ouviste nada como isto", continua ele, misterioso como um menir.

"Não sei, sei lá; se não me mostras..."

"Já ouviste uma música chamada 'Soul Sacrifice'...?”

Confessei que não.

"E uma chamada 'Evil Ways'?”

"Também não..."

"Estás ultrapassado, merdoso", concluiu com o à vontade e a sobranceria de ser uns meses mais velho do que eu. "Isto é o que vai dar... Isto é um som totalmente novo..."

Depois, como se fizesse um strip lento, permitiu que eu olhasse a capa do álbum, na qual um focinho arreganhado de leão se contornava a carvão numa caricatura em que surgiam cabeças rapadas, humanas, camufladas nas minudências do desenho. Não era preciso ser muito esperto para concluir que não iria emprestar o disco a um tipo que, afinal de contas, conhecia tão mal, mas não desisti de tentar ouvir aquilo: que raio de banda se iria chamar Santana? Até parecia uma coisa portuguesa, minhota, de rancho folclórico! Santana!?

"Se eu te levar uma cassete, gravas-me isso?"

"É uma hipótese...", respondeu.  

É óbvio que acabou por gravar, que o Miguel, apesar do gigantismo intimidante e dos modos ásperos, era um coração de leão, largo e bondoso.

O tempo tiquetaqueou, frequentamos agora Universidades diferentes (ele em Matemáticas, eu em Medicina) mas continuamos a cruzar-nos no mesmo café, onde arrastamos o nosso tédio pelas mesas. E de um desses enormes bocejos, nasceu a ideia de irmos dar uma volta longa, quem se daria conta de que perdíamos umas aulas enfadonhas, ainda por cima a Páscoa iria, em breve, riscar a Primavera de pétalas e céus de anil.

Arrancámos no meu Fiat 128 sem outro destino fixo do que virar a tromba azul do carro para sul. A combinação dos quatro ocupantes do automóvel era bastante improvável, alguns de nós mal conhecia alguns dos outros: ia eu, ao volante, o Miguel a meu lado, para que lhe coubessem as pernas e, no banco de trás, seguia o Paulo (uma gralha matraqueante e excêntrica, que não se calava um minuto) e, cosendo-se com o assento, o Vítor, aluno de engenharia, um tipo pequenino e cabeçudo, tímido como um colibri, que não abria a boca senão para gargalhar um murmúrio a cada disparate que o Paulo soltava, a cada réplica, cortante ou sarcástica, que um dos ocupantes da frente dava. Assim deambulámos por quase uma semana e, no Algarve, o ar já estava tépido e fragrante do odor das laranjeiras... Ficámos dois dias por Faro, instalados na Pensão Nautilus, de onde escrevi um postal endereçado a mim próprio, por gosto em captar o momento e para chocar os meus pais.

Nunca, nunca mais vi o Miguel e, apesar de ir perguntando a seres coetâneos com quem me ia cruzando, nada mais soube sobre ele. A imagem que me ficou da sua pessoa, cristalizada na memória, foi a daquele tipo de cabelo escuro, comprido e algo indomável nas pontas encrespadas; o bigode farfalhudo; uns olhos bondosos camuflados atrás do fundo da garrafa das lentes. Já neste século, usando o Facebook, inseri o seu nome e observei as opções que me foram devolvidas pelo motor de busca... Havia um Miguel Lamares, residente em Portimão, professor de liceu, que talvez pudesse ser ele. Mas não podia ter a certeza, a confidencialidade dos dados não me permitia ver fotos, ter acesso a mais elementos. Resolvi mandar uma mensagem, particular, que o Facebook deixava fazê-lo. Nunca obtive resposta.


Presente, Agosto de 2021: chega-me a notícia da morte dele, aos 69 anos, lá pelo Sul onde estivemos juntos uma vez; residia em Portimão, onde era professor no liceu local há trinta anos. A notícia do jornal electrónico é encimada por duas fotos: à esquerda, a preto e branco, o Miguel que eu conheci nesses dias dos nossos vinte anos, e, à direita, um Miguel, a cores, que não reconheceria se por ele passasse numa esquina a nascente da Rotunda da Boavista. Este último Miguel é um bocado careca, não usa óculos e os seus olhos, enfim revelados, são atentos, sorridentes e hospitaleiros. Nada que não estivesse à espera.

 

 

06 agosto 2021

DAVID MOURÃO FERREIRA E O LUGAR VAZIO

Pela segunda metade dos anos 80, e na primeira metade da década de 90, frequentei com alguma assiduidade um restaurante lisboeta que se identificava no néon como Dragão D'Ouro.

Como o nome sugere, o Dragão D'Ouro é restaurante chinês e ficava, algo recuado ao alinhamento dos prédios da artéria, numa transversal da Avenida de Roma, vizinho do Hotel Lutécia e do cinema King Triplex.

Ao contrário dos restaurantes chineses que, na capital, se concentravam na proximidade da Avenida Duque de Loulé, o Dragão D'Ouro era um restaurante chinês requintado, fosse pelas instalações, amplas e onde abundava o tom quente dos apainelados de madeira, fosse pelo menu, excelente em todas as sopas, crepes ou pratos que decidíssemos encomendar. Apesar destas qualidades, o restaurante encontrava-se frequentemente despovoado, o que lhe conferia uma sonolência e uma discrição que me atraíam. Essas características (ou talvez outras que ignoro) pareciam levar também até ali o poeta e escritor David Mourão Ferreira, que, sobretudo em finais de tarde de Domingo, descobria no Dragão D'Ouro, sentado à toalha alva de uma mesa. Outras vezes, já eu desdobrava o guardanapo de pano sobre os joelhos, via-o chegar sozinho com o seu cachimbo de amparo, mas a maior parte das noites se lhe reuniam familiares, na pessoa de uma nora (a bela silhueta de Margarida Mercês de Mello, locutora de TV), de um filho atarefado e atrasado, talvez um neto.

A sua mesa, era, como a minha (escolhida próxima das janelas que deitavam como um mezanino para a avenida), uma mesa de gestos discretos, quase silenciosa e posta no arco da sala que ficava mais próximo da zona de serviço e das escadas para o rés-do-chão. 

Depois, o restaurante foi-se degradando um pouco, esvaziando-se ainda mais, começaram a surgir as ameaças da novidade da comida japonesa, e deixei de o frequentar de todo. Por outras razões (morreu em Junho de 1996) David Mourão Ferreira deixou também de o frequentar, de todo. 

Lembro-me da presença dele, às vezes, se passo pela Avenida Frei Contreiras e levanto a cabeça para olhar aquele prédio recuado, aquele primeiro andar onde continua a teimar um qualquer restaurante chinês. Mas já não é como foi, falta-lhe o cachimbo, eu falto-me a mim próprio, mais tudo o resto que se esfumou no tempo.



Dito isto, deixo-vos com um dos muitos poemas que David Mourão Ferreira escreveu sobre o Natal - pelo menos trinta -, intitulado Ladainha dos Póstumos Natais, um poema de 1987, ou seja, razoavelmente dos mesmos dias em que o encontrava sentado a uma mesa do Dragão D'Ouro.

 




 Há-de vir um Natal e será o primeiro

 em que se veja à mesa o meu lugar vazio

 

 Há-de vir um Natal e será o primeiro

 em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

 

 Há-de vir um Natal e será o primeiro

 em que só uma voz me evoque a sós consigo

 

 Há-de vir um Natal e será o primeiro

 em que não viva já ninguém meu conhecido

 

 Há-de vir um Natal e será o primeiro

 em que nem vivo esteja um verso deste livro

 

 Há-de vir um Natal e será o primeiro

 em que terei de novo o Nada a sós comigo

 

 Há-de vir um Natal e será o primeiro

 em que nem o Natal terá qualquer sentido

 

 Há-de vir um Natal e será o primeiro

 em que o Nada retome a cor do Infinito

 

28 julho 2021

UMA OUTRA PRAIA

 


        Custou-te assim tanto?

          quis ele saber, sentados à mesa de um café.

          Invoquei o somatório de anos, uma vez que

          é sempre mais singelo o raciocínio do merceeiro

          E fiquei-me a olhar lá fora, onde

          na meia-distância, um bando de crianças

          se entretinha ordeiramente na areia

          Crianças de orfanato, crianças amestradas

          ou porventura tornadas solenes pelo areal e a vista de água.

          Mas a resposta dada não era moeda precisa do que me sucedera e

          o assunto restou suspenso em mim como uma bruma balnear.

          Talvez o maior custo, talvez,

          fosse o ter de me mover até um destino ainda informe

          os anos de errância...

          Um dia, mas como distingui-lo na distância?, fui capaz de olhar para trás,

          e distinguir o longe de onde viera, as ameias ruídas, o caminho

          que fora pisado em passos incertos e olhos no horizonte, reverentes

          como os das crianças que agora seguem em fila a caminho do mar


© Fotografia: pedro serrano, junho 2021.

26 julho 2021

NEM UMA PRÁ CAIXA!

Acabei de ler um artigo do Dr. Valter Fonseca, Coordenador da Comissão Técnica de Vacinação contra a Covid19, um organismo da DGS. E, apesar do esforço em progredir pela vacuidade do À Ciência o Que É da Ciência (Público de hoje), li-o de ponta a ponta, pois que no espaço que lhe foi concedido (página inteira), bem que o homem podia ter explicado um aspecto de várias e importantes implicações: por quais razões a Comissão que ele dirige decidiu não incluir os jovens (12-17 anos) e crianças naqueles que devem ser vacinados contra o Covid. Embora nestes grupos a doença seja habitualmente leve, eles constituem, como sucede para outras doenças infecciosas, um muito importante elo (e elo invisível, pois que maioritariamente assintomático) na disseminação da infecção pela comunidade a que pertencem. 

Mas, como se costuma dizer, o nosso Dr. Coordenador não dá uma para essa caixa, preferindo espraiar-se pelas vertentes teóricas das vacinas, dos antigénios, dos antibióticos, dos TAC, dos anticorpos, do raciocínio médico, da verdade e da supremacia da Ciência, o todo debitado no tom do sacerdote condescendente que tenta fazer chegar a suave Luz do Saber ao rebanho... Sobre a vacinação de crianças e jovens é que nada, nem aflorado é o assunto mais importante do dia, na véspera de uma reunião no INFARMED em que isso terá de ser equacionado! Às escuras, continuamos pois a perguntar-nos: a) Será que as vacinas existentes são menos eficazes em jovens e crianças? Não, sabe-se que são igualmente eficazes, há quem já tenha estudado isso; b) Será que essas vacinas são menos seguras e têm mais efeitos indesejáveis nestes grupos etários? Não, demonstrou-se que esses efeitos são raros e maioritariamente leves, tal como nas outras idades; c) Será que é exigir muito do sistema imunitário dos jovens e crianças acrescentar uma nova vacina às que estes grupos já tomaram? Não, aliás, a conselho dos seus pediatras particulares, as crianças passam a vida a ser inoculadas com vacinas que protegem de males cuja gravidade é nula ou quase nula num país como Portugal e que bem deveriam ser deixadas para outros países mais aflitos com elas (como África, por exemplo).

Então, o que nos fica, como relevante razão para que o Dr. Valter desaconselhe a vacinação dos jovens? Ao que parece, fica-lhe somente uma ética sentimental e uns bons princípios alambicados a sobrar nas mangas, isto é: não nos fica nada de consistente segundo a ciência que o senhor tanto gosta de invocar como coutada. Nada de nada.

No entanto, esta posição da Comissão Técnica de Vacinação pode deitar a perder a tal imunidade de grupo por quem todos suspiram, desde o primeiro-ministro, a quem nunca antes tinha ouvido falar dela. Sucede que, para que possa acontecer, a imunidade de grupo (que, como um guarda-sol, protege toda a população, mesmo uma pequena franja de não-vacinados) necessita que uma proporção muito alta da população esteja vacinada. Nas doenças para as quais existe vacinação (sarampo ou poliomielite, entre outras) esse valor atinge os 95 % ou mais de população vacinada*. O que quer dizer que os valores que temos ouvido citar ao longo da pandemia como meta para a alcançar (50 ou 60 %; houve até uma matemática desvairada que augurou que a atingiríamos com 22 % de vacinados) não foram mais do que meias-ignorâncias esperançosas e piedosas. Como o tempo mostrará, e não deslizando para o terreno do milagre, teremos de atingir coberturas vacinais de 95 %, ou talvez mais, para que os que estão vacinados possam inibir o vírus de circular livremente e, nessa circunstância, mesmo os 3 a 5 % de não vacinados beneficiarão de protecção, dado que o vírus não lhes conseguirá chegar com facilidade. 

Ora é aqui que entram o Dr. Valter e a sua rapaziada tão compenetrada nos engomados da ética: ao deixar de fora da estratégia de vacinação uma fatia da população que ronda os 15 %, podem estar a comprometer objectivamente a possibilidade de se atingir a tal imunidade de grupo dos portugueses. Nada mal, vindo de uma DGS!

Valter Fonseca, Coordenador Comissão Técnica Vacinação Covid19.

Resta-nos ir andando e vendo no que isto dá, como, desgraçadamente tantas vezes tem acontecido ao longo da pandemia. Para já, os casos de doença aumentam, os internamentos também (inclusive nos cuidados intensivos), os mortos por Covid e a mortalidade em geral aumenta, isto é: a maré sobe e pode vir a suceder que, de um dia para o outro, o vento mude e, afinal, venha a ser necessário e bom vacinar os jovens... Só que, com este tipo de atitude titubeante, isso será já tarde e far-se-á à pressa, porventura em cima ou após o recomeço das aulas. E então, para complicar tudo, chegará também o Outono e somar-se-ão as outras doenças habituais da rentrée. O que dirá nessa altura o Dr. Valter? Dirá aquelas frases feitas do costume: que tendo em conta a evidência científica de que dispunha à época, e não sei mais o quê, e tudo ficará na mesma para ele: sem sombra de pecado. Tem sido o costume.

 

* Há doenças em que, pelas suas características, a imunidade de grupo nunca é alcançada (tétano, tuberculose, gripe, por exemplo) e para o Covid19 não se sabe ainda com segurança se tal tipo de protecção global poderá, em definitivo, ser atingida ou não.