28 julho 2011

VOU-TE CONTAR: 38. Um peso no peito

Com regularidade, ainda adolescente, acompanhava o meu pai num domicilio a casa dela, na rua Brito Capelo, em Matosinhos, e ficava aflito quando, ao entrarmos no carro após a consulta, o meu pai desabafava:
“Esta mulher tem o coração desfeito, não sei como ainda está viva...”
Depois, com o passar do tempo e o ouvir repetido desta sentença, fui-me tranquilizando perante este paradoxo de uma pessoa poder ter, medicamente, o coração desfeito e continuar a viver como se nada fosse.
Vizela, anos 20: avô Heitor e avó Zaida, tia Feranda e tia Lelé.
A minha tia Lelé (nascida Celeste Campos Monteiro) era irmã do meu avô materno e casada com o meu tio João Castro Guimarães, um personagem de antologia. Morreu cedo, esse meu tio e a gente, olhando para ele sem saber quem era, tomava-o por um lord inglês: era mais alto do que o comum dos portugueses, tinha uns penetrantes e algo alucinados olhos azuis, o cabelo fino penteado para trás com brilhantina, usava laço e tinha um humor extravagante.
“Celeste, vim agora da baixa, a rua de Sá da Bandeira está em chamas...”
E meia-hora após a minha tia, aflita de procurar ouvir notícias no rádio e tentar localizar parentes que pudessem ter sido chamuscados na tragédia, ele confessava, calmamente:
“Então foste acreditar nisso, mulher?! Não se vê logo que é um disparate?”
Mas a minha tia Lelé era uma pessoa crédula e suponho que estes abanões permanentes no seu quotidiano e o facto de ter sempre vivido uma vida economicamente apertada pelo estado de permanente festejo do meu tio, a imbuíram de uma serenidade bem-humorada ante os altos e baixos da existência:
“Então, tia Celeste”, perguntava a minha mãe, “onde vai de férias este ano?”
“Olha, filha, vou para trezentos e cinquenta escudos”, respondia ela na sua voz rouca e de trémulo peculiar, traçando o seu raio de acção veraneante.
O meu tio João, acelerado na sua queda pela paixão pelo vinho tinto, deixou-a viúva relativamente cedo. Com o seu ar de gentleman, o meu tio João, que assinava o ponto na Mabor, passava a maior parte do seu muito tempo livre nas tascas de Matosinhos, na companhia de marinheiros perdidos em terra e de outros frequentadores desses locais. Não se lhe conhecia, dos jantares de Natal ou das festas de Carnaval em casa dos meus avós, outro gosto que não fosse o vinho e desprezava bebidas aristocráticas como o champagne, o porto, ou o whisky.
Viúva, a tia Lelé continuou a morar na sua vivenda da rua Brito Capelo, uma rua de paralelo riscada pelos trilhos do eléctrico. A casa dela era não muito longe das confeitarias que abasteciam de bolos e cremes as praias de Leça da Palmeira. Tendo ficado só, passou a aparecer muito mais pelas casas das sobrinhas, a dos meus pais, a da minha tia Titi, onde passava temporadas, sempre sem pesar, mantendo o bom-humor sereno e levemente auto-irónico ao serviço de ser apreciada por todos.
Fisicamente, era uma pessoa desengraçada e nós, os sobrinhos-netos, pusemos-lhe a alcunha de “leão da montanha”, animal que, nos anos 60 e 70, era um personagem dos filmes de banda-desenhada que passavam na TV: um felino esgrouviado, desajeitado, de juba curta e bigodes eriçados. Dela, todos recordámos o seu buço rijo e os seus beijos picantes, a voz de cana-rachada estafada, e a moeda de 50 escudos que nos oferecia, embrulhada em papel branco de pontas torcidas, como se fosse um rebuçado. Ficou a imagem do carinho descomprometido que nos despertava, não sei bem porquê, talvez, por ser um exemplo silencioso de perseverança em tempo de náufrago no deserto.
Já grande o suficiente para ter carta de condução, lembro de, à noite, no final do dia que passava semanalmente em casa dos meus pais, a ir levar à sua solitária e fria casa de Brito Capelo, uma casa que exalava o mofo plangente dos objectos antigos e tinha o reflexo sem préstimo dos lugares em que o vazio vai tomando conta de tudo e empurrando, como num cerco silencioso, o único habitante para um espaço cada vez mais restrito.
Tia Lelé, Susana e Miguel. Porto, [1969?]
“Não precisam de se maçar”, dizia, a mim e à minha recente mulher, quando saíamos do carro para a ajudar a subir as escadas, a transportar os tupperwares com os restos do jantar que levara da nossa casa e lhe serviriam de refeição nos próximos dias. Mas nós insistíamos, ajudavamo-la mesmo a deitar-se na cama ainda desfeita, fechávamos a porta à saída, fazíamos o caminho de regresso ao Porto imersos no silêncio cismático que provoca observar a velhice abandonada.
Quando morreu, a tia Lelé deixou-me uma balança de cozinha, daquelas antigas, de estrutura de ferro forjado, com dois pratos de cobre, e um bloco de madeira onde vivem os respectivos pesos, incrustados por ordem decrescente de tamanho. Pouco depois, eu e a João fomos, por um ano e uns pozes, pais adoptivos de uma miudinha de três anos cuja brincadeira favorita era brincar, sentada no tapete do seu quarto, com esses pesos antigos e fazer deles uma família: o kg podia ser o avô, o meio-kg a avó, os 250 gramas o pai e por aí fora... Enquanto os dispunha alinhados pelo tapete, a Teresinha ia conversando com eles e estabelecendo as regras de um mundo que estava a começar a construir sobre os despojos de outro mundo que se finara em silêncio, sem um queixume.