10 agosto 2019

FANAN (o tolinho da vila)

O Fanan é o tolinho da terra. Fanan talvez seja um diminutivo de Fernando, não tenho a certeza. Toda a gente se lhe refere assim e duvido que alguém saiba o seu verdadeiro nome.
Cruzei-me com ele pela primeira vez há uns trinta e cinco anos atrás, quando me mudei para aqui. Na altura era um adolescente que se babava, sempre entre o pai e a mãe, que o mantinham muito limpo e bem-vestido e o olhavam com grande preocupação — temiam pelo seu futuro. Ele, por seu lado, não parecia temer por nada e tinha o aspecto geral do ser a quem tudo corre pelo melhor. 
A mãe morreu primeiro e o Fanan passou a surgir no centro da vila de mão dada à do pai, que o olhava com grande preocupação. Que seria do Fanan quando Nosso Senhor, por sua vez, o chamasse? Quem tomaria conta do filho e o livraria da pobreza e da desgraça?
Um dia morreu-lhe o pai e sobre isso deve ter já decorrido uma boa dúzia de anos. Fanan andará agora pelos seus cinquenta anos, talvez mais, pois o ar permanentemente satisfeito e permeável ao mundo circundante rouba-lhe peso ao tempo, fá-lo mais novo. Ao que ouço, mora num lar onde o tratam bem, continua a andar limpo e bem-vestido e tem liberdade para se mover pela vila, não está confinado a quatro paredes. Passa as tardes no café Central, onde costumava ir pela mão dos pais, e sobe e desce a rua da Misericórdia, onde ficava a casa da sua infância. Toda a gente o conhece e se lhe dirige naquele tom, entre o condescendente e o brincalhão, que se usa com os tolinhos. 
No café servem-lhe todos os dias um pingo, grátis, e se por lá estou come também um bolo, que pago à saída, dissolvido na minha conta — as empregadas já sabem. Não me lembro como isto do bolo começou, mas transformou-se numa rotina como o passar das estações. Se entra e estou sentado a uma mesa, procura a minha atenção e eu respondo com um aceno de cabeça ou ergo um polegar afirmativo. De imediato, dirige-se ao balcão e, babando-se de antecipação, exige a atenção das empregadas, espetando um dedo na vitrina onde estão os bolos - prefere sempre os de feijão, mas, não havendo, não desdenha uma areia branca. Em seguida aponta para mim, a garantir a cobertura da transacção. Sorrindo, respondonas, as funcionárias exigem:
"Como se diz?"
"Faz favor..."
"Ah! E vê se te limpas, estás todo cuspido..."
Fanan puxa um guardanapo de papel ao dispensador, devora o bolo em menos de um minuto e vai à casa de banho enxaguar a ponta dos dedos. Depois passa pela minha mesa a dar-me uma mãozada e sai para a esplanada, contente, senta-se à mesa dos outros marginais ou velhotes que por ali param a beber o seu copo de tinto de pacote ou o seu brandy Macieira.
Quase tudo isto se passa sem palavras. Fanan, como se costuma dizer, "não dá uma prá caixa", é incapaz de uma frase completa e limita-se a palavras soltas, meio balbuciadas, meio gaguejadas, mas sempre muito lubrificadas por saliva.
Ao fim da tarde regressa ao lar. Voltará no dia seguinte, parando a cada dois metros do passeio para olhar os próprios sapatos, talvez a verificar o estado de atado ou desatado dos cordões — quem sabe se, noutros dias, não seria uma recomendação persistente da mãe.
© Fotografia de pedro serrano, Cascais, 2018.

31 julho 2019

APOCALIPSE UAU! (as golas altas da Protecção Civil)

Ilimitadamente elástica, tanto como as golas em poliéster da Protecção Civil (PC), a capacidade do ministro Cabrita em branquear a realidade. Todos nós, os que ainda temos dois olhos, vimos a chama modesta de um isqueiro Bic derreter, fazer fumegar e levantar uma chama numa das tais golas mágicas do kit da PC. Que não, vem o Cabrita, bufar, agitando, frenético e esbugalhado, o relatório preliminar de uma preliminar investigação conduzida de encomenda por não sei quem com uma rapidez a que o povo das filas de espera não está habituado... Mas que não: podem fumegar, perfurar, mas arder não - no fundo as tais golas altas são similares a um Black & Decker; em linguagem de afectos seriam quase como um "fogo que arde sem se ver". Com um pouco de marketing, bem feito, todo este processo podia ser a origem de uma nova startup, empreendedoríssima! Antecipe o clip televisivo: Está calor, muito calor, em volta está tudo em chamas, você precisa de se por ao fresco - vai ao seu kit e enfia uma gola daquelas. Claro que fica cheio de calor, a suar, quem, no perfeito juízo, deseja andar de gola alta a 45º, com ignições, projecções, correntes descendentes, convexões? Não se aflija, porém: à medida que vai atravessando o incêndio (ao fundo, contra um fundo de fumo espesso, passa um helicóptero tipo Apocalipse Uau!), à medida que vai atravessando as chamas a gola vai naturalmente perfurando e você chega ao rescaldo sem nada a abafar-lhe o pescoço, outra vez de t-shirt e manga curta. Quer melhor? É praticamente uma coisa feita e concebida à medida do seu bem-estar! Aquilo não arde, garante o Cabrita e toda a restante família. A 30 cm, a 20 cm, com chamas de baixo para cima e de cima para baixo, aquilo não arde, está quase cientificamente provado, que a ciência também pode servir para branquear, como a lixívia. 
Talvez fosse de aconselhar a esta malta que nos pastoreia uma visita demorada a um serviço de queimados do país e, no final, a ter uma conversinha com os especialistas médicos sobre o efeito que uma peça de roupa em poliéster pode provocar em contacto com uma pobre pele humana quando a fibra em processo de fusão, isto é, derrete. Mesmo sem chama! 


   

28 julho 2019

A PÉRGOLA DA FOZ (anos 20 do século XX)


A pérgola da Foz (Porto) por volta de 1920, a crer pela idumentária da menina e das senhoras que se vêem na fotografia. Compare com as imagens dos anos 20 abaixo. © Fotógrafo desconhecido (fotografia adquirida por pedro serrano).

22 julho 2019

INSTANTÂNEO

Maria Fernanda, 1936.
uns quarenta anos, Mártires da Liberdade era uma rua estreita, soturna e enxovalhada, onde os transeuntes se cosiam às paredes para deixar passar os eléctricos que, oscilando como pudins, trepavam do Carmo à Praça da República. Vida própria, comércio? Para além da solitária farmácia ou da sonolenta drogaria, lojas era coisa que não abundava e ninguém fazia o esforço de ir a Mártires da Liberdade comprar fosse o que fosse que fosse especial ali.
Pois agora a rua, que continua estreita e parca de sol, está pejada de lojas de velharias, conta-se uma porta sim, porta não. Como começou o fenómeno e se deu o alastramento é um completo mistério para mim.
Atraído pela quinquilharia da montra entrei num desses estabelecimentos e, quase ao fundo, transbordando de um enorme caixote dei com uma enchente de velhas fotografias, uma maré a preto e branco com ondas de bordos serrilhados. Meti as mãos nelas e, às punhadas, fui debicando as imagens, as marcas de água do fotógrafo, as legendas e dedicatórias do verso: vinham de todo o lado, do Porto, de Coimbra, de Lisboa, e representavam baptizados, casamentos, carnavais, homenagens, cenas balneares, festas de fim de semana em família, e vários retratos individuais, em tamanhos diversos, pontuavam, como espuma, os ajuntamentos. 
Enquanto remexia o lote, como quem procura umas cuecas jeitosas num sortido em saldo, fui-me dando conta de não haver prova mais gritante da transitoriedade humana e do esquecimento que lhe vem agrafado, do que um monte avulso de fotografias à venda, distante dos dias falantes em que toda aquela gente teve significado para alguém ou para si mesma. Onde estaria o "meu querido paizinho" a quem Maria Fernanda, "a filha muito amiga" dedicava aquele retrato no dia de Santo António de 1936? No céu, no purgatório, sublimado em poeira cósmica, em lado algum? E a própria Maria Fernanda, de sorriso tão meigo e a cara lisa de esperança, onde está ela oitenta e três anos mais tarde? Prefiro não pensar nisso, eu que nem sequer sei porque resolvi comprar a fotografia e ma deixaram trazer. Uma coisa é certa, pelo preço não compraria um melhor par de cuecas e a sensação de pechincha conforta a mágoa de saber que a Fernandinha já não chamará na casa que a viu crescer, onde nem mesmo as fotografias antigas restaram nas gavetas.   
© Foto Artística, 1936, rua do Coronel Pacheco, Porto.

18 julho 2019

DOMINGOS À TARDE

Há vezes, por vezes... Não:
Às vezes, ponho-me a achar
     Que, no seu dia a dia por Lisboa
Fernando Pessoa, o poeta 
Deveria ter sido parecido
Ao meu tio Domingos, 
O meu tio-avô Domingos,
Tio por afinidade.
O meu tio Domingos, casado
Com a minha tia Fernanda,
Tia-avó Fernanda, irmã do
Meu avô ou seria da minha avó?
Por quem a minha tia chamava, sempre
A dobrar: "Ó Domingos, ó Domingos"
Às vezes... Não:
Por vezes, apetecia uma coisa doce
Ao tio Domingos e como somente sabia
Lidar com a papelada quadriculada
Da Caixa-Geral de Depósitos, em cujo quadro contabilizava,
O meu tio pedia por esse mimo à mulher, dona de casa.
E ela, que era um pouco frívola e péssima cozinheira
Aconselhava que tomasse uma colher de xarope da tosse,
Não muito, apenas uma, de chá, que não esquecesse
A obstipação e o irrigador esmaltado atrás da porta.
E ele, o meu tio-avô por afinidade, 
Tomava uma, a prescrita, e engolia outra à pressa,
A proscrita, antes que a minha tia levantasse os olhos
Do tricot que entretecia, espreitando ao canto da cortina
Quem passava, de regresso ou a caminho da Arca d'Água.
Viviam sós, os dois, numa casa silenciosa que deitava para a rua
Embora nas traseiras, do tabuado escarolado da varanda corrida 
E das telhas de xisto preto em forma de quinas que a revestiam
Descesse uma escada de pedra para um quintal murado, com 
Canteiros de parede, flores de uma só face e uma ameixoeira ao centro.
Mas ninguém apanhava os frutos: às que pendiam na árvore
Quem poderia chegar? E, às caídas no chão, seria demasiado arriscado
Tocar, ousar, sequer, pensar em consumir... Ameixas ao sol!
Dizia a minha tia-avó Fernanda, peremptória como um banqueiro
Enquanto, sentado à borda da sua poltrona como uma visita
O tio Domingos juntava em prece as mãos brancas e nodosas
E percutia levemente as polpas dos dedos uns nos outros, sem ruído
Como que a desenferrujar as impressões digitais e
Projectava os beiços além da linha de água do rosto, sonhando
Talvez com a papa encarniçada e doce de ameixas ao sol
Ou, prático como um caixa-geral, com o frasco de xarope
No armário do quarto de banho, aquele cuja porta rangia
Cada vez que se lhe mexia, sendo aconselhável tossir em uníssono ao abri-la
Para, em sendo caçado, não lhe fosse sarrazinada a colherada extra. 



12 junho 2019

ERRO TOPOGRÁFICO (Carta à Mãe)

Manuela Campos Monteiro Serrano.
Mãe, escrevo-te esta carta... 
Se soubesses a água que, entretanto, correu sob esta ponte. Se o soubesses, dirias, se tivesses a oportunidade e a paciência para me ouvir, se eu te pudesses contar tudo; se o soubesses provavelmente dirias que eu te fazia lembrar o tio X, ou o tio-avô Y, um bocadinho tu própria se pudesses ter concretizado tudo o que sonhaste se te tivessem deixado seguir a tua vontade em vez de te açaimarem ao piano, ao francês e ao futuro exclusivo de dona de casa. Talvez, aventurosamente falando, eu tivesse ido um pouco mais longe do que irias, eram os tempos...
Sabes que estive na Torre do Silêncio? Duas vezes! Um dia, naquelas tardes em que tricotavas sob o candeeiro de abat-jour semelhante a um chapéu chinês, ou vietnamita, contaste -tinhas lido não sei onde -que na Índia, esse subcontinente misterioso, longínquo e perigoso, havia, em Bombaim, um local onde eram depositados os mortos, para serem comidos pelas aves do céu, nesse caso abutres... Contavas-nos estas historietas numa voz contida, como o assunto merecia, e que coisas se passavam por esse mundo!, tão exóticas e tão longínquas da rotina civilizada dos muros da nossa rua. 
"O sítio chama-se Torre do Silêncio... e é proibido a estrangeiros..."
E eu saía disparado para o quintal, olhando de soslaio as folhas das hidranjas e as sombras das sardinheiras. Será que poderia haver tigres escondidos por ali? E alguma ave do céu me poderia picar se eu adormecesse no quintal e ela me confundisse com um morto de Bombaim? E imaginava o local de que falavas pela bruma imprecisa e autossuficiente da imaginação, uma torre babeliana, sinistra, quase perdida, cercada de selva, muito alta, em torno da qual imperava o silêncio absoluto, um silêncio solene, trágico, tão vivo que nos selaria os lábios só de nos aproximarmos; os próprios pássaros que bicavam os mortos perdiam o pio, por isso eram condenados a ser abutres, uma raça, supunha eu, a quem seria interdito o canto.
Olha, e pelos motivos que te contaria, fui parar a Bombaim, que agora já não se chama assim, mas, por gosto de quem lá vive, mudou o nome para Mumbai, depois de se ter chamado Bombay quando os ingleses mandavam. E por parêntesis e orações subordinadas abertas nos motivos que me levaram a Mumbai, dei comigo, num fim de manhã brilhante e quente, despejado por um táxi nas Torres do Silêncio! Ah, aquilo não é nada como nos fazias supor, como eu ficara a imaginar. De comum com a tua verdade só o facto de continuar vedada a estrangeiros, mesmo o ser-se indiano não é causa suficiente para se lá entrar. Só uma seita de indianos que migraram da Pérsia há séculos pode frequentar o local e entregar aí os seus mortos para que terminem a existência a coberto da contaminação da terra, da água e do fogo. O que vem com a brisa levá-los-á...
De resto, aquilo é no meio da cidade -imagina, é como se ficasse na baixa do Porto ou, sendo mais preciso, para os lados da Boavista -pelo meio de prédios altos encontras como se fosse um jardim da Arca d'Água, só que valendo cinco ou seis dele e muito mais arborizado, murado, um muro tomado pela vegetação e já se confundindo com esta. As torres (são duas) estão lá no meio e não se veem de lado algum, é escusado, é propositado. Depois, à entrada do jardim, há uma cancela e um guarda sentado à sombra que te pergunta se és parsi, se vais a alguma cerimónia parsi. É difícil dizer que sim, ser convincente de panamá, t-shirt e calças de ganga, talvez um deles -num dia generoso -te permita dar uma voltinha rápida pelo bosquete, mas só até ao largo ao cimo de uma vereda verde, onde acaba o asfalto e as ambulâncias antiquadas estacionam para, discretamente, entregar os mortos a quem, cumpridas as formalidades, os há-de colocar num dos sectores triangulares que subdividem o círculo que coroa o terraço a céu aberto das torres. No século XXI são já poucos os defuntos da etnia parsique procuram as Torres do Silêncio, assim como vão rareando os abutres que volteiam em hélice no céu azul, tornado enevoado pela poluição de uma cidade com mais de vinte milhões de pessoas. Não é que os abutres se tenham modernizado e -como as gaivotas da Arca d´Água que deixaram o mar e se contentam com o lixo dos contentores -tenham enjoado a carne humana... É mais porque que quem morre é geralmente velho e aos velhos achaca-os o reumático, as dores na juntas; os comprimidos e a pomada de Voltaren ajudam a minorar o padecimento... Mas os abutres, coitados, por brutos e eternos que pareçam, são demasiado sensíveis ao medicamento que foram ingerindo sem o ter encomendado, sem o saber, e isso foi-lhes ceifando a vida individual, custando a sobrevivência da espécie. Os próprios mortos se vingaram de quem lhes executava o destino, vê tu só como tudo isto é comezinho e diverso do que imaginavas naquelas tardes de porta aberta para o jardim de trás. O mistério, que nos parecia espesso como um óleo, tornou-se, com a passagem do tempo, ténue como uma aguarela; há dias em que quase me apetece rir da simplicidade evidente das coisas, como os ossos limpos do excesso.
E agora, olha, não me falta assim tanto em anos para ter os que tinhas quando morreste e, por vontade expressa, te transformaste em roseira. A água que, entretanto, passou! Depois de ti fui ao Ceilão, voltei ao Nepal, à Índia umas sete ou oito vezes, ainda mais vezes à África, negra e exótica, de que também me contavas assombros e de quem, em almanaques sortidos, via as gentes em intrigantes fotografias a preto e branco com legendas que diziam: "Gente da nossa terra: indígena dos Bijagós". Como podia aquele homem com o nariz atravessado por uma pena de galinha, ou aquela mulher de mamas ao léu e cheia de tatuagens que supunha marcas de varíola, serem gente da nossa terra? Se, por absurdo, topasse num deles na Arca d'Água desataria a fugir ou punha-me na fila para lhe espreitar as mamas de mais perto! Ao andar por lá vi que não eram nada parecidos com os indígenas dos almanaques e, se convivias com eles de perto, vias que alguns eram mesmo parecidos connosco, talvez a legenda tivesse um erro topográfico e quisesse antes dizer "Gente da nossa Terra".
© Fotografias, de cima para baixo: (1) Foto Beleza, Porto; (2) e (3) Pedro Serrano, Mumbai 2016; (4) Pedro Serrano, ilha de Elefanta, Índia, 2018.

22 maio 2019

CAMONES & CAMÕES - Chico Buarque

Olha que boa notícia, que justa notícia. Chico Buarque ganhou o Prémio Camões 2019, uma espécie de prémio Nobel da literatura da Lusofonia. 
Quando, em 2016, o comité do prémio sueco fez uma pirueta aos critérios do costume e resolveu premiar escritores de música popular não pude impedir-me de pensar em dois nomes que poderiam ter estado no lugar de Bob Dylan: um deles, Leonard Cohen, morreria dias depois, contente com a distinção ao colega; o outro foi Chico Buarque de Hollanda. Mas Buarque tem a desvantagem de se exprimir em português, um dialecto sem a universalidade do inglês em que o americano e o canadiano escreveram e cantaram o que tinham a dizer. Seria difícil, mesmo em tradução caprichada, fazer emergir as nuances entoadas pelo paulista-carioca e a sofisticação com que tratava a língua em que nasceu. No entanto, usando apenas a métrica da qualidade do produzido e o significado do que escreveu, os mundos que pintou e o modo como nos devolveu emoções que qualquer descendente de Adão&Eva já vestiu (ou pode ainda fazê-lo), então Chico está lá, no ponto. Acresce  que a roupagem sonora que Chico Buarque inventou - e não parou de aperfeiçoar ao longo de 50 anos - para embrulhar a poesia (no seu caso, até mais do que em Dylan, é disso que se trata) é igualmente sublime, mas isso, por agora, são outros 500, pois parece que este tal de Prémio Camões é apenas de literatura.  

05 maio 2019

DIZ À MÃE

Mãe, na quinta em Gavião (Famalicão), anos 40.
"Diz à mãe que, independentemente do comportamento dos cães e dos samovares, depois do verão haverá o inverno, depois da juventude, a velhice, depois da felicidade, a desgraça e vice-versa; o homem não pode ser saudável e contente durante toda a vida, terá sempre perdas pela frente, não pode evitar a morte, nem que seja Alexandre Magno, e temos de estar prontos para tudo e encarar tudo como uma necessidade eminente, por mais triste que seja. É necessário apenas cumprir o nosso dever na medida do possível, e mais nada."

Carta de Anton Tchékhov à irmã Macha, Ialta, 13 de Novembro de 1898. Tchékhov era médico e morreria de tuberculose menos de seis anos depois, tendo a  mãe sobrevivido ao filho.

Nota: o tipo de ruído produzido pelos samovares (aparelhos para ferver água para chá) era considerado por algumas pessoas como um presságio. 

23 março 2019

CONVERSA DE CAFÉ (RICHARD JENKINS EM MUMBAI)

Café Leopold (© fotografia de pedro serrano, Mumbai 2017).
Assim, de repente, vem-me à mente quatro no género: Piolho, no Porto, o já desaparecido Don´t Pass Me Byem Katmandu (Nepal), Lale Pudding Shopem Istambul, e o Leopold Cafeem Mumbai. Todos foram ou são cafés de passagem e encontro, locais incontornáveis, especialmente úteis quando se está longe de casa e se procura alguém ou se tem de marcar encontro quando ainda não há um endereço a fornecer. 
Em Mumbai (a antiga Bombaim), na Índia, o Leopold Cafedesempenha essa função há mais de cento e cinquenta anos e as suas mesas estão repletas de gente de todo o mundo. De tal modo é famoso e reconhecido como ícone de uma cultura internacional que, em 26 de Novembro de 2008, foi um dos três alvos escolhidos (junto com os hotéis Taj Mahal PalaceOberoi) por uma brigada terrorista paquistanesa que semeou o terror e provocou 166 vítimas mortais em Bombaim. No Leopold, antes de seguiram para o Taj, três minutos a pé de distância, os assaltantes deixaram dez mortos e o interior incendiado. Dez anos passados ainda se notam algumas sequelas funcionais no local: à porta do café estaciona em permanência um segurança que examina os sacos e as carteiras de quem quer entrar, medida mais simbólica do que efectiva pois o café tem janelas deitando para outras ruas, sempre abertas e através das quais um terrorista pode comodamente fazer tiro ao alvo sobre os clientes.
Leopold vacila entre o café e o restaurante e às suas mesas de toalhas axadrezadas, sob a vigilância de cartazes que glorificam a saga do Padrinho, Bob Marley ou os Beatles, pode beber-se cerveja ou um sumo de melancia, mandar vir uma refeição completa do extenso menu ou, simplesmente, ceder a uma das sobremesas que, já desde a rua, tentam os transeuntes numa vitrina envidraçada. São justamente famosos os seus browniese deliciosamente enjoativa a grossa fatia de marzipan carrot cake.
Mural no interior do Leopold (© fotografia de pedro serrano, Mumbai, 2017).
Pois a uma meia tarde de Novembro de 2018, refrescando de uma excursão pelo esturricante inverno indiano, estava eu sentado a uma das mesas do Leopold, tilintando gelo, recebendo o bálsamo de uma das ventoinhas aparafusadas no tecto e deixando vaguear o olhar pela sala, quando um vulto, vindo dos lados da cozinha, me prendeu a atenção. Convém explicar, a quem nunca por lá esteve, que para se ir à casa de banho do café se tem de passar ao lado da cozinha – da qual, na passagem, se poderá espreitar o ar fervilhantemente caótico – e só para além desta se encontra o cubículo onde mal cabe um ser humano e em tudo semelhante a uma cabine de sauna, pois, uma vez fechada a porta, não há ar – natural ou ventilado – que ali chegue! No regresso à sala é forçoso praticar uma gincana entre a mais de uma dúzia de empregados que, equilibrando bandejas, corrupiam entre a cozinha, o balcão e as mesas e era a uma dessas gincanas que eu, tilintando o meu copo de sumo, assistia, divertido. O homem que regressava das casas de banho era enorme, particularmente pelos padrões hindus e trajava um polo amarelo às risquinhas que realçava a cruzada por entre as camisas brancas dos criados, e quando chegou à sua mesa – a pouco mais de três metros da nossa – reparei que usava calções e sandálias, um autêntico turista americano, portanto. Ao vê-lo sentar-se voltou a assaltar-me a sensação de familiaridade que me tocara quando o vira ao longe e isso fez redobrar a minha atenção sobre ele, pormenor que deverá ter captado pois vi-o deter, por breve instante, o olhar em mim, um olhar habitado pela cautela e pela neutralidade composta de quem está habituado a ser reconhecido publicamente. 
Richard Jenkins como Nathaniel Fisher em Sete Palmos de Terra.
E, caída do nada, fez-se-me luz: tinha frente a mim, bebendo cerveja, Richard Jenkins, o actor americano que, por cinco anos a fio, me fizera companhia ao longo das várias temporadas da excelente série Sete Palmos de Terra(Six Feet Under) ou que vira, sempre com prazer e admiração, numa caterva de filmes. Jenkins é um excelente actor, da craveira e na linha de um Robert Duval, actores geralmente servidos na tela em papel secundário, mas, na sua discrição e contenção de representação, compondo personagens essenciais à história e de que nos ficamos a lembrar por muito tempo. Em Sete Palmos de Terra, por exemplo, Richard Jenkins (no papel de Nathaniel Fisher, pai da família Fisher e dono da agência funerária onde se desenvolve toda a série) morre nos primeiros minutos do primeiro episódio da primeira temporada, sendo o seu aparecimento desencadeado pelas memórias ou pelo desejo dos filhos, da viúva e daqueles que lidaram com ele e lhe sentem a falta. E, apesar de ser apenas um fantasma, Jenkins é um dos personagens principais da série e uma presença sempre ansiada por quem vê. 
Uma noite destas, ao rever Ana e as Suas Irmãs(Woody Allen, 1986), apercebi-me, surpreendido, da presença na história de Richard Jenkins que, durante os dez segundos de um telefonema, encarna o papel de um dos numerosos médicos que a neurótica personagem desempenhada por Allen consulta. Ana e as Suas Irmãsdeverá ter sido, há 33 anos, um dos primeiros filmes em que participou como quase figurante e até, em 2008, lhe ser dado o papel principal em O Visitante. Mas como é do conhecimento geral, Allen é especialista em descobrir novos talentos e gente como Meryl Streep ou Sigourney Weaverpassaram igualmente pelo crivo de meros segundos na tela de Woody Allen, pelo que Richard Jenkins fica em muito boa companhia.
Quanto à sua presença em Mumbai naquela tarde de Novembro, compreendi, mais tarde, que Jenkins é um visitante frequente da Índia, país com quem mantém uma relação especial e onde, aliás, participou como actor no desgraçadamente mau Comer, Orar e Amar(2010), filmado no país e adornado pelos constantes esgares e flexões labiais de Julia Roberts. 
Richard Jenkins em Mumbai (© fotografia de pedro serrano, Mumbai 2018).
Após beber a sua cerveja, Mr. Richard Jenkins, na companhia dos três indianos que estavam sentados com ele, saiu, enfiou na cabeça um boné de basebol e tentou passar despercebido na Shahid Bhagat Singh Road, a avenida onde fica o Leopold, tarefa difícil para quem, mesmo que o talento não sobressaia, tem mais de um metro e oitenta e cinco de altura.  
   

20 março 2019

VOU-TE CONTAR: 73. A Freira Vermelha

Em casa dos meus avós maternos a sala de visitas era um local interdito a crianças não acompanhadas e isso era-nos tão insistentemente repetido que mal detectávamos uma aberta na vigilância dos adultos eramos atraídos para a sua porta como insectos para a luz. Esta porta irradiava já algo de premonitório do mistério e do tempero mágico do interior, pois possuía painéis de vidro martelado que permitiam aperceber uma claridade vinda do interior e, muito facilmente, adivinhar movimento do lado de dentro, como se algum ser com propriedades de mosca ou de réptil andasse a passear-se por lá num deambular que abarcava o chão e a própria altura das paredes. Mas quem poderia andar por ali se a sala não era aberta senão em dias especiais, de festa, ou quando sucedia chegar uma visita de cerimónia que era forçoso manter afastada do coração íntimo da casa?
Assim, com estas dúvidas a crepitar na mente, era com extremada prudência que um de nós rodava o puxador – não tinha lugar na nossa coragem ir lá sozinhos – e empurrava a porta ao ralenti para verificar que as sombras movediças que pressentíramos através do vidro martelado não tinham tradução em algo palpável ou do domínio do visível. A sala estava vazia e revelava-se-nos, mais uma vez, constante e fria. Mas essa confirmação nunca era suficiente nem definitiva e tornava-se necessário retornar.
Logo à entrada havia uma mesinha baixa, um tampo de vidro embutido em metal dourado, e em torno dela agrupavam-se um sofá e dois maples, tornados unos não só pela cor verde seco do seu estofado, mas também no modo como encurralavam a mesinha num cheque mate. Neles era proibido sentarmo-nos e apenas o faríamos durante alguns segundos para confirmar a fundura dos assentos e a dificuldade em estender os braços sobre os apoios laterais com o relaxe com que víamos os adultos fazê-lo após terem pousado a chávena do chá. Do sofá, olhando em frente, encostado à outra parede estava um piano vertical e a sua coluna preta – que sabíamos conter as cordas e os martelinhos almofadados – parecia uma chaminé por onde subiriam notas se as pudéssemos tocar. Mas era infinitamente interdito mexer no piano, abrir sequer a tampa que ocultava o teclado e nos cairia sobre os dedos, directa como a justiça divina. Proibição maior, naquela sala, só mesmo a de ousar premir as teclas nacaradas que manobravam o radio-gira-discos, um móvel de madeira severamente envernizado cuja base era preenchida por sucessivos escaninhos secretos onde se arrumavam os discos. Ao fundo da sala, lá longe, havia uma janela virada a sul, mas não a víamos senão de portadas cerradas, porque era virada a sul e a luz do sol, a penetrar livremente, comeria a cor dos tapetes, desvaneceria o forro dos estofos, desbotaria os cortinados. Entre a janela e a parede, uma consola alta em madeira dourada e tampo de mármore recobria a tubagem do aquecimento a água, e sobre esta um relógio com feitio de escultura representava o tempo, como este se deveria contar em Versalhes ou numa qualquer outra capital civilizada. E presidindo acima, nessa parede mais distante da sala, estava pendurado o quadro que fazia fruste a minha estadia no local, tal era o terror que despertava em mim a sua presença. Dentro de uma moldura dourada, de perfil, uma freira torcia-se para olhar quem entrara duns olhos pardos, parados mas vigilantes, sem uma expressão que conseguíssemos interpretar ou da qual se pudesse alcançar aprovação. Era uma freira atípica e embora usasse aquelas toucas rígidas que as freiras usam, na dela só a parte que lhe assentava no topo da cabeça era negra, pois as abas laterais eram de um escarlate sanguinolento, como se o sangue fosse a divisa da sua Ordem. E a estranheza da religiosa não se ficava por ali: os lábios, tinha-os pintados do mesmo vermelho das abas da touca e por entre eles brilhava uma fiada de dentes desdenhosos que – apesar do repousado falsário da expressão – eu achava estarem prontos a morder a qualquer momento. Aquela mulher era, para mim, a terrível guardiã da sala de visitas dos meus avós e, nas tardes em que me era dado olhá-la, seria prolongadamente castigado pela fosforescência maligna da sua lembrança à hora do adormecer, uma vez que era impossível obter alívio do assunto com quem acudia ao quarto a tranquilizar a minha insónia. Como poderia queixar-me da freira vermelha se, antes de tudo o mais, eu não deveria, sequer, ter podido vê-la?
A Micas do Couto na primeira metade dos anos 80.
O tempo correu, passaram anos e décadas sobre a sala de visitas e a casa dos meus avós foi fechada, o recheio distribuído pelos herdeiros e quis a sorte que, entre outros móveis, louças e pinturas, o quadro da freira viesse parar a casa dos meus pais, onde eu, agora adolescente maduro, ainda morava. Um dia, ao descer as escadas do piso de cima, dou com a freira vermelha suspensa numa parede do hall, longe do seu santuário de sempre e exposta num local banhado de luz, cruzado constantemente por gente. E, desassombrado, percebi então que a freira não era freira nenhuma: não passava duma rapariga do povo com um chapéu preto, de copa redonda e aba curta, em que as supostas asas laterais da touca resultavam de um lenço vermelho que usava sob o chapéu, como tanto sucede com as ceifeiras. Mas, apesar da revelação, o meu alívio não foi completo e a qualidade sinistra do retrato manteve-se-me agarrada – não olhava nunca com prazer ou neutralidade naquela direcção, como acontecia se o fazia com outras pinturas que se penduravam por ali. 
Rodou de novo o tempo, ou a consciência que fui tendo dele, e caiu a casa dos meus pais, como acaba por suceder sempre que as pessoas as deixam e se perdem pela morte e pelo mundo. Por uma questão de segurança, os valores principais da casa foram sendo guardados em arcas e gavetas, mas, tendo em consideração as dimensões, dois quadros foram envolvidos em panos e escondidos na cave atrás da porta da garrafeira, um compartimento esconso, sem janelas ou ventilação: um deles (apeado de degrau em degrau desde os seus dias áureos) era o quadro da ex-freira vermelha. Ali estiveram, os dois quadros, dez longos anos esquecidos, longe da luz e das vistas.
Um dia coube-me ir resgatá-los e ao desembrulhá-los com cautela do seu sudário ouvi o ruído de algo a tombar. Acontece que o rebordo interior da moldura dourada do quadro da freira vermelha, que eu supunha da mais nobre madeira, era de gesso pintado e, com o tempo e a humidade, esboroara-se. Solta de amarras, uma tábua humilde caiu nas minhas mãos: afinal, o retrato da freira-ceifeira fora pintado sobre madeira, como tanto acontecia às pinturas da Idade Média e da Renascença! Peguei no retábulo e levei-o até à janela mais próxima, examinei-o de perto. Sim, era uma pobre tábua, pinho barato e nem sequer muito espesso. No verso, uma anotação manuscrita indicava a data da pintura (1930) e o seu título. Afinal a freira vermelha, o horror altivo da minha infância, não era mais do que A Micas do Couto, porventura a filha de algum lavrador dentre Douro e Minho por quem, fingindo-se naturalista, se encantara o pintor.

06 março 2019

ANDOR VIOLETA!

Se cada um dos mais de 31.000 subscritores que, em pouco mais de 3 dias, assinaram a petição pela destituição do Juiz Desembargador Neto de Moura (doravante designado JUDE NEMO) contribuísse, numa espécie de crowdfunding benemérito, com 1 cêntimo seria possível pagar ao homem um bilhete (de apenas ida) até à Arábia Saudita.
Aí, num caldo cultural mais ao seu jeito, Jude Nemo poderia ganhar honestamente a vida acocorado numa barraquinha dos arrabaldes de Ryad a vender inutilidades a quem passasse: pedras para lapidação, miniaturas em plástico dourado do tribunal da relação do Porto, ferraduras para camelos, magnetos com versículos dos livros sagrados sobre a mulher adulterada... E quando lhe desse ganas de proclamar as desconsiderações que lhe correm nas profundezas, poderia sempre pregar no deserto, por felicidade ali ao lado.
E assim, por cá, todos reencontraríamos a paz e a serenidade, ainda ontem perturbada pelas mais recentes choraminguices e alarvidades com que Jude Nemo inundou a comunicação social através de um intermediário, e que aqui resumo aos mais distraídos: Nemo diz que as intensas reacções públicas à sua pessoa o tem feito sentir “triste, usado, indignado e abatido” expressões que, como uma luva, poderiam ter sido proferidas por uma das vítimas de violência doméstica, daquelas que ainda consegue falar. Que tal, senhor juiz desembargador, ser obrigado a descer a escadaria do seu tribunal até à rua, e vestir, nem que seja por um minuto e apenas ao nível das emoções, a pele de quem é forçado a uma realidade tão feia?  
Pela voz do ventríloquo, Jude Nemo anuncia também que está a ser “usado no relançamento do tema da violência doméstica” em Portugal, o que sugere um ego de boneca insuflável e uma tendência para a generalização um tanto abusiva. Mais à frente, noutra fiada de pérolas, Nemo manda dizer que as vítimas de violência doméstica que se sentirem ofendidas com as suas decisões podem sempre recorrer aos tribunais, exactamente como ele se propõe fazer com quem ofendeu a sua dignidade pessoal e profissional. É preciso lata para invocar esta equidade, esta igualdade de direitos e de meios feita por um cidadão que não gastará um tusto em custas judiciais nas sua cruzada justiceira, que é do meio, e se considera tão irresponsável pelos seus actos que se dá ao luxo de processar as autoridades que, justificadamente, o sancionarem quando foi apanhado a conduzir na via pública um automóvel sem matrícula!
Deixo para o fim essa coisa da ‘honra’ ofendida de que Jude Nemo fala gemebundamente. Para ter acesso à honra – informe-se sobre o sucedido nos sistemas concentracionários da Alemanha dos anos 30/40 e da antiga União Soviética – é necessário, antes do mais, estar-se vivo e ter uma certa liberdade de movimentos para dela usufruir e, deste ponto de vista, a ‘honra’ é um luxo a quem nem todas as vítimas de violência doméstica tiveram tempo de chegar.
Dito isto, fica um conselho à laia de conclusão: “ponha-se na alheta”, “desampare a loja”, desembargue a Relação ou, como se diz na cidade que o senhor desfeia: andor violeta!    


04 março 2019

DIGA LÁ 503!

503 é o número de mulheres que foram assassinadas em Portugal entre 2004 e 2018 em ambiente doméstico ou seja, o ambiente que se suporia protector de quem lá vive. Perante a desgraça, quem deveria lidar com ela – o Estado e a Justiça, nos seus diversos departamentos de acompanhamento de casos e punição dos perpetradores – têm-se comportado, salvo honrosas excepções, de forma negligente, incompetente e, sobretudo, fora de horas. As queixas são feitas, os casos são sinalizados, os perigos são reconhecidos, mas a actuação sobre eles é sistematicamente frouxa ou inexistente.
E, como se fosse ainda pouco, há nichos onde estas coisas correm ainda pior do que a média e os funcionários que por lá se sentam concorrem para desfazer o pouco que se fez, insistindo em dar uma mãozinha e soprando a frágil chama da vela que parecia ter sido acesa em nome da justiça e da protecção dos cidadãos. Exemplo flagrante é o Tribunal da Relação do Porto que mais se assemelha a um antro pré-histórico, uma caverna sebosa e sinistra na proximidade da qual dá vontade de atravessar a rua. Dessa caverna, ao público só chegam ecos de más notícias, daquelas em que quase não se acredita quando se ouvem: há meia-dúzia de anos, por exemplo, dois doutos juízes absolveram um médico que, no exercício das funções, violou uma doente, uma senhora em fim de gravidez e em estado de grande fragilidade psicológica. Esse médico tinha sido condenado pelos tribunais comuns, em boa hora fora expulso pela Ordem dos Médicos, mas esse tribunal ‘tira-teimas’ achou que não, que não tinha havido propriamente violência e vá de absolver o monstro e anular a indemnização que este devia à vítima pelos tratos de polé a que a submeteu. Mas estes juízes (o respectivo acórdão pode ser consultado na íntegra em http://www.dgsi.pt/jtrp.nsf/0/1c550c3ad22da86d80257886004fd6b4?OpenDocument) parecem dois principiantes quando comparados com o juiz Neto de Moura, medalha de ouro dos tropeços na luta contra a violência doméstica (na modalidade: dirigida a mulheres) e um herói para todos os matarruanos que a praticam. Com Neto de Moura não há que hesitar em dar porrada nelas, carago, em meter-lhe dentro os tímpanos ou outras membranas, nem que elas façam queixa por escrito e assinem por baixo, pois há ali, na Cordoaria, um amigo que passa a borracha nessa merda toda: reduz sentenças, manda abrir pulseiras electrónicas, defende o pessoal dessas cabras que mereciam ser lapidadas como um diamante, à bruta! Força, Moura amigo, que o pessoal da porrada está contigo! Força, amigo Neto, enche as prisões até ao tecto e processa toda essa cambada que te denigre, mete em tribunal Portugal inteiro, que, estando onde estás e com a prática que tens, não podias estar melhor apetrechado!    

02 janeiro 2019

CADA TERRA COM SEU USO

A propósito da controvérsia portuguesa em torno da divulgação, nas redes sociais (e posteriormente jornais), de uma foto de captura de três bandidozecos violentos do Porto, aqui se dá conhecimento, em segunda-mão, de um hábito costumeiro nos jornais da Índia (neste caso um diário de Goa): a notícia da prisão de dois traficantes de droga com os respectivos captores, posando para a posteridade. Para os mais curiosos, um lakh são 100.000 rupias e um crore vale dez milhões de rupias.