14 agosto 2010

VOU-TE CONTAR: 20. Um calhau com dois olhos

                                              Oh minha alma: não aspires à vida imortal,
                                                         mas esgota o campo do possível.
                                                                         Píndaro (A.C. 518-438)


Eu próprio tive um pequeno Mito de Sísifo, privado... Pergunto-me até que ponto isso terá ajudado a moldar o meu temperamento existencialista. 
Mas, deixem, antes de avançar, que gaste um punhado de palavras a explicar, em gentileza aos meus ouvintes mais distraídos, quem era este Sísifo.
Sísifo foi, talvez, o maior malandro da mitologia grega, um mestre a meter os pés pelas mãos, tão habilidoso que conseguiu enganar, para além da mulher, a Morte, duas vezes, e os Deuses ainda mais do que isso. O homem era mortal e gostava de andar cá por baixo, pela Terra, era tudo quanto conhecia, de modo que tentava esgotar o campo do possível. Mas os Deuses não acharam grande graça a serem desconsiderados por um mortal e Zeus condenou-o a passar a eternidade no transporte de um grande bloco de mármore até ao cimo de uma montanha. Quando estava mesmo a chegar com a pedra ao topo, esta fugia-lhe das mãos e resvalava por ali abaixo até ao sopé e lá tinha Sísifo de recomeçar tudo de novo. E todos sabemos como a eternidade costuma ser longa.
Na casa mais antiga havia dois quintais, o da frente, conhecido pelo jardim, e o de trás, conhecido como o quintal. O da frente, virado a Norte e algo sombrio, era exíguo, pois a casa estava praticamente construída em cima da rua, e da janela do meu quarto eu via o passeio do lado de lá quase na vertical; o de lado de cá só o via pelos interstícios da grade do portão.
É certo que os metros minguam à medida que crescemos, mas, mesmo assim, o quintal de trás era enorme. Começava no terreiro, atapetado de saibro, do lado Sul da casa, onde havia a olaia e eu me sentava a fazer bolos de terra. Contígua, havia uma área ajardinada, com canteiros de dálias e amores-perfeitos e caminhos entre os canteiros, e depois uma zona relvada de transição onde ficava o coradouro, o poço, o tanque da roupa e duas árvores, uma minha outra da minha irmã mais velha pois o meu pai plantava uma árvore quando um de nós nascia. A dela era uma oliveira, a minha um eucalipto que por ter sido posto ao lado do poço cresceu tanto que se via à distancia de quilómetros e competia em pujança com a torre da Igreja dos Capuchinhos, da qual era vizinho.
Além das duas árvores ficavam as cordas e as molas da roupa e o quintal selvagem, estendendo-se em horta e árvores de fruto até ao muro que o separava do terreno da Fábrica dos Curtumes. Encostados a este muro, tinham sido edificados os restantes redutos da casa mais antiga: a garagem e o canil do Foguetão, o nosso Serra da Estrela cinzento.
O Renault Dauphine do meu pai (anos 50, fotógrafo desconhecido).
Que extensão, em metros, teria o quintal? Não sei, tenho receio de exorbitar, vou tentar escapar com uma resposta de tipo qualitativo, mas sempre vos digo que, se chovia, devíamos usar guarda-chuva aberto para percorrer a avenida e alcançar a garagem onde era guardado o Renault Dauphine, tão longe da casa que, logo que passaram ao meu pai os excessos por o carro ser novo, ficava simplesmente estacionado perto da rampa do portão.   
Em largura, esta era a suficiente para que a avenida principal (onde ainda agora passaram os guarda-chuvas a caminho da garagem) tivesse uma transversal, conhecida por todos como a Rua do Castelo e meu domínio, pois a minha irmã mais velha praticamente só se interessava por ir espreitar casamentos à igreja, pernas e sapatos.
A Rua do Castelo era uma álea sem saída, conduzindo ao muro de divisão do quintal, onde, do lado de lá, havia outra Rua do Castelo, pertença dos meus primos Manel e Heitor que moravam na casa ao lado, cópia siamesa da minha casa. Por junto, eles e eu possuíamos extensa propriedade, cuidadosamente repartida em termos de instalações e actividades: do lado de lá do muro ficava o baloiço, suspenso na estrutura de fero da ramada, e do meu lado o Subterrâneo, que no ferro da ramada tinha suspensa a corda do balde com que tirávamos a terra cavada cá para fora.
Com o Subterrâneo dávamos corpo, tal como com o Laboratório, às ideias de aventura e descoberta que nos ocupavam a mente o dia todo, mesmo se sentados nas carteiras da escola primária. Por requerer grande esforço de planeamento e execução, o Subterrâneo era uma actividade predominante das férias de Verão. Demorou temporadas até que descobríssemos os princípios,  fundamentos e técnicas do escoramento de terras, pois logo que atingíamos com as nossas escavações uma profundidade que nos ocultava os joelhos aquilo desatava a aluir... Mas éramos persistentes e gastávamos a grande fatia diurna dos nossos dias a escavar; para não perder tempo eu, sempre que o conseguia, dormia vestido, de botas e tudo. Na casa pegada, os meus primos tentavam um trajar semelhante.
Quando o Subterrâneo estava pronto, e muito poucas ocasiões o esteve, cabíamos os três lá dentro, de pé. Raramente deixávamos entrar a minha prima Nunu, irmã dos meus primos mineiros; a função dela era ficar por ali a tomar conta das coisas ou a cozinhar. Quando pronto, o Subterrâneo era um quadrado no chão, tapado com uma placa de folha de flandres, de interior algo assustador pela escuridão e intenso cheiro a terra que reinava. Sistematicamente, num dia em que ainda estando bom tempo chegávamos da escola e corríamos à Rua do Castelo, encontrávamos a ausência no local do Subterrâneo. Com toda a simplicidade, com toda a facilidade, alguém atulhara meses de trabalho, fazendo parecer que nunca tinha existido; a folha de flandres encostada a um canto parecendo muito mais uma placa de folha de flandres do que o telhado-cobertura onde, sob uma caveira e duas tíbias, alertávamos os estranhos para os perigos de uma intrusão.
PROIBIDA A ENTRADA!
Para além do “filho da puta” definitivo que dedicávamos ao Mendes, o jardineiro Neandertal que morava na Ilha do Bravo ao fundo da rua, não nos passava pela cabeça outra forma de reclamar ou, sequer, invocar um qualquer poder oculto que invertesse a situação. No Verão que se seguia, e em muitos verões seguintes, recomeçávamos do zero o Subterrâneo. Nunca conseguimos que nos deixassem lá dormir, mas passámos várias meias-horas sentados no seu chão de terra alisada a comer sardinhas de conserva à luz da lanterna.