16 abril 2010

PERGUNTE AO SEU MÉDICO

© Fotografia de Ricardo Ventura, Tokyo 2005.


“Como somos ingénuos a princípio...”, reflectia nessa manhã enquanto dava voltas e mais voltas nos parques do Hospital, em busca de um espaço para estacionar. Mas depois, à medida que saltaricamos de serviço em serviço, de meio auxiliar de diagnóstico em meio auxiliar de diagnóstico, de médico em médico, e nos vão descobrindo problemas novos, novas necessidades de tratamento, efeitos secundários dos tratamentos que é forçoso remediar, vamos naturalmente apercebendo que não nos livraremos mais daquilo, com sorte talvez nos permitam um ou dois meses sem lá irmos.
“Eu nunca me queixo de tudo o que sinto”, aconselhara-me um dia um velhote na sala de espera da Medicina Física e de Reabilitação, “de outro modo nunca mais nos largam...”
À época, isto passou-se por altura da minha segunda doença, sorrira interiormente da rusticidade da interpretação do homenzinho – como se os médicos tivessem algum gosto ou interesse pessoal em nos ver por lá constantemente!   
Eu já me habituara, constatava, palpando a disposição com que acabara por encarar tudo aquilo; satisfeito por ter, ao fim de meia hora, descoberto um sítio onde enfiar o carro, esquinado em cima de um passeio, perto da rampa de acesso à Urgência. O local não era seguro, estava ainda dentro da área, marcada a amarelo, de estacionamento proibido e passível de reboque, mas, do mal o menos, o próprio hospital tinha o seu serviço de rebocagem privado, o depósito dos automóveis apreendidos funcionava dentro da cerca da instituição e eu já ia conhecendo aquele pessoal todo, o que tornava a tarefa de recuperar o carro não muito difícil. Para além do mais, por ser doente crónico com uma incapacidade permanente superior a 70 % e, no futuro, dador do corpo à Ciência, pagava apenas uma taxa moderadora por cada apreensão.


Não era assim tão mau, pensava, enquanto revirava a cadeira de rodas para a tentar desencalacrar da mala do automóvel, onde o aro de uma das rodas tinha sempre tendência a ficar empancado. “Raios partam a cadeira de rodas”, concluía todas as manhãs, convencido que um dia tinha de me decidir a comprar um daqueles modelos modernos, completamente desdobráveis e automáticos, que se armam sozinhos como os batéis de emergência mal tocam a água do mar durante um naufrágio.
Tirei o pijama do saco de plástico do SNS que tinha pousado no banco de trás e, resguardado pela porta aberta, comecei a despir-me. Claro que já podia ter vindo de casa com ele vestido, mas, para ser sincero, inibia-me um pouco atravessar a cidade de pijama ao volante do automóvel. Não seria caso isolado, mas havia sempre alguém que se punha a mirar, num semáforo, numa bicha, de um lugar mais alto num autocarro de dois andares... Assim, preferia vesti-lo apenas no recinto do hospital, pois aí ninguém reparava.
O dia amanhecera quente e eu escolhera um pijama de fibra ultraleve, de tom azul claro, quase da cor do firmamento. Enfiei as chinelas, dobrei a roupa com todo o cuidado, guardei-a na mala do carro, verifiquei, mais uma vez, se tinha em ordem todos os passes informáticos para acesso aos Serviços e, sentando-me na cadeira de rodas, dirigi-me à ala das Consultas Externas.
Tinha consulta marcada em Otorrinolaringologia e, esperava, o processo talvez não fosse demasiado longo, embora fosse difícil afirmá-lo com total segurança, hoje não contava ficar internado e talvez conseguisse estar de volta a casa antes da noite.
“Depois avisa se vens jantar”, dissera a Penélope metendo a cabeça pela janela do carro, acrescentando, como era seu costume: “Tens a certeza que não te esquece nenhum dos cartões informáticos?”
“Não são cartões”, dizia-lhe, metendo a marcha-atrás, “vê se aprendes a chamar as coisas pelas suas designações correctas – são passes para Acesso Programado ao Sistema de Ganhos em Saúde...”  
Havia um magote de gente à espera de vez para o elevador que conduz à consulta externa e, concluí logo, não ia, apesar de estar em cadeira de rodas, conseguir vez nas três primeiras viagens: havia duas macas, muito pessoal hospitalar, dois tipos com as fardas negras da Agência de Acompanhamento dos Serviços de Saúde (os temíveis AASS) e vários doentes com o código de barras Gravidade IV aguardando. Não era um tipo com um ar de doente externo como eu que conseguiria prioridade.
Acabei por ter sorte, pois surgiu o enfermeiro Marley, um Angolano, que reconhecendo-me de uma estadia anterior no Serviço de Anatomia Patológica, simulou o truque de ir empunhando as pegas da minha cadeira de rodas enquanto, como não quer a coisa, me ia empurrando em direcção às portas escancaradas e cromadas do ascensor, ultrapassando mesmo um tipo acamado que teve de ficar para a próxima!
“Você não tem medo dos AASS?”, cochichei, fascinado pela descontracção.
“Não”, sussurrou-me, “eles não dão conta de nada, man – estão sempre noutra onda...” 
No 19.º andar, depois do reconhecimento da impressão digital e de tirar senha no distribuidor automático, arranjei um lugar na sala de espera, lateralmente à quinta fila em frente à televisão. Infelizmente ali só tinham televisão de circuito interno e passavam, em directo, uma cirurgia da válvula tricúspida, operação que, pese embora o doente ser sempre diferente, já estava saturado de ver, pois as intervenções cardiotorácicas são como as igrejas: quem viu uma, viu-as todas!
Quando me chamaram, atravessei a porta de vidro que dá acesso aos gabinetes médicos, mas não cheguei a entrar em nenhum, pois apareceu no          
                                                                                 ©Fotografia de Pedro Serrano, Tokyo 2005.

corredor um tipo novo de lanterna na mão que me mandou abrir a boca.
Abri-a sem dificuldade, enquanto ele iluminava longamente o lado direito da minha garganta. Continuei, firme, de boca aberta durante uns minutos e embora me começassem a doer os maxilares não me queixei, pois já sei qual é, em geral, o temperamento dos médicos – gostam sempre de nos levar a melhor.
“Deste lado não vejo nada”, disse ele com ar enfastiado e desconfiado, “ora vamos lá observar o pilar esquerdo da amígdala...”
Voltei a escancarar a garganta, sujeitando-me à lanterna que ele aproximava perigosamente dos meus dentes. E, rapidamente, senti que, desse lado, fraquejava. Conseguia manter a boca aberta, mas o maxilar começou a tremer espasmodicamente com o esforço e em breve todo o meu pescoço abanava, num esforço que o médico identificou com facilidade.  
“Eu sabia”, declarou, “vocês encaram isto de ânimo leve, mas não é assim! Você tem uma faringite esfarelácea – provavelmente de etiologia terebintínica – evidente! Vamos confirmar…?”
E chamou um enfermeiro, a quem ordenou que me injectasse na veia um determinado produto alaranjado que ardia que se fartava.
“Era de esperar, estou até admirado que você não tenha desenvolvido isto mais cedo”, dizia ele folheando o meu processo clínico, “é sempre de contar com uma faringite após um tratamento prolongado com terebintina, ainda para mais aditivada!”
E o certo é que o gajo, como sempre acontece com os médicos enfiados em batas, tinha razão. Menos de dois minutos depois da picadela começou a formar-se-me na garganta, sobretudo no lado esquerdo, uma substância que, em catadupa, me encheu a boca e me ia engasgando e impedindo de falar.
“Está a ver...”, constatava o médico, zangado, como se eu lhe tivesse tentado ocultar algo, vou ter de chamar os cientistas... Era evidente, um caso como o seu!
“Se o Dr. acha...”, respondi cordato e afogueado, depois de introduzir dois dedos pela garganta abaixo para extrair da boca uma grande quantidade de uma substância amarelada semelhante a serrim, pó que guardei às escondidas nos bolsos do casaco do pijama.
O médico virou as costas e desapareceu, deixando-me, aflito, ao lado de um cinzeiro daqueles que ornamentam os cantos de todos os hospitais, sacando da boca sucessivas levas daquela serradura que não cessava de brotar das amígdalas.
Sem que me apercebesse, um auxiliar foi empurrando a minha cadeira de rodas para um enorme gabinete de luzes amortecidas, por onde, numa parede envidraçada, se percebia lá em baixo o movimento formigante da cidade.
Um médico de capa azul pelos ombros entrou na sala e sem dizer palavra apontou-me aos olhos aquilo que, à primeira vista, me pareceu um gravador, um daqueles pequenos gravadores que são activados pela voz, mas que, afinal, se revelou um potente foco de luz crua. 
Durante o processo, um segundo médico juntou-se ao primeiro. Este trajava um casaco verde-alface de mangas curtas e calças da mesma cor, atadas na cinta com um atilho branco. Do bolso do casaco penduravam-se-lhe várias canetas de leitura óptica, duas pen-drive e um conjunto de chaves de fendas. 
“Estás a ver?” disse o primeiro médico, esticando ainda mais a lanterna sobre as minhas pupilas.
“Humm...”, respondeu o segundo médico sacando de uma lanterna convencional que me apontou também à cara.
“Eles não se querem convencer”, disse uma nova voz, “julgam que tudo isto se passa sem consequências...”
Pelo intervalo entre os dois focos de luz consegui aperceber um terceiro médico, este também trajando uma capa azul, mas de melhor tecido e de corte mais requintado; um cabelo castanho brilhante e muito liso do qual uma melena lhe tombava sobre a testa, melena que empurrava para trás num gesto acariciador e afectado.
“Vocês não se querem mentalizar”, disse-me – reparando que eu o fitava atentamente – “não deixam de achar que de cada vez que cá entram foi a última... Mas eu conheço bem o teu caso...”, quase sussurrou numa voz que duplicava todos os erres, “fibrolinfancoma – tratado com terebintina aditivada –, seguido de obstrução e desabamento da cava profunda – tratada com croscarmelose sódica – que é que esperavas? É sempre de esperar algum crestamento, quanto mais não seja!”  
Recuei rapidamente para a atitude de extrema humildade, o último refúgio de qualquer doente perante uma investida médica, sobretudo de um cientista trajando uma capa com todo o ar de ser um modelo exclusivo Giovanni Brasa.
“E será muito grave, Sr. Professor?”, balbuciei.
“A faringite é um efeito secundário dos tratamentos anteriores, assim como do tratamento desta haverá, obviamente, a esperar algumas outras sequelas. Afinal é para isso que cá vens... Conheço bem o teu caso, foi mais que falado por esse hospital fora... É que nós encontramo-nos por aí, sabes?, nós, os médicos. E o teu caso... A dificuldade que a Neurocirurgia teve em perfurar a calote craniana, todas aquelas morosidades técnicas, o bloco operatório bloqueado uma manhã inteira..., ouviu-se dizer que deram cabo do denteado da serra Stryker... Uma Stryker!”
“Mas o meu seguro cobriu os danos no equipamento...”, retorqui em voz baixa.
Ele não deu sinal de ter ouvido. Deu-me duas palmadinhas na cara e sorrindo-me, mordaz:
“Nem mesmo um Professor Moreno, um Professor Caiado te poderiam livrar de uma faringite destas, meu amigo....”
“Nem mesmo na Clínica Juno?”, indaguei, mais para alardear algum conhecimento do mundo médico do que por possibilidade, ou sequer, intenção de o vir a tentar experimentar.    
Ele encolheu os ombros:
“Sabes qual é o tempo de espera para a Clínica Juno? Pelo menos dezoito meses para um caso como o teu... A não ser que tenhas lá conhecimentos...”, acrescentou irónico.
“Por acaso, assim de repente...”
“Então sejamos objectivos, deixemo-nos de fantasias e usemos o que temos à mão.”
E, estendendo-me um protocolo de ilibação de responsabilidade, iniciou a descrição do tratamento da faringite e os eventuais efeitos secundários do hidroxibenzoato de propilo. Assinei o protocolo e deixei o Serviço, esquivando-me, por uma unha negra, a um funcionário com a braçadeira cor-de-rosa do Observatório Para a Humanização dos Hospitais. Seriam, pelo menos, três quartos de hora de perguntas e contra-perguntas!
Consultei o relógio. Eram quase onze e meia da manhã. Hesitei no cruzamento de dois corredores... O que fazer: ir já ao laboratório tirar sangue ou aproveitar aquela hora para dar uma saltada ao Clinical Rest Longue do hospital, onde era permitido aos doentes consumir uma bebida entre as 11:30 e as 12:00?
Acabei por adiar a ida ao laboratório. Eu sabia que isso podia resultar na perda completa do dia, pois quando descobrissem que eu aguardava tratamento sem a etiqueta que comprovava o sangue já tirado era provável que me recusassem a admissão, com justa causa, na baia de tratamentos. Mas, por outro lado, talvez se esquecessem de conferir todos os formulários ou tivesse a sorte de dar com um tipo já saturado de verificar papéis. E, depois, o Rest Lounge... Enquanto a gente lá estava, quase se esquecia de tudo o resto, praticamente sentia-se como fazendo parte de tudo aquilo, quase como se fôssemos nós, doentes, a causa de toda aquela maravilha existir.