27 agosto 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 36. Regresso

Graciosa: vista aérea do Monte da Senhora da Ajuda.
O Rui só acabaria por voltar cerca de dois meses mais tarde e, como seria de esperar, as promessas trapalhonas do Porão da Nau de arranjar outro médico para me ajudar demoraram um mês a concretizar-se, um longo, paranoico e desértico mês até que o Virgílio Senra apareceu. Foi o meu grande estágio de solidão e, passados quarenta anos, ainda reconheço o sabor e o som daquele silêncio.
As únicas pessoas que saudaram a minha volta com explícita alegria foram as irmãs, no hospital, e alguns doentes; os restantes ou não reagiram, como a nossa atormentada anfitriã, D. Irene, que veio à porta como se eu ;araxava os estores do andar de baixo,fonar-me.hmutzere dirigentes da savam a descida do monte da Senhora da Ajuda.car a morar.
lá tivesse jantado na véspera, ou fizeram-no pela socapa, como o Oriolando, perante o qual eu e o Rui  ressurgíamos na roupagem de heróis da resistência. Quanto ao Araújo, soltou as boas gargalhadas do costume quando voltei a aparecer em casa dele e o Sr. Medina, tal o conde Steinbroken nos Maias, teve tendência a considerar, descomprometidamente, o episódio da nossa desconsideração pelo poder local como ‘excessivamente grave’.
Retomei o trabalho, agora a dobrar, e durante a maior parte das horas diurnas andava tão trôpego de consultas, visitas à enfermaria, resolução de burocracias adiadas, que nem tempo me sobrava para pensar que existia. Isso só acontecia quando, ao fim da tarde, chegava a casa. Aí o silêncio caía-me em cima, a casa passara a ter divisões a mais, quase não me atrevia a entrar em algumas delas; onde estava a Marília, agora que seria bom que estivesse por perto? Nem o Pombo se via pela ilha!
Na manhã em que cheguei, ao descer do Puma, fui directo à casa dos Magistrados e abri a porta com precaução, não sabia o que esperar. Depois do que sucedera, era plausível ter acontecido uma rusga vingadora, uma invasão, uma selvajaria sobre os nossos pertences, sei lá. Mas estava tudo intacto, as camas feitas, alguma louça lavada na banca da cozinha e um odor a pó requentado pairava no ar. Só a senhora da limpeza ali teria entrado, nos restantes dias, sem testemunhas, o calor do Verão tivera vagar para cozer a poeira. Fui visitar as freiras, jantar, entrei no Açucareiro, hesitante. Durante uma semana, ou assim, senti medo durante a noite. Fechava a porta da entrada com todas as voltas da chave, baixava os estores do andar de baixo, trancava o meu quarto por dentro; escalpelizava os ruídos que chegavam do exterior, a tentar perceber qual deles poderia ser o prelúdio para um ataque, um ajuste de contas sobre o médico que restava; o facalhão com que assassinara a Mimi debaixo da almofada, enfiado na bainha para não danificar a fronha do hospital. Encharquei-me em remédios para dormir, mas dormia mal na mesma, atravessava o sono entre pesadelos confusos, julgava estar num local não sitiado por água, acordava para um alívio ressacado. Por vezes, não muito, o telefone retinia no escuro, o coração saltava-me no peito de susto, na antecipação de notícias aterradoras. Mas não, era uma das irmãs ou o Viegas, pedindo sempre muita desculpa por estar a maçar, mas precisavam de mim, é que dera entrada... Pobres irmãs, que passaram a ter o cuidado de andar em bicos de pés pela minha precária existência. Evitavam incomodar-me e, elas próprias, despachavam, como tinham feito anos a fio, a maior parte das urgências, e até aquelas para as quais não tinham alternativa senão chamar-me, eram cuidadosamente triadas previamente; ao chegar ao hospital encontrava o doente com a temperatura tomada, a tensão avaliada, uma veia canalizada, às vezes um soro a correr; uma hipoglicemia já estava a caminho de controlada e o enfermo a recobrar na enfermaria. Quando terminava, voltava a casa, pelo negrume, vigiando os taludes da berma da estrada, as sombras; sopesava um canivete no bolso como se fosse um amuleto. No hospital apercebiam-se dessa tensão, ninguém acreditava que alguém me fizesse mal, mas temiam pelo meu temor, a madre superiora sugeriu que poderia ter por lá uma cama sempre feita, onde ficaria em noites agitadas de serviço. Não aceitei a simpatia, preferia manter uma divisória que separasse o trabalho da vida privada, apesar da minha vida privada ser uma valente cagada, e, para ser franco, pesava na opção algum receio de, num momento mais destemperado, poder receber a visita nocturna da irmã Noémia, que sempre tivera um fraquinho por mim, e que, coração de mulher, se desfazia agora em desvelos comigo, enternecida pelo meu desamparo e extasiada pela minha coragem solitária... Isso refulgia no modo como me recebia à porta do hospital, como me olhava o tempo em que eu deambulava pela urgência, a barba já despontada pelo orvalho nocturno; como vinha confirmar a ampola de Buscopan, que eu prescrevera a uma cólica, vidro que pousava na minha mão como um passarinho palpitante, perguntando:

“É mesmo isto que o Dr. Pedro quer que dê?”
E eu, seco e breve:
“É, irmã...”, que outra porra mais poderia ser; enquanto ela retirava mansamente a ampola da minha palma, num imperceptível contacto sacro-profano.
Gandulo que se julgava familiarizado no trato com mulheres, sentia-me muito pouco à vontade com aqueles borboleteios; nunca fizera parte das minhas tentações ou fantasias um restolho que envolvesse hábitos, entrefolhos, toucas engomadas e pecados capitais!
E tal como o pessoal de enfermagem do hospital me poupava solicitações, também os próprios doentes pareciam imbuídos desse espírito, que, no caso deles, não se traduzia em me pouparem e, por ventura, aparecerem menos a solicitar consultas, mas sim na mais benévola tolerância ante o comportamento idiossincrático que fui desenvolvendo ao longo daquele mês solitário em que trabalhava de mais, bebia de mais, comia de menos, tomava comprimidos a mais e dormia tão esfarrapadamente que não recuperava do cansaço. As olheiras cavaram-se-me e o bigode descaiu-me, avitaminado. Passei a andar, em permanência, com óculos escuros e tornei-me um tudo nada excêntrico... Uma tarde, após examinar trinta  doentes, senti o alívio de ver sair a porta do gabinete a última ficha, e pus-me a fumar um áspero Além-Mar, marca de que andava a fumar agora. Estava a esborratar a pirisca no cinzeiro e preparava-me para sair quando me pareceu ouvir vozes abafadas no corredor. Ora eu já acabara todas as consultas marcadas para o dia e as urgências que chegassem eram, se surgissem durante a minha permanências nas instalações, anunciadas por telefone pela secretaria. Espreitei pela fechadura da porta do gabinete, buraco que enquadrava os bancos de espera do corredor. E vi, ali alapados e com ar de quem espera médico, umas quatro ou cinco almas. Ora eu já acabara as consultas marcadas para o dia e as urgências que chegassem... Em silêncio, despi a bata e abri cuidadosamente a janela,  abençoadamente deitando para a fachada do hospital e para a liberdade. E como o consultório ficasse no rés-do-chão, saltei com facilidade do parapeito para o exterior. Mas, pouca sorte, na soleira da porta de entrada do hospital, esperavam mais duas ou três alminhas que, não querendo esperar na obscuridade do corredor, gozavam ali a fresca da tarde. Ao verem-me, no desfecho do salto, desataram a falar alto, a dizer:
“Ele está aqui, ele está aqui; vai a fugir...”
O que era inteiramente o que estava a acontecer. Mal aterrei no solo, desembestei em direcção a casa, distante uns cinquenta metros do hospital. Enquanto corria e tirava a chave do bolso, ia olhando para trás e vendo os doentes correr atrás de mim e, agora já a meter tremulamente a chave na ranhura, considerando-os como o bando de zombies que, numa fita de terror, persegue o herói a ver se lhe chupa os miolos. Se eu ao menos conseguisse abrir a porta antes que me tocassem... Consegui, subi as escadas duas a duas, escancarei a janela do meu quarto, que dá para a frente da casa, e desatei a ralhar em altos brados com aquela gente, que me olhava muito séria, destratando-os por me deixarem em paz.
“Voltem amanhã, vejam se têm respeito....”
Casa dos Magistrados: a janela do meu quarto, 1979.
Cordatos, eles lá se foram, sem me levar a mal. Sabiam da minha história triste e voltariam no dia seguinte para me examinar melhor.  
Aos fins de semana eis-me caído nos bailes e, como o tempo ia famoso, preferia os da Filarmónica, ao ar livre, onde me podia sentar numa mesa só minha, a beber as minhas cervejas, os meus conhaques, consolado, sem grande separação de sexos como no Clube, e observando a banda de perto. Lá estava o Gasparinho, perdigotando no trompete, acompanhado pelo Gonçalves, malandro, moreno e barbudo como um cigano, agora longe do jugo da oficina de automóveis e balanceando capciosamente a boca bojuda do saxofone-tenor na minha direcção se acontecia desfilar uma jeitosa à frente do canto onde tocavam. E a D. Nizalda, com um sorriso mais aberto do que na igreja, dedilhando os seus acordes seculares, sentada à mesmíssima organeta que usava na Igreja Matriz.
Era interessante: agora, que estava sozinho na Graciosa, raramente alguém se  sentava à minha mesa. Quer dizer, podia acontecer, mas não permaneciam muito tempo, nem que os convidasse para um copo. Agradeciam, partiam, por vezes o meu consumo ficava pago. Como se me quisessem deixar com os meus botões, ou seria por receio de represálias, medo que contassem ao Gui L.? Mas esse nunca aparecia nos bailaricos, não era visto, e nas poucas vezes que lhe passara perto evitara olhar-me.
À terceira ou quarta cerveja, a paliçada de paus de cabeleira ganhava contornos difusos e sentia-me com lata suficiente para ir convidar uma chavala ao seio do matriarcado. Sucedia poder começar com a Libinha e trocar larachas e provocações durante a dança, a que ela respondia de pronto, o queixo de baixinha levantado de afirmação e desafio e o olhar coruscante – um gesto muito seu, fazendo-me rir, fazendo-nos rir; mas, mais tarde, quando a nostalgia alcoólica me beijava as mangas, o chamamento da Sãozinha, sentada ao lado da tia, tornava-se poderoso e, guardas baixadas como uns suspensórios, lá estava a convidá-la, bolero após bolero, tornando o sorriso da D. Crisália autónomo como o do gato de Cheshire. Num desses enlaces, perguntei-lhe ao ouvido – de outro modo não se ouvia o que dizíamos – se já alguma vez fôra à Senhora do Monte.
“Monte da Senhora da Ajuda? Claro que fui”, disse ela, “toda a gente que é de cá já lá foi...”
“É um sítio muito especial...”, respondi tentando enxaguar a banalidade com que  se referia ao local.
E como ela considerasse o assunto encerrado e eu pressentisse a música no estertor, atirei:
“Não quer ir lá visitar aquilo comigo, no Domingo?”
“Se puder...”, respondeu com simplicidade.
“Passo no Açucareiro depois do almoço e, se a vir, podemos então ir...”
A música acabou, deixei de ter pretexto para estar junto dela e fui-me da Recreativa. Já era Domingo, precisava de me recompor para o eventual passeio.


23 agosto 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 35. O som distante das vozes

Vista da ilha Graciosa, Açores.
Agora que o Verão se aproxima do fim, a ilha está menos verde e, vista de cima, tem certo ar crestado, o que talvez explique a razão pela qual Raul Brandão lhe chamou ‘ilha branca’, o gajo deve ter passado por aqui nesta época do ano.
Nada como o realmente: na Secretaria Regional ficaram tão impressionados com a  minha antecipação da vinda por uns dias que me fizeram viajar até aqui num Puma só para meu uso; fiz a viagem no cockpit, a trocar larachas com o piloto e o copiloto, também eles contentes por um volteio sobre o mar sem grande responsabilidade.
Quando cheguei a Angra fui ter ao hotel e, como ninguém me esperava, a minha aparição foi um estouro. Só o Schmutzer pareceu ficar perturbado, como se lhe tivessem trocado as voltas, e pôs-se, ao jantar, com considerações sobre a gravidade da situação, as consequências que poderiam advir para o Rui do ‘abandono’, o regulamento não sei de quê...
“Cala-te, caralho”, ladrei-lhe, corroborado pelo Paulo e por um Senra sorridente, “deixa-me comer a merda do ananás em paz...”
“Vais ver, vais ver; na Direcção Regional dizem que...”
Mas a Direcção Regional, e o seu mais digno representante em carne e osso, o Porão da Nau, estava feliz com o meu regresso temporão e a perspectiva de, no dia seguinte, ter outra vez um médico em Santa Cruz da Graciosa deleitava-o. Por isso arranjou helicóptero como quem tira um monco do nariz e me prometeu mundos e fundos, inclusive que, em questão de dias, teria um colega a ajudar na Graciosa..., até que o problema se resolvesse.
“Estamos a trabalhar nisso, Serrano...”, disse quase comovido.
Aproveitei para relembrar que ainda não nos tinham pago um tusto da infinitude de horas extraordinárias que nos deviam por estarmos de urgência dia sim, dia não.
“Estamos a trabalhar nisso, Serrano...”, repetiu, quase convencido de que falava verdade.
E aqui vou, apetrechado de asas, quase a lamber o sal do mar, as apreensões sobre a chegada momentaneamente suspensas na atmosfera.

Acabei por me despedir à pressa de toda a gente, fui à porta de uma imensa enfermaria para um último adeus a uma João trajada de enfermeira e sumi-me entre o público do aeroporto de Lisboa, brevidade de que não desgostei, acho que me veste bem sair à francesa de um local ou de uma situação: quando olham, ou dão por isso, já fui, nem sequer me despedi segundo as fórmulas das despedidas. É uma estética e uma filosofia, digamos. Na véspera da partida fomos jantar a casa da Isabel Silva Lino, uma amiga da João que mora em Carnaxide e é casada com um piloto da TAP. Têm uma filhinha chamada Joana, parecem mesmo uma família, um modelo a seguir, e a pequena sala de estar deles, onde ficamos a dormir para que eu estivesse mais perto do aeroporto, não tem porta, está separada do resto da casa por uma cortina de toquinhos de bambu, o que produz um balsâmico farfalho a espanta-espíritos cada vez que passamos através dela. Na tarde do último dia comprei um LP do George Benson com uma capa muito estival e, surpresa, em que o guitarrista de jazz canta em duas das músicas e, Deus meu, com que voz e com que estilo! Uma das canções chama-se “This Masquerade” (1) e, se bem entendo a letra, fala de dúvida, de relações amorosas em que nunca é dito o que devia ser dito, de ambiguidade, incerteza e, a mim, calha-me como uma luva, pelo que deixei o disco à guarda da João enquanto volto à ilha, nem sequer temos gira-discos por lá. Na outra vez que por aqui estive deixei-lhe uma cassete com o espírito de uma velha canção francesa do Charles Trenet, mas na versão menos derradeira do Nat King Cole (2), que fala das mesmas incertezas e finais dúbios das relações sentimentais – estou aqui ou não, estou dentro ou fora, será isto para durar? – mas, em qualquer dos casos, não me queiras mal que não é isso que eu te quero, e, se isto não der, recordarei estes dias com ternura.

 Goodbye, no use leading with our chins
 This is where our story ends
 Never lovers, ever friends.
 Goodbye, let our hearts call it a day
 But before you walk away
 I sincerely want to say:
 I wish you bluebirds in the spring
 To give your heart a song to sing
 And then a kiss, but more than this
 I wish you love.
 And in July a lemonade
 To cool you in some leafy glade
 I wish you health
 But more than wealth
 I wish you love.
 My breaking heart and I agree
 That you and I could never be
 So with my best, my very best, I set you free.
 I wish you shelter from the storm
 A cozy fire to keep you warm
 But most of all when snowflakes fall
 I wish you love.


Uma das muitas vantagens das canções é que são plásticas e servem vários fins e diferentes circunstâncias e, em Janeiro, antes de embarcar para os Açores e para uma ausência tão desmesurada, deixei, em jeito de despedida musicada, um bilhete no quarto da minha irmã mais nova, que tem catorze anos, para que fosse ao meu quarto vazio escutar a 4.ª música do lado A do álbum pousado no prato do gira-discos, este “I Wish You Love”, cantado por Mr. Cole num show ao vivo no hotel The Sands, em Las Vegas (3). Era tudo quanto lhe desejava para o futuro próximo e o distante: pássaros azuis, amor, limonadas no Verão e uma lareira no Inverno e, quanto a este aspecto, bastava que descesse as escadas da casa onde ainda morava com os meus pais, havia lá sempre uma a carburar nos meses frios. Pobrezinha: a nossa irmã mais velha já casara e tinha a sua própria casa e, com a minha saída, ela ia ficar ali, sozinha, percebendo cedo o que é um quarto vazio e o som distante das vozes.

Susana, minha irmã mais nova, 1978.




(1) Breezin’, 1976. “This Masquerade”, de Leon Russell, excerto: “Are we really happy with/This lonely game we play/Looking for the right words to say/Searching but not finding/Understanding  anyway/We're lost in this masquerade./Both afraid to say we're just too far away/From being close together from the start/We tried to talk it over/But the words got in the way/We're lost inside this lonely game we play./Thoughts of leaving disappear/Each time I see your eyes/And no matter how hard I try/To understand the reason/Why we carry on this way/And we're lost in this masquerade.”

(2) “Que Reste-t-il de nos amours?” (“I Wish You Love” na versão inglesa), música e poema de Charles Trenet, letra inglesa de Lee Wilson.

(3) Nat King Cole – At The Sands, 1960.

21 agosto 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 34. Os papeis do Leonel

Não sei o porquê mas, na minha tenra idade, imaginava uma Direcção-Geral como um local aceso de actividade, borbulhante na produção de decisões que não podiam tardar; onde trabalhariam, após cuidadosa selecção curricular, técnicos de excelência, como hoje se costuma dizer para categorizar pessoas e serviços como se fossem presunto de região demarcada.
A Direcção-Geral de Saúde, onde, nessa tarde, entrava a primeira das muitas vezes que lá entraria nas décadas seguintes, não poderia parecer mais distinta daquilo que imaginava... A nossa entrevista, com um subdirector-geral, era num dos pisos superiores do edifício e, para lá chegar, fomos trepando uma escada estreita que se contorcia por ali acima, apertada entre a parede e o poço de um elevador, como o acesso a um campanário. O silêncio era total e uma modorra de siesta reinava, apenas perturbada pelo enrolar e desenrolar dos cabos do ascensor. Em cada um dos pisos, na antecâmara dos gabinetes, havia uma mesinha por trás da qual estacionava uma senhora de bata que levantava os olhos ao ver-nos passar, mas sem deixar de esventrar meticulosamente, com uma faca para papel, os cadernos de um Diário da República ou de lambuzar selos em envelopes. Uma delas, levantou-se quando tentávamos transpor o umbral da sua secção, quis saber ao que íamos – eram contínuas, humildes guardiãs do templo.
“Vimos à procura do Dr. Leonel Barreira, ele está à nossa espera.”
O Dr. Leonel Barreira era um senhor de meia-idade, muito polido e sereno como um Buda. Mandou que entrássemos para uma sala e convidou-nos a sentar a uma bela mesa redonda, de madeira envernizada e marchetada com frisos dourados, enquanto se dirigia a uma secretária e remexia um monte de papéis. Em seguida, voltou à nossa companhia com uma capa de cartolina que continha apenas dois magros papéis dactilografados.
“Ora então os colegas, sem bem compreendi, foram deslocados para a ilha... Graciosa... no âmbito do Internato de Policlínica...”, disse como quem quer introduzir um começo de história.
“Serviço Médico à Periferia...”, corrigiu um de nós, “e não deslocados, escolhemos nós mesmo o destino. Aliás, fomos os únicos voluntários do país para a ilha...”
Ele levantou a cabeça do papel, que lia à socapa para se por a par do assunto, e olhou-nos, um pouco admirado, pareceu-me.
Depois, vendo que o homem estava a leste do paraíso e compreendendo que a batata quente lhe caíra em cima à queima-roupa, resumimos-lhe a história: o sermos apenas dois onde estavam previstos quatro, a falta de enquadramento e apoio por parte dos médicos mais velhos do hospital de referência – a 50 km de distância e com o mar pelo meio, o isolamento profissional e, o apóstrofo da questão, a cena com o presidente da câmara. Ele ouvia-nos com atenção e, apesar de se manter impávido, não conseguia deixar de manifestar espanto, traduzido, sobretudo, no modo como pedia para confirmarmos certos passos da novela.
“Dizem então que esse senhor vigiava a vossa casa? Pessoalmente?”
“Bem, a gente nunca o viu em cima do banco; é o que corria...”
Outra coisa que o intrigava era o que “esse senhor” poderia ter contra nós, uma vez que, segundo parecia, fazíamos o nosso trabalho e nem sequer dependíamos hierarquicamente dele.
“Aliás, o colega, informou olhando o Rui, como delegado de saúde depende hierarquicamente desta casa...”
Não fazíamos ideia, julgávamos até que dependíamos apenas do Porão da Nau e de nós mesmos, pois era isso a que estávamos habituados. Explicámos aquele que era o nosso entendimento da questão: os calores mal-arrefecidos da independência dos Açores, o eles acharem que éramos todos representantes do comunismo internacional – particularmente do Caribenho, tendo em consideração o epíteto de ‘cubano’ com que nos mimoseavam. O homem suspirou, fechou a cartolina do processo e passou uma mão, que flutuou a centímetros da capa, como se dali não se conseguisse espremer mais nada.  
“Imaginando que isto se resolve, o colega regressaria à ilha e ao seu trabalho?”
“Desde que me consigam garantir, com um mínimo de segurança, que não levo um tiro nas rótulas ou que me limpam o sebo...”, clausulou o Rui as suas condições.
“E quanto ao colega?”, perguntou ele virado na minha direcção.
“Eu?! Eu estou de férias, Sr. Dr., férias programadas e autorizadas; quando acabarem regresso ao trabalho...”
Embora não o tenha pronunciado, o Dr. Barreira pareceu aliviado com as respostas; disse apenas:
“Pois... É que uma ilha sem médicos, isto é: de repente sem médicos...
Cá fora estava uma tarde quente e indiferente. O Rui quis saber o meu balanço:
“O que achaste?”
Encolhi os ombros, não tinha bem a certeza do que achava.
“O gajo pareceu-me decente, acho que estava a leste de tudo, mas que ficou a perceber a cena; vamos ver...”
O Rui despediu-se, disse que ia para cima, para o Porto ou Guimarães, esperar no que davam as coisas. De uma coisa tinha a certeza: não ia voltar sem garantias. E perguntou:
“E tu, para onde vais?”
“Por agora, vou para Cascais, já terminei a peregrinação lá por cima. Depois, não sei – ainda tenho uma semana por cá, mas não sei...” 
E como um táxi descesse a alameda, fiz-lhe sinal e mandei bater para Cascais.

16 agosto 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 33. Um telefonema inesperado

Cascais (final anos 70).
Em Lisboa apanhei um táxi para Cascais e desta vez resolvi registar-me no hotel Nau, igualmente central e a dois passos da estação, mas com um nome e um perfil branco de vapor que me agradou, agora que o meu mundo regular era predominantemente marítimo. Do outro lado da rua havia um cafezinho atraente, com mesas de bancos altos e uma diminuta esplanada que vendia umas sanduiches de ovo e alface deliciosas, talhadas em triângulo e acondicionadas em papel celofane transparente. Nunca tal vira.
Fiquei-me uns dias por ali. Íamos na Vespa vermelha até ao Guincho e se a praia estava demasiado ventosa vegetávamos num dos tabiques com vista para o mar do bar-restaurante-hotel Muchaxo, uma construção encarrapitada nos rochedos fronteiros à praia, num rústico pseudo-mexicano como orientação arquitectónica e pormenores algo surreais como um pátio interior onde havia aves marinhas de asas cortadas, para que não escapassem ao cenário. Um dia, à noite, já tarde, a João levou-me à casa da rua Cesário Verde, onde estivemos na sala a conversar em voz baixa para não incomodar nem chamar a atenção de quem já dormia no andar de cima. Pareceu-me outra, talvez mais meditativa, aquela sala onde, uns oito meses antes, entrara pela primeira vez para uma ruidosa sessão de chucrute.
Depois voltámos a Sintra, a revisitar o mesmo quarto com mobiliário antigo e livros pelas paredes, aos passeios desencontrados pela serra e pela vila, sempre na esperança de encontrar o Alencar numa vereda de luz flutuante. Na Quinta dos Lobos não havia um serviço de recepção permanente e eram os próprios hóspedes que abriam quer o frigorífico quer o portão exterior, ou a porta que dava acesso à moradia. Uma noite, em que regressámos particularmente tarde, franqueámos o portão com todas as precauções e, para não correr o risco de incomodar alguém, percorremos calados e em passo leve o caminho até à entrada. Estávamos a poucos metros da porta quando sentimos, mais do que ouvimos, um movimento ao nosso redor e nos vimos cercados pelos dois elegantes e assustadores dobermanes que, nas palavras calmantes dos donos, estavam sempre acorrentados no canil durante a noite e jamais na situação de se aproximar dos hóspedes sem supervisão. Bem, nessa noite não estavam e, por um minuto, estivemos ali, transidos e congelados, até que a voz do dono se deu conta e nos veio salvar dos terríficos vigilantes que, na perfeição, cumpriam o seu papel.
A pouco e pouco, sobretudo no idílio de Sintra, o meu coração foi sossegando e a ilha foi recuando na minha mente, aliviando os meus dias, mas como tudo tem um reverso, incubando a ideia penosa de que, mais semana menos semana, mal as férias terminassem, teria de voltar. Mas entretanto...
Muchaxo, interior.
De Sintra, regressámos a Cascais e daí apanhei um táxi directo ao Porto, para ir a casa – ou antes, à casa dos meus pais – onde não punha os pés desde Janeiro. Eu já não sabia bem como designar aquela casa – reflectia, pesaroso, no assento de trás do táxi enquanto o ar da tarde quentíssima invadia o interior – e oscilava entre “a casa dos meus pais”, quando a referia a terceiros, ou “a minha casa”, sempre que a pensava para mim mesmo ou para os muito próximos e que sempre me tinham visto por lá. Mas o certo é que já não morava ali há dois anos e depois dela morara em duas casas em Guimarães e numa terceira em Fafe. (E por falar em Fafe tinha de ver se sacava uma tarde para  revisitar a D. Maria e o Sr. Marques, o casal em casa de quem acampara durante os oito meses em que por lá estivera com o Rui e o Zé Pedro Moreira da Silva, meus colegas de estágio durante o Internato de Policlínica). Agora não tinha automóvel (vendera o Fiat 128 antes de abalar para os Açores), mas podia cravar alguém para ir comigo, ou apanhar um táxi. E em Guimarães havia sempre quem me desse dormida, começando pela D. Antonina e o Sr. Ribeiro, donos do restaurante As Trinas, casal que nos adoptara ao fim de tanto termos almoçado e jantado no seu restaurante, uma adopção tão completa que o Rui guardava lá pijama em permanência e, os dois, dispúnhamos de quartos de dormir à disposição, bem como grátis e incontáveis petiscos regados a Pasmados tinto e whisky Dimple, todos estes mimos a pouco mais de cem metros do hospital.
E regressava, precisamente, desta peregrinação, as ilhas cada vez mais esfumadas no horizonte da consciência, quando, um dia, o Rui telefonou. Estava em casa dos meus pais, a ver passar os dias antes de regressar ao sul, e vem a minha mãe, em toda a naturalidade, e diz que ele está ao telefone. Ora se para ela era trivial, para mim era-o bastante menos; nós não costumávamos telefonar-nos em circunstâncias destas, havia uma espécie de pacto não explícito de descansarmos um do outro, de não chatearmos o outro enquanto ele desopilava e vogava por outras paragens e, desta vez, esse era o meu caso.   
A voz soou-me estranhamente próxima, limpa do eco e ruídos de fio telegráfico das ligações entre o Continente e as ilhas, e rapidamente fiquei a saber que o Rui estava em Lisboa, de facto chegara na véspera. Um ponto de interrogação estrebuchava na minha mente: mas como era possível? Eu viera de férias e, por quase vinte dias, ele ficaria como único médico da Graciosa... Como era possível que me estivesse a falar da casa da Paula e do António, uns amigos que moravam nos arredores de Lisboa?
A casa dos meus pais no Porto (final anos 70).
A razão era a mais bizarra. Uns dias antes, Gui B. Louro, o próprio, recorrera a consulta médica e, coerente com o seu jeito de quinteiro, entrara pelo consultório do Rui dentro sem mais aquelas, ultrapassando tudo e todos e impondo a presença na consulta que decorria. Queria uma consulta, já, e ele mesmo estabelecia o nível de urgência. Bem, o Rui pode ser um gajo com um feitio péssimo e, sem mais, pô-lo dali para fora, enviando-o a marcar vez e esperar, como os outros que lotavam os bancos de espera. Foi nesse contexto, perante toda a gente, em pleno corredor, que o homem, possesso, o ameaçou fisicamente e fez as promessas de que ele ir ver o que lhe iria acontecer em breve. O Rui não esteve com mais aquelas: pôs-se a andar da Graciosa, passou pela Terceira a relatar o sucedido, fazendo notar que não regressaria à ilha enquanto não tivesse garantida a sua integridade física e, finalmente, apanhou um avião para Lisboa. Como seria de esperar a notícia caiu como uma bomba, o Porão da Nau entrou em opistótono, a Secretaria Regional do Assuntos Sociais informara Lisboa do incidente e agora alguém no Ministério da Saúde, ligado à tutela do Serviço Médico à Periferia, queria falar com o Rui. Será que eu poderia ir com ele? Sempre ajudaria a explicar os antecedentes.
“Claro. Quando é que tens de ir lá?”
“Fiquei de telefonar a um gajo da Direcção-Geral de Saúde, a marcar...”
“Isso é onde?”
“Em Lisboa, numa porra duma alameda qualquer...”
“Então marca e diz; vou aí ter.”

Tomei um táxi para a capital e, pela viagem abaixo, fui sentindo, como um sopro no coração, que ainda agora não existia e agora já lá mora, que talvez as minhas férias estivessem por um fio.