07 janeiro 2012

A SUA COISA É TODA TÃO CERTA


 Dando como adquirida a minha competência em cooperação internacional, ao aproximar-se o primeiro fim de semana que passámos em Santiago, a Ana C. perguntou-me se conhecia algum cabeleireiro na cidade.
Que não, respondi, que até já tinha cortado o cabelo em La Habana e em Tóquio, mas nunca em Cabo Verde. Sugeri-lhe que se aconselhasse com as doutoras que trabalhavam na Cooperação portuguesa, sempre tão incansáveis a dar resposta às nossas mais diminutas necessidades logísticas. Ela assim fez e na sexta, à hora de jantar, apareceu com um look todo envernizado, encheu-me de novidades e aproveitando, cheia de malícia, a brecha que eu lhe proporcionara ao dizer que se o cabeleireiro fosse bom talvez recorresse aos seus serviços, pois precisava de cortar o meu remanescente cabelo:
“O senhor tem de lá ir... O salão chama-se Beleza Pura e o cabeleireiro Elvis...”
Previdente, a Ana C. trouxera um cartão onde, para além de se esclarecer que o tal Elvis tinha salões em Santiago e em S. Paulo, constavam os telefones. Marquei apontamento para Sábado às três da tarde e, máquina fotográfica a tiracolo para o que desse e viesse, parti à aventura, ciente de que um salão que escolhera para nome uma canção do Caetano Veloso só podia ser recompensador.
Consegui cortar o cabelo, mas nunca disparar a máquina fotográfica, pois, pelo menos, seis pares de olhos femininos nunca mais me largaram desde que a minha silhueta se recortou na porta de entrada, um deles propriedade de Nancy, a recepcionista brasileira. Quanto a Elvis, também ele brasileiro, esse tratou-me invariavelmente por “querido” sempre que me interpelou, fosse para indagar se a água estava suficientemente morna ou para saber se desejava que me aparasse as sobrancelhas.
À saída, enquanto pagava e por continuar sem abertura para poder usar a máquina fotográfica, fui circunvagueando o olhar pelas paredes, tomando conhecimento do catálogo de serviços do Beleza Pura, que incluía fortalecimentos capilares e extensões, mas também préstimos de qualquer tipo de depilação íntima, desde aquela que tem por única finalidade ajudar a respeitar as fronteiras da parte inferior de um bikini, à poda mais radical.
Estava uma tarde de sol inspiradora e, sabendo que dali a meia-hora estaria a trabalhar, fiz o caminho de regresso a pé, para gozar daquela sensação de leveza que um céu azul e um cabelo recém-aparado proporcionam. Como as coisas tinham mudado desde a minha juventude... Onde, no meu tempo de rapaz, seria possível um gajo ir cortar o cabelo a um cabeleireiro de senhoras? Ou ser servido por um barbeiro chamado Elvis que nos trata por “querido”? E a depilação íntima... No meu tempo não havia disso, elucubrava rua abaixo baseado quer na experiência pessoal quer na observação fortuita das revistas masculinas (Playboy, Penthouse ou Lui), onde as modelos ostentavam, conforme os fenótipos com que a mãe-natureza as brindara, uma vegetação ora estépica ora luxuriante e com o atrevimento migrante da vinha-virgem. Era o reinado soberbo da variedade! Mas agora, e apercebia-o como uma perda, parecia que todos os cabeleireiros do mundo se tinham juntado em congresso para discutir prejuízos e descobriram, por sugestão inspirada de um congressista brasileiro, o filão da depilação generalizada como garante do seu futuro económico. E decretaram a ditadura dessa moda de toda a mulher trajar um adorno púbico esquálido, preciso e similar, o que recuperou o viço financeiro dos salões de beleza e dos apicultores e entristeceu os clássicos.
E, no meio dessa tarde azul, dei comigo a trautear o “Você É Linda”, outra canção do Caetano Veloso em que, louvando a beleza das diversas partes da sua musa, ele se refere a isto mesmo cantando, em voz melosa e sonhadora: “a sua coisa é toda tão certa...”    

© Fotografias de Pedro Serrano: (1) Goa (Índia), 2011; Lisboa, 2011.