28 janeiro 2012

O ANJO MAL DISPOSTO


Ao invés do que acontece em Portugal, onde é preciso manter o cartão na máquina até ao fim da operação, para levantar dinheiro nas máquinas automáticas indianas introduz-se o cartão na ranhura, retira-se de imediato e só depois começam a surgir as indicações do código secreto, do tipo de operação a realizar, etc.
O problema é que nada disto nos é explicado em lado nenhum, de modo que levantar dinheiro nunca foi fácil ou imediato sempre que precisei de o fazer e, algumas vezes, desisti mesmo de o concretizar pois a fila indiana que se ia formando nas minhas costas intimidava-me.
Mas ontem, em Panaji (nome pós-independência da capital de Goa, mas que toda a gente continua a apelidar de Panjim – o velho nome português) era imperioso que o fizéssemos, pois nem dinheiro para pagar o almoço tínhamos no bolso.
A caixa automática mais próxima não era uma daquelas incrustadas numa parede, que são pouco frequentes na Índia, mas antes das que ficam no interior de um cubículo a que se tem acesso por porta de vidro. Lá dentro, sentado numa cadeira, como também é costumeiro em África e por aqui, estava um vigilante, um guarda, para garantir que nada de errado acontece e que a ordem pública flui naturalmente.
Introduzi o cartão na máquina e, tendo já interiorizado a necessidade de o retirar logo, assim o fiz com toda a celeridade. Mas aquilo entupiu e, no ecrã, apareceu o meu velho conhecido “impossible to read your card, make sure that it is inserted in the right position...” Suspirei e preparava-me para inserir o cartão uma segunda vez quando o guarda se levantou da cadeira, deu uma olhadela à máquina e me arrancou o cartão da mão. Depois, examinou o quadrado de plástico, deu-lhe uma assopradela e esfregou a zona da banda magnética na fralda da camisa. Finda a limpeza, enfiou-o na ranhura, retirou-o, devolveu-mo e ficou por ali até aparecer a indicação para introdução do código secreto, solene momento em que se afastou um pouco. Sorri e agradeci, preparando-me para conduzir o resto da operação. Mas mal tinha digitado o último número do pin, eis que o tipo toma outra vez conta do ecrã e do teclado e, sem me dirigir palavra, marcou a opção levantamentos, escolheu a opção apresentar recibo e, ainda não satisfeito, digitou, sem mo ter perguntado, a quantia de dinheiro que eu iria levantar, isto é martelou nas teclas o valor máximo diário de um levantamento na Índia: 10.000 rupias, o que corresponde a cerca de 160 euros.
Quando o dinheiro foi vomitado no dispensador lá estava a mãozinha dele para o apanhar e o mesmo sucedeu quando o recibo, como uma língua de fora, emergiu das entranhas da máquina. Dada por finda a missão, passou tudo para as minhas mãos e, com o mesmo ar mal disposto e algo entediado, voltou a sentar-se na sua cadeira, não se dignando sequer responder meu alarpardado agradecimento.   

© Fotografias de Pedro Serrano: (1) Panjim; (2) Kochi. Índia, Janeiro 2012.