04 julho 2010

VOU-TE CONTAR: 13. A única coisa boa

Estou com a minha mãe na casa antiga, no quarto de banho ao cimo das escadas, quando toca o telefone.
Ali onde estou, sentado no banquinho ao lado da banheira, vejo o primeiro lanço das escadas e o tubo prateado da salamandra que mergulha pelas voltas do corrimão. A minha mãe diz, antes de desaparecer no patamar:
“Vá, agora põe as meias e calça-te... Olha a hora da consulta!”
Tenho oito anos nesta tarde de fim de Novembro, os Beatles ainda não foram descobertos pelo Brian Epstein, e o meu historial clínico, para além de fugazes doenças infantis, é marcado por amigdalites de repetição, infecções que, às vezes, se transformam em abcessos que têm de ser drenados na consulta de otorrinolaringologia do hospital de S. João. Não há antibiótico que lhes pegue, o meu rabo está intoxicado de penicilina, furado e atrapalhado com tanta agulha entupida. 
Para mim é já uma rotina abrir os queixos quase até à desarticulação, deixar que o meu pai me esfregue as criptas das amígdalas com algodão encharcado em mercurocromo, acho até uma certa graça mórbida à sensação de queimor que aquilo provoca na garganta, prazer só ultrapassado no estampado de satisfação da cara do meu pai ao eliminar do mapa mais uns milhões de estreptococos. Mas o último desses abcessos, ocorrido no início desse Outono de 1961, foi tão grave que ninguém conseguiu enfiar-me na boca uma pinça envolta em algodão, pois eu não conseguia separar os lábios mais do que uma fenda onde caberia, res-vés, um lápis; a custo conseguia comer coisas moles e até engolir líquidos era doloroso! Assim, apesar da violência do processo, no fim da drenagem do abcesso, senti-me tão aliviado e tão merecedor de um mimo pelo modo corajoso como tinha aguentado tudo aquilo que pensei que o copo, com um líquido vermelho-escuro a nadar lá dentro, que me estendia a enfermeira era uma groselha recompensatriz e engoli um generoso trago, à confiança. Não era, era um qualquer desinfectante hospitalar e o intuito era o bochecho, mas ninguém é claro a explicar seja o que for nos hospitais....
Nesse dia do abcesso e da groselha, o otorrino disse ao meu pai que não podíamos continuar assim e que logo que eu saísse daquele estado infectado deveríamos passar por lá para marcar a operação às amígdalas, com anestesia geral e tudo. Essa perspectiva da anestesia geral, que eu sabia incluir injecções nas veias e talvez dormir no hospital, eclipsou por completo a antecipação da dourada convalescença em que só me seria permitida uma alimentação à base de gelados e sorvetes. 
© Fotografia de Pedro Serrano, Porto (2010).
Estamos, então, nessa tarde para que foi agendada a consulta em que será decidido o dia da minha operação à garganta. Estou apreensivo e pensei que o toque de telefone lá em baixo pudesse estar relacionado comigo, com a consulta; assim, mal a minha mãe desapareceu no patamar, saltei do banco, desci os degraus descalço e sentei-me no terceiro degrau do segundo lanço de escadas, poiso de onde posso observar o que se passa no hall de entrada, local onde está o telefone, pousado numa mesa baixa.
A minha mãe está ao telefone, a cara dela está estranha, olha para mim a calçar as meias de lã com um olhar como se estivesse a pensar noutra coisa. Diz, a olhar na minha direcção:
“Agora tenho de ir...”
Desliga, sobe as escadas até chegar ao meu lado. Senta-se no degrau abaixo do meu e ajuda-me a calçar a segunda meia, os sapatos. No fim, faz-me uma festa na cabeça, diz:
“Já não vamos à consulta, sabes? Vais ficar aqui com a Clarinha e a Tomásia, portar-te bem. Vou ter de sair, não devemos vir jantar, nem eu nem o pai...”
Faz-me outra festa na cabeça, beija-me e tem lágrimas nos olhos.
Heitor Campos Monteiro (fotógrafo desconhecido).
O meu avô Heitor, pai dela, tinha morrido, subitamente, à secretaria do seu gabinete no Banco; aquele era o telefonema em que lhe estava a ser dada a notícia. Nunca mais tive amigdalites depois disso, não fui operado e essa foi a única coisa boa sobre a morte do meu avô.