23 julho 2011

BOLERO BLUES (é impossível cantar essa porra!)

Agora que Chico Buarque de Hollanda tem um novo disco no mercado (Chico, 2011 – o homem sempre se esteve um bocado nas tintas para inventar títulos para álbuns e há já discos anteriores com nome similar), deixem-me contar-vos uma historieta relacionada com o disco anterior, episódio que o U Tube me vai ajudar a ilustrar.
Carioca é um disco de 2006, parido depois de longos anos de espera (o anterior disco de originais de disco foi As Cidades, de 1998) e a primeira sensação que se podia ter, ouvindo o disco como pano de fundo e de modo distraído, é que era um disco um tanto chato.
Mas, perigosos são os discos ou as canções que não entram à primeira! Carioca é um maravilhoso disco, música e letras, produto requintado, e é difícil escolher uma canção que possa ser dita melhor do que outra. Com uma pistola apontada à cabeça, talvez acabasse por escolher “Bolero Blues”, uma canção quase no limite do impossível. “Bolero Blues” é uma daquelas canções que arranham quando se ouve as primeiras vezes e, mais do que o cantor nos soar desafinado, parece-nos uma música desafinada em si. Depois, damos por nós a pensar nela, a carregar na tecla repeat  do leitor de CD quando a última estrofe termina; a trauteá-la mentalmente, a acompanhá-la em voz alta quando a ouvimos de novo e, finalmente, a dar conta da espantosa letra que Chico Buarque lhe engastou. Uma letra com imagens poéticas de enorme beleza, embrulhadas num sentimento nostálgico, com um toque irónico e levemente amargo do tempo que passa como ponto final, e ainda com fôlego para piscar um olho a Vinícius de Moraes. Que mais se pode desejar como tecido dramático?
Dito isto, a tal história.
Durante as gravações de Carioca, Jorge Helder, o (contra)baixista regular de Chico Buarque nos últimos anos, apareceu com uma música composta por ele; uma composição tão complexa e difícil que, de imediato, toda a gente no estúdio a classificou como impossível de letrar e cantar.
Chico Buarque que, como método de trabalho, faz primeiro as músicas e só depois lhes veste o poema, ficou preso na melodia e arranjou-lhe a tal letra impossível. Brincalhão, deu conhecimento do facto aos restantes músicos e, como garotos, combinaram chamar o baixista ao estúdio para, em desconhecimento da vítima, lhe pregaram a partida de revelarem a sua nova canção (que seria a primeira composição que ele veria letrada – e logo por quem!).
O resultado é tocante de se assistir (Vídeo 1). Jorge Helder, como dá para perceber, é um homem tímido, introvertido, e fica extremamente perturbado quando se apercebe do que lhe está a acontecer: deixa a sala, chora, tem de beber um copo de água, enquanto Chico vai brincando ternamente com ele. Depois senta-se, é-lhe enfiado um violão nas mãos, e, em directo, podemos assistir ao milagre do entrosamento entre acordes de guitarra, voz e poema e, ainda mais do que isso, às expressões de compreensão, prazer e maravilhamento que o baixista premiado vai experimentando.
Finalmente, o Vídeo 2 mostra a canção, já encorpada e adulta, no modo como é interpretada por todos os músicos no show Carioca ao Vivo, em 2007.
Meus amigos, minhas amigas, já que estou com a mão na massa deixem que vos diga que, se tivesse que citar um top ten de poetas da língua portuguesa, não deixaria de por lá sarrabiscar o nome de Francisco Buarque de Hollanda que, também com inteiro merecimento, integraria a minha lista de romancistas preferidos em língua portuguesa. Há dúvidas no ar? Leiam, por favor, Budapeste e/ou Leite Derramado e depois voltem aqui para terçarmos armas...  



Video 1: A história de "Bolero Blues".

Video 2: "Bolero Blues", de Jorge Helder/Chico Buarque, 2006.




Quando eu ainda estava moço
Algum pressentimento
Me trazia volta e meia
Por aqui
Talvez à espera da garota
Que naquele tempo
Andava longe,muito longe
De existir
Tantos tristes fados eu compus
Quanto choro em vão,bolero blues
Eis que do nada ela aparece
Com o vestido ao vento
Já tão desejada
Que não cabe em si
Neste crucial momento
Neste cruzamento
Se ela olhar para trás
É bem capaz de num lamento
Acudir ao meu olhar mendigo
Mas aquela ingrata corre
E a Barão da Torre e a Vinícius de Moraes
São de repente estranhas ruas
Sem o seu vestido ficam nuas
E ao vento eu digo
-tarde demais
Quando ela já não mais garota
Der a meia-volta
Claro que não vou estar mais nem aí