30 abril 2012

BLUE SHEET


Oh them farewell mornings at airport gates
Their roundabout swallowing one after another
Looking back for the last wetly so long glimpse.
Then silently returning to town, opening eyes wide
Aiming them to hot stones, dry tears before they burst
Pressing my head against the seat like some filled up jar
And seeing those jets as they draw white chalky traces
In the childish perfect blue sheet of the morning sky.

© Foto: Pedro Serrano, céus da Catalunha 2012.


25 abril 2012

A MINHA NOITE EM CASA DE MAGDA


All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?

Lennon/McCartney (Eleanor Rigby)


1. Cores

Magda foi uma consequência da necessidade de Filipe Ferreira viajar para Bangalore. Engenheiro informático de uma pequena firma dedicada à importação de componentes de hardware para computador assistiu, em três ou quatro anos, ao crescimento exponencial do volume de encomendas e ao triplicar dos contactos internacionais.
Um dia, o seu chefe, um gestor não muito mais velho do que ele e de igual modo aturdido com o crescimento do negócio, atirou-lhe um molho de papéis para cima da secretária:
“Estuda isto e prepara-te para ir a Bangalore...”
Como qualquer um que não fosse completamente cego, ele estava a par do desenvolvimento tecnológico dos indianos na área da electrónica e sabia que Bangalore era uma espécie de Silicon Valley da Índia, mas daí até pensar que pudessem ser estabelecidas parcerias com aquelas lonjuras, com aquela gente que ainda usava turbante; imaginar sequer ir lá! Depois da viagem decidida, de esmiuçados os detalhes e estimado o número de dias para os contactos, sobrara a parte logística do assunto: a marcação da data de ida e de regresso, reservas de avião, hotel...
“É melhor seres tu a tratar disso directamente, Filipe, sabes que a gaja não atina a planear, pelas mãos dela ainda vais parar ao Bangladesh...”,
aconselhara-lhe o chefe quando sugerira endereçar a Tânia, a secretária-telefonista do escritório, a responsabilidade pelos pormenores da viagem.
Pressionado pelo encargo, Filipe visualizara uma agência de viagens na António Augusto de Aguiar onde uma vez parara a olhar os cartazes da montra, atraído por um all inclusive de seis dias e cinco noites em Cabo Verde.
À entrada da agência havia uma mesinha baixa com prospectos, à qual estava sentado um tipo à espera, e, mais resguardadas, duas secretárias por trás das quais se atarefavam duas funcionárias, uma ao computador, a outra ao telefone. Quando resumiu ao que ia, a empregada que estava mais perto da porta, indicou-lhe a outra com um gesto de cabeça e um sorriso atencioso:
“Se não se importa, fale ali com a minha colega Magda, está mais por dentro das viagens para o Oriente...”
A tal Magda, teve ainda tempo de entrever antes de se sentar na cadeira em frente, era uma mulher a escorregar para os trinta, com um busto generoso a espreitar pela fenda vertical de uma camisa larga de decote debruado com um bordado laranja, a condizer com o acobreado-henna do cabelo.
Quando se apercebeu do destino que Filipe Ferreira porfiava, a rapariga abriu muito os olhos, sorriu como se já o tivesse visto antes e dirigiu-se-lhe num tom de voz que tinha algo de acariciante:
“Ah, para a Índia, muito bem... E, permita-me que pergunte: vai em lazer ou em negócios? Com essa informação é mais fácil adequar um pacote....”
“Infelizmente, vou em negócios...”, deu por si a mentir; ele a quem a comida picante assanhava o refluxo gastro-esofágico, que nunca na vida escolheria destino tão pedinte para férias.
Ela suspirou e assentiu com a cabeça, enquanto as suas unhas, de um vermelho quase negro, voavam sobre o teclado.
“Há mais do que um voo da Lufthansa nas datas que pretende, uns com escala em Frankfurt, outros via Munique... Há também voos da British e da AirFrance, mas, se quer que lhe diga, os alemães ainda são, atendendo ao binómio preço-qualidade, quem voa melhor para aquelas paragens.”
Filipe tirou a agenda do bolso, pôs-se a olhar o calendário do mês de Janeiro, quis também saber preços.
“Janeiro é época alta por lá, os preços são sempre mais caros que no resto do ano, mas deixe ver o que se consegue...”
Ele não imaginava, sugeriu que, para tentar poupar, os dias de viagem fossem limitados ao mínimo.
Magda, que parecia saber tudo sobre a Índia, aconselhou-o a não fazer isso, a não viajar em tão curto intervalo...
“É muito longe, sabe, são – sem incluir as escalas – mais de doze horas para cada lado e, depois, há o biorritmo de cada um: por muito circadiano que seja o seu é sempre preciso contar com algum jetlag, particularmente na viagem para lá. Vai chegar muito maçado e andar com os horários trocados um dia ou dois... E depois”, acrescentou com um tom sonhador nas pálpebras azul-cauda-de-pavão, “já que lá está podia, talvez, aproveitar um bocadinho para disfrutar do país; das cores, dos cheiros, dos sabores... As tarifas ficam até mais em conta se permanecer um fim de semana...”
Enquanto ela contrastava horários de voo e tarifas, ficou a cogitar na proposta, o olhar perdido no decote que se entreabria de cada vez que ela se inclinava sobre o monitor do computador.
“E hotéis, como é? Vocês também podem tratar disso...?”
“Claro”, sorriu, generosa e indulgente, como se estivesse a responder a pergunta ingénua de criança, “tratamos-lhe de tudo o que vier a precisar...”
Filipe Ferreira saiu confortado da TravelSafe. Ao despedir-se, ela levantara-se, dera a volta à secretária e viera estender-lhe a mão. Era um mulher alta e a saia roxa, pregueada e comprida, parecia sublinhar a estatura, mais do que dissimular a anca larga. Mas, simultaneamente, havia uma timidez que apercebeu no aperto hesitante, levemente suado, da mão dela, no modo como baixou os olhos esverdeados depois de o fitar um momento:
“Pois, senhor Filipe, foi um prazer... Vou então tratar de contactar os nossos agentes, para ver dos hotéis... Entro em contacto consigo logo que tenha novidades, o mais rápido possível...”  
Magda cumpriu a promessa e, no dia seguinte, havia um mail dela na Correspondência Recebida do computador:

Data: 20 Novembro 2011 16:45:32
Assunto: Viagem India
Senhor Filipe Ferreira,
Conforme combinado informo que, tendo em consideração o local da sua estadia em Bangalore, o Gold Finch Hotel seria um alojamento apropriado em termos de preço-qualidade. anexo junto link para o site do hotel, onde poderá verificar melhor todos os detalhes de instalação e preços. Junto também informação sobre outras alternativas de alojamento para que possa optar em conformidade.
Vai também necessitar visto para entrar em território indiano. apesar da viagem ser de negócios, sugeria-lhe que pedisse antes, tendo em conta os poucos dias que irá permanecer, um visto de turista, pois é menos burocrático de obter. A Travel Safe (mediante taxa d serviço) poderá tratar da obtenção do visto junto da embaixada. aguardo as suas instruções.
Atentamente ao dispor
Magda Azevedo

Data: 21 Novembro 2011 09:55:23
Assunto: Re: Viagem India
Magda,
Obrigado por resposta rápida.
1. Gold Finch parece bem, pode reservar então as 5 noites? Não percebi bem se o preço inclui transbordo do aeroporto e pequeno-almoço. Pode esclarecer?
2. Estou interessado em que tratem do visto, por favor informe preço e documentação necessária. Vou precisar fotografias?
cumprimentos
Filipe Ferreira

Magda respondeu prontamente, inclusive enviou pdf. com o formulário para o visto. Filipe podê-lo-ia devolver pelo correio, acompanhado do passaporte e de duas fotografias tipo passe ou, se não quisesse correr o risco de extravio, podia passar pela agência a entregar tudo. Preferiu ir lá, a agência não ficava muito fora do seu circuito diário e subindo a António Augusto de Aguiar nessa manhã gelada de Novembro, deu por si a imaginar se o frio teria boicotado o decote.
Magda estava ocupada com um cliente, a colega livre, mas o sorriso que irradiou lá do fundo fez com que se sentasse na mesinha de espera, informando a colega desocupada:
“É por causa de uma viagem à Índia...”
Ficou por ali a folhear um prospecto de Circuito Balcânico + Cárpatos e depois um outro de Visite a Terra do Pai Natal na Época Natalícia! Quando acabou de atender o cliente, Magda levantou-se, veio buscá-lo à mesinha. Trajava uma camisola de gola-alta angorá, eriçada de pelinhos brancos como o pelo de um gato, e uma saia comprida de lã verde a condizer com a cor dos olhos. Filipe reparou sobretudo no modo como o angorá dava um toque de conforto àquele peito onde apetecia aninhar-se numa manhã como aquela.
“É servido de um cafezinho...?”
Não quis dar trabalho, mas ela assegurou não ser maçada nenhuma, na agência costumavam tomar um mais ou menos àquela hora.
“Enquanto trato disso, poderá ir consultando o seu dossiê, preenchendo o formulário para a embaixada...”
Pousou-lhe à frente uma capa de cartolina com o seu nome escrito no canto superior direito, e desapareceu por trás de um biombo forrado por um tecido azul-escuro de onde, pouco depois, se ouviu o tilintar acolhedor de louça.

Data: 19 Dezembro 2011 17:03:27
Assunto: Viagem India – Visto e bilhetes
Caro Senhor Filipe Ferreira
Serve para informar que o seu visto já se encontra na agência e que vou hoje mesmo emitir as passagens aéreas e o voucher para o Golf Finch Hotel.
toda esta documentação pode ser levantada na nossa sede a partir de amanhã
Atentamente ao dispor
Magda Azevedo
PS: Aproveito época festiva para desejar um Feliz Natal e Óptimo Ano Novo :)  

Data: 19 Dezembro 2011 17:04:18
Assunto: Re: Viagem India – Visto e bilhetes & Boas Festas
Cara Magda,
Muito obrigado pelo mail.
Passarei aí a levantar a documentação ainda antes do Natal, de modo a poder retribuir os seus votos de Boas Festas ao vivo!
saudações
Filipe Ferreira

2. Sabores

Na sexta-feira, após dois dias intensos de reuniões e visita ao complexo industrial, os indianos levaram-no a jantar ao Coconut Grove, um restaurante-esplanada separado da rua por umas escadaria de tijolo.
Magda tinha razão, o tempo era maravilhoso para um Janeiro, mal dava para acreditar que 48 horas antes estava numa Lisboa chuvosa e gelada e que agora, em mangas de camisa, jantava ao ar livre sob as pás de grandes ventoinhas que giravam pachorrentas!
Aqueles tipos! Filipe passara os dias anteriores sem se conseguir aperceber do desfecho, bom ou mau, para que se dirigiam as negociações, sem conseguir captar a tonalidade afectiva de uma possível orientação dos indianos, pois, sentados à mesa de trabalho, assumiam uma postura pétrea, falavam muito mas não diziam nada de substancial e nunca, nunca, se comprometiam.
E então, na sexta-feira, a meio da tarde, avisaram Filipe que estava convidado para um jantar de celebração do acordo com o qual, pelos vistos, estavam muito satisfeitos.
“This deal will bring big money for everyone...”, exultava Kumar, o engenheiro chefe, no sotaque ascendente e meio cantado com que todos os indianos se exprimiam em inglês.
Às oito da noite Kumar e Hari passaram a buscá-lo no hotel e, pelo tom da conversa, ficou a julgar que seriam três à mesa. Qual quê! No Coconut Grove a mesa estava posta para doze pessoas e uma meia-dúzia já se instalara, emborcando ruidosas canecas de cerveja!
No Sábado, com a cabeça um pouco pesada, acordou sem saber onde estava. Depois, o crocitar omnipresente das gralhas lá fora devolveu-lhe as coordenadas. À tarde, para entreter o tédio, resolveu ir às compras e perguntou na recepção onde seria mais apropriado. O rapaz atrás do balcão tirou um mapa da gaveta, desdobrou-o e desenhou na trama de ruas e cruzamentos um círculo e uma elipse:
“You are here”, informou apontando o círculo com a ponta de esferográfica, “best shops in MG Road...”
MG Road era a avenida circunscrita pela elipse e no táxi, ao ler as informações nas costas do mapa, percebeu que o “MG” era de Mahatma Gandhi e não alguma referência de tipo industrial como ficara a pensar.
Comprou duas fronhas de almofada, bordadas à mão, para a irmã e, para a mãe, uma echarpe de pashmina, uma tira em caxemira cinza-azulada que lhe custou os olhos da cara mas a cuja macieza não resistiu. Para além disso, deu por si a arrematar uma colcha de cama cheia de passarinhos bordados, que não fazia ideia a quem impingir! Aquelas compras, que imaginava simples e rápidas, mais o calor impiedoso, deixaram-no estafado! Na Vaishali–Silk House, apesar de ter apontado prontamente para a almofada que queria, sentaram-no numa cadeira e fizeram-lhe desfilar diante dos olhos uma quantidade e uma variedade de almofadas que dariam para recostar um harém... Farejando o cliente indeciso e potencialmente gastador que tinha entre mãos, o Sr. Poppatt, o dono da loja, bateu as palmas e mandou um dos empregados ir buscar um chá de Masala ao café mais próximo. Enquanto aguardavam perguntou se, sem compromisso algum, ele não estaria interessado em ver alguns outros produtos: pashmina, raw-silk, banaras saree, traditional bed covers... Filipe tentou resistir:
“No, thank you, I just need cushions...”
O Sr. Poppatt desceu as escadas carregando as compras de Filipe, acompanhou-o até meio da calçada e, esperando voltar a vê-lo numa próxima visita a Bangalore, passou-lhe para as mãos os sacos de plástico.
Arrasado, afastou-se um quarteirão da loja antes de ousar sentar-se numa esplanada e pedir uma Coca Cola gelada para desincrustar da garganta o sabor da merda do chá. Foi aí que, readquirindo a pouco e pouca alguma tranquilidade, viu o escaparate rotativo com os postais e decidiu enviar um a Magda. A verdade é que já na loja se lembrara dela, estivera até quase para lhe comprar uma fronha de almofada, pois já não sabia mais a quem levar tudo o que lhe tentavam vender e aquela loja era a cara dela com a sua fixação na Índia, nas saias esvoaçantes e nas lantejoulas... Ela daria tudo para estar ali, no meio daquele caos de cores, cheiros e sabores!
Fez rodar o expositor e acabou por comprar um postal com um daqueles ridículos deuses que eles veneravam aos milhares, um tipo de cara azul a tocar flauta e rodeado de nenúfares por todos os lados.

Olá Magda
Aqui estou em Bangalore!
O hotel é bom. Foram buscar-me ao aeroporto, mas avisaram que levam uma taxa por isso. Não interessa, que o aeroporto ainda é longe e é tudo bastante confuso.
Tenho tentado disfrutar, como me recomendou, as cores, os sabores e os cheiros, mas o que mais gostei foi da comida, pois o cheiro geral não é nada que se recomende!
Saudações indianas do Filipe Ferreira  

3. Cheiros

Magda morava na periferia da Amadora, a janela da sala do seu apartamento, no 2.º andar, dava para um pilar do viaduto da auto-estrada. Era sexta-feira,  regressavam do jantar num restaurante indiano perto do Poço do Borratém de que ela gostava muito. Para além de Bangalore, Filipe nunca jantara num restaurante indiano, mas, quando a convidara fraquejara nessa possibilidade:

Data: 6 Fevereiro 2012 10:00:35
Assunto: Re: Agradecimento
Cara Magda,
Ainda bem que o postal chegou! Pedi na recepção do hotel para mo meterem no correio, mas, sabe como é, a gente nunca fica com a certeza!
Como lhe disse, em Bangalore correu tudo bem e a sua ajuda foi importante para o sucesso de toda a viagem... Para a por a par do que se passou e  contar pormenores, alguns dos quais podem até ser úteis para o seu trabalho, não quer jantar comigo um dia destes? almoçar ou jantar, como lhe der mais jeito, mas penso que ao jantar sempre teríamos mais tempo de conversar em codições! Podemos até ir a um restaurante indiano (lol).
Filipe Ferreira

Data: 5 Fevereiro 2012 20:39:27
Assunto: Agradecimento
Caro sr. Filipe Ferreira,
Foi com surpresa que recebi hoje o seu gentil postal!
Obrigado pelo envio e, mais do que isso, por se ter lembrado de mim em terra tão distante e tão especial...
espero um dia poder voltar a ser-lhe útil nalguma nova viagem que venha a fazer.
sinceramente
Magda

Acompanharam a refeição com vinho e como a comida era toda para o picante pediram mais uma meia-garrafa para completar a primeira, o que fez com que descessem as escadas do restaurante muito risonhos. Cá fora chuviscava e Magda, com um arrepio, cerrou o casaco comprido sobre o top decotado. À saída do estacionamento, ao meter a marcha-atrás, a mão de Filipe, que se oferecera para a levar a casa, escorregara por sobre o joelho dela.
“Desculpe”, pediu com um toque de riso na voz
Ela optou por não responder, apenas se sorrira interiormente.
Magda tirou o casaco comprido, foi pendurá-lo, junto com o kispo de Filipe, no bengaleiro em ferro forjado da entrada, aproveitou o espelho para ajustar a echarpe de seda violeta ao pescoço.
“Queres um chá de Masala...?”, perguntou quando regressou à sala.
“Pode ser...”, respondeu, não podendo impedir-se de reparar que ela o tratara por tu.
Enquanto Magda se dirigia à minúscula cozinha ele pôs-se a olhar em volta, comentou, em voz alta para ser ouvido por sobre o silvo da chaleira:
“Estar aqui, em tua casa, ou na Índia é praticamente a mesma coisa...”
“Gostas...?”, perguntou ela quando apareceu na ombreira, equilibrando nos braços um tabuleirinho de vime entrançado onde flutuava o vapor saído de duas chávenas sem pega.
Ele acenou com a cabeça, depois desviou o olhar para o pilar da auto-estrada, para os faróis que iluminavam em tom laranja os sarrabiscos de uma chuva miudinha.
“Quase tudo o que tenho nesta sala foi comprado na Loja do Gato Preto e na Natura... O quarto é a mesma coisa, depois do chá mostro-te...”
Acomodou as almofadas em patchwork do sofá, convidou-o a sentar-se e começou de acender uma vela prismática que estava sobre a mesinha em bambu e vidro onde pousara as chávenas.
“Cheira bem...”, comentou ele quando a chama tremeluziu.
“Esta é de Cedro do Oriente, um dos meus odores preferidos, um aroma tradicionalmente associado à serenidade do espírito...”
O chá era forte e de sabor intenso, como uma especiaria, e o cheiro trouxe-lhe Bangalore à memória. Reflexamente, franziu o nariz, ela deu por isso:
“Não gostas, é? Queres que faça outro? Tenho lúcia-lima, melissa, camomila...”
“Não, não é isso; é de estar habituado a bebê-lo com açúcar...”
“Ah, mas eu vou buscar, desculpa; estou tão habituada a bebê-lo assim que nem me lembrei. Só tenho é do mascavado, não te importas...?”
Depois do chá, de lhe ter perguntado se tirara fotografias na Índia, a conversa esmoreceu. Filipe ainda não as passara da máquina para o computador, prometeu mandar-lhas por mail, perguntou se podia fumar, acrescentou logo:
“Se calhar não fumas e eu aqui a querer empestar-te a casa...”
“Não, não; podes estar à vontade. Tenho amigos que vêm aqui e fumam como chaminés, por isso...”
Ao mentir, sentiu as faces a arder e, levantando-se, dirigiu-se à porta do quarto, informando que ia em busca de um cinzeiro para ele.
Encostada ao lado de dentro da porta, Magda olhou o quarto como se o estivesse a ver pela primeira vez.
Atirou para o guarda-vestidos alguma roupa dispersa pelo chão, acendeu o globo de vidro da mesinha de cabeceira, cobriu-o com um lenço cor de açafrão, de pano muito fino; gostava daquele camuflado de luz adamascada. Depois ligou a coluna da aparelhagem, olhou no visor do mp3 a lista de músicas. Acabou por escolher uma selecção de música de Vivaldi com efeitos de ondas de mar em fundo, selecção que ouvia com frequência antes de dormir. Escolhendo a opção repeat pôs a música a tocar baixinho e dobrou a colcha da cama, de modo a deixar a descoberto a dobra dos lençóis e as grandes almofadas de pelúcia beringela.
Antes de encostar a porta do guarda-vestidos, Magda olhou-se no espelho interior, passou um toque de eau de toilette Opium na base da palma das mãos, aspergiu um borrifo nas covinhas das clavículas. Gostava de ser mais morena, aquela pele translúcida, cor de leite! Afastou as alças do wonder-bra e afundou o decote do top – durante o jantar (e mesmo antes disso naquela primeira vez, na agência) ela bem reparara como os olhos de Filipe eram tentados naquela direcção. Antes de abrir a porta acendeu um pau de incenso de café, bufou a brasa e equilibrou-o no queimador. Depois virou para baixo a caixa do incenso, em cuja tampa se lia Despierta Un Deseo Apasionado; orou por sorte a si própria e rodou o puxador.
A sala deserta cheirava a tabaco, uma nesga da janela fora deixada entreaberta. Quando encostou a cara ao olho de vidro da porta já não viu ninguém no átrio, mas conseguiu ainda ouvir o chiado do elevador a travar no rés-do-chão, logo seguido do bater metálico da porta do prédio.

Nota: O título do conto é piscadela de olho ao filme A Minha Noite em Casa de Maude, de Eric Rohmer, 1969.

© Fotografias de Pedro Serrano, de cima para baixo: (1) Índia, 2012; (2) Lisboa, 2012; (3) (4) (5) (6) Índia, 2012.

A CADA DESPEDIDA


"Dindi/Eu Sei Que Vou Te Amar"/"Coração Vagabundo"/"Eu Te Amo"/"Sabiá", por Caetano Veloso, António Carlos Jobim e Chico Buarque, Teatro Fénix 
(Rio de Janeiro), 1986.

23 abril 2012

CHICAS DE BARCELONA

 1. Eternas
2. Fugazes 

© Fotografias de Pedro Serrano, Barcelona, Abril 2012.

22 abril 2012

ONDE VAIS ANCORAR?

Onde vais ancorar, recordação furtiva?
Serás felicidade, mas retrospectiva...
© Pedro Serrano, Parque Guell (Barcelona), Abril 2012.

21 abril 2012

O PERIGO ESPREITA NO PARQUE GUELL

© Fotografia de Pedro Serrano, Parque Guell, Barcelona, Abril 2012.

17 abril 2012

TEMPERAMENTAL

Depende do manto,
Aquela montanha,
Pois tanto s'amanha
Sombria e amuada;
Como que revelada
Em azul, verde e branco.                                 © Pedro Serrano, Cerdanyola del Vallès, Barcelona, Abril 2012.

15 abril 2012

ENTRETANTO EM BARCELONA

Entretanto em Barcelona, o céu está tipo Doménikos Theotokópoulos, que é como quem diz tipo El Greco (1541-1614).












© (1) Fotografia de Pedro Serrano, Barcelona, Abril de 2012; (2) El Greco, vista de Toledo.

09 abril 2012

MOLUSCO CONTAGIADO


Enquanto o diabo esfrega um olho
Aquela lesma, sempre a mesma,
Roeu um palimpsesto de repolho
Destinado à venda no mercado!
Oh, mas pagou-as bem pregadas
A avantesma, sempre a mesma,
Quando podou o pé de hortelã:
Sua viscosidade não mais deslizou
A cauda pelo orvalho das manhãs
E contorcida, grelada, espiralada
Expirou em borbotos, mentolada.




© Fotografia de Pedro Serrano, Abril 2012.

07 abril 2012

FALTA-ME A POSIÇÃO


       Fumo, sonho, recostado na poltrona.
       Dói-me viver como uma posição incómoda.
       Deve haver ilhas lá para o sul das cousas
       Onde sofrer seja uma cousa mais suave,
       Onde viver custe menos ao pensamento,
       E onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
       E acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
       Nem no dia do mês ou da semana que é hoje.


[excerto do poema de Fernando Pessoa Lembro-me bem do seu olhar, escrito em data desconhecida.] 
© Fotografia de Pedro Serrano, São Tomé e Príncipe (Hotel Pestana), 2010.

04 abril 2012

SOMETHING IN THE WAY SHE MOVES

© Fotografia de Pedro Serrano, S. Tomé e Príncipe, 2010. Título do post inspirado na letra de "Something", de George Harrison, 1969.
    

VOU-TE CONTAR: 49. AQUI HÁ GAJA


Em 1968 as coisas corriam mal, muito mal, entre John Lennon e a então sua mulher, Cynthia Lennon. Há já dois anos que Yoko Ono, a japonesa com que John viria a casar, andava por ali a fazer estragos e, nesse mesmo ano, o casamento estourou de vez.
Quem estava tremendamente amarfanhado com tudo isto era Julian Lennon, filho de John e Cynthia, na altura um menino com cinco anos de idade. Impressionado com a tristeza do miúdo, Paul McCartney escreveu uma canção inspirada na situação. Primeiro chamou-lhe “Hey Jules”, diminutivo de Julian, mas depois o título evoluiu para “Hey Jude”, a própria letra ganhou roupagem de história de amor e quem ouvia a canção sem mais informação, que era o nosso caso, ficava a cogitar:
“Aqui há gaja...”
          Hey Jude don't make it bad
          Take a sad song and make it better
          Remember to let her into your heart
          Then you can start to make it better
          Hey Jude don't be afraid
          You were made to go out and get her
          The minute you let her under your skin
          Then you begin to make it better
          And any time you feel the pain, Hey Jude, refrain
          Don't carry the world upon your shoulders
          For well you know that it's a fool who plays it cool
          By making his world a little colder
          Na na na na na
A canção, gravada pelos Beatles nos últimos dias do mês de Julho de 1968, estourou nas rádios no final de Agosto e eu gravei-a mesmo a tempo de a levar para a quinta do meu pai onde sempre passávamos os trinta dias do mês de Setembro.
Em Setembro de 1968 tinha uns recentes quinze anos e um gravador de fita Gründig que, provavelmente, não fora comprado para mim mas de que me apropriei com rapidez e ferocidade, de tal modo que nenhuma das minhas irmãs se lhe atreveria a tocar sem que eu as estraçalhasse por violação de propriedade alheia.
Era um belo gravador de duas pistas, num tempo em que não havia ainda sequer gravadores ou leitores de cassetes, aparelhos que também já não existem nos dias que correm. Um gravador de fita consistia num caixote, pesado, e na sua face superior espetavam-se dois pinos onde se enfiavam bobinas de plástico, uma delas preenchida por uma delgada fita castanha que ia correndo para a outra, vazia. Neste caminho a fita passava por um sistema complexo de carretos e magnetos e reproduzia a música que tinha sido previamente gravada. O meu Gründig tinha duas pistas, o que queria dizer que cada uma daquelas centenas de metro de fita podia ser gravada de um lado e do outro, bastava meter a fita ao contrário no aparelho! Horas e horas de música numa rodela com o tamanho de um prato de sobremesa… A felicidade proporcionada por aquele bichinho fiel e robusto. E imaginar que havia gravadores daqueles com quatro pistas à venda nas lojas da especialidade; saber que os Beatles tinham usado um de oito pistas na gravação do Hey Jude! Ó tempos de prodígios.
Nesse Verão arrastara comigo até Queirã o Renato e o Alexandre, os meus grandes amigos do liceu e dizer amigos é dizer muito pouco, pois numa dessas noites quentes firmámos um juramento de sangue, escrito com um alfinete embebido no sangue picado à polpa espremida dos nossos dedos e redigido num pedaço de papel que, depois de devidamente chamuscado nos cantos para conseguir um toque medieval, foi enterrado, numa caixa de charutos Cogetama e ao rondar da meia-noite, debaixo do castanheiro ao fundo do quintal. Sim, dizer amigos é dizê-lo por defeito, irmãos para sempre seria mais apropriado e ainda hoje o poderia semiprovar se não tivesse perdido a metade do mapa que me coube e onde constavam as coordenadas exactas do local de inumação.
Nesse Setembro, durante as quietas tardes de torreira, sentávamo-nos os três na frescura da sala de jantar que, graças às paredes com um metro de espessura, conservavam a sala num frescor de cave e aprisionavam-na numa paz de nave de igreja. No peitoril profundo de uma das janelas, a fita do Grundig, pachorrenta como um regato estival, serpenteava de bobina para bobina, e eu levantava-me de sete em sete minutos para manter o “Hey Jude” a tocar ininterruptamente.
Sentados em volta da mesa, ouvindo a canção e folheando aplicadamente revistas já lidas em busca de imagens e fundos interessantes, um de nós suspirava e comentava o poderoso som que jorrava das colunas incorporadas no gravador:
“É do caralhão, não sei como os gajos conseguem...”
“Pedro," pedia o Alexandre de tesoura no ar mal os na na na começavam a esbater-se no passado, "põe outra vez...”.
Legítimo proprietário do Gründig, corria a levantar-me para que o desprazer da música seguinte não irrompesse a perturbar o estado de espírito de profundo recolhimento em que aqueles na-na-na-na hipnóticos nos mergulhavam.
“Passa-me a cola”, requeria o Renato, que acabara de dobrar em formato de envelope mais uma página recortada.
Já não sei quem inventou a moda, mas assim que soubemos que as cartas chegavam ao destino e que “sim, os Correios não se importavam com isso” foi um furor com o artesanato dos envelopes caseiros, fabricados a partir de folhas de revistas que tivessem motivos e cores cativantes: bolas cor de rosa de anúncios de detergentes, pastagens verdes de reclames de iogurtes, nuvens azuis de publicidade a pensos higiénicos – que belas lombadas, que belos remetentes, tudo isso proporcionava. Nem mais um dos insípidos envelopes brancos de papelaria no marco do correio! Arrancada a página ao Paris Match, calculado o tamanho, vincadas as arestas, colados os cantos, era só enfiar as cartas lá dentro e escrever o nome das destinatárias em letra bem marcada.
Passámos grande parte desse Verão a produzir envelopes e a escrever cartas, a responder às cartas que recebíamos: cartas para namoradas, cartas para potenciais namoradas, cartas para irmãs ou primas que pudessem interceder ou fazer-nos chegar notícias sobre essas potenciais namoradas; cartas para aquelas raparigas que, por estarem verdes ou demasiado maduras, tratávamos de irmãs...
“Nunca o disse a ninguém, mas tu, para mim, és como uma irmã e isso é um feeling quase sagrado.”
A resposta chegou num envelope em que o meu nome e morada estavam escritos sobre o bojo azul-mentolado do corpo de uma garrafa de água mineral em que se lia Mon foie, connais pas:
“Era de mais se me passasses a tratar por sister, que dizes...?”
Para além disto, sobre que mais falávamos nós nessas cartas? Não faço ideia, não me lembro do que escrevia nem do que me respondiam elas naquela letra muito redonda, pontuada de bolas rechonchudas em cada i, os cantos livres do papel rematados com corações ou estrelinhas desenhados a caneta de feltro.
Todos os dias corríamos aos correios da aldeia, que funcionavam numa casa particular, onde éramos recebidos com grande pasmo e respeito (num par de dias dávamos cabo da provisão de selos do posto) e onde, em troca, nos entregavam o chorudo e colorido maço que esperava por nós. Depois, de regresso a casa do meu pai, atravessávamos em sentido oposto o terreiro do posto dos correios, fofo no seu atapetado de carqueja e estrume de vaca, onde picavam galinhas e fossava um leitão cor-de-rosa que, com um selo colado no lombo nacarado, daria um belo envelope.

© Última foto (contadas de cima para baixo): Maria João Pinto Basto, Porto, 2015.