28 abril 2010

BIKINI

A
Foi à porta de um restaurante em Viseu, aguardando vez por mesa, que fixámos o princípio.
Dois dias antes, na consulta do obstetra, ao entregarmos o envelope fechado contendo as imagens e o relatório da ecografia, ficáramos a saber. O médico consultou os papéis com rapidez, mirou-nos com o sorriso satisfeito de quem possui algo que não tínhamos e perguntou:
 “Estão interessados em saber se é menino ou menina?”
Virámos a cabeça um para o outro e o que vi no olhar do Alberto permitiu-me responder com segurança:
“Sim…”
“O feto é do sexo feminino…”, divulgou o médico, estragando a magia da anunciação com a sua linguagem fria.
Para comemorar a novidade do ser que iríamos acolher e após combinarmos que, para já, não revelaríamos o facto a mais ninguém, decidimos fazer um fim-de-semana fora de portas. O Outono chegara à cidade, chamuscando de vermelho as raras árvores do condomínio e Alberto, que em pequeno passara férias grandes numa quinta lá perto, propusera:
“E se fôssemos até Viseu? Já imaginaste como deve estar bela a paisagem?”









23 abril 2010

MÃO MORTA

   Mão morta, mão morta
       vai bater àquela porta…


1
O médico inclinou-se na segunda fila de assentos do cockpit e espreitou pelo espaço cavado entre os ombros do comandante e do co-piloto. O avião picava, descendo em espiral para ludibriar a mira de eventuais ataques da artilharia e lá em baixo estendia-se uma língua de terra vermelha, assemelhando-se demasiado a um lenço de bolso para que um Hércules C-130 ali pudesse aterrar. Mas ao contrário do inglês da Companhia, sentado a seu lado de mãos fincadas nas coxas, ele estava suficientemente familiarizado com a sensação de aterrar em pistas que não vêm no mapa para se sentir ansioso.

À força de travões, o avião imobilizou-se e uma tempestade de poeira vermelha, mantida no ar pelo rodar das quatro poderosas hélices, evolou-se do chão. A seu lado, com um sorriso aliviado ma non troppo, o inglês passava a ponta da língua pelos beiços ressequidos e perguntava se aquilo era normal.
“The dust? Yes…”, hesitou um momento à procura de como raio se diria ‘laterite’ em inglês, “it’s from the lateraite, the mineral red powder the track is made of…” E juntou à frase um “you see”, a compor um pouco a macarronada que sentia ter despejado sobre o outro.
Porém, o inglês estava desvanecido em demasia para se dar conta do embaraço linguístico do português: era a sua primeira viagem fora do circuito disciplinado dos aviões de carreira e aterrar no meio do nada num avião que parecia ter caído sobre a pista como uma folha de Outono fizera-o afrouxar a compostura fria que o médico conhecera nos escritórios da Companhia, entrincheirado na importância que confere um cargo visto das paredes envidraçadas de um prédio alto de Luanda.
Em volta do bojo escancarado do Hércules afadigava-se a trupe de filipinos e moçambicanos que tinham viajado acocorados sobre a carga e a quem competia agora tratar do desembarque – o avião vinha ajoujado como um ovo de Páscoa. Com as pontes dinamitadas, as estradas esventradas e de bermas pontilhadas por minas, sob a ameaça permanente dos raids da Unita, o único modo de chegar às Lundas em relativa segurança era por ar. E, então, tudo se transportava por via aérea: as pessoas, a comida, os medicamentos, até os sacos de cimento!
Medicamentos – avulso ou a granel – eram moeda conhecida do médico, mas sacos de cimento passaram, de súbito, a integrar a sua agenda de interesses logo que rubricara o contrato para supervisionar a reconstrução do hospital. Assinado um tanto à pressa, reconhecia agora, mas garantira-lhe, para além de um bom salário, a permanência no país por mais um ano, talvez dois se a guerra continuasse a bom ritmo e as coisas se atrasassem como era costume… Há cinco anos que vivia em Angola e, embora o não confessasse à própria sombra, o mês de férias que passava anualmente em Portugal espicaçava-lhe a vontade de regressar, não havendo nada de mais fraudulento do que o encolher de ombros e o 
“Tenho de voltar, é o meu ganha-pão…”
com que respondia às preocupações dos amigos, com que se despedia da família contristada.
Portugal, porra, que marasmo! Aliás, quem tinha nascido em África como ele, como outros como ele, dificilmente se habituava àquela paisagem de bonecas. Fizera, era tradição, os últimos anos da licenciatura na metrópole, mas sempre com a ideia de voltar um dia às serranias da Huíla e às planuras do Namibe, mandioca ladeando um lado do caminho e do outro uva moscatel. Entretanto estourara a revolução dos cravos e com ela a hemorragia do retorno, a multidão que, empurrando-o na chegada, lhe intimidava o desejo de regresso; depois foi atacado por uma zanga absurda com o país onde nascera e as memórias roubadas, à qual se adicionava o desencanto com o país provisório. E fugiu até onde pôde de mais longe, até Macau, mas acabou por não se dar naquela latitude oblíqua, nauseado com a neurose dos portugueses que se acotovelavam nas pizzarias de pescoço esticado enquanto seguiam a lacrimejar o Natal dos Hospitais via satélite. Aguentara-se três anos por lá, mais um vegetando na metrópole e, depois, surgira aquela hipótese de voltar e ir ser médico no mato ao serviço duma ONG finlandesa. A sua parte da missão correra bem: apurara a clínica e a mão, ficara habilitado a fazer um pouco de tudo no reger da batuta entre a vida e a morte; e na sombra larga da varanda da sua vivenda fumava demorados havanos, emborcava prateleiras de copos de rum velho na companhia dos cubanos que andavam por ali. Mas a ONG acabara por falir, pois os indígenas tinham aderido evasivamente ao dispendioso projecto pedagógico da escola que se propunha, de uma só vez, ensinar as virtudes do desenvolvimento sustentado e o finlandês como segunda língua. 
E já o assombrava de novo o espectro do Infante e da longínqua barra do Tejo, quando um tipo ligado à Unicef lhe trouxera notícias da Companhia… Ingleses, uma firma que conseguira fechar um contrato de exploração de diamantes com a Endiama, acenando como contrapartida com a recuperação do hospital local, escavacado pela metralha ao que constava. Agora andavam à procura de alguém para ir lá pôr a cereja do contrato… Não fora difícil, apesar do extenso formulário, da secura de iguana do inglês, conseguir o trabalho: em 1988 Angola quase não tinha médicos, importar um tipo que estivesse disposto a viver em guerra e no mato era – com excepção dos cubanos, mas esses não os queria a Companhia – proeza rara e dispendiosa. E, por fim, a sua experiência do país, o conhecimento da língua, ajudaram muito, designadamente a contornar o item ‘habilitações em gestão hospitalar’… Aqueles gajos eram de gozo! Gestão hospitalar, pensava, sorrindo para dentro, ao fitar a paisagem que lhe ia ondulando à frente dos olhos, distorcida pelo calor como um filme projectado numa tela mal esticada.
Passava pouco do meio-dia e os raios do sol de Março faiscavam impiedosos, atravessando como balas incandescentes a chapa do jipe em que seguiam a caminho da messe da Companhia. Estava programado que almoçassem por lá, depois visitariam o hospital – ou o que restava dele – numa primeira missão de reconhecimento e regressariam a Luanda. Nas semanas seguintes teria de apresentar um projecto de reconstrução à Companhia com todos os detalhes: desde os sacos de cimentos que se iam gastar, ao equipamento médico e ao pessoal necessário para voltar a pôr o hospital a funcionar. Finalmente, com a sua arca de roupa e livros, a sua maleta de médico, estabelecer-se-ia nas Lundas para mostrar, além dos sarrabiscos no papel, do que era capaz. Era bom que aproveitasse o dia e se atafulhasse em informações, pois aquilo não ia ser pêra doce. Fazer consultas aqui e acolá, reclamar, por telefone ou via rádio, do equipamento que não tinha ou que tardava em chegar era o máximo que fizera em termos de ‘gestão hospitalar’… 
Durante o almoço ficara, graças a Deus, longe do inglês que, camisa de manga curta com dobra de alfaiate e nó da gravata atrevidamente folgado, palrava com os seus engenheiros da delegação da Lunda, o que lhe permitiu ir tirando uns nabos da púcara sobre o hospital e sua situação actual.
Felizmente, parecia que o trabalho de reconstrução estrutural seria mais leve do que o que se imagina quando se pensa em guerra e metralha, pois, segundo um dos empregados que servia à mesa, casaco branco com galão dourado nas lapelas e nos punhos, o edifício fora mais saqueado do que propriamente destruído.
“Não”, dizia o mulato grande numa voz arrastada, “eles até que respeitaram…Está bom, está mesmo bom – mais vidros partidos, porta quebrada… E foram roubando colchão, depois cama, depois as outras coisas, já sabe como é… hospital vazio, sem patrão…”, acrescentou rindo como se tudo aquilo tivesse imensa piada.
O final do almoço foi interrompido por uma altercação nascida na porta do refeitório. Alguém tentava entrar, alguém a quem o corpanzil do mulato impedia acesso pleno. Contrariado, um dos engenheiros levantou-se e foi ver o que se passava. 
O médico parou de remexer o café quando viu todos os olhos da cabeceira da mesa cravarem-se nele. O inglês, regressado à pele de sahib, interpelou-o com um sorriso aguado que lhe levantava a ponta das sobrancelhas:
“Parece que, mesmo desactivado, o hospital já serve para alguma coisa, doutor: aparentemente tem lá um doente à sua espera…” 
Após uns segundos a remoer argumentos que não serviriam senão a si próprio – os ingleses miravam-no numa expectativa irónica e, da porta, dois pares de olhos fitavam-no com urgência – o médico engoliu o café com o facto de não estar ali para ver doentes e levantou-se da mesa.
No exterior, contrastando com a calmaria e a sombra condicionada do refeitório, impondo-se ao calor abrasador das três da tarde, reinava grande agitação num grupo de pessoas que aguardavam do lado de fora do portão das instalações da Companhia. Com uma cadência regular, um grito lamentoso elevava-se no ar.
“Quem são?”, perguntou a um dos homens cujos olhos o tinham arrancado ao café.
“São família, doutor. Quando souberam que ia chegar médico hoje trouxeram-na do mato, às costas, andaram seis horas…”
“Mas eu não vim para tratar ninguém”, explicou-se finalmente, “estou aqui por causas das obras do hospital; não trouxe nada comigo”.
“A gente sabe, doutor,” respondeu o homem mostrando os dentes num sorriso e incluindo nesse conhecimento o outro indivíduo que caminhava ao lado deles, “nós trabalhamos lá no hospital… Mas eles”, continuou fazendo um gesto para o grupo que os seguia dois metros mais atrás, “não sabem: apenas sabem que tem doutor aqui hoje”.
“Mulher prenha, doutor”, informou o outro. E achou por bem acrescentar com um esgar, como perante coisa que cheira mal: “quase morta…”

2

O hospital, uma construção quadrangular e atarracada com telhado de chapa de zinco, estava em absoluto silêncio. Os passos ressoavam nos corredores vazios a caminho da ala que, em melhores dias, fora a maternidade e onde, na única cama que restava, os dois guardiães do hospital tinham decidido deitar a mulher grávida. 
A cama era o típico leito de hospital em tubo de metal esmaltado, comido de ferrugem nos locais onde se lascara a tinta. No forro esgaçado, a cor de areia original do colchão de espuma sumira-se, substituída por uma tonalidade negro-avermelhada de sangue repassado. Mas aquele era um sangue antigo, não parecia pertencer à mulher que jazia na cama, a face e metade do corpo iluminados pelo charco de luz crua que penetrava na enfermaria através da cratera, talvez de rocket ou granada, com mais de um metro de diâmetro que esburacara o telhado de zinco e que, na ausência de electricidade, alumiava a sala sombria.
Aparentemente, a mulher não sangrava e de sangue só eram visíveis pequenos coágulos nalguns trapos caídos ao lado da cama, ainda húmidos de líquido amniótico e pasto de um rebanho ligeiro de moscas pequenas, onde refulgia o verde metálico e o porte maciço de uma ou outra varejeira. Havia moscas em todo o lado,  a debicar o corpo deitado, explorando o colchão, chupando os trapos, até pousando no médico de quem tinham farejado, de imediato, a aproximação transpirada. 
“Algum deles fala português?”, perguntou por cima do ombro ao olhar o baixo-ventre da mulher, uma vez sabido que ia precisar de respostas, de prestar esclarecimentos aos sete ou oito acompanhantes que, furtivamente, tinham penetrado na sala e se postaram a uma distância respeitosa, encostados à parede onde ficava a porta.
“Não, doutor, são Chokwe…”
O médico já o calculara pelo tipo de silêncio instalado, até mais do que pelos panos em que as mulheres se enrolavam e apesar das calças e camisas dos homens, provavelmente enfiadas à pressa para a vinda ao hospital.
“Então um de vocês vai ter de traduzir o que eu disser e o que eles responderem, certo? E vou precisar de água e… que tipo de material – ferros, pinças, tesouras, gazes, medicamentos – há por aí?”
“Ah, doutor, eu vou buscar, mas não há quase nada… Não há aparelho de tensão, termómetro, soro; nem seringa, nem estetoscópio de grávida…” prontificou-se um deles que, ficou a perceber pelo à vontade na gíria técnica, tinha uma vaga formação de enfermeiro.
O médico concentrou-se na mulher que, estendida na cama, o fixava com uns olhos estafados, mas onde luzia uma ansiedade. Era uma rapariga magra, longilínea, de pele clara e macia como percebeu ao pegar-lhe no braço num gesto de palpar o pulso e estabelecer um contacto.
O pulso estava rápido e fino, a testa e a cara perladas por um suor espesso e pegajoso, os lábios gretados e quase apagados de tão desidratados. Mas a exaustão ainda não dera lugar ao choque; estava estafada mas consciente, instalada na serenidade da resignação. Antes de lhe subir o pano grenat em que se envolvia descomposta, mas ainda assim resguardada de mais para uma palpação conveniente, o médico sorriu-lhe como que a garantir que tudo correria pelo melhor. As pupilas dela corresponderam um pouco, notou uma intensificação no brilho da superfície prateada.
Tinha dezoito anos e era o terceiro filho, a bolsa de águas rompera-se há mais de doze horas atrás, mas o trabalho de parto não se consumara, fora por isso que tinham pegado nela e atravessado toda aquela extensão de mata – sabiam que sozinhos não iam conseguir.
O médico foi conhecendo os detalhes a prestações – enquanto enunciava perguntas, ouvia as respostas e esperava a tradução – as mãos palpando o ventre com cautela e minúcia, apercebendo uma barriga mole como massa de pão, indiciando um útero atónico e em risco de rotura iminente.
O diagnóstico estava feito. Olhou uma última vez com apreensão a zona genital, onde, pela vulva, espreitava um braço de bebé e uma mãozita de dedos abertos roçava o colchão. Tocou, de novo, a pequenina mão: estava gelada e sem cor como os restantes dez centímetros de braço procidente, falando por si sobre a ausência de circulação e atestando a morte da criança, ocorrida já há um bom par de horas. Agora era preciso agir. 
Quando o enfermeiro chegou, dependurando em cada mão um balde de metal galvanizado, o médico deambulava pela maternidade tentando encontrar alguma espécie de meios, algo que ajudasse, nem ele sabia bem o quê. Mas o único equipamento que ali havia era, num cubículo separado do local onde estava deitada a rapariga por um tabique que não chegava sequer ao tecto, uma marquesa ginecológica desconjuntada, sem cobertura ou correias de contenção nas perneiras enferrujadas, e uma mesinha de cabeceira em cuja gaveta descobriu um pente sem dentes e uma caneca de esmalte invadida por bolores.
“É tudo, doutor”, informou o enfermeiro tirando do interior de um dos baldes duas embalagens de luvas cirúrgicas, um frasco de água oxigenada e uma tesoura de pensos. “E a água que pediu…”, acrescentou com um sorriso apontando o outro balde.
O médico pegou com um olhar esperançado na tesoura, chegou-a à luz do buraco no tecto. Gemeu de desconsolo: a tesoura tinha um dos ramos do bico partido – não cortaria nem água! 
E todas as suas opções, isto é, as duas alternativas que se ofereciam para tentar salvar a vida de uma mulher com um feto-morto atravessado no ventre passavam por algo que cortasse, uma tesoura forte… Uma delas consistiria em cortar o braço do bebé, para poder depois tentar extrair o resto do corpo. Mas era uma solução que não lhe agradava, insegura. Era trabalhar às cegas, não sabia o que se escondia por trás daquele bracito que tudo tapava, podia com muita facilidade perder o controle da situação.
“Não haverá por aí, seja lá onde for, uma tesoura?”, perguntou – baixando, desnecessariamente e por instinto, a voz – “uma tesoura que corte…”
O enfermeiro ficou a olhá-lo, emparedado entre a resposta ao pedido e a linha de raciocínio com que o clínico o contagiara ao enunciar tal pergunta.
O médico detectou o emperramento do outro, abanou-o com uma sugestão:
“Vá, enquanto pensas, dá aqui uma ajuda – vamos mudá-la para a marquesa.”
A rapariga era leve como um osso de ave e deixou-se transportar sem um queixume até à marquesa ginecológica. Tiraram-lhe o pano grenat pela cabeça e o seu corpo nu ficou em contacto directo com o metal, cada uma das pernas esguias pendendo frouxa das perneiras enferrujadas.
“Só se for o alfaiate…”
“O quê…?” O médico, absorvido na previsão de como poderiam vir a reagir as pernas dela quando lhe começasse a escarafunchar as entranhas sem anestesia e sem a contenção das correias de cabedal das perneiras, não captara a deixa do enfermeiro.
“ A tesoura, doutor. Tesoura afiada e forte, que consiga cortar braço…” 
“Não é o braço que vou ter de cortar!”, respondeu com brusquidão, mas, lá no fundo de si, aliviado por partilhar aqueles pensamentos ainda hesitantes.
O enfermeiro olhou-o, abismado. O médico apontou para cima, para o forro de contraplacado esburacado do tecto da sala, e voltou a espicaçá-lo:
“Anda lá, que daqui a pouco começamos a perder luz. Chama o teu colega aí de lado e diz-lhe que vá pedir emprestada a tesoura ao alfaiate. Eu preciso aqui de ti…” 

3

A tesoura demorou quase uma hora a chegar ao hospital, mas a espera que incomodava o médico prendia-se toda com o estado geral da rapariga e esse não piorara. O enfermeiro tinha trazido uns pacotes de açúcar e um saleiro da sua provisão pessoal e o médico, usando a tesoura de pensos de bico partido como colher, fabricara na velha caneca de esmalte um arremedo de soro que teve o efeito quase miraculoso de arrebitar o estado comatoso para o qual ela parecia começar a querer resvalar.
Aproveitara também a espera para explicar à família que o bebé estava morto, facto evidente para todos, e que para salvar a vida dela tinha que tirar o bebé cá para fora. Também isso não causou surpresa ou exaltação, uma vez que um morto a habitar o corpo de um vivo não é bom sob nenhuma circunstância ou em hemisfério algum. 
“E para isso”, acrescentou através do enfermeiro, “o corpo vai ter que sair aos pedaços e durante esse trabalho não quero ninguém aqui dentro”.
O renque de pessoas imóvel na semi-obscuridade, uns de pé encostados à parede outros acocorados na mesma linha, ouviu a decisão com gravidade e não ouviu nem choro nem soluços ou, sequer, um dos lamentos gritados que tinham acompanhado o cortejo na deslocação da Companhia até ao hospital. 
A tesoura chegou embrulhada em papel de jornal e o médico examinou-a detalhadamente à luz do buraco no tecto. Era um objecto possante, de metal escuro e brunido, com um encaixe moldado para o polegar e uma pega onde cabiam três dedos no lado oposto. Cortava bem até à ponta do bico, estava afiada e afeiçoada para cortar pano na perfeição. Satisfeito, o médico pousou-a sobre o tampo da mesinha de cabeceira que fora arrastada até junto da marquesa para servir de bancada de apoio à operação e onde, sobre um pano relativamente limpo, já estavam dispostas as luvas cirúrgicas, o frasco de água oxigenada e a caneca de esmalte com um nova dose de soro improvisado.
Foi ao pegar na embalagem que continha as luvas que o médico se deu conta que ambos os pacotes eram de tamanho 6½. E ele calçava 8! Mesmo assim começou a enfiá-las com todo o profissionalismo e cuidado, mas como eram demasiado pequenas e muito para além do prazo de validade, os seus dedos furaram tudo mal se começaram a encaixar nos da luva, surgindo nus e ridículos através da borracha esfarrapada. Com um “puta que pariu” todo espiritual arrancou aquela salgalhada e começou a tarefa de mãos nuas. 
Pousando a tesoura entre as coxas abertas da rapariga, o médico palpou mais uma vez o terreno onde ia trabalhar. Como um cego, precisava guiar-se o mais possível pelo tacto, pois a luz da tarde era já menos forte e a zona em que iria operar não teria, nem de longe, a iluminação incidente e potente de uma mesa cirúrgica civilizada. Não havia sequer um candeeiro a petróleo no hospital e não se podia dar ao luxo de esperar mais uma hora para mandar ir chatear algum vizinho do alfaiate!
O braço procidente do bebé não permitia acesso ao interior do útero, muito a custo conseguia introduzir a ponta do indicador direito e identificar uma superfície muscular tão exaurida de tensão que se moldava ao corpito morto como uma manga de borracha.
O médico sabia o que tinha a fazer, já o fizera uma vez, já o vira praticar várias, mas nunca em condições daquelas: sem meios, sem luz e com um braço que se interpunha, como uma rolha, entre a tesoura monstruosa e o pescoço inacessível do feto.
Com cuidado, mas aplicando toda a sua força, empurrou o bracito da criança para dentro: era preciso recolhê-lo, conseguir que recuasse e passasse por sobre o ombro até ficar pousado ao longo do tórax do feto. Só assim conseguiria ter acesso ao útero e ao pescoço. Durante a manobra sentiu o braço estalar, como quando se parte um osso de frango, e as mãos da rapariga agarrarem-se com força à parte lateral da marquesa.
O médico respirou fundo e esticou o corpo, dorido de estar ali em pé, de permanecer todo dobrado para a frente sob tensão. Aproveitou a pausa para dizer ao enfermeiro:
“Vá, chegou a hora: põe-me essa malta toda lá fora. O teu colega que tome conta – agora não quero ninguém aqui.”

4

Apesar do obstáculo ter sido removido, o acesso ao interior do útero mantinha-se difícil e durante todo o tempo que a operação durou o médico não conseguiu introduzir na abertura mais do que o dedo indicador.
Como o focinho de uma toupeira o seu dedo palpou e rondou até que localizou o pescoço. Era uma coisa com a espessura de uns três dedos, assim como se fosse o pescoço de um coelho esfolado. E durante a meia-hora seguinte, a luta principal, um combate que o deixou exausto e seco de tanto transpirar, consistiu em tentar estabilizar o cadáver da criança, em manietar o pescoço para o conseguir abordar com a tesoura e iniciar o corte. Tinha a seu favor o facto de o corpito se encontrar totalmente flácido e plástico, o que permitia a sua tracção, mas as suas tentativas eram dificultadas pelo ambiente escorregadio em que tudo se processava, o que fazia com que, à frente do bico da tesoura, o corpo escapasse constantemente para o fundo do útero como se, apesar de morto, fizesse um derradeiro esforço para manter a integridade.
Endireitou-se de novo, as costas numa chaga, o corpo apoiado contra uma das coxas da rapariga, esperando uns instantes até que as cãibras nos dedos cedessem um pouco. Aproveitava para olhar a miúda, vigiar o seu estado: ela não abrira a boca para soltar um queixume! Tudo o que ia percebendo dela era, nos momentos mais duros, as mãos de dedos elegantes fincando-se nas bordas da marquesa, as pernas, pousadas nas perneiras, percorridas por um frémito. Aguentava-se, estava a aguentar-se, assim o dizia o olhar demorando-se com serenidade animal no seu.
“Dá-lhe mais um gole”, ordenou ao enfermeiro, pedindo aquilo que tanto lhe apetecia a ele e aos seus lábios triturados, à garganta em brasa.
Fora condenado a carrasco de um suplício de bicadas infernais, improdutivas e intermináveis, como se o tivessem destinado a ser o predador de uma tortura desumana. Não conseguia introduzir no útero mais do que alguns milímetros do bico da tesoura e, lá dentro, não conseguia afastar os ramos das hastes mais do que quatro ou cinco milímetros. Quando o conseguia e tocava o pescoço do feto e o conseguia bicar, logo a seguir, empurrado pelo contacto da tesoura, o corpo fugia para o fundo do útero. Este jogo durou uma eternidade e durante muito desse tempo esteve simplesmente a dar bicadas inúteis no osso das vértebras do pescoço. Até que, somente pela sorte de tantas vezes repetir o mesmo gesto, conseguiu abraçar entre as hastes da tesoura um espaço intervertebral, cuja consistência sentiu imediatamente como diferente da dureza do osso. E por ali, por aquela nesga, o pescoço deixou-se separar da cabeça com surpreendente facilidade.
Os seus dedos voltaram a encontrar o bracito estropiado e, ao puxar por ele, o corpo deslizou cá para fora sem resistência; ao mesmo tempo sentiu a cabeça fugir lá para trás. Tomou o pequeno corpo decepado e enfiou-o no grande balde galvanizado onde, por estar tão flácido e macerado, ele se enrolou no fundo.
Sem o corpo a ocupar o interior do útero, a cabeça descaiu logo até à boca da vagina. Introduziu os dedos à procura da boca: encontrou-a, mole e entreaberta. Encaixou o indicador na mandíbula e, com os dedos da outra mão por trás, a empurrar, puxou-a para fora do corpo da mãe. Com a cabeça veio junto algum sangue-vivo, sinal de que a placenta começava a descolar e o corpo da rapariga retomava as suas funções.
Quase deixou que a cabeça do feto rolasse pelo chão, pois ao largá-la dentro do balde descobriu que este já não se encontrava no lugar. Alguém o tinha removido e ele não notara!
No gesto de buscar o balde, rodou um pouco sobre si próprio, a cabeça do feto encaixada no dedo pela boca como se fosse uma bola de bowling, e deu conta que havia gente nas suas costas. Muitas pessoas. Respeitosamente alinhados contra a parede, os familiares da rapariga tinham regressado à sala sem que desse conta e olhavam-no, ali, com a cabeça da criança pendurada numa mão.
Então, como no meio de um sonho, o médico começou a ouvir palmas ritmadas e a descortinar na sombra uma linha de seres que, à medida que as palmas se iam intensificando, se moviam em uníssono, um passo para a frente e outro para trás, entoando:  
“Uelelé, uelelé!; kanawa txinge muata. Uelelé…”
Com delicadeza, o enfermeiro tirou-lhe a cabeça da mão, murmurou-lhe ao ouvido:
“Língua chokwe, doutor. Estão a dizer: ‘que bom, que bom…’.”
Entontecido, o médico certificou-se da vida na rapariga deitada na marquesa; depois levantou a cabeça e procurou o ar exterior no buraco aberto no telhado da sala de partos. 
A noite caíra, o seu olhar encontrou apenas uma ilusão morna de azul no céu enegrecido.


(Junho, 2007. Ao João Lemos)
Primeira fotografia: © Pedro Serrano, Viana do Castelo, 2003.
Segunda fotografia: © Pedro Serrano, Bengo (Angola), 2008.
Fotografia acima: © Pedro Serrano, Lisboa, 2007.




21 abril 2010

VOAVA, MAS NÃO COMO OS PÁSSAROS

Voava, mas não como os pássaros, não com a desenvoltura perfeita das aves. Nos sonhos nem tudo é perfeito e, como nos filmes ou nas histórias de encantar, a verosimilhança é atrapalhada. Planava mais do que voava, começando o processo de deixar o solo por abrir os braços e agitá-los um pouco, de todo não freneticamente. Às vezes, sobretudo se havia brisa ou vento favorável, perdia peso, ganhava impulso e voava, outras vezes não. E mantinha sempre consciência disso, de que aquele voo, sempre a pequena altitude, pouco mais do que acima do nível da cabeça das pessoas, podia terminar-se a qualquer momento, sem aviso. E lá ficaria eu em terra como os outros.




Nessa noite, noite abafada como de fim de Verão, caminhava pelo quadriculado de cimento do passeio de uma rua periférica da cidade. Uma rua esconsa, escura, algumas árvores raquíticas espetadas em quadriláteros de terra e candeeiros esquálidos mal alumiando o que lhes passava sob as lâmpadas. Uma rua um pouco assustadora, para resumir, em que as fachadas das casas pareciam todas ser de madeira mal-pintada, toscas, inacabadas num primário de cor acinzentada. E depois havia os cães… Havia cães constantemente, um ou outro preso e ladrando do lado de lá das sebes dos jardins, mas a maior parte soltos pela rua, patrulhando o pedaço de passeio em frente à casa a que pertenciam, surgindo do escuro quando menos se esperava. Eu, que caminhava pela noite satisfeito com o passeio e curioso do que via, tinha receio a esses cães inesperados, inoportunos, não sentia seguro o destino das minhas canelas…
Foi por isso uma grande satisfação quando, perante o frémito da aproximação de um deles, movi os braços e descobri que, naquela noite, estava outra vez em condições de voar. Passei por sobre aquele com toda a facilidade, embora sem grandes empolgamentos pois sabia que a capacidade de voo não dependia de mim nem de quase ninguém – mesmo o vento só facilitava um pouco tudo aquilo, não era causa suficiente.
Planei mais um pouco rua fora e, para não abusar da sorte, pousei logo a seguir e continuei a minha volta passeando os pés sobre o quadriculado do passeio. E eis que surge outro cão mais adiante, mas esse, entretido com um caixote do lixo, nem se dignou dar por mim mais do que um olhar de través. Sim, não se pense que podemos passar por ele despercebidos: isso nunca. Somos suficientemente presença para que nos detectem.
Com o seguinte voltei a levantar voo, pois dirigiu-se a mim com intenções duvidosas, sem ladrar ou rosnar mas de focinho fremente e olhos esbugalhados. Oh, que alto eu passei sobre ele, tão alto que lhe senti o espanto na cabeça virada para cima. Nessa distracção perdi um pouco o controle da altitude e vi-me a voar já ao nível dos telhados das casas da rua, o movimento lento como remos dos meus braços fazendo-me subir com uma facilidade excessiva, que me deixou atónito. 
Como aquele ventinho, que nem era muito mais do que uma brisa incipiente, impulsionava o meu voo!
Nessa novidade e nesses pensamentos tentei endireitar o rumo do voo e controlá-lo como quem toma os freios de um cavalo. Mas distraíra-me o suficiente para ter ficado à deriva. Logo a seguir a ter dado um impulso e uma guinada por sobre um novo cão, fui empurrado à esquerda, numa espécie de transversal que se terminou num beco sem saída. Ao fundo havia uma casa, escura, com umas escadas e depois um corredor e portas abertas. Passei por sobre tudo aquilo planando: as escadas, onde nenhum pé meu fez ranger alguma tábua, o corredor, que percorri num voo recto como um avião de papel, e entrei voando pela porta do fundo, escancarada. Ali, sim, não tinha maneira de continuar: havia paredes, sentia o tecto sobre mim, não tinha ângulo para voltar atrás e o único modo de prosseguir o meu caminho na noite e manter esse modo tão leve e solto de me mover era furar por uma janela rectangular que, por sorte, não tinha vidro algum no caixilho. O meu corpo caberia ali todo inteiro se conservasse o impulso com que cheguei à parede e me mantivesse esticado enquanto o meu corpo passava através dela.
Não foi fácil, atravessar janelas em voo é mais difícil do que pensava – de qualquer modo era uma intercepção à rota sem obstáculos que tinha sido todo o meu percurso até ali. Tive consciência do meu corpo quando metade deste se encontrava já fora da janela e a outra metade ainda do lado de dentro. Não sei se a voz contribuiu para essa atrapalhação.
“Tens mesmo que continuar a voar e sair por aí?”
Dei comigo parado, em pé, o meu tronco e cabeça espreitando pela janela, sem nenhuma razão para continuar. A voz atrás de mim calara-se, não pronunciara mais do que aquelas palavras.
Virei-me, sabendo que era uma mulher; uma rapariga se não me engano. Era morena, olhava-me dos seus cabelos castanhos, da sua calma. Aproximou-se e eu afastei-me da janela na direcção dela.
“Aqui é um sítio onde se pode estar”, disse e pegou-me nas mãos.
As mãos dela não eram esbeltas como a voz faria supor, como conviria ao toque macio da sua pele. Olhei-as enquanto as acariciava entre as minhas, aquela ternura quente em dedos que não eram esguios, mas sim largos e um tanto grosseiros.
“Como as coisas podem não ser o que parecem ter de ser para que pareçam perfeitas”, senti-me pensar ao ver o meu corpo amolecer sobre o tapete no chão. 
Em frente a mim, acompanhando o meu movimento, o corpo dela abatia-se também suavemente, os olhos castanhos fitando-me e as mãos não se esquecendo de envolver as minhas num movimento tão permanente como a capacidade de os cães surgirem a percorrer a noite escura.

(Julho 2007)



© Fotografias, de cima para baixo: (1) Teresa Campos Monteiro, 2007, foto gentilmente cedida pela autora; (2) Pedro Serrano, Viana do Castelo, 2003; Pedro Serrano, Park Hyatt Tokyo Hotel (Japão), 2005.




16 abril 2010

PERGUNTE AO SEU MÉDICO

© Fotografia de Ricardo Ventura, Tokyo 2005.


“Como somos ingénuos a princípio...”, reflectia nessa manhã enquanto dava voltas e mais voltas nos parques do Hospital, em busca de um espaço para estacionar. Mas depois, à medida que saltaricamos de serviço em serviço, de meio auxiliar de diagnóstico em meio auxiliar de diagnóstico, de médico em médico, e nos vão descobrindo problemas novos, novas necessidades de tratamento, efeitos secundários dos tratamentos que é forçoso remediar, vamos naturalmente apercebendo que não nos livraremos mais daquilo, com sorte talvez nos permitam um ou dois meses sem lá irmos.
“Eu nunca me queixo de tudo o que sinto”, aconselhara-me um dia um velhote na sala de espera da Medicina Física e de Reabilitação, “de outro modo nunca mais nos largam...”
À época, isto passou-se por altura da minha segunda doença, sorrira interiormente da rusticidade da interpretação do homenzinho – como se os médicos tivessem algum gosto ou interesse pessoal em nos ver por lá constantemente!   
Eu já me habituara, constatava, palpando a disposição com que acabara por encarar tudo aquilo; satisfeito por ter, ao fim de meia hora, descoberto um sítio onde enfiar o carro, esquinado em cima de um passeio, perto da rampa de acesso à Urgência. O local não era seguro, estava ainda dentro da área, marcada a amarelo, de estacionamento proibido e passível de reboque, mas, do mal o menos, o próprio hospital tinha o seu serviço de rebocagem privado, o depósito dos automóveis apreendidos funcionava dentro da cerca da instituição e eu já ia conhecendo aquele pessoal todo, o que tornava a tarefa de recuperar o carro não muito difícil. Para além do mais, por ser doente crónico com uma incapacidade permanente superior a 70 % e, no futuro, dador do corpo à Ciência, pagava apenas uma taxa moderadora por cada apreensão.

14 abril 2010

BAIRRO DA BOAVISTA

© Fotografia de Pedro Serrano, Angola 2007.


O tempo dos comentários sobre os episódios do dia tinha-se esgotado e cada um seguia esparramado no seu canto do jeep, esmagado pelo calor e pelo cansaço de uma jornada de trabalho que começara demasiado cedo.
A meu lado, M’Bila, o nosso motorista, aproveitava a nesga de silêncio para sorrateiramente sintonizar o rádio numa estação de música brasileira melosa. 
Apesar de apenas 60 Km separarem o Caxito de Luanda, a paisagem muda entre as duas cidades como a da Terra para a da Lua e as verdejantes manchas de mangueiras e goiabeiras do Bengo, os troços de água faiscando à luz, tinham ficado para trás e, por entre embondeiros altivos como elefantes perdidos da manada, rolávamos já na zona árida e poeirenta que prenuncia os arredores de Luanda e onde vão alastrando a perder de vista, como uma nódoa de cimento por rebocar, os bairros descarnados dos realojados.

10 abril 2010

VERMELHO e BRANCO


© Fotografia de Pedro Serrano, Mértola 2008.


A história passa-se nas margens do Douro, algures a leste da velha ponte de D. Luís, provavelmente do lado de lá, talvez naquela zona de Crestuma, Lever, onde tínhamos a quinta do Outeirinho, uma quinta enorme com um ribeiro próprio, que descia em socalcos até ao rio Douro e tinha cais de embarque e tudo. Não sei bem, sabe-se como são os sonhos, têm zonas de grande imprecisão, embrumecidas.Também acompanhava por vezes o meu pai em domicílios por essas bandas, ele tinha uma extensa clientela do lado de lá do rio, nunca o vi fazer-se rogado para ir atender domicílios. E lembro-me da simpatia com que era recebido naquelas casas de famílias grandes, como lhe ofereciam terrinas de barro com sável de escabeche, mílharas, cavacas doces, coisas ribeirinhas que não sei se ainda há. Na altura eu era criança ou talvez adolescente quase imberbe.
Mas isso tudo, seja o que for, deixou marca no sonho.


Tudo começava comigo, agora adulto, aproximando-me de uma casa amarelada, à beira-rio, quase em cima das águas, sem muros a demarcá-la do terreno ribeirinho de areal e choupos, cadeiras espalhadas cá fora, roupa a secar em estendais, gente em ocupações várias. Sou recebido com grande satisfação pelos vários membros da família, reconhecem-me, sou o filho do Dr. Eduardo, o cirurgião: “então e o paizinho?”. Oferecem-me de comer, de beber; recuso gentilmente, continuo a cumprimentar as pessoas que vou encontrando em afazeres vagarosos de domingo à tarde (decididamente há um tom de domingo à tarde no sonho). Solto pelo terreno, sob o olhar benévolo de pais, tios e avós em mangas de camisa, aproximo-me de duas cadeiras de descanso, daquelas de madeira e lona, onde estão reclinadas duas raparigas, os braços estendidos e roçando o chão, falando animadamente uma com a outra. Vou cumprimentá-las, ainda não o tinha feito, embora já as tivesse visto ao longe.
 “Olha quem ele é!” diz uma delas com um grande sorriso. A outra vira-se lentamente na espreguiçadeira, a ver quem chega, pois estava de costas para a minha aproximação. É bonita, tão bonita e atraente: cabelo castanho-cendré, liso e fino, risca ao meio, olhos recortados em meia-lua, sardas no cimo das maçãs do rosto, rondando as pálpebras inferiores. E olhos de esquilo, castanho-claro, muito expressivos no meio daquele recorte em meia-lua. É tão cativante no seu sorriso de boas-vindas, no vestido de chita (tipo bata) que a molda em souplesse, que não resisto e me sento na borda da cadeira onde está e, depois me alongo também, pois ela fez espaço para mim. Olho-a de perto, passo-lhe uma mão leve pela cara, pelo cabelo, pelos contornos do nariz, a outra, na cadeira ao lado, ri-se.
 “Que tipo de gajo é você…?”, pergunta-me a lindeza das sardas.
 “Tipo malandro, acho eu”, respondo.
 Riem-se as duas, a minha amiga virou-se e está mais ou menos colada a mim na cadeira, a parte superior do vestido leve abriu-se e a minha mão repousa, em estado de graça, sobre a carne que espreita. Foi ali parar sem procura, encontraram-se. Mas algo em mim está levemente preocupado com o rumo que as coisas estão a tomar. Toda aquela gente por ali, a família dela e etc., já não falo na outra (irmã, prima?) que na cadeira ao lado nos olha distraída, aquilo não a interessa demasiado sequer. Está ali e vê, é tudo. Exponho a preocupação à minha companhia: há gente que se aproxima de nós.
 “Não há mal”, sossega-me, “vêm nesta direcção apenas porque têm que subir as escadas para a casa…”
 Ao nosso lado há uma casa, também de cor amarelo-ocre, e uma escadaria que conduz até à porta do primeiro andar, de algum modo estamos no abrigo formado pelo ângulo das escadas. Sim, reconheço, as pessoas passam por ali para se dirigirem às escadas, e não a nós, mas enquanto as sobem o que se vê sou eu e ela enroscados na espreguiçadeira, muito perto de sermos aquilo que parecemos. Mas ninguém se importa, tudo sorri ao passar, como se fôssemos quase invisíveis.
 Sem me lembrar da continuidade, sem transição evolutiva, na cena seguinte eu e ela estamos encostados a uma parede da casa, penso eu pois o cenário à frente dos meus olhos é amarelo-ocre. Ela está encostada à parede, de mãos espalmadas nela, como se fosse uma osga, a quisesse abraçar ou subir por ela acima. Eu estou por trás, roçagante como uma trepadeira, mas vejo bem as sardas por baixo das pálpebras, o belo recorte em meia-lua dos olhos, ela olha-me por cima do ombro, não perde pitada. Farejo-a.
 Última cena do sonho, falha de novo a continuidade em relação à cena anterior. As nossas posições relativas mantêm-se. Ela continua abraçada à parede, mas eu desci ao longo dela e tenho agora em grande-plano perante os olhos, num enquadramento que vejo de baixo para cima, a visão do rabo (é mais do que rabo, é toda a zona perineal) dela. Usa umas cuecas brancas, imaculadas na cor, e, à transparência, percebo um penso higiénico, daqueles que se colam na parte interior e que quando se descolam fazem crrrr (ruído de velcro). Das bordas laterais do penso repassou algum sangue, sangue que pinta em vermelho-vivo duas diminutas e simétricas manchas no branco das cuecas.
 “Que belo”, penso, olhando o contraste tão puro entre o branco e o vermelho, vindo-me à ideia a perfeição simples e intensa da bandeira do Japão.
 E não me lembro de mais nada, acho que acordei por ali. Merda!

04 abril 2010

JET LAG

                                              Querido,
Cinco da tarde, 
Cheguei estafada
E a maior maçada
É que a empregada
Tornou a faltar!
Olhe, vou flirtar as montras
Que nada como umas compras
Para a gente ressuscitar.
Ah!, telefonou a sua prima
Nada urgente, volta a ligar
Acho que a seguir ao jantar.
E a propósito disso:
Janta cá a Milice e,
Veja só a tolice,
De decente só há
Uma base de quiche
E nada para lá pôr...
Seja pois um amor
E passe na Babette’s
Compre qualquer coisa
Traga umas courgettes,
Endívias, lichias, salmão
Sei lá, invente uma solução.
Um enorme beijão  

Querida,
Vi o recado
Que deixou abandonado
No Chippendale do hall.
Giríssimo, mas aspas
Tou bocejantemente mole.
Um não sei quê, um tédio
Para qual o remédio
É espreguiçar a tarde.
Vou, talvez com Gérard,
Ao Centro Cultural
Onde arranca hoje
A temporada musical.
E não abre nada mal
Isto é, para Belém,
Até começa muito bem:
Epstein interpretando Bach!
(Não há quem me agarre...)
Assim, não espere por mim
Para o seu jantar
Pois, se a fome tentar,
Trincamos, lá no bar
Eu, e talvez o Gérard,
Uma tosta ou sandwich.
Mil beijinhos à Milice

02 abril 2010

A CADA DESPEDIDA

© Fotografia de Pedro Serrano, ilha de Luanda (Angola) 2008.


Na altura não percebi todas as implicações do que me estava a tentar transmitir. Terá sido há uns quinze anos atrás, talvez mais, e ele referia-se a uma manhã em que me tinha visto sair o portão de casa para apanhar, na esquina da Circunvalação com a rua do Amial, a camioneta para Guimarães.
“Fiquei ali a ver-te desaparecer ao fundo da rua, com uma malita na mão, e a pensar: ‘lá vai ele para a sua vida’…”

O meu pai sempre foi enxuto na manifestação de afectos, tem até uma certa sobranceria pelos sinais exteriores que podem ser classificados como bordejando a lamechice. Coube-me especular sobre o significado do coração apertado que se escondia por trás daquela frase. Tinha 23 anos, acabara de me licenciar uns meses antes e fora colocado como médico em Guimarães; ia apanhar a camioneta para o trabalho… Não me parecia nada de mais, era a sequência lógica, esperada e desejada por todos – eu era talvez o mais indiferente a todo esse investimento familiar no meu futuro e à celebração que o acompanhara. Por outro lado, Guimarães distava 45 km do Porto e embora nesses tempos 45 Km fossem muito mais do que o são agora, mesmo assim não era nada do outro mundo, não era propriamente as antípodas. Sim, eu ia morar em Guimarães mas provisoriamente…

01 abril 2010

AO SUL DAS COUSAS

                    
Ai, bela senhora minha
Sois tão leda quão daninha
Quando assim vos expressais
E a ponta rubra molhais
De uma língua distraída
Na boca em ósculo fendida.
   
O que em mim despertais,
Revoada de pardais
De uma copa frondosa
Sobre searas de trigo,
É melodia ditosa
Ecos de trova d’amigo
Lá ao sul do meu umbigo.


©Fotografia: Pedro Serrano, Yoyogi Park, Tokyo, 2006