18 julho 2019

DOMINGOS À TARDE

Há vezes, por vezes... Não:
Às vezes, ponho-me a achar
     Que, no seu dia a dia por Lisboa
Fernando Pessoa, o poeta 
Deveria ter sido parecido
Ao meu tio Domingos, 
O meu tio-avô Domingos,
Tio por afinidade.
O meu tio Domingos, casado
Com a minha tia Fernanda,
Tia-avó Fernanda, irmã do
Meu avô ou seria da minha avó?
Por quem a minha tia chamava, sempre
A dobrar: "Ó Domingos, ó Domingos"
Às vezes... Não:
Por vezes, apetecia uma coisa doce
Ao tio Domingos e como somente sabia
Lidar com a papelada quadriculada
Da Caixa-Geral de Depósitos, em cujo quadro contabilizava,
O meu tio pedia por esse mimo à mulher, dona de casa.
E ela, que era um pouco frívola e péssima cozinheira
Aconselhava que tomasse uma colher de xarope da tosse,
Não muito, apenas uma, de chá, que não esquecesse
A obstipação e o irrigador esmaltado atrás da porta.
E ele, o meu tio-avô por afinidade, 
Tomava uma, a prescrita, e engolia outra à pressa,
A proscrita, antes que a minha tia levantasse os olhos
Do tricot que entretecia, espreitando ao canto da cortina
Quem passava, de regresso ou a caminho da Arca d'Água.
Viviam sós, os dois, numa casa silenciosa que deitava para a rua
Embora nas traseiras, do tabuado escarolado da varanda corrida 
E das telhas de xisto preto em forma de quinas que a revestiam
Descesse uma escada de pedra para um quintal murado, com 
Canteiros de parede, flores de uma só face e uma ameixoeira ao centro.
Mas ninguém apanhava os frutos: às que pendiam na árvore
Quem poderia chegar? E, às caídas no chão, seria demasiado arriscado
Tocar, ousar, sequer, pensar em consumir... Ameixas ao sol!
Dizia a minha tia-avó Fernanda, peremptória como um banqueiro
Enquanto, sentado à borda da sua poltrona como uma visita
O tio Domingos juntava em prece as mãos brancas e nodosas
E percutia levemente as polpas dos dedos uns nos outros, sem ruído
Como que a desenferrujar as impressões digitais e
Projectava os beiços além da linha de água do rosto, sonhando
Talvez com a papa encarniçada e doce de ameixas ao sol
Ou, prático como um caixa-geral, com o frasco de xarope
No armário do quarto de banho, aquele cuja porta rangia
Cada vez que se lhe mexia, sendo aconselhável tossir em uníssono ao abri-la
Para, em sendo caçado, não lhe fosse sarrazinada a colherada extra. 



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