25 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 44. Epílogo

Nunca mais voltei aos Açores, nem ideia de lá voltar tão cedo enriquecia as minhas intenções. Mas o tempo rodou e, na segunda metade dos anos 80, quis o acaso que integrasse uma Comissão, dependente de serviços centrais do Ministério da Saúde, com atribuições na formação e especialização de médicos. E decidiu o presidente desse grupo que, anualmente, uma das reuniões de trabalho da Comissão tivesse ordinariamente lugar nas regiões autónomas; seria um modo de acompanhar in loco o que ali se passava.
Nos Açores reuníamos alternadamente em S. Miguel, na Terceira ou no Faial, este último o destino secretamente preferido da maioria, pois aquele conjunto de três ilhas à vista umas das outras – Faial, Pico, S. Jorge – animava o mar e diluía a sensação de isolamento; o aglomerado era, por si só, um mini-arquipélago de brinquedo.
O esquema da visita de trabalho obedecia, sem rigidez, a um modelo prático: íamos chegando ao destino na quinta à tarde, na sexta era o dia da prolongada reunião e, no Sábado, vestíamos a pele do turista e dávamos uma volta pela ilha antes de regressar ao Continente no dia seguinte, de manhã ou à tarde conforme os voos. Nessas excursões de Sábado era-nos geralmente posta à disposição uma carrinha e um colega local acompanhava-nos no passeio, durante o qual ia identificando e explicando os locais onde passávamos. Por vezes, ganhando certa cor de cronicidade com o decorrer dos anos, de um dos bancos da camioneta surgia uma pergunta que se me destinava:
“Não foste tu que estiveste aqui na Periferia?”
“Sim”, respondia, monocórdico, “mas não foi aqui, foi na Graciosa...”
Já mais recentemente, numa dessas viagens insulares da Comissão ao Faial (Comissão que evoluíra e se chamava agora Conselho), demos, no Sábado, uma volta pela ilha e, porque já fôramos incontáveis vezes visitar o vulcão dos Capelinhos e o museu adjacente, levaram-nos a esmiuçar as vistas da costa norte da ilha. Era um dia de Verão – talvez Junho ou Julho –, uma fina poalha, feita de evaporação, pairava no ar e eu seguia amodorrado no meu assento, olhando a paisagem sem a ver, sonolento e a pensar como seria bom parar para um café.
Às tantas, senti a carrinha abrandar à berma da estrada e, estremunhado, inquiri ao outro lado da coxia:
“O que é, porque paramos?”
O meu interlocutor encolheu os ombros, acrescentou: “Algum miradouro, alguma ermida com azulejos ou talha dourada...”
Maquinalmente, fomos deixando o veículo e, quando desci os degraus, havia já gente de mão em pala na testa ou a assestar a máquina fotográfica. Encabeçando um amontoado de três ou quatro almas, a colega do Faial avançara até à ponta da arriba e, esticando o braço, informava:
“Conseguem ver, ali ao fundo? É a Graciosa... Hoje estamos com sorte, pois nem sempre se vê.”

Olhei, franzi os olhos, quase desafiei o horizonte, mas o máximo que consegui individualizar, quase imaginar, lá longe, no limite do azul, foi uma linha brilhante   que tanto podia ser terra como um reflexo de luz boiando à tona do oceano.
  FIM

© Fotografias, cima para baixo: 1. Praia da Vitória, Terceira, 1995, fotografia de José Marques Neves; (2) Graciosa, fotografia de Líbia Correia da Silva.

23 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 43. O barco está ancorado ao largo

Ilha Graciosa.
O barco está ancorado ao largo, os baús seguem já mar fora no escaler, empinados para que o resto da carga a embarcar caiba; faço ideia como as coisas que arrumei, tão pressurosa e logicamente, devem ir lá dentro! Graças a Deus decidi levar o Aiwa na bagagem de mão, pois assustaram-me as informações sobre o futuro levantamento dos baús em Leixões. Quando chegarem, sabe-se lá quando, terão de ser desalfandegadas como se estivessem a chegar da Venezuela ou de Beirute e o Aiwa, japonês e comprado no Porto, iria, certamente, ser tomado como contrabando americano! Vamos ter de contratar um despachante, pagar não sei quantas taxas, como se estivéssemos a importar um bem do estrangeiro e os Açores não fossem território nacional. Por tudo o que vi este ano de ambos os lados do oceano, quase duvido que o seja.
Lá longe, um guincho puxa uma rede de carga até ao convés, os baús não são mais do que caixas de fósforos suspensas no vácuo. O escaler regressa à enseada para nos buscar. A Luísa e a Marília vieram despedir-se. Comecei a enfiar coisas na arca há uma semana, como modo de selar e tornar sem retorno a última discussão que tivemos com o Porão da Nau. Janeiro a desaparecer do calendário e ele a insinuar que poderíamos ter de ficar mais algum tempo, entrar por Fevereiro dentro, tornar indefinido o regresso.
“No dia 1 de Fevereiro, o mais tardar, saímos daqui. Se não tiver ninguém para nos substituir, pior, o problema é do senhor...”
A isso acrescentámos a lembrança das urgências ainda não pagas, ameaçámos que iríamos passar por lá a buscar o dinheiro, que não sairíamos dos Açores sem ele, e mais outras exaltações de que nos lembrámos no momento. Como paga, nada de helicóptero para o regresso: se queríamos ir embora, então que enjoássemos o mar de Inverno, que amarinhássemos por escadas de corda bamba.
Ilha Graciosa.
À força de “Ei!” chamam-nos do escaler, urgem-nos a que nos apressemos, o mar está bravio, a tarde avança. A Marília e a Luísa abraçam-nos, estão comovidas por ver os companheiros de exílio partir, o coração pequeno por ficarem. Pela metade do trajecto até ao barco ainda acenam do porto, depois tornam-se ciscos quase indistintos, iguais aos outros que deambulam em terra.

Do convés fico por um tempo a ver a ilha afastar-se, primeiro parece aumentar de tamanho à medida que se alarga o seu contorno, em seguida vai recuando, recuando, até se tornar um rochedo como outro qualquer, nem parece haver  sinais de vida por ali. Sinto o frio e vou para dentro.

19 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 42. O passeio do almirante

Ilha Terceira, Janeiro de 1980.
Apesar do caos anunciado nos noticiários, havia táxis no aeroporto. O nosso motorista era um tipo do género calado e fez a viagem entre as Lajes e Angra em silêncio. Ou talvez não fosse esse o seu género e o que acontecera o tivesse emudecido. Alinhei pelo diapasão enquanto ia olhando, incrédulo, as ruas e ruas de casas destruídas, sem telhados, de paredes esboroadas, traves-mestras caídas ou penduradas como se fossem palitos. Tudo deserto. Onde estavam as pessoas? Tinha passado ali um exército e, alertadas, as gentes anteciparam-se e fugiram, ocorreu-me ao cruzarmo-nos com dois jipes americanos... O ar, outrora tão límpido e marítimo, estava espesso, amarelado, devia ainda haver muita poeira suspensa no ar, que ainda não tinha tido tempo de assentar e conspurcar o verde vivo dos campos com as cores do deserto.
A meu lado, o Paulo reagia desajustadamente aos estímulos visuais e, cutucando com frequência o meu cotovelo, apontava uma ruína especialmente vistosa, como um poste eléctrico meio tombado com os fios ainda pendurados, e dizia:
“Já viste aquilo?”, após o que se torcia de riso, um riso contido, de mão na boca, mas suficientemente estridente e disparatado para o chauffeur começar a espiar-nos pelo retrovisor. E assim fomos até ao Hotel Angra, entre risadas e silêncios, e era tudo tão absurdo que me senti supérfluo quando, ao pagar, confessei ao homem:
“Desculpe o meu colega. Quando fica nervoso, dá-lhe para rir...”
Na Direcção Regional, tropeçámos num Porão da Nau enlouquecido de iniciativa; foi inútil ficarmos à espera nas cadeiras em frente à sua secretária, como nos tinha mandado com um “sentem-se, venho já...”
Não vinha. Entrava, sentava-se, puxava uns meios-óculos para o nariz e logo se levantava com um papel, saía; ouvíamo-lo atender um telefone na sala ao lado, gritar com uma secretária. Numa das passagens pelo gabinete, como se tivesse acabado de fabricar a notícia, informou:
“Serrano, está tudo combinado. Amanhã, o almirante Silva Horta vai fazer um reconhecimento às ilhas do grupo central, deixa-o na Graciosa. Vá ter às Lajes, de manhã, cedo...”
“A que horas, mais ou menos?”, quis saber, estranhando, ao mesmo tempo, que um almirante se fizesse ao mar por uma base aérea.
Ele encolheu os ombros. Tinha mais o que fazer.
Ao contrário do que podia supor, a boleia foi em helicóptero e não numa fragata ou num contratorpedeiro e o almirante não apareceu vestido em brancos e dourados, como o homem dos gelados. O almirante Silva Horta[1] era um afável senhor de fato e gravata, dos seus cinquenta e muitos e ar britânico. Desempenhava o cargo de Ministro da República para os Açores – uma espécie de governador civil de luxo – e o seu maior interesse naquele giro por sobre as ilhas era verificar o que se passara em S. Jorge onde, constava, uma ponta da ilha teria rachado e caído ao mar, populações inteiras isoladas que urgia evacuar. Em caminho pousariam na Graciosa para me despejar.
Almirante Silva Horta.
Assim se passou e sobrevoámos primeiro S. Jorge, onde, de facto, uma das extremidades da ilha abatera e caíra à água. Com o tempo, o que não ficasse sepultado no mar transformar-se-ia numa nova fajã: tornar-se-ia verde e fértil, construir-se-ia naquele novo território que passara de vertical a horizontal. Ainda se notavam as monstruosas fissuras e a rocha parecia viva, como se ainda estivesse a sangrar pela zona da brecha. No interior do helicóptero comentava-se que pedaços inteiros de floresta tinham mergulhado no mar, a pique, e que uma lâmina de água se elevara até quase atingir o topo duma arriba. Seis pessoas morreram e três estavam desaparecidas, mas ninguém contava revê-las, pois, à hora do abalo, andavam muito perto da zona da fractura.
Na Graciosa, pelo contrário, não morrera ninguém, havia algumas casas  destruídas  e o aumento de urgências no hospital ficara a dever-se ao pânico e à descompensação de situações psiquiátricas. Nas enfermarias, preventivamente, as camas tinham sido afastadas das paredes alguns palmos, o que conferia um estranho ar ao local, como se os leitos fossem jangadas a vogar num soalho encerado.
Até deixarmos a ilha, quase um mês mais tarde, a terra tremeu diariamente. A maior parte das vezes não nos dávamos sequer conta, outras estávamos a jantar e o lustre da D. Irene fazia tilintar sobre as nossas cabeças o vidro dos penduricalhos prismáticos. Outras ocasiões, era o boneco de porcelana sobre a TV dos Barcelos que tremia, suspendíamos a atenção à telenovela e olhávamos uns para os outros por uns segundos, não muitos.
No dia seguinte, remexendo o seu café cheio no Açucareiro, o Sr. Medina perguntava-me pela réplica, se sentira a da véspera.
“Qual delas, Sr. Medina?”, inquiria-o, irónico.
Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, Janeiro 1980.
“A das 20:35”, dizia ele muito sério, fazendo-me pensar ser bem possível que mantivesse uma anotação sistematizada dos abalos no papel pautado do Tribunal e que seria, por isso, algo arriscado retorquir-lhe com um:
“Essa, confesso que não, só a que passou às 21 e 22...”







(1) Henrique Afonso Silva Horta (1920/2012), almirante da Marinha. Governador de Cabo Verde na fase de transição para a independência, e Ministro da República para a Região Autónoma dos Açores, 1978-1981.


17 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 41. Primatas agitados

Porão da Nau.
Nos primeiros dias de Dezembro, ao, finalmente, encaixar a amplitude da pulsação dos médicos da Periferia que ainda restavam nos Açores, o Porão da Nau sentiu-se nervoso, viu-se compelido a aliviar os cordões à bolsa onde escondia os segredos do ofício.
Um pouco por todas as ilhas, a malta começara a soprar o pó às malas de porão, recalculavam-se e recombinavam-se os dias de férias restantes, para que os mais afortunados pudessem ir passar o Natal a casa e já não regressassem. Oficialmente, o Serviço Médico à Periferia iniciava-se a 1 de Janeiro e terminava a 31 de Dezembro, no dia 2 de Janeiro do ano seguinte todos devíamos estar a apresentar-nos no hospital de origem. No caso dos Açores, é certo, a nossa fornada fora enviada para o arquipélago apenas em Fevereiro, mas a responsabilidade pelo atraso era da organização, pois o rebanho estava pronto a partir desde o Ano Novo de 1979.
Claro que foi com esse pretexto legal que eles nos vieram – o de só completarmos os doze meses de missão a 31 de Janeiro de 1980 – mas, de facto, tivemos de aguentar mais um mês porque nada estava preparado no Continente para envio de uma nova remessa de médicos para os Açores e Madeira. Negligência deles, sacrifício nosso. O costume!
A raiva colectiva soergueu-se como uma onda e, como antídoto, o Porão da Nau atirou-lhe para cima com o argumento normativo de só se poder deixar um posto em caso de substituição efectiva; com o juramento de Hipócrates e mais todas as porras de que se foi lembrando. Valeu-lhe a nossa dispersão geográfica, a falta de coesão profissional, a inexperiência; o nosso representante, que defendia mais os patrões do que os representados.
Abandonados à nossa sorte, dei comigo a combinar com o Rui como iríamos fazer e ele, como passara dois meses seguidos fora da ilha e não estando demasiado interessado em ir a casa nas Festas, não se importou de ficar a alombar, sozinho, o Natal e a passagem de Ano: eu regressaria a 5 de Janeiro. Eram, precisamente, os dias de férias que me sobravam e o melhor seria queimá-los, pois ninguém me garantia que, mais tarde, no Continente, os fossem considerar válidos. Fazê-lo, seria como mudar para outro país e invocar direito alienígenas.
Parti de Santa Cruz a 22 e deambulei por uma consoada que, embora tenha posto na mesa bacalhau e peru, não foi carne nem peixe; estive por ali em jeito de corpo presente. Não posso dizer que tivesse saudades da Graciosa ou preferisse lá estar, mas acabei a telefonar para saber como ia tudo, a operadora da Terceira contente com a variação de estar a falar comigo a partir do Porto e a desejar-me boas festas, extensíveis à “mãezinha e ao paizinho”. Em Santa Cruz ia tudo rolando, os Barcelos tinham-no convidado para jantar nos dois dias de Natal; o doente da motosserra continuava internado mas “já faz jus à espécie”, como dizia o Rui para informar que já mexia o polegar contra o dedo mínimo. Fiquei muito animado com a notícia, mal entrei na sala contei ao meu pai, que ia remexendo as achas da lareira com a tenaz enquanto ouvia novidades sobre um caso que já conhecia.
Umas duas semanas antes, aparecera-nos um desgraçado na urgência, aos uivos e com o lençol que o cobria na maca alagado em sangue vivo. Aos arrancos, contou que andava a desbastar uma árvore e a motosserra resvalara sobre a mão que segurava o ramo até quase lhe decepar o polegar da mão esquerda. A zona de esfacelo era uma cagada de sangue empastado e sangue a babar; o ferimento expusera a articulação entre a primeira e a segunda falange e o nacarado dos tendões. Uma merda! Uma merda acima das nossas capacidades técnicas formais, aquilo era assunto para cirurgiões diplomados e não para estagiários como nós. Mas o tempo não desdenhava Dezembro, as brumas cobriam tudo e um vento danado, em vez de as levar, parecia arrastar mais e compor uma estola branca em torno da ilha, tornando o mar lívido e traiçoeiro. “Helicóptero, fodias-te!”, como costumávamos resumir situações similares. E, então, relembrando os ensinamentos do meu pai e do Dr. Raul Figueiredo, nossos mestres em tudo quanto sabíamos praticar na precisa arte dos barbeiros, resolvemos agir: é que os tendões quando seccionados, e à medida que as horas passam, tendem a retrair e depois não se conseguem justapor e costurar, e, sem tendões, uma mão fica como uma marioneta sem fios, isto é: parada, sem préstimo para todo o sempre. Por outro lado, se aguardássemos passivamente o bom tempo e o transporte aéreo, a mão poderia gangrenar e, quando o doente chegasse ao hospital da Terceira, só restaria amputá-la... Pesado tudo isto, para grande alegria das irmãs, o bloco operatório foi arrancado à sua tristeza fria de abandono. As luzes sobre a mesa operatória acenderam-se, os ferros cirúrgicos tilintaram nos tabuleiros e a irmã Noémia arrastou para dentro da sala um aquecedor a óleo, para quebrar a atmosfera de barco naufragado que ali reinava. Por ali estivemos – o Rui, eu e o enxame das freiras – umas boas duas horas, a laquear vasos que teimavam em sangrar, a limpar esquírolas de osso e farrapos lacerados de pele, a reconstituir, com o credo na boca, os topos avessos dos tendões. O doente gemia, lamentava-se, tentava espreitar o que lhe fazíamos; um de nós injectava um pouco mais da anestesia local, que íamos infiltrando por planos à medida que avançávamos carne dentro; brincávamos com a sua ansiedade e com a nossa:
“Não fale, amigo, senão a anestesia sai-lhe pela boca...”
Analgésicos, antibiótico, um soro reforçado para ajudar a recompor o sangue perdido. Quando chegámos a casa estávamos exaustos, tresandávamos ao fedor a preservativo das luvas de borracha; eu parecia um Quasímodo, as costas num feixe de estar tanto tempo dobrado. Pensámos telefonar aos colegas de Angra, a contar o sucedido, a pedir instruções e sugestões para o pós-operatório, mas acabei por ligar antes ao meu pai, que, ao contrário do que iria suceder com Angra, quis conhecer todos os pormenores do incidente e ouviu religiosamente a descrição dos procedimentos cirúrgicos. No seu ver experiente, tínhamos feito tudo quanto podia ser feito e, se as coisas corressem mal no futuro próximo, o pior que poderia acontecer era o homem perder o dedo, mas isso sucederia em qualquer lado, na Graciosa ou em Angra do Heroísmo. Por isso, as notícias do Rui sobre o doente da motosserra me causaram tanta satisfação e as levei, tão entusiasmado, à beira da lareira.
“Esse teu amigo é um ponto...”, ria-se o meu pai do modo darwiniano como o Rui referira o retomar da capacidade de oposição polegar-mindinho, “mas é isso mesmo. A mão pode não ficar muito bonita – acho que não vai ficar – mas, aqui, o importante é que funcione!”
A noite de passagem de ano foi uma merda, é sempre, abusei mais do que a conta e no dia seguinte, estava com uma tremenda ressaca. Por volta das quatro e meia da tarde, levantara-me há pouco, a rádio deu a notícia: terramoto nos Açores, violentíssimo, 7,2 na escala de Richter; diziam que Angra do Heroísmo ficara praticamente destruída, os mortos eram mais de cinquenta e os desalojados aos milhares... São Jorge e a Graciosa também tinham sido afectados; o epicentro fora no fundo do mar, numa linha submarina algures entre a Terceira e a Graciosa.
Açores, sismo de Janeiro 1980: localização da linha de rotura.

Tentei ligar para Santa Cruz: ninguém atendeu. Não consegui, sequer, falar com alguém na Terceira, fosse no hotel ou nos números da Direcção Regional de Saúde. Telefonei ao Paulo Amorim, que estava no Continente como eu: não sabia de nada, nem sequer do terramoto! Ficámos de nos contactar, o primeiro que tivesse notícias. À noite, já tarde, ele ligou de volta: alguém lhe telefonara, estavam a arrebanhar tudo quanto podiam no Continente, a organizar equipas e transportes. Decidimos ir por conta própria e pelos nossos meios. A minha mãe gemeu de aflição por eu partir e aquilo, lá, a abanar como um dente de leite. No dia seguinte o Paulo e eu partimos para Lisboa e a 3 de Janeiro, uma quinta-feira, muito cedo pela manhã, o avião da TAP sobrevoou a Terceira. Ia no lugar à janela e o mais parecido que vira com aquilo eram as fotografias de Londres, ou de Berlim, após os bombardeamentos, amigos ou inimigos, da II Guerra Mundial.

16 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 40. Novembro

Ilha da Graciosa, Açores.
O Rui voltou em Novembro, já o tempo atmosférico regressara ao embrulho do costume: vento forte, brumas impenetráveis e rajadas de chuva que faziam os helicópteros hesitar e permanecer agarrados ao asfalto das Lajes; mar bravio, pescadores entediados. Era em temporadas destas que podíamos estar duas  semanas sem correio, sem renovação de stocks de rum, whisky, soros e oxigénio; nenhuma cara nova pelas ruas da vila. Sair de casa, dar uma volta pela ilha para arejar, para desopilar, era empreendimento votado ao insucesso e o que se via das janelas chorosas da Dyane era tão deprimente que mais valia ficar em casa: pedra escura, mar de chumbo, céus revoltos com nuvens em debandada, chicotadas de chuva fustigadas por ventania agreste. Onde estavam os dias dourados, o azul dominante, a Senhora do Monte e as ermidas acolhedoras? Gone with the wind, como diz o outro. Nas consultas também notávamos a diferença e os corredores voltaram a encher-se de tosse e da melopeia de motor de arranque dos escarros, as camas povoaram-se com as pneumonias e a exacerbação das bronquites dos aficionados de Gold Flame, Brazão e Fama. Havia também as bronquites dos amantes de Marlboro ou Chesterfield, mas esses faziam tudo por ser observados em Angra ou Ponta Delgada, onde os especialistas lhe receitavam o mesmo que nós mas se podiam queixar do preço da consulta.
Agora, que o Outono ia adiantado, os homens que queriam ser auscultados tinham uma razão objectiva para isso e não apenas por capricho de Verão, pela tentação  em sentir o deslizar do estetoscópio ou o percutir dos dedos dos médicos de serviço num corpo excitado pelo calor e por gostos censuráveis. Nós, é claro, ficávamos lixados, ludibriados pelo tempo gasto, pela história clínica inerme que sempre debitavam, comentávamos entre nós, entre o escandalizado e o divertido:
“Hoje apareceu-me um cabrão que não tinha nada de nada, não queria nada a não ser que o auscultasse... Quando lhe mandei despir a camisa ficou nervoso como uma virgem, parecia que fazia um strip ao tirá-la!”
“A sério? Também já me aconteceu... Como era o gajo? Era um tipo magrinho, de cabelo...”
“Não, era gorducho, a ficar careca...”
Não nos recordava de jamais os ter visto, mas, dias depois, eis que os cruzávamos numa rua da vila, reconhecíamo-los atrás do balcão de uma loja ou repartição; quem diria?
“Viste a aliança?”
Aqueles, presos, sem outro remédio, ficavam-se pela ilha, pela pobre excitação de ir ao médico local, outros aliviavam-se em outras paragens, onde dariam menos nas vistas; era o que se dizia. Era o que se dizia, mas sempre em aparte abafado, na aparência tudo corria na mais maravilhosa polidez social, cada um no seu lugar a desempenhar o papel que lhe era esperado por tradição, família ou posição. Talvez à noite as coisas se tornassem um tanto mais pardas e os vultos deslizassem mais fluidos ao longo das paredes ou no segredo das quatro paredes.
Bem, mas o Rui voltou e, como ele ia voltar, o Virgílio Senra apanhou um Puma de volta à Terceira na terça-feira, dois dias antes dele chegar. E na quinta, com o pretexto de que o tempo piorara, ninguém se esforçou por arranjar helicóptero ao Rui, teve de vir no barco que fazia a rota do grupo das ilhas ocidentais.
Ilha da Graciosa, Açores.
Fui esperá-lo ao porto, se assim se pode dizer de um cais de atracação que ficava no meio das ondas. O escaler partira e um cisco longínquo descia lentamente pela escada pendurada no portaló. Ao meu lado, sentia a Marília tensa; acho que, tal como eu, se apercebia da expectativa, da quantidade anormal de gente que, para uma tarde chuvosa de Novembro, nos rodeava. Era assim, não havia mais o que fazer, o atendimento nas repartições públicas já encerrara e sempre era o médico ameaçado que regressava à casa emprestada, um filho quase prodigioso. Ele, pisou terra calmo, cumprimentando-nos com gravidade, o olhar atento por sobre os nossos ombros. Sem dúvida que algum daqueles que deambulava por ali iria levar novas aos paços do concelho, não mais do que isso; o Rui obtivera garantia de que tudo decorreria sem incidentes no tempo que nos restava.
Assim foi. Ainda em Novembro, tive um desgosto, enterrou-se-me na consciência como uma farpa. Calhara-me atender na urgência uma rapariga com alarmantes sinais de dispneia e uma auscultação desgraçada. Enquanto escutava o que lhe ia pelo tórax, perscrutava o tempo lá fora pela vidraça da janela. Não seria possível encomendar helicóptero para tão cedo, nem hoje (umas cinco da tarde) nem amanhã... A mãe ia recomendando à miúda que se portasse bem, que não se mexesse tanto. A filha teria catorze ou quinze anos, mas a sua idade mental era muito inferior e os traços da fácies denunciavam um cromossoma a mais no par 21, o que, para mim, era uma porra dum contratempo: naqueles tempos, muito mais do que agora, a esperança de vida dos mongoloides era curta e, muitas das vezes, eram os problemas respiratórios que os levavam, questão de anatomia do crânio e das vias respiratórias, que entupiam facilmente. A febre nem era assim tão alta, não que, ali, nela, tivesse demasiada importância... Chamei o Rui, para que a visse, opinasse sobre se eu estava a ver bem, se o meu alarme seria real. Internei-a no quarto entre as duas enfermarias, para que a mãe pudesse ficar junto dela e a  agitação da doente não contagiasse as outras internadas. Andei por perto o tempo todo, ia a casa, mas a apreensão fazia-me voltar ao hospital. Era difícil mantê-la com oxigénio, aquela tripinha de plástico, enfiada no nariz abaulado, incomodava-a, arrancava-a; o braço canalizado estava amarrado a uma tala de madeira para que não acontecesse o mesmo ao soro de onde pingava o antibiótico. Durante a noite afundou-se e, manhã cedo, perante os meus olhos e uma adrenalina que não serviu de nada, vi-a partir para o lado de lá com uma tremenda sensação de inutilidade... Inútil eu, inútil ela, inútil tudo aquilo, uma inutilidade pegada. A irmã Celeste, captando o meu abatimento, reafirmou a sua convicção existencial de que tudo aquilo era pelo melhor:
“Não se rale, Dr. Pedro, a esta hora já está a caminho do Céu...”
Talvez. Eu, sentindo-me livre, fui-me, caminho do Açucareiro, tomar o pequeno-almoço e um meio whisky com o café.
“Famous Grouse!”, disse o Rui quando se me juntou, reconhecendo a bebida pelo gole que tomou emprestado ao meu cálice, “estás a beber dessa merda!?” 
“Não há outro... O helicóptero não tem vindo...” 



© Fotografia ao lado: Graciosa, Novembro de 1979, fotógrafo desconhecido.