02 julho 2011

Da imobilidade circundante


Kathmandu, Nepal. Da esquerda para a direita: Marie Jo, Pedro Serrano, e R.
Nos primeiros dias de Agosto do ano de 1976 concluí a minha licenciatura em Medicina. Metade de um Verão e todo o Outono se estendiam diante de mim como um deserto de possibilidades, antes de iniciar, em Janeiro seguinte, a minha vida profissional como médico e, então, para sempre, adeus ó férias grandes!
Com a consciência de que seria um espaço de tempo irrepetível, eu e um amigo decidimos dar corpo a um velho sonho: fazer uma viagem, por terra, até à Índia. Este tipo de peregrinação estava então muito em voga, de tal maneira que tinha designação internacional – overland to India – e se conseguiam, na imprensa underground, guias dedicados ao assunto. A moda tivera início no final dos anos 50 com os discípulos menos excitados da beat generation, a que se seguiram, com grande responsabilidade dos Beatles no êxodo, as manadas ambulantes de hippies e freaks da segunda metade dos anos 60. Bem, nós éramos ambos portugueses e, como tal, entrámos na rota algo retardados.
A nossa finalidade era chegar à Índia por terra, usando todos os tipos de transporte à mão (camionetes de carreira, comboios, boleias e outros tipos de transportes locais) e a novidade causou grande impacto na tranquilidade das respectivas famílias. Em Setembro, batemos com a porta de casa e partimos entre as lágrimas e os suspiros de quem ficava. Demorámos um mês a chegar e por lá andámos cerca de três meses. A nossa juventude (eu acabara de fazer 23 anos) e ímpeto eram tal que nem a Índia nos deteve e, ao dar-nos conta, perambulávamos pelas ruas e vielas de Kathmandu, cidade dos 1.000 templos e capital do Nepal.
Tudo isto me veio à mente hoje de manhã, ao entrar no quarto-de-banho e dar com uma osga colada ao tecto. Osgas são animais da minha simpatia, estou familiarizado com elas pelas minhas estadias no Alentejo e Algarve, e esta tinha a dimensão aproximada de uma palma de mão e aquela cor meio ambígua do costume, entre o amarelo-areia e o cinzento-polvo-camuflado. Depois, ao contrário dos lagartos e das lagartixas, as osgas não têm olhos frios de réptil, antes tem o olhar quente e simpático mais comum aos mamíferos; para além de não se agarrarem às coisas com aceradas garras, mas sim com umas ventosinhas muito copiadas por todos os gadgets usados para colar tralha na porta dos frigoríficos.
Nas associações da minha memória, agarrada à imagem da osga como uma ventosa, emergiram os lagartos que eram presença obrigatória em todos os lamentáveis dormitórios e quartos-de-banho do Oriente que atravessámos, do Médio ao Extremo. Esses não tinham a modesta dimensão de uma palma de mão, eram mais do tamanho de um braço; grossos e pardos, e a gente interrogava-se o que poderiam bicharocos daquela dimensão ambicionar num quarto de dormir, pois não se imaginava que atingissem aquela pujança com uma dieta de mosquitos! Eram muito perturbadores na Turquia, ainda me metiam alguma impressão no Irão, mas na Índia e no Nepal já estava, por não ter alternativa nem cartão de crédito gold, mais do que habituado a ter um pendurado sobre a minha cabeça enquanto, deitado no catre sem colchão, lia, à luz ictérica de uma lâmpada, as obras de Herman Hess, requisitadas na biblioteca do Goethe Institute de Kathmandu.
Mas, apesar da pacífica coabitação, há uma noite em Kandahar, cidade do Afeganistão que, 25 anos mais tarde, se tornaria famosa por ser poiso de Bin Laden, que me deixou uma gelada recordação desses lagartos. Eu e o meu amigo R. partilhávamos um quarto miserável numa espelunca e, antes de nos deitarmos, num gesto clássico, espalháramos sobre as enxergas de palha uma generosa porção de pó de DDT que nos garantiria uma noite relativamente arredada dos milhares de percevejos que, escondidos em todas as frestas da cama e interstícios do colchão, esperavam que adormecêssemos para nos sugar o sangue.
Deitado naquele quarto desconhecido, sentindo o cheiro do DDT penetrar-me as narinas, aguardava a descida do sono quando um violento espasmo me assaltou as entranhas.
“Porra”, pensei, “mais uma toxi-infecção alimentar a caminho!”, o pão nosso de cada dia desde que tínhamos ultrapassado a relativa segurança alimentar da civilizada Istambul.
Concentrei-me em mim próprio e tentei respirar devagar, numa tentativa ingénua de caminhar sobre a maré...
Minutos depois, de lanterna na mão, estava a sair pelo quarto-fora, a correr em direcção ao esquálido quarto-de-banho comum que, atravessado um pátio, havia nas traseiras do nosso quarto. Essas instalações sanitárias, sem luz eléctrica, consistiam de uma torneira na parede, com uma lata a servir de lavatório, e de um buraco no chão, enquadrado por uma tampa em metal esmaltado onde, de cada lado do buraco, estavam impressas, em alto-relevo, umas linhas paralelas que eram os locais onde, antes de nos agacharmos, deveríamos colocar os pés para que o orifício remetente e o buraco destinatário ficassem convenientemente alinhados.
Depois de espremido, algum alívio se espalhou pelo meu ventre aflito e apenas um leve enjoo embriagava a minha tranquilidade. Mas, conhecedor da realidade de que “não há duas sem três”, deixei-me estar por ali, de cócoras, antes de decidir levantar-me e regressar ao quarto que, se as cólicas regressassem, não era assim tão perto da latrina-à-turca. Enquanto esperava, ergui a cabeça da minha atenção anterior e comecei a passear a luz da lanterna pelo espaço em volta. Acachapados, com o longínquo olhar algo incomodado pelo foco de luz que os arrancara às trevas, uma quase dezena de anafados bichos lagarteavam pelas paredes caiadas, olhando-me, de cima para baixo, na sua imperscrutável imobilidade.
Apaguei a lanterna e mantive-me agachado, poupando pilhas e irmanando-me na imobilidade circundante. 

© Fotografias, de cima para baixo: (1) Luc Laurent, Nepal, Novembro de 1976; (2) e (3) Pedro Serrano, Praia Areia Branca, 2011.