18 setembro 2020

MADEIRA EXÓTICA & CONTRAPLACADO

JAMILA MADEIRA... Assim, à primeira, parece o nome de uma serração de madeiras, em que um desvanecido proprietário aglomerou sílabas do nome dos filhos (JA, de Jacinto; e MILA, de Filomena) para obter um atraente nome para o negócio. Mas não, o pai desta Jamila é um crónico do Partido Socialista e a própria da Jamila, para além de sua filha, uma gema que ainda andava no liceu quando ingressou na Juventude Socialista (JS), esse aviário de talentos. 
Pois, aí, na JS, Jamila fermentou, fermentou e saltou para o poder autárquico algarvio - como sabemos uma escola de excelência que transformou a região numa espécie de arrabalde de uma grande cidade que nunca se chega a encontrar -, saltou logo que pôde para a Assembleia da República e um dia, com grande surpresa de todos, eis que a vemos madrugar como Secretária de Estado da Saúde. E não uma Secretária de Estado qualquer, mas sim Adjunta da Ministra o que (havendo dois secretários), representa o cargo mais importante, poderoso e mais próximo da Ministra. Mas que atributos especiais teria a senhora para estar ali, para além da política e de uma luminosa passagem pela EDP e pela REN? Nada, que se soubesse. Encolhi os ombros e fiquei à espera: não é raro que os partidos no poder coloquem alguém do aparelho como secretário de estado, sobretudo de ministros ambíguos, uma espécie de pulseira electrónica para vigiar intenções e actividades de algum ministro mais independente ou recente no Partido.
Mas a senhora tomou posse, o tempo passou e, cá fora, nada se lobrigava: nem iniciativas, nem área de interesse; é que nem a própria senhora aparecia! Interessado no mistério ia perguntando aqui e ali, a gente atenta e que conhece o meio: "Ouve lá, afinal o que anda a Jamila a fazer?". Ninguém sabia, ninguém lhe conhecia pensamento, palavra ou obra. Um mistério total, opaco, impenetrável.
E eis que surge o abençoado Covid, esse anjo vingador, esse bisturi, esse sangrador; esse revelador que tanta evidência parda tem empurrado até à luz do sol; o terror dos 'rolhas' ou seja, daqueles que sonham em singrar na passadeira vermelha sem dar nas vistas ou correr o risco de ser removidos do cargo, e flutuam à tona mesmo quando os governos mudam.
E a Dr.ª ou Mestra Jamila (alguma destas coisas será) lá foi empurrada a aparecer, a partilhar responsabilidades, e eis que surge aos holofotes das Conferências de Imprensa do Ministério da Saúde com a pose azamboada de quem a tinham ido chamar à cama. Que se visse, durante essas prestações, encaixava a melena, balbuciava uns números, que lia de um papel; tropeçando no assunto e não fazendo nada que a senhora da linguagem gestual, por trás dela, ou a menina da recepção do Ministério, não pudessem fazer com igual brilho. 
Uma bela manhã de Setembro, numa renovação-relâmpago de 5 Secretários de Estado 5, eis que o país toma conhecimento que Jamila foi de vela! Pelos vistos, Temido ter-se-á fartado, exigiu a saída e, simultaneamente, que o actual secretário de Estado menos importante (António Sales) passasse a desempenhar o papel dela. Ter alguém que ajude, que os tempos não vão doces! Percebe-se, digo eu. António Sales é da área (é médico), informado, sóbrio, e, nas tais conferências de imprensa, limita-se a dizer o que é necessário, não se perdendo em considerações sobre as suas netinhas ou sobre o modo de organizar um baile ou conduzir uma sardinhada em tempos de pandemia. Marta Temido, que não é parva, ter-se-á dado conta de como eram desiguais os pratos da balança... 
E Jamila lá foi, mas não sem antes, ao invés dos seus quatro colegas que saíram em tranquilo silêncio, ter endereçado ferroadas a Marta Temido que - foi amplamente divulgado (presente envenenado) - terá sido quem exigiu a saída. E, de saída, enquanto ainda tinha microfones, lá cuspinhou ter sido apanhada de surpresa; que se lhe tivessem perguntado teria querido continuar, e, finalmente, que o trabalho dela deixava o SNS (designadamente as suas contas) muito melhor. Ainda bem que alguém se deu conta!
Mas, estimada Jamila, não se preocupe com o futuro. Com a experiência de quase um ano na Saúde, de certeza que, mal a poeira assente, lhe arranjarão aí qualquer coisa como presidente de uma ARS, administradora de uma ULS ou de qualquer outra entidade terminada em S.  


PS: Já dois dias depois deste texto publicado leio na comunicação social que há quem gema pelas coxias do aparelho do PS com a desfaçatez de Marta Temido em ter ousado pensar em demitir Jamila! Imagine-se, demitir uma tão vetusta personagem, que anda pelos corredores do partido praticamente desde que sabe ler. Que diabo, tal antiguidade é já um posto e dá-lhe direito a um voucher para vários cargos importantes que possam surgir na gestão do país! Como foi possível Costa ter alinhado em tal coisa? O aparelho do PS está chocado: é que se isto passa a ser permitido, ninguém jamais se pode considerar de pedra e cal em nenhum posto! E vindo de uma novata como Temido, uma quase independente?! A chatice está em que Temido não é assim tão descartável: obteve muitos votos para Costa em Coimbra nas últimas legislativas; o problema está em que Marta Temido (por bons e maus momentos) se foi tornando popular entre os portugueses nestes tempos difíceis do Covid19. Ao passo que a outra..., que se saiba tem apenas mau acordar, mau feitio e péssimo perder. Tudo isto fortalece a ideia, já aqui ventilada, que Jamila não era muito mais do que uma controleira de Temido, a tal pulseira electrónica para vigiar ministros problemáticos ou possivelmente não totalmente respeitadores da hierarquia e precedência partidária.

Nota: ARS - Administração Regional de Saúde; ULS - Unidade Local de Saúde.

07 setembro 2020

ÀS VEZES, À NOITE: 10. O Amor em Fuga

Meses passados, por inevitabilidade, Zita mudou-se das mesas da Rua de Cedofeita para o Piolho, cognome de um café que não se chamava assim, mesmo ao lado da Faculdade de Letras e ponto de encontro árduo de evitar: parecia não haver encontro ou pré-encontro que não fosse ajustado para ali. Ela já conhecia o sítio de estadias acidentais, mas jamais lhe passara pela cabeça estudar àquelas mesas! Seria forçada, incontornavelmente, a levantar a cabeça das sebentas minuto a minuto, tal era o vendaval de entradas e saídas. Depois descobriu que, ao fundo do café, havia uma escada em caracol por onde via gente desaparecer e conduzia a uma tranquila sala no andar superior. Lá, onde as janelas deitavam para a fachada lateral da Faculdade de Ciências, havia uma espécie de contiguidade universitária e sossego, e tudo quanto chegava e partia tinha de o fazer pela escada, o que trazia uma confortável sensação de segurança e controlo sobre os acontecimentos, pois conseguia identificar quem se aproximava mesmo antes da pessoa desaguar na sala: a cabeça antecipava o corpo no remoinho dos degraus!
Fora deste modo que, um fim de manhã, vira emergir a cabeçorra despenteada de Raul no patamar das escadas, o que lhe dera tempo para esconder a cara entre os cabelos e concentrar o olhar sobre os apontamentos que ia sublinhando com o auxílio de uma régua. Esteve assim uns minutos, até que o baque pesado de algo a bater no tampo de uma mesa a fez – a ela e às outras mesas – levantar a cabeça numa surpresa justificada. O tipo sentara-se defronte e olhava-a com um sorriso descarado: ficou sem a certeza se o barulho provocado pelo calhamaço não fora propositado para a expulsar do seu refúgio capilar.
“Hoje estou certo que não vou embarrar na tua mesa”, disse ele levantando umas manápulas afastadas que pareciam quantificar a distância entre eles. Ela esboçou um sorriso, fugaz e gelado, e baixou a cabeça, focando-se na tarefa de clicar mais meio centímetro de mina para fora do bico da lapiseira. 
O que mais a incomodara naquele começo de namoro tinham sido os dias em que ainda não havia intimidade, em que não saíam sozinhos, pois ele mostrava prazer em agitar o espaço em volta, não parecendo ralar-se que toda a gente ficasse a olhar e que as colegas dela se achassem no direito de fazer perguntas, de se referir a eles como se, antes de o serem, fossem já um par.
Raul, por seu lado, sentia que empurrara o namoro sozinho, que fizera toda a despesa da transacção, havia até um detalhe, impossível de partilhar, mas que funcionara como rastilho da aproximação urgente a Zita, nesses dias em que se começara a cruzar com ela nas mesas de estudo dos cafés do Porto. Próximo à rua em que morava havia um apartamento onde se entupiam outros universitários, desterrados na cidade como ele, e cujas traseiras deitavam para as janelas de um lar 'para meninas', que viviam ali, entaladas entre freiras e horas de recolher obrigatório. À noite, algumas delas, com a luz acesa, persianas por correr e cortinas entreabertas, despiam-se demoradamente enquanto se preparavam para dormir ou aguardavam vez para as abluções no quarto de banho comum. Entretanto deambulavam nuas, parcialmente nuas ou intervaladamente nuas, num à vontade que, pela naturalidade doméstica, incendiava a imaginação no prédio em frente. A notícia das sessões privadas, embora avaramente contida pelos  descobridores, chegou por boca a boca aos locatários do apartamento de Raul que, dada a vizinhança com o mítico local, passaram a visitar regularmente os colegas e a apinhar-se no quarto às escuras onde as camas tinham sido arredadas das janelas e estacionava já um par de rudimentares binóculos, pois um dos espreitas, precisamente aquele cujo nome constava no contrato de arrendamento, era ferozmente míope e os seus queixumes de não estar a ver o suficiente ameaçavam a continuidade da fruição dos restantes voyeurs. Uma noite quente, por breves instantes, esses binóculos estiveram nas mãos de Raul que, com a incredulidade do sitiado durante um assalto inesperado, viu surgir nas lentes um par de mãos a percorrer demoradamente umas virilhas (precisamente ao longo do trajecto onde se terminava o bordo de umas cuecas) e, na segunda onda de choque, observou uma dessas mãos a afastar o diminuto rectângulo de tecido branco que cobria o mons pubis para passear duas pontas de dedo da mão livre por uma superfície pilosa que lhe pareceu luxuriantemente macia. Trémulo, ao levantar um pouco o ângulo de observação dos binóculos, teve ainda tempo para aperceber uns cabelos pendentes, uma fatia de face atenta olhando para baixo, e um dedo ascendendo que se encostava a umas narinas.
“É, pá, topaste-me a gaja a cheirar a própria rata?”, comentou um espectador de modo pouco preciso.
“Não! Qual delas? A loura?... É, Barbosa, passa cá isso! Já estás aí há séculos”, protestou alguém no escuro, ansioso por, ao menos, vislumbrar uma ampliação dos despojos. Mas ele fizera orelhas moucas e pousara os binóculos em cima da mesa de cabeceira mais afastada das janelas, como se o que acabasse de ver fosse demasiado íntimo, uma revelação, um encontro, indigerível ainda, ocorrido entre ele e a rapariga do lado de lá da escuridão, a qual, de facto se limitava a inspeccionar as virilhas massacradas pela funda de um ensaio onde estivera duas horas, pendurada no palco pela cintura, a fazer de enforcada. 
Raul só ser dera bem conta de tudo isso, da simplicidade esquálida do episódio, do encadeamento de momentos e do tricotar insidioso do destino, em Penaformosa, quando a ligação ao Porto se fora esbatendo e a solidão insuportável do apartamento do Fundo de Fomento lhe permitiram tirar os toscos bonecos de dentro de si e, gradualmente, ir expondo-os pelo espaço vazio: na sala, pelo corredor, no quartito de arrumos, no seu quarto, no espelho do quarto de banho. Podiam ficar por ali, à mostra, sem ter de ser recolhidos, sem perigo: ninguém ia aparecer; o telefone não ia tocar a não ser por incumbências de trabalho, ninguém ia bater à porta com o semblante satisfeito de quem faz uma surpresa a um amigo ou a alguém que nos é querido. 
Sim, empurrara tudo aquilo sozinho, por alguma razão distante decidira que era aquela a sua linha de costa, fundeara a âncora e correra pela areia sem se certificar de quem espreitava entre as árvores. Ignorara todos os indícios e iludira a falta deles, construíra a sua imagem dela, aquilo servia-lhe e ela só podia ser assim; havia de vir a ser assim, o tempo se encarregaria de esbater as arestas dela, asperezas que ia adoçando com a miragem de uma maneira de ser onde até a possibilidade de descobrir uma sexualidade misteriosa trazia um inebriamento especial. E o tempo foi passando.
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Na véspera dera-se o desastre. Raul era já médico estagiário da especialidade de Infecciologia, Zita finalizava a licenciatura. Misteriosamente, querendo parecer natural, mas repetindo-se tanto que ela ficara de sobreaviso, convidara-a para um fim de semana fora da cidade. “Onde?”, quis ela saber, pois detestava improvisos, não poder alinhar as expectativas por entre quadriculados de orientação.
“Ah, isso...”, respondera querendo parecer misterioso, mas com uma capa a que estava sempre a levantar as dobras. E mesmo antes de se meter no carro, que conseguira emprestado de um amigo, já ela tinha inferido pelas pontas soltas que iam para Norte e que ele teria algo importante a dizer-lhe.
Mas com o que não contava – e que a levaria a recusar o convite ou a preparar uma mala diferente – era com o local onde iam ficar hospedados: o Hotel de Santa Luzia, em Viana do Castelo; um sítio chic, poiso de gente endinheirada ou da alta burguesia! Também ele não contava que ela estivesse nos dias rubros do período menstrual, pelo que a ambientação lua-de-mel em que tencionava envolver as duas noites no quarto com vista para o mar acabou por andar sempre a esbarrar nesse constrangimento, pelo menos na barreira física, pois à outra ambos fingiam ignorá-la. E a manhã de Domingo terminara com um desanimado Raul a deixar um recado no luxuoso papel de carta do hotel, pedindo desculpa às camareiras pelo estado lastimoso em que deixavam os lençóis, bilhete acompanhado de uma gorjeta que Zita achou excessiva e ofensiva, quer para a sua condição de mulher quer para as trabalhadoras. Mas acontece que ele sabia quem eram as tais trabalhadoras, tinha-as visto, no Domingo, quando deixaram o quarto, já em cima da uma da tarde, e elas esperavam que ficasse vago para o limpar, e fora a intensidade visual desse conhecimento que o empurrara a dar alguma explicação.
Na noite da chegada, durante o jantar, propusera o casamento, o motivo central de todos aqueles preparativos. Não era assunto virgem entre eles: às vezes falavam nisso, mas ela enrolava a decisão, empurrando-a, sem dizer sim ou não, para o final da licenciatura. Desta vez, sentindo-se encurralada nas circunstâncias, antes de responder e pressentindo que toda a sala de jantar do hotel os olhava por estarem tão desconformemente trajados, levantara-se e fora aos lavabos, uma vez que o premeditado da proposta provocara-lhe uma violenta dor de estômago. Enquanto se estorcegava na retrete, aparando o par de lágrimas com o pedaço de papel higiénico que já tinha entre mãos para limpar o rabo, Raul ficara-se à mesa, beberricando vinho. O “sim” só fora dito no quarto, mas mantivera uma mão medianamente entrelaçada na dele durante o resto da refeição, particularmente para o manter sereno, pois um homem daquele tamanho dava nas vistas quando irrequieto.
Apesar de todos os cuidados, sentira o tal “sim” tão pouco consistente que teve receio que ele – o seu querido desajeitado – se desse conta da falta de entusiasmo e essa foi a principal razão pela qual se abandonara aos ímpetos comemorativos e tinham deixado os lençóis num estado a que ele, com anatómica imprecisão, se referia como “uma cagada”. Aparentemente consolado, Raul dormira o resto da noite como um bebé, mas ela ficara acordada no escuro, a pensar se não teria sido inaugurado naquele quarto de tecto alto e motivos florais nas sancas o maior disparate da sua vida. A quem estava a enganar? 
Ao amanhecer, Raul acordou com sede e viu uma silhueta nua especada à janela de sacada, a aurora lambendo de dourado o corpo lívido e esguio da noiva.
“Que estás aí a fazer, madrugadora?”
Ela voltou-se como se tivesse apanhado um choque eléctrico de alta voltagem, ele ficou algo surpreso mas tomou a reacção como resultado do excesso de emoções acumulado naqueles dois dias.
“Anda, volta para a cama; ficas gelada!”
Nem tu sabes quanto, pensou, respondendo em vez: “Vou tomar um banho rápido, sinto-me suja.”
E passou a correr para o quarto-de-banho, para não lhe dar hipótese de a colher na travessia. Raul encarou a possibilidade de se levantar e ir ter com ela à banheira, pois, na contraluz da aurora, o volume dos seios contra o corpo magro, oscilando na corrida, tinham-no exaltado. Mas algo o reteve, algo nascido no branco lacado da porta cerrada, na sensação geral que lhe deixara a noite e o sexo inerte que ela consentira. Foi então, ao virar-se na cama e ao puxar a coberta sobre si, que notou as manchas avermelhadas que enodoavam o lençol de baixo, que repassaram o lençol de cima, que tinham, inclusive, atingido o canto da fronha de uma das almofadas. Aquilo era tão totalmente indisfarçável que lhe surgira a ideia de deixar um bilhete às empregadas - elas iriam compreender, tinha até pena de não poder descer ao detalhe de anunciar que o incidente era o começo de uma outra vida para ambos; de implorar a bênção delas.
Desceram o monte já passava do meio-dia. Raul quis levar Zita a conhecer a Praça da República, a comer uma empada ao Natário, a escolher uma caixa de almendrados para a viagem de regresso ao Porto, o que sobrasse ela levaria para o apartamento em Faria Guimarães, onde agora morava com duas colegas. Zita manteve-se calada o tempo todo, pensativa, e ele viu a alegria de estar ali com ela, do que lhe ia mostrando naquela cidade que conhecia desde sempre, esvair-se aos poucos. Não teria sido assim tão diferente se tivesse ido comemorar o noivado sozinho, matutava, quando Zita, ao reparar na placa que indicava Ponte de Lima, exclamou:
“Leva-me lá...”
“Onde? A Ponte de Lima? Queres ir lá? Temos tempo de sobra...”
Fez pisca e virou na estrada mesmo a tempo, ainda surpreendido pela sugestão, mas sem dizer fosse o que fosse, pois farejava um clima peculiar dentro do carro. Teria sido a porra do bilhete? A gratificação excessiva?
Ao chegar a Ponte de Lima viajaram ao sabor das ruas e ao desembocarem perto da ponte dos arcos ela pediu que parasse o carro, ficando ali, absorta, a olhar o rio. Depois comunicou:
“Fico aqui. Podes ir embora, escusas de esperar por mim; não volto contigo.”
E saiu do automóvel, deixando-o tão atónito que quando recuperou, estacionou o carro e se pôs à procura dela, já não a conseguira encontrar. Ponte de Lima não era assim tão grande, insistiu na busca por mais de uma hora e só parou quando começou a repetir ruas. Exausto, com as plantas dos pés a latejar, sentou-se na esplanada de um café e trincou qualquer coisa, podia ser que ela passasse, entretanto, já distraída de se esconder, já farta de estar sem companhia. Nada disso aconteceu e regressou ao Porto sozinho.

(continua)

© Fotografias, de cima para baixo: 1) pedro serrano, Porto, 2014; 2) Manuel Campos Monteiro, Viana do Castelo 2020. Pintura:Felice Casorati, Notturno.

05 setembro 2020

O que acontece em Cuba quando se paga uma cerveja...

    Bolero "Hermosa Habana", © filmado por José Serrano, 
Trinidad (Cuba), Casa de La Musica, Setembro 2004.

23 agosto 2020

ETERNIDADE #2




Não te preocupes
Não tarda pela demora
Haverá sempre mulheres lá fora
A falar em voz alta e preclara
As suas coisas pequenas e enormes
Acende a luz e dorme





















© Imagen: Paul Sérusier, Les Danaides (1897).

19 agosto 2020

QUERIDO CORONA

Finalmente uma boa notícia e que nos é dada por alguém de confiança (o próprio vírus) e não por um político ou por um cientista em pose de bailarina, isto é nos bicos dos pés.
Começa a parecer evidente que na segunda dose (ou vaga ou onda ou maré) de surtos que está a estender-se pela Europa o vírus detectado já não é exactamente o Corona inicial, ou seja, o bicho sofreu uma mutação que é como quem diz que se adaptou. Esta adaptação tornou-o mais contagioso e menos mortífero. Esta modificação do meliante não é nem novidade nem milagre e é comportamento habitual nos vírus, conhecido há muitos anos. Na natureza, todos os seres vivos se adaptam, já o Darwin falava nisto, sob risco de irem parar ao caixote do lixo. E os vírus, apesar de pequenininhos, são seres colectivamente muito inteligentes, sempre a fossar uma forma de melhor conseguir aquilo que pretendem que é manter-se vivos e reproduzir-se, que é como quem diz juntar o útil ao agradável. Sendo assim, não seria muito inteligente da parte deles matar a clientela toda, pois como se iriam aguentar a seguir? Então, após entrar a matar, aparentam ter engatado mudança para uma velocidade de cruzeiro.
Do ponto de vista prático, esta mutação poderá significar que a doença por Corona (o Covid19) se vai tornar ainda mais fácil de transmitir (pegar) mas que não será tão grave como tem sido e esta é a coisa boa. Significa também que não podemos embandeirar em arco, pois se a nova geração de vírus se vai tornar mais contagiosa teremos de nos proteger na mesma e a receita será a mesma de sempre. Por isso, meninas e meninos, vá lá, nada de sair à rua de cara lavada e continuem a usar, como até agora, aquele trapo imundo que, há uns modestos 4 meses atrás, a DGS e a OMS nos asseguravam que não servia para nada, e há quem chame por máscara. Usem e abusem! 

17 agosto 2020

CORKI (Corona Killer): o bombardeiro de Oliveira do Hospital

Depois do ventilador que não passou os testes técnicos e da máscara milagrosa que contém (sabe-se agora, pois era mistério) cloreto de amónio, substância não propriamente meiga para seres humanos e ambiente, o fogoso e algo precipitado empreendedorismo Tuga põe agora em cena um sistema (também mágico e do género como-é-que-ainda-ninguém-se-lembrou) para eliminar "99 % das partículas nocivas do ar num minuto", sistema que, embora dirigido principalmente ao Corona, elimina tudo o resto que se lhe atravessar no caminho!
1. Tecnologia de ponta com ficha tripla.
Este novo portento surge um pouco mais a sul do que Rebordões (berço da máscara mágica MOxAD-TECH), mais propriamente na bonita e histórica localidade de Oliveira do Hospital. Aí, no Centro de Inovação de Oliveira do Hospital (conhecido pela sigla BLC3), foi desenvolvida uma tecnologia que a SIC teve a amabilidade de nos mostrar no telejornal de ontem e a quem faço a respectiva vénia pelo uso das imagens que ilustraram a reportagem, fotografadas a partir do ecrã usando uma nova tecnologia que um dia revelarei ao mundo científico e após registar a patente. 
Às câmaras e aos microfones, um arregaladamente muito feliz por olha-eu-na-TV director do tal Centro de Inovação explicava como se processa a coisa, enquanto a câmara se detinha nos detalhes, finos e rigorosos, de alta tecnologia que as fotos documentam.
2. Tubagem para partículas à prova de fuga.
Primeiro "as partículas virais presentes no espaço são conduzidas através de fluxos de ar para um receptor" (o gabinete de provas que se vê na Imagem 2, com aquelas juntas que, de imediato transmitem sensação de segurança e garantia de que por ali não passa uma partícula, mesmo que subatómica, Imagem 3), gabinete onde, numa segunda etapa, "se processa a inativação do vírus por um sistema emissor de ultravioletas" (aquele candeeiro tipo mata-moscas de talho que se observa na Imagem 4)
3. Rigorosa vedação, garantindo estanqueicidade total.
A partir daqui podemos todos estar felizes: nem moscas nem Covid. O sistema, desenvolvido em parceria com 3 Universidades 3, aplica-se a hospitais, a aeroportos e tudo mais quanto se precise, basta informar Oliveira do Hospital, que eles tratam do resto com as carpintarias, as firmas de perfis de alumínio e os produtores de chaminés para churrascarias da zona. 
No entanto, precaveu-nos o director do BLC3 a finalizar, para que este novo sistema revolucionário seja viável em aeroportos todo o sistema de circulação de ar dos mesmos deverá ser modificado, pois está muito mal feito actualmente, dificultando a condução harmoniosa do rebanho de partículas virais ao redil onde as espera o mortífero candeeiro, já conhecido com terror nos meios virais como CorKi, diminutivo de Korona Killer.   
4. Emissor de UV (eficaz também em moscas e mosquitos).
© Fotografias 1 a 4, pedro serrano, agosto 2020.

16 agosto 2020

LEONARD COHEN BOX SET

Um produto da Unified Heart Productions Foundation, que incluiu CDs, videos e cartazes, a ser posto à venda em Novembro de 2020 (mas que se pode pré-encomendar desde já). Espero que valha a pena, pois tenho sempre algum receio destas produções póstumas. O produto das vendas é usado para financiar bolsas de estudo/trabalho para jovens artistas canadianos, um velho desejo e projecto de Leonard Cohen.

06 agosto 2020

ÀS VEZES, À NOITE: 9. Mães e filhas

Zita sentiu a baforada de indignação lamber-lhe a raiz dos cabelos e teve de se conter para que a irritação não derramasse sobre a filha, cuja silhueta se lhe tornara indistinta por momentos e que continuava a falar como se nada de grave tivesse sido declarado. Viu-se forçada a interrompê-la.
“Mas como é que isso veio a acontecer?”
Rosarinho fitou-a, surpreendida.
“Isso, o quê, mãe?”
“Esse jantar!”
“Foi a senhora que é mulher do Comandante que telefonou para casa do pai e convidou-nos a todos para ir jantar lá.”
A mãe levantara-se do sofá e olhava pela janela, as mãos enfiadas nos bolsos das calças de ganga, uma pose que lhe espetava os ombros e que a filha reconhecia de crises anteriores. Mas desta vez, estava a suceder-lhe ultimamente, Rosarinho não sentiu susto, antes um desejo em observar até onde aquilo podia ir e em confirmar se a mãe iria reagir como pensava que faria.
“Eu gostei... No princípio pensei que ia ser chato, mas depois eles são muito simpáticos, estive a ajudar a senhora na cozinha e, por ser Natal, eles tinham uma prendinha a marcar o nosso lugar na mesa; a Micéu adorou a Diana, a cadela deles – amorosa –, passou a noite a brincar com ela na sala, nem queria ir embora.”
“Ai, sim? E que prendinhas pode um polícia oferecer a uma criança? Cassetetes, algemas?! Trouxeram-nas ou será que ficaram em casa do vosso pai?”, acrescentou como se pretendesse fazer do ex-marido cúmplice da ocultação.
“Mãe, eram guarda-chuvas de chocolate, já não existem! A mana comeu o dela ainda em casa deles!”
“De qualquer modo, o pai devia ter-me perguntado!”
“Mãe, desde quando é que tu telefonas ao pai a avisar quando vamos jantar fora aqui no Porto?”
“É diferente, isto tem a ver com a vossa educação cívica! Obrigar-vos a conviver com um graduado da Guarda Nacional Republicana! O teu pai sabe o que eu penso sobre isso, sobre esses...”
Rosarinho sentiu uma baforada de calor lamber-lhe a raiz dos cabelos.
“Ficas a saber que gostei de ir e que nos trataram muito bem, ninguém nos prendeu ou bateu com um cassetete. O senhor é amoroso, deixou a mana andar com o chapéu dele e tudo; parece que o pai trabalha com ele muitas vezes...”
“Mas desde quando é que um médico é forçado a trabalhar com um polícia?!”, gritou, “se trabalha é porque quer”.
A filha encolheu os ombros, adoptou a resposta que sabia poria a mãe ao rubro.
“Pergunta-lhe...”, disse levantando-se, fazendo continência e deixando a sala num passo dançado de marcha, entre o militar e o sexy. 
Zita voltou ao sofá e apontou o controlo remoto à TV como se disparasse uma arma. Estava danada consigo mesma por se ter permitido uma discussão daquelas com um fedelho de onze anos! A sua vontade imediata era a de pegar no telefone e descompor Raul. Mas previa o que iria acontecer, sobretudo se mostrasse exaltação: no começo ele iria fingir que não sabia do que estava ela a falar, o que a iria obrigar a descrever o incidente com os parcos elementos de que dispunha; depois iria rir-se, condescendente, com aquele tom pachorrento que a punha fora de si. Era melhor deixar passar as festas, tentar obter também alguma informação de Micéu que permitisse uma generalização de factos mais fundada. Como era tudo tão difícil! Criar as miúdas sozinha, tentar que Raul participasse, mas numa perspectiva correcta, simultaneamente pedagógica e afectiva. Rosarinho, então, andava impossível, já não sabia com o que podia contar dali. Eram cenas diárias, parecia ter especial prazer em dar-lhe cabo dos fins-de-semana. No Sábado anterior, a avó levara-a, como companhia, ao cabeleireiro e a criança aparecera em casa com o cabelo retocado, uma franja ridícula a emoldurar-lhe a testa, as unhas limadas e nacaradas. Ficara tão chocada que não se contivera e dissera à mãe o que pensava de todo aquele disparate, viu-a resvalar do sorriso contido e cúmplice, que trazia à chegada, para uma expressão de desalento na borda do sofá. Rosarinho, essa desaparecera, ouviu-se uma porta bater com estrondo.
“Maria do Rosário...”, gritou para o fundo do corredor.
“Zita, filha, deixa...”, intercedeu a mãe, “a culpa foi minha; mas ela parecia tão feliz, tão orgulhosa.”
Odiava, odiava que alguém se atravessasse na educação delas, nem que fosse a mãe, nem que fosse Raul! Conteve-se, parte de si sentia ser uma guerra que podia vir a perder e isso causava-lhe um horror semelhante à solidão total. A filha mais velha parecia ter recentemente descoberto uma afinidade com a avó, falava do pai com indisfarçada devoção e, poucas horas depois do incidente desencadeado pelo novo penteado, fora dar com ela ao espelho do quarto de banho, espiolhando-se com pormenor, a face banhada numa satisfação luminosa, como se tivesse descoberto o poder mágico e transfigurador de uma ida ao cabeleireiro. Quando se apercebera da presença da mãe nas suas costas, Rosarinho fechara a expressão e a porta, dizendo:
“Está gente!”
Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. Desligou a TV e voltou à janela. Lá fora, a chuva caía sem parar, como podia uma pessoa alegrar-se numa cidade em que os dias se passavam a chover? 
 ***

Zita fora registada na Régua, onde nascera no hospital, mas considerava-se natural de Alvarelhos, onde os pais tinham a quinta. Da fachada sul da casa via-se o Douro e, acima dele, os socalcos que marinhavam quase até ao terraço em que jantavam quando os dias eram grandes. Do piso térreo, insinuando-se por entre as junturas das tábuas do soalho, chegava o odor a verniz das caixas onde, em conjunto de três, eram embaladas as garrafas da colheita especial e em cuja tampa, gravado a fogo na madeira com um ferro já muito antigo, se lia o nome da família e a proveniência: CHAVES – Vinho do Porto – Regoa.  
Ao concluir o ensino primário, o pai mandara-a, interna, para Lamego, em vez de para o colégio da Régua ou o liceu de Vila Real, que seria o que gostaria e esperava. No fundo, num lado ou no outro, não estava assim tão longe de casa, mas as estradas eram tão demoradas por curvas que funcionava como mudar para outro país, essa era a justificação da mãe para se terem livrado dela. Detestara os anos em Lamego, detestara as freiras e a rigidez nunca explicada, as regras absurdas, como se a vida não se anunciasse senão pelos obstáculos. Tudo era proibido, tudo era controlado e não havia instinto que se pudesse seguir ou acariciar, que não palpitasse a vermelho como um sentido proibido. Decidiu que ia ser mais forte do que aquilo, mostrar que era capaz de responder em dobrado às exigências e quando deu por si tinha crescido fria. Já próxima do final da adolescência reencontrou os pais como estranhos, a mãe tentou aproximar-se, mas ela não tinha nada para lhe dizer, nada em comum; até o bafo das caixas de vinho do Porto que chegava do piso térreo perdera o perfume reconfortante – eram apenas tábuas chamuscadas e lambuzadas de verniz. 
Zita escolheu História e o pai achara mais seguro, um atalho convenientemente perfeito, que continuasse a viver entre freiras no Porto, onde ficava a Universidade. Assim era o pai que lhe calhara, um indolente mental que fazia tudo para não ter de pensar nas coisas, podia até nem ter grande – ou nenhuma – opinião de colégios ou lares de freiras, mas se era consenso que resguardavam as meninas das complicações do mundo... 
Não protestou, não deu sequer opinião; era-lhe indiferente: fugir de Lamego e de Alvarelhos já era liberdade suficiente. Muito apropriadamente, o lar ficava na rua dos Bragas, só tinha de percorrer os passeios de Cedofeita e estava na Faculdade, um edifício austero de fachada enxovalhada e salas escuras onde cheirava a esterco de cavalo, pois ficava paredes-meias com um quartel da Guarda Nacional Republicana. Detestava descer o pedaço de rua até aos degraus da entrada e procurava sempre fazer o percurso pelo passeio oposto, para mitigar os apartes pesados dos soldados que guarneciam o portão.
Aos dezanove anos era magra e esbelta, mantinha solto o cabelo comprido – como então se usava –, às vezes enrolava-o em banana, o que parecia congregar mais os olhares dos homens sobre si, talvez por tornar mais notório o peito generoso que os cabelos escorridos sobre os ombros atenuavam. Não sabia muito bem lidar com o corpo em que se movia e a surpresa satisfeita, que via tomar conta das outras quando tiravam partido dos mais exíguos centímetros de carne, apenas a constrangia. Agradava-lhe ser apreciada, sentia falta se tal não acontecia, mas quando isso sucedia e lhe parecia perder o controlo sobre a intensidade com que a revelação crescia ficava aflita. Durante o primeiro ano nenhum ser do sexo oposto se aproximou consistentemente dela e os únicos embaraços sérios sofreu-os nas matinés dançantes – organizadas pelo Orfeão do Porto, onde fora aceite por ter uma bela voz de soprano tímido – ao ser enlaçada em excesso pelos rapazes que a vinham convidar. Mas também isso não fora difícil resolver: deixou de ir, foi um alívio, pois começava a suar mal entrava naqueles salões obscurecidos e sentia olhos seguirem-na até à cadeira onde se refugiava. E suar era uma manifestação do seu corpo que odiava, no que tinha de indisfarçável e incontrolável, de repulsivamente físico. Às vezes, se andava de autocarro ou eléctrico, e lhe calhava ficar por perto de uma mão agarrada a uma pega, de um sovaco suspenso, saía antes de chegar à sua paragem, com medo de poder vomitar logo ali, enojada pela agressão e pelo reconhecimento.
Comunicou aos pais que mudara de Curso quando a mudança já se concretizara, quando já repetira as duas cadeiras nucleares obrigatórias para ingressar em Matemáticas. O pai olhara-a com um olhar onde lhe pareceu reconhecer incompreensão, e a mãe com mágoa. Podia ter explicado que História a tinha desiludido, que aquele terreno era demasiado hipotético para o seu gosto; como se podiam tirar aquelas ilações todas de uns cacos de argila cozida encontrados a esquecidos metros de profundidade? 

A objectividade da nova área como que lhe trouxe segurança e Zita guardou como o melhor ano da sua vida o terceiro que passou no Porto, o segundo da licenciatura em Matemáticas. Era uma das melhores alunas do novo Curso e descobriu que nem precisava de assistir às aulas todas para que tal acontecesse, embora adorasse acompanhar o desdobrar, sem hesitações, daquela progressão de números e símbolos no quadro duplo dos anfiteatros, a euforia da demonstração! Descobriu, também, o prazer de estudar em cafés e, praticamente, deixou de ir a Alvarelhos: aos fins de semana havia sempre alguma coisa a acontecer e, mesmo durante a semana, havia as sessões do Cineclube, os concertos no Rivoli, os ensaios no TUP (1). Naqueles dias tudo mudava muito rapidamente e se fora por colegas do Orfeão que descobrira as quartas-feiras clássicas do Rivoli, fora por amizades das segundas-feiras do Cineclube que descobrira que era considerado reaccionário pertencer ao Orfeão! Mas se ela apenas ali estava para cantar, para conhecer gente! Está bem, diziam-lhe, mas podia conhecê-la – e bem mais interessante – noutros locais. Ela que reparasse o que estava a acontecer em França, no mundo, enquanto os estudantes portugueses se alienavam nas festinhas incoerentes da Queima da Fitas! Inscreveu-se no TUP, sem coragem para cortar abertamente com o Orfeão, o que a obrigava a ir às reuniões do teatro quase na clandestinidade, pois o Orfeão ensaiava paredes-meias com o espaço do teatro, ali nas imediações da morgue e do conservatório de música. 
Agora, que olhava para trás com o tempero frio dos anos, compreendia que o calor fraterno que julgara sentir à época não era mais do que aceitação lógica: um corpo ocupa lugar. Fora ganhando espaço por estar presente, por levar aquilo a sério, o que não acontecia à maioria. No TUP, por exemplo, fizera o quê? Fizera de ponto na Casa de Bernarda Alba, enfiada num buraco do chão, e de enforcado na peça Azul-Negro, um papel em que passava as quase duas horas da peça suspensa numa cinta de pano, sobre a qual enfiara as calças, e cuja extremidade superior se confundia com o nó corrediço de uma pretensa corda de forca. Acabava as noites de ensaio cheia de caibras, com as virilhas atormentadas e a peça nem sequer chegara a ser representada, pois tinha sido proibida pela PIDE na véspera da estreia! Nem uma única vez lhe fora confiada uma deixa, nunca abrira a boca em palco! Um dia, quando os dois anos de militância no TUP lhe deram o à vontade para isso, queixara-se e provocara um silêncio embaraçado no encenador, que garantira haver outras tarefas igualmente importantes num empreendimento colectivo como a arte cénica. Raul, que conhecera por altura deste incidente, rira-se com a descrição da cena, com as explicações do encenador e com a análise contextual dela.
“Revisionistas!? Zita, tem dó e vê se percebes: podes ter jeito para um milhão de artes, mas o teatro não será uma delas: és demasiado inibida e falas como uma metralhadora perra – o tipo achou que o melhor era manter-te calada e quieta. Agora, dás é jeito aos gajos: és uma abelhinha e pode sempre contar-se contigo. Enquanto os outros curam a ressaca na enxerga, tu lá estás, aos Sábados de manhã, a agrafar papelada, a apanhar as piriscas do cenário...”
Ficara furiosa, não era comentário que admitisse a ninguém, muito menos a um recém-chegado à sua vida. Mas era também isso que a desconcertava: ele dizia-lhe aquelas coisas brutas com tanta rapidez e à vontade que ela nem tempo tinha para sacar do baralho argumentativo, escolher as cartas certas. Sentia-se minguar, pequenina, não lhe conseguia levar a mal mais do que às meias-horas. Sentia que Raul não tomava demasiado a sério o perfil de mulher activa e moderna que ela tanto penava em construir, ele demonstrava-lhe isso diariamente no modo como exprimia o que pensava, mas, de um modo difícil de verter em silogismos, percebia que gostava dela, que admirava os seus esforços e – o que a mais espantava e assustava – que se sentia atraído por ela.
Nesse ano, antes de tudo começar entre eles, Raul morava em Álvares Cabral, num apartamento que partilhava com outros já quase à vista da Praça da República. Uma noite, um pequeno bando que subia Cedofeita raspara por ela, Lucinda e Aurora, que se dirigiam ao lar. Ao cruzarem-se, um deles, sem sequer voltar a cara, fizera “miau-miau-miau” e todos tinham rido alarvemente. Elas olharam umas para as outras e riram também, era um apontamento divertido e bem-vindo como término da noite aquele ‘miau’ que contemplava cada uma das três raparigas. Ao ouvir os risos femininos, um deles, um tipo grande, olhara para trás. E fora tudo.
Umas semanas depois, num daqueles cafezitos acanhados que havia no troço de Cedofeita entre a Rua da Boavista e Álvares Cabral, alguém dera um encontrão ao pedaço da Estatística Não-Paramétrica que sobrava além do tampo da mesa. Sobressaltada, levantara a cabeça do livro e deparara com uma avantajada figura que se movia por entre as mesas, a caminho da porta. Dando-se conta da colisão – a mesa oscilara e uma chávena tilintara no pires –, ele olhara para baixo, sorriu:
“Desculpa o abalroamento. Prometo que não torna a acontecer.”
A Zita pareceu reconhecer algo familiar no desconhecido, nesse dia não percebeu o quê, apenas reteve a promessa de continuidade do “não torna a acontecer”. Voltou a encontrá-lo no café uns dias mais tarde e, ao passar pela mesa, onde ela estava com Aurora, ele encolheu-se e proferiu um “Ooops” teatral. Aurora olhou-a, encorrilhou a testa numa interrogativa, ela explicou o incidente anterior.
“Ah! Sabes quem é?”, perguntou a colega. E como ela não soubesse: “É quase nosso vizinho, a Lucinda tem uma colega em Farmácia que mora no mesmo prédio, no andar por baixo; mal conseguem dormir com a pândega que vem de cima todas as noites. Acho que este é aluno em Medicina.” 
(continua)
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© Imagens: Felice Casorati (1883-1963). 

(1)Teatro Universitário do Porto.