22 julho 2011

VAREIA

Proverbial anormalidade, esta de a chuva jorrar nas vidraças e o tempo mais quente lá fora do que aqui mesmo.
Três da tarde, uma varejeira anda sem mestria pelo caixilho da vidraça inferior. Ensurdecida por um insecticida da véspera, não consegue arriscar um voo de ensaio contra os vidros. Zune um pouco, deixa-se estar.
Ele entrou no sonho vindo da direita, na horizontal, veiculado por uma enorme barra de sabão amarelo, onde estava incorporado como se de âmbar se tratasse.
“Não penso que a vida nos traga nada por que valha a pena esperar”, disse-me.
“Então porque não se retira?”, perguntei irritado, pois a presença dele, sentado ao meu lado no balcão, viera perturbar-me.
Sonhava e sonhando eu estava ao balcão de um bar, dando-me conta que um perfil humano ali se encontrava para me ocultar a perspectiva de um terceiro vulto. E sonhava como os sonhos estão espantosamente desenvolvidos, com uma técnica ela própria acessível à análise dos sonhadores.
“Não me retiro, pois assim o decidi”, retorquiu, e eu pude perfeitamente aperceber-me, através do sabão, que ele falava do que sabia.
Tudo se desvaneceu e então eu estava sentado ao balcão, olhando o espelho em frente. Apenas eu, já sem memória, um mundo desmoronado de fresco. Eis-me num bar, num fim de semana (no espelho as pessoas moviam-se, a porta abria-se, um tipo ruivo riu-se) e nem sequer tenho um copo entre as mãos. Um erro no sonho e o erro estava comigo, constatei amargurado.
Acordou com a cabeça a latejar e sentindo um calor exagerado. Foi à cozinha, encheu meio copo de água e voltou à sala. Chovia com força, a água nos vidros diminuía a nitidez da paisagem exterior. Mas a luz era forte, a de uma tarde de Abril. Despejou o pacotinho de pó dentro do copo, mexeu com o cabo de uma esferográfica. “Baaahh”, pior que uma aspirina com sabor a limão só o sabor do sucedâneo de limão de uma aspirina com sabor a limão! Pousou o copo. No caixilho da vidraça inferior uma varejeira, estranhamente parada, emitia reflexos esverdeados. Não parecia morta, mas não se movia, o que era bizarro para mosca. Soprou de leve – a varejeira esboçou um leve movimento de patas.
Pegou num isqueiro e, esperando alívio para a gripe, carbonizou o enorme insecto. As asas, constatou de experiências anteriores, são a primeira coisa a desaparecer.
Ao contrário dos anjos, em que primeiro desaparece a auréola. 

© Fotografia, Pedro Serrano 2011.