29 maio 2011

CASAMENTO À CHUVA












Em consonância com a velha paixão do noivo pelo Japão, as mesas onde decorreu a boda ostentavam nomes como Samurai, Tóquio, Kyoto; e o próprio design do bolo de casamento era uma alusão ao país do Sol Nascente… Na minha qualidade de padrinho do R., fiquei na mesa principal, a das Carpas, signo de longevidade, em companhia dos nubentes, dos avós e restantes padrinhos, sentado entre a mãe da noiva e a mãe do noivo, uma tremenda responsabilidade.
No final da festa, já perto de meia-noite, saltando para o papel de chauffeur de limusina, conduzi os recém-casados a Lisboa, onde iam pernoitar antes de voar para a lua de mel num país do Mediterrâneo. 
A noite, como o dia, esteve incerta e, no regresso, percorri os 80 km que me separavam de casa entre bátegas de água e tranches de névoa, a auto-estrada quase deserta e a minha mente, como muito me acontece quando guio sozinho e em piloto automático, vogando por tudo o que tinha conduzido até àquele casamento à chuva, uma história que se iniciara uns quase trinta anos atrás.
Em meados dos anos 70, como aconteceu com muitos outros conterrâneos seus, a Vera trocou o Brasil por Portugal, para aqui terminar a sua licenciatura em Medicina. Vinha lá de cima da Rondônia, e antes de se aventurar na Medicina fora, por uns breves anos, professora primária numa escola. Lembro-me vagamente dela, de a ver nos corredores da Faculdade de Medicina, no Porto, mas o nosso curso tinha umas centenas de alunos e nunca cheguei à fala com ela.
Voltei a encontrá-la em 1984, quando migrei para o Sul do país e vim parar ao mesmo centro de saúde onde ela trabalhava, e foi a primeira amizade que fiz cá por estes lados. Nesses dias ela tinha um filho de dois anos (R., o noivo) e estava grávida de uma menina que, muitos, tantos, anos depois viria a ser a primeira namorada adulta do Zé João, o meu filho que ainda estava longe de existir nessa tarde em que, recém-chegado a esta terra, ela se disponibilizou para nos ajudar a encontrar casa e nos recomendou com entusiasmo a vivenda com venezianas e vista para o mar onde hoje escrevo este texto.
Nesses dias em que, após quatro anos de Trás-os-Montes, eu começava vida nova entre as colinas suaves do Oeste, brilhando verdes entre o muito azul céu e mar de Agosto, os sentimentos da Vera ondulavam em tristeza. O seu casamento correra mal e, para se afastar do epicentro do desgosto, trocara Lisboa por uma vila obscura da província, para recomeçar tudo de novo, sozinha, um menino nos braços, outra na barriga.
O tempo passou e curou ou, pelo menos, amaciou as feridas e a Vera casou de novo, a Cristiana nasceu, logo a seguir apareceu o Zé João e ambos se emporcalharam, entre agapantos e rosas, nos canteiros do quintal aqui de casa, os quatros a correram e gritaram de susto nas águas verdes do mar aos pés das nossas casas vizinhas.
Horas, dias, meses, outros anos se escoaram, as quatro crianças foram crescendo inseparáveis e, uma noite de Junho, sem aviso, eu abati-me como um saco, quase assassinado por um coração que se preparava para deixar de bater de modo definitivo. A Vera veio a correr, logo que a João, minha mulher e mãe do Zé João, lhe telefonou aterrada e, no trajecto sacolejante de uma ambulância, é a voz dela que lembro nos breves momentos de emersão da consciência, o seu aflito sotaque brasileiro perguntando, enquanto me enfiava comprimidos sob a língua e regulava o volume de oxigénio para a minha boca e nariz:
“Pedro, me ouve? Está se sentindo melhor?”
Do lado de lá, cego, flutuando para fora do meu corpo em direcção ao nada, eu acenava que sim, que me sentia bem (pode ver esta história em Coração Independente). Estações viraram folhas como páginas de livro, as nuvens correram nos céus como cavalos alados, quantas marés vazaram e voltaram a encher na Praia da Areia Branca. Numa dessas páginas de calendário, o segundo casamento da Vera acabou num estertor doloroso, os dois miúdos, que, perdido o biológico, muito se tinham ligado ao novo pai de afeição, ficaram desolados nessa espécie de segunda orfandade. Uns anos depois o mesmo  negrume bateu à porta do convalescente, do novel ressuscitado em que eu me transformara.
Adiante, que eu comecei a escrever este texto com a intenção de falar de um casamento à chuva e confidenciar aos meus ouvintes as reflexões que, como uma música que se ouve ao longe, cruzaram a minha mente, depois de deixar o R. e a Denise num hotel de Lisboa.
Ontem, no casamento do filho mais velho da Vera, o meu filho Zé João, namorado da Verinha, a filha do meio da Vera, músico de profissão, ofereceu como presente aos noivos o concerto que pontuou a boda e, para isso, trouxe do Porto com ele um guitarrista tripeiro, um contrabaixista minhoto e um baterista polaco.
Na enorme sala, sentados pelas mesas atoalhadas de branco onde circulava alegremente o champagne e as conversas, marcaram presença os dois ex-maridos da Vera, pais dos seus três filhos, a actual esposa do primeiro marido e, também, sensatamente distribuída a outra mesa, a seguda ex-mulher dele, a senhora pela qual, há muitas luas atrás, o homem deixara a Vera com um Nuno ranhoso pela mão e uma Verinha ainda sem nome num ventre proeminente. Na nossa mesa, ao lado direito da Vera, estavam sentados os primeiros sogros da Vera, avós paternos do noivo e da Verinha e, cuidadosa e carinhosa, a Vera levantava-se amiúde para ir encher os pratos dos velhos senhores com iguarias que não lhes fizessem demasiado dano nesse dia de chorosa emoção. 
De vez em quando, eu próprio me levantava para ir aos aparadores do buffet servir-me mais um pouco e, proveitoso, o meu olhar envolvia a sala, tomava a temperatura do ambiente para, baseado em evidência, poder serenar o R. e a Denise que, sempre que se cruzavam comigo, me segredavam:
“Achas que está a correr tudo bem?”
Lá ao fundo, em cima do pequeno palco, o conjunto do Zé João, tocava temas bossa-nova, pois toda a família brasileira da Vera andava por ali e o novo namorado da Cristiana (a filha mais nova da Vera) é brasileiro. Pela sala, correndo incansáveis entre o palco e as mesas, os meios-irmãos mais pequenos, filhos dos novos casamentos dos vários ex-maridos e ex-mulheres, corriam e gargalhavam e a Maria e a Ágata, também elas meias-irmãs, deslizavam de braços entrelaçados, elegantes e leves na sua juventude e beleza.
Numa animada mesa, só de mulheres, sentava-se a João, minha ex-mulher, mãe do meu filho que é namorado da filha da mãe do noivo, e numa outra, quase em frente, pisquei o olho ao Jorge (segundo ex-marido da Vera e pai da Cristiana) e acenei à mãe dele, que todos conhecemos e tratamos por avó Mimi e que é também ex-sogra da Vera.
Confusa, cara ouvinte? E, em caso afirmativo, confusa com qual detalhe? Com tanto nome, ligações e ex-ligações familiares ou com a presença no casamento de gente que tão cruelmente, às vezes simplesmente tão tolamente, bateu e fez bater os outros com a cabeça nas paredes?
Ah, pois, mas essa é a qualidade não logicamente explicável da minha amiga Vera (a mãe, que não a filha, pois a filha é a namorada do meu filho Zé João) que, numa mágoa sem sombra de mágoa, tem o dom de reunir à sua volta toda a galeria dos seres que fizeram ou fazem parte da sua vida.


© Fotografias de Pedro Serrano, 28 Maio 2011. De cima para baixo: (1) Bolo de noivos japonês; (2)  Vera; (3) Maria e Ágata; (4) Aliança da Denise nas mãos de menina-das-alianças.




28 maio 2011

É o amor que me inspira


É o amor
Q'me me inspira
A viver como 

Um monge às vezes sem
Pão mas sempre a ser bom
Q’ reflecte a pureza daquilo
Q’eu sinto. O meu amor vive hospedeiro
Na lágrima d’ quem sofre, não tem preço,
Não cabe no teu cofre



Da letra da canção "A Mentira do Vosso Amor" de Valete e MCK. O tema é um remix do beat da composição "Equilíbrio", de Keita Mayanda.
© Fotografia de Ana Rodrigues, bairro Boa Esperança, Caxito, Angola, Maio 2011. Fotografia gentilmente cedida pela autora.



24 maio 2011

A COISA MAIS LINDA!


Uma tarde de quase Verão. No café sobre a praia um casal com uma criancinha dos seus seis meses, desengraçado, coitadinho, deus-o-abençoe. Segura-se ainda mal sobre as pernas, apoiadas nas coxas da mãe, que o sustém pelas axilas, enquanto lhe dá beijos por todo o lado: cabeça, testa, nariz, face, camisola, todo o espaço beijável e ao alcance. Só se interrompe para lhe secar, com uma fralda de pano, a baba que escorre da boca do menino, oh os dentes a irromper – que maus! Depois, inclina-se sobre o filho e fazendo vibrar os beiços aplica-lhe aquele desentupidor labial sobre a pancinha saliente. A criancinha, esgazeada, ri e guincha de excitação, e a mãe repete sem parar:
“Dik-dik-dik...dik-dik-dik...”
E volta a fossar beijos lambuzentos no pescoço do menino, que vai emitindo monossílabos agudos e não para de saltar sobre os joelhos dela.
Ao lado, beatífico, o pai assiste a tudo em total silêncio, num sorriso de contornos esbarrondados, a cara aparvalhada por uma expressão sonhadora de quem ainda não acredita totalmente que aquele ser lhe saltou para dentro da vida de um modo – oh – quão definitivo.

© Fotografia de Pedro Serrano, Praia da Areia Branca, 2010.

23 maio 2011

Há céu para além das estrelas?


Sentados na berma do passeio contígua à esplanada do café, olhávamos, como quem aguarda, a praça alagada de água aos nossos pés. Já o trajecto até ali, correndo desesperadamente para fora do encontro com o tipo do serrote, fizeramo-lo com água pelo meio da perna, pois a cidade estava inundada, embora o tempo estivesse magnífico e de céu azul, como quase sempre o está em Faro.
Ao meu lado, está sentado o meu amigo, que me acompanha desde antes do encontro com o louco do serrote; foi ele um dos poucos com quem desabafei sobre o facto de estar morto e de como isso me fazia sentir. Mas não estou apto a nomeá-lo, sei perfeitamente quem ele é (desconfio que é CD), tenho todos os elementos possíveis para o identificar, mas não lhe consigo ver nunca a cara, como se a minha perspectiva só o enquadrasse do peito para baixo. Isto é vulgar nos sonhos.
Tinha fome e mandei vir uma salada ceviche, uma espécie de pudim frio de peixe, marinado em vinagre de malagueta. Mas está uma porcaria e com a colher vou atirando pedaços para a água aos meus pés, ficando a olhar aquilo a desfazer-se e a desaparecer na água translúcida, enquanto penso em tudo o que se passou até chegarmos até ao café cercado por água.
Uma manhã, em dias anteriores ao do encontro com o tipo do serrote, dera-me conta de que estava morto! Tinha morrido! Foi um choque constatar isso e, mais do que o choque, era o desconforto de andar por ali nesse estado que não fora antecedido por nenhum acontecimento terminal. Não sofrera um desastre, uma doença terminal, um acontecimento fatal, nada, nada disso. Dera por mim morto e outros tinham-se apercebido também do facto, não todos, mas os mais próximos como o meu amigo aqui ao lado na esplanada, que talvez seja o CD.
“E agora?”, perguntara-lhe, “estou morto, mas continuo por aqui como se nada fosse, a fazer o mesmo de sempre…”
“Às vezes é assim”, respondeu, “demora algum tempo até que desapareças mesmo do nosso contacto…”
“Quanto tempo?”, quis saber.
“Oh, não sei bem dizer, varia; talvez uns seis meses…”
Eis-me por cá, dia-a-dia, um tanto apreensivo, olhando a expressão das pessoas com quem estava, com quem me relacionava, tentando apreender sinais de espanto ou de desconfiança, até de horror por poder estar, sem o dar conta, a fanar-me ou a apodrecer perante eles. Abusava do desodorizante, do colutório gengival, do insecticida; mirava-me no espelho, procurava indícios, mas não via nada. Talvez, apenas, o espelho me devolvesse um maior silêncio do que é comum com os espelhos.
Nesse estado sonâmbulo aproximara-me, uma manhã de alta Primavera, de um recipiente municipal que se me afigurava apropriado para lixo, mas ao qual estava encostada a bela cabeça entrançada de uma rapariga loura. Estendida, de bruços, numa cadeira dormideira forrada a tela azul, o queixo apoiado nos braços cruzados, os olhos azuis semicerrados. A tampa do contentor encontrava-se a escassos centímetros do seu nariz e quando a levantei, para aí depositar o meu saco de lixo doméstico, vi que o seu conteúdo se assemelhava a um prato de restaurante e que continha batatas coradas e outros legumes salteados.
“Isto é um contentor de lixo?”, quis saber.
Ela abanou a cabeça afirmativamente, as tranças deslizaram como serpentes louras, sorriu. Deixei cair o lixo, pousei a tampa e virei as costas, algo contrariado por me estar a afastar. Depois virei-me, perguntei:
“Quer vir comigo à praia?”
Como se só estivesse à espera do convite, saltou da cadeira e começou a caminhar ao meu lado, as tranças balouçando nas riscas horizontais da t-shirt, a única peça de roupa que vestia para além da parte de baixo de um bikini atado com nós de marinheiro. Olhei-a de soslaio enquanto progredíamos sobre o chão de areia macia, sob a sombra de pinheiros mansos. Ela olhou-me também, esticou na minha direção um dedo mindinho, como quem diz: “pega aqui”.
Entrelacei o meu mindinho no dela e assim fomos verso ao mar, o meu estado de espírito riscado por rugas duvidosas:
“Será que ela iria dar-se conta de que estou morto?”
“E se um dia, passados os tais seis meses, desapareço pura e simplesmente ou me começo a apagar lentamente?”
“O que dirá ela? Como lamentará a minha ausência ou resmungará sobre a minha memória?”
Tudo isto me acudia à mente enquanto caminhava com ela, tão contente, como se a eternidade fosse uma tarde de areia morna com pinheiros.
Mas quem acabou por se sumir sem aviso ou transição foi ela e agora vou ao lado do meu amigo e, de repente, a rua onde os nosso pés ecoam acaba-se em água! Metemos os pés no molhado, a testar a profundidade, porque não temos outro caminho para seguir e desatámos a correr, como se assim pudéssemos sair daquilo mais depressa.  Mas, de rua em rua, a água não se acaba, ninguém se cruza connosco, a cidade parece deserta.
Abrigámo-nos na soleira de uma casa e resolvemos subir as escadas nas nossas costas, abrir uma porta das várias do patamar do primeiro andar. Sentado numa cama, enquadrado na luz forte, está um tipo novo, com um serrote de folha larga na mão. Vai demonstrando o uso do serrote:
“Eu podia cortar-vos assim”, diz, traçando linhas com o serrote sobre as costelas nuas, ou assim: introduziu a ponta do serrote na boca aberta e, paralisados, vemos os dentes aguçados do serrote a enterrar-se-lhe nas gengivas. Ele tem os dentes curtos, ratados, quase como se fossem dentes de leite e, sob a pressão da lâmina, as gengivas parecem prontas a explodir em sangue.
Sem termos de trocar palavra concluímos que o tipo é um louco perigoso e, mal surge uma aberta, desaparecemos dali para fora, subindo escadas a correr, batendo portas. Desembocámos numa sala com uma janela larga, de onde jorra, intensa, a luz exterior, mas a janela tem aparafusada uma placa de acrílico – não abre nem se deixa abrir. Ouvimos um barulho atrás de nós, viramo-nos sabendo quem é. O tipo do serrote olha-nos da porta, com um sorriso entre o manso e o divertido:
“Escusam de ter medo! Esqueci-me de vos dar um recado: se estiverem com X digam-lhe, da minha parte, que o quero ver em breve...”
“Quão breve?”, perguntamos-lhe, para poder transmitir o recado de forma apropriada.
“Oh..., sei lá. No máximo uns seis meses.”
Aliviados, saímos a galopar pelas ruas fora, as pernas enfiadas até meio em água, mas ganhando uma espécie de balanço acrobático nesse mergulhar, o que nos permite percorrer km inundados em poucos minutos e a desaguar na praça alagada, onde nos sentámos a descansar na berma contígua ao café.
Acabei de desmembrar toda a minha salada de peixe na água e levantamo-nos para ir embora, para tentar alcançar o centro da cidade. Eis-nos desembocando num enorme espaço aberto, uma avenida corta-o de norte para sul e o semáforo está vermelho para os peões. O asfalto está seco. Do lado de lá da avenida um grupo de mulheres foi barrada pela cor do semáforo: uma senhora velha, duas mulheres de meia idade e uma rapariguinha dos seus seis ou sete anos. Com surpresa, reconheço a senhora idosa, é a professora AL, professora de Doenças Infecciosas na Faculdade de Medicina de Lisboa. Ela também me reconhece, acena amistosamente e, aproveitando o semáforo verde, empurra a menina para a nossa companhia.
“É minha sobrinha”, grita do lado de lá da avenida.
Agora a miúda está connosco. Traja um vestidinho leve, com flores violeta, o cabelo muito curto, encaracolado. Pus-me de cócoras e abracei-a para precaver, agora que o semáforo abriu, que possa desembestar por ali fora em direção à tia e ser esmagada pelos carros que passam sem parar. Durante esse abraço, no fragor do trânsito, ela gritou nos meus ouvidos:
“Achas que há céu para além das estrelas?”
“Sim, acho que sim...”
“A minha tia diz que não...”
Encolho os ombros numa de tudo é possível, afago-lhe os canudos arruivados.
“O semáforo mudou de cor, vês? Agora é seguro ir ter com a tua tia.” 

© Fotografias de Pedro Serrano, de cima para baixo: (1) Praia da Areia Branca, 2010; (2) Porto, 2010; (3) Lourinhã, 2010; (4) Porto, 2009. 

20 maio 2011

A vingança do chinês

Restaurante em Cantão (China), 25 Dezembro 2002. 
© Imagens: Zé João Serrano em câmara digital Sony. 
Música: "Watermelon Man", Herbie Hancock, álbum Headhunters, 1973. 

19 maio 2011

Potenciais evocados


Tinha estado um dia sufocante, um calor em demasia para o meio de Maio, o céu, baixo e fechado, lembrando os trópicos. Ao fim da tarde choveu, uma chuva urgente, breve mas intensa, e quando saí à rua o ar estava lavado de novo e uma luz declinante, de um dourado de relicário, banhava os prédios na 5 de Outubro.
Estacionei o carro numa das ruas que ladeiam a Maternidade e percorri o trajecto que me separava do Atrium Saldanha evitando pisar o manto de pétalas violeta que a violência do aguaceiro tinha arrancado aos jacarandás em flor da avenida e espalhara pelos passeios, que, como um granizo rescendente, recamava os limpa-pára-brisas dos automóveis.
Fiz o que tinha a fazer, depois comprei um livro de viagens do Tchékhov e decidi comer por ali, eram horas de jantar. Na praça coberta, marginada por restaurantes, o Assuka tem uma filial um tanto improvisada mas, apesar disso, exibindo uns uramakis apetitosos e uma sopa miso acabada de fazer.
Peguei no meu tabuleiro, sentei-me numa das muitas mesas que são partilhadas pelos vários stands de venda de comida e dediquei-me à complexa tarefa de abrir embalagens sem entornar nada, de espremer a pasta verde do wasabi no volátil pratinho de folha de alumínio para onde previamente esguichara o pacotinho de molho de soja. Estripei o celofane que continha os talheres de plástico, pesquei na sopa um cubo de tofu e deixei o olhar circunvagar.
Na mesa à minha direita, um casal acabava a refeição, achei graça ver a senhora, uma dama de idade trajando um saia-casaco verde água, comer o menu japonês de caril. Em frente a ela, um rapaz já tinha finalizado a refeição e falava, os pés de ambos quase se encontrando por baixo do tampo de fórmica, os dela entalados em sapatos de salto raso onde sobravam os peitos dos pés, os dele espraiando-se nuns ténis tamanho XL.
Não demorei a concluir que se devia tratar de avó e neto: ele contava-lhe qualquer coisa relacionada com um projecto e com a dificuldade em realizá-lo, ela interessava-se, perguntava quanto poderia custar, deixava no ar a sugestão de talvez o poder ajudar. Ele ouvia atentamente, depois dizia mais uma frase, não os ouvia muito distintamente, falavam com intimidade e o ambiente era barulhento, como o é sempre nos espaços comuns dos centros comerciais. Desisti de apurar o ouvido, fiquei a olhá-los como se estivesse a ver um filme mudo. Nele não havia o desinteresse ou a pose de frete de quem tem dezoito anos e é obrigado a ir jantar com a avó, nem nela o ar ausente ou desanimado de quem percebe isso mesmo e não sabe como lidar com esse desconforto. Não, nada disso, conversavam um com outro sem sinais exteriores de pressa, com delicadeza e atenção às deixas de cada um.
Sem me pedirem licença, levantaram-se e afastaram-se em direcção às escadas de mármore branco. Em pé, o rapaz era enorme e a senhora, para além de naturalmente baixa, era curvada no seu movimento. Ele caminhava ao lado da avó no jeito desengonçado de quem é demasiado alto e magro, fazendo o possível por abrandar a passada ao ritmo dela e, talvez, levemente envergonhado por poder ser visto com um ser de outros tempos, vestido como uma lagarta. Os pés dela, por seu lado, encaravam a aproximação de cada degrau com precaução, oscilando um pouco ao trepar um novo, o rapaz tentado a estender um braço para ajudar, mas o esboço de gesto paralisado pela inibição em lhe tocar, pelo cuidado em não a baptizar com um estigma de dependência.
Antes de desaparecerem definitivamente do meu ângulo de visão, consegui ainda vê-los surgir de frente na volta do patamar, a face da senhora concentrada nos passos a dar, a cara do rapaz pendendo para a avó numa atenção pensativa.
Cá em baixo, sem aviso prévio e sem uma migalha que restasse no meu tabuleiro, dei por mim comovido, suponho que pela emoção de testemunhar uma tão duradoura harmonia numa existência onde tudo é tão sempre por um triz.

Nota: Potenciais evocados são respostas eletrofisiológicas do cérebro a estímulos sensoriais externos. Existem três diferentes tipos: potenciais evocados visuais, auditivos e somato-sensoriais.

© Fotografias de Pedro Serrano, Lisboa, Maio de 2011.


16 maio 2011

VOU-TE CONTAR: 36. O mistério das agendas pretas




Quando, logo após a sua morte, fomos obrigados, por circunstâncias legais, a mexer nas coisas do nosso pai, encontrei, numa das gavetas da sua escrivaninha, as agendas que usava para apontar os afazeres da vida diária. Estas agendas cobriam os anos entre 1949 e 2007, o ano da sua morte e, a uma primeira vista, todas pareciam ser do mesmo modelo: pequenas agendas de 10 cm de altura por 7 de largura, isto é, ocupando à justa a palma de uma mão, concebidas para caber no mais pequeno dos bolsos de um casaco ou de umas calças. 
Como não eram de utilidade prática imediata e tapavam, como um revestimento de ladrilhos, os documentos que se acumulavam sob elas na gaveta, amontoei-as, sem grandes escrúpulos e literalmente às mãos cheias – pois eram mais de meia centena – num dos compartimentos da estante do escritório. Logo se veria o que fazer com elas. 
Quase três anos depois, numa tarde abrasadora de Julho, dei comigo a dispô-las sobre a mesa da sala de jantar da casa do meu pai, casa a quem tinham sido escancardas portas e janelas para que eu aí passasse uns dias de férias, longe de mofos e sombras tristes. 
Sem um propósito demasiado consciente comecei a agrupá-las pelas seis décadas a que se referiam e, ia a tarefa pela metade, dei-me conta que, no monte geral, havia duas agendas que, por serem um tanto maiores, destoavam do tamanho monotonamente uniforme de todas as outras. Eram ambas de capa preta, uma delas, a maior e mais espessa, com o ar esbarrondado de objecto que foi muito manuseado. Na parte inferior da capa, uns números desbotados pareciam indicar o ano de 1935, mas o último algarismo estava de tal modo sumido que a abri para confirmar o ano. Ao fazê-lo, um pequeno pedaço de papel mata-borrão cor-de- rosa tombou sobre a mesa, revelando o intricado padrão tecido pelas manchas do excesso de tinta absorvidas ao longo desse ano. Com ele, aterrando mais longe por ser muito fino, um pedacinho de papel onde se dispunham, manuscritas, aquilo que, supus, seriam as classificações obtidas na disciplina de Ciencias de uma série de indivíduos: Barbosa, Caria, Franklim, Matos, Serrano, Paiva, Fonseca, Pereira, e Ribeiro. 
A agenda era, efectivamente, de 1935 e, num folheio rápido, verifiquei que estava densamente povoada de anotações. A outra agenda, melhor conservada e menos preenchida, dizia respeito a 1937, isto é, aos dias em que o meu pai tinha entre 20 e 21 anos de idade. Não havia, em todo o lote, mais agendas desta época da vida dele e a agenda cronologicamente mais próxima destas duas referia-se ao ano de 1949, ano em que nasceu a minha irmã mais velha. 
Sendo o meu pai um tipo metódico, que começou a registar os seus dias tão precocemente, seria de supor que tivesse continuado a fazer registos ao longo dos restantes anos da década de 30 e durante todos os nove anos da década de 40 que precederam o nascimento da Clarinha. Assim sendo, quais as razões que o teriam levado, em detrimento de possíveis outras, a conservar aquelas duas agendas tão díspares, em cronologia e aparência, das outras todas? 
No final da tarde, o calor ganhara uma intensidade absurda e, durante a noite, chegou mesmo a trovejar, uma tempestade seca que se acabou em mais calor ainda. Deitado na cama que fora a do meu pai, sem conseguir dormir por causa de um ar pesado como chumbo onde os meus pulmões abriam caminho à força, a meio da noite desci ao rés-do-chão para preparar água com gelo e umas pingas de limão. Na mesa da sala de jantar, imóveis no silêncio nocturno, destacadas das pilhas ordenadas, as agendas pretas chamaram por mim. Tomei-as e levei-as para cima. Quando, finalmente, apaguei a luz o quarto não retornou à escuridão que pensava esperar-me, mas uma luz acinzentada infiltrava-se pelos interstícios dos estores e um som de água corrente chegava do jardim. Levantei-me e espreitei: no quintal, as grandes folhas estacadas dos feijoeiros tremeluziam sob um jacto transparente, mas, da minha atalaia, não conseguia ver quem as regava.


© Fotografia de Pedro Serrano, Porto, 2010.


14 maio 2011

BOQUIABERTO (ou do perigo de ser careca)

Desde logo, peço aos meus ouvintes absolvição para as palavras algo explícitas que vou usar, mas o assunto é todo ele escabroso, a começar pelo comportamento da Justiça portuguesa, relaxada e inexistente em todas as frentes.
Uma grávida, de oito meses e meio, procura ajuda psicológica. Está deprimida e, a meio da consulta, a decorrer no consultório particular que o psiquiatra mantém na Foz, desfaz-se em choro.
O psiquiatra levanta-se da poltrona e quando a doente levanta os olhos, ainda marejados de lágrimas, vê à frente dos olhos uma piça erecta, pronta a consolá-la. Debilmente, tenta reagir, mas, entretanto, o clínico segurou-lhe a cabeça por trás e, alavancado neste gesto, enfia-lhe a piça na boca. Se não estou louco de todo, chama-se a isto sexo não consentido, praticado por médico, em exercício de funções, perante doente psiquicamente frágil e em estado de infelicidade.
Mais seguro de si pelo que acabara de conseguir, e uma vez que a grávida tentava ir-se embora da sala, o psiquiatra empurrou-a contra um sofá, puxou-lhe para baixo as calças largueironas de grávida e, balbuciando frases adequadas a uma relação médico-doente como "vá, querida, estou excitado", enfiou-lhe a piça na greta, onde se veio confortavelmente. Os jornais, pelos menos os sérios que li, não entram em detalhe quanto à posição do acto, mas tudo leva a supor que a cópula se terá passado na posição conhecida como à canzana (ou de quatro ou à apanha-cavacos), pois foder de frente, na clássica posição do missionário, uma grávida de quase nove meses, não deve ser muito praticável, especialmente nos improvisos apressados de um sofá.
Inconformada com a terapêutica, a grávida queixou-se à Justiça. O médico foi condenado a 30.000 euros de indemnização por danos morais (uma vez que estava fora de questão poder ser acusado de engravidar a queixosa) e a 5 anos de pena suspensa. Indignado, o condenado achou que não lhe estava a ser feita justiça e recorreu da sentença. O tribunal da Relação do Porto achou um exagero o modo como os seus colegas do tribunal de primeira instância tinham decidido sobre os factos e absolveu o médico na totalidade, mandando-o em paz e sem ter, sequer, de abrir a carteira.
Uma das juízas que chegou a este brilhante veredicto final preocupou-se, incansavelmente, em esclarecer o seguinte detalhe crucial: Para garantir o broche, o médico teria ou não agarrado a grávida pelos cabelos? Uma vez que tal parece não ter acontecido, a juíza apagou da apreciação a hipótese de acto violento, pois, segundo o seu superior critério, considerou normal e adequado o gesto de se usar uma mãozinha a almofadar a cabeça de uma senhora para mais comodamente se lhe poder enfiar uma piça na boca. 
Quanto ao empurrão para o sofá, os juízes (com a excepção de um escandalizado dissidente) avaliaram o comportamento como normal e não configurando acto violento, dado que, dizem, de outro modo teria sido praticamente impossível foder uma mulher em tão avançado estado de gravidez. Também acho e, para além do mais, em que estado não iriam ficar os joelhos do pobre médico!
Em atenção às minhas ouvintes do Porto, particularmente aquelas que andarem tristes com a existência e usem o cabelo demasiado curto, termino revelando o nome do meu ilustre colega: João Vasconcelos Villas Boas, sim com duplo "l", o tipo deve ser de boas famílias.


© Fotografias de Pedro Serrano: (1) Praia Areia Branca, 2007; (2) Porto, 2010.   

13 maio 2011

PAUSA DE MIL COMPASSOS


Paulinho da Viola e Marisa Monte, "Para Ver as Meninas" 
(composição de Paulinho da Viola).

10 maio 2011

VOU-TE CONTAR: 35. Corações ao alto


Como provavelmente não estará lembrado, recordo que o propósito desta rubrica Vou-te Contar é o de discorrer sobre casas onde vivi e, por casas não serem nada sem gente, sobre as pessoas que lhe davam vida ( A house is not a home).
Passados, que são, 35 episódios sinto que ainda mal saí do sítio, apanho-me a saltar de casa em casa e a única certeza é a de que ainda não gastei palavras sobre uma divisão que teve importante papel na minha adolescência e, suponho, na  adolescência de milhões de outros figurantes por esse mundo fora. Refiro-me à garagem.
Em Portugal, antigamente, havia-as fundamentalmente de dois tipos: a garagem de prédio e a garagem de moradia, sendo a primeira, de longe, a preferida dos jovens por razões que me proponho explicar nas linhas que se avizinham.
Quer numas quer noutras se guardavam automóveis e/ou se arrumavam trastes ou bens que, embora preciosos – como a lenha ou as batatas – se queriam fora do tropeço habitual da família.
Fonte habitual de indiferença ou temor durante a infância, a garagem lucrava, de repente, um novo olhar, um novo valor, logo que as vozes se aflautavam, o acne reinava e os espelhos ganhavam profundidade. E, para falar apenas do que sei, no Porto, durante os anos 60, as garagens entraram violentamente na moda e não havia Sábado que não se passasse alguma coisa nalguma delas.
As festas de garagem podiam acontecer Sexta à noite, Sábado todo o dia e Domingo à tarde, embora Sábado fosse o seu dia de reinar, pois ao Domingo tendiam a ser acontecimentos algo mortiços e à sexta, embora prenunciassem iniciativas particularmente excitantes (festas de aniversário com comida; festas de Carnaval), eram fenómeno raro.
Em termos de amenidade e bem-estar exterior, as festas convocadas para garagens de moradia eram asseguradamente de melhor qualidade. Espaço circulante bem limpo e arrumado, enfeites frequentes, a possibilidade de deixar casacos e de frequentar o quarto de banho no andar de cima, as festas de garagem de moradia tinham um brilho que às outras não chegava, mas tudo isso se pagava bem caro no que se refere àquilo que mais interessava aos usuários: intimidade à média-luz.
Pois que, nessas garagens de vivenda, bastando descer as escadas, o recinto podia ser intensamente frequentado (às vezes até em permanência!) por adultos e as luzes manter-se fixas numa intensidade cruel, não sendo fácil chegar ao elementar gesto de desatarraxar uma lâmpada ou de as esbater com papel celofane de cor lúbrica como o vermelho, o azul ou o amarelo.
Estas pesadas desvantagens explicarão, decerto, o motivo pelo qual todos preferíamos as mais cruentas festas de garagem de prédio, que decorriam em cubículos abafadiços, sem ligação directa com as casas respectivas e sendo algumas situadas em lugar tão recôndito que permitiam que uma qualquer rapariga ou rapaz mais ousados conseguissem organizar e manter uma em funcionamento toda a tarde sem que os pais notassem! Nesta liberdade, o problema da iluminação era facilmente solucionado, antes de mais porque, geralmente, só havia uma lâmpada para desatarraxar ou velar, ficando o espaço mergulhado num atraente estado de penumbra apenas maculado pela incipiente luminosidade coada por algum tijolo de vidro esverdinhado ou furinhos de respiradouro. Ah! que doces crimes contra a integridade se cometeram nessas garagens de prédio.
Pessoalmente falando, frequentei quantas pude entre os meus treze e dezassete anos, antes de a realidade adulta me arrastar para as quermesses, os magustos, os bailes de queima-das-fitas, as matinés dançantes das universidades e outros aglomerados de tipo industrial.
Não me perguntem como se processava o alastramento da divulgação da existência de uma festa de garagem, é um mistério como isso funcionava tão bem numa época pré-telemóvel, pré-facebook, pré-tudo o que não fosse os bilhetinhos e o bichanar durante as aulas. A minha prima Nunu, de quem tenho falado por aqui em abundância, era uma peça-chave na informação do menu para cada fim de semana e, por isso, eu e os meus amigos mais chegados lhe éramos gratos, todos lucrando com essa partilha de conhecimento, incluindo ela, que podia usar de poderosa dialéctica perante a minha relutante tia Olinda:
“Claro que é gente de bem, mãe! E, para além disso, vou e venho com o Pedro!”
Mas, apesar desta combinada aparência, nem sempre íamos às mesmas festas de garagem pois, às vezes, eram tão abundantes na cidade que tínhamos de nos dividir segundo os nossos complexos interesses mais imediatos.
Sábado, três e meia da tarde, o Renato e o Alexandre vieram ter a minha casa, preparamo-nos para uma festa de garagem (de moradia, infelizmente) ali perto da Arca d’Água, zona próxima da casa dos meus pais. Chegaram ambos trazidos pelos respectivos pais, cada um com o seu saco plástico muito bem enroladinho. Ao portão, a minha mãe e nós os três adeusamos para os pais do Renato, o último a chegar, pais ei-los afastados muito contentes no seu automóvel pois deixaram o filho em seguras mãos.
“Vamos estudar todo o dia, mãe”, explicara o Alexandre à sua exigente mãe, “depois – mais ao fim da tarde – é que vamos dar uma voltinha por ali perto, a pé. Podes confirmar com a D. Manuela...”
E a minha mãe, microscopicamente manipulada por mim nas últimas 48 horas, confirmava razoavelmente o cenário ao telefone, enquanto eu controlava a evolução dos acontecimentos debruçado do cimo das escadas.
Ultrapassada esta etapa, íamos vestir-nos para o meu quarto. Para além do fato-de-banho, eles traziam geralmente no saco uma camisa, um lenço ou uma gravata florida que os pais não lhe permitiam usar no dia-a-dia, mas, no entanto, acessório importante ao visual geral. Nessa tarde, eu próprio ia usar um colorido lenço de seda da minha mãe que evocava muito decentemente a echarpe que vira, numa foto do Beatles Monthly Magazine, o John Lennon usar no seu ashram da Índia.
O Alexandre está um pouco nervoso. É a primeira vez que vai levar fato-de-banho e não sabe bem a rotina da coisa, designadamente se o veste por baixo ou por cima das cuecas.
“Claro que é por baixo, está-se mesmo a ver!, digo-lhe: “Já viste o que era elas poderem sentir que estás de fato-de-banho num Sábado à tarde de Fevereiro?!”
Vermelho como um tomate, o Alexandre encaixa-se no fato de banho, às listas verticais amarelas e negras, e em, seguida, enfia as cuecas, as quais deixam por cobrir uma imensa extensão da licra dura do tecido, tudo isto sob o desdenhoso olhar dos seus dois maiores amigos.
“Estou bem?”, pergunta, inseguro.
O Renato e eu partimo-nos a rir, tanto que passam alguns minutos até lhe conseguirmos explicar o erro.
“Tens de a pôr ao alto, anormal”, explica o Renato, “de outro modo quando te entesares, e aposto que vai ser logo com a primeira, elas dão logo conta!”
Não sei onde ou como ou com quem aprendemos estes rituais de conduta pré-festa de garagem, mas eles integravam um código que pretendia ser de delicadeza para com as raparigas que nos esperavam do lado de lá da pista de dança e a quem (achávamos nós sem sombra para dúvida) era muito chato estar a fazer sentir as crescentes variações do nosso diâmetro emocional.
Desta conduta cavalheiresca fazia igualmente parte a escala rotativa, discretamente combinada já no local, para ir buscar a patinha feia que havia sempre nas festas e que era considerado indecente deixar sentada mais do que duas danças seguidas. Todas as raparigas tinham de dançar! Assim, por muito bem que me estivesse a correr um processo de engate e podendo mesmo ser perigoso interrompê-lo em fase pouco consolidada, tinha de cumprir a minha escala e, se o esquecesse, algum dos outros estaria atento e far-mo-ia recordar sem piedade.
“Porra, pá, troca comigo, por favor! Agora que já estava orientar-me e cravei uma música do Isaac Hayes!”
E lá ficava eu, durante os mais de dez minutos daquele slow portentoso, a fazer rodar um coiro intransponível que, à falta de melhor, se ia atracando a mim; não me restando alternativa que a de, ao menos, tentar manter contacto com a minha preferida através de olhares intensos lançados por cima do ombro dos ossos ou da banha do ofício.
Depois de nos pentearmos cuidadosamente, de esticar ao máximo o cabelo sobre as orelhas, de criar uma melena sobre a testa (o Alexandre usou mesmo o revirador de pestanas da minha irmã Clarinha), descemos silenciosamente as escadas em direção à Arca d´Água.
Como a minha mãe nos apanhou no hall, nos obrigou a lanchar e a ouvir umas tantas recomendações antes de sairmos, quando chegámos a festa já tinha começado, no gira discos o Otis Redding cantava o R-e-s-p-e-c-t, e a animação era imensa. 
Deixei-me ficar um pouco, encostado a uma parede, a ambientar-me e a reparar, os olhos brilhantes de maravilhamento, como pareciam outras algumas daquelas gajas que víamos todos os dias à saída do liceu. E porém... Hoje em dia, pesado de experiência e sabedoria, sou capaz de compreender que a maior parte do milagre se devia a uma fraca iluminação, contornos de lápis de sombra nos olhos, rímel nas pestanas, cabelos amorosamente escorridos por demoradas permanentes; por blusas esticadas, entaladas em cinturas estranguladas por saias  dois números abaixo. Mas, apesar do Fevereiro invernoso, como tudo aquilo as transmutava em fofas piscinas onde só apetecia mergulhar, assim nós o pudéssemos, assim nós o soubéssemos.



© Fotografias de Pedro Serrano. De cima para baixo: (1) Porto, 2011; (2) Açores, 2010; (3) Porto, 2010.


08 maio 2011

UMA QUESTÃO DE ISENÇÃO


Um dos incómodos de se morar em moradia com quintal é a de se poder encontrar um desconhecido empoleirado na janela da casa de banho, que foi o que me aconteceu hoje de manhã.
Domingo, nove horas, acordei com o barulho de vidros a estilhaçar-se e, pela intensidade do som, achei suficientemente próximo para se poder estar a passar em minha casa. Vesti o roupão e desci as escadas.
Olhei as duas janelas do escritório e, depois, as da sala. Nada de vidros partidos, somente a discrepância da veneziana de uma das janelas da sala, que encostara na véspera à noite, estar levemente entreaberta. Prossegui.
Quando me situei, enquadrado na ombreira da porta do quarto-de-banho, vi um tipo empoleirado na janela, entre ele e eu apenas as quatro vidraças da janela, uma das quais quebrada, e os estilhaços espalhados pelos mosaicos do chão. Devo referir, para que isto se perceba convenientemente, que as janelas da minha casa são relativamente altas em relação ao chão exterior e que alguém que as aborde do lado de fora surgirá na vidraça inferior pelo corte dos ombros ou do pescoço. Sob cada uma das janelas existe uma pesada prateleira de cimento, um daqueles suportes que se abrilhantam com vasos de sardinheiras ou outro motivo floral, e era sobre essa prateleira que o assaltante estava empoleirado, ocupando toda a altura da janela e eclodindo como uma espécie de King Kong de boné de basebol, barba por fazer, olhos encovados e o genérico ar desmazelado do cidadão isento de pagar IRS.
Viu-me ao mesmo tempo que o vi a ele, disse:
“Polícia judiciária, abra a porta!”
Fiquei boquiaberto, tive mesmo tempo de pensar “este gajo não bate bem”, de tal modo era estranho um tipo com aquele aspecto querer fazer-se passar por polícia e, dominando uma janela, ordenar-me que lhe abrisse a porta! Se a esquadrilha especial que se deslocou ao Paquistão demonstrasse este nível de eficiência ainda hoje o Bin L. estaria vivo e a ver noticiários sobre si próprio na TV!
Invectivei-o, tratando-o por tu com uma certa altiva familiaridade:
“Salta é já daí pra fora, que vou buscar a espingarda e dou-te um tiro!”
“Eu também tenho uma arma”, respondeu ainda, antes de desaparecer de vista.
Entretanto decidira telefonar à GNR e enquanto pensava nisso e em onde teria o número espreitei para fora pela janela do escritório. Ele estava calmamente encostado ao muro, perto do portão mas ainda do lado de dentro do quintal, a olhar na minha direcção. Estendi o braço direito e com o indicador esquerdo encolhido (sou canhoto) fiz o gesto de quem prime um gatilho. E fui telefonar.
Liguei o 118 e, prontamente, puseram-me a falar com a GNR local. Resumi o assunto, disse onde morava, o interlocutor informou que ia mandar alguém, mas ainda comentou quando lhe pedi que se apressassem, dado que o meliante ainda estava dentro do jardim:
“Portanto, o senhor tem-no aí sob coação...”
“Coação?!”, exclamei, “ele está lá fora, especado no meu quintal, eu estou aqui dentro, a telefonar-lhe!”
Desliguei e voltei à janela. O homem tinha desaparecido. Subi ao quarto, vesti-me a correr, peguei nas chaves do carro, saí de casa e entrei apressado no automóvel. A minha ideia era dar uma volta pelas ruas adjacentes, a ver se o via para depois indicar o paradeiro ou o rumo dele à GNR.
Dei duas voltas ao quarteirão, espreitei ruas e travessas, traseiras de quintal, mas não vi nada de nada. Ao regressar pela segunda vez à minha rua vi um automóvel da polícia parado à minha porta, um agente encostado ao carro, outro patrulhando dentro do quintal. Travei, saí do carro com um ar de reconhecimento aliviado, identifiquei-me como o dono da casa, a pessoa que tinha telefonado para a esquadra. O agente que estava encostado ao automóvel saudou-me com um:
“O senhor por acaso tem isenção de cinto de segurança?”
“Como?!”, exclamei, não acreditando no que estava a ouvir.
“Não sei se reparou, mas vinha a guiar sem o cinto posto e isso é uma infracção...”

© Fotografia de Teresa Campos Monteiro, Praia Areia Branca 2008.

07 maio 2011

TREPAR PELA MARÉ

À espera do furacão IvanHavana (Cuba), Setembro 2004. 
Canção "Moonlight Drive", de Jim Morrison (The Doors, álbum 
Strange Days1967), interpretação de Zé João Serrano.
© Imagens e som de Pedro Serrano em câmara digital Sony.




Let's swim to the moon, uh huh 
Let's climb through the tide 
Penetrate the evenin' that the 
City sleeps to hide 
Let's swim out tonight, love 
It's our turn to try 
Parked beside the ocean 
On our moonlight drive 

Let's swim to the moon, uh huh 
Let's climb through the tide 
Surrender to the waiting worlds 
That lap against our side 

Nothin' left open 
And no time to decide 
We've stepped into a river 
On our moonlight drive 

Let's swim to the moon 
Let's climb through the tide 
You reach your hand to hold me 
But I can't be your guide 

Easy, I love you 
As I watch you glide 
Falling through wet forests 
On our moonlight drive, baby 
Moonlight drive 

Come on, baby, gonna take a little ride 
Down, down by the ocean side 
Gonna get real close 
Get real tight 
Baby gonna drown tonight 

Goin' down, down, down 

05 maio 2011

TOMA CUIDADO!

     Restaurante Funaná, ilha do Sal, Cabo Verde, 2011 
   (© imagens de Pedro Serrano em telemóvel Nokia E51).

04 maio 2011

OS TRÊS PRATOS

Durante a estadia em Cabo Verde cuspi para o ar um ou outro mail com fotos anexas de manjares que tinha comido nesse dia, umas vezes enviados só para partilhar a sensação, outras para provocar a quem andava pela vil tristeza de comer pescada cozida com nabo ou escouceava de pé numa manjedoura urbana enquanto rilhava febras panadas com esparregado de pacote.
Quando regressei, fui recebido com entusiasmo ou acusado de sadismo por causa dos meus apontamentos gastronómicos, mas entrevi um denominador comum no entrecruzar dos comentários: inveja, uma inveja babada de "conta lá como isso foi", vogais e consoantes sibilantes nadando em saliva... Para todos esses e para os demais ouvintes, aqui ficam algumas fotos comentadas. Seguindo as regras severas da tradição em que fui educado, começo-a de cima para baixo e pelos preliminares, que há quem, com certa brutalidade, apelide de entradas.
Sobretudo na ilha de Santiago, as linguicinhas são postas em cima da mesa mal a gente se senta num restaurante, habitualmente na companhia de pão e desse lendário queijo de cabra de que voltarei a falar mais para o final deste apontamento.
Como dizê-lo? Uma linguicinha é, como o nome indica, uma linguiça pequenininha, não ultrapassando o seu tamanho a cabeça de um dedo; dedo mindinho ou dedo indicador, que nunca a cabeça do polegar... Mas, neste caso, tamanho não é sinal de felicidade e, depois, aquilo vem sempre numa série de uma meia dúzia e, mesmo depois de engolidas, sobra o prazer do molho que restou, divino em pão discretamente arrastado pelo prato. Resta tentar descrever o seu efeito sobre a língua, o qual deixa a milhas o sabor de uma linguiça à portuguesa. Em termos de nobreza gustativa a linguicinha estará mais próxima do salpicão do que da linguiça que conhecemos, sobretudo graças à consistência das carnes e ao tempero, numa leveza picante que se vai acumulando num desfrute perfeito para o desdobrável que se segue.
Eu já tinha comido cavaco anteriormente, jamais no continente, onde nunca o lobriguei, mas nos Açores, onde nos é servido sempre mais ou menos clandestinamente, pois parece estar em vias de extinção. Mas, uma noite, reconheci-os na montra de um restaurante da ilha do Sal (Americo's), na sua inesquecível roupagem de lagosta pré-histórica. Entrei, subi as escadas, sentei-me e, ao olhar para a ementa, tive a inspiração de perguntar ao empregado, entre as opções de "cozido" e "grelhado", o que era aquilo de "à cabo-verdiana". Agradou-me a explicação e, passada a necessária meia-hora, chegou-me uma fumegante panela onde numa cama de cebola, pimentos verdes e vermelhos, repousava o maravilhoso crustáceo, sabendo a mar como só certos seres que vivem na reclusão e longe da luz estão aptos a revelar-se.
"Então?", perguntou o empregado, satisfeito com o meu conhecimento prévio do bicho e o meu apetite.
"Divino", respondi, a língua ainda percorrendo os lábios em busca de um sabor remanescente, mas resolvi especificar:
"Melhor do que lagosta..."
"Eu também acho...", confessou ele, como se não tivesse oportunidade de fazer tal comentário com frequência. 
No que concerne a sobremesas de Cabo Verde, podia estar aqui a discorrer longamente e começar por explicar, por exemplo, a iguaria que são as farófias de banana com mel-de-cana, um adoçar de boca que se encontra, por exemplo, no Ká-di-gá, um restaurante na cidade da Praia que só serve entradas.

Mas prometi a mim próprio que, em honra da tradição, me ficaria pelo retrato estrito de três pratos, os que, usualmente, constituem a refeição completa. Assim, singelo, termino com a menção à transcendente fusão que resulta do doce de papaia com queijo de cabra. Encontramo-lo em duas opções distintas: a tradicional, que junta no mesmo prato uma compota de papaia de tez brilhante e atijolada ao branco leitoso do queijo; ou o requintado doce de papaia-verde, uma papaia ainda não madura, a que se que conserva a casca, laminada, e docemente macerada pela infusão em açúcar. É difícil preferir entre ambas, mas, numa ou noutra versão, a degustação tem algo similar: como numa hélice de ADN, as moléculas doces da compota entrelaçam-se num bailado com os átomos salgados do queijo e a gente não sabe se há-de chilrear de felicidade ou se chorar por mais.


© Fotografias de Pedro Serrano, 2011. De cima para baixo: (1) e (2), ilha de Santiago; (3) e (4) ilha do Sal; (5) e (6), ilha de Santiago. 

01 maio 2011

CLÁSSICO

Será a passagem do tempo, calculo, 
Das décadas, que não dos dias,
Mas nas minhas horas ao volante por aí, 
Norte, centro, sul,  
Dou comigo a apreciar muito pinheiros mansos e ruínas românticas.








© Fotografias de Pedro Serrano, Alentejo 2008.