26 fevereiro 2018

AQUACULTURA (Mateus 14:19-25)


Oh a imensa desilusão!
Talvez por lapso de tradução
O tal caminhar sobre as águas
A crer em recentes tábuas
Pode não ter passado de um passeio à  beira-mar
Bem por largo dos peixinhos a nadar
A sardinha,  a faneca, o rodovalho, o bagre
Fazendo casting para o próximo milagre



© Fotografia de pedro serrano, Leipzig (Alemanha), 2011. 

24 fevereiro 2018

ETERNIDADE

                                 Por nós falariam os cemitérios
                                 Se os cemitérios falassem
                                 De nós crocitaram velhos comparsas
                                 Até que os respectivos táxis chegassem

© Pintura "Donde vimos, quem somos, para onde vamos" de Fernando Varanda, Lisboa 2016.

20 fevereiro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 4. Olhai as vacas dos campos

Ilha Graciosa, Açores (grupo central).
É sempre arriscado generalizar a partir de uma única observação. Entretido a dar nomes de cores às ilhas dos Açores (ao Faial chamou ‘ilha azul’ por causa das hortênsias), o escritor Raul Brandão resolveu cognominar a Graciosa de ‘ilha branca’. Ilha branca!? Quase escuto o brado de protesto de uma série de ilhas gregas a evolar-se, em coro, do azul-ferrete do Mediterrâneo.
Acontece que o homem passou por aqui no final do Verão, quando o verde da paisagem se encontra crestado pela falta de água e as casas caiadas sobressaem da relativa aridez. Foi um erro de julgamento sazonal, tivesse o tipo andado hoje connosco e chamaria a isto a ‘ilha verde’.
É Domingo, eu e o Rui metemo-nos na Dyane para a tal volta de reconhecimento à ilha, mentalmente preparados para gastar a tarde inteira na excursão... Qual quê!; passado pouco mais de uma hora estávamos de novo a estacionar o carro à porta do hospital, para ir dar uma espreitada aos doentes internados. A ilha tem 10 km de comprimento por 4 de largura, se não formos geógrafos ou botânicos percorre-se isto em meia-hora. E mesmo assim parámos no Carapacho por nos terem dito  haver lá um restaurante. Não há! Há um senhor a quem se pode encomendar uma caldeirada ou um cavaco estufado, mas tem de se marcar com antecedência para que ele arranje o peixe ou mande capturar essa espécie de lagosta jurássica, e abra e areje a sala onde iremos comer.
Rai’s parta, lá vamos nós ter de continuar a comer na D. Irene ou, se queremos comer melhor, aprender a cozinhar, uma solução demasiado radical para já. Rai’s parta também o romanticismo do Raul Brandão, que não deve ter gasto por aqui mais do que uma meia-hora deslumbrada.
De facto, em fins de Fevereiro, a ilha é verde como um drop mentolado para onde se quer que olhe. Para onde quer que se olhe vê-se o mar e mais nada, perto e longe, e entre ele e nós – especados ao lado da Dyane, de mãos enfiadas nos bolsos a arrostar com a ventania destes descampados – só se veem vacas; vacas e mais vacas, que nos olham de olhos meigos ou indiferentes, algumas delas quase encantadas por algo como nós lhes aligeirar o tédio dominical, outras escorrendo baba pelos cantos da boca como um alienado entre as tomas da medicação. Sobram ainda as que não levantam sequer a cabeçorra do solo, concentradas a retouçar o pedaço de verde ao seu alcance, confiantes no dia de amanhã e na eternidade do sustento. Até onde a vista descaída lhes alcança, a erva dos prados agita os caules verdes numa saudação amiga.  

 

  


Nota: As vacas da imagem inferior são tomadas de empréstimo à contracapa do álbum Atom Heart Mother dos Pink Floyd, 1970.


16 fevereiro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 3. Pulgas no Açucareiro

Esplanada do Açucareiro.
Encontrámos o Sr. Medina no Açucareiro e, a princípio, tomei o encontro como uma aparatosa coincidência, quase reagi com a face do espanto. Depois descobri que o café do Açucareiro é o único da vila, da ilha!, e a surpresa feneceu.
Do lado de lá de um dos dois lagos que lambem a porta de nossa casa fica o largo principal da vila, o Rossio. No centro há um coreto – conhecido por açucareiro – e sob o chão deste, no miolo da estrutura que o suporta, numa sala rebaixada, abriga-se o café da ilha. De modo que, sendo o único, o derradeiro, ali converge diariamente – de manhã, à tarde e à noite – a gente de Santa Cruz da Graciosa: os da farmácia, os do hospital, os da câmara e dos diversos pelouros municipais; os do correio, os da firma que anda a construir o porto; o Sr. Medina, este último representando com circunspecção os serviços judiciais e usando a linguagem gestual para oficiar que nos deseja apalavrinhar por uns instantes.
Ora acontece que os Serviços Sociais do Ministério da Justiça pretendem contratar a atenção médica a que, por estatuto, os seus funcionários, familiares directos e colaterais, têm direito mas, dada a nossa condição de médicos policlínicos, torna-se impossível firmar um contrato e, então, após ouvir os seus superiores em Angra do Heroísmo...
Distraio-me do que diz o homem: a circunstância de ter sido o nosso fiel escriturário durante a autópsia reenvia-me, por uma associação de pensamento lateral, para uma aula prática de medicina legal ocorrida num soturno fim de tarde na Morgue do Porto, ali ao lado do jardim do Carregal. A atmosfera da pequena sala está pesada com os miasmas do formaldeído e, de um dos assentos dispostos em anfiteatro, uma mão toca-me o ombro e a voz do Zé Lino, que se distrai na fila atrás da minha, segreda:
“Estás a começar a ficar careca, pá, já se topa uma clareirazinha no alto do cocuruto...”
Tento encaixar o choque sem alarde. Careca!? Tenho vinte e dois anos e, por escrutínio atento ao espelho, não tenho notado nada de tal... O certo é que, ao espelho, controlo sobretudo as entradas da testa... Mas dali, do seu posto de observação privilegiado das traseiras, o Zé Lino – colega com quem costumo estudar em casa de meus pais e para onde, sempre que pode e eles não estão, ele orienta as namoradas de ocasião – detectou a falha, a erosão insidiosa. Humilhado, destroçado, tento resistir a não levar, em público, a mão à zona desmascarada.  
Enfim, tudo se passou em local apropriado para uma constatação sobre mortalidade e os efeitos da passagem do tempo, generalizo, de novo à ponta do balcão do café sob o coreto e de regresso à conversa do Sr. Medina, que nos pede, então, o obséquio de, entre nós e logo que possível, decidirmos qual dos dois será o médico dos serviços judiciais da comarca da ilha Graciosa. Derivado de não poder haver contrato, não poderá haver lugar a pagamento, somenos que ele espera a gente compreenda.
A gente, isto é eu e o Rui, não compreende grande coisa mas, também, pouco nos interessa. Os funcionários e respectiva família do pessoal do tribunal serão dois ou três gatos pingados e, quando necessitarem, marcarão vez e irão à consulta como os outros.
“É isso, não é?”, perguntámos mais tarde nesse dia ao Nascimento, o chefe dos serviços administrativos do hospital que, embora estivesse também ao balcão do Açucareiro, lançando olhares de acesa curiosidade na nossa direcção, fingiu não saber ao que nos referíamos. Resumimos-lhe o encontro e a conversa.
O Nascimento, sem se querer comprometer com assuntos de outras entidades oficiais, acha que será mais ou menos isso, que eles estarão, sobretudo, interessados em manter o esquema de comparticipação de medicamentos e meios auxiliares de diagnóstico que, amiúde, são diferentes do regime geral...
“Vejam os doutores, por exemplo, os bancários: gozam de um sistema de protecção na doença muito mais...”
Já desligamos outra vez, queremos é pôr-nos a andar, ver se conseguimos acabar de encafuar os nossos pertences nos armários e dar uma volta de reconhecimento pela ilha na Dyane, veículo que requisitámos para nosso uso. O Nascimento vai abanando a cabeça e dizendo que “já que se está com a mão na massa” lhe devemos indicar, com brevidade, qual de nós irá ser o responsável formal por alguns cargos que é necessário distribuir: director clínico do hospital, delegado de saúde, director da consulta do dispensário do SLAT (1), director da consulta Materno-Infantil, membro da Comissão Administrativa do Hospital... Tudo isto,  dada a nossa condição de médicos policlínicos, será assegurado a nível interino e gracioso.
“Mais nada?”, inquirimos, já irritados, e perguntando se no meio disso tudo nos iria sobrar tempo para ver e tratar doentes.
O Nascimento teve um riso nervoso, o confronto directo parece não ser o seu terreno favorito. Refugiou-se nas directrizes do Sr. Vasco Weber, chefe da Comissão Administrativa do Hospital Concelhio. Queremos saber quem é esse senhor e onde está, mas, pelo visto, faz outras coisas na vida e só passa por ali de vez em quando.
Director (interino) à porta do hospital, vendo-se, 
à direita, a janela do seu gabinete.
Estamos de saída, mas o Nascimento agitou ainda um pedacito de papel diante dos nossos olhos.
“Ah, já me ia passando, telefonou para aí o Araújo, dos Correios... Parece que quer falar com os senhores – suponho que será para que indiquem qual vai ser o médico deles – e convida-os para um copo, palavras suas, uma noite destas em casa dele.”   
“Ao menos um que é simpático a manobrar...”, comentei com o Rui já no caminho para casa, um trajecto de cinco minutos a pé que deu para discorrermos sobre a multidão de gajos, serviços e departamentos que se preparavam para girar em torno de nós dois.
“Pois. Já viste a quantidade de gente a quem o nosso trabalho vai justificar a existência? Que seria deles se este ano não tivessem vindo médicos para a ilha? Uma matilha de pulgas para um só cão!”
“Dois, se não te importas”, corrigi, “exijo ser chupado por metade dessas pulgas. E a ti, o que te agrada mais: director do hospital ou delegado de saúde?”
“Sei lá, talvez delegado de saúde. Não faço ideia, mas é capaz de dar menos trabalho...”
E animamo-nos um pouco ao lusco-fusco a combinar entre nós quem ficava com o quê.

(1) SLAT – Serviço de Luta Antituberculosa.

© Fotografias: Santa Cruz da Graciosa, Graciosa (Açores), 1979, fotógrafo desconhecido.