23 maio 2010

SONHAR, DORMIR TALVEZ

Esta noite dormi mal nas horas nas poucas horas em que dormi.
É tremendo adormecer nos braços da insónia, naquela inquietude por não se encontrar posição, por sentir-se o coração a bater demasiado forte contra o lençol ou contra o ouvido, por todos os pensamentos que nos brotam virem carregados de negrume, de uma angústia rançosa e pegajosa. “Oh, a minha vida, que suprema e completa inutilidade…”
Assim, quando o despertador tocou – pelas sete da manhã – era um náufrago exausto, a boiar crucificado em despedaçada jangada, num mar que acalmara mas se mantinha de chumbo e prenhe de ameaças. E aquele soar do despertador, que em outros dias pode ser quase tão discreto como um trinado de grilo que fugiu da gaiola, sobressaltou-me como o roncar de uma sirene de ataque aéreo.


21 maio 2010

AMOR À SEGUNDA VISTA

Apaixonei-me por ti a segunda vez que te vi.
Deixa-me deixar-me de rodeios e praticar, por uma vez, aquilo que advogo nas minhas palestras de marketing: as palavras-chave devem, em qualquer tipo de comunicação, aparecer em posição-forte, isto é, logo a abrir o discurso.
Apaixonei-me por ti a segunda vez que te vi.
Sinto não estar a dizer-te nada de novo, meu bem, acho que estás cheia de o saber. Passei este tempo todo a dizê-lo por outras palavras, algumas delas bem tangentes ao discurso directo. Mas, com estas coisas, a gente nunca tem a certeza, pelo menos a absoluta. (Já te disse isto num mail recente, enroupado em outras vestes como às vezes acontece com o  que te quero dizer e não sou assim tão suposto fazê-lo.) Com estas coisas… Gente apaixonada nunca tem a certeza da reciprocidade, precisa de confirmação constante. É um estado inseguro, de tonturas, como andar em saltos altos pela passadeira de ripas de madeira que leva à esplanada do bar da praia onde te vi a primeira vez, onde me foste apresentada de raspão e tomámos uma bebida lenta ao fim da tarde. Admito, pois, que não tenhas a certeza absoluta, que, pelo menos, não saibas exactamente quando e como isso aconteceu. Mas eu digo-te, querida insolúvel.
Apaixonei-me por ti a segunda vez que te vi.
Posso encaixar a ocasião com uma precisão de meia-hora, sabias? Foi numa sexta-feira, entre as oito e meia e as nove, de uma gélida e nítida noite de Janeiro. 12 de Janeiro, que dois algarismos tão bonitos. Iria jantar a tua casa, devíamos encontrar-nos na Confeitaria Imperial, o local público mais perto dela e acessível ao meu conhecimento geográfico na vastidão de Lisboa.
“Não consigo estar lá antes das sete e meia…”, disseras ao telemóvel.
Sete e meia… Agora sei o que são as tuas sete e meia da tarde, o sair da empresa, a travessia do eixo Norte-Sul. É aquele intervalo em que, tantas vezes, recebia uma mensagem tua a dizer “olá”, ou outra perguntando “o que estás a fazer?”, um sinal para que um de nós discasse o número do outro e ficássemos ali a falar, esquecidos, eu, num sorriso mental, ouvindo o pisca do teu carro a piscar em Lisboa, os teus “mas este tipo não conhece o código da estrada?!”, os teus “sabes como é?”. 
Mas à época, a segunda vez que te ia ver (a primeira após o nosso encontro na convenção do Alvor e a bebida lenta na esplanada), não sabia nada de nada sobre ti e, ainda antes das sete e meia, o meu Passat desaguou suavemente nas proximidades da confeitaria. Era fim do dia, havia carros a abandonar o local e estacionei mesmo naquele espaço em frente à esplanada, no separador central, entre as árvores, sabes onde é. Entrei na confeitaria, que, afinal, é maior do que o imaginava pela tua descrição, sentei-me a comer à pressa uma castanha de ovos, estava morto de fome. Não comia nada desde o almoço, muitas horas antes, no Porto, num restaurante manhoso de Santa Catarina, perto da esquina com o Marquês.
Despachei o bolo a toda a velocidade. Não queria ser apanhado a atafulhar-me de comida, uma sem-delicadeza para quem foi convidado para jantar, como se desconfiasse que pudesse passar fome chez toi! Mal sabia que poderia ter comido aquele bolo e muitos outros… 
A confeitaria quase vazia, os dois empregados mal reparavam em mim, entretidos a ver na TV as notícias da prisão de um dirigente político que já fora ministro da Justiça. Para não estar ali sem nada nas mangas, pedi um café. No meu relógio, as oito da noite aproximavam-se.
“A que horas fecham?”, perguntei, temendo que estivessem a entreter o fecho do estabelecimento deserto por minha causa.
“Oh, só às nove”, descansou-me o tipo que parecia mais compatível com a figura de gerente.
A mesa onde me sentara era ao lado do balcão, vizinha de uma janela que dá para o exterior e por onde podia ver quem chegava. Sem a perder de vista, pus-me a estudar a montra envidraçada do balcão, por trás da qual se arrumavam doces e guloseimas: ovos Kinder, cigarros de chocolate, gomas coloridas, caixas de chicletes, tubos de Smarties… A mercadoria interessava-me, sabia que a minha anfitriã tinha um filho pequeno, um menino de idade incerta, mas qualquer coisa como entre três e quatro anos. E eu não trazia nada de nada nas unhas: nem umas flores para a dona da casa, uma garrafa de vinho para o jantar, uma lembrança para o menino… Tinha ali a minha última oportunidade de remediar a rudeza e a pressa em chegar a horas. 
O mais fascinante em todo aquele sortido era, sem dúvida, os cigarros de chocolate. Belos maços de cores bem afirmadas, vagamente semelhantes a cigarros verdadeiros mas com ar atraentemente artesanal, cada um dos cigarros do maço embrulhado em papel de prata… Mas como seria encarado tal presente? Eu sabia lá dos enquadramentos, possivelmente politicamente correctos, do pai e da mãe do menino? Poderia escavacar anos de educação em segundos, causar uma decepção fatal, ser excomungado por isso. E se fosse os ovos Kinder?
Ovos Kinder era uma opção também muito interessante. O chocolate é bom, castanho por fora e branco-brilhante por dentro, uma surpresa aninhada em cada um deles, um brinquedo em pequenas peças que, depois de montadas, se transforma no milagre de algo que não poderia nunca ter cabido em espaço tão exíguo, uma magia semelhante à contorcionista que se consegue enfiar num aquário para peixinhos vermelhos… Imagine-se a alegria risonha, as palmas da criança. Mas seria o menino suficientemente crescido para lidar com ovos Kinder? É que aquelas peças mínimas, o perigo de sufocação se engolidas, o interditas a menores de 36 meses… Acabei por me decidir pelos ovos Kinder. Oito e um quarto…
Oito e vinte e eu sem mais com que me entreter. Castanha de ovos, café, água sem gás, ovos Kinder, o nervosismo de olhar pela janela de cada vez que um carro parava. E em sérios riscos de gelar ali mesmo, o frio, que se mantivera apenas vizinho na primeira meia-hora, apossara-se de mim com violência. Que frio, porra, parecia até que atravessava o vidro!
Resolvi mudar de estratégia. Paguei, saí, desloquei o carro para ainda mais perto e  deixei-me ficar dentro, o aquecimento a lamber-me os pés congelados, a janela mais do lado do café com o vidro aberto para a poder ver chegar com nitidez. Se ela viesse, claro, pois às oito e meia começava a duvidar de tudo. Será que teria dito “oito e meia” e eu tinha entendido “sete e meia”? Será que teria desistido daquilo tudo e ia deixar passar a noite sem aparecer, telefonando-me no dia seguinte com uma desculpa qualquer? Que se enganara na data? Que o palm-top ficara sem pilhas? Que se arrependera? Todas estas interrogações, adicionadas ao torpor árctico que o pobre ar condicionado não conseguia resolver com a janela aberta e à fome que voltava a rondar, estavam a fazer-me escorregar para pensamentos desanimados.
Que estupidez tudo aquilo! Que estava eu ali a fazer, parado no meio de uma cidade meio estranha, uma sexta à noite, a 300 Km de casa? À espera de uma desconhecida que, num longínquo telefonema três semanas atrás, me pedira para dizer alguma coisa quando fosse a Lisboa. Mas que estúpida importância eu atribuíra àquilo tudo! Palavras de mera e formal cortesia, tomara-as eu por algo de concreto e agora estava à espera de alguém que, dava conta com desespero, não sabia quem era. Mails e sms! Podia ir parar a um local onde me fosse sentir tão deslocado como um camarão no deserto; invadindo a privacidade e o fim-de-semana de pessoas que, era o mais seguro, prefeririam não me estar a aturar numa sexta à noite! Uma delas, sem contar com a criança, não me tinha nunca visto, sequer! Oxalá ela não aparecesse, comecei a desejar. Claro que tinha o telefone dela, mas não me ia pôr a telefonar, a saber se se esquecera de me dar de jantar! Ia esperar quanto mais? Eram quase nove menos um quarto, talvez já fossem até nove menos um quarto.
Pensava eu em tudo isto, virado para a janela e acompanhando com suspiros de desânimo que se materializavam no ar gelado, quando vi um vulto rápido caminhar para a confeitaria, entrar e, momentos depois, voltar a sair para a noite. Era ela. Não podia ter a certeza só pelo que via – uma figura ao longe, no escuro – mas tive a certeza que sim. Saí do carro, atirei um vocativo por sobre o tejadilho. Ela olhou na minha direcção. Dei a volta ao carro e vi-a, do outro lado do passeio, aproximar-se, a gola de um casaco de cabedal levantada, o cabelo meio embutido nela. Um pouco antes de me alcançar atirou ao chão o cigarro que vinha a fumar, pôs-se a pisoteá-lo com a biqueira da bota. Depois levantou a cabeça e olhou-me.
Era ela, sim; tive então a certeza. Era a mesma pessoa da convenção no Alvor e surgiu como uma revelação: eu iria com ela para qualquer parte do mundo. Não havia ali nenhum equívoco. E, assim, nesse estado de iluminação e graça, a segui para onde decidiu levar-me.
© Fotografia: Pedro Serrano, Lisboa 2012. 

17 maio 2010

Once upon a time: BOB DYLAN (na cozinha da tradução dos Lyrics 1962-2001)

Uma tarde, no final do Verão de 2005, telefonou-me o Francisco Vale, editor e proprietário da Relógio d’Água: “Não queres traduzir para português a obra lírica completa do Bob Dylan? Estou a pensar comprar os direitos aos americanos…” Para lá do baque, tentei ganhar tempo: "Deixa-me pensar uns dias..."
Nos anos 60 os meus pais tinham uma quinta nos arredores do Porto, com uma fronteira aquática no seu limite sul, o rio Douro. Nas férias da Páscoa de 1966 eu e um amigo passámos lá uma semana, sozinhos com as nossas latas de atum, acampados a três metros do solo num espigueiro, um casinhoto onde se guardava o milho, bem arejado e a salvo de roedores.
Na fotografia, estou nas escadas e o tipo sentado na ombreira da porta é o Rui, hoje oftalmologista no Porto. Se reparar bem, junto à mão esquerda dele passa um fio que cruza um dos pilares de granito em que assenta o espigueiro e se perde no canto direito da fotografia. É um fio eléctrico e a ele estava ligado um gravador de fita Gründig, a nossa companhia sonora permanente.
Nessa semana ouvimos incessantemente um álbum que aparecera em Portugal não há muito tempo, embora já tivesse sido editado nos Estados Unidos há quase um ano. Intitulava-se Highway 61 Revisited, o cantor chamava-se Bob Dylan, as músicas eram todas dele e eu nunca tinha ouvido nada parecido, tão estranho e tão poderoso. Tão hipnótico e pleno de detalhes a absorver que mal a última música acabava eu puxava a bobina para trás e fazia começar tudo de novo. 
Se, à época (tinha 13 anos), alguém me dissesse que um dia seria convidado a traduzir Dylan, eu acreditaria tanto como se me dissessem que havia vida em Marte e sentir-me-ia tão esmagado pela honra e pela responsabilidade como se me comunicassem ter sido escolhido para gerar um profeta…
“Vê se não demoras muito a decidir”, disse o editor do lado de lá do fio, “o meu direito de preferência sobre a tradução está a acabar...”
Mas, voltando a essa tarde do Verão de 2005, para além da honra e da responsabilidade quase cósmica havia ainda os aspectos práticos: a obra a traduzir (Lyrics 1962-2001) era imensa (600 páginas de uma mancha densa, quase tamanho A4, em American-English); a poesia labiríntica; as interpretações em volta do que ele escreveu geraram milhares de teorias interpretativas, teses, 500.000 presenças activas na net.
Uma semana depois acabei por dizer que sim, mas apresentei uma contraproposta: sim, mas só em boa companhia. Esse a meias andara, entretanto, a preparar. Tinha uma amiga, licenciada em inglês e alemão, especializada em literatura anglo-saxónica, de quem conhecia a demonstração do gosto pelo rigor e a capacidade de trabalhar em regime de escalada, passo a passo, palavra a palavra.
E assim foi, durante dois anos e meio lá se foram as nossas horas vagas, as férias. Metemos Dylan na cabeça como uma obsessão, como uma maldição: comprei os muitos discos que ainda não tinha, encomendei livros, passei dois anos embebido na sua música e embrenhado na leitura do que ele tinha escrito, do que se tinha escrito sobre ele e sobre a sua obra. E, agarradas às suas músicas, às suas letras, vinha o caldo a partir de onde tudo aquilo explodira: as influências literárias, musicais, cinematográficas, as musas; e, como consequência, lá estávamos nós a ler sobre poesia inglesa, baladas escocesas e irlandesas, sobre blues e lendas dos blues, a rever Fellini, Hitchcock e Scorsese. Até debruçados sobre coisas aparentemente menos do domínio das artes como activistas políticos, gangsters, jogadores de basebol e pugilistas, pois Dylan tudo cantou, como qualquer songster que se preze.
A Gina mora em Braga, eu no sul, separam-nos 400 km de estrada. Então, todo o trabalho foi feito usando o mail e só nos encontrámos meia-dúzia de vezes ao vivo para discutir critérios,  afinar versões finais dos poemas, rever as provas dos dois extensos volumes em que tudo isto se transformou. Nesses longos encontros em Braga, em permanência vigiados pelos olhos domésticos das duas cadelas da Gina e invadidos pela companhia do seu gato preto, chupámos quilos de rebuçados de mentol em maratonas que duravam 12 horas por dia e durante as quais discutíamos, à exaustão, a decisão a tomar sobre uma palavra, um verso, uma estrofe, uma música, o título definitivo de uma canção, o texto de uma nota de rodapé; se sim ou não uma vírgula.
Foi duro e tanto mais o foi porque tínhamos decidido, como axioma geral, que a nossa abordagem da tradução seria asperamente literal, isto é, iríamos respeitar em absoluto o que estava escrito e não nos deixar cair em tentação pelo que talvez fosse a intenção do autor, o sentido das palavras, a intuição ou a sensibilidade...
Essa opção causou-nos frequente sofrimento estético e eis-me desiludido por não conseguir outra palavra mais densa do que ‘brincalhão’ para a misteriosa figura do Joker na apocalíptica letra de “All Along the Watchtower” (“Ao Longo da Torre de Vigia”), algo que retratasse melhor a enigmática figura, algo diabólica, retratada nas cartas de jogar. Nenhum dos dois escapou a essa frustração e agora é a Gina a percorrer todos os dicionários, todos os sites possíveis, todos os fóruns de tradutores, em busca de alternativa à ‘pandeireta’ do “Mister Tambourine Man” (“Senhor da Pandeireta”), que imaginara poder traduzir por “tamborim”, acabando por não lhe restar alternativa que não a rústica pandeireta para uma canção passada numa melodiosa manhã de sonho. E nem as sentenças esclarecidas de Vladimir Nabokov sobre traduções nos consolavam totalmente: “Um autor torturado e um leitor enganado, este é o inevitável resultado da paráfrase artística. A única finalidade e justificação da tradução é carrear a mais exacta informação possível, e isso só pode ser conseguido por uma tradução literal, com notas."* Muitas notas e muitos rebuçados de mentol...
Que a edição seria bilingue sempre foi um dado adquirido entre nós e o editor, mas inicialmente foi ventilada a hipótese de a mancha principal do livro consistir na versão em português de cada  canção, aparecendo o texto original em nota de rodapé, os versos de cada estrofe apresentados na horizontal, separados por traços. Algo deste género:
Once upon a time you dressed so fine /You threw the bums a dime in your prime, didn´t you?/People’d call, say, “Beware doll, you’re bound to fall”/You thought they were all kiddin you/You used to laugh about/Everybody that was hangin’ out/Now you don’t talk so loud/Now you don’t seem so proud/About having to be scrounging for your next meal.
E isto é apenas a primeira estrofe de uma canção que tem oito! A Gina e eu ficámos horrorizados com esta sugestão editorial, sensatamente apresentada como forma de poupar espaço e bastante utilizada por aí. Para além da questão estética da apresentação, desejávamos que o todo surgisse perante os olhos do leitor em total transparência e clareza comparativa: na página da esquerda o texto original, em inglês, e na página da direita, em espelho, a tradução do mesmo; alinhadas de modo a que a cada linha em inglês à esquerda correspondesse, taco-a-taco, a sua legenda em português à direita. 
Não foi difícil convencer o editor da bondade dos nossos argumentos e houve um último que decidiu as hesitações: seguidores de Nabokov, no que se refere a traduções, e conhecendo a prosa de Dylan, prevíamos que o texto iria ter que contar com abundantes notas de rodapé dos tradutores. Agora imagine-se o que seria a mistura do comboio de linhas do texto em inglês com a serpentina das numerosas e extensas notas de pé de página. Uma selva em que, em cada uma das páginas do livro, a metade inferior seria ocupada com um caos visual que arruinaria a atenção ou o entendimento do mais abnegado dos leitores.   
Tudo isto acabou por condicionar a dimensão física da tradução para português da lírica de Bob Dylan (Canções 1962-2001) e a obra teve de ser editada em dois extensos volumes: o primeiro, com 665 páginas, saiu para as livrarias em Setembro de 2006 e contém as canções escritas entre 1962 e 1973. O segundo, 754 páginas, foi editado em Junho de 2008 e contém as canções escritas entre 1974 e 2001.
As tais notas de rodapé dos tradutores, que prevíamos abundantes, acabaram por ser em número de 409 e as notas de fim de volume, com considerações de enquadramento de álbuns e canções, vieram a gastar 30 páginas do total da tradução.
As reacções à edição dos dois volumes foram parcas e discretas e rondaram a dezena nos jornais portugueses (Público, Expresso, Diário de Notícias, Visão, Sol, entre outros), a que podem ser somadas mais duas ou três notícias sobre a novidade literária em blogues brasileiros. A grande maioria dos comentários limita-se a duplicar os textos que surgem na contracapa ou nas badanas dos livros e apenas uma se pode considerar minimamente crítica do conteúdo da tradução, a do Diário de Notícias que se intitulava “Dylan Legendado em Português” (João Morgado Fernandes, 15 Dezembro 2006, crítica ao Volume I).
Mas, em termos de crítica, a maior satisfação dos tradutores viu a luz do dia em 28 de Julho de 2008 em http://christopherrollason.
spaces.live.com, blogue de Christopher Rollason. Este senhor é um inglês que vive em França e é um conhecido especialista da obra de Bob Dylan, em cujo nome se tropeça constantemente quando se lêem obras de referência sobre o compositor. 
Uma noite, na dúvida aguda gerada por uma opção a tomar sobre o sentido de determinada situação dylaniana encontrei um artigo de Christopher Rollason sobre o assunto. Esse artigo não dava resposta à nossa dúvida, mas andava perto. Não foi difícil encontrar o endereço electrónico do homem e escrevi-lhe um mail em inglês, pedindo a sua opinião. No dia seguinte recebi, com grande espanto pela resposta pronta e pelo idioma usado, uma resposta dele em português. Tinha vivido em Portugal entre 1979 e 1987, onde foi docente na Universidade de Coimbra. Tem obra publicada sobre José Saramago e outros temas portugueses! Recorremos à sua ajuda várias vezes, as suficientes para lhe agradecermos a disponibilidade e o apoio na edição do segundo volume. 
Os dois volumes das Canções 1962-2001 podem ser encontrados nas livrarias ou encomendados directamente para a editora em www.relogiodagua.pt. 

Ao clicar (neste blogue) sobre a capa de cada um dos livros encontra o índice do conteúdo do respectivo volume. Em jeito de aperitivo, ao clicar sobre a capa do Volume I encontra também o texto original e a tradução de “Like a Rolling Stone” (Highway 61 Revisited, 1965), aquela que tem sido repetidamente votada como a melhor canção popular de todos os tempos. É obra!






* A citação de Vladimir Nabokov é do livro Opiniões Fortes, editado em Lisboa pela Assírio e Alvim, 2005.


Imagens (de cima para baixo): Quinta do Outeirinho, Avintes, 1966 (fotografia de Eduardo Serrano). Restantes fotografias de © Pedro Serrano: Praia da Areia Branca, 2007; Braga, 2008; Praia da Areia Branca, 2008; Lisboa, 2008. Maquete da capa e contracapa do Volume 2 e capas dos livros: © Relógio d'Água editores, 2006 e 2008. 



Extra, Extra, Read all about it! 

O texto (post) "Once upon a time: Bob Dylan (na cozinha de uma tradução)" está agora comentado em dois sites especializados: 









 probably the best Bob Dylan site ever!




On the Portuguese translation of Dylan’s LYRICS

For those who read Portuguese, I am pleased to add that on his blog at: http://www. semcompromisso.com/2010/05/once-upon-time-bob-dylan-na-cozinha-de.html  Pedro Serrano, the co-translator into Portuguese of Dylan’s Lyrics, has posted an interesting piece on the history of that translation, in which he also kindly credits me (Chris Rollason): in fact I have a number of credits in the 2nd volume of the translation. I posted myself on the subject on 28 July 2008 at:http://christopherrollason.spaces.live. com/ blog/ cns!459178C2F5215F32!1000.entry. The Portuguese Lyrics (Bob Dylan, Canções vol. 1962-73  (2006) and Canções vol. II 1974-2001(2008), Lisbon: Relógio d’Agua, trans. Angelina Barbosa and Pedro Serrano), is an exemplary piece of work, rendered with loving care and attention to detail.
Pode visionar este mesmo comentário em: http://nicolamenicacci.com/bdcc/blog/


Expecting Raintopbanner2008_bob_01.jpg


É também mencionado em Expecting Rain, um muito conhecido site totalmente dedicado a Bob Dylan. Veja a referência 19 em http://74.54.108.222/ 





(Pedro Serrano, em 17 de Maio 2010)

16 maio 2010

Discreta Serenata Rural: REMÉDIO SANTO

Acordou com a campainha da porta a ser premida com insistência. Ao abrir os olhos percebeu de imediato do que se tratava pelos jactos de luz azul que, intermitentemente, eram projectados no tecto através dos interstícios nas persianas.
A seu lado, alertada pelo choro que se iniciara no quarto ao lado, a mulher, ainda de olhos cerrados, gemeu estremunhada:
“Que foi, quem toca assim...? A Teresinha está a chorar...”
“Deixa, é a GNR; é para mim. Deixa-te ficar, eu vou à menina...”
Sem acender a luz, vestiu-se à pressa; depois entreabriu a janela e acenou para baixo, a avisar que estava em marcha. Correu ao quarto ao lado. A filha, sentada na cama, choramingava no escuro. Sentou-se na borda e abraçou-a. Ela quis saber o que se estava a passar, aquele barulho todo.
“São os senhores da ambulância, querida, é para o papá... Vá, dorme.”
Perguntou ainda se era um menino que tinha ficado doente por ter comido sobremesa a mais.
“Não, Teresinha, não é um menino, a esta hora os meninos estão todos a dormir nas suas caminhas. Deve ser algum senhor grande que está muito doente. Vá, dorme.”
No armário da entrada tirou a bolsa onde guardava a lanterna, o espelho de bolso, as pinças dentadas e as luvas cirúrgicas; desceu as escadas duas a duas e, antes de se aventurar no exterior, entalou o cachecol no pescoço e olhou o relógio. Eram 6.35 e estava noite cerrada. Novembro, o mês mais cruel.
No pátio de acesso à entrada do prédio o jipe da GNR gorgolejava, paciente, o farol do tejadilho desferindo golpes de luz azul pelas paredes e pelos álamos que hibernavam na madrugada. Uma porta abriu-se para ele entrar.
O comandante da GNR arrancou e em abençoado silêncio para o seu estado estremunhado, guiou sem tugir até ao lado de lá do tabuleiro da ponte sobre o Tâmega. Depois, como se tivessem entrado noutro país ou noutra era, disparou:
“Pois é, senhor doutor, lá se foi mais um...”
O delegado de saúde encolheu-se contra o assento. A leste começava a clarear e esquadrões de névoa despejavam-se das montanhas. Perguntou:
“O que é desta vez?”
O comandante da GNR não respondeu logo, apresentou-lhe o passageiro que seguia no banco de trás, sentado ao lado do cabo Pimentel:
“Acho que já conhece o Sr. Valadares, o regedor de Canedo. Veio por aí abaixo no jipe da guarda-florestal, saiu de lá às três da manhã e volta connosco, coitado... 
“O caminho está mau, caiu um nevão ontem ao anoitecer...”, explicou o Sr. Valadares como se pedisse desculpa pelos incómodos  causados pela sua freguesia.
O comandante da GNR ignorou o comentário, voltou ao assunto principal:
“Uma mulher, sessenta-e-três-anos. O marido deu com ela quando chegou a casa, da tasca. Diz ele que estendida na cama, morta, e com ar de quem passou os derradeiros momentos num sofrimento... Segundo aqui o Valadares, parece que o povo já anda por lá a dizer que fora ele que a matara, que na véspera lhe dera uma valente zurzidela com uma tranca.
A hipótese de homicídio passou, fugaz e dolorosa, pela mente do delegado de saúde.
“E por que razão ele lhe daria a coça? Ou era costume?”
“Dizem por lá, ao que parece, que eles ontem à noite tiveram uma discussão, coisa brava, por causa da mãe dele. Ele dá-se muito com a mãe, uma velha tesa, e parece que a velha não apreciava a nora... Ouve-se que a velha lhe fazia a vida negra...”
E caíram em silêncio. Tinham passado Santo Aleixo de Além Tâmega, a estrada asfaltada acabara abruptamente e o comandante da GNR guiava em total concentração, adaptando-se ao novo terreno, aos solavancos e aos barrancos da estrada florestal, uma estreita língua de saibro, cheia de covas e de pedregulhos, que todos os anos era refeita no Verão e desfeita pelo Inverno.
“Já ali arrombei o carter uma vez”, recordou o comandante da GNR apontando o queixo para a curva que se aproximava subindo e descendo do lado de lá do vidro da frente do jipe.
Canedo era a freguesia mais a norte do concelho. Uns escassos 20 km a separavam da sede do concelho, mas percorrê-los demorava mais de duas horas e só carros de bois ou jipes se aventuravam naquela estrada, pouco mais do que um trilho de cabras, serpeando entre pinheirais intocados e flancos de serrania.
O delegado de saúde já por lá estivera duas ou três vezes, a acompanhar a equipa de vacinação ou em visita à extensão do centro de saúde que ali estava a ser construída. Um buraco, era como ir a lugar nenhum! Cada vez que passava por ali sentia-se tentado a dar razão ao Agostinho, o técnico sanitário, que sempre costumava dizer quando se deslocavam a lugarejos semelhantes:
“Mas como é que há gente que lhe passa pela cabeça construir e viver em tal sitio?! Gente atrasada, porra!”
Olhou o relógio. Oito e dez da manhã e ele em jejum absoluto. Se a viagem ia demorar tanto como a do regedor só lá chegariam por volta das 9:30... Limpou o vidro embaciado com o cotovelo e olhou o céu. A manhã estava instalada, mas o céu tinha a cor do mar em dias de cerração profunda, o mesmo cinzento espesso e mudo. Dali só podia sair mais neve, pois já tinham subido acima da altitude em que o granizo é provável.
“O senhor doutor quer parar em Ceirós para rilhar qualquer coisa?”, interrompeu o comandante as suas considerações metereológicas.
“Querer, queria, mas onde!?”, exclamou, pois era homem que acreditava em cafés e restaurantes e Ceirós era um buraco ainda mais pequeno, mais perdido, do que Canedo. Uma ruela, pavimentada a tojo e caruma, futuro estrume para os campos pedregosos, ladeada de uma dezena de soturnas casas de granito.
O Comandante deu uma gargalhadinha e, pelo retrovisor, olhou o banco de trás, num silencioso pedido de indulgência ao regedor pela falta de conhecimento e sensibilidade daquele estrangeiro. Depois disse:
“Há-de haver sempre quem nos ofereça uma fatia de presunto e um naco de broa...”
“Nem me fale em presunto, que já estou aqui a salivar só de pensar em poder deitar-lhe as mãos...”, emendou o delegado de saúde, usando o humor como bandeja para se desculpar.
E todos se riram muito. 


"Que maravilha”, pensava o médico menos de uma hora mais tarde, agora confortavelmente instalado no banco do jipe e sentindo um torpor agradável tomar conta de si. A broa ainda estava morna do forno e a gordura do presunto, tão alva como a neve mas de brilho mais caloroso, combinava com ela como ouro sobre azul. A rematar, engolira um cálice de bagaço, tão forte que lhe encheu os olhos de lágrimas, e de riso os dos seus companheiros de missão.
“Oh, c’um grandessíssimo carago! Valha-nos Deus!” 
O delegado de saúde, que escorregava para uma sonolência, abriu os olhos de repente, sobressaltado pela travagem brusca e pela imprecação do comandante da GNR, de habitual um homem pacífico e de linguagem comedida.
Entre o quase negro dos troncos molhados dos pinheiros, sobre o tapete alvo da neve que cobria o chão, a menos de quinze metros, um lobo encarava o jipe tranquilamente. Apesar da distância, da segurança de estar encerrado entre chapas de metal, o médico sentiu todos os pelos do corpo serem arrepiados por um estremecimento profundo. Aquele animal no meio da estrada, apesar do tamanho e do formato serem semelhantes, não tinha a mínima parecença com um cão. Mais do que o hirsuto da pelagem, era a pose altiva, a aura de solidão auto-suficiente e, sobretudo, o fogo selvagem dos olhos, que faziam dele uma outra espécie. 
Como se assistissem a um milagre, ali se quedaram, uns eternos segundos mirando-se em silêncio, até que o lobo deu de costas vagarosamente e desapareceu no meio do bosque.

Constatou, mais uma vez, que em casos de morte violenta não é preciso indagar onde fica a residência da vítima. Tinham chegado, uma porção de vizinhos escabichava rente às janelas da casa. Alguns homens, onde sobressaía o viúvo – pouco à vontade no estigma dos rumores, mas principalmente mulheres, num luto que nas novas era recente e nas velhas se eternizara sob as contíguas mortes de familiares, compadres e vizinhos.
O comandante da GNR caminhou resoluto para a multidão, em busca de informações de última hora. O delegado de saúde, amalgamando a intrusão com a espera, dirigiu-se ao viúvo em voz discreta:
“Então como foi isto, amigo?”
O viúvo repetiu a história que o Sr. Valadares contara ao comandante e que o comandante lhe contara a ele mal tinham cruzado o Tâmega: chegara da taberna, chamara por ela, ela não respondera... Reservou apenas o direito íntimo de não misturar a mãe na tragédia. Soluçou:
“Dizem que lhe bati ontem, mas não é verdade. Bati-lhe muitas vezes, mas ontem não...”
O comandante da GNR aproximou-se e, fechado no cumprimento das funções, sussurrou:
“Quando o senhor doutor quiser...”
O delegado de saúde tartamudeou na direção do viúvo e cruzou a soleira.
Uma só divisão. Construção recente, a casa era feita de blocos de cimento sem nenhum revestimento ou pintura no interior. Na borra imperfeita de cimento que transbordava da aposição dos blocos, pregos penduravam objectos que mudavam de categoria em cada um dos cantos da casa: cebolas entrançadas, duas chouriças, na cozinha; um Cristo na sala; um terço e um Souvenir de Bordeaux no quarto de dormir. Frio, desolado, não havia sequer ainda uma camada decente de negro-de-fumo na chaminé de cimento.
O cadáver parecia mais novo do que 63 anos. Uma mulher grande, ainda sem o ar tranquilo da velhice, uma espuma rósea escorrendo dos cantos da boca a desacreditar a mansidão do repouso.
Debruçando-se, o delegado de saúde iniciou a observação pelo toque da face inchada do cadáver (aquele frio invulgar era característico de um fenómeno tão semelhante à petrificação como o é a morte), apercebendo pelo chiar ritmado das botas a aproximação do comandante da GNR.
“Procedemos a buscas e não encontrámos nada que pareça suspeito; nem aqui dentro, nem no quintal.”
Ao saírem comunicaram ao viúvo, à indiferença lenta dos espectadores, que o assunto iria ser levado ao conhecimento do senhor Delegado do Procurador da República. Era nas mãos dele que estava a determinação do dia e da hora do funeral.
“O senhor doutor que acha?, perguntou o comandante da GNR.”
O médico subiu o vidro da janela e falou por sobre o barulho do jipe:
“O que lhe posso dizer é que não foi a pancada que a matou. Não há nenhuns sinais disso, os indícios são outros.”

O tribunal marcou a autópsia para as 11 horas da manhã, da manhã seguinte.
Por absoluta falta de condições em Canedo e por ausência de instalações adequadas no centro de saúde, o cadáver foi depositado na capela de Santo Aleixo, um meio caminho, um compromisso, entre o local da morte e a sede do concelho. Contrariado, o pároco cedera as instalações da capela, mas não comparecera e mandara retirar todos os objectos sagrados e consagrantes. Era uma morte ainda não clarificada e seria pouco sensato participar nela desde já.
O delegado de saúde teve que aguardar que os homens do tribunal do concelho vizinho (o concelho não possuía comarca própria) chegassem com os ferros, os frascos de mercearia adaptados a contentores de vísceras, e os observadores oficiais. Entretanto, fora pedindo a vizinhas pressurosas e ardentes em reportarem as alterações de forma, cor e volume do cadáver, bacias com água, sabão, duas ou três toalhas. Esperava, batendo os pés no chão de granito para afugentar o frio e o silêncio.
Às duas da tarde sentiu fome e o alívio de ter, finalmente, abandonado os maus humores da morte, chocantes na sua semelhança com os odores que diariamente estimulam as narinas e a salivação dos carnívoros humanos.
Oficiosamente, o mistério estava desvendado. Ao rasgar-se o estômago do cadáver, evolara-se deste um intenso hálito de benzina e uma quantidade brutal de um invasor líquido, branco como o leite, ondulava no seu interior.
O comandante da GNR mostrava-se satisfeito, uma preocupação estava em vias de extinção.
“Remédio do escaravelho, hem?! E que quantidade, senhor doutor! E onde terá o raio da mulher escondido o frasco?! É formidável, olhe que não demos com ele!”
O médico evidenciava também uma felicidade loquaz:
“Porque terá ela feito aquilo? Terá querido incriminar o marido?”
“Não tenho dúvida. Deve ter pensado: olhas mais para o que diz a tua mãe do que para o que eu digo e qualquer dia hei-de tramar-te. (Uma vizinha ouviu-a dizer uma vez: ‘qualquer dia arrependes-te’ – ela, para o marido). Domingo era um bom dia: ele tinha-lhe zupado na véspera, ela deixa-o sair para a taberna e zás, toma o veneno. Ele volta, encontra-a já cadáver, e o povo desata a mirambolar que foi a pancada que a vitimou...” 
E o comandante da GNR apertava o volante na segurança de que o iluminara a descoberta da sua análise dos factos. Continuou:
“As coisas mudam, senhor doutor. Antigamente enforcavam-se, agora, remédio do escaravelho. A região é de muita batata, chegaram os pesticidas: dá muito menos canseira e é remédio santo, morte assegurada.”
Nesta conversa tinham chegado à vila. O comandante estacionou o jipe à porta do posto, desligou a ignição e virou-se para o delegado de saúde:
“O senhor doutor não quer vir daí comer qualquer coisita lá a casa? São mais que horas de almoço...”


(escrito em 2010 sobre factos ocorridos em 1981/1983)



Primeira fotografia: © Pedro Serrano, 2009. Fotografia acima: © Per Hjortdahl, Ribeira de Pena, 2008.

08 maio 2010

SALVE RAINHA

Corria o ano de mil novecentos e oitenta e dois. O mês era o de Setembro e o sol rodava tangente ao mar num poente rápido e avermelhado que emprestava às coisas uma nitidez suplementar. Em breve seria noite.
No cemitério Prados do Eterno Repouso dois jazigos sofriam, mais que os restantes, o revérbero do sol declinante: o Jazigo Perpétuo da Família Ramos Lopes e o Jazigo do Comendador Grenha dos Santos, derradeiras moradas separadas pelos escassos três metros que permitiam a visão de uma alameda inútil, apenas conduzindo ao muro oeste do cemitério.
As cruzes funéreas que encimavam estes dois jazigos, porventura consequência das particularidades refractivas do mármore de Viana do Alentejo e do Lioz-encarnado, brilhavam com uma intensidade não desajustada a uma lâmpada de halogénio de média voltagem.
Prolongando o olhar na direcção Poente e mantendo o enquadramento criado pelo espaço que medeia entre os braços verticais das duas cruzes, deparavam-se os quatro andares do edifício principal do Instituto Nacional de Estudos Tropicais.
No quarto andar havia ainda duas janelas iluminadas, momento a momento mais recortadas no céu pela noite, que alguém familiarizado com as dependências da instituição identificaria como sendo as do gabinete do Director. E se esse hipotético personagem, que tão bem sabia apontar as dependências do instituto, conhecesse também os hábitos de trabalho do Director, poderia predizer, sem grande margem de erro, que o Professor Avocat se encontrava ainda sentado à sua secretária.






O Professor Edgar Avocat era um homem encaixilhável nos exageros de uma caricatura. O caricaturista poderia até, se não quisesse ter muita maçada com a obtenção de uma fotografia do próprio, utilizar como modelo a imagem de um mosquito, tal era a semelhança do Professor Avocat com este insecto.
Quando bateram à porta, o Professor estremeceu. Estava precisamente naquele ponto do devaneio em que a realidade envolvente é um cenário inexistente. Fora há tantos anos já..., mas, diabo, que melancólica ternura ainda lhe despertava ocupar-se com aquilo... Dançando com Sofia nas matinés do Casino, enlaçando-lhe a ténue cintura e sussurrando-lhe ao ouvido as palavras da música que a orquestra tocava e que ouvia como se fosse ontem, hoje: Nuestras almas se acercaron tanto asi, que yo guardo tu sabor, pero tu llevas tambien, sabor a mi... Os passeios pela praia, os beijos nas dunas, os dois embriagados por um benevolente nevoeiro que trazia do mar ecos de traineiras...
O seu entre despertou na mente do sr. Marinho, chefe dos serviços administrativos, uma ilação errada: "está mal disposto", pensou. Mas, de facto, o Professor Avocat estava incomodado por ter sido apanhado em adultério para com o seu dever de alto funcionário e a entoação da sua exclamação tinha a ver com a culpa e não com uma agressividade dirigida.
O sr. Marinho entrou, como de habitual, com um:
“O Senhor Professor perdoe o incómodo, mas trata-se de uma matéria que requer a sua opinião.”

Não faz mal Marinho. Sente-se, por favor, soprou do canto o Professor, procurando acomodar-se aos vincos do fato cinzento. O sr. Marinho sorriu:
“Prefiro falar com o Senhor Professor a esta hora. Já não está ninguém no andar e, para além de não corrermos o risco de sermos constantemente interrompidos, não se põe o inconveniente de nos poderem ouvir...”
E transmutou o sorriso para uma expressão de cumplicidade implícita, que lhe encheu de parêntesis os cantos da boca.
Diga, Marinho, retorquiu o Professor Avocat, que tendia o oscilar novamente para os braços de Sofia.
“É por causa da Teles...”
O Professor franziu o nariz interrogativamente.
“A Teles, a da limpeza do segundo-andar. Aquela que dá de mamar aos mosquitos...”
O Professor Avocat pareceu ignorar o gracejo e continuou a fitá-lo por trás do vidro dos óculos.
“Faz setenta anos em Dezembro. Apareceu-me a choramingar a dizer que não quer ser reformada, que o Instituto é a sua vida. Calcule o senhor que até me chegou a dizer que não se importava de receber a reforma e continuar a vir cá graciosamente, sem perceber nenhum salário!”
O Professor espantou-se: !?
“É verdade...”, o sr. Marinho oscilava a cabeça como um boneco articulado sobre um tapete de peluche no vidro traseiro de um automóvel.
Tentou arrancar dos despojos de Sofia uma lembrança qualquer da Teles. Pois, era a velhota que alimentava os Aedes..., e depois? Onde confirmar na memória um motivo antigo para tanta dedicação? O Professor desistiu: 
E você, que acha?
“Bem... Penso que não haveria inconveniente para o Instituto, talvez pelo contrário. Ela receberia a reforma e nós, por nosso lado, poderíamos afectar uma pequena verba, um suplemento mensal pelos mosquitos. A verdade é que no Instituto não há ninguém como ela para alimentar os bichos. O Senhor Professor lembra-se quando a Florentina a substituiu, nas férias dela? Os mosquitos iam morrendo todos. Dão-se bem com o sangue dela!”
Disso, o Professor Avocat já se lembrava. Até achara graça ao episódio. Que curioso! Porque seria? Chegara a pensar mandar estudar o sangue da mulher. Assentiu: 
Bem, Marinho, na generalidade concordo com a proposta. Trate você do que for preciso.
O sr. Marinho levantou-se visivelmente satisfeito, menos pela felicidade da Teles do que por se sentir irmanado na generosidade do Director.
“Gratos ao Senhor Professor. A mulherzinha vai ficar radiante.”
Tentou voltar a Sofia, mas sem êxito. Os mosquitos empestavam tudo. Suspirou ao vestir o sobretudo: O melhor era ir para casa comer a ceia da Julieta: 
Quarta-feira, céus – bacalhau espiritual!


2

A senhora Teles fora uma mulher alta, percebia-se isso na convexidade exagerada das costas, mas por força da idade ou por uma necessidade crónica de subserviência fora minguando.
Aparecera no instituto, que então ainda não se libertara administrativamente da Escola de Higiene e Saúde Pública, no final dos anos 50. Necessitava desesperadamente de um emprego e insistiu tanto com o jovem sr. Marinho, administrativo encarregado da admissão do pessoal menor e pessoa pouco dada a dizer não, mas um tanto avessa às responsabilidades de um sim, que este acabou por levar o problema à peritagem do Professor Aloysio Lebre, o então director da instituição.
E revelara-se uma boa aquisição. A sr.ª Teles mostrara-se, desde o primeiro dia, uma óptima funcionária. Não só trazia o segundo-andar impecavelmente limpo, como se debruçou, sempre com respeito e sabendo guardar distâncias, pelos problemas quotidianos do andar.
Foi ela que se ofereceu para passar a alimentar os mosquitos, tarefa até então relutantemente desempenhada por um técnico superior de laboratório.
O director do Departamento de Vectores e Hospedeiros, dr. Emídio Napoleoni, ficou prazenteiramente surpreendido com a mudança, pois a colónia de Aedes aegypti pareceu duplicar no aquário de tela e as baixas semanais diminuíram substancialmente. Mas nem toda a gente tinha a mesma opinião. As colegas da limpeza resmungavam que ela se dava ares, não lhes agradava verem-lhe confiados desempenhos que a elas estavam vedados, mesmo que essas funções tivessem sido sistematicamente recusadas pelas próprias, como acontecera com a alimentação dos mosquitos. Às preparadoras não caía bem a postura respeitosa, mas distante, da sr.ª Teles e, sobretudo, detestavam o modo silencioso do seu trabalho, sem nunca tomar parte na má-língua inter e intra andares, e dos seus gestos ao aproximar-se, sem ser notada, das bancadas para pousar uma placa de Petri ou um suporte com tubos de ensaio.
A única coisa que parecia abalar a impenetrabilidade de mordomo da sr.ª Teles era o ritual de cuidar dos mosquitos. Nessas ocasiões transfigurava-se: os olhos doentes enchiam-se de ruguinhas e as mãos, magras e com unhas que ela mantinha longas e aparadas em bico, tremiam-lhe no prazer da concentração.
Uma manhã de Inverno, o termóstato da tina dos Aedes avariou-se e os mosquitos começaram a dar sinais de agitação e, em seguida, de torpor. A sr.ª Teles ficou transtornada, correu a chamar o electricista do Instituto e enquanto este apertava e desapertava parafusos, conservou-se nervosamente cirandando em torno da bancada. Logo que o termóstato ficou pronto, a sr.ª Teles, perante o espanto de quem se encontrava no biotério, meteu o braço na tina (apesar de não ser dia de os alimentar) e enquanto os mosquitos, sôfregos de frio, enfiavam a diminuta tromba na sua pele, ciciava diminuitivos carinhosos.
Dela dissera um dia o dr. Napoleoni:
“Há gente tão só na vida que até a mosquitos se afeiçoa.”
Este desabafo ouviu-se uma tarde na cantina, à hora do café, quando meia dúzia de funcionários, sem tema para conversa, se entretinham circularmente a explorar a excentricidade da "rainha dos mosquitos". Mas ninguém se quis pôr a reflectir sobre a solidão e o único efeito que o dr. Napoleoni conseguiu foi um reforço na convicção, mais ou menos generalizada, de que aquele sul-americano que viera ao abrigo de um acordo no campo da investigação e ficara pelo amor de uma latina europeia, era esquisito na sua sensibilidade tropical.  

3

O cinema Átila era um edifício com o toque arquitectónico patognomónico dos anos 30.
De dez em dez anos, quando a pintura se descascava outonalmente sobre os passeios e as árvores raquíticas da avenida, a gerência mandava que o pintassem com cores que alternavam entre o avermelhado de conserva de tomate e o cinzento-militarizado.
Acima das gigantescas letras rubras de néon, que desde o cair da tarde piscavam intermitentemente C-I-N-E-M-A ÁTILA, CINEMA Á-T-I-L-A, especava-se, ao nível dos telhados dos dois prédios que timidamente escoravam o cinema, uma pestana em betão de seis metros de altura, murete que o arquitecto resolvera ondulado e ornado com uma lira e umas folhas de louro. Um pouco recuada na fachada do edifício, a imperial pestana espetava-se no alto do cinema como uma travessa no penteado de uma espanhola.
Pouca gente saberia, talvez ninguém para além da gerência e das pombas municipais, que no telhado-terraço do cinema Átila existia, a coberto do pente-travessa ondulado, um pequeno apartamento com duas divisões. O apartamento fora originalmente concebido para habitação do vigilante da casa de espectáculos, mas o coração asmático do sr. Bela, funcionário daquela casa de espectáculos desde o seu começo, forçara-o a abandoná-lo, pois cinco andares sem elevador e uma filha divorciada com três rebentos era na realidade de mais para tal ninho de águias.
Na reunião do dia 6 de Janeiro de 1960, a gerência do cinema Átila lavrou em acta a decisão que o apartamento seria doravante arrendado a particular que reunisse a dupla condição de ser pessoa de respeitabilidade comprovada e só na vida, uma vez que não agradava à gerência a perspectiva de ter inquilinos barulhentos no terraço e, ainda menos, a ideia de escutar relatórios sobre crianças correndo pela escadaria abaixo ou sobre vagidos insinuantes na sala de projecção.
Uns três meses depois desta reunião, as duas divisões do terraço do cinema Átila foram alugadas a uma dama de meia-idade que trazia uma carta de recomendação assinada pelo serviço de pessoal do Instituto Nacional de Estudos Tropicais.







              S
Domingo, sete horas da tarde, já não há sol.
A noite, acolitada por bandos de nuvens sujas, instala-se, preenchendo de silêncio frio todas as frestas da cidade.
Virgínia Teles acabou de acordar de um sono sem sonhos, pesado, mas quase uma vigília.
Por entre o muro de cimento (do outro lado é ondulado e cinzento) e o telhado do prédio vizinho, vê um pedaço do asfalto da avenida e as árvores mirradas soluçando ao vento, o todo temperado pelo vermelho espantadiço do letreiro luminoso do cinema Átila.
Sob os pés adivinha ruídos abafados. A segunda sessão da tarde acabou, andam a limpar a sala. Tem visto passar tanta gente para o cinema... Todos os dias passa uma multidão por aquela sala. Como gostam do escuro e de que ele seja iluminado por frémitos... Dantes não havia cinema, as pessoas não se entretinham assim. Havia jogos, imensos jogos; era velha e tinha visto muitos jogadores... De cada gesto eles faziam um jogo, viciavam-se naquilo desde a tenra idade e assim esgotavam a vida, reproduzindo os esgares deformados apercebidos nos espelhos dos olhos dos outros... Detestava espelhos, era um mal de família. Sorriu... Tempos se tinham feito em poeira, mas tempos houvera em que duas raças dividiam a terra: os senhores e os usados. E os senhores acabaram por definhar, tal o sangue enfraquecera com o débil exemplo dos usados...
Por instantes fez-se silêncio na avenida. O nevoeiro escalava do rio as estátuas da cidade baixa.
A sr.ª Teles sentou-se na cadeira de balouço, espólio quase único de melhores épocas,  semicerrou os olhos. Suportava mal a luz, uma fotofobia hereditária fazia-a andar constantemente com os olhos vermelhos e lacrimejantes.
Agora era obrigada a pensar no futuro... Não confiava muito na longevidade do "suplemento mensal" pela alimentação dos Aedes aegypti. O sr. Marinho ficara tão espantado por ela querer continuar a ir ao Instituto depois de reformada. E dissera que o Professor Avocat também se mostrara surpreendido... Não, não podia esperar muito do suplemento, um dia iam-lhe dizer que já não precisavam dos seus serviços. A necessidade forçava-a a decidir-se. O que seria se esta fosse a última oportunidade?
Enfraquecia a olhos vistos, tornava-se dia a dia, sentia-o, mais transparente aos olhos vistos. Virgínia Teles sorriu de olhos e lábios no balouço silencioso da cadeira. A decisão pusera-lhe um fogacho quente a rodopiar no sangue. A "rainha dos mosquitos" iria, finalmente, possuir um mosquito à dimensão dos seus desejos.

4

Que extraordinário! 
O Professor Edgar Avocat regressou perplexo ao gabinete.
Estivera no Laboratório 3 até às seis e meia da tarde e ao passar pela porta do biotério, esfregando os olhos numa fé de que conseguiria afugentar as centelhas luminosas causadas por duas horas ininterruptas ao microscópio, acontecera-lhe olhar lá para dentro, pois a porta achava-se desusadamente aberta àquela hora.
Espantoso! Ela estava especada ao lado da tina dos Aedes, o braço esquerdo completamente estendido, hirto no ar, e olhava, com um olhar que lhe pareceu enternecido, para a chusma de mosquitos que lhe enegreciam o antebraço.
Irresistivelmente e porque a sua posição de responsável máximo daquela instituição lho permitia, entrou na sala para observar o fenómeno de mais perto. Obviamente ela dera pela sua entrada um tanto destemperada e virara-se lentamente, não parecendo, no entanto, preocupada ou, até, surpreendida.
Como é que consegue?, disparara-lhe, esquecendo de súbito a faceta de responsável máximo, como é que não fogem?
Pequeninas rugas vincaram os olhos dela, avermelhados por uma conjuntivite crónica, e um esgar dos lábios revelou uma fiada de dentes estragados e amarelados, onde apenas os caninos pareciam saudáveis. 
Serão postiços?, interrogou-se o Professor, ao mesmo tempo que ela respondia:
“Conhecem-me..., sabem que se os alimento cá fora é porque podem confiar em mim. Desse modo posso também confiar neles.”
O Professor estudou com admiração os mosquitos, tranquilos e imóveis no seu rito bissemanal de alimentação. Nenhum deles parecia ocultar a intenção de se pôr, de um momento para o outro, a voar pelo biotério.
Em silêncio, a sr.ª Teles baixou o braço lentamente e começou a introduzi-lo, com todo o cuidado, na manga de gaze que existia numa das paredes laterais da tina. Quando o seu punho fechado atingiu a parede oposta à abertura, enrolou com a mão livre a manga de gaze em volta do ombro:
“Vá, meus queridos, chega de sangue por hoje.”
Os mosquitos, como se obedecessem a uma ordem, largaram o braço e espalharam-se pela tina, colocando nódoas escuras no branco da gaze.
O encantamento quebrou-se e o Professor Edgar Avocat sentiu-se, de repente, pouco à vontade: 
Suponho que tem feito as análises de controlo com regularidade?
"Certamente", volveu ela levantando a atenção da tarefa de massajar o braço esquerdo, "está tudo normal".
Só se lembrou de recomendar cuidado com eles, olhe que qualquer dia fogem-lhe, já a porta do biotério se tinha fechado sobre a sua mão.
Que extraordinário!, repetiu o Professor antes de se deixar cair na poltrona e se entregar ao monólogo vespertino com Sofia.
Sofia amolecia-o sempre um pouco e por vezes, sobretudo no Inverno - como agora - quando as noites caíam abruptamente no meio da tarde, chegava a passar pelas brasas nessa indolência suave em que a realidade se esfumava e lhe era permitido passear fisicamente pelas paisagens queridas de outrora. Quando despertava desse transe, a memória vinha tão enriquecida em detalhes que podia viver feliz mais vinte e quatro horas dessas reservas, mesmo que com Julieta rezingando ao lado.
Sofia corria à sua frente, vestida de branco-leve, em direcção ao mar. Sorrindo, ele seguia-a num passo mais comedido, saboreando aqueles instantes. Ao chegar à areia molhada, a maré cheia começava a encolher, parara, voltara-se e chamou-o.
Edgar Avocat, o futuro investigador, estugou o passo pela duna abaixo.
O sol desaparecera além-mar. O céu impregnava-se de vermelho e as águas serenavam ao crepúsculo, chapeadas a ouro. Estava já próximo de Sofia, as tonalidades confundidas de céu e água tornavam-na quase etérea e enquadravam-na como se ela surgisse do vão de uma porta que de repente se entornasse em luz sobre um observador até aí no mais profundo breu.
Parou, inseguro, como se tivesse ido longe demais.
A luz materializava-se em finas partículas douradas que pareciam rodopiar na sua direcção, mas o cenário que o rodeava voltara a ser o do gabinete no quarto-andar do Instituto Nacional de Estudos Tropicais. A luz do tecto reflectia-se no vidro das janelas, transformadas em espelho pela noite e a face nos vidros correspondia à de um director de 63 anos de idade e não a um futuro investigador de 25 que se passeia pelas dunas.
A porta do gabinete estava entreaberta, porém fechara-a ao entrar!, e as partículas luminosas penetravam por aí. Progrediam rente ao chão no sentido da secretária e as mais próximas de si pareciam buscar uma agregação. Pensou em levantar-se, mas uma languidez desumana amortecia-o na poltrona. Deixou-se estar, os olhos semicerrados e um cavalo a galope no coração, fitando o contorno, momento a momento mais humano, que se ia erguendo na sua frente.
Sofia, poderia ser Sofia? Mas não tinha lógica, não deveria... 
Sofia, princesa...
Pouco tempo mais permaneceu como espectador e a última sensação de que teve consciência foi a de um bem-estar, ao mesmo tempo grato e amargo, que se lhe derramava vertiginosamente na corrente sanguínea.

5

A morte súbita do Professor Edgar Avocat abalou a rotina do Instituto, particularmente pelo facto de ter ocorrido no gabinete da Direcção, uma noite, a horas difíceis de precisar.
O Professor fora encontrado na manhã seguinte, esparramado sobre a secretária, por um funcionário do quarto-andar que estranhara as luzes acesas (ainda não havia uma semana que o Director, inspirado nas recomendações do Governo, gerara um despacho interno sobre a necessidade de se poupar energia) e a porta entreaberta.
O Professor Vice Roque, seguramente o mais prendado candidato a director, andou toda a manhã numa azáfama, parecendo confuso com tudo o que lhe estava a suceder. Examinara o cadáver com cuidado na busca de uma explicação para tão perturbante evento, mas não encontrara nada de anormal. Um cadáver perfeitamente incaracterístico, cujo único pormenor verdadeiramente saliente eram duas picadelas na parte antero-lateral do pescoço, plausivelmente produzidas por uma lâmina de barbear nova e irritadas por uma qualquer loção after-shave.
A causa da morte fora-lhe praticamente sugerida pelo tubo de pastilhas brancas para uso sublingual que descobrira no bolso direito do casaco do Professor Avocat: enfarte do miocárdio.
Em Março de 1984, no primeiro aniversário sobre o fatal acontecimento, a nova Direcção do Instituto promoveu uma sessão de homenagem, integrada no Dia Anual do Instituto, à figura e à memória do Professor Edgar Avocat, insigne investigador e zeloso administrador.
Presentes, o Secretário de Estado da Cooperação e dos Assuntos Tropicais, representando o Governo no luto e na homenagem, e os Directores-Gerais dos diversos Departamentos do Ministério da Saúde e da Ciência com que o Instituto habitualmente colaborava.
No cadeirão central da mesa de honra, Julieta Avocat ouvia distraidamente a comunicação do Professor Vice Roque, lamentando o tempo que ainda a separava da entrega da Medalha Por Serviços Distintos, cerimónia que se ia desenrolar entre o Secretário de Estado e a sua pessoa, na qualidade de herdeira universal de Edgar.
Forçou uma máscara de atenção na direcção dos papéis que o Professor Vice Roque agitava comovidamente e os seus olhos interiores focaram-se na recordação das primeiras horas da manhã, vividas no cemitério. Não teria podido deixar escoar aquele dia sem visitar Edgar de um modo especial. Por um lado, o primeiro aniversário da sua morte, por outro o reconhecimento público de que a memória de Edgar Avocat continuava bem viva.
Levantara-se cedo, ainda anoitecia, e passara pela florista antes de se dirigir ao cemitério onde chegou, com Inocência, às oito da manhã. Até às onze, hora a que se iniciava a homenagem, teriam tempo para tratarem do jazigo. Inocência levara artigos de limpeza e apetrechos de jardinagem para que fosse possível transformar a morada de Edgar, e um dia a sua, num tabernáculo festivo.
Na véspera, à noite, combinara com a velha criada as etapas do trabalho: primeiro limpariam a fundo o jazigo, incluindo-se nesta operação uma lavagem enérgica do chão; depois substituiriam as cortinas da porta e o debrum que orlava o bordo da prateleira de granito onde repousava o esquife. Finalmente, mudariam a areia e a água das jarras e colocariam as flores.
Enquanto Inocência se ocupava com os vidros, partira a mudar a água às jarras e a preparar as flores. A uns cinquenta metros do jazigo, quase no canto do cemitério e num terreno ocupado unicamente por campas, existia uma torneira com uma pequena pia de pedra por baixo, ao lado de um recipiente para lixo.
Lavou as duas jarras meticulosamente e, depois de as encher com água, colocou-as sobre a laje de uma campa vizinha para que não vertessem, pois o terreno era de saibro e um nada irregular. Sentou-se junto da torneira no banquinho desdobrável que trouxera e iniciou a decapitação das folhas secas, podando, em seguida, os pés das flores para que se adaptassem à altura das jarras. Quando Inocência chegou, estava a terminar o preparo das flores. Os caules das plantas, sobretudo os dos jarros, tinham-lhe manchado as mãos e, receando aparecer na homenagem com a pele dos dedos esverdeada, achou melhor pedir a Inocência que transportasse as flores. Ela trataria das jarras.
Inocência afastou-se, florida e entalando entre o braço e a cintura avantajada o banquinho dobrado, enquanto ela se deixara ficar a tentar, mais uma vez, tirar de si aquela viscosidade esverdinhada. À terceira tentativa e graças ao auxílio rude das arestas da pia de pedra, a incómoda tonalidade desvaneceu-se e Julieta aproximou-se da campa a fim de recuperar as jarras. Ao inclinar-se sobre a laje, um hábito antigo, nascido na necessidade de se distrair durante as monótonas e arrastadas praxes dos funerais, puxou-lhe o olhar para a lápide da campa:

VIRGÍNIA  TELES
1828-1899

Julieta Avocat suspirou ao pegar nas jarras. Era um tanto triste, mas era mesmo assim, a Humanidade estava destinada a perecer e ninguém escapava a essa sorte. Hoje uns, amanhã os outros; os ricos e os menos ricos. A morte a todos nivelava e até aquela pobre, que não merecera sequer uma derradeira inscrição do afecto de algum familiar, era irmã, nos desígnios insondáveis do Senhor, de Edgar.
Mergulhada nesta constatação balsâmica, Julieta Avocat consultou o relógio e afastou-se na direcção do jazigo.  

(1983/2010)

Fotografias de © Pedro Serrano: Porto, 2007 (primeira fotografia); Lisboa, 2010 (segunda fotografia); Lourinhã, 2009 (terceira fotografia), Mértola, 2008 (quarta fotografia).