02 julho 2010

VOU-TE CONTAR: 11. Temporário como Aquiles

Tirando os seis meses na Boavista, morámos sempre nesta rua.
A 18 de Janeiro, o meu pai registava laconicamente na sua agenda de capa bege do ano de 1966: “Comprei andar na Boavista”. Por Boavista queria ele significar a Avenida da Boavista, na sua metade medida entre a Rotunda e a Foz, uns prédios acabados de fazer, conhecidos por “Graham” (nome do empreendedor imobiliário) ou, como passei a dizer, “moro no Foco”, que era o outro modo como os três prédios ficaram conhecidos por causa do moderno cinema do mesmo nome que integrava a iniciativa residencial.
Não me perguntem os porquês, tinha trezes anos – pelo amor de Deus! – e andava mais embrenhado no meu acne e nos pormenores melódicos do “Michelle” e do “Day Tripper” (acabados de sair da dupla Lennon-McCartney) do que no contexto sociológico da classe média-alta tripeira. Só sei que, de repente, se tornou moda, uma coqueluche, ir morar no Foco. Metade das famílias conhecidas, muitos dos meus vizinhos, bastantes dos meus colegas de liceu foram morar para o Foco nesse ano e nos seguintes. Em minha casa, o meu pai foi torrencialmente contagiado pela epidemia para grande angústia da minha mãe, aflição da minha irmã mais velha e ralação da Belmira, a nossa empregada interna da época. A esta e à minha mãe aterravam-nas perder o quintal e a vizinhança; à minha irmã mais velha, então com dezasseis anos, eram as amizades da rua e das redondezas que lhe iam provocar trauma. Como deixar, sem um coração desfeito, a proximidade visual das maiores amigas do mundo, dos amigos “és como um irmão para mim” e emigrar para as lonjuras de meia-dúzia de km a poente? 
Neste acontecimento fracturante, a minha irmã mais nova e eu mantivemo-nos em silêncio, embora por motivos distintos. Ela, por imperativo dos seus dois anos de idade, eu, por motivos inconfessáveis. Interiormente, rejubilava com a perspectiva da mudança de casa, mas não podia confessar que grande parte desse júbilo me vinha da vergonha que tinha por habitar uma moradia com quintal quando todos os meus amigos, conhecidos e colegas de turma moravam em andares! Cada vez que ia a uma festa de anos num terceiro andar, a um baile de sábado à tarde numa garagem dum prédio e alguém me perguntava onde morava, como morava, enrubescia de humilhação no silêncio que precedia a confissão: 
“Moro numa casa de dois andares, com um enorme quintal, numa rua residencial lá para os lados do Amial...”








Residimos no Foco seis meses, mudámo-nos outra vez para a Rua Nova do Tronco, para a nossa velha moradia com quintal, em finais de Junho, no dia em que fiz catorze anos. Suponho que a data da mudança foi uma coincidência, mas senti tudo aquilo, para além do profundo desgosto, como um amargo castigo...
Com a excepção única da minha perspectiva, aqueles seis meses num sexto andar do Foco resumem-se num rosário de pequenos dramas e desenharam os contornos de uma maldição doméstica: A sumptuosa lareira da enorme sala comum com vista para o-mar-da-Foz-lá-ao-fundo não se conseguia acender sem fumo, o que deixou o meu pai muito irritado por a ter esgrimido como argumento versus a humilde salamandra do Amial. Ainda por cima o problema afigurava-se irresolúvel, pois o defeito provinha de a chaminé ser um cano comum àqueles andares todos e bastava o vizinho do quarto-andar acender a lareira para que nós tivéssemos em casa a sensação de uma sardinhada. Depois, uma tarde, a minha irmã de três anos de idade resolveu fechar-se à chave no quarto vazio dos meus pais, quarto que tinha uma enorme e acessível varanda com vista para o asfalto da avenida da Boavista, uma trintena de metros lá em baixo. Finalmente, a minha mãe detestava os vizinhos, dizia não ter com quem falar, não tinha quintal onde espairecer, fazia-lhe falta a proximidade de rua que tinha no Amial com os irmãos, meus tios, e a mãe, a minha avó Zaida.
Por via das más influências, acho que acabei por ser eu a gota de água no regresso à província... A tendência negativa das minhas notas no liceu ressentiu-se, ainda mais do que o costume, do novo habitat e, um dia, o meu pai deu conta que desaparecera uma nota de mil escudos (a mais potente de todas as que o Banco de Portugal fabricava na altura) da colecção que mantinha escondida, para emergências, no grosso volume Sintomatologia de las Enfermedades Internas. Confesso que já tinha alguma prática de desviar dinheiro para pequenas necessidades, sobretudo ao porta-moedas da minha mãe que, sendo Gémeos e poetisa, não dava conta de nada. Mas os meus desvios tinham sido, até à data, humilíssimas quantias, somas adequadas à aquisição de chicletes, seriados de banda desenhada ou bolas de Berlim. O upgrade que decidi encetar na Boavista tinha como finalidade comprar alguns dos discos que, a ritmo estonteante, iam aparecendo na cena musical e contribuir para que não fosse o único de todos aqueles tipos com quem agora me dava a aparecer com nada para mostrar. Por este comportamento desviante fui duramente castigado e temporariamente afastado do convívio familiar. Recordo o ostracismo que me impediu de assistir na TV, em companhia do resto da família nuclear, à procissão das velas, em Fátima, na noite de 12 de Maio de 1967. Recordo também a satisfação escondida com que recebi a notícia de que no Verão desse ano iria trabalhar como marçano, para pagar a dívida que contraíra com o meu roubo, na firma do meu tio Mário.
Mas nem tudo foram tristezas nesse Junho, mês em que deixava a Boavista e guardava comigo para sempre a memória do meu primeiro beijo na boca e da audição integral de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o novo álbum conceptual dos Beatles.
Ainda hoje, quatro décadas passadas, no top ten das emoções profundas, o meu coração balança na ordenação dos dois acontecimentos. Talvez seja melhor descrevê-los e deixar os meus ouvintes decidir....
Chamava-se Raquel e era uma beldade local de doze anos de idade por quem toda a matilha de rapazes dos prédios andava apaixonada. Não me alongo nos pormenores da minha paixão não correspondida, direi que passava longas noites revirando-me na cama do sexto-andar, pensando ouvir a voz dela lá em baixo, nas ruas arborizadas entre os prédios, misturada à da recolha nocturna do lixo, alucinação que me levava a levantar e ir espreitar a janela com periodicidade assustadora. Um fim de tarde, quando eu me refugiara numa estratégia de fingir não mais estar fascinado pelos seus olhos castanhos, ela abdicou temporariamente da companhia da matilha para acompanhar a minha indiferença até ao sexto andar dos meus pais. Algures por volta do terceiro andar premiu o botão de stop do elevador e, encostado ao espelho do fundo, sem defesa, vi-a avançar sobre mim. A boca dela sabia a laranja, a língua um maravilhoso espremedor vivo. 
Encontrei reminiscência desta experiência no entardecer do dia 1 de Junho, ao ouvir, em primeira audição em Portugal, a canção “Lucy in the Sky With Diamonds”, logo na primeira estrofe:
                    Picture yourself in a boat on a river
                    With tangerine trees and marmalade skies
                    Somebody calls you, you answer quite slowly
                    A girl with kaleidoscope eyes
pois aqueles céus de compota de laranja pareceram-me idílio muito próximo desse por onde, escasso mês antes, tinha deambulado com Raquel nos respectivos céus da boca. Divago.
No dia 1 de Junho de 1967 tive de errar por dois transportes públicos até chegar à rua Nova do Tronco, a casa da minha avó, onde tinha combinado encontrar-me com os meus primos Manel e Heitor antes das sete da tarde. Quando, um mês antes, nos rumores do liceu, ouvimos anunciar que o Em Órbita, um programa de música da Rádio Comercial, iria passar, em audição integral, o novo álbum dos Beatles, o esperado, anunciado e ainda não à venda Sgt. Pepper’s, em gravação nos estúdios de Abbey Road há mais de seis meses, o nosso primeiro sentimento foi de desânimo. É que em nenhuma das nossas casas havia rádio com FM (frequência modulada) e o Em Órbita emitia somente nessa frequência de onda...
“A casa da avó Zaida...”
Apesar de ser a casa da avó, apesar da sala de estar, com o seu piano de parede com castiçais, os seus espelhos e dourados, parecer um salão saído do século XVIII, tinha a um canto um Graetz, um rádio-armário-gira-discos de madeira lacada e painel dourado, apetrechado com todas as ondas radiofónicas possíveis na época: onda curta, onda média, onda longa e frequência modulada.
Não obstante o convidativo apelo do sofá e das poltronas, forradas em tom verde-água, apesar do tapete espesso que cobria o chão do centro da sala, sentámo-nos no chão encerado em frente ao rádio, a uma distância inferior a um metro do seus altifalantes hi-fi. E ali aguardámos, com a expectativa e a reverência de quem espera as revelações universais de um mestre, que se vertesse sobre nós aquele som por revelar, aquela música que nunca desiludia e que fazia o nosso mundo interior avançar eternidades em contáveis minutos.


© Fotografias: (1) Pedro Serrano, Porto (2010); (2) Autor desconhecido, Porto (1967); (3) e (4) Pedro Serrano, Porto (2010).