22 julho 2019

INSTANTÂNEO

Maria Fernanda, 1936.
uns quarenta anos, Mártires da Liberdade era uma rua estreita, soturna e enxovalhada, onde os transeuntes se cosiam às paredes para deixar passar os eléctricos que, oscilando como pudins, trepavam do Carmo à Praça da República. Vida própria, comércio? Para além da solitária farmácia ou da sonolenta drogaria, lojas era coisa que não abundava e ninguém fazia o esforço de ir a Mártires da Liberdade comprar fosse o que fosse que fosse especial ali.
Pois agora a rua, que continua estreita e parca de sol, está pejada de lojas de velharias, conta-se uma porta sim, porta não. Como começou o fenómeno e se deu o alastramento é um completo mistério para mim.
Atraído pela quinquilharia da montra entrei num desses estabelecimentos e, quase ao fundo, transbordando de um enorme caixote dei com uma enchente de velhas fotografias, uma maré a preto e branco com ondas de bordos serrilhados. Meti as mãos nelas e, às punhadas, fui debicando as imagens, as marcas de água do fotógrafo, as legendas e dedicatórias do verso: vinham de todo o lado, do Porto, de Coimbra, de Lisboa, e representavam baptizados, casamentos, carnavais, homenagens, cenas balneares, festas de fim de semana em família, e vários retratos individuais, em tamanhos diversos, pontuavam, como espuma, os ajuntamentos. 
Enquanto remexia o lote, como quem procura umas cuecas jeitosas num sortido em saldo, fui-me dando conta de não haver prova mais gritante da transitoriedade humana e do esquecimento que lhe vem agrafado, do que um monte avulso de fotografias à venda, distante dos dias falantes em que toda aquela gente teve significado para alguém ou para si mesma. Onde estaria o "meu querido paizinho" a quem Maria Fernanda, "a filha muito amiga" dedicava aquele retrato no dia de Santo António de 1936? No céu, no purgatório, sublimado em poeira cósmica, em lado algum? E a própria Maria Fernanda, de sorriso tão meigo e a cara lisa de esperança, onde está ela oitenta e três anos mais tarde? Prefiro não pensar nisso, eu que nem sequer sei porque resolvi comprar a fotografia e ma deixaram trazer. Uma coisa é certa, pelo preço não compraria um melhor par de cuecas e a sensação de pechincha conforta a mágoa de saber que a Fernandinha já não chamará na casa que a viu crescer, onde nem mesmo as fotografias antigas restaram nas gavetas.   
© Foto Artística, 1936, rua do Coronel Pacheco, Porto.

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