24 julho 2010

VOU-TE CONTAR: 16. O lírio do vale

Na casa mais antiga o meu quarto era o à direita, ao cimo das escadas. Era um quarto enorme, pelo menos parecia-me na altura, de qualquer modo era maior do que o da minha irmã Clarinha, três anos mais velha, pegado ao meu.
Nunca contei a ninguém, mas teria preferido que o meu quarto naquela casa fosse o da minha irmã, mas quando se é criança as coisas têm a presença definitiva e imutável das grandes pedras e nunca me passou pela cabeça que pudesse ser de outra maneira ou que conseguisse resolver a situação pelo uso de  lamúrias ou lágrimas.
No meu quarto havia uma fonte de medo inesgotável, pesadelo que se conservava recuado durante o dia, mas que, à noite, assumia proporções aterradoras. Não estou a falar da possibilidade de monstros debaixo da cama, que isso verificava imediatamente antes de me deitar e apagar a luz, ou das poses ameaçadoras que assumia a roupa de vestir abandonada em cima da cadeira, que isso resolvia-se com um certo ângulo da frincha da porta e a luz do hall acesa. 
É que o meu quarto era o quarto do roupeiro, quero dizer: mesmo ao nível da cabeceira da minha cama, à esquerda, a uma distância de escassos metros, havia uma porta e por trás dela ficava o armário-roupeiro, um descomunal móvel de madeira escura que ocupava toda a parede do fundo dessa divisão onde não cabia mais nada. Um armário do chão ao tecto, imenso, cuja borda das prateleiras, cheias de roupa branca, eu usava como degraus para chegar ao alçapão, de tampa encastrada no tecto, que dava para o sótão.
Durante as horas de luz era um tesouro ter no meu quarto uma passagem para outro mundo. Às vezes, quando o silêncio na casa era total, eu e os meus primos escalávamos aquele glaciar de lençóis, empurrávamos para cima a tampa de madeira da portinhola de acesso e, crispados de suspense sob as teias de aranha e o pó espesso que se nos agarrava às mãos e às roupas, espreitávamos, com a garganta a latejar descompassadamente, aquele espaço onde, por entre sombra e luz, nos aparecia o lado secreto das telhas do telhado, as vigas de madeira que o sustentava e, diamante entre diamantes, o poço da clarabóia.
O sótão era completamente vazio, não era usado para guardar nada e essa ausência de objectos reconhecíveis contribuía para potenciar o seu mistério silencioso, a sua faceta não-humana.
Uma ou outra ocasião, mas longe de fazermos disso rotina, atrevíamo-nos a passar para dentro e a viver a ubiquidade de flutuarmos pelos diversos espaços da casa sem sermos travados pelas fronteiras que, do lado de baixo do chão do tecto, eram levantadas pelas paredes das várias divisões. 
Ah, mas a clarabóia... A clarabóia era, antes de mais, um sítio muito perigoso. Se acontecesse pisarmos o vidro do seu soalho acabaríamos estatelados lá em baixo no hall da entrada, cadáveres ao lado da mesinha baixa do telefone e por entre estilhaços de vidro martelado! Por cima da clarabóia, para que se produzisse o milagre da luz natural no hall do primeiro andar e no vão das escadas, as telhas de barro vermelho do telhado transmutavam-se em maravilhosas telhas de vidro com a espessura de lentes de óculos de cientista louco; opacas, elas próprias um enigma pois deixavam passar a luz em abundância mas não permitiam ver o azul do céu, ali mais próximo do que no cimo de qualquer uma das árvores do quintal. E, depois, como era possível alguém conseguir serrar uma tão exacta circunferência no meio do pano de vidro martelado? A nós, com idades oscilando entre os seis e os dez anos, não nos passava pela mente que aquele círculo pudesse ter sido feito antes de o vidro ter sido ali colocado. Não, víamos um herói qualquer, de fato de macaco-azul-ultramarino e braços peludos, empunhando um vulgar serrote de cortar madeira, a desafiar a vida e a morte, pairando sobre o vidro como Jesus sobre as águas, para conseguir produzir um círculo perfeito sob todo aquele stress situacional. Na prática, o círculo em questão servia para que o tubo prateado da salamandra alcançasse as telhas e deitasse o seu fumo lá para fora.
À noite, todo o fascínio da zona se mantinha, mas a tonalidade era totalmente diferente e o nome, o aspecto e as intenções dos seres que poderiam ocupar aqueles espaços era impronunciável. Como tal, nunca os confessei a ninguém e mantinha-me em absoluto silêncio perante o gozo que constituía a minha obsessão em confirmar que, todas as noites, se mantinha fechada à chave a porta que dava para o armário-roupeiro. Mas, mesmo fechada à chave, eu sabia que não era suficiente. O que é uma porta fechada à chave para entidades que se sentem nas trevas como em sua casa? E, assim, tanto dormia aterrado de frente, enfrentando a porta do quartinho do armário-roupeiro, pois veria aparecer os seres mal eles resolvessem descer do sotão, como morria de medo ao virar as costas à porta, pois quando sentisse o hediondo hálito sobre mim seria demasiado tarde...
Uma manhã, nesse quarto, andava pelos onze anos, a persiana da janela foi inusitadamente aberta pelo meu pai, que não costumava ser a pessoa que nos acordava. Sentou-se na borda da cama e, com ar prazenteiro, disse:
“Nasceu a tua irmã...”
Depois, não sem antes me incitar a levantar e começar o dia, foi-se à sua vida e deixou-me sentado na cama, a desabotoar o pijama e com um torvelinho de sensações onde ecoava “a tua irmã”, sem que essa fosse a minha irmã do costume. O existir uma nova presença na minha vida enchia-me o peito de uma brisa feliz e essa sensação, eu sabia, era da categoria das que me iam fazer baixar os olhos de timidez quando alguém dissesse, como ia acontecer de certeza:
“Então tens uma irmãzinha nova? Estás contente? Ai, agora é que se vão acabar os miminhos!”          
Nunca se soube muito bem se aquela minha irmã nova tinha sido planeada ou se foi mais um acidente de percurso, inclino-me mais para esta última hipótese. A minha mãe aproximava-se vertiginosamente dos quarenta anos, o meu pai dos cinquenta. Seja como for, a notícia de que a minha mãe estava grávida foi para mim um choque, pois catapultava os meus pais para aquela, vulgar e algo nojenta, categoria de seres que praticavam sexo, assunto com que me vinha deparando e revolvendo de forma cada vez mais intensa nos últimos dois anos.
Mas se a existência da minha irmã mais nova não terá sido provavelmente planeada, o radicalmente oposto sucedeu com a escolha do seu nome. Logo que se soube que seria uma menina, iniciaram-se conversas à mesa de jantar sobre o assunto. A minha mãe, com uma lamentável queda para a história romanceada de Portugal, apresentava sugestões tipo Eurico, o Presbítero que nos deixavam tolhidos de incrédula aversão: Hermengarda, Cunegundes, Urraca...
Felizmente, todos os outros nós torcíamos por nomes menos contundentes e gritantes e, dentro de um naipe onde constava Inês, Margarida e Sara, acabou por ser escolhido, Susana que, como dizia o meu pai num arroubo poético, era de origem hebraica e quereria dizer “pura como o lírio do vale”. 
Pai tardio e feliz do seu terceiro filho, a loquacidade com que o meu pai registou o acontecimento na sua agenda de capa azul do ano de 1964, sobretudo quando comparada com os registos sobre o meu nascimento (reveja episódio n. 8 de Vou-te Contar – Sexo Indeterminado), traduz esse maravilhamento:
Às 23,15 nasceu com 3.670 no Hospital da Lapa a Maria Susana
Voltar-se-á a falar dela por aqui.


© Fotografias (de cima para baixo): (1) Pedro Serrano, Praia da Areia Branca 2010; (2) Pedro Serrano, Porto 2010.