25 julho 2010

VOU-TE CONTAR: 17. Rolo de Barcelos

Avó Zaida (fotógrafo desconhecido).
A minha avó materna morreu em 1971, a 4 de Junho, dia do natalício da minha mãe, o que foi considerado mau augúrio por ela, que passou a achar que morreria também num 4 de Junho. Não morreu, foi-se em Março, nasciam os primeiros gomos verdes nas hidranjas (hortênsias para os nascidos a sul do Douro) do quintal da nossa casa do Porto.
Tinha 17 anos e foi o primeiro grande desgosto familiar a que assisti sem entraves. Antes desse tinha ocorrido a morte do meu avô materno, seu marido, mas nesse Novembro fui considerado demasiado pequeno, não me deixaram participar em nada, houve até quem pensasse que me tinham conseguido ocultar a morte dele. Desse modo, eu e os meus dois primos, tivemos que fazer um luto secreto e discreto por ele, o qual consistia em esgueirarmo-nos para o seu escritório-biblioteca e ali, no recolhimento da luz apagada e das portadas cerradas, com a dignidade com que éramos treinados para os momentos mais sagrados da missa, concentrávamo-nos até chorarmos que se visse. Os três, cada um usando o combustível que podia para convocar as lágrimas, do meu fazia parte o milagre de nunca mais ter tido nenhuma amigdalite, ter evitado a operação e as injecções nas veias. 
Quando a minha avó morreu, a minha irmã mais velha já namorava o meu futuro cunhado Manuel e eu passei o dia do funeral a pedir-lhe os Ray Ban emprestados, que para alguma coisa um namorado das nossas irmãs deve servir.
Essa minha avó chamava-se Zaida, era de ascendência espanhola e como já passaram 40 anos desde a sua morte penso que já lhe terão feito o upload do Purgatório para o Céu, mas como a bitola da eternidade é algo dúbia vou dar aqui o meu contributo para que o seu pecado mortal mais evidente seja perdoado e apagado dos seus ficheiros de uma vez por todas.
A minha avó Zaida sofria gravemente de Avareza, o 5.º em ordem de gravidade segundo o Papa Gregório I, mas logo o 2.º na lista de pecados mortais elencada por Evágrio do Ponto. Como em qualquer pecado mortal, o Demónio escolhe as mais insuspeitas vias para se mostrar e, no caso dela, o seu crime manifestava-se na forma impiedosa e absoluta como impedia o acesso dos demais mortais, incluindo as mulheres da família mais chegada (filhas!) aos seus segredos culinários.
Os meus avós moravam numa grande vivenda, uma mansão, mesmo em frente à casa onde nós morávamos, do outro lado da rua. Essa mansão tinha três entradas principais, cada um dos acessos feito por uma escadaria de granito. A entrada de trás, virada a Norte, era a entrada formal, a mais cerimoniosa, e a ela se chegava depois de atravessar um jardim à francesa, simétrico, geométrico, que incluía um mirante romântico com pérgola e tudo. A entrada Norte era mais luminosa e o visitante que subia as escadas era abençoado por um painel de azulejos representando um Santo António algo gay, de olhos em alvo e mãozinha suspensa com ar de pulso quebrado.
Finalmente, havia a entrada que toda a gente usava, a que ia dar à copa e onde, à direita de quem entrava, numa parede a coberto dos olhos da cozinha, ficava um aparador multi-usos. Na parte de baixo do armário ficavam as gavetas onde eram guardados, em liberdade, livres de sacos, o feijão, o arroz e a massa de uso mais imediato e era para mim irresistível tentação mergulhar as mãos naquela matéria e encher a boca de punhados de arroz cru, temperado pela saborosa poalha que cobre o arroz antes de ser demolhado. 
Mas isso não era nada fácil de conseguir, pois, para além de ser terminantemente proibido, as gavetas estavam logo por baixo do tabernáculo onde eram aferrolhados os cadernos de receitas da minha avó Zaida e, por isso, sob apertada vigilância.
Embora nunca ninguém lhes tenha lido o conteúdo antes da morte dela, a todos nos tinha sido concedida a sorte ou a graça de ver o corpo físico onde se alojavam as receitas para os tesouros que se consubstanciavam em deslumbramento nas mesas da minha infância: os verdadeiros pastéis de massa tenra de vitela, o arroz de costela-mendinha, o souflé de pescada com amêijoas e, particularmente, as divinas sobremesas onde, para o meu gosto e mais ainda do que a Pinha de Chocolate ou o Picado das Abelhas, reinavam o Rolo de Barcelos e o Doce Tirsense. Esse invólucro consistia em cadernos de capa negra e aspecto aparentemente banal onde ela escrevia as receitas e colava com goma arábica, guardada em frasco de vidro com uma teta de borracha verde na ponta, os recortes seleccionados que ia buscar a jornais e revistas.
Mas os momentos em que esses cadernos permaneciam à vista de quem passava eram fugazes e nenhuma manobra de diversão ou acto de espionagem, por mais tentado e sofisticado, conseguiu jamais obter a combinação de ingredientes ou processos antes do fatal gesto em que fechava a capa, os metia no armário, fechava a porta à chave e a guardava no seu regaço sagrado e inacessível.      
Em desagravo, aqui fica a receita do Rolo de Barcelos, que agora constitui o clássico e muito esperado contributo da Titi (a minha tia Teresa, irmã mais nova da minha mãe) aos Natais e encontros da família. 



ROLO DE BARCELOS

Ingredientes:
250 gramas de açúcar
5 ovos inteiros
1 colher de sopa de farinha
1 colher de chá de canela
1 pouco de raspa de limão.

Confecção:
Batem-se os ovos com o açúcar, junta-se a farinha misturada com a canela e o limão.
Unta-se um tabuleiro rectangular com manteiga e farinha.
Coze rápido em forno quente e o palito de teste deve sair sempre húmido.
Vira-se num guardanapo e enrola-se.




© Fotografias de Pedro Serrano: (1) Viana do Castelo, 2003; (2) Porto, 2009.