17 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 41. Primatas agitados

Porão da Nau.
Nos primeiros dias de Dezembro, ao, finalmente, encaixar a amplitude da pulsação dos médicos da Periferia que ainda restavam nos Açores, o Porão da Nau sentiu-se nervoso, viu-se compelido a aliviar os cordões à bolsa onde escondia os segredos do ofício.
Um pouco por todas as ilhas, a malta começara a soprar o pó às malas de porão, recalculavam-se e recombinavam-se os dias de férias restantes, para que os mais afortunados pudessem ir passar o Natal a casa e já não regressassem. Oficialmente, o Serviço Médico à Periferia iniciava-se a 1 de Janeiro e terminava a 31 de Dezembro, no dia 2 de Janeiro do ano seguinte todos devíamos estar a apresentar-nos no hospital de origem. No caso dos Açores, é certo, a nossa fornada fora enviada para o arquipélago apenas em Fevereiro, mas a responsabilidade pelo atraso era da organização, pois o rebanho estava pronto a partir desde o Ano Novo de 1979.
Claro que foi com esse pretexto legal que eles nos vieram – o de só completarmos os doze meses de missão a 31 de Janeiro de 1980 – mas, de facto, tivemos de aguentar mais um mês porque nada estava preparado no Continente para envio de uma nova remessa de médicos para os Açores e Madeira. Negligência deles, sacrifício nosso. O costume!
A raiva colectiva soergueu-se como uma onda e, como antídoto, o Porão da Nau atirou-lhe para cima com o argumento normativo de só se poder deixar um posto em caso de substituição efectiva; com o juramento de Hipócrates e mais todas as porras de que se foi lembrando. Valeu-lhe a nossa dispersão geográfica, a falta de coesão profissional, a inexperiência; o nosso representante, que defendia mais os patrões do que os representados.
Abandonados à nossa sorte, dei comigo a combinar com o Rui como iríamos fazer e ele, como passara dois meses seguidos fora da ilha e não estando demasiado interessado em ir a casa nas Festas, não se importou de ficar a alombar, sozinho, o Natal e a passagem de Ano: eu regressaria a 5 de Janeiro. Eram, precisamente, os dias de férias que me sobravam e o melhor seria queimá-los, pois ninguém me garantia que, mais tarde, no Continente, os fossem considerar válidos. Fazê-lo, seria como mudar para outro país e invocar direito alienígenas.
Parti de Santa Cruz a 22 e deambulei por uma consoada que, embora tenha posto na mesa bacalhau e peru, não foi carne nem peixe; estive por ali em jeito de corpo presente. Não posso dizer que tivesse saudades da Graciosa ou preferisse lá estar, mas acabei a telefonar para saber como ia tudo, a operadora da Terceira contente com a variação de estar a falar comigo a partir do Porto e a desejar-me boas festas, extensíveis à “mãezinha e ao paizinho”. Em Santa Cruz ia tudo rolando, os Barcelos tinham-no convidado para jantar nos dois dias de Natal; o doente da motosserra continuava internado mas “já faz jus à espécie”, como dizia o Rui para informar que já mexia o polegar contra o dedo mínimo. Fiquei muito animado com a notícia, mal entrei na sala contei ao meu pai, que ia remexendo as achas da lareira com a tenaz enquanto ouvia novidades sobre um caso que já conhecia.
Umas duas semanas antes, aparecera-nos um desgraçado na urgência, aos uivos e com o lençol que o cobria na maca alagado em sangue vivo. Aos arrancos, contou que andava a desbastar uma árvore e a motosserra resvalara sobre a mão que segurava o ramo até quase lhe decepar o polegar da mão esquerda. A zona de esfacelo era uma cagada de sangue empastado e sangue a babar; o ferimento expusera a articulação entre a primeira e a segunda falange e o nacarado dos tendões. Uma merda! Uma merda acima das nossas capacidades técnicas formais, aquilo era assunto para cirurgiões diplomados e não para estagiários como nós. Mas o tempo não desdenhava Dezembro, as brumas cobriam tudo e um vento danado, em vez de as levar, parecia arrastar mais e compor uma estola branca em torno da ilha, tornando o mar lívido e traiçoeiro. “Helicóptero, fodias-te!”, como costumávamos resumir situações similares. E, então, relembrando os ensinamentos do meu pai e do Dr. Raul Figueiredo, nossos mestres em tudo quanto sabíamos praticar na precisa arte dos barbeiros, resolvemos agir: é que os tendões quando seccionados, e à medida que as horas passam, tendem a retrair e depois não se conseguem justapor e costurar, e, sem tendões, uma mão fica como uma marioneta sem fios, isto é: parada, sem préstimo para todo o sempre. Por outro lado, se aguardássemos passivamente o bom tempo e o transporte aéreo, a mão poderia gangrenar e, quando o doente chegasse ao hospital da Terceira, só restaria amputá-la... Pesado tudo isto, para grande alegria das irmãs, o bloco operatório foi arrancado à sua tristeza fria de abandono. As luzes sobre a mesa operatória acenderam-se, os ferros cirúrgicos tilintaram nos tabuleiros e a irmã Noémia arrastou para dentro da sala um aquecedor a óleo, para quebrar a atmosfera de barco naufragado que ali reinava. Por ali estivemos – o Rui, eu e o enxame das freiras – umas boas duas horas, a laquear vasos que teimavam em sangrar, a limpar esquírolas de osso e farrapos lacerados de pele, a reconstituir, com o credo na boca, os topos avessos dos tendões. O doente gemia, lamentava-se, tentava espreitar o que lhe fazíamos; um de nós injectava um pouco mais da anestesia local, que íamos infiltrando por planos à medida que avançávamos carne dentro; brincávamos com a sua ansiedade e com a nossa:
“Não fale, amigo, senão a anestesia sai-lhe pela boca...”
Analgésicos, antibiótico, um soro reforçado para ajudar a recompor o sangue perdido. Quando chegámos a casa estávamos exaustos, tresandávamos ao fedor a preservativo das luvas de borracha; eu parecia um Quasímodo, as costas num feixe de estar tanto tempo dobrado. Pensámos telefonar aos colegas de Angra, a contar o sucedido, a pedir instruções e sugestões para o pós-operatório, mas acabei por ligar antes ao meu pai, que, ao contrário do que iria suceder com Angra, quis conhecer todos os pormenores do incidente e ouviu religiosamente a descrição dos procedimentos cirúrgicos. No seu ver experiente, tínhamos feito tudo quanto podia ser feito e, se as coisas corressem mal no futuro próximo, o pior que poderia acontecer era o homem perder o dedo, mas isso sucederia em qualquer lado, na Graciosa ou em Angra do Heroísmo. Por isso, as notícias do Rui sobre o doente da motosserra me causaram tanta satisfação e as levei, tão entusiasmado, à beira da lareira.
“Esse teu amigo é um ponto...”, ria-se o meu pai do modo darwiniano como o Rui referira o retomar da capacidade de oposição polegar-mindinho, “mas é isso mesmo. A mão pode não ficar muito bonita – acho que não vai ficar – mas, aqui, o importante é que funcione!”
A noite de passagem de ano foi uma merda, é sempre, abusei mais do que a conta e no dia seguinte, estava com uma tremenda ressaca. Por volta das quatro e meia da tarde, levantara-me há pouco, a rádio deu a notícia: terramoto nos Açores, violentíssimo, 7,2 na escala de Richter; diziam que Angra do Heroísmo ficara praticamente destruída, os mortos eram mais de cinquenta e os desalojados aos milhares... São Jorge e a Graciosa também tinham sido afectados; o epicentro fora no fundo do mar, numa linha submarina algures entre a Terceira e a Graciosa.
Açores, sismo de Janeiro 1980: localização da linha de rotura.

Tentei ligar para Santa Cruz: ninguém atendeu. Não consegui, sequer, falar com alguém na Terceira, fosse no hotel ou nos números da Direcção Regional de Saúde. Telefonei ao Paulo Amorim, que estava no Continente como eu: não sabia de nada, nem sequer do terramoto! Ficámos de nos contactar, o primeiro que tivesse notícias. À noite, já tarde, ele ligou de volta: alguém lhe telefonara, estavam a arrebanhar tudo quanto podiam no Continente, a organizar equipas e transportes. Decidimos ir por conta própria e pelos nossos meios. A minha mãe gemeu de aflição por eu partir e aquilo, lá, a abanar como um dente de leite. No dia seguinte o Paulo e eu partimos para Lisboa e a 3 de Janeiro, uma quinta-feira, muito cedo pela manhã, o avião da TAP sobrevoou a Terceira. Ia no lugar à janela e o mais parecido que vira com aquilo eram as fotografias de Londres, ou de Berlim, após os bombardeamentos, amigos ou inimigos, da II Guerra Mundial.

16 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 40. Novembro

Ilha da Graciosa, Açores.
O Rui voltou em Novembro, já o tempo atmosférico regressara ao embrulho do costume: vento forte, brumas impenetráveis e rajadas de chuva que faziam os helicópteros hesitar e permanecer agarrados ao asfalto das Lajes; mar bravio, pescadores entediados. Era em temporadas destas que podíamos estar duas  semanas sem correio, sem renovação de stocks de rum, whisky, soros e oxigénio; nenhuma cara nova pelas ruas da vila. Sair de casa, dar uma volta pela ilha para arejar, para desopilar, era empreendimento votado ao insucesso e o que se via das janelas chorosas da Dyane era tão deprimente que mais valia ficar em casa: pedra escura, mar de chumbo, céus revoltos com nuvens em debandada, chicotadas de chuva fustigadas por ventania agreste. Onde estavam os dias dourados, o azul dominante, a Senhora do Monte e as ermidas acolhedoras? Gone with the wind, como diz o outro. Nas consultas também notávamos a diferença e os corredores voltaram a encher-se de tosse e da melopeia de motor de arranque dos escarros, as camas povoaram-se com as pneumonias e a exacerbação das bronquites dos aficionados de Gold Flame, Brazão e Fama. Havia também as bronquites dos amantes de Marlboro ou Chesterfield, mas esses faziam tudo por ser observados em Angra ou Ponta Delgada, onde os especialistas lhe receitavam o mesmo que nós mas se podiam queixar do preço da consulta.
Agora, que o Outono ia adiantado, os homens que queriam ser auscultados tinham uma razão objectiva para isso e não apenas por capricho de Verão, pela tentação  em sentir o deslizar do estetoscópio ou o percutir dos dedos dos médicos de serviço num corpo excitado pelo calor e por gostos censuráveis. Nós, é claro, ficávamos lixados, ludibriados pelo tempo gasto, pela história clínica inerme que sempre debitavam, comentávamos entre nós, entre o escandalizado e o divertido:
“Hoje apareceu-me um cabrão que não tinha nada de nada, não queria nada a não ser que o auscultasse... Quando lhe mandei despir a camisa ficou nervoso como uma virgem, parecia que fazia um strip ao tirá-la!”
“A sério? Também já me aconteceu... Como era o gajo? Era um tipo magrinho, de cabelo...”
“Não, era gorducho, a ficar careca...”
Não nos recordava de jamais os ter visto, mas, dias depois, eis que os cruzávamos numa rua da vila, reconhecíamo-los atrás do balcão de uma loja ou repartição; quem diria?
“Viste a aliança?”
Aqueles, presos, sem outro remédio, ficavam-se pela ilha, pela pobre excitação de ir ao médico local, outros aliviavam-se em outras paragens, onde dariam menos nas vistas; era o que se dizia. Era o que se dizia, mas sempre em aparte abafado, na aparência tudo corria na mais maravilhosa polidez social, cada um no seu lugar a desempenhar o papel que lhe era esperado por tradição, família ou posição. Talvez à noite as coisas se tornassem um tanto mais pardas e os vultos deslizassem mais fluidos ao longo das paredes ou no segredo das quatro paredes.
Bem, mas o Rui voltou e, como ele ia voltar, o Virgílio Senra apanhou um Puma de volta à Terceira na terça-feira, dois dias antes dele chegar. E na quinta, com o pretexto de que o tempo piorara, ninguém se esforçou por arranjar helicóptero ao Rui, teve de vir no barco que fazia a rota do grupo das ilhas ocidentais.
Ilha da Graciosa, Açores.
Fui esperá-lo ao porto, se assim se pode dizer de um cais de atracação que ficava no meio das ondas. O escaler partira e um cisco longínquo descia lentamente pela escada pendurada no portaló. Ao meu lado, sentia a Marília tensa; acho que, tal como eu, se apercebia da expectativa, da quantidade anormal de gente que, para uma tarde chuvosa de Novembro, nos rodeava. Era assim, não havia mais o que fazer, o atendimento nas repartições públicas já encerrara e sempre era o médico ameaçado que regressava à casa emprestada, um filho quase prodigioso. Ele, pisou terra calmo, cumprimentando-nos com gravidade, o olhar atento por sobre os nossos ombros. Sem dúvida que algum daqueles que deambulava por ali iria levar novas aos paços do concelho, não mais do que isso; o Rui obtivera garantia de que tudo decorreria sem incidentes no tempo que nos restava.
Assim foi. Ainda em Novembro, tive um desgosto, enterrou-se-me na consciência como uma farpa. Calhara-me atender na urgência uma rapariga com alarmantes sinais de dispneia e uma auscultação desgraçada. Enquanto escutava o que lhe ia pelo tórax, perscrutava o tempo lá fora pela vidraça da janela. Não seria possível encomendar helicóptero para tão cedo, nem hoje (umas cinco da tarde) nem amanhã... A mãe ia recomendando à miúda que se portasse bem, que não se mexesse tanto. A filha teria catorze ou quinze anos, mas a sua idade mental era muito inferior e os traços da fácies denunciavam um cromossoma a mais no par 21, o que, para mim, era uma porra dum contratempo: naqueles tempos, muito mais do que agora, a esperança de vida dos mongoloides era curta e, muitas das vezes, eram os problemas respiratórios que os levavam, questão de anatomia do crânio e das vias respiratórias, que entupiam facilmente. A febre nem era assim tão alta, não que, ali, nela, tivesse demasiada importância... Chamei o Rui, para que a visse, opinasse sobre se eu estava a ver bem, se o meu alarme seria real. Internei-a no quarto entre as duas enfermarias, para que a mãe pudesse ficar junto dela e a  agitação da doente não contagiasse as outras internadas. Andei por perto o tempo todo, ia a casa, mas a apreensão fazia-me voltar ao hospital. Era difícil mantê-la com oxigénio, aquela tripinha de plástico, enfiada no nariz abaulado, incomodava-a, arrancava-a; o braço canalizado estava amarrado a uma tala de madeira para que não acontecesse o mesmo ao soro de onde pingava o antibiótico. Durante a noite afundou-se e, manhã cedo, perante os meus olhos e uma adrenalina que não serviu de nada, vi-a partir para o lado de lá com uma tremenda sensação de inutilidade... Inútil eu, inútil ela, inútil tudo aquilo, uma inutilidade pegada. A irmã Celeste, captando o meu abatimento, reafirmou a sua convicção existencial de que tudo aquilo era pelo melhor:
“Não se rale, Dr. Pedro, a esta hora já está a caminho do Céu...”
Talvez. Eu, sentindo-me livre, fui-me, caminho do Açucareiro, tomar o pequeno-almoço e um meio whisky com o café.
“Famous Grouse!”, disse o Rui quando se me juntou, reconhecendo a bebida pelo gole que tomou emprestado ao meu cálice, “estás a beber dessa merda!?” 
“Não há outro... O helicóptero não tem vindo...” 



© Fotografia ao lado: Graciosa, Novembro de 1979, fotógrafo desconhecido. 

12 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 39. Horror ao vazio

Carapacho, Outubro 1979: Delegada do Procurador emergindo entre rochedos.
Ainda tenho por aqui uma fotografia em que emerge, ao fundo, entre os rochedos e, no verso, escrevi “Carapacho, Outubro 1979”, o que atesta que, nesse mês, já ela integrava com naturalidade as nossas incursões excursionistas pelas partes amáveis da ilha. É, pois, plausível que tenha chegado no fenecer de Setembro ou mesmo no princípio de Outubro, uma vez que, na ilha, a intimidade entre expatriados se estabelecia rapidamente.
Recordo, isso sim, um dia, à hora de jantar, em que, ao entrarmos na sala de pasto da D. Irene, deparámos com quatro lugares postos na mesa, o que era raro suceder. Ali, jantávamos e almoçávamos só dois e mesmo quando insistíamos com a Libinha para que fizesse companhia – a proximidade era grande, ela era companheira assídua dos nossos serões – a moça negava-se a comer connosco, limitando-se a sentar-se à mesa na borda de uma das cadeiras, como se fosse  visita em casa dela. E a D. Irene, sem pronunciar palavra, não aprovava essa mistura, percebíamo-lo no silêncio mais cortante com que punha e tirava pratos ou trazia travessas, ou no bater de portas de um Oriolando que saía mais cedo para escapar a um súbito extremar da tensão doméstica.    
Assim, os pratos extra só podiam destinar-se a alguém de fora, alguém que teria chegado sorrateiramente num barco, pois nesse dia não houvera helicóptero, nem de carreira nem de emergência. Logo, não seria um alguém suficientemente notável, presumíamos enquanto nos sentávamos aos lugares do costume e aguardávamos o aparecimento da nossa estalajadeira para lhe espremer novidades. Entretanto chegaram pancadas tímidas da porta da rua, vozes abafadas, e eis que entram dois estrangeiros na sala, uma mulher primeiro e, atrás dela, um tipo hesitante, encabulado. O Oriolando, como homem da casa, atrevera-se à sala para as apresentações e, espreitando por trás dele, a D. Irene vigiava se seria já o momento de fazer entrar novamente a terrina de sopa de vagens enlatadas.
“A Sr.ª Dr.ª Delegada do Procurador da República... O Dr. Pedro, o Dr. Senra... Ah, e o marido da Dr.ª..., peço desculpa...”
Divertidos com a novidade e o imbróglio, levantámo-nos, solenes, das cadeiras, um de nós ainda com o guardanapo enfiado no colarinho, e fomos cumprimentar, aproveitámos para sacudir a mão do Oriolando num gozo de encenação a que ele não correspondeu nem se furtou.
A Dr.ª Delegada era uma bela morena de cabelos negros; mais ou menos da nossa idade, talvez um pouco mais, mas não teria ainda batido nos trinta. O mesmo se passava com o marido, um tipo de ar preocupado que se manteve toda a refeição praticamente calado, enquanto ela, à medida que deslizava para as vestes oficiais, ia informando, entusiasmada, ter concorrido aos Açores por as condições serem extremamente vantajosas para alguém em início de carreira, como ela.
“Venho por dois anos, o que equivale a quatro anos dos de lá. Mas se fizer, aqui, uma segunda comissão de dois anos, isso equivalerá a oito anos lá, o que,  automaticamente, me fará progredir para outro patamar e ter direito a uma colocação...”
Mantivemo-nos calados, o Senra e eu, um silêncio pouco habitual em nós quando nos brandiam disparates em frente aos olhos, mudez provavelmente temperada na compaixão que nos despertava o acabrunhamento do marido, que não partilhava, por palavra ou expressão, do entusiasmo da esposa.
Carapacho (Graciosa), 1979: Pedro Serrano, Marília, Virgílio Senra.
“Coitada”, pensava eu, talvez pensasse o Virgílio, “não faz a puta da mais pálida ideia do que é amargar cada dia nestas paragens...”
É que já víramos muita coisa naqueles meses, fosse por autoanálise, observação de quem chegava ou, até, no confessionário das consultas, onde aparecia sempre um ou outro expatriado a queixar-se da vida. Havia todas as variações possíveis: aquele que nunca imaginou previamente onde iria parar; o que pensa que uma ilha é o mesmo que um continente; o que chega entusiasmado e se vai deixando definhar, devagarinho; aquele que entra em pânico antes de decorridos quinze dias (uma barreira temporal significante) e se vai embora a correr, ainda que ponha em causa todas as vantagens e os contratos assinados, ou, talvez fosse o perfil mais próximo do nosso, o que vai andando, oscilando entre os polos extremos da disposição, com recaídas frequentes.
Mas, enfim, ela acabara de chegar, prenhe de lirismos e intenções e, na sua verdura, confundia a colónia penitenciária com uma colónia balnear... Quando lhe aparecesse lá por casa o Sr. Medina, a que, aliás, iria ter de aturar o zelo burocrático vinte e quatro horas por dia, de pasta e fita métrica a fazer o inventário dos tapetes e das estantes... Ou talvez não, talvez o Sr. Medina se deixasse apanhar nas curvas de algum fascínio insuspeito e se lhe rendesse como um cordeirinho... Quem saberia predizê-lo a partir da colher aguada que ela ia metendo à boca enquanto continuava a desfiar vantagens?
Quanto ao marido, tinha vindo apenas por companhia, para a ajudar a adaptar-se aos primeiros dias; ficaria até ao próximo helicóptero; esperava que nós, como vizinhos, como gente que já estava ali há mais tempo, a pudéssemos ajudar na adaptação. “Claro, no que pudermos ser úteis...”, oferecíamos sem brilho, já jantados e à espera da primeira aberta para nos pormos a andar dali para fora.
Teve algo de desolado aquele primeiro jantar da Luísa na Graciosa, igualmente me pareceram tristonhos os ruídos abafados, as luzes amortecidas que chegavam da casa contígua, agora habitada.
“Eh, pá, o que se passa aqui ao lado?; perguntou o Pombo ao aparecer de visita nessa noite. Ele é luzes por todo o lado...”
“Chegou a Delegada do Procurador...”, informámos, cada um mais lacónico do que o outro.
“É boa?”, quis saber.
Era, mas nenhum de nós achou que ele merecesse resposta.
Na terça-feira seguinte, mais acabrunhado do que na noite em que o conhecêramos, o marido da Luísa subiu para o estribo do Puma, a fralda da gabardina a adejar ao vento com maior vivacidade do que ele, que mal se atrevia a acenar um adeus à mulher, encandeado pela pequena multidão que se apinhava nas bordas do campo de futebol para ver partir o heli.
Quando, na primeira semana de Fevereiro do ano seguinte, deixámos a ilha definitivamente, a delegada do procurador foi despedir-se ao barco, lágrimas nos olhos e o desejo intenso de que chegasse a vez dela de se pôr andar... Angustiada pela nossa partida, mas também esperançada no presságio que era ver alguém chegar ao fim de uma comissão e ir-se, de vez. A ideia, louca, de uma segunda comissão de dois anos na ilha era morta e enterrada e, apesar de estar apenas há quatro meses na Graciosa, já contava os dias para o regresso, já exibia todos os tiques dos cativos.
“Obrigado por tudo...”, dizia abraçando-me e invocando as semanas, os dias, as horas em que eu, mais desvairado do que ela, a admoestava, ao mesmo tempo que, em modo vade retro, resistia às suas aproximações, geradas na solidão e no tédio, comportando-me não como o objecto afortunado de um encantador assédio, mas sim como o eremita da casa ao lado.
“Luísa, não entres nessa! É uma loucura, tu, no fundo, não queres isso... E podes dar cabo do teu casamento, que ainda agora começou...”
E continuava a ralhar-lhe, o mais ternamente que era capaz, defendendo-a de si própria, afastando-a, tentando ilustrar-lhe a inutilidade que seria qualquer investimento em mim, um eu que mal reconhecia, pois não era minha característica habitual resistir a tão tentadora cantada, vinda de uma tão atraente pessoa. E, tal o bom pai, repreendia-a, sentado na borda da cama dela, entrelaçando uma mão na sua para atenuar a aspereza do ralhete, ou esboçando uma carícia fugidia nos fofos cabelos cor de breu. Grata e um nadinha mais reconciliada, ela abraçava-me na hora de voltar à minha metade da Casa dos Magistrados, polvilhava-me o esternoclidomastoideo de lágrimas e ranho, e eu saltava o muro do terraço, regressava ao meu solitário quarto sentindo-me como se terá sentido o camelo que acabou de atravessar o cu da agulha.
Por esses dias, saía de um longo período em que vivera sozinho naquela casa: o Rui abandonara a ilha na sequência do incidente com o presidente da câmara, o Virgílio Senra acabara de chegar e a Marília andava perdida por Mirandela. Assim, o saber que bastava bater na parede ou cruzar o murete do terraço para ter companhia era uma tentação diária, mas apercebia o negro das cáries que se ocultavam sob o tédio e a solidão... E sentava-me à secretaria a olhar o caderno onde ia alinhavando a tradução do Tarot, a qual não saía do sítio, tal como a leitura do Proust de onde ainda não conseguira passar além da descrição dos espinheiros do lado de Guermantes, no Volume I. Ouvia fado e escrevia cartas para todo o lado, algumas de teor bem estranho. Tentei até iniciar um diário num caderno de merceeiro, de capa dura e etiquetada com um rectângulo de linhas vermelhas onde escrevi, e foi tudo quanto aí registei: “A Santa Cruz”.  

É óbvio que tudo isto não acabou bem e o mundo tem horror ao vazio. Atento como um abutre, o Pombo, o nosso Casanova de serviço, rondava e acabou por preencher aquela necessidade que esvoaçava contra os vidros na casa dos Magistrados. Pouco passara sobre a chegada da nova autoridade judicial quando Santa Cruz da Graciosa, escandalizada, se deu conta e propagandeou aos quatros ventos o escaldante romance entre a delegada e o veterinário. Durou pouco, claro, esse idílio, durou nada nem nada foi, mas enquanto durou arrastou consigo detalhes sórdidos e embaraços à hora do jantar em casa da D. Irene, risinhos nos Barcelos, apartes na farmácia; um novo argumento para os que pregavam que do Continente somente chegavam poucas-vergonhas ou ideais perigosos.

09 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 38. Náufrago na Macaronésia

Pelo menos duas vezes por semana telefonava ao Porão da Nau a saber em que helicóptero chegaria o meu reforço, a exigir o apoio de um segundo médico. Tantas vezes, que o gajo, por falta de resposta satisfatória, procurava escapulir-se-me, mandava a secretária infectar-me com desculpas: ou estava numa reunião com o senhor Secretário e não podia ser interrompido, ou tinha ido a um encontro de dirigentes de saúde da Macaronésia e só voltava para a semana; ou ainda não tinha chegado, ou já tinha saído. Depois, e aí concluía que o Porão recebera os meus recado, telefonava-me o Schmutzer com falinhas mansas, falando nas dificuldades em pessoal, muita gente de férias, pedidos de paciência, etc., retórica que eu sumia com um:
“Olha, e já que estás tão sensibilizado para o problema, porque não vens tu?”
Este argumento definitivo era também retórica pura da minha parte, pois  preferia estar sozinho com toda a carga de trabalho do que aturá-lo, e só pensar em o ver morar na casa dos Magistrados me dava voltas ao duodeno! Pelo seu lado, idem aspas, nem ele desejava afastar-se dos seus tachinhos ao lume nem morria pela minha companhia... Continuei, sem ajuda, a tratar de mim e a tomar medidas concretas, e uma foi a de acabar com as deslocações semanais às casas do Povo, dado que, para além do tempo queimado e dos poucos doentes que apareciam nessas consultas campais, faziam com que me afastasse da urgência e do internamento, o que não era assisado numa situação de médico único. Assim, escalei a Guadalupe para ir lá vacinar a criançada e observar uma ou outra grávida em consulta de rotina.
Eu próprio, nas solitárias voltas pela ilha em ambulância, era, ocasionalmente, interceptado por alguém atraído pelo lanternim azul que rodava no tejadilho e tendo uma pergunta para fazer, ou para comunicar que tinha um parente em casa a necessitar de cuidados. Resultado dessa troca de impressões, acabava a fazer um domicílio ou transportava alguém na ambulância até ao hospital. A maior parte não eram, felizmente, situações graves mas, como era já tarde e não havia transporte de regresso à aldeia do enfermo, arranjava-se uma cama na enfermaria, a pessoa jantava e passava lá sossegada a noite, domínio dos pensamentos inquietos. Menos eu, que continuava a não conseguir adormecer, com ou sem comprimidos, os quais apenas me traziam numa espécie de suspensão, como se fosse um ser sem peso aquele que interrompia as consultas às onze da manhã, atravessava a vila e ia gozar de uma pausa ao Açucareiro, sentado à sombra dos tijolos da esplanada a beber um café e meio-whisky, pois por ali não havia bolos de arroz, pastéis de nata ou bolas de Berlim. Com certa frequência, nesta pausa matinal, um cliente dos que esperava consulta seguia-me até ao Rossio e ficava-se, sentado num banco ou encostado a uma araucária, a vigiar o que eu fazia e esperando que regressasse ao trabalho. Em mais do que uma manhã, de tão solitário, me tentou a ideia de chamar o voyeur para partilhar um café, um calicezito de qualquer merda, mas isso podia criar enganadoras presunções de preferência, intimidades que poderiam prejudicar, mais tarde, o decorrer do intercâmbio clínico, etc., pelo que nunca levei a coisa à prática.

Conhecia agora os doentes como as minhas mãos, de tanto os ver e rever, e não apenas os doentes, começava igualmente a aperceber-me das teias de relações familiares entre eles e das curiosas repercussões que projectavam nas próprias queixas! Herdara também os doentes do Rui e ia tendo a minha visão de algumas das histórias que me contara nas nossas sabatinas médicas de trazer por casa. Para mim, um dos casos mais perturbadores era o de uma senhora, dos seus cinquenta e picos, com quem era complicadíssimo estabelecer uma conversa minimamente prática e que, enquanto não estava sentada à minha frente – rígida como se aspergida com laca – passava os dias empoleirada na bifurcação do tronco de uma árvore que tinha no quintal, balançando-se como se num baloiço fixo. Perante este tipo de situações, e eram muitas como nos avisara o velho Dr. Gregório, sentia-me completamente impotente e via recuar perante mim a sensação reconfortante de ter solucionado um caso, um problema, gratificação tão presente nos actos cirúrgicos em que ajudava o meu pai e em que o doente agora tem um problema agudo, que lhe ameaçava até a vida, e horas depois ei-lo na enfermaria ou no quarto, ainda branco mas já sorridente e do lado de cá da existência. Tudo aquilo me abalava, me depenicava a autoestima e, embora continuasse a desfolhá-los, a procurar no índice, os volumosos livros médicos para pouco, muito pouco, me serviam. Essa descrença contaminou a leitura, mesmo a de obras de ficção, que deixaram de entreter, distrair ou consolar, e os enigmas policiais pareciam-me artificiais, os mundos imaginados dos livros de ficção científica do Sr. Barcelos rebuscados. Deixei de ler, enchi-me da tradução do Tarot e negligenciei o caderno onde, laboriosamente, a ia transcrevendo e já ia em 70 páginas.
Restava a música mas, mesmo essa, sobrevivia pelo automático que era meter uma cassete na ranhura e carregar no play do gravador. Já não podia ouvir o Bob Marley nem os Dire Straits e o que ainda me ia fazendo certa companhia eram os sons de exílio da Amália Rodrigues e do Carlos do Carmo, e uma cassete com a IV Sinfonia do Mahler pela Chicago Symphony Orchestra, dirigida por Georg Solti e com Kiri Te Kanawa como ave canora principal. Deus, como as cordas, os metais e aquelas vozes soavam numa casa vazia!