09 julho 2011

ENCHAME DE OVELHAS

“Lembras-te de mim?”
Ela olhou-me com olhos transparente, respondeu:
“Não.”
Invoquei dois ou três episódios de momentos que tínhamos passados juntos, momentos de grande cumplicidade e intimidade, como diria a Caras, voltei a perguntar:
“Não te lembras?”
Ela voltou a responder, a mesma tranquilidade no olhar:
“Não.”
Senti-me um tanto descoroçoado, um abatimento tomou-me. Não tinham, sequer, passado três anos sobre a dezena de dias que vivemos sob o mesmo tecto, inseparáveis! Tínhamos partilhado um sem fim de refeições em comum, passeáramos de mãos dadas, observáramos os mesmos pormenores com os mesmos olhos, eu ofertara-lhe uns óculos de sol por que se apaixonara mal os viu, presente que quase provocou um cisma na família dela.
Desisti, fui sentar-me noutro canto da sala, à mesa onde estavam as sobremesas da festa do aniversariante, entre o bolo de bolacha da Teresa, o apple crumble da João e uma taça de vidro repleta de Maltesers.
Não muito depois, ela aproximou-se, no seu vestido de Branca de Neve, um diadema nos cabelos alourados – parecia não ter desistido de mim, apesar de já não saber quem eu era, de onde me conhecia. Nessa noite o avô materno festejava os setenta anos, ela própria festejaria cinco anos dentro de dias, ambos Caranguejos, como fez menção de sublinhar a alguns dos presentes. Calei-me, já sem coragem para mais aproximações, para declarar:
“Sabes que eu também sou Caranguejo?”
Três anos antes, num tórrido Agosto, a mãe dela convidara-me para passar uns dias na casa do Alentejo, tinha trabalho por lá, precisava de alguém para deitar um olho na filha de dois anos durante o dia, pediu-me colaboração, estava desguarnecida em termos de quem lhe ficasse com a Sofia durante a tarde: vigiar-lhe a sesta, mudar-lhe as fraldas, dar de comer, entretê-la... Apesar de ter plena consciência do que significava lidar com uma criança de dois anos, praticamente desconhecida, disse que sim, gostava muito da casa e das pessoas; a mim também me dava jeito afastar-me por uns dias dos locais do costume, tinha entre mãos a revisão técnica do Musicofilia (livro que viria a ser editado uns meses depois pela Relógio d’Água), trabalho que eu pressentia ir dar-me água pela barba. Meti tudo na mala do carro e fui ter com as duas a Mértola.
Os nosso melhores momentos eram no fim do dia quando, depois da sesta dela e da papa de fruta do lanche, nos atrevíamos finalmente a sair de casa e a percorrer as escassas centenas de metros que nos separavam do café Guadiana. A ritmo normal, é um trajecto que poderá demorar os seus dez minutos, mas com a Sofia como par não o conseguíamos cumprir em menos de meia-hora. Pois que ela queria subir a cada murete do caminho, parar para fazer festas a todos os gatos que se acoitavam na sombra das soleiras, pôr-se de cócoras para escrutinar todos os detalhes do empedrado, pedir-me colo para espreitar o rio que passava lá em baixo, carregado de verde glauco e de preguiça em direcção ao Algarve.
“Olha tantas andorinhas!”
Chegados ao Guadiana, esparramados na esplanada, numa mesa encostada à parede para fugir do braseiro das seis da tarde, cumpríamos a nossa rotina de arrefecimento em satisfação e silêncio: ela lamberia filosoficamente um minimilk, eu caçaria caracóis com um palito de dentro da concha, gorgolejaria a minha imperial. Para mim vinha sempre um prato com uma pirâmide de pálidos caracóis e para ela um prato vazio, para aparar as pingas de gelado que, com aquele calor, não tardariam em ensombrar-lhe o vestido e a disposição da mãe que haveria de aparecer por ali. De vez em quando, pousava-lhe o recheio de um caracol sobre a papa de gelado acumulada no pratinho e, deliciada, ela ia engolindo aquilo tudo – a Sofia sempre foi um bom garfo.
Agora, na festa de anos do avô, estava de novo ao meu lado, aproveitando a circunstância de a mãe, sentada à minha direita, estar algo de costas, para, metodicamente, ir pescando bolinhas de Maltesers da taça.
“Gostas de chocolate?”, perguntou-me
“Gosto...”
“De que tipo?”, quis saber
“Oh, de todos... Gosto de Maltesers; de chocolate normal; em tabletes, sem nada ou com avelãs...”
“O meu pai também gosta muito de chocolate...”
“Ai sim? E de quais é que ele gosta mais?”
Olhou-me, numa pausa pensativa e, depois, levantando o tom de voz confessional em que estávamos conversando, perguntou ao pai, que estava sentado no outro lado da sala:
“Daddy, do you like chocolate?”
Do sofá da parede oposta, um tanto surpreendido, Anthony John, um guitarrista de jazz inglês, lançou um “yes” por sobre o ruído envolvente de conversa e música.
“Gosta”, traduziu ela, “também gosta de todos os tipos, e de Maltesers também”,
acrescentou tirando mais uma bolinha da taça. Segui-lhe o exemplo.
“São muito bons”, comentei.
Ela balançou a cabeça, mas parecia ensimesmada a observar a taça, como se estivesse a ler augúrios em borras de café. Depois disse, encantada:
“Olha, uma flor...”
Espreitei para dentro da taça. De facto, por aquelas felizes circunstâncias que o acaso às vezes produz, uma circunferência perfeita de bolinhas de chocolates, centrada por uma outra, destacava-se e produzia o desenho perfeito de uma flor: uma corola de pétalas e um cálice central.
“Olha as pétalas”, apontei, desenhando com o dedo o contorno circular da flor.
“E o pólen...”, disse ela, espetando o dedo para o Malteser que emulava, com exactidão, o centro da flor imaginária.
“Sim”, disse eu, “é ali que as abelhas pousam para sugar o pólen e, depois, irem fazer mel em casa delas”.
“Ovelhas?!”, pareceu surpreendida com a minha ignorância. “As ovelhas não fazem mel!”
“Não, eu disse a-b-e-l-h-a-s,” repeti mais alto por sobre o sururu de conversas que nos envolvia.
“Não te devo ter ouvido bem”, respondeu ela, “deve ser do barulho que está hoje nesta casa. Achei que lhes tinhas chamado ovelhas!”
“É por serem os anos do teu avô, está muita gente...”

Abanou a tiara em concordância e, escolhendo um Malteser que não desfizesse a harmonia floral, afastou-se noutra direcção. 

© Fotografias de Pedro Serrano, de cima para baixo: Lisboa, 2011; (2) e (3), Mértola 2008.