22 janeiro 2012

SAI UMA IMPERIAL


Ontem fomos visitar a igreja de S. Francisco, aqui em Fort Kochi, e qual não foi o meu espanto ao tropeçar no túmulo do Vasco da Gama? Já tinha dado para perceber que o homem é uma presença forte aqui na terra, onde se pode inclusive ver a casa onde terá morado (agora uma hospedaria); a praça principal, em frente ao mar, tem o nome dele e existe até um café que o trata com toda a familiaridade. Nada mau para um gajo morto há quase quinhentos anos!
Mas, mesmo assim, dar com as barbas do homem aos nossos pés, é uma sensação estranha. Eu jugava que o tipo estava enterrado nos Jerónimos, e está, só que é uma sepultura em segunda-mão. Ele morreu, naquela que era a sua terceira visita à Índia, na noite de Natal de 1524 aqui em Fort Kochi (que à época se chamava Cochim), e aqui esteve enterrado durante catorze anos antes de ser trasladado para a vizinhança dos pastéis de Belém. Na frescura algo sombria da nave da igreja de S. Francisco há um painel que explica tudo isto em inglês, abrilhantado com fotografias do mosteiro dos Jerónimos e outros instantâneos lisboetas.
Passado este tempo todo, a presença portuguesa nesta costa do sudoeste da Índia ainda é nítida e pulverulentamente comovente: é a carne de porco em vinha de alhos que se transmutou em carne de porco vindaloo, é o salpicão assado que agora se pede como salpicao flambé, mas em ambos os pratos reconhece-se vividamente o sabor original, apaladados à sombra de telhados de desenho português a que só foram esticados os beirais para que a sombra saia mais pestanuda neste clima tropical.
E a gente não pode impedir-se pensar como é feita de persistência e coisas simples uma presença duradoura e de, tristemente, concluir como, desde esses tempos em que as nossas pegadas primeiro se marcaram na memória deste país imenso e civilizado, tudo se degradou para um Portugal ratado que vive actualmente, trémulo e de mão estendida, de olhos postos numa Europa que já deu o que tinha a dar.

© Fotografias de: (1) Pedro Serrano; (2) A. Rodrigues; (3)(4) Pedro Serrano. Fort Kochi (Índia), Janeiro 2012.