18 agosto 2010

VOU-TE CONTAR: 21. Agora a gente já não tinha medo

Aposto que nunca ninguém a tratou pelo nome, talvez com a excepção de umas enjoadas colegas de trabalho e, já se sabe mas isso não conta, as professoras do liceu. Nem a mãe dela, a minha tia Olinda, estando furiosa, lhe conseguia gritar em termos de:
“Maria Leonor, se não paras imediatamente de rir levas com o batedor de tapetes...” 
É que Leonor, embora nome nobre e belo, é de pronúncia insuportável no dia a dia; a língua embaraça-se no “nor”, a mente não espera que a seguir à majestade de um “Leo” nos tenhamos que acomodar a um “nor” que confere ao nome um ressentimento de amoníaco. Das outras variações (Leonilde, Leopoldina,  Leocádia, etc.) nem é bom falar...
De modo que a minha prima Leonor foi reconvertida em Nunu como aliás aconteceu com todas as Leonor minhas conhecidas, que se transformaram em Nônôs, Norzinhas ou Nunus e (mas mais num ambiente média-luz) em Nus.
Nunu e eu na casa mais antiga (algures no final dos anos 50, fotógrafo desconhecido)
Pois esta minha prima, um ano mais nova do que eu, morava numa casa igual á minha, siamesa da minha casa mais antiga, e representou um importante papel na minha infância e adolescência.
Desde pequenitos tivemos muitas coisas em comum, uma das quais foi a primeira inclinação profissional, pois ambos sonhávamos ser peixeiras. Nessa época, embora se praticasse a ida à mercearia e a outras lojas abastecedoras, o mais comum era, durante a manhã, assistirmos ao tocar da sineta do portão e vermos desfilar até á porta da cozinha o padeiro, a leiteira, a biscoiteira, o marçano e, profissão que ultrapassava todas as outras em prestígio, a peixeira. 
Para além de falar alto e sem uma sombra de pestanejamento, a peixeira tinha,  por sobre as várias camadas de saias, um avental preto cheio de bolsos e por baixo deste uma bolsa escondida onde acamava notas em grandes quantidades. E depois, quando tirava o pano molhado aos quadrados que cobria a canastra e revelava o que trazia... Eles eram cavalas, eram fanecas, sardinhas e, mais próximo do topo da hierarquia, o belo badejo, a bela pescada, o fino linguado... E a minha mãe, olhando de cima, atenta, a apontar o dedo:
“E as mílharas, são frescas? São mesmo de pescada, não serão de bacalhau...?”
“Ó, Dona Manuela, pela minha saúdinha, que são uma riqueza! Então eu ia lá impingir à senhora ovas de bacalhau!”
A Nunu e eu, calados e fascinados, seguíamos aquelas negociações complexas com toda a atenção, retínhamos na memória a gíria e nas retinas as atraentes ventosas do polvo, o furta-cor das lulas, as escamas prateadas, os olhos saídos e brilhantes daqueles peixes todos; mirávamos, aterrados, o peixe-espada e o tamboril imaginando o que seria um encontro com um peixe daqueles quando tomássemos banho na Praia dos Beijinhos. Achávamos que poderia ser mesmo pior do que um rendez-vous com o temível e tão publicitado peixe-aranha!
Quer eu quer ela, enquanto preparávamos os nossos tabuleiros cheios de folhas de diferentes dimensões e brilhos, cobertos com um pano da cozinha molhado, entretínhamos conversas em torno de como guardaria a peixeira toda aquela peixaria em casa. Eu tinha a certeza que a casa dela era revestida, em todas as divisões, com armários de gavetas sobrepostas onde ela guardava o peixe, gavetas em tudo semelhantes àquelas onde o senhor Gonçalves Oliveira, da Fergoliv (a retrosaria da esquina), acondicionava as gravatas.
“Achas que ela come do peixe que vende ou compra-o a outra peixeira?”, perguntava a Nunu enquanto aspergia de água umas folhas de hidranja indistinguíveis de besugos. 
Eu não sabia, distraído a dispor as minhas folhas de agapanto como vira serem acondicionados os peixe-espada; a pensar em que tipo de gaveta ela guardaria os polvos e se as manteria, para maior segurança de quem dorme, fechadas com cadeado. Sobre a peixeira, a única coisa que dava como certa era que o marido seria pescador e que nunca comiam peixe às refeições para terem sempre mercadoria para os fregueses.  
“Agora eu já não era peixeira”, comunicava eu, vendo os irmãos dela a aproximarem-se, “agora vamos trabalhar para o Subterrâneo...”
“Vou-vos lá vender peixe daqui a um bocado e depois eu era a cozinheira...”
O tempo passou, a Nunu cresceu, durante uns anos afastamo-nos um pouco. Até ao dia em que na saída do liceu das raparigas dei por ela e reparei como tinha tantas amigas interessantes. Por outro lado, o Renato, o meu melhor amigo no liceu dos rapazes, também a achou muito interessante a ela e isso aproximou-nos outra vez, de tal modo que a Dona Aninhas Pinto, a gentil avó materna dela, na sua voz esganiçada, inquiriu a minha tia:
“Ò Olinda, tu não achas que a pequena e o primo andam demasiado juntos...?”
 Nenhum de nós, nem sequer os nossos pais, ligou demasiado a isso e a Nunu, que atravessava uma fase muito estranha, continuou por mais uns bons anos obcecada em lavar as mãos até esfolar a pele de tanta limpeza e a cair das cadeiras abaixo de tanto se rir sem conseguir parar. Uma vez, o meu pai até a ameaçou que lhe dava um par de lamparinas se ela continuasse naquilo, mas o máximo que ela conseguiu foi sair da mesa de jantar aos tropeções... Outra ocasião íamos no eléctrico, do liceu para casa, sentados um em frente ao outro naqueles bancos de palhinha que havia à entrada e à saída, e eu apontei-lhe um tipo com uma cara mesmo ridícula que seguia pendurado na pega entre nós, e ela, quando olhou para cima e o viu, desatou a rir de tal maneira que se mijou e tivemos de sair à socapa na paragem seguinte e fazer, entre gargalhadas incoercíveis, o resto do caminho a pé.
Hoje em dia, ela já tem um par de filhas muito mais velhas do que nós éramos nessa altura e é casada com um engenheiro que trabalha nos transportes públicos do Porto, pois o mundo é maravilhosamente redondo.   

PS: “Agora a gente já não tinha medo” é uma frase universal da infância. Mas houve um senhor, chamado Francisco Buarque de Hollanda, que a fixou para a eternidade numa canção chamada “João e Maria”. Aqui fica para os (improváveis) que possam não a conhecer.



Chico Buarque/Nara Leão: "João e Maria" (Sivuca/Chico Buarque), 1977.