01 dezembro 2010

E ESSE SONO QUE NÃO DESCE

Passava qualquer coisa da uma da manhã.
Andara mais de uma semana por fora, acabara de chegar há escassas horas da Madeira, de modo que encontrei a casa gelada. Desfiz as malas e resolvi ir deitar-me, pois ainda me pareceu a forma mais expedita de aquecer.
Enfiei-me na cama e durante mais de meia-hora debati-me com a recepção virginal, enregelada e tesa, dos lençóis. Depois, lá me atrevi a aventurar, prudentemente, uma perna pelo Polo Sul dos confins da cama.
Amornado e desenrolado o corpo, estiquei um dedo no ar glaciar e apaguei o candeeiro. Iria agora concentrar-me na mente e começar o longo exercício de a alisar, de a pacificar, para possibilitar que o sono se aproximasse. Fechei a porta aos acontecimentos previstos para o dia seguinte e resisti a espreitar pela janela do que sucedera nesse dia, na véspera. Queria chegar a essa terra de ninguém onde, no meio da bruma, num chão de ansiolíticos, o sono se passeia incógnito. Acho que sim, parece que vejo alguém a aproximar-se lá ao fundo, não lhe vejo a face, mas usa um sobretudo de algodão cinzento névoa... Será o próprio sono ou antes um sósia, um daqueles hipnóticos de trazer por casa? A dúvida começou a esbater-se na minha consciência que, ela própria, começou a amolecer como uma madalena mergulhada em chá de tília.
O telemóvel retiniu na mesinha de cabeceira, a minha mente emitiu um “no!” com a entoação precisa do Homer Simpson. Acendi a luz, olhei o visor, vi quem era, reparei na hora:
Passava qualquer coisa da uma da manhã.
“Já estavas a dormir? Não te acordei, pois não?”
“Não”, respondi, lacónico, sentindo alguma dificuldade em rechear com frases os balões do diálogo.
“Estás com uma voz esquisita, o que se passa?”
“Não se passa nada, estou a atender-te deitado, tenho as cordas vocais desniveladas...”
“Ah, então, se calhar, acordei-te, Desculpa lá!”
“Não faz mal”, respondi, desejando que o assunto me fosse exposto. Devia haver um assunto, não? É que se íamos ficar só por aquele tipo de diálogo, estava a encontrar um travo a Bugs Bunny, travestido de Samuel Beckett,  nisso de me telefonarem à uma da manhã para me perguntarem “o que se passa, doutor!?”

“Estou a ligar-te por causa do João, estou um bocado preocupada. Queria que me dissesses se achas se o devo levar ou não ao hospital?”
“Agora?”, tentei precisar a primeira das cordilheiras de coordenadas que pressentia aquela conversa ter de atravessar e esclarecer.
“Sim, não dorme e está com uma respiração esquisita?”
“Esquisita, como?”
“Crepitante...”
“O que entendes por crepitante?”, perguntei, para ajustar conceitos e entendimentos, uma vez que não estava a ver nem a ouvir a respiração da criança, apenas ouvia, em pano de fundo, o tagarelar de uma criança divertida por estar acordada até tão tarde.
“Sei lá, sabes, aquele barulho quando se respira...?” (E imitou mais ou menos o ruído pelo qual ensinámos às crianças as onomatopeias das vozes animais. “Como faz o porquinho, como faz? Rró-rró”). E acrescentou:
“Não é muito percebes, até já esteve pior... O que me preocupa é que não dorme...”
“Já esteve pior, como? Há quanto tempo é que está assim, quando é que isto tudo começou O que é que ele tem, afinal?”
“Infecção respiratória. Há uns três ou quatro dias. Estava com um bocadito de febre e este crepitar. A médica auscultou-o, disse que tinha alguns roncos, receitou um antibiótico... Disse para lhe dar Atrovent se a tosse piorasse muito.”
“E ele tem febre agora?”
“Não, não tem febre nenhuma. Já não tem febre há dois dias.”
“E a tosse, como é que tem evoluído?”
“Ah, agora está praticamente sem tosse nenhuma...”
“Então qual era a tua ideia de o levares ao hospital a esta hora, com este frio? Sabes quantos graus estão lá fora? Cinco, cinco graus!”
“Era mais porque ele não dorme, não consigo que ele adormeça, tenho medo que alguma coisa piore...”
“E por que raio havia de piorar? Teve um princípio de infecção respiratória, está a tomar antibiótico, a febre desapareceu, não tem tosse...”
“Mas tinha aquele crepitar, faz-me impressão estar aqui ao lado dele e ouvir aquilo... Agora, que estou a falar contigo, já estou mais calma, nem me parece ter muito sentido levá-lo ao hospital. Mas ele não dorme, é uma da manhã e ele não dorme...”
“Tens-lhe dado de beber o suficiente? Resume lá tudo o que ele está a tomar neste momento...”
“Está a tomar antibiótico (Clamoxyl), dei-lhe Brufen para a febre e também lhe dei  Atrovent...”
“Atrovent, para quê?”
“A pediatra disse-me para lhe dar se a tosse piorasse...”
“Mas disseste-me que ele estava muito melhor da tosse, que praticamente já não tem tosse...”
“Pois, mas como ele estava com este barulho, tive medo que piorasse...”
“Quantas vezes lhe deste o Atrovent hoje?”
“.... Duas, a última delas há cerca de três horas...”
“Sabias que o Atrovent funciona um pouco como um excitante?”
“Não! Disseram-me que até fazia sono...”
“Ah, claro, há até quem o use para dormir! Ora lê aí no papel os efeitos secundários sobre o sistema cardiovascular...”
Do lado de cá do fio ouvi o único crepitar dessa noite, o de um papel a ser desdobrado. Depois ela começou a ler alto:
“Sistema cardiovascular, sistema cardiovascular... Ah, está aqui: taquicardia, arritmia, fibrilação auricular...”
Interrompi-a, para evitar que se embebesse na espiral dos efeitos secundários e começasse a induzir sintomas nela própria e, depois, na insone criança.
“Sabes o que é uma taquicardia?”
“Sim, é quando o coração começa a bater depressa de mais.”
“Pois, e achas que isso acalma ou excita?”
“Excita, claro!”
“E achas que estar excitado é bom para uma criança adormecer?”
“Não...”
“Agora imagina o desgraçado do puto: tem a mãe em cima dele, no quarto, as luzes acesas, ela a espreitar constantemente: a ver se crepita, se está roxo, se tem febre, se está suado, se respira, e, pior do que tudo, a dar-lhe – sem necessidade nenhuma e só para ela própria se acalmar – um medicamente que faz agitar o coração do rapaz. COMO É QUE QUERES QUE ELE DURMA? E agora, ainda por cima, queres sair com ele a esta hora e levá-lo para o meio de uma noite gelada, que é para o matares, à força, com uma pneumonia! Esse rapaz não vai chegar aos quatro anos, a mãe vai matá-lo antes!”
Do lado de lá, a minha loura maluca, desatou a rir. Depois disse:
“Tás a ver? É por isso que eu gosto de falar contigo: acalmas-me. Eu achava que era um bocado um disparate levá-lo ao hospital, mas agora tenho a certeza e sinto-me muito melhor...”
“Pois... Deixa o gajo em paz, porra, apaga-lhe a luz e vai dormir, deixa-o dormir!”
“Ah, ah, ah”, ela continuava a rir e muito divertida. Rematou:
“Sabes, eu, de tudo o que estás a dizer, só aproveito mesmo o que é importante, o resto não te ligo. Vá, agora vai dormir”
Desliguei, apaguei a luz e recomecei tudo do zero.