21 janeiro 2012

SANTOS DE RUA NÃO FAZEM MILAGRES


Não preciso sequer sair da cama e ir espreitar a janela para saber que acordei na Índia. Lá de fora chega um misto sonoro do crocitar das gralhas e das buzinadelas do trânsito e, ao contrário do que acontece noutros países onde é entendido como civilizado não usar o cláxon, na Índia o apitar faz parte da essência de conduzir. Mas aqui, embora omnipresentes, as buzinas nunca assumem a intensidade ou o tom de raiva homicida das buzinas ocidentais; aqui apita-se, sobretudo, para avisar o carro, a mota, o riquexó, a bicicleta ou a vaca que vai ser ultrapassada por nós a toda a velocidade, e a quem se preserva a saúde ou a chapa com um alegrete “chega para lá”.
Neste apitanço seguíamos pelo entardecer de Bangalore, uma cidade do sul da Índia com mais de seis milhões de habitantes e um trânsito condizente, com o motorista do nosso táxi a gincanar vertiginosamente sempre que podia, mas, mais frequentemente, afundados no vermelho dos semáforos e num trânsito tão denso que pouco adiantava a mudança para um verde mais esperançoso.
O motorista apontou um edifício acinzentado à nossa esquerda, do lado de lá do separador:
“Church...”
Li a placa que identificava a igreja e respondi:
“Not this one... The name is Mouth Watering Church...”
O tipo pareceu confuso, pegou no telemóvel e, guiando só com uma mão, telefonou para a central, desatou a falar em Kannada com toda a rapidez. Depois, estendeu o telemóvel para o banco de trás. Atendi. Do lado de lá, uma voz simpática queria que eu confirmasse o nome do restaurante, as coordenadas.
“Coconut Grove”, informei, “na rua, ou perto da rua, da igreja de Saint Mouth Watering...”
Senti um silêncio na linha e, depois, o meu interlocutor solicitou que confirmasse o nome da igreja. Soletrei m-o-u-t-h, acrescentei: “watering, like in ‘water’, I think it’s near the Tourist Infomation Centre...”
Finalmente, ele parecia ter compreendido, pediu que lhe passasse outra vez o motorista.
Tínhamos encontrado o nome do restaurante no Rough Guide to South India, um livro que tem, para cada cidade, uma indicação dos restaurantes aconselhados, uma descrição do que lá se pode comer de mais notável e, claro, a sua localização. Ainda no hotel, enquanto A. lia em voz alta as linhas dedicadas ao Coconut Grove, eu assentava num papel, em maiúsculas bem desenhadas, acessíveis a quem escreve habitualmente noutro alfabeto, as indicações-chave.
“Como se chama a rua?”, perguntei de lápis no ar.
“Não tem nome de rua, indica apenas “Church St. Mouth watering...”
Achei o nome da igreja divertido, nada comum, mas estávamos na Índia, país onde as religiões se entrelaçam com bonomia, onde um dos principais deuses é representado por um elefante, desse modo limitei-me a registar o nome da igreja, que era, cotejando com o mapa, perto do Tourist Information Centre.
E agora andávamos por ali às voltas no centro da cidade, enlatados num trânsito de fim do dia, o motorista, preocupado, apontando-nos todas as igrejas por que passávamos, “talvez fosse aquela, não?”
“No”, respondia-lhe, seguro de mim, “Saint Mouth Watering Church...”
Por fim, já passava das oito e quem tinha água na boca éramos nós, encontrámos o Coconut Grove numa relativamente pacata transversal da Mahatma Gandhi Road, uma das principais e mais movimentadas avenidas do centro de Bangalore.
De regresso ao hotel, peguei no guia para comparar a nossa sensação do restaurante com o que vinha indicado no texto, uma espécie de aferição da precisão da informação. E, sentindo subir a maior das vergonhas, numa admiração silenciosa pela paciência dos indianos perante os turistas que lhes pedem que os levem a locais inverosímeis, li o seguinte:
Coconut Gove. Church St. Mouth watering and moderately priced food...
Mas, pensando bem, a culpa não era toda nossa, fora antes da abreviatura St., que tanto serve street como saint...

© Fotografias de Pedro Serrano, (1) e (3) Bangalore; (2) Fort Koshi (Índia), Janeiro 2012.