08 julho 2010

VOU-TE CONTAR: 14. Consequências profundas

Durante toda a minha infância e adolescência, antes do aparecimento dessa mão-de-obra descartável que ficou conhecida como mulher-a-dias (termo que depois evoluiu para a mais apaziguadora-de-consciências designação de empregada doméstica), havia sempre em nossa casa uma criada interna. Quando era criança pequena, chegou mesmo a haver duas em simultâneo, uma delas com a função ou a vocação específica de tomar conta das crianças. 
Tive assim a sorte de ter, na prática, duas mães: a verdadeira, a que me ensinou a gostar de livros e de escrever, me deu carinhos e me moeu a paciência na adolescência. A outra, a minha mãe de adopção, chamava-se Tomásia e encarregava-se dos aspectos mais pragmáticos da minha educação: dar e obrigar a comer, vestir-me, vigiar-me, mas também preparar perante os meus olhos maravilhados o pão aberto em dois onde, num fino revestimento de manteiga, aprisionava um manto de minúsculos diamantes de açúcar refinado, o todo recamado com poalha de canela.
“Mas depois o menino tem de beber o leite todo...”
“Eu bebo...”, prometia com sinceridade, medindo a distância que me separava da pia da banca da cozinha. 
Embora na altura mo parecesse, a casa da minha infância não era assim tão grande e o quarto das criadas era, simultaneamente, o local onde se brunia a roupa e cavalgo uma almofada, encaixada num dos ressaltos da marcenaria da cabeceira da cama delas, enquanto as vejo passar o ferro na roupa estendida sobre a tábua e sinto no ar o perfume, reconfortante como o de pão quente, de roupa lavada a ser vincada pelo calor.
Tomásia, Cândida, Natália, Maria, Belmira... Aterravam no Porto vindas de aldeias longínquas; novas, trémulas e de olhos fechados como cachorros desmamados precocemente. A Tomásia e a Cândida representam os anos 50 e foram contratadas através da mesma teia de relações que tinham providenciado o pessoal doméstico da minha avó, partilhando entre elas uma relação de parentesco de que só me apercebi já adulto. As três últimas, chegaram a nossa casa ao longo dos anos 60 e eram consequência do aprofundar de relações na aldeia do meu pai, já de algum modo representavam a independência e a maturidade gradual da nossa família nuclear face ao clã dos meus avós maternos que, por falar nisso, moravam, no outro lado da rua, no casarão em frente 
Todas chegaram de olhos a piscar de deslumbramento perante as luzes da cidade, quase descalças, algumas sem saber ler ou contar. Todas saíram da nossa casa para casar, habilitadas para um matrimónio de sucesso após um estágio de alguns anos que as transformara em princesas do lar e rainhas da cozinha. Eram tristes os dias, e o mundo parecia desmoronar-se, em que me chegava a notícia que mais uma se ia embora. As mulheres não pareciam pensar senão em sapatos e em casar! Todos marcávamos presença activa no casamento, os meus pais eram geralmente os padrinhos, nós, os meninos das alianças e, por sua vez, os filhos delas eram baptizados com os nomes de minha casa: como bolinhos quentes, uma nova geração de meninos com o nome dos meus pais, o meu, o das minhas irmãs, engrossava aquela comunidade e, à medida que íamos crescendo, nós próprios fomos sendo padrinhos e madrinhas dos últimos que iam nascendo. Aquilo parecia não parar e nunca se quebravam os laços com elas, com as suas novas famílias. 
E se algumas regressaram à aldeia de origem, fosse em Trás-os-Montes ou para além do Caramulo, outras inauguravam vida independente nas cercanias da nossa casa. Tomásia, a minha segunda-mãe, para dar um exemplo, adquiriu a tabacaria na esquina da rua, onde, ainda agora, todos os anos compramos o fogo de artifício para a noite de S. João. Mora, por trás da loja, com os filhos (o rapaz tem o nome do meu pai, de quem é afilhado, e a rapariga o da minha irmã mais velha), enviuvou e os croquetes e pasteis de massa-tenra que fabrica caseiramente, e que aprendeu por uma receita da minha avó sob a orientação da minha mãe, tem fama no quarteirão. Num processo circular, tão regular como a replicação de ADN, toda a nossa família os encomenda e recomenda para jantares de Domingo ou ocasiões especiais.
A Belmira, que também casou de nossa casa para um regresso à aldeia perto de Viseu onde nasceu o meu pai, foi a última criada interna na casa dos meus pais e acompanhou as vicissitudes da nossa história durante a segunda metade da década de 60 e os primeiros anos da década de 70: três mudanças de casa, o excitante e inesperado nascimento da minha irmã mais nova, o drama silencioso  e nunca resolvido que foi a compatibilização do seu estatuto de residente permanente com a contratação e a permanência intermitente de uma mulher-a-dias de feitio difícil de que ainda por aqui se falará.
Quando saiu de nossa casa, a Belmira parecia ter apostado no cavalo certo e penso que ninguém diria o contrario: o noivo era um homem trabalhador e nada havia a dizer dele, para além do temperamento sorumbático. O tempo, no entanto, foi trazendo surpresas cada vez mais próximas de uma história de terror. Álcool, violência doméstica sobre mulher e filhos, o brilho frio de armas e facas de cozinha, fugas no meio da noite e, por fim, um suicídio que, pese embora o trágico e o trauma, soa a quem ouve a história toda como um acto de justiça divina.
Viúva, rija como cepa de castanheiro, a Belmira criou os quatro filhos sozinha. Empregou-se numa fábrica em Vouzela, amanhou as courelas de terra que lhe eram de direito e ainda lhe sobrou tempo para se transformar em feitor dos nossos assuntos em Viseu, uma procuradora fina como um alho e atacada de honestidade obsessiva.

© Fotografia de Pedro Serrano, Braga (2009).