29 setembro 2011

A agulha, o palheiro, o camelo e o reino dos céus


1
MM decidiu-se por uma semana na América do Sul, coisa de férias ao Sol. Setembro é também mês de tufões nas Caraíbas mas, mesmo sabendo disso, optou por ir. Não podia ser pior, suspirava ela, do que os oito meses de rotina sem pausa na multinacional onde trabalha.
“Só me apetecia sol e estupidez, sabes como é? Estender o braço e ter alguém que me meta na mão um mojito...”
Resoluta, arrastou a imensa mala lilás pelos subterrâneos de Campanhã, partiu com uma antecedência mais do que razoável para estar em Lisboa ao princípio da noite e cumprir as quase três horas de antecedência que um voo intercontinental aconselha.
Aproximava-se o comboio de Aveiro quando MM, ao remexer a carteira para atender uma chamada que já estava a ser gravada no voicemail, se deu conta que não tinha consigo o passaporte, documento sem o qual é assaz complicado conseguir entrar num avião e, ainda mais, hospedar-se num país estrangeiro que, ainda por cima, exige um visto cheio de condicionalismos nas datas.
Alvoroçada, arrastou a mala lilás pela plataforma da estação de Aveiro e, tardando o próximo comboio para o Porto, apanhou um táxi de volta a casa. No apartamento, o passaporte esmorecia no mesmíssimo sítio óbvio onde o deixara para que não o esquecesse, mas sobre o qual tinha pousado um páreo que, à última hora, decidira retirar da mala.
Agora, ao volante do carro, trincando o lábio inferior numa VCI que se arrastava para a Ponte da Arrábida, MM amaldiçoava mentalmente a delicada peça de vestuário, mas, ainda mais, a sua amiga Carlota, que a convencera ser adereço imprescindível nas praias das Caraíbas! Mas MM retirara a peça da mala ao pensar melhor e concluir que: primeiro, não tencionava sair da piscina do hotel; segundo, tinha umas coxas bastante menos grossas do que as da amiga.
Nas imediações de Aveiras, ao consultar o relógio do tablier, MM constatou sobrar-lhe apenas o tempo suficiente para chegar a Lisboa e correr para os guichets de check-in do aeroporto onde, em pouco mais de três-quartos-de-hora, as vozes enjoadas dos altifalantes começariam a anunciar o last call para os passengers to ...
“Se, ao menos...”. MM pegou no telemóvel, viajando no assento ao lado do seu sem cinto de segurança, e rezou para que ele atendesse.
“Filipe...? Oh, graças a Deus! Ouve, ainda estás em Entrecampos? Tens de me fazer um grande favor, a minha vida está nas tuas mãos...”
Filipe era um dos primos lisboetas de MM e trabalhava na PT, ali perto da segunda-circular e do aeroporto. O que MM lhe queria era simples e exigia apenas uma meia-dose de boa-vontade: que estivesse à sua espera nas portas das partidas internacionais, pegasse no carro, o arrumasse numa rua tranquila e sem parcómetros de Lisboa e guardasse a chave até ao seu regresso de férias. É que os parques de estacionamento do aeroporto mais perto dos balcões do check-in praticavam preços incomportáveis para uma soma de quase dez dias de estadia! Isso ficar-lhe-ia quase tão caro como as férias!
Ainda com o estômago feito num lenço de assoar amarrotado, mas com um grande sorriso nos lábios, MM conseguiu ser a penúltima passageira a desfilar pelo corredor central do Airbus gigantesco que já ronronava na pista do aeroporto pronto para rumar ao Paraíso.
2
Num soalheiro princípio de tarde do fim de Setembro, numa esplanada perto de S. Sebastião da Pedreira, preparava-me para pedir a sobremesa ao meu almoço, quando o telemóvel tocou. Olhei o visor e atendi com prazer. Era uma amiga do Porto que, de passagem por Lisboa, perguntava-me se teria uma meia-hora livre para nos vermos.
“Não tenho muito tempo”, disse ela do lado de lá, “cheguei agora mesmo ao aeroporto – ainda estou à espera da mala – tenho de pegar o carro, que deixei cá enquanto estive fora, e arranco para o Porto. Se soubesses o que me aconteceu...”
A minha tarde estava razoavelmente desafogada, pelo que combinei esperar por ela na esplanada onde almoçava; conversaríamos enquanto ela comia qualquer coisa. Assim foi, vi-a saltar, morena e sorridente, de um táxi, enquanto o motorista se afadigava a desencravar do porta-bagagens uma gigantesca mala lilás. Nos intervalos das trincadelas na sanduíche que encomendou, dos goles no sumo de laranja natural, ela foi-me contando dos dias que passara num resort das Caraíbas e de como quase perdera o avião, razão pela qual se encontrava em Lisboa, pois o seu automóvel ficara à guarda de um primo que trabalhava ali perto.
Eu estava sem carro, de modo que o melhor que pude fazer, para que prolongássemos o nosso encontro, foi propor-me fazer-lhe companhia no empreendimento que ela ia fazer a seguir, tarefa simples e relativamente pouco demorada: passar em Entrecampos para buscar a chave do automóvel e, em seguida, dar um salto a Benfica, onde o primo morava e deixara o automóvel dela estacionado.
Levantei-me da cadeira, ajudei a empurrar a mala lilás para a borda do passeio e fiz sinal a um táxi que descia a avenida.
Entretanto, MM telefonara ao primo, que aproveitara a hora do almoço para ir ao ginásio, mas que dentro de minutos estaria em Entrecampos e desceria para lhe entregar a chave.
“Afinal, depois de Entrecampos vamos a Carnide...”, informou o chauffeur de táxi com quem tínhamos ajustado uma corrida sequencial Entrecampos-Benfica; e virando-se para mim:
“O Filipe resolveu deixá-lo antes à beira do Metro da estação de Carnide, pensou que era mais fácil para mim se, por acaso, fosse, de Metro, buscar o carro...”
Tal como o chauffeur, acenei que sim, de táxi tanto me fazia ir a Carnide ou a Benfica, ambos são sítios que frequento pouco e onde me movo mal. Enquanto MM subia as escadas para a entrada do prédio da PT, o motorista aproveitava a pausa para desligar o motor e fazer uma chamada telefónica, eu fiquei a matutar sobre Carnide. Tinha uma remota lembrança de lá ter ido jantar uma vez com amigos, um canto urbano, como há tantos em Lisboa, em que uma zona antiga é cercada e abafada por prédios e mais prédios, gaiolas onde as pessoas voltam à noite para dormir. Mas, depois, no meio do sufoco, há aqueles pedacinhos de ruas estreitas que parecem de vila, salpicados por restaurantes onde se come lindamente, instalados em casas antigas e servidos por mesas com guardanapos de pano imaculado.
MM regressou com a chave, arrancámos para Carnide. O taxista, um tipo a rondar os quarenta, relativamente silencioso e com uma atitude cortês, pediu à minha amiga, à medida que nos aproximávamos da zona-alvo, mais indicações, designadamente o nome da rua em que estaria o carro que íamos buscar. MM pareceu algo embaraçada:
“A indicação que me deram é que está bastante perto da boca de Metro de Carnide...”
“De qual delas?”, quis o homem saber, “é que há três bocas de Metro em Carnide. Duas do mesmo lado da avenida, uma terceira do lado de lá...”
MM, uma genuína rapariga do Porto, embatucou; depois atalhou:
“Penso que é do lado de cá da avenida, pelo menos não me disseram que fosse do lado de lá; se calhar podíamos começar pela primeira boca de Metro e, se não o encontrarmos, íamos então à segunda...”
Foi por esta altura que comecei a prestar mais atenção ao motorista de táxi que a Sorte nos tinha mandado, pois o tipo, em vez de começar a rosnar impropérios ou insinuar que nos despejava na boca de Metro e a gente que se arranjasse, aderiu tranquilamente ao tom vago da orientação.
“Olhe, a boca está ali à frente, vê? E agora, o que fazemos?”
MM lembrava-se que o primo lhe dissera que se virava na segunda rua à direita a seguir à entrada para o Metro, se subia um pouco e que o carro estaria por ali. Assim fizemos e o táxi começou a deslizar vagarosamente para que pudéssemos verificar os automóveis parqueados.
“A senhora sabe de que marca é o veículo?”, perguntou o taxista.
MM, quase ofendida, informou que era um “Polo, preto, dos antigos...”
“Será este?”, perguntou o chauffeur ao passarmos por um automóvel estacionado.
“Não”, respondeu MM.
“Será aquele?”, perguntou ele uns metros adiante, ao mesmo tempo que eu me ia admirando com a popularidade do carro e do modelo, pois, de repente, a rua parecia infestada de Polos e um em cada cinco carros parecia ser daquela marca e da tonalidade pretendida!
“Não”; “não é este”; “não, também não é aquele”, ia respondendo MM, o desalento murchando-lhe a voz.
Tínhamos já percorrido a rua toda, virado à direita numa transversal e ido dar a um beco sem saída, onde o motorista foi obrigado a fazer inversão de marcha.
“Bem, parece que não está por aqui”, disse ele, “a senhora quer ir experimentar a outra boca de Metro?”
Fomos, e também havia uma rua que subia, pululada de Pólos estacionados, nenhum dos quais era o almejado carrinho de MM. Delicadamente, o taxista perguntou:
“Por acaso a senhora sabe qual é a matrícula do carro...?”
“Sei, retorquiu MM, articulando a combinação de letras e números, e tentando extrair à voz a indignação quando acrescentou: “é o meu carro...”
Sugeri que, se calhar, o melhor era telefonar de novo ao primo, tentar precisar o local onde o carro estaria estacionado. Ele não saberia o nome da rua? Outras referências que sublinhassem o local?
“Filipe, não damos com o carro”, MM falava agora para uma audiência suspensa que seguia o diálogo com toda a atenção, “não sabes o nome da rua onde ele está?”
“Ele não sabe”, informou-nos quando desligou. “Só disse que temos de nos posicionar com a boca de Metro à nossa esquerda e, depois, virámos à direita. Diz que o carro está ao lado de uns prédios amarelos, debaixo de uma árvore...”
“Prédios amarelos, debaixo de uma árvore...”, repetiu o chauffeur com toda a calma, como se estivesse a introduzir coordenadas num GPS; “ora vamos lá começar de novo...”
E repetiu todo o percurso inicial, dizendo:
“Neste momento estamos com a boca de Metro à nossa esquerda, está a vê-la ali?”
MM acenava que sim, que agora era virar na segunda à direita a seguir aos semáforos. Virámos.
“Está ali um prédio amarelo...”, apontou o taxista. Olhei, vi um prédio amarelo e, logo a seguir, vários outros prédios da mesma cor que, pontuados por árvores, se multiplicavam à nossa vista, rua acima.
Vagarosamente, as janelas do táxi escancaradas ao sol das quatro da tarde, os três, de pescoço estendido para a direita, íamos esquadrinhando sofregamente os carros por que passávamos.
“Está ali uma árvore!”, exclamei.
“Sim, mas o carro é azul-escuro, informou o taxista, desanimado.
Finalmente, à terceira volta por aquelas ruas, no fundo inesperado de uma alameda sem saída, debaixo de uma árvore, um prédio amarelo  perpendicular ao nosso trajecto, MM quase gritou:
“Está ali, está ali!”
Coberto pela poalha de dez dias ao abandono, o Pólo preto aguardava resignado, encurralado, a traseira barrada por um automóvel estacionado em segunda fila. Saímos os três do táxi e fomos espreitar, enquanto eu sugeria à minha amiga:
“Vai ver se ele pega...”
Debruçado, o taxista estudava atentamente o para-brisas do carro estacionado em segunda fila; exclamou contente:
“Está aqui um papel com uma morada: número 56, primeiro direito! A senhora quer que eu vá lá pedir ao dono para o tirar daqui?”
MM não quis, achou de mais, afirmou que trataria ela de tudo, que nos fôssemos embora, por favor; já andávamos naquilo há muito mais de uma hora!
Despedimo-nos de MM; perguntei ao chauffeur:
“O senhor tem para onde ir agora ou acha que me poderia deixar onde nos apanhou?”
Ele suspendeu a mão sobre a bandeirola, abanou a cabeça afirmativamente. Depois, olhou pelo retrovisor, sorriu-se, disse:
“O senhor vai ter que me recordar de onde é que viemos; sabe, com estas voltas todas...”
“António Augusto de Aguiar, ali quase ao lado da igreja de S. Sebastião...”
“Claro, claro... Já estou a ver.”
Pelo caminho, conversámos pausadamente, irmanados na satisfação de uma aventura que tivera um fim a contento. Ele era dali, de Carnide, falou-me do tempo em que todos aqueles prédios eram quintas verdes, dos restaurantezinhos onde se comia tão bem, de quando ia com o avô ver o Sporting jogar. Depois quis saber um ou outro detalhe sobre mim, começando pela pronúncia, de que se dera conta:
“O senhor é do Norte, não é?”
Quando, no fim da viagem, me debrucei sobre o taxímetro, juntei um generoso acrescento à quantia indicada pelos números fosforescentes. Ele agradeceu a “atenção” e eu, já com a mão no manípulo da porta, agradeci “a sua ajuda nisto tudo”. Tal como os eleitos e os sobreviventes de um naufrágio, as testemunhas de um milagre devem manifestar a sua gratidão. 

© Fotografias de Pedro Serrano: (1) A17, 2010; (2) e (3) Lisboa, 2010.

22 setembro 2011

São pimentos, senhor!

Foto de Pedro Serrano, Mercado do Plateau, Santiago (Cabo Verde), 2011.

19 setembro 2011

A PASSARINHA


Não há moeda cunhada, nota impressa, mais bonitas do que as de Cabo Verde. Que empenho em relação à monotonia do esverdeado dólar norte-americano, à burocrática uniformidade do euro ou ao aspecto amarrotado e pouco higiénico do kuanza angolano.
Em Cabo Verde é um prazer olhar para a divisa, há mesmo uma nota (a de 2.000 escudos) que nos dá a conhecer um poema sobre o martírio do amor, cuidadosamente caligrafado sobre o fundo azul e rosa de uma flor de cinco pétalas! Quanto às moedas, uma é atravessada por um veleiro pensativo, noutras se homenageiam plantas locais ou pássaros do arquipélago.
Um das aves cunhadas é  o Halcyon leucocephele, mais conhecido por Passarinha. Ao invés do que o nome pode fazer suspeitar, a passarinha é mais uma passarona e, em tamanho, rende cinco ou seis pardais dos nossos.
Aqui, no hotel onde estou, há uma que reina no pedaço de jardim que tem por sul o mar e por fronteira a piscina, e a passarinha passa a luz do dia a mergulhar do telhado para o relvado vizinho, a bicar algum insecto ou verme que percepciona lá do alto com o seu olhar agudo, bichito que pinça com o bico poderoso, a fazer lembrar o do melro, e engole em pleno voo, mesmo antes de pousar no intrincado tecido de uma ramagem de palmeira ou se empoleirar, triunfante e breve, no vértice carnudo de uma folha de cacto.
Mas o que emociona, o que transcende a biologia e, talvez, a tenha feito merecer a eternidade da prata gravada é a plumagem azul que reveste o terço inferior do corpo da ave e, quando ela levanta voo, faz empalidecer de inveja o brilhante anil do céu africano, ofuscado pela aparição de um azul-cobalto desdobrado de fresco no arco-íris de um país das maravilhas.

© Fotografias: Pedro Serrano, Santiago (Cabo Verde), Setembro 2011.

QUAL É, QUAL É?

Bem que desconfiei, mas, àquela distância, não podia ter a certeza... Qual poderia ser a nacionalidade de um tipo que, hóspede de um hotel de bom nível, enfiado na piscina até ao pescoço, conversava animadamente com o operário que, de cócoras na tijoleira adjacente, picava metodicamente o chão? Parecia até que o tal hóspede, a crer nos gestos que fazia, estava até a dar alguns conselhos avulsos ao trabalhador. O que era certo é que o operário estava a gostar da intromissão e aproveitava o entusiasmo do banhista para parar as marteladas e conceder uma pausa a si próprio sob a torreira implacável das duas da tarde.
Inglês, belga ou holandês? Huumm, não me cheirava; acho que alguém dessas bandas e com o padrão colonial que lhes é conhecido,não se dignaria a tal deferência e, se tivesse sugestões a fazer, optaria por as apresentar na ponta de uma chibata. Americano? Huumm, também não apostaria em tal; esses talvez que até se dirigissem oralmente ao espécime-em-vias-de-desenvolvimento, mas para comunicar a denúncia de um contrato que, assinado em cinco cópias, não estava a ser cumprido nos prazos estabelecidos.
Tive de aguardar, sentado na esplanada sobre a piscina como um sáurio camuflado no meio dos nenúfares, que o dito hóspede tivesse sede, emergisse das águas, se aproximasse, se sentasse na mesa a seguir à minha e encomendasse ao empregado do bar "uma cervejinha bem gelada e, à falta de tremoços, um pratinho de amendoins..."


© Fotografia: Pedro Serrano, Cabo Verde, Setembro 2011. 

16 setembro 2011

SONHO AZUL



Sonhei com o farol da Prainha
Em Santiago
Com águas que se alisavam
Feito um lago.
Sonhei com o farol da Prainha
Muito aprumado
Branco como um lenço de assoar
Todo debruçado ao rés do mar
A luzir, a acenar, a espreitar
Como alguém pudesse chegar
Com olhos sequiosos a enxugar
Marejados, regressados,
Da ausência resgatados.

© Fotografia: Pedro Serrano, Santiago (Cabo Verde), 2011





14 setembro 2011

SEM EIRA NEM BEIRA


Chama-se Nixon, anda pelos dezasseis anos e quando o conheci morava num Nissan abandonado na rua Andrade Corvo, mesmo em frente à porta da confeitaria-padaria Pão Quente.
Isto de o conhecer passou-se em Abril e nessa altura ele usava um daquelas casacos de pai Natal, vermelho-vivo, com debrum de pelinho branco e tudo. Embora o clima seja invariavelmente quente em Cabo Verde, as noites podem arrefecer e as manhãs fazer estremecer quem dorme num carro abandonado que foi sendo defenestrado de vidros e pneus.
Apesar disso, morar ali tinha algumas vantagens para ele, pois estava mesmo à porta do trabalho e podia saltar directamente do carro para competir com os outros dois pedintes que param por ali, um deles com uma capacidade de amolecer porta-moedas superior à do Nixon, pois falta-lhe metade de uma perna e arrasta-se sobre canadianas.
De facto, apesar de trabalhar em casa, o rapaz tem a desvantagem de ser novo, mas, infelizmente, não tão novo que possa ser olhado pelo caleidoscópio da criancinha ramelosa e faminta que estende os dedinhos à caridade. O Nixon não era rameloso, ranhoso, nem tinha um ar famélico, mostrava até um ar bem tratado, alegre e um tanto provocador, qualidades fatais num pedinte!
Nas proximidades não gostavam dele, as empregadas do Pão Quente vinham cá fora com frequência descompô-lo, pois batia nos vidros da montra para chamar a atenção de alguém, empurrava a porta para dizer uma piada e fugia; pegava-se com a concorrência, mas escapava com grande rapidez da canadiana em riste do manquinho...
Bem, foi no princípio de Abril que conheci o Nixon e, para quem estiver interessado em mais detalhes, descrevo esse começo de relação num texto a que chamei Natal em pleno Verão, texto que fez algum sucesso entre os meus ouvintes que, de vez em quando e sobretudo se regressava de um salto a África, me perguntavam por ele como se o conhecessem!
Em Junho voltei a Cabo Verde, o Nissan continuava assapado sobre as jantes no mesmo sítio, mas de Nixon nem sinal nas consecutivas manhãs em que, antes de ir trabalhar, fui tomar o pequeno-almoço ao Pão Quente. E, assim, regressei a Portugal sem hipótese de informar os curiosos e algo apreensivo pelo que poderia ter acontecido ao rapaz, o que, face ao contexto, poderia não ter sido nada de bom. Na realidade, nesta realidade, que futuro espreita um rapazito de quinze anos vivendo à solta no meio de uma cidade, sem família ou escola que o amparem e ajudem minimamente a formatar?
Agora, anteontem, voltei à rua Andrade Corvo e ao meu pequeno almoço no Pão Quente, o manco a coleccionar as moedas que dantes costumava dar ao Nixon. Para além do mais, o Nissan desaparecera da zona, o seu local preenchido por um jeep de rodas altas, com ar de novo em folha. Rais parta, Nixon, o que te terá sucedido?
Ontem, às oito da manhã, tinha já empurrado a porta do café para entrar quando ouvi um berro atirado às minhas costas:
“Amigo, amigo...”
Não olhei para trás, mas entrei no café com um sorriso e subi até ao primeiro andar onde me sentei numa das mesas que permitem uma vista ampla da rua. E lá andava o Nixon, a fintar os outros pedintes, a atirar pedidos a quem entrava no café, escorropichando um pacote de sumo e mancando, arrastando desgraçadamente uma perna quando se movia.
Antes de sair, no fim do pequeno-almoço, acrescentei à conta um pacote de Compal Tutti-frutti e saí para o tremendo calor matinal. Claro que ele estava à minha espera, um tremendo sorriso de orelha a orelha, um teclado inteiro de piano faiscando na manhã.
“Amigo, ao tempo que não te via! Nunca mais apareceste!”
“Eu? Eu apareci, tu é que te sumiste...”,
dei por mim em explicações, estendendo-lhe o pacote do sumo.
Acompanhou-me rua fora. Cresceu, em seis meses ficou mais alto do que eu, tornou-se um rapaz bonito, de olhos grandes e vivos, orelhas bem destacadas da cabeça, mas que lhe dão personalidade ao perfil. Este tipo não passa fome, é nítido; é suficientemente habilidoso e competitivo para cuidar dessa parte sozinho.
“Que te aconteceu?”, perguntei, apontando o andar arrastado.
“Fui apunhalado...”
“O quê?!”, a minha expressão deve ter manifestado uma tão grande incredulidade que ele, prontamente, baixou as minhas já conhecidas calças de fato de treino e mostrou, a meio da coxa esquerda, uma ferida, buraco fino com a espessura de um prego, mas fundo e onde o rosado da carne e de uma ferida ainda longe de fechar era bem nítido.
“Apunhalaram-te como? Quem te apunhalou?”
“Uns gajos, com um arame, enfiaram-mo aqui!”
“Mas porquê...?”
Encolheu os ombros, como se o motivo não interessasse para nada, era coisa já deitada para trás das costas.
“E foste ao hospital tratar disso?”
“Sim, fui logo...”
“E que te fizeram lá?”, tentei perceber, avaliar o risco que ele ainda poderia correr por causa daquilo.
“Trataram a ferida, deram-me uma injecção contra a infecção...”
“Há quanto tempo foi isso?”, perguntei ainda, para aquilatar se o incidente teria já ultrapassado a zona de risco de um tétano ou a ferida poder estar ainda em risco de outra infecção severa.
“Há mais de quinze dias, já estou quase bom, só me falta andar normal...”
E como se achasse que a conversa, o interesse em torno dele, estava a ser em demasia, olhou para mim, que media os meus passos pelos seus, e quis saber:
“E você, como está? Está tudo bem consigo, amigo? Agora vai trabalhar ali, não é?”
“Tudo bem comigo”, disse, estendendo a mão.
E por ali ficámos um momento a balançar as mãos num daqueles bacalhaus à africana, longos, demorados, em que se vai chocalhando e se mantém presa na nossa a mão do outro durante todo o tempo que dura a despedida, um sinal de apreço pela pessoa que encontrámos ou de quem nos vamos separar.
“Eu encontro-te por aí”, rematou ele virando as costas e, na sua ética muito pessoal, não  pedindo nada, pois eu já lhe oferecera um presente nesse dia.
Sim, continuo apreensivo em relação ao futuro daquele rapaz sem eira nem beira, acho que não tem onde cair morto, afinal ele é um malandro. Mas, definitivamente, não um malandro como outro qualquer.


© Fotografias de Pedro Serrano, Santiago (Cabo Verde): (1) Abril 2011; (2) Junho 2011.



ESSA MULATA TÁ DIFERENTE!

Primeiro não reparei. A segunda vez não liguei. À terceira, um pequeno ponto de interrogação piscante acendeu-se na minha cabeça. Mas, então, vi duas ao mesmo tempo, juntas, e aí o alarme disparou.
Em Cabo-Verde, pelo menos na ilha de Santiago, está na moda as mulheres virarem louras, isto dantes não era assim! 
Usam um cabelo escorrido, não completamente esticado mas com uma ondulação larga e um ar molhado, como quem saiu à pressa do banho. E louro. Isto dantes não era assim!

© Fotografias: Pedro Serrano, Santiago (Cabo Verde), Setembro 2011.

11 setembro 2011

10 setembro 2011

ENTRETANTO EM CABO VERDE


O avião aterrou suavemente no asfalto com uma pontualidade britânica: meia-noite e meia-hora por aqui, duas e meia da manhã por aí.
Cá fora a noite bafejava um beijo cálido e no céu, de um negro aveludado, a lua espreguiça-se a caminho de cheia. Qual será o meu trevo, e quantas folhas terá, que me faz ter sempre lua-cheia quando por aqui venho?
À minha espera, com o sorriso que se reserva para quem já se conhece, o Manuel da Luz e o Oswaldo, o primeiro entusiasmado com as novidades das recentes eleições presidenciais, o outro, silencioso ao volante como é de seu jeito.
“Acham que podemos parar aí nalgum canto para comprar água?”, pedi.
Oswaldo parou a carrinha à porta de uma churrascaria e o Manuel da Luz desapareceu pela esplanada dentro a comprar-me a água, pois ainda não tenho um tostão que fale este crioulo. Depois pago, sem pressa.
O Manuel da Luz regressou com um saco de plástico onde, gentil e premeditadamente, coabitavam duas garrafas grandes: uma de Água do Luso e outra de Trindade, uma água local.
À despedida, feita à porta do meu apartamento na embaixada de Portugal, o Manuel da Luz sugeriu:
“O Oswaldo passa a buscá-lo na segunda, às oito? Assim tem tempo de tomar o pequeno-almoço no Pão Quente...”
Pareceu-me perfeito e dormi como um santo sobre isso. Agora é um início de tarde abrasador, pelas portas largas do meu quarto vejo o mar coruscar em azul e deixo o convívio de vassuncês para ir ali ao Poeta comer umas linguicinhas e apaladar um queijo de cabra, itens nos quais desatei a remoer mal acordei e percebi onde estava.


© Fotografias de Pedro Serrano, Santiago (Cabo Verde), Setembro 2011.

07 setembro 2011

ABRAÇÁVEL


Tenho um fraco por canções eternas, já por aqui falei numa delas (Less Than Greek) e “Embraceable You” é outra das tais. A canção foi escrita em 1928, o que significa que, não dentro de muito tempo, fará 100 anos. Se nos fosse permitido obter os efeitos da adição de uma dezena destas canções, daquelas que por cá andam há este número de anos, poderíamos imaginar que uma tão pequena mão-cheia delas cobririam mil anos num instante, isto é, a eternidade ao nosso alcance.
“Embraceable You”, à letra Abraçável Tu ou, menos à letra, Tu Tão Abraçável foi escrita por George e Ira Gershwin e os menos avisados dos meus ouvintes poderão pensar tratar-se de marido e mulher, como eu pensei quando, ao ouvir “Summertime” (a mais eterna das canções eternas desta dupla), procurei na contracapa do disco o nome dos autores e dei com um George e uma Ira. Mas não! Este Ira é um homem e era o irmão do George que tratava das letras das canções.
Ultrapassado o equívoco do nome dos autores, escutando a letra da canção esbarramos noutra situação ambígua: a canção fala de bebés (baby), de ‘vem ao papá’ (come to papa) ‘bebé malandro’ (naughty baby) e somos tentados, catalisados pela sua graciosidade de canção de embalar, a julgar que é melodia dirigida a uma tenra e encantadora criança. Mas, outra vez, não! A narradora, quem cantou pela primeira vez isto foi Ginger Rogers numa coreografia dirigida por Fred Astaire, dirige-se a um homem e estamos, afinal, perante a clássica cantada de um amor adulto.
Como muitas outras das canções eternas, esta também foi escrita para um musical da Broadway (Girl Crazy, 1930) e desde esse dia nunca mais parou de ser interpretada, tocada, cantada, ensinada nas escolas de música.
Pessoalmente falando, ouvi-a a primeira vez nos anos 70 quando comecei, nos meus vintes, a prestar atenção a essa sofisticada música que é o jazz. Desde aí, milhares de vezes a ouvi e trauteei, não se gastando nunca a ternura dourada que a ilumina, que a toca quando ela toca. E, nesta eternidade de que falava e que marca certas canções, vi, muitos anos depois de mim, o meu filho falar dela, pegar nela usando um trompete, com a recente naturalidade de quem a canção lhe pertence.
Deixo aqui, para os que não a conhecem, a versão do abençoado Nat King Cole, um senhor que, para além de a fazer trepar às nuvens com a sua voz sorridente, é também quem toca o piano que acompanha e onde  introduz, quase no final da canção, uma filigrana de acordes que evocam caixas de música a soar esquecidas num quarto de criança ensolarado.

Nota: Aqui ficam os mil anos de canções prometidas, apenas pelas mãos de George & Ira Gershwin: “But Not For Me”, “The Man I Love”, “A Foggy Day”, “‘S Wonderful”, “Someone to Watch Over Me”, “I Love You, Porgy”, “I Can’t Get Started”, “Nice Work If You Can Get It”, “Till Then”, “How Long Has This Being On”.

© Fotografias: (1) Pedro e Zé João Serrano, foto MJ Costa, Cascais 1989; (2) fotógrafo desconhecido, Porto 2010.


"Embraceable You", de George/Ira Gershwin, por Nat King Cole