18 maio 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 20. Blue Alert

Cidade de Angra do Heroísmo, ilha Terceira.
Dormi como uma pedra, mas acordei cedo, como sempre acontece quando me embebedo. Zunia-me a cabeça mas pela janela entrava uma luz esperançosa e, sendo ainda hora do pequeno-almoço, resolvi levantar-me, ir dar uma volta pela cidade. Mas aquela luz toda revelou-se ilusória: apesar da claridade, chovia, uma chuva fraca mas persistente, que já pingava da folhagem desmedida dos fetos arbóreos e dos guarda-chuvas de quem se aventurava no jardim.
Dei lume a um cigarro, voltei a deitar-me e tentei conciliar o sono, mas interpôs-se a especulação sobre o que seria feito do maluco do Caminho de Manuel Gaspar. Por esta hora – tinham passado mais ou menos vinte e quatro horas – já o gajo devia estar arrefecido nos ímpetos à custa da martelada química dos neurolépticos, mais um dia ou dois e podiam retirar-lhe as algemas com o alívio de quem vira um bolo recém-saído do forno sobre o prato onde vai ser fatiado e comido; deixaria de ser perigoso e devolvê-lo-iam à ilha natal com um  certificado de garantia, válido por período indeterminado. Voltei a rever o seu olhar malsão, agarrado a mim durante toda a viagem de helicóptero, iria demorar até que essa memória ganhasse tonalidade neutra e deixasse de me incomodar como agora.
Pelo almoço fui tomar o pequeno-almoço num café da baixa de Angra. Um ventinho limpara as nuvens e um sol, tímido e já quente, lambia as pedras molhadas das calçadas e devolvia o brilho aos edifícios. Angra é uma cidade muito bonita,  cheia de cor e não tão a preto-e-branco como a capital dos Açores, e a cidade acolhe e abraça o mar, ao invés de Ponta Delgada onde o mar passa rente e paralelo à cidade mas esta não lhe admite intimidade e recantos. Entrei numa livraria onde encontrei A Peste, do Camus. Já o tenho pelas estantes do Porto, mas fiquei tão agradado de o ver entre manuais escolares e almanaques que o comprei sem pensar. Depois entrei numa agência de viagens, talvez me soubessem informar os horários dos barcos mercantes entre as ilhas. Não sabiam, dedicavam-se somente a excursões e voos de avião, fiquei a perceber – embora no momento a informação não me interessasse – que havia mais aviões para Lisboa do que supunha. Para além dos voos domésticos da TAP há os grandes bichos transatlânticos que, três vezes por semana, voam dos Estados Unidos e do Canadá, fazem uma breve escala técnica nas Lajes e, umas duas horas depois, pousam em Lisboa antes de continuar Europa adentro.
No porto disseram-me que chegaria durante a tarde um navio que, vindo de S. Miguel, fará a rota do grupo ocidental até às Flores. Partiria nesse mesmo dia, à noite, pelo menos era o costume. Quanto a uma eventual boleia teria de falar com o comandante do barco, o transporte não era coisa que estivesse protocolada ou sujeita à decisão de terceiros. Voltei ao hotel e, por entre o quarto e as salas de estar, aborreci-me até à hora do jantar, e quando o Paulo bateu à porta do quarto com uma camisa e uma jaqueta curta, axadrezada e com carapuço, agradeci e disse já não precisar pois decidira regressar, hoje mesmo, à Graciosa. Ele olhou-me, interdito, após o que aconselhou:
“Ao menos leva o casaco, olha que se está a levantar uma ventania... Depois devolves-me, quando voltares cá ou eu for lá visitar-vos. Vais de barco? Quem me dera...”
“Não sei se vou, vou tentar.”
Cais de Angra do Heroísmo, ilha Terceira.
Jantámos cedo, só os dois, e o Paulo acompanhou-me ao porto, fizemos o caminho em silêncio, mãos enterradas nos bolsos e cabeças viradas ao chão para enfrentar a força do vento que, no cais, revolvia a água contra as pedras, chocalhava os pequenos botes e borrifava quem tinha de andar por ali.
Ao contrário do que esperava, o capitão não era um tipo barbudo, enfarpelado numa farda de brancos e dourados, e não usava sequer boné. Como o resto da tripulação, era um tipo novo, informal e todos pareciam andar por ali como se andassem noutro local qualquer, num ambiente geral um pouco caótico e nada planeado. O Paulo estava já a adorar tudo aquilo e, no início da entrevista, o capitão chegou a pensar que ele iria também. Em princípio não estavam a pensar fazer escala na Graciosa, mas podiam deixar-me ao largo, pela madrugada; seria uma questão de ligar para lá, pelo rádio, para que um escaler fosse tratar do meu transbordo. Senti-me um fardo.
“Não temos é onde o deitar, Dr., mas pode passar o tempo connosco na sala dos oficiais. Há para lá uns sofás...”
Pareceu-me maravilhoso, adorava a ideia de ir andar de barco uma noite inteira. Até à data, a viagem mais arrojada que fizera consistira em atravessar o Tejo de cacilheiro.
Já quase amanhecia quando vi aproximar-se ao longe a Graciosa, uma mancha escura, com aspecto desabitado, que foi ganhando nitidez de detalhes à medida que nos aproximávamos. O navio fundeou ao largo e a rampa do cais da Praia parecia-me tão longínqua como o barco onde chegaram as nossas arcas me parecia então, ancorado no meio do mar. O capitão acompanhou-me à amurada, vigiando a escada de corda com degraus de madeira que estava a ser desenrolada no portaló. Espreitei, as mãos fortemente agarradas à balaustrada. Visto dali, o casco parecia alto como um arranha-céus e a pobre escada um balancé esquecido num jardim de inverno, os últimos degraus a balançar suspensos sobre as águas que se atiravam ao ferro castanho com voraz apetite. E ia eu amarar por ali fora, com toda a gente a acompanhar a descida – uns de cima outros de baixo – e, quando chegasse ao último degrau, teria ainda de acertar no bote, a alternativa a cair ao mar ou ficar esmagado entre o escaler e o navio. Lamentei amargamente tudo quanto bebera durante essa noite, o arrependimento abrangeu até o absinto da noite anterior... Tinha passado a totalidade das horas nocturnas a beber, que era o que mais se fazia na sala dos oficiais. Primeiro vinho, pois eles jantaram tarde e fizeram-me comer outra vez, e depois whisky, um produto tão popular e abundante na zona que bem poderia ser a bebida típica dos Açores. Copinhos e mais copinhos, por entre uns quatro tipos que jogavam cartas e contavam histórias no meio de risadas, tendo-me, a certo ponto, parecido que ou já tinham esquecido a minha presença ou que me tinham absorvido de tal modo que me consideravam um dos seus. Eu próprio me transformara em tal, e já levantava com familiaridade os cotovelos da toalha branca da mesa para, aos tropeços e amparando-me às paredes metálicas e aos abundantes corrimãos, ir dar mais uma mijadela no abafado urinol onde cheirava a gasóleo e asfalto. Ah, barcos era uma cena porreira, por mim passaria a vida naquilo; como será que se faria para ser médico de bordo? A meio da viagem o mar encapelou-se e o meu entusiasmo toldou-se ao tentar olhar pelas vigias e tanto as encontrar ao nível do chão como ao nível do tecto. Estava um pouco enjoado, mas o que mais me impressionava era a volatilidade do que é caminhar sobre as águas. Os meus comparsas tinham-se dado conta do meu assarapantamento e brincavam mansamente com isso, aconselhando a que bebesse mais um copo e comesse mais qualquer coisa, pois o melhor amigo do enjoo era viajar sobre um estômago vazio. Trinquei, sem vontade, uma fatia de bolo de cenoura que me soube a iodo e a petróleo.
No convés, esperando que o escaler chegasse o suficientemente perto para poder iniciar a descida, voltei a sentir-me um pouco melhor, pois o ventinho cortante das primeiras horas da manhã reanimara o meu tolhimento geral. Mesmo assim, gostava de não ter bebido tanto, não havia agora nada a fazer.
“Pode descer quando quiser, Dr.”, despediu-se o comandante, estendendo-me a mão. “Prazer, e quando precisar de outra boleia é só aparecer...”
Essa sugestão de futuro deu-me coragem para ir, mais escorregando do que descendo, avançando por ali abaixo, aferrado às cordas da escada como se já me estivesse a afogar e entaramelando os pés nas travessas de madeira, prontamente ensopadas pela espuma das águas e pelo roçar no casco molhado. Uma breve eternidade mais tarde aterrei no escaler, onde a mão do homem de serviço ao  pequeno motor fora de água me estabilizou na posição de sentado. Agradecido, reconciliado, olhei para cima numa despedida, mas tudo quanto vi foi uma parede enferrujada a começar a afastar-se das minhas intenções.
Na rampa do cais, que consistia agora o centro das minhas atenções, apercebia dois vultos, que subiam e desciam, e uma luz azul que piscava e que, ao aproximar-me, percebi ser o farol do tejadilho de uma ambulância. O Rui fora buscar-me e no trajecto de regresso a Santa Cruz, como se não tivessem passado somente dois dias sobre a manhã em que eu deixara a ilha, confidenciou estar cheio da Dyane e a resolução de passar a usar a ambulância nova como meio principal de transporte.
“Como assim, somos nós que vamos buscar os doentes em mais de metade das situações...”
Era verdade. Quem habitualmente guiava a ambulância era o Nascimento, o Viegas ou, se estava para ali virado, o Sr. Weber, que acumulava com a presidência da comissão administrativa do hospital a de comandante dos bombeiros. Mas, a pouco e pouco, fartos de esperar na Urgência os doentes que, anunciados, não haviam meio de chegar, os médicos foram tomando a iniciativa de os ir buscar a casa, numa espécie de serviço completo em termos de cuidados à população. Essa atitude, inspirada pela luta contra o tédio, lavrara um certo sucesso junto da opinião pública, pelo que passara a ser considerado merecido e habitual o facto de aparecermos no Açucareiro a bordo de uma ambulância, com uma luz azul a rodar no tejadilho. Eram os médicos que vinham tomar o seu café.
  

Nota: O título do texto foi inspirado pela canção "Blue Alert", de Leonard Cohen e Anjani, 2006.

Fotografias, de cima para baixo: 3.ª fotografia, pedro serrano, Cabo Verde, 2013; 4.ª fotografia, fotógrafo desconhecido, Graciosa, 1979.  

16 maio 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 19. A visita da fada verde

Acordei, passava das seis, com a sensação de estar em atraso, para o quê não cheguei a saber. Deixei-me estar na cama, a olhar em volta, a ouvir o rumor de vozes que chegava pela janela, que deixara entreaberta e a que uma corrente de ar muito mansa fazia ondear a cortina como se me chamasse a espreitar.
Lá em baixo, no jardim, desenrolava-se aquela actividade desconexa e frouxa que é própria dos jardins públicos: um casal de namorados, num banco, com o ar  clandestino dos amorosos à solta; um velho que se afastava em direcção ao outro extremo do jardim; duas mulheres olhavam e comentavam os fogachos vermelhos de um metrosídero em flor.
Senti fome e desatei a abrir e fechar gavetas, a ver se encontrava alguma coisa, por lá eventualmente deixada pelo gajo que ali morava, mas sem sorte. Fui tomar um duche, sabendo que no final teria de vestir a mesma roupa, não tinha outra; talvez pudesse, depois, pedir ao.... O telefone tocou, se calhar não tinha a ver comigo mas fui atender ainda assim.
“Paulo! Estava a pensar em ti, meu, e se terias roupa que me pudesses emprestar... Como soubeste que estava aqui?”
“Ainda não deste conta que nesta terra não se passa nada que não se saiba de imediato?! Cheguei e disseram-me logo, na recepção. Olha, como é: queres jantar aqui ou preferes ir fora? Por mim, já estou um bocado cheio da comida, mas, ao menos, morfa-se de graça...”
E o Paulo ficou-se a rir convulsivamente do lado de lá do fio.
“Quem janta mais?”
Ele suspirou:
“Quem janta mais, quem havia de ser? Os tristes do costume; agora estamos aqui eu, o Senra e o Schmutzer... O coiso está para o continente, deves saber pois estás no quarto dele...”
“Sim, o coiso. Olha, será que me emprestas uma t-shirt e uma camisola? Vim da Graciosa a correr, nem tive tempo de fazer mala...”
“Evacuar um maníaco, já ouvi dizer.”
 O Paulo voltou a ter um paroxismo risonho e eu, sentado na cama, enrolado num toalhão de banho, a sorrir-me também ao imaginar a fácies e os trejeitos que corresponderiam àquele gargalhar.
O Paulo Amorim é natural de Vila do Conde, onde mora com os padrinhos numa encantadora quintarola em cima do Ave que inclui uma azenha, mas conheci-o nos corredores da Faculdade de Medicina, onde se passeava, rodeado pelas alunas mais vistosas do meu Curso, como se estivesse ali de passagem ou em revista às tropas. É um tipo muito trigueiro, com uma cabeleira negra, lanuda, que, no seu crescimento, lhe invade de tal maneira a fronte, que é periodicamente obrigado a rapar um centímetro ou dois daquela praga afim de não ficar sem testa e com as sobrancelhas, igualmente negras e abundantes, coladas ao crânio! O Paulo tem, como um ursinho de consolo, uns olhos de azeviche, sempre assombrados por uma estupefação que lhe empresta à expressão um ar estrelado, e havia quem pusesse a hipótese do revirado das suas pestanas não ser natural. Fosse como fosse, o homem não passava facilmente despercebido em lado algum, quer pelo modo como caminhava de pescoço esticado, o que lhe dava uma altivez de ganso, fosse porque podia decidir-se ir jantar e atravessar a pacata sala do restaurante envergando calças brancas, muito justas, e botas de verniz negro, de cano pelo joelho. Sim, podia dizer-se que havia um leve problema de sintonização no Paulo, de que o próprio tinha despreocupada consciência e sobre a qual contaria episódios como se estivesse a falar de um tio-avô distraído.
“Já sabes o que me aconteceu a semana passada? A recepção telefonou a despertar, como tinha pedido; vesti-me, apanhei um táxi e fui para a Praia da Vitória fazer as consultas, como é costume. Eu tenho a chave lá do posto, abri a porta e sentei-me à espera dos doentes. Estranhei não ver ninguém, nem doentes nem funcionários da secretaria, mas, às vezes, chego primeiro que todos e não me ralei. Olha, ao fim de uma hora ali a secar, vim cá fora espreitar para descobrir que era Domingo! Já viste o desperdício?!”
E perante o olhar benevolamente condescendente do Virgílio Senra e os olhinhos vigilantes do Schmutzer, o Paulo torceu-se de riso na cadeira, fazendo tilintar a mesa onde estávamos os quatros sentados em volta dos nossos bifes com molho de pimenta e atraindo a atenção das outras mesas.
À sobremesa, ainda tomado por aquela sensação de férias que me assombrava, comi ananás e prometi a mim próprio que, enquanto estivesse nos Açores e o pudesse fazer, não escolheria outra coisa... Perante a indiferença dos outros gabei o fruto: aquilo não se encontrava em mais lado algum, aquele sabor em que o doce não asfixiava – como no abacaxi – o perfume daquela rodela de um ouro desmaiado.
“Lá na Graciosa vocês não comem disto todos os dias?”, perguntou o Schmutzer na sua voz nasalada e um pouco aflautada.
“Não, nada disto. Comemos queijo de S. Jorge com compota, até à náusea; não há mais nada para sobremesa, nem sequer fruta fresca. É tudo importado do continente e as maçãs que, por vezes, chegam lá parecem refugo que sobrou para um estábulo.”
Eu conhecia o Senra de vista da Faculdade, era do meu curso mas como éramos trezentos e tal e não abancávamos na mesma turma nunca fôramos próximos nem nada nos atraíra. Quanto ao Schmutzer, sabíamos um pouco mais dele, eu e o Rui conhecíamos-lhe até uma irmã, que namoriscara um primo do Rui; estivéramos o Verão de 75 todos juntos em Lagos, no Algarve. Mas, ali, ele parecia-me mudado, como se nos tratasse com uma cortesia distanciada, e o modo como participava na conversa parecia pautado por um qualquer fito vigilante, dir-se-ia que estava a tirar notas mentais. Mais tarde na noite, quando apenas o Paulo e eu restámos por um canto do bar, a beberricar copinhos de absinto, falei-lhe na minha estranheza.
“É, o gajo está assim. Mal chegou, conseguiu ser eleito, ou escolhido, para delegado dos médicos da Periferia; passa a vida enfiado no estaminé do Director Regional... Diz que isto é um sítio de futuro – e aqui o Paulo teve uma nova sezão de riso – e que já “teve convites”; que vai tentar fazer aqui uma especialidade e ficar por cá, ser um senhor e ficar rico... mandar nesta merda toda – olha a grande coisa!”
Encolhi os ombros com tédio, mudei de assunto:
“Já alguma tinhas bebido disto?”, perguntei, levantando o cálice onde brilhava um líquido esverdeado, com uma cor que lembrava elixir dentífrico.
“Não”, confessou o Paulo, “é horrível... Parece anis escarchado, mas p’ra pior.”
Apesar disso, continuámos a beber pela noite dentro, pois a minha surpresa e curiosidade ao dar com a garrafa, inocentemente exposta nas prateleiras do bar, fora desmedida. Estava convencido que o absinto – a famosa bebida da fada verde – era proibido em Portugal, um país onde era tudo mais ou menos interdito, e afinal fora dar com uma garrafa, de produção nacional, num recatado hotel açoriano. Havia uma mística por trás da bebida, ligada ao século XIX e cantada por escritores e poetas como Poe, Rimbaud e Baudelaire, pintada pelos impressionistas... O absinto, dizia-se, era uma espécie de droga destilada em estado líquido, provocava alucinações quando consumido cronicamente, mas o máximo que eu e o Paulo estávamos a conseguir era ficar supinamente nauseados e a incubar uma dor de cabeça que, no dia seguinte, nos bateria à testa sem dó. Entretanto, o Paulo, a quem as desgraças pareciam desencadear o riso, ia-me pondo a par dos pequenos dramas triviais que tinham acometido a nossa tribo de médicos periféricos. Já mais de uma dezena tinham sido devolvidos à procedência por se terem dado mal com o clima.
“Apanhados pelo clima! Apanhadíssimos pelo clima, pelo anticiclone...”, resumia o Paulo, feliz, dando-me uma leve palmada no ombro.
“Pois... A gente, lá na Graciosa, não sabe de nada do que se passa... Soubemos do Saraiva, em S. Jorge, mas foi até por ti!”
“Todas as semanas há uma bronca qualquer, o Porão da Nau anda sempre desvairado, qualquer dia nem tem médicos que lhe acudam ou então andam todos a calmantes! Para nós até é bom, anda tão assustado que assina todas as contas que lhe chegam sem pestanejar. Quem julgas que vai pagar este absinto?”, continuava ele, rodando o copo e olhando com gosto os reflexos verdes, como se fosse imune à peste insular que descrevia.
O “Porão da Nau”, a que se referia, era o nosso patrão administrativo mais imediato e o seu apelido real era Lopes da Nave, um continental com um nome muito apropriado a um contexto tão marítimo, e a quem nós coláramos aquela alcunha, epíteto que se nos infiltrara de tal modo na pele que já acontecera a alguns de nós dirigirmo-nos-lhe, ao vivo, por Porão da Nau. Está claro que o Paulo não se lhe dirigia de outro modo e estou até convencido que já lhe esquecera o nome verdadeiro.
“Pois, agora, a grande esperança do Porão da Nau é o seu pajem Schmutzer; já o envia por aí em missões aerotransportadas, pelas ilhas, a fazer de penso-rápido nas crises...”
“Olha, eu é que precisava de um aerotransporte daqui para fora, mas parece que, pelo lado dos helicópteros, não me safo antes da próxima terça. Já ouviste falar das boleias em barcos?”
O Paulo já ouvira falar disso, mas não sabia pormenores. Nunca saíra da Terceira a não ser de avião, ou num dos grandes para o Continente ou numa das avionetas que faziam ligação a S. Miguel.
“Às vezes vou, nos fins de semana, a Ponta Delgada... Aquilo também é um atraso de vida, mas, ao menos, não morro no mesmo pasmo!”
Antes de nos separamos combinámos que, no dia seguinte, eu iria ao porto, apalpar terreno e que ele iria comigo.
“Perdão...”, desculpou-se o Paulo, educadamente, já próximo da porta do meu quarto, quando uma emanação do absinto o fez arrotar sem aviso, “não estou familiarizado com as eructações desta mixórdia!”
“Deixa, pode ser que ainda sejas visitado pela fada verde durante a noite.”
“Deus te ouça...”, disse ele seguindo pelo corredor fora um pouco em zigzag.




09 maio 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 18. Voando sobre o ninho de cucos

Quem não ficou muito agradada com o anúncio do visitante vespertino – a GNR teve algum trabalho em enfiá-lo no jipe, o que atrasou a chegada – foi a madre superiora, que o conhecia de visitas e dores de cabeça anteriores. Mas, como era de sua índole, não deixou de pôr de imediato a apoquentação a render e logo contactou o Viegas para que substituísse nessa noite a irmã Noémia, que era quem estava escalada para apoio à urgência. O enfermeiro Viegas tem mais de um metro e oitenta de altura e, embora seja um pacholas, o seu físico e ar de S. Cristóvão com o Menino aos ombros impressiona, para além de que sempre resistirá melhor a um sopro do que a irmã Noémia. Como medida suplementar, após ter vindo auscultar a minha sensibilidade de director clínico, a madre superiora decidiu que, logo após o jantar dos doentes internados, fecharia as enfermarias à chave e que as irmãs fariam o mesmo na sua residência do andar de cima. Achei bem e muito avisado, não me iria ocorrer tal procedimento a não ser quando já tivéssemos um maluco a atemorizar doentes numa enfermaria ou a fazer esvoaçar freiras pelas janelas.  
O nosso visitante parecia agora outra pessoa e o ser passivo, embora expectante, que eu fora encontrar sentado no quarto, transmutara-se numa bisarma agitada, que percorria sem cessar o espaço – um gabinete de consulta desocupado – onde, forrando de lençóis uma marquesa, lhe improvisáramos uma cama para a noite. A irmã Noémia trouxera um copo de leite morno, naquela de que o leite, para além de sustento, é também calmante, e o Viegas tentava abordar o homem pelo lado racional da argumentação e das regras de convívio entre seres humanos sensatos. Encostado à ombreira da porta, eu olhava a cena com apreensão, pois a insistência do Viegas e o tom do diálogo, a roçar o ofendido pelo outro não perceber que só queríamos o “teu bem”, estava visivelmente a energizar o doente. Mais no registo maternal, a irmã Noémia, flutuando em volta dele, empunhava entre o indicador e o polegar da mão esquerda uma alentada cápsula azul-napa-forro-de-cadeira, enquanto da outra lhe oferecia o tal copo de leite morno que já devia estar frio. Entalado entre os dois enfermeiros, entre as duas estratégias, o homem ia crescendo em claustrofobia e lançava olhares em volta, nomeadamente para a única abertura – onde se encontrava a porta e eu – da sala sem janelas. Fiz um sinal discreto ao Viegas e saímos ambos até ao corredor, onde um dos guardas da GNR se acomodara num dos bancos de espera para o atendimento da urgência. Compreensivo e solidário, o comandante da GNR destacara um dos seus soldados para ali passar a noite, auxiliando-nos no que se viesse a revelar necessário em termos de contenção ou segurança.
“Nós, assim, não vamos a lado nenhum, Viegas. Não é nem com comprimido nem com copos de leite que o vamos acalmar. Mas vamos ter de fazer qualquer coisa, duvido que ele se aguente até de manhã sem desvairar...”
“Pois, eu sei, mas o que é que você propõe? Ele precisa é de um injectável, mas quem lho dá?”
Eu percebia lindamente o ponto de vista dele: é competência do enfermeiro administrar as injecções, mas aquilo era um caso especial e tentar inoculá-lo um procedimento que poderia acabar em agressão, pois quem é que não reage com uma sapatada ao ser picado por uma abelha?
“Vamos andando e vamos vendo. Para já prepare aí uma seringa com duas ampolas de Largactil: 25 + 25 mg. Preferia Haldol, mas acho que não temos injectável...”
“Já não há, não. Já se pediu para Angra mas não veio... Ou até em gotas, disfarçava-se no leite...”, sonhava ele alternativas à injecção.
“Arranje isso. Depois vamos ver se o convencemos; se não for a bem, vai ter de ser a mal...”
“Porra”, disse o Viegas, inconformado: “E quem lha dá, a mal?”
“Logo se vê”, prometi, vago, “nem que seja usando o método radical da enfermeira Celeste...”
Ele riu, apesar de tudo. O método radical da enfermeira Celeste, que o usara como missionária em situações limite, consistia em usar a seringa e a agulha como uma bandarilha e espetá-la na primeira oportunidade, deixando de lado preciosismos técnicos e fazendo-o mesmo que fosse por cima da roupa.
“Olhe”, voltei, dando corpo à ideia, não se esqueça de apetrechar a seringa com uma agulha de calibre compatível...”
“Já tinha pensado nisso”, respondeu ele, “será bom que a agulha não parta...”
A irmã Noémia apareceu, fechando cuidadosamente a porta atrás de si.
“Então? Conseguiu?”

Ela abanou a cabeça, tristemente: “Não há maneira de o convencer, parece que nem está ali! E deita-me uns olhos de cada vez que insisto!”
“Pois não, e cápsulas destas tem ele em casa, aos montes, por tomar... Até no chão as vi... Olhe irmã, são horas de jantar; vá para cima, que a gente aguenta-se por aqui.”
Ela lançou-nos um último olhar de admiração e carinho, quis saber se as diligências com a vinda do helicóptero estavam tomadas.
“Sim, sim”, disse o Viegas, “se nada falhar estão aí amanhã, às oito. Vão tentar mandar um enfermeiro de lá, para ajudar e acompanhar o transporte...”
De madrugada ouvi cair chuva e encolhi-me, fez-me pensar que poderia estar tudo comprometido. Continuei na cama, a ouvi-la cair; era forte, mas não açoitava as vidraças, soava como uma chuva vertical, obediente. Dormira pessimamente, se é que dormira, nem bem disso estava certo. Tínhamos adiado a inoculação do doente até depois do jantar, na torpe esperança de que com o esparguete com carne e o copo de leite, que fora deixado em cima de uma mesinha móvel, ele se tentasse e engolisse os – agora dois – comprimidos. Quando voltámos de casa da D. Irene, eu o Rui e o Viegas entrámos para o gabinete com as tarefas toscamente distribuídas: o Rui e o Viegas entretê-lo-iam, de modo a criar um momento de rarefação de espaço e tolhimento de movimentos, instante que eu aproveitaria para lhe enfiar a agulha e pressionar o êmbolo da seringa. Assim fizemos, com o doente a agitar-se quando percebeu a seringa e o tal momento idealizado a resvalar, comigo a espetar a agulha através do tecido das calças, na face externa da coxa do homem; o Rui a tentar evitar que ele usasse as mãos enquanto eu pressionava o êmbolo, e o Viegas a apanhar um safanão que o atirou contra a mesinha móvel onde estavam pousados os restos do jantar, fazendo-a tombar com grande estardalhaço e atemorizando o GNR que dormitava do lado de fora.
Perto da uma da manhã telefonei de casa para o hospital. Atendeu o Viegas e dei comigo a falar com ele em voz muito baixa, como se tivesse medo que alguém nos ouvisse! E do lado de lá, contagiado, ele respondeu com o mesmo tom de voz sumida. O doente continuava na mesma, isto é, fresco como uma alface; até parecia que lhe tínhamos injectado água, na versão do Viegas.
“Já viu, Dr.? Uma dose que, a nós, nos ia pôr de quatro!”
“Mas está tudo calmo?”, queria eu saber, pois, estando longe da vista, a minha preocupação entretinha-se com imagens de portas partidas, fugas pelo escuro da noite...
“Está, tudo sob controle, pode ir dormir sossegado. O gajo está lá fechado, não se ouve uma mosca, e eu estou aqui entretido na conversa com o nosso amigo da Guarda. Parece que a ilha toda está a par, olhe que nem uma mosca apareceu até agora para urgência...”
Mas, embora exaurido, sono era coisa que não me descia. Peguei num livro e pus-me a ler sobre agitação psíquica e métodos de tranquilização rápida; antipsicóticos de primeira e segunda geração, efeitos secundários... As descrições eram todas demasiado esquemáticas e pareciam ter lugar no melhor dos mundos, um mundo em que os necessitados baixavam as calcinhas para levar a pica no tutu! O livro ficou por ali, aberto em cima da cama, apaguei a luz e tentei apagar-me. Como é que o gajo não havia de ter ficado agitado? Quando o arrancaram de casa e chegou ao hospital – por muito alienado que estivesse – devia ter apercebido o que lhe ia suceder a seguir, bastava ter memória e ser capaz de reter alguma aprendizagem: ia acontecer como já tinha acontecido, iam levá-lo dali no helicóptero, por sobre o mar; iria parar a um sítio onde nada era agradável ou livre, onde nem sequer tinha uma mãe para pregar uns sopapos....
A luz infiltrava-se pelos rebordos do caixilho e já não se ouvia cair a chuva. Olhei o despertador: sete menos dez. Levantei-me e puxei o estore: o céu estava azul, ainda um azul desmaiado, mas sem mácula. No prado em frente, a vaca do costume tinha levantado a cabeça e olhava na minha direcção. Parecia lavada pela chuva, como se tivesse acabado de sair de um chuveiro onde preparara o preto e branco da pelagem para enfrentar o novo dia.
Depois a manhã pôs-se em marcha rapidamente. O helicóptero surgiu no céu mal passava das oito e, da ambulância em que o Nascimento o fora receber, desaguaram à porta do hospital dois latagões vestidos de branco, com camisas de manga curta. Um deles pendurava duma mão uma maca portátil e o outro uma trouxa clara que reconheci, mais ao perto, como sendo uma camisa de forças. Eram enfermeiros, recrutados ao saber-se a tipologia do doente a evacuar: nem a Saúde nem a Força Aérea queriam problemas durante um voo sobre o mar! Fiquei a assistir, maravilhado com a facilidade e a leveza assertiva com que os dois tipos vestiram, como quem enfia uma camisa lavada a uma criança, o colete de forças ao nosso visitan te, e a docilidade com que ele se deixou cair na maca, desdobrada no corredor da urgência.
Acabei por servir de motorista à ambulância no regresso à relva do heliporto que, nessa manhã, não via tanta gente como de habitual, pois as circunstâncias não permitiam a viagem de mais ninguém até Angra. Durante o trajecto, descomprimindo da tensão de tantas horas, dei comigo a dirigir ininterruptas perguntas aos enfermeiros: o que iria acontecer ao doente quando chegasse à Terceira? Já o conheciam? Afinal o que tinha ele, qual era o seu diagnóstico psiquiátrico? O enfermeiro que seguia sentado a meu lado era do género mais calado e quem me respondia era o outro, que inclinado sobre a janela de correr que separava a parte traseira da ambulância dos assentos da frente, me informou que isso do diagnóstico poderia perguntar depois aos psiquiatras, mas o que podia dizer é que se tratava de “um menino perigoso”. E, depois, apresentou uma proposta surpreendente:
“Por que é que o Dr. não vem connosco? Já ficava a saber tudo isso...”
“Acha que sim, que seria possível?”, perguntei, atónito.
“Claro, é perfeitamente normal: acompanhar um doente complicado durante uma evacuação... Acontece com frequência.”
A ambulância era dotada de rádio, que permitia contactar directamente o hospital. Liguei ao Rui e expus o assunto, afinal era ele que iria alombar com a minha ausência.
“Vai à vontade”, disse com toda a simplicidade; “eu cá me arranjo”.
No Hotel Angra também encararam a minha chegada com naturalidade. Não, não estava nos quartos nenhum dos meus colegas, todos tinha saído para os respectivos locais de consulta. Sim, havia um quarto que estava, no momento, desocupado e eu poderia ficar nele, o colega que ali costumava morar estaria fora nos próximos dez dias. Deram-me a chave, subi, de mãos a abanar, pois nem uma escova dos dentes tinha comigo! Quem se atreveria a atrasar uma evacuação por causa de adereços de higiene? Tinha deixado a Graciosa directamente da ambulância para o helicóptero; ao veículo alguém o iria buscar ao campo de futebol, as chaves ficaram no porta-luvas do tablier.
O quarto dá para trás, para o florescente Jardim Municipal e uma tranquila luz, temperada de reflexos verdes e ambarinos entra pela janela. No quarto de banho encontrei pasta, escova dos dentes, um pente com cabelos encravados; afinal só iria ter de pedir emprestada uma lâmina de barbear. Afinal, estava sem saber quando regressaria à Graciosa. Arranquei os sapatos, despi-me, e enfiei-me na cama de solteiro, feita de fresco, apetitosa como uma noiva acabada de cortar.
No hospital psiquiátrico acompanhara o doente até à enfermaria de agudos que, a essa hora da manhã, estava surpreendentemente vazia. Os enfermeiros que tinham acoplado a maca a um sistema de transporte com rodízios já não eram os mesmos do helicóptero. Assisti ao modo cauteloso como passaram o doente para a cama e como, antes de começar a despir a camisa de forças, lhe enfiaram os pés numas algemas de couro presas ao fundo da cama. Em seguida, retiraram-lhe um dos braços da contenção da camisa de forças e prenderam a respectiva mão noutra algema de couro que pendia ao nível da cabeceira. Finalmente, fizeram o mesmo com o outro braço e com a outra mão e, só então, relaxaram a atenção dos seus procedimentos. Foi, sobretudo, por esse ritual que percebi todos os riscos que corrêramos naquelas horas todas em que lidáramos com o doente na Graciosa e senti-me vulnerável como um aprendiz, como um jogador a quem foi concedida a sorte do principiante; foi nesse momento que o medo floriu diante de mim como uma sinistra flor carnívora. Deitado na cama do hotel, os meus pensamentos à solta, a minha visão interior, eram interceptados pelas imagens daquela meia-hora de helicóptero sobre o mar azul. O doente viajara deitado e manietado na maca, num espaço aberto pelo recolher dos bancos que há atrás da carlinga. Os enfermeiros, cansados de se terem levantado tão cedo e com a sensação da tarefa cumprida, seguiam absortos, e eu, entaipado no meu assento, estava dentro do ângulo de visão do acamado: toda a santa viagem o homem me fitou com o olhar que sobra ao animal enjaulado e que tem consciência da presença do seu perseguidor; um olhar de ódio concentrado e que se exprime da impotência em direcção à eternidade. Horrível, pois embora tentasse entreter-me com a beleza das imagens em movimento do exterior do Puma, o meu olhar voltava ao extraditado, para reencontrar a mesma fixidez, pois, na sua mente cativa, ele não tinha outro motivo de interesse.
O colega a quem fui apresentar cumprimentos antes de deixar o hospital era simpático, condescendente com o jovem maçarico que lhe aparecera e que parecia tão impressionado com a sua encomenda.
“E agora para onde é que você vai? Quer uma boleia lá para baixo? Eu vou sair dentro de uns dez minutos, posso levá-lo ao hotel...”
Durante a breve viagem, expus a minha preocupação em ter deixado a ilha, em restar lá apenas um colega a tomar conta de tudo, e em só voltar a haver transporte dali a uma semana.
Antigo hospital psiquiátrico, actual Casa de Saúde Mental, ilha Terceira.
“Pois..., é a isto que se chama insularidade! Mas, se está com tanta pressa de regressar à Graciosa, pode ir tentar a sua sorte no porto. Não sei exactamente os dias e as horas, mas há uns barcos da marinha mercante que fazem rota entre as ilhas e talvez lhe possam dar uma boleia. Quem sabe?”
Quis saber onde se podia saber disso, comprar bilhetes, e o tipo riu-se à fartazana, dando pancadas no volante com uma das mãos.
“Ó colega, aquilo não são barcos de passageiros, percebe? Levam mercadoria, mas pode ser que lhe deem uma boleia, sobretudo sabendo que você é médico e está em serviço nos Açores. Pergunte no hotel ou então dê uma volta pelo cais, vai ver que alguém lhe saberá dizer alguma coisa.”
Nota: O título do texto inspirou-se no livro de Ken Kesey Voando Sobre um Ninho de Cucos, que daria origem ao filme homónimo de Milos Forman, 1976.