29 julho 2010

O FIM DE LADY X

 Andreas Vesalius, 1514-1564.
Branco é a cor dominante no Teatro Anatómico da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Branco a jorrar da abundante luz que entra pelas frequentes janelas de vidro fosco, branco a reflectir-se da pedra-mármore das mesas de dissecção; todo em tons de branco é, até, o baixo-relevo onde o renascentista esqueleto de Vesálio rumina, de pernas cruzadas e apoiado numa coluna de mármore, sobre a condição humana. 
Nós, alunos do primeiro ano, precisávamos de umas duas semanas para nos habituarmos a tudo aquilo e sempre que, durante esse período de adaptação, cruzávamos a porta do Teatro Anatómico os nosso olhos enchiam-se de lágrimas, o nariz escorria. Que não se pense a reacção emotiva, provocada pela horda de cadáveres que adornavam as mesas ou esperavam boiando no tanque de formol, numa promiscuidade que nem o alvorecer do dia do Juízo Final. A causa das lágrimas era precisamente esse formol, a invulgar quantidade que enchia a piscina dos cadáveres e que, sendo volátil, assombrava toda a gente que por ali andava. Quanto aos cadáveres, o seu potencial emotivo era quase nulo, a sua semelhança com o invólucro humano de Lineu era demasiado remota. Quase nenhum deles tinha pele e o que encarávamos eram seres formados por músculos de uma textura de plasticina acinzentada, que tal é o efeito da cozedura em formol sobre as fibras musculares, à nascença de um vermelho-bife-do-lombo.
A primeira vez que entrei no Teatro Anatómico, e isso aconteceu antes da primeira aula de Anatomia Descritiva, ia em busca do Sr. Júlio, o homem responsável pela logística do local e com quem se ia falar por causa da compra do esqueleto. Mas antes, para acomodar a timidez, detive-me junto de uma bancada onde dois alunos de bata se afadigavam em torno de um osso, que tratavam com o cuidado de um caco arqueológico do Alto Egipto. Um deles levantava questões, apontando o osso, e o outro respondia desbobinando uma miríade de detalhes sobre concavidades, convexidades, estrias, sulcos e, até, o nome de ridículos e diminutos orifícios por certo inúteis! Pasmei e não me abstive de comentar, comentário motivado pela incapacidade que já sentia em algum dia ser capaz de vir a decorar tudo aquilo:
“Porra, vocês sabem disso!”   
Olharam-me com um ar próximo de interpretarem o que eu tinha dito como um insulto, muito mais do que o elogio que era. Um deles respondeu, soturno:
“Somos repetentes, pá, e isto é um parietal, o osso mais fácil de todos...”
Esmagado, fui em busca do Sr. Júlio, que me tinham apontado estar numa divisão à entrada do Teatro. Era dali que vinha toda a vaga de formol e o que vi quando entrei na divisão, e os meus olhos se habituaram à nova concentração tóxica, foi um homem de bata branca que, de costas para mim, se debruçava perigosamente sobre um tanque rectangular e profundo onde boiavam coisas. Remexia em tudo aquilo de mãos nuas e como quem procura apanhar determinada lagosta num aquário de marisqueira. Quando conseguiu o que queria soltou um “ah” de satisfação e encaixou ao ombro aquilo que percebi ser meia-nádega e a respectiva anca, coxa, perna e pé.
“Que foi?”, disse quando me viu ali especado a tapar-lhe a porta.
“Sr. Júlio, vinha por causa do esqueleto...”
“Espere um bocadinho, já trato de si”, respondeu, passando por mim com a peça às costas e indo depositá-la numa das mesas de mármore.
Hoje em dia as coisas são algo diferente e para o estudo da Anatomia há, para além dos livros, perfeitos e detalhadíssimos conjuntos de ossos em plástico, modelos 3D, imagens holográficas, aplicações em computador. Mas durante os anos 70 (e antes disso) os 206 ossos do corpo humano deviam ser estudados em esqueletos verdadeiros ou, para ser mais preciso, naquilo que se chamava “meio esqueleto”. É que o corpo humano é razoavelmente simétrico e com uma caveira e metade dos ossos do restante corpo ficamos servidos. Foi isso precisamente que acordei com o Sr. Júlio nessa tarde. Através dos serviços dele compraria meio-esqueleto.
Quando, passados dias, fui buscar a minha encomenda fiquei surpreendido com o pouco espaço que tudo ocupava dentro de um vulgar saco de plástico de supermercado, onde apenas uma ponta de fémur espreitava. Como simpatia, o Sr. Júlio juntara um conjunto completo dos ossos da mão, acondicionados numa caixa de fósforos de cozinha da marca Club.
Em casa, excitado com as novas possessões, espraiei o conteúdo do saco em cima da cama. Os ossos eram bastantes desirmanados e tanto tinha uma tíbia esquerda como um peróneo direito; uma clavícula antiga e de cor amarelada ou uma omoplata quase nova, branca como uma dentadura postiça e ainda com um vago e adocicado hálito orgânico. Não interessava e, sobretudo, estava contente com a peça mais vistosa: o crânio. Uma caveira delicada, pequenina, de mulher, que me tinha chegado sem o maxilar inferior original. Articulei-lhe um queixo de homem, para que ficasse com um ar completo, restou uma certa desadequação de tamanhos a que me fui habituando com o tempo.
Geralmente, os alunos de Medicina costumavam voltar a vender o esqueleto, ao Sr. Júlio ou a colegas mais novos, quando chegavam ao terceiro ano e suspiravam por se verem livres da Anatomia. No meu caso, no entanto, apeguei-me às ossadas e elas continuaram comigo: o crânio em exposição e em lugar de relevo no meu quarto, o resto de novo metido num saco de plástico, arrumado num esconso por baixo das escadas da casa dos meus pais. 
Durante décadas arrastei aqueles ossos comigo por todos os locais onde morei e acabei por, usando Super-cola 3, colar a calote craniana (a tampa serrada da caveira) à base do crânio, pois estava sempre a escorregar e a minha Lady X ficava com uma pose muito desastrada de miolos ao léu. De Lady X nunca soube quem era nem que idade tinha e a falta de alguns dentes na caveira tanto se podia dever à velhice como a uma perda espontânea durante a estadia em algum tanque de formol. 
Uma certa altura pensei que o melhor era desfazer-me do esqueleto, mas tive um filho, nasceram sobrinhos à minha volta e decidi  esperar e ver o que acontecia em termos de vocações, pois o esqueleto podia voltar a ser útil no clã familiar. Como nada disso sucedeu, há meia-dúzia de anos atrás doei o conjunto de ossos ao Museu da vila onde moro, mas mantive a caveira de Lady X comigo. Ultimamente estava pousada sobre uma coluna da aparelhagem, no patamar das escadas que levam ao meu quarto. Todos os dias ao subir ou descer as escadas passava por ela, às vezes chegava a saudá-la ou a afagar-lhe a calote...
E um dia, sem que saiba minimamente o porquê, numa revelação que demorou mais de três décadas a iluminar o interior da minha própria calote craniana, achei que bastava, que Lady X merecia o descanso, que, de algum modo, isso reporia a falta de ter passado tantos anos sem resguardo, sem uma ideia de intimidade, sem um poiso perene.
Uma tarde de Sábado enterrei-a nas traseiras do quintal, sob a laranjeira brava. Cobri-a com um belo seixo da praia, mais um ninho vazio de piscos que o Sr. Armindo  encontrou quando a palmeira foi limpa; as flores, as velas e o incenso do costume. Agora, Lady X repousa finalmente em paz, embora tenham aumentado as  probabilidades de vir a ser detido e interrogado por se ter encontrado uma caveira humana enterrada no meu quintal. “Ossos do ofício, inspector”, responderei nesse putativo interrogatório.
Sobrevivem-nos as pedras e a luz do sol.


























© Fotografias (de cima para baixo): (1),  (2), (3) Pedro Serrano, Praia da Areia Branca, 2010.