17 julho 2010

UM MILAGRE (não inferior ao de Carnaxide)

Em Setembro de 1993 fui a um encontro médico em Santiago de Compostela. Como me inscrevi tardiamente e a cidade pululava de iniciativas, já não consegui hotel no âmbito da organização do encontro e fiquei, pelo preço de uma esmola, alojado duas noites num convento na Praça do Obradoiro, praticamente em frente à Catedral.
Após atravessar um pátio descomunal, calcorrear um longo claustro e subir uma escadaria de granito, onde poderia acostar um transatlântico, chegava-se ao meu quarto, situado ao fundo de um telescópico corredor. Depois daquela vastidão, os meus olhos quase tropeçaram ao entrar num espaço que deveria ter sido cela de monge, a supor pelo tamanho e pelo esquálido recheio. Um catre de ferro, com a largura estrita para que um corpo ali se deitasse, um armário de metal com uma única cruzeta e um quarto-de-banho concebido com a generosidade de uma kitchinete: mini-lavatório, sanita, duche. Luz a condizer, uma lâmpada lá longe no tecto e um olho-de-boi por cima da cama, soltando uma luz tão anémica e amarela como uma canja de pacote. 
No segundo dia, num daqueles stands que há sempre nestes encontros, comprei um livro chamado How to Write & Publish a Scientific Paper (autoria de um senhor chamado Robert Day), sentindo-me, mesmo antes de o abrir, muito afortunado com a aquisição. É que eu andava mesmo a precisar de um livro daqueles! Nos cinco anos anteriores, por razões decorrentes de actividade profissional na formação de médicos da minha especialidade, tinha lido centenas de relatórios, currículos e toda a espécie de trabalhos escritos que produz um médico em especialização. E a apreensão acumulava-se ao deparar, dia após dia, com relatórios de actividades pouco claros; relatórios de investigação deficientemente estruturados e pejados de conclusões abusivas; currículos escritos em linguagem gongórica, de dimensão e conteúdo capazes de levar ao desespero qualquer júri de avaliação...
Comecei a procurar, a ler tudo o que me aparecia à frente sobre redacção médica, sobre escrita técnica e científica. O panorama português na matéria deixava a desejar, fosse na quantidade ou na qualidade. As publicações eram, maioritariamente, de tipo cinzento, dispersas, breves, muito particulares, e os assuntos eram tratados de uma forma ou demasiado amadora ou irritantemente reduzida à enumeração de tópicos, sem dar a receita de como se faziam as coisas ou esquecendo-se de remeter para quem o fizesse. Isto é, deixado o sequioso leitor, o trémulo necessitado, na mesma! 

Nessa procura ainda muito caseira (estávamos no início dos anos 90, em pleno reinado do papel e de sonolentas bibliotecas, não havia net, Google ou Amazon.com) topei um dia com um livro do Umberto Eco sobre o tema. A sua leitura foi uma iluminação, sobretudo no dar conta que se podia escrever um livro sobre assunto tão árido de uma forma brilhantemente bem-humorada. No entanto, a obra de Eco não satisfazia as minhas necessidades em absoluto, pois ele escrevia sobre regras para a área das ciências humanas e eu (e as nossas centenas de médicos em formação) movíamo-nos na área biomédica, uma área com fronteiras e exigências algo diferentes. 
Da centrifugação e fermentação das minhas leituras nessa época resultou um texto dactilografado, com cerca de 30 páginas, onde resumi alguns dos princípios e das regras mais importantes em termos de redacção de textos médicos e esse era o ponto em que me encontrava nessa noite em que rodei a chave na fechadura da porta da minha cela em Santiago de Compostela. Estafado, deitei-me, extingui o olho-de-boi e preparei-me para a descida do sono.
Quis o destino que tivesse uma insónia e, uma meia-hora volvida sobre o difícil revolver em leito tão estreito, resolvi acender a luz e matar o tempo com leitura. As minhas opções resumiam-se aos folhetos distribuídos no congresso, a uma Bíblia de gaveta de mesa de cabeceira, ou ao livro do Robert Day sobre redacção médica. Peguei no Day para entreter a noite. O livro tinha 200 páginas e li quase metade, fechei-o entrava já uma tonalidade leitosa pela nesga de janela ao fundo da cela. Ao fechá-lo, usei, como marca das páginas onde parara a leitura, uma decisão:
Iria escrever uma coisa semelhante, em português, tendo em conta as peculiaridades da situação portuguesa. E, na esteira de Umberto Eco, iria usar o mesmo tom leve, simples e bem-humorado que o americano, num registo muito inglês, usava também na escrita.
Sabe-se o destino das decisões tomadas durante a noite. No dia seguinte podem, simplesmente, ter-se evaporado ou surgirem tão diminuídas e engelhadas como um balão de festa a quem o hélio abandonou... Mas não, e esse foi o milagre.
Três anos de pesquisa e escrita depois (1996) foi posto à venda, um livro de 300 páginas sobre o assunto, editado pela Relógio d’Água. Meia dúzia de anos passados, num processo lento mas sem quebras, o livro tinha desaparecido das livrarias e integrava a lista da bibliografia de referência de escolas médicas e de enfermagem um pouco por todo o país, era recomendado a alunos e formandos de outras licenciaturas e, com surpreendida satisfação minha, estava a ser usado em teses de mestrado e doutoramento de áreas tão distintas como Arquitectura, Psicologia, Finanças, Direito, Engenharia, Informática e Design.  
Foi preciso pensar numa sequela... Na produção dessa segunda edição (posta à venda no final de 2004) investi para que ela fosse mais do que uma reimpressão, uma caiadela no texto anterior. 
Desde logo, o livro foi revisto sob a lógica de o tornar ainda mais acessível a leitores de áreas que não as da Saúde. É provável que essa tentativa não tenha sido totalmente conseguida, mas os limites impostos pela minha formação nuclear (a Medicina) não recomendavam que me espreguiçasse, em completo à vontade, noutros conceitos, técnicas e exemplos que não aqueles que domino razoavelmente. Todo o texto foi actualizado, acrescentado com novos conceitos e reforçado na ilustração prática das noções nele contidas. Um exemplo deste reforço é o texto dedicado à citação e referenciação de documentos gerados, publicados e divulgados através de computador, que cresceu da página única da primeira edição para mais de uma dúzia na segunda.
A consequência deste investimento na segunda edição foi um crescimento de cerca de 50 páginas do volume. O livro está por aí à venda nas livrarias (reais e virtuais), mas se não o encontrar pode sempre encomendá-lo à editora em www.relogiodeagua.pt
A título de exemplo do que o livro é, aqui fica, à distância de um clique sobre a capa, a oferta de um substancial naco do capítulo dedicado à apresentação de referências bibliográficas (clássicas e electrónicas), crónica dor de cabeça para quem é obrigado a andar envolvido nestas andanças.  

Nota sobre o Milagre de Carnaxide:
"E, á falta de Deus Padre, lá estava Nossa Senhora da Soledade, padroeira da casa e madrinha do menino, para fazer o bom milagre.
E o milagre fez-se. Mezes depois, o Jacobino, o Marat, voltava de Santa Olavia um pouco contricto, enfastiado sobretudo d'aquella solidão, onde os chás do brigadeiro Senna eram ainda mais tristes que o terço das primas Cunhas. Vinha pedir ao pae a benção, e alguns mil cruzados, para ir a Inglaterra, esse paiz de vivos prados e de cabellos d'ouro de que lhe fallara tanto a tia Fanny. O pae beijou-o, todo em lagrimas, accedeu a tudo fervorosamente, vendo ali a evidente, a gloriosa intercessão de Nossa Senhora da Soledade! E o mesmo Frei Jeronymo da Conceição seu confessor, declarou este milagre - não inferior ao de Carnaxide."
[Eça de Queiroz, Os Maias, 1888.]

De cima para baixo: © Fotografia de Ricardo Ventura, 2009; © Relógio d'Água e Pedro Serrano, prova de impressão da capa e da contracapa, 2004.