05 agosto 2010

VOU-TE CONTAR: 18. A costureirinha da Sé

A minha mãe, dona de casa e poetisa, dirigia o mundo da sala de estar. 
Era ali que a encontrávamos com maior probabilidade se, a meio ou ao fim da tarde, chegávamos a casa e a procurávamos para dizer “olá, mãe, cheguei”.
A sua poltrona, forrada a veludo azul-giz-taco-de-bilhar, de costas altas e com orelhas laterais, escondia-lhe a figura se espreitávamos da porta. Virada para a lareira e para as largas portas de vidro que deitavam para o lado poente do jardim, estava separada do maple do meu pai por uma das duas mesinhas de apoio que havia naquele canto da sala: numa delas pousava um candeeiro de abat-jour de linho-cru e na outra um velho Telefunken, com a parte posterior aberta, válvulas e condensador à vista. Sempre que o rádio dessintonizava, o som se embrumava ou surgia qualquer outro percalço radiofónico, ela interrompia o crochet e introduzia uma das agulhas de metal nas entranhas eléctricas do aparelho, esgravatando por ali até que a situação normalizasse.
Geralmente a situação resolvia-se e todos nós ficávamos boquiabertos com o duplo milagre do compor da avaria por meios mágicos e por ela nunca ter sido electrocutada no processo. Era esta a sua filosofia de abordagem das coisas em geral, pois vivia distraída a imaginar rimas, enredos ou a construir teorias de explicação e estratégias para controlo dos acontecimentos do seu mundo restrito. 
A minha mãe (fotógrafo e data desconhecidos).
Ser dona de casa naquela época era um destino natural para as mulheres, tal não significando que não fosse condição dura, uma insularidade, como ainda o é hoje em dia para as poucas mulheres que optam por essa condição. O que resta a uma pessoa cuja única ocupação é lidar com a casa, cujas fronteiras mais constantes são as quatro paredes do lar, senão dedicar-se intensamente a esse aquário de marido e filhos? Ou, dizendo melhor, ao pedaço de marido e filhos que lhe sobra, que lhe chega a casa, no caso dos filhos cada vez menos à medida que o tempo se escoa...
A minha mãe tinha uma imaginação considerada demasiado fértil, característica que nos dava muito jeito quando éramos pequenos e, esgotado um assunto de brincadeira, corríamos do quintal, atravessando a soleira da porta de uma outra sala de estar, essa sem lareira e virada a sul, pedindo:
“Mãe, a que havemos de brincar agora?”
Isto foi antes de ter aprendido a ler, pois logo que o fiz ela ensinou-me que um livro era a melhor companhia de todas, ainda mais fiel na nossa vida do que a companhia das pessoas, o que incluía nós próprios. Mas nesses dias pré escola primária, antes da invenção dos infantários, ela mirava-nos com intensidade, sugeria:
“Porque é que não desenham uma história de aventuras, com personagens?”
E passados uns minutos, no meio de um silêncio em que o ruído mais saliente era o entrechocar das agulhas da malha, lá estávamos nós sentados em diversos recantos da sala, de língua a rondar entre os lábios ou roendo pontas de lápis, aplicadamente a desenhar durante horas, numa página dividida em quadrados, heróis de elmo e armadura de malha metálica vagamente semelhantes ao D. Afonso Henriques.
“Mãe, acha que está bem?”
“Tia, de que cor hei-de pintar o castelo?”
E ela, numa tranquilidade calculada, amarrando-nos ao seu projecto de nos fazer amar os livros, respondia:
“Muito bonito! Agora deviam juntar essas histórias e coser tudo num caderno, fazer uma revista...”
Mas não dava ponto sem nó e, por vezes, aproveitava a calmaria do rebanho para nos fazer sentar pelo chão em volta da cadeira dela e nos ler um contozinho que acabara de escrever. A história-tipo era a da pobre costureirinha que, num sotão acanhado e mal iluminado, de olhos pisados pela concentração e pelo cansaço, cosia até de madrugada, os dedos picados de agulhas, enquanto lá fora, numa qualquer esquina granítica da Sé a sua pobre filha ceguinha tentava vender caixas de fósforos a quem passava, para que não morressem à fome e pudessem dispensar umas migalhas do escasso pão à andorinha de asa quebrada que vivia no beiral...
Não me lembro do pormenor, mas diz a minha prima Nunu que nós, as crianças, ouvíamos aquilo muito suspensos e quietos, lágrimas silentes rolando-nos pelas faces. Calculo que seríamos uns excelentes barómetros do efeito que ela pretendia provocar num futuro leitor.
Espinho, 1946 (fotógrafo desconhecido).
Só bastantes anos depois percebi que ser dona de casa não era o projecto de vida da minha mãe. Sonhava seguir o caminho dedicado às letras e à literatura do pai, do avô, gente com obra que se podia encontrar nas montras das livrarias: romances, poesia, peças de teatro, edição de revistas e almanaques... E parecia-lhe que a Universidade, um curso superior em Letras seria um bom começo nessa senda onde amadores tinham vingado: o meu avô materno era banqueiro de profissão e o pai dele, médico e avô preferido de minha mãe, tinha, ainda em pleno século XIX, chocado os lentes com uma tese de licenciatura sobre Neurastenia, coisa só ultrapassada em termos de escândalo por um tio, também médico, que ousara apresentar uma tese sobre O Beijo. Mas, infelizmente, todo este arrojo era exclusividade de macho e que podia fazer uma pobre rapariga com pais a quem a ideia de uma menina seguir a Universidade significava um potencial risco de perda nesse mundo perigosamente mundano que seria o Porto dos anos 40 do século passado? Poderia até prejudicar-lhe o futuro e o casamento com esse príncipe que, entretanto, catava volfrâmio em tronco nu para pagar os estudos médicos e havia de aparecer um dia nos areais de Espinho. 
Fez o que pôde, a minha mãe sonhadora. Casou-se, teve três filhos, educou-os, deixou-os voar para fora de casa com uma linha (invisível como as de pesca) inocentemente amarrada a uma ponta de dedo, e manteve-se poetisa nas horas vagas. Discretamente, sem mostrar o que fazia a ninguém, quero dizer, para além das cobaias...